sábado, 4 de maio de 2013

A Vida Escondida e o Islã: Charles Lavigerie, Charles de Foucauld e Louis Massignon


O islã é hoje um dos assuntos mais recorrentes nos meios de comunicação. Ademais, desde o séc. XIX a Igreja vem procurado compreender e estudar mais profundamente a história, a tradição e a teologia islâmicas. Nesse processo de conhecimento se destacam três homens de coração evangélico e apaixonados por Cristo: Charles Lavigerie (1825-1892), Charles de Foucauld (1858-1916) e Louis Massignon (1883-1962). O primeiro foi o missionário, o segundo o asceta e o terceiro o teórico. Os três, porém, interessados no islamismo como objeto de estudo e, ao mesmo tempo, como sadia provocação para o incremento da vida espiritual. Os seus exemplos carismáticos até hoje arrebatam e conquistam muitos fiéis que procuram testemunhar o Evangelho através de uma vida de abnegação e caridade total.

A relação do cristianismo com o islamismo foi, durante muito tempo, marcada pelo conflito intenso. O processo de expansão da fé muçulmana, atingindo áreas já totalmente cristãs, gerou um primeiro choque de civilizações. Nessa dinâmica, mediante um lento processo de arabização, os católicos, enquanto dhimmis, ou seja, súditos não-muçulmanos dentro de um estado governado pela shariah, passaram a coexistir, ainda que de modo muito controlado, com os seus dominadores. Em contrapartida, os cristãos, em muitas das fronteiras da cristandade, sofreram com as ameaças da invasão “maometana”. Se, numa extremidade, os muçulmanos conseguiram se instalar na península ibérica, dominando-a por séculos, no outro lado do continente jamais conseguiram ultrapassar os limites tão almejados de Viena.  

Ao longo desses embates históricos, aos quais não cabe um juízo que não leve em consideração o contexto próprio, destacam-se o modo como a teologia católica desenvolveu um pensamento a respeito da fé islâmica. São João Damasceno (675-753) se sobressai nesse aspecto por ter sido uma testemunha da experiência muçulmana. Ele nasceu e se criou dentro do território abarcado pelo domínio islâmico. Por volta de 630 a região da Síria caíra diante do expansionismo da Crescente e se tornara o grande centro político do califado. Muawiyah I (602-680) sucedeu a Ali ibn Abu Talib (600-661), genro e primo de Maomé (570-632) e o último dos Califas Rashidun, fundando, assim, a dinastia omíada. Este não se sentiu constrangido em manter muitos cristãos em proeminentes posições em seu governo na Síria. Até mesmo famílias que outrora serviam ao Império Bizantino galgaram prestígio diante do novo soberano. Ademais, existem indícios de que o pai de São João Damasceno, Sarjun, servira como conselheiro de Muawiyah.

Para este Doutor da Igreja o islamismo seria nada mais do que uma perversão ariana. Maomé, em suas andanças comerciais pela península arábica e proximidades, teria supostamente encontrado um monge ariano. Através daquilo que colhera dessa doutrina herética formara a sua própria concepção religiosa. Diz São João em “Sobre a Heresia”:

“Então levantou-se entre eles um falso profeta, chamado Maomé, que havendo encontrado os livros dos Antigo e Novo Testamentos, e tido contato com um monge ariano, formulou uma heresia nova. Conseguido o favor de seu povo por uma aparência de piedade, difundiu o rumor que os escritos lhe vinham do céu e deu a eles como um objeto de veneração.”

São João Damasceno, vivendo sob a lei do islã, conhecia consideravelmente o islamismo e o Corão. Ao conceber, portanto, a fé islâmica como “a heresia dos ismaelitas” ele afirma a sua origem como perversão do corpo doutrinário cristão e retoma a profecia e a tradição bíblica a respeito dos povos oriundos do ramo abraâmico.  

Edward Gibbon (1737-1794), em “Declínio e Queda do Império Romano”, ainda destaca que a região do Hijaz não estava imune à influência cristã. O reino do Iêmen, próximo de Meca, estava submetido ao reino cristão de Axum. Abraha (553), que havia se tornado Rei de Sabá (Iêmen), era vassalo dos soberanos etíopes e, como tal, professava a fé cristã. Entretanto, se tornou célebre por marchar e assediar a “cidade santa” com uma tropa de elefantes e com um exército de africanos. Tinha como intenção destruir a Caaba e obrigar os árabes a peregrinarem para a Igreja Al-Qullays, que havia construído em Sana. Esse evento deu origem ao chamado “Ano do Elefante” e diz o historiador inglês: 

Maomé, filho único de Abdala e Amina, nasceu em Meca quatro anos após a morte de Justiniano e dois meses passados da derrota dos abíssinios, cuja vitória teria introduzido na Caaba a religião dos cristãos.

O Doutor Angélico (1225-1274) também trata do islamismo em suas obras, especialmente na Summa contra gentiles” e no seu pequeno tratado “De rationibus fidei contra Saracenos, Graecos et Armenos ad Cantorem Antiochenum”, ambos escritos em 1264. Santo Tomas responde às objeções apresentadas pelos descrentes e procura defender o cristianismo diante das falácias dos infiéis. O Aquinate, entretanto, parece não partir da idéia, como pensada por São João Damasceno, de que o islamismo fosse uma heresia. Para ele os muçulmanos são inféis, não-crentes. A partir dos seus escritos, como indica Mons. Michael Fitzgerald, é possível considerar uma posição que classificaria o islã como uma religião natural, isto é, o reconhecimento daqueles atributos óbvios e inerentes à natureza humana, como o a lei moral, a crença no Ser Supremo, a esperança na imortalidade etc. Sobre esta base se constrói a superestrutura da Revelação. 

O islamismo se enxerga como a plenitude da Revelação. Destarte, o modo como os muçulmanos concebem o desvelar-se de Deus e a ação profética no anúncio da Sua mensagem são similares àquilo que é crido por judeus e cristãos. Assim, o islamismo, seja uma heresia ou uma falsa religião, entraria no rol das crenças abraâmicas. Descendentes de Ismael, os árabes formaram uma nação na qual, de certo modo, se realizou o juramento feito por Deus ao seu servo Abraão.

Entretanto, muito além dessas discussões teológicas, se encontra o modo concreto de relacionamento dos cristãos com os muçulmanos. Com o despertar da nova leva de missões na África a Igreja se viu diante de um desafio peculiar. Nos países do norte africano, de maioria muçulmana, o apostolado era muito restrito aos estrangeiros que lá estavam instalados. No máximo, as autoridades européias permitiam um trabalho de propagação do Evangelho, mas que quase sempre era infrutífero. O trato com o islamismo era mais complexo não apenas por conta da dureza da shariah, mas também porque, diferentemente das religiões africanas tradicionais, o islã oferecia uma doutrina mais encorpada e práticas rituais muito mais refinadas. Desse modo, a realidade missionária se mostrava necessitada de uma reformulação que fizesse possível o anúncio e o testemunho do Evangelho.

Surgem, pois, três figuras que modificam profundamente esse processo de relacionamento entre a Igreja e o islamismo: Charles Lavigerie, Charles de Foucauld e Louis Massignon. É sabido que Charles de Foucauld e Louis Massignon se conheceram e que o Irmãozinho de Jesus tinha muita proximidade com os Padres Brancos fundados pelo Cardeal. Provavelmente todos sentiam que faziam parte de um mesmo processo de aprofundamento no testemunho da caridade como o grande distintivo do cristão.

O Cardeal Lavigerie certamente foi o pioneiro nessa mentalidade. Em seus escritos, Lavigerie se questionava a respeito dos obstáculos que impediam os muçulmanos na acolhida plena da Revelação Divina em Cristo e como os seus missionários poderiam atingir os povos árabes usando dos atributos da sua própria cultura.  Como resposta dessas suas reflexões o Arcebispo de Argel formulou um modus operandi que se tornou no fundamento das relações dos Padres Brancos com os muçulmanos. O Cardeal, primeiramente, queria evitar todo o tipo de proselitismo agressivo nas regiões de maioria islâmica. Ademais, percebera que a melhor forma de conquistar os corações era através de um radical testemunho de caridade, mediante a prestação de serviços de natureza social. O exemplo do cristão desinteressado e apenas amante do próximo era uma experiência nova para o fiel de uma crença altamente legalista. Lavigerie ainda destacava a importância da inculturação por meio da adoção de costumes e hábitos locais. 

Charles de Foucauld, por sua vez, representa de modo mais destacado a espiritualidade que norteia esse relacionamento islâmico-cristão. Foucauld, nascido e criado numa vida de conforto e prazer, chegou a ser afastado do exército por mau comportamento. Depois de levantada a sua punição, juntou-se ao seu regimento quando este se destinava para o Norte da África. Esta estadia na África mudou sua vida. As difíceis condições que experimentou no deserto purificaram seu coração e mente. A afinidade que sentia com os fiéis muçulmanos da região também o levou a uma reflexão interior. Como resultado dessas experiências, ele sentiu uma inquietação religiosa profunda e um conflito espiritual no seu íntimo. Finalmente, redescobriu sua fé cristã e decidiu dedicar toda a sua vida a Cristo. Depois de uma série de experiências diversas na busca pelo sua realização vocacional, Charles de Foucauld, depois de ordenado em 1901, volta para o norte da África e se estabelece definitivamente no Saara. 

O Irmãozinho de Jesus descobriu que vivendo segundo o modelo do Jesus de Nazaré em Sua vida escondida, poderia suprir a necessidade espiritual dos povos berberes do deserto. Foucauld, na fraternidade espiritual, se propôs a proclamar o Evangelho com o testemunho de uma vida consagrada. Ainda que não tenha gerado grandes conversões ou iniciado apostolados fantásticos, o eremita, na solidão da experiência em Cristo, amara os muçulmanos a partir da experiência da abnegação. Em seus muitos escritos espirituais Charles de Foucauld descreve o caráter e o propósito de sua experiência no deserto, vivendo entre uma maioria não-cristã: 

“Minha evangelização deve ser a evangelização da bondade. Vendo-me, eles devem dizer: ‘uma vez que este homem é tão bom, sua religião deve ser muito boa’. Se eles perguntam por que eu sou sensível e bom, devo dizer: ‘Porque eu sou o servo de alguém muito melhor do que eu. Se você soubesse o quão bom é o meu Mestre Jesus!’ Gostaria de ser bom para que se pudesse dizer: Se assim é o servo como será o Mestre?’

Um dos responsáveis pela perpetuação do legado de Charles de Foucauld foi Louis Massignon. Através dos seus esforços a regra deixada pelo eremita foi finalmente aprovada pela Igreja. Este renomado islamista, numa vida dedicada ao estudo do islamismo e da língua árabe, se converteu depois de uma forte experiência.  Entretanto, o seu encontro com Cristo foi reflexo, curiosamente, daquilo que aprendera no estudo da fé islâmica, dos seus santos e místicos. Após a sua conversão, Louis Massignon definiu alguns propósitos em sua vida espiritual. O modo particular como batizara aspectos da espiritualidade do islã levou Pio XI (1857-1939) a chamá-lo de “católico muçulmano”. Ademais, o Santo Padre deu a sua aprovação ao propósito de oração pelos muçulmanos e Pio XII permitiu que já com idade avançada fosse ordenado sacerdote na Igreja Melquita.

A espiritualidade de Louis Massignon se centrava em dois aspectos: a hospitalidade sagrada e a badaliya, isto é, a substituição mística. Ambas as noções foram tiradas do islamismo e devidamente cristianizadas. O primeiro aspecto impelia Massignon na aceitação da pessoa tal como era, servindo-a sem desejar que fosse diferente. Já o conceito da substituição ele encontrara pela primeira vez na biografia de Liduína de Schiedam, santa holandesa que oferecera sua vida de enfermidade pela salvação dos outros. Massignon queria substituir a sua vida pela vida dos muçulmanos, "dando a Jesus Cristo, no nome de seus irmãos, a fé, a adoração e o amor que um conhecimento imperfeito do Evangelho os impedem de dar”. 

Massignon, sendo um dos mais renomados islamólogos de sua época, desenvolvera um pensamento próprio sobre a temática. Para ele a revelação ocorria em três etapas; a primeira é a revelação dos patriarcas, na qual a religião natural foi revelada. Esta é seguida pela revelação da Lei de Moisés. Por fim a plenitude em Cristo e na revelação do Amor. Para ele, porém, o islamismo é o retorno à religião natural patriarcal onde a relação com Deus se dá, exclusivamente, na aceitação das Suas qualidades e no cumprimento de Suas leis, não havendo, pois, a busca da união com Ele através dessas leis. Para Massignon esse modelo ainda explicaria as diferenças em aspectos morais entre o islamismo e o judaísmo/cristianismo. Este “retrocesso” representaria também o retorno aos padrões morais e sociais da época. O que explicaria a permissão da poligamia e o alto caráter bélico da fé islâmica.  

O modo como Charles Lavigerie, Charles de Foucauld e Louis Massignon olhavam para o islamismo é idêntico. Os três entendem a fé muçulmana como uma religião simples, não no sentido de que estava desprovida de complexidade teológica, mas que significava um retorno a uma concepção de relacionamento com Deus anterior àquilo que se tornou pleno em Cristo. Entretanto, isso não fazia com que fitassem o islamismo com desdém. Ao contrário, para Massignon, inclusive, o islã se mostrava como uma provocação aos cristãos em busca de uma vida mais humilde. 

Tais homens, portanto, estavam impregnados de um carisma próprio, ou seja, tomados por um modo singular de relacionamento com o islamismo. O fato de testemunharem Cristo principalmente pela vida de caridade não significava que se opusessem às conversões. Dois deles, inclusive, são convertidos que descobriram a fé contemplando o ardor do islã. Por que, então, não se fizeram muçulmanos? Porque estavam cônscios do mistério redentor e pleno de Jesus Cristo. Entretanto, receberam de Deus uma missão para que fossem luzes evangélicas brilhando em terras islâmicas.

domingo, 21 de abril de 2013

A morte e a vida em Pe. Antonio Vieira e T.S. Eliot



Pedro Ravazzano

O grande pregador da língua portuguesa, Pe. Antonio Vieira (1608 – 1697), e o renomado poeta da língua inglesa, T.S. Eliot (1888 – 1965), estão separados por séculos de distância. Contudo, eles têm certas semelhanças em suas biografias: os dois, por exemplo, tornaram-se célebres no além mar. Vieira, sendo português, fez-se soteropolitano e Eliot, americano, abraçou o espírito inglês. Entretanto, ainda sendo um sacerdote jesuíta e um converso anglicano, ambos, fazendo uso da erudição das palavras, produziram uma literatura sedenta de eternidade. T.S. Eliot, com os poemas “Quarta-Feira de Cinzas” e “Quatro Quartetos”, se aproxima da experiência de Pe. Antonio Vieira no seu “Sermão de Quarta-Feira de Cinza” pregado em Roma, na Igreja de Santo António dos Portugueses, em 15 de fevereiro de 1673. O que leva, portanto, homens distantes pelo tempo, pela cultura e, até mesmo, pela religião, a terem uma visão do real tão convergente? 

Na obra de T.S. Eliot temas como morte, vida, tempo e eternidade se repetem em uma dinâmica constante. Como já havia afirmado Russell Kirk, “Prufock”, “Gerontio”, “The Waste Land” e “The Hollow Men” são representações do inferno. “Ash Wednesday”, por sua vez, leva ao purgatório, e “Four Quartets” indica o caminho para o momento além do tempo. Outras peças como “Murder in the Cathedral”, “The Cocktail Party” abordam essa tensão entre pecado e consciência, a busca do próprio eu pela salvação e união com Deus. Destarte, na obra elioteana, assim como no sermão vieirense, a morte é abertura. O caso onde isso fica mais patente talvez seja na peça onde se narra a história de Santo Tomás Becket: a sua morte gera vida, o seu sangue é fecundo. 

“Nós te damos graças pelos Teus dons de sangue, por Tua redenção pelo sangue, porque o sangue de Teus mártires e santos/Fertilizará a terra, criará lugares sagrados”.

Em Eliot, portanto, o âmbito limitado da experiência privada nos impele a sair de nós mesmos, até dos nossos momentos mais intensos e intemporais, para o mundo dos outros e do Outro, como também dos eventos passados. Nenhum indivíduo pode ser autossuficiente, já que a vida de uma alma não consiste na contemplação de um mundo consistente, mas na dolorosa tarefa de unificar. Vale destacar, ademais, que com a sua poesia Eliot nos ensina a despojar do mundo, enquanto a sua prosa indica a necessidade de salvá-lo através de um contato renovado com os padrões que tornam a Civilização fecunda. Pode-se dizer, portanto, que a batalha de idéias aparentemente contraditórias indica que estamos falando de uma batalha entre a experiência subjetiva e a necessidade de uma manifestação da realidade.

“Quarta-Feira de Cinzas” mostra-nos, assim, a dificuldade do protagonista em tratar a experiência religiosa pessoal como auto-subsistente. Enquanto o mundo decaído e deserto de “The Waste Land” tornou-se, em “Ash-Wednesday”, uma parte da viagem para o Absoluto, o clímax do poema é repleto de ambigüidade e incerteza.

“A irmã silenciosa em véus brancos e azuis
Por entre os teixos, atrás do deus do jardim,
Cuja flauta emudeceu, inclina a fronte e persigna-se
Mas sem dizer palavra alguma”

No momento em que chegamos à última parte do poema, a experiência pessoal do poeta da verdade transcendente parece inadequada e prestes a deslizar para fora do seu alcance, até chamando-o de volta ao mundo do tempo, o mundo que ele havia tentado, em primeiro lugar, negar e deixar para trás. Assim, em “Quarta-Feira de Cinzas”, a experiência pessoal da morte mística é colocada como uma das primeiras armas que devem ser empregadas na derrota do reino da vida, com toda a sua estéril verdade. Entretanto, apenas em “Quatro Quartetos” consegue T.S. Eliot atingir o cume da sua caminhada. 

Por ser o poema de um neoconvertido, “Quarta-Feira de Cinzas” carrega toda a tensão própria do contato primeiro com o Absoluto. T.S. Eliot, por isso, abraça uma via negativa, isto é, a negação para a conquista. 

“Porque não mais espero retornar
Porque não espero
Porque não espero retornar
(...)
Ensinai-nos o desvelo e o menosprezo
Ensinai-nos a estar postos em sossego.
Rogai por nós pecadores agora e na hora de nossa morte
Rogai por nós agora e na hora de nossa morte.”

O poeta é deixado, finalmente, "no crepúsculo encruzilhado de sonhos Entre o nascimento e a Morte", ou seja, a esfera temporal, a zona de penumbra do tempo onde não há compreensão abrangente de nada. Este é "o lugar de solidão". A última linha do poema , “And let my cry come unto Thee”, no original, é a versão inglesa do trecho latino – “Et clamor meus ad te veniat”  - da Santa Missa,  em resposta ao “Domine exaudi orationem meam” (“Senhor, ouvi meus rogos”) . Torna-se, portanto, o grito de um sujeito que descobre a finitude da experiência pessoal em face do poder do tempo. Eliot, preso no aqui e agora existencial, não é nem capaz de se conectar com a verdade transcendente, nem de dar mais sentido à esfera temporal.

A mística, entretanto, fez com que T.S. Eliot caminhasse para outra direção, rumo à plenitude da sua busca. Se, pois, o homem é o centro de tudo para o qual converge a própria criação, o homem não é parte do tempo, ele é incitado a transcendê-lo. Assim, pois, o pecado não existe diante de um Deus que não apenas é amor, mas a onipotência do Amor e que é capaz de transformar até mesmo o mal numa condição de demonstração do Seu amor: “Alle shalle be wele”, dizia Juliana de Norwich, e assim repetirá Eliot em “Four Quartets”. Cleo McNelly Kearns, no artigo “Religion, Literature, and Society in the Work of T.S. Eliot”, afirmou:

“Durante os anos de sua maturidade, o cristianismo tornou-se para Eliot a importante fonte de seu trabalho, permitindo tais brilhantes realizações como “Ash-Wednesday”,” Song of Simeon” e “Journey of the Magi”, e inovações comoMurder in the Cathedral” e “The Family Reunion”. O cristianismo também gerou “Four Quartets”, talvez a maior conquista poética de Eliot, uma experiência sustentada na poesia dialógica e meditativa que é, ao mesmo tempo, o ponto culminante de uma certa tradição ocidental e o potencial ponto de partida para uma nova forma”.

O cristianismo, portanto, com a sua noção de eternidade e santidade, construiu a ponte entre os EUA e Portugal, Inglaterra e Brasil. A fé torna Vieira um Eliot e Eliot um Vieira. Podemos dizer, de forma mais clara, que se Eliot escrevera sobre a epopéia da alma, Vieira, no alto da sua sabedoria de fé e da prática da caridade, pregara na serenidade de uma vida inteiramente consagrada. Ambos, contudo, estão juntos no despontar da eternidade. 

Pe. Antonio Vieira sobressaiu-se como missionário em terra de Santa Cruz. Ainda nascido em Portugal, chegou ao Brasil, em Salvador, muito pequeno. O São Paulo lusitano entra no rol das águias da eloquência cristã, ao lado de Bossuet e Massillon. O Papa Clemente X considerava o seu “testemunho digno de fé” devido ao seu “zelo religioso”, “pureza de vida e costumes”, como também pelos “méritos de suas virtudes” e “conhecimento dos Escritos Sagrados”. Eça de Queirós, grande nome das letras portuguesas, diz dele:

“Depois de ser confidente dos reis e dos papas, de ter conhecido as grandezas do mundo e as do alto saber, morreu com a pobreza e a simplicidade de um místico, na capital da Bahia”.

A experiência da oratória vieirense se abre para a mesma dinâmica arrebatadora da personagem poética elioteana. A negação de si em vida leva à eternidade ou, em linguaguem mais espiritual, à santidade. Obviamente que não falamos de uma via estritamente negativa, mas sim do enamoramento pelo Bem Maior que conduz, de modo natural, ao repúdio sistemático a tudo que disperça. Assim dissera o jesuíta lusitano:

"Sabeis quais são os mortos que morrem? São aqueles que acabaram a vida antes de morrer; aqueles que morreram ao mundo antes que a morte os tire do mundo: Qui prius moriuntur mundo, postea carne. Estes são os mortos que morrem; estes são os que morrem em o Senhor; estes são os que a voz do Céu canoniza por bem-aventurados: Beati mortui"

T.S. Eliot concordaria com tamanha impressão. O poeta estava consciente de que em “Four Quartes”, especialmente em “Little Gidding”, ele atingira o cume daquilo que havia começado trinta anos antes com “The Love Song of J. Alfred Prufock”. Para Eliot o tempo inclui dois aspectos: tempo, ou o temporal, que se move dentro do mundo dos fenômenos, e o intemporal, ou eternidade, que é transcendente e absoluto. Os dois aspectos do tempo existem simultaneamente. O mundo do tempo fenomenal se move horizontalmente num nível baixo, no espaço. O mundo do tempo da eternidade, noumenal, é sempre presente num alto nível, possível ao homem em momentos transcendentes. O sujeito, destarte, vive no tempo se esforçando teleologicamente para a compreensão do seu fim, buscando alcançar a harmonia e a intersecção entre o tempo e a eternidade. Nessa luta dialética se encontra a transcendência da personalidade de caráter espiritual. A morte, portanto, é o começo da vida e o fim do sofrimento, mas essa compreensão só existe na medida em que o homem, na realidade, volta-se para Deus e reconhece a sua vocação mais íntima:

“O que chamamos o começo é muitas vezes o fim
E fazer um fim é fazer um começo.
O fim é de onde nós partimos.”
E diz Vieira:

"O instante da morte não é como os instantes da vida. Os instantes da vida, ainda que não têm partes, unem-se com partes; porque unem a parte do tempo passado com a parte do futuro. O instante da morte é um instante que se desata do tempo que foi, e não se ata com o tempo que há-de ser, porque já não há-de haver tempo."

O “acabar a vida antes que a vida se acabe” de Pe. Antonio Vieira é como o fim que se torna começo de T.S Eliot em “Four Quartets”. Eles não estão aqui fazendo apologia ao suicídio ou à negação da carne, mas, outrossim, exaltando a existência voltada para o Bem, este “caminho do despojamento” dito por Eliot em explícita alusão ao seu estimado São João da Cruz., onde o que “possuis é o que não possuis”. A morte, como desfecho da vida terrena, torna-se porta de entrada para a eternidade. Entretanto, a morte em vida, a via da santidade apontada por Vieira e a senda da mística indicada pelo poeta, já nos faz experimentar o antegozo daquilo que se terá na glória.

“Nossa saúde é tão-só nossa doença
Se contentarmos a enfermeira à morte
Que jamais em desenfastiar-nos pensa
Mas lembrar-nos da nossa, e de Adão, sorte,
Que há-de o mal, para saramos, ser mais forte.”

E completaria Pe. Antonio Vieira dizendo:

"Este é o único antídoto contra o veneno da morte este é o único e só eficaz remédio contra todos seus perigos e dificuldades: acabar a vida antes que a vida se acabe. Se a morte é terrível por ser uma, com esta prevenção serão duras; se é terrível por ser incerta, com esta prevenção será certa; se é terrível por ser momentânea, com esta prevenção será tempo, e dará tempo. Desta maneira faremos da mesma víbora a triaga, e o mesmo pó que somos, será o correctivo do pó que havemos de ser: Pulvis es, in pulverem reverteris." 

Ao final, em “Little Gidding”, Eliot afirma que “nascemos com os mortos”. Obviamente aqui a referência primeira é ao caráter atemporal do funcionamento da comunidade de almas, como a “democracia dos mortos” chestertoniana. Contudo, sabendo da primazia da mística em seu pensamento, especialmente na sua poesia mais madura, é lícito ler essa passagem à luz da noção vieirense da morte. Esse patamar, isto é, quando chegamos “ao ponto de onde partimos”,  é descrito na poesia elioteana como o olhar profundo e simples da própria realidade, “uma condição de completa simplicidade”, contemplando “as crianças na macieira”. Em tal experiência, e aqui entram as palavras da Beata Juliana de Norwich, “alle shalle be wele – tudo sairá bem”. Só assim, como diz Eliot, “o fogo e a rosa” serão um fazendo com que “por benefício do pó que somos não temeremos o pó que havemos de ser”, completa Vieira.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Dom Oscar Romero e São Josemaria Escrivá: devotos filhos da Igreja



Original em: http://www.josemariaescriva.info/article/letter-to-the-pope-on-escriva27s-death

Uma carta escrita ao Papa pelo Bispo salvadorenho Dom Oscar Romero, em 12 de julho de 1975, solicitava a abertura do processo de beatificação de São Josemaria. O documento não apenas revela a profunda amizade de Oscar Romero com Escrivá, mas também, e principalmente, mostra as prioridades na vida apostólica e espiritual do prelado.

"Beatíssimo Padre,

Eu considero o dia ainda recente da morte do Monsenhor Josemaria Escrivá de Balaguer como uma contribuição para a maior glória de Deus e para o bem-estar das almas, e, por isso, estou solicitando de Vossa Santidade a rápida abertura da causa de beatificação e canonização de tal eminente sacerdote.

Eu tive a sorte de conhecer Escrivá de Balaguer pessoalmente e de receber dele o apoio e força para ser fiel à doutrina inalterável de Cristo e de servir com zelo apostólico à Santa Igreja Romana e esta terra de Santiago de Maria, que Vossa Santidade me confiou.

Conheço faz muito tempo o trabalho do Opus Dei aqui em El Salvador, e posso testemunhar o sentido sobrenatural que o anima e a fidelidade ao magistério eclesiástico, que caracteriza este trabalho.

Pessoalmente, devo profunda gratidão aos padres envolvidos, a quem eu confio, com muita satisfação, a direção espiritual de minha vida e a de outros sacerdotes.

Pessoas de todas as classes sociais encontram no Opus Dei uma orientação segura para viver como filhos de Deus no meio diário em sua família e em suas obrigações sociais. E isto é, sem dúvida, devido à vida e à doutrina de seu fundador.

Neste mundo tempestuoso, invadido por insegurança e dúvida, a excelente fidelidade doutrinária que caracteriza o Opus Dei é um sinal da graça especial de Deus.

Monsenhor Escrivá de Balaguer foi capaz de unir, em sua vida, um contínuo diálogo com Nosso Senhor e uma grande humanidade. Alguém poderia dizer que ele era um homem de Deus e que o seu jeito estava impregnado de sensibilidade, gentileza e bom humor.

Há muitas pessoas que, desde o momento de sua morte, estão privadamente confiando-lhe as suas necessidades.

Beatíssimo Padre, eu humildemente repito o meu pedido de uma abertura rápida da causa de beatificação e canonização de Josemaría Escrivá de Balaguer, para a maior glória de Deus e para a edificação da Igreja.

Com afeto filial e submissão, beijo vosso anel.

Oscar Romero"

quinta-feira, 21 de março de 2013

O polilogismo da esquerda tupiniquim



O polilogismo é uma das maiores falácias usadas pelos regimes totalitários. Marxistas e nazistas lançaram mão desse artifício para blindar as suas respectivas doutrinas dos ataques acadêmicos. Para os primeiros, o ser burguês, quase como um atributo onto-antropológico, é decisivo no modo como o homem enxerga a realidade. Desse modo, existiria tanto o olhar “reacionário” como a visão proletária. As classes reproduzem uma forma de pensar desde os seus mais corriqueiros atos cotidianos até ao modo como concebe a reflexão racional. Os nazistas, assim como seus primos marxistas, fizeram uso do mesmo princípio, o remodelando, obviamente, para o aspecto étnico. Na atualidade, tal polilogismo ainda se mantém em muitos segmentos da esquerda, em especial latino-americana, fortemente marca pelo ar conspiracionista e vitimista. 

Os atuais promotores do polilogismo, contudo, apelam para outros artifícios. Um dos mais recorrentes é a mídia. Explico-me. Hoje qualquer crítico do establishment esquerdista, antes mesmo de ter seus argumentos analisados pelos militantes, vai se deparar com a acusação de que a sua visão é, na verdade, reflexo da absorção indiscriminada das notícias veiculadas por uma mídia "reacionária". Aqueles que se afastam dos paradigmas socializantes da esquerda são rapidamente transformados em leitores da Veja, do Correio da Bahia e fãs de William Bonner. Aqui entram dois absurdos: o primeiro é já partir da premissa de que a imprensa não-esquerdista é necessariamente golpista e fonte falsa de informação e, o segundo, é creditar a estas fontes o cabedal de conhecimento dos opositores. O primor da imprensa "democrática" se encontraria em publicações como Caros Amigos, Carta Capital e TV Brasil. Ademais, é assustador pensar que são estes os mesmos que defendem a reforma da liberdade de imprensa em nome da "pluralidade". 

Outro aspecto interessante do polilogismo tupiniquim é como ele se mostra atualmente: o caráter nacionalista. O "sucesso" do governo petista despertou a esquerda para aquilo que ele nunca nutriu: amor à pátria. Entretanto, se o patriotismo é um sentimento legítimo, o nacionalismo é uma doença moderna. Os críticos se deparam, assim, com uma outra acusação, isto é, formam uma casta americanizada e inimiga dos interesses nacionais. Nesse sentido, estaríamos mais preocupados com a nevada em Nova Iorque do que com as enchentes no Capão Redondo. Trata-se, pois, de um grupo privilegiado que lê inglês e que acha que o Brasil é terra de turista rico. 

Surge, ao final, o terceiro paradigma polilógico, e um dos mais clássicos: a famigerada elite. O polilogismo tem a capacidade de direcionar ao outro a alcunha de elitista. Para Hitler eram os judeus exploradores, para Marx os burgueses donos dos meios de produção, para os petistas qualquer tipo de opositor. Claro que não necessariamente há uma correspondência entre a acusação de "elitista" e a realidade de ser da elite. Não importa, sempre haverá uma carta na manga, como afirmar que alguém é manipulado pelos “donos do poder” e lê jornais com notícias forjadas. O elitismo é, portanto, uma força onipresente. Obviamente não há nenhuma coerência nesse argumento. O próprio Marx, inclusive, era proveniente da elite burguesa alemã e, ainda assim, foi capaz de produzir um pensamento "não-reacionário", fugindo do determinismo social que o próprio criara. Ser acusado de elitismo é ser lançado ao ostracismo social, ainda que quem o acusa seja tão ou mais abastado que você. Elite seria não uma condição, mas um estado de espírito. 

O polilogismo não te deixa saída. Usando da chave de leitura popperiana pode ser dito que é uma concepção infalsificável. Todo o seu pensamento está condicionado: seja pela mídia, seja pela americanização anti-nacional, seja pelo elitismo. Você, estimado opositor, sempre será encaixado em algum desses padrões. É como o louco que diz que não é louco comprovando a sua loucura. Por isso a discussão se torna tão estéril, já que os argumentos de tão “contextualizados” polilogicamente perdem a credibilidade - “Você é branco, classe média, fala inglês e assiste Globo News, você não sabe o que está dizendo”. Ao final da discussão os seus amigos esquerdistas, muitos dos quais estavam discutindo contigo nos seus macs e iphones, indicarão que tome um “banho de povo” e passe a ler outras fontes mais idôneas de informação, como os blogs partidários e as revistas patrocinadas pelo governo.

terça-feira, 19 de março de 2013

Francisco, mensageiro do Cristo Crucificado e Libertador


O Papa Francisco já em poucos dias de pontificado vem destacando algumas idéias que, acredito, tornar-se-ão em pontos centrais do seu magistério. O Santo Padre, além do explícito e recorrente testemunho de caridade, insiste em uma exposição catequética, simples e ao mesmo tempo profunda a respeito do caráter querigmático da fé. Apenas no testemunho do Cristo Crucificado encontra a Igreja o seu mais profundo sentido de existir. Assim, pois, a renovação não passa pela reconstrução, mas pela configuração a Cristo mediante a contínua conversão do coração.

De certa forma muito do enfraquecimento das missões foi reflexo da politização da fé. Sem o aspecto confessional o apostolado perde a sua pedra fundamental. A secularização do ardor missionário simplesmente arranca o que é mais essencial nessa vocação: Cristo. O Papa Francisco, consciente do modo sorrateiro como a religião foi transformada em instrumento da ideologia na América Latina, reconhece que sem a confissão de Jesus Cristo a Igreja se torna em uma "ONG sócio-caritativa, mas não a Igreja, Esposa do Senhor". Claro que os trabalhos humanitários têm seu valor no processo de valorização de povos explorados. Contudo, existe um grande abismo que separa a ambição de ampliar a vivência das virtudes humanas e a consagração pela expansão da mensagem evangélica. Esta última missão vai além do aspecto material e se debruça sobre a angústia existencial do homem e do aspecto redentor do testemunho do Cristo Crucificado.

Entende-se, pois, o esforço do Santo Padre em tornar novo aquela missão dada pelo Senhor aos Apóstolos: o anúncio de Cristo como o único Salvador "do homem todo e de todos os homens". O cristianismo tem, como um das suas incumbências, a melhoria da dignidade do homem em sua realidade política, econômica e social, mas, isto sim, se lança em uma empreitada que vai além da materialidade e atinge o âmago da própria alma humana. Cristo, portanto, salva o homem elevando a sua condição existencial e, assim, abre as portas da salvação para todos aqueles que reconhecem os limites da condição pecadora, levantado os olhos aos Céus em louvor, adoração e contrição. Nesse sentido, "a verdade cristã é fascinante e persuasiva, porque responde a uma necessidade profunda da existência humana", disse o Papa.

A atualidade deste anúncio "permanece válido hoje como o foi nos primórdios do cristianismo, quando se realizou a primeira grande expansão missionária do Evangelho". O Papa Francisco, desde já, revitaliza o ímpeto missionário que sempre fora marca característica da Igreja em sua ação. O enfraquecimento deste anúncio é proporcional à rejeição do caminhar "na presença do Senhor, com a Cruz do Senhor". Sem a cruz não há, pois, Jesus, como já havia dito o então Cardeal Bergoglio. E sem Jesus não há Igreja e não há o que anunciar. Volta-se, portanto, ao dilema do cristianismo convertido em um humanismo ateu incapaz de apresentar ao homem as realidades sobrenaturais. 

A Igreja dos pobres se forma quando o homem reconhece a sua condição pecadora e volta-se para o Senhor. Destarte, por meio da dinâmica de entrega aos desígnios de Deus, é possível perceber que o "verdadeiro poder é o serviço" e que o exercício desse poder está fundamentado naquele "vértice luminoso na Cruz". Não é de se estranhar, portanto, que o Papa Francisco seja, ao mesmo tempo, o Papa da humildade e da pobreza e o Papa do Cristo Crucificado e Libertador. A sua alegria estampada em todas as suas aparições, o seu convite para que não tenhamos medo da "bondade" e da "ternura", assim como a sua esperança de que o homem, quando vigia o o seu "coração", substitui as más intenções pelas boas, tudo isso é conseqüência do amor que brota ininterruptamente da Cruz que se tornou em Árvore da Vida.

O Papa Francisco vem, pois, com o seu carisma pessoal apresentar uma faceta sempre nova do rosto de Cristo e da missão da Igreja. O seu amor aos pobres e o seu entusiasmo só podem ser corretamente compreendidos mediante o olhar da fé. Que o Santo Padre, com as suas palavras e com o seu exemplo, desperte muitos jovens para esse chamado de Deus, na adesão a aventura que é a missão aos povos, principalmente aos homens que vivem na "periferia do nosso coração", mas, para os quais, o Cristo Crucificado os fita com um olhar complacente, bondoso e cheio de misericórdia.

domingo, 17 de março de 2013

Boff e a insistência diante de um projeto fracassado


Ontem na Globo News tivemos a oportunidade de presenciar um belíssimo espetáculo. Estavam presentes Leonardo Boff, o jornalista Arias e o Pe. José Eduardo. O tema era, obviamente, a eleição do Papa Francisco. A discussão desde o início já parecia que prometia. Foi, de fato, uma oportunidade única para ver o discurso superado da década de 70 ser refutado com maestria e realismo pelo sacerdote presente.

Vale destacar, desde já, que o modelo de Igreja defendido por Boff e Arias se mostrou completamente ineficaz. Em todos os locais onde foi implementado, em dioceses, paróquias, congregação, pastoral da juventude etc, o resultado foi o esvaziamento da comunidade na mesma proporção em que se politizava a fé. De fato, em tais ambientes só restam fósseis vivos que ainda acreditam que só por esse caminho a "renovação" é possível. Desde já fica a perplexidade diante da constatação da realidade. Onde a semente da teologia da libertação foi plantada hoje só existe deserto.

Arias, que se destacou pela capacidade de pensar sem a lógica, defendeu uma Igreja transformada em assembléia de condomínio, com a participação de todos os fiéis das mais variadas crenças. É interessante perceber como na mente dos teólogos liberais apenas o catolicismo tem a obrigação de se desconstruir. Muçulmanos, budistas, judeus etc mantém íntegro o seu corpo doutrinal enquanto se cobra da Igreja a prostituição da sua doutrina. Nem há, tampouco, um intuito apostólico, o que tornaria esse intento "menos indigno". O que é pretendido é meramente uma horizontalização das realidades sobrenaturais. Em tal cenário a Igreja seria reduzida em uma religião universal desprovida de identidade, culto, ordem e fé.

Leonardo Boff, quase que em um ato desespero, afirmou que a tradução de "Dictatus Papae", um documento medieval que pontua sobre a autoridade papal, é "Ditadura do Papa". Não sei se por falta de caráter ou ignorância do ex-frade, mas até mesmo uma rápida busca no Google o ajudaria a descobrir que na verdade "Dictatus" não é ditadura, mas, isto sim, "Decretos". Não satisfeito com a desonestidade, continuou despejando o seu projeto de renovação da Igreja. A realidade grita! Se este modelo foi incapaz de manter jovem as pequenas - e alguns nem tão pequenas assim - comunidades eclesiais quanto mais seria eficiente diante da imensidão que é a Igreja em seu vasto tamanho universal. 

O que fica dessa discussão é perceber como funciona a mente ideológica dos nossos fósseis vivos. Eles sequer se esforçam para invalidar a capacidade da fé e da piedade de atraírem os jovens. Até mesmo se dissessem que a multidão que se reúne na Jornada Mundial da Juventude sofre de histeria coletiva seria mais digno do que simplesmente fingir que inexiste sim uma Igreja renovada. Insistem, portanto, em um método que só deixou escombros e destruição. Como responder ao dado apontado pela pesquisa vocacional encomendada pela Conferência Episcopal Americana? Esta afirma que as congregações/ordens com mais vocações e com as menores faixas etárias são as mais ortodoxas, enquanto as congregações/ordens com menos vocações e com as maiores faixas etárias são as mais liberais. Onde se encontra a renovação?

A Igreja Católica "renovada" que eles defendem seria como a cópia daquilo que fizera a igreja anglicana. Entretanto, esta última, já institucionalmente descentralizada e devotamente seguidora das demandas liberais, sofre com uma crise profundíssima pela falta de fiéis. Se a fórmula mágica de Boff gozasse de realismo seria o anglicanismo/episcopalismo um fenômeno contemporâneo da fé e não na fracassada igreja que se tornou. 

A melhor resposta para o apocalipse liberal de Boff e Arias não está nas fantásticas intervenções do Pe. José Eduardo, mas, outrossim, na enorme quantidade de moças que ingressam nos claustros, nos rapazes que lotam os noviciados e seminários das mais sérias congregações e dioceses, na capacidade da RCC de congregar a juventude, na efervescência de novos movimentos como Comunhão e Libertação, Focolares, Regnum Christi, no mar de jovens que se reúnem na JMJ. Eu conheço sim uma Igreja renovada, aberta e fiel, apaixonada por Jesus Cristo e feliz por ser católica. Boff e Arias precisam sair de suas paróquias frequentadas por comunistas octogenários e perceber aquilo que é a mais pura e cristalina realidade: vocês são como a árvore que não produziu frutos.


sábado, 16 de março de 2013

O realismo de Bento e Francisco

O que Francisco e Bento tem em comum? Um foi e o outro é Vigário de Cristo em um mundo atribulado e ambos são profundamente marcados por uma mesma característica: o realismo. Bergoglio e Ratzinger levam ao papado as experiências pelas quais passaram nos tempos de ministério episcopal em seus respectivos países. Tamanha abertura diante dos problemas reais permite que o pontificado se torne mais atento aos grandes obstáculos apresentados pela modernidade. Ademais, para aqueles que consideram a eleição do Papa Francisco como uma "ruptura" aos ensinamentos do seu predecessor é necessário, antes de tudo, uma compreensão católica da própria missão daquele que é o Sucessor de São Pedro.

Joseph Ratzinger  é proveniente de uma ala eclesiástica marcadamene reflexiva. Ele, como professor universitário, deparou-se como uma diversidade de posições teológicas. Destaca-se, contudo, o desenvolvimento da teologia liberal, de claro sabor protestante, que assolava as universidades católicas na Alemanha. De certa forma é possível fazer um paralelo entre esse cenário e o contexto da Igreja na França em pleno século XIX: galicanismo e ultramontanismo em extremos opostos. Em terras alemãs a mesma dinâmica se desenvolvia. Se por um lado existiam os defensores de certo progressismo teológico como resposta ao empobrecimento reflexivo, havia, no patamar inverso, aqueles que não abriam mão do modo como a Igreja se relacionava com o mundo e como o pensamento era produzido nos centros de saber. Ratzinger, contudo, era a síntese dessa celeuma: nem realizado com a situação atual e nem tampouco interessado em abrir mão daquilo que sempre foi crido.

A teologia liberal, entretanto, ganhou espaço e se expandiu. Uma de suas principais posições era o reconhecimento do relativismo, sendo princípio, como fundamento da reflexão. Isso possibilitou o incremento das doutrinas modernistas já adormecidas desde a condenação de São Pio X. Ratzinger, destarte, era extremamente consciente das consequências profundas que este pensamento acarretaria não só para a teologia, mas para o mundo. A filosofia moderna já distante da metafísica e uma teologia moderna agora distante de Deus forjariam, juntas, a nova sociedade onde os valores universais perderiam a sua consistência de ser.

Diante deste realismo, Raztinger, já Bento XVI, combateu duramente a ação coercitiva de tal modo de pensar. As suas primeiras palavras marcaram todo o seu pontificado, tanto a "ditadura do relativismo", fazendo alusão ao modo como o raciocínio relativista se impregnou nos paradigmas fundamentais do homem contemporâneo, como a "hermenêutica da continuidade", se referindo ao método simplista de compreender o Concílio Vaticao II. Bento XVI, portanto, atacou problemas com os quais tinha familiaridade. Ademais, se o fez de modo reflexivo era porque isso era parte da sua natureza. Vale destacar, além disso, que a "Nova Evangelização" é conseqüência desse mesmo reconhecimento e da atenção dada pelo Santo Padre ao processo de secularização da Europa.

Deus, em seguida, nos manda um pai como Francisco. Para muitos a sua eleição foi recebida como um retrocesso ou o coroamento justamente do progressismo combatido por Bento XVI. Entretanto, Francisco foi o sucessor querido pelo Senhor porque ele vem na esteira daquilo que fora plantado por Ratzinger. Ambos são os promotores da verdade, da bondade da beleza, a "tríade essencial" que, como falara o Papa Bergoglio, todos devem comunicar.

O Papa Francisco leva consigo outro arcabouço experiencial. Se Bento XVI conheceu a teoria do pensamento liberal, o Cardeal latino-americano se defrontou diretamente com a prática já encarnada dessa doutrina. A sua luta contra a teologia da libertação desde o tempo de superior jesuíta fez dele persona non grata entre os adeptos da politização da fé. A sua resistência foi capaz de tornar a província argentina da Companhia de Jesus em um oásis seguro da espiritualidade inaciana. Ademais, depois de elevado ao posto de Arcebispo de Buenos Aires, após ser salvo do ostracismo ao que fora enviado pelos teólogos da libertação, Bergolgio se viu diante das ações organizadas da cultura de morte.

Assim, pois, o Papa Francisco traz com ele todo o aprendizado diante não mais de uma Igreja pensante, como ocorrera com Bento, mas sim da Igreja militante, que é atacada e ultrajada - daí a sua referência logo no ínicio do pontificado aos cristãos perseguidos no Oriente Médio e África. O seu conhecimento da prática certamente ajudará a Igreja a caminhar de modo ainda mais seguro na sua missão evangélica. Com Francisco certamente os olhos se voltam para áreas onde a fé luta pela própria sobrevivência. Ademais, justamente por ter conhecimento a respeito do modo sorrateiro como o Evangelho é deformado em ideologia política, Francisco se mostra preocupado com a perda de foco da missão cristã: sem o Cristo Crucificado, sem o anúncio querigmático, a Igreja se transforma em uma "ONG piedosa". E esta, infelizmente, é uma das mais recorrentes tentações demoníacas, que também são alvos frequentes dos pronunciamentos do nosso atual Pontífice.

Bento e Francisco são, portanto, homens realistas. Um foi teórico e o outro prático, ambos, contudo, profundamente orantes e apaixonados por Cristo Jesus. Se Ratzinger se voltava mais para a Europa, Bergoglio olha para continentes no subúrbio do mundo. Se Ratzinger atraía a discussão intelectual, Bergoglio é convidativo aos homens mais simples. Cada um leva em si mesmo uma marca carismática que enriquece a Igreja, e assim a Esposa de Cristo se enriquece com sua história. Temos, portanto, que nos alegrar! É tempo de vivenciarmos concretamente com Francisco tudo aquilo que aprendemos com Bento. Chegou o tempo de mostrar ao mundo a força da caridade que se forma em um coração configurado com o Coração do Senhor Crucificado.