Li recentemente o artigo do
dominicano Thomas O’Meara, professor emérito de teologia na renomada
Universidade de Notre Dame, nos EUA. Na sua reflexão intitulada “Qual a mensagem do desfile de moda barroca na Igreja?”
o filho de São Domingos parece incidir em concepções obtusas e
precipitadas tanto a respeito do papel dos símbolos na expressão da fé,
como também naquilo que toca a função fenomenológica dos sinais
objetivos que manifestam essa relação do homem com Deus.
É
necessário, contudo, destacar alguns pontos. Não se pode negar que
muita da atual ênfase dada aos paramentos e ao ars celebrandi é reflexo
natural e proporcional ao modo odioso com o qual a liturgia foi
combatida desde a década de 70. A errônea compreensão da reforma
litúrgica fez com que saíssemos do fausto para um pobre simplismo que
não dignificava o que era celebrado. Destarte, muitos católicos atuais,
em grande parte jovens, descobriram um mundo desconhecido de beleza e
profundidade, de Missas celebradas com ardor e ricas em expressões
simbólicas. Vale destacar, outrossim, que nesse mesma ala se incluem
aqueles interesseiros que, de modo mesquinho, enxergam nos panos
litúrgicos um refúgio para as suas dificuldades sexuais e psicológicas e
um trampolim para a autoglorificação. Sobre estes casos não são
necessários muitos detalhes, já que nos deparamos com tristes exemplos
diariamente.
O
artigo de O’Meara parece, em certos aspectos, acertar quando critica o
modo banal de como a beleza litúrgica se transformou em suntuosidade
horizontal, desprovida de significado. Entretanto, diferentemente do
dominicano, não vejo como causa apenas a descontextualização dos
paramentos, como se estes necessitassem de um aporte concreto no mundo
atual para que fossem "compreensíveis" aos homens. Ao contrário, uma das
facetas recorrentes em todas as religiões é o caráter sagrado e
universal de alguns utensílios e vestes. Ainda que estes objetos tenham
tido uma origem ordinária na comunidade de crentes, foi se diferenciando
ao ser tocado pelo sagrado. Com o decorrer dos tempos, de modo natural,
estes mesmos objetos, agora sacralizados, foram sumindo no uso
cotidiano e se tornando de uso particular dos momentos de culto e
adoração. Nesse sentido, partindo deste método fenomenológico, um
paramento não se diferencia em nada de uma bacia de cobre usada em ritos
tradicionais africanos ou na turbah, um pedaço de terra ou barro, usado
pelos xiitas nas suas orações.
Negar,
portanto, a singularidade dos paramentos recorrendo ao argumento
histórico é totalmente absurdo. Ainda que hoje o homem moderno sequer
saiba qual seja a origem de uma casula ou até mesmo de uma batina, o
fato é que compreende a força simbólica sacral que trazem consigo.
O’Meara, ao incidir no historicismo, corre o risco de contextualizar os
próprios dogmas, sendo estes expressões objetivas da verdade. Em tal
processo cairia em heresia crassa negando a universalidade do conteúdo
da fé. O anacronismo que ele usa como regra para criticar os paramentos é
fruto de uma concepção ideológica, isto é, daquela “ditadura da
novidade” na qual o novo sempre se impõe diante do antigo, do
tradicional, do já experimentado. A grande dificuldade de tal cosmologia
é que se choca com a dinâmica mesma do cristianismo: uma fé que se
identifica com a conservação de uma mensagem de 2000 anos.
Fica
claro, ademais, que a crítica aos paramentos e aos hábitos
eclesiásticos se forma no modo horizontal com que concebe a experiência
da fé. Considerar os panos e as alfaias os grandes responsáveis pela má
comunicação da mensagem evangélica é tão exagerado como considerar que
as rendas e os brocados poderão acabar com a crise da religião. Nesse
sentido tanto os devotos como os inimigos das casulas e mitras se unem
numa pobre concepção a respeito do cristianismo. Ambos reduzindo a
atualidade da Revelação aos aspectos externos. Destarte, é importante
pontuar que em certo sentido o autor capta devidamente o espírito banal e
vazio que tomou conta do senso litúrgico atual. Desta corrupção surge o
devotamento pelos paramentos romanos, em detrimento do estilo gótico, a
busca pelo suntuoso apenas pelo seu esplendor estético, a tentativa de
transformar a celebração numa encenação de um passado – ideologicamente -
almejado. Obviamente existem paramentos que são mais adequados ao gosto
do tempo. Foi justamente dessa experiência que surgiram os diversos
estilos que enriquecem esteticamente a Igreja. Há, contudo, uma sombra
ideológica pairando sobre o movimento litúrgico atual que se forma na
simplória leitura da crise da liturgia.
Esse
período de dificuldades no “lex orandi” – que afetara o “lex credendi” –
não será resolvido magicamente com o uso de casulas romanas e capas
magnas. Ainda mais quando fora da liturgia aqueles que se paramentam
dignamente se portam escandalosamente. É claro que os paramentos têm um
papel relevante, mas o que tantos teólogos destacam – e sim, este é um
problema teológico e não meramente rubricista – é algo anterior a esta
discussão se a estola é “pata-de-leão” ou “inculturada” ou se o bispo
usa mitra moderna ou gótica. O verdadeiro e bom movimento litúrgico se
preocupa com a renovação espiritual da mística própria da celebração. A
partir daí é possível, em seguida, desenvolver todo um esforço
apostólico pelo acertado uso das vestes sagradas.
Vale
destacar, portanto, que os paramentos, as batinas e os hábitos, quando
usados e compreendidos de modo profundo, não são meros suportes visuais,
mas sim externalizações de realidades espirituais e invisíveis aos
olhos humanos. Ainda que haja aqueles adeptos da futilidade litúrgica,
nada disso invalida a relevância do apostolado litúrgico como ponto
nevrálgico da correta catequese. Justamente por isso pode-se dizer que a
reflexão do O’Meara, ainda que comece com uma crítica aos paramentos,
tem sua origem em pressupostos heréticos que relativizam a
universalidade da verdade anunciada e vivida pelo cristianismo.