quinta-feira, 21 de março de 2013

O polilogismo da esquerda tupiniquim



O polilogismo é uma das maiores falácias usadas pelos regimes totalitários. Marxistas e nazistas lançaram mão desse artifício para blindar as suas respectivas doutrinas dos ataques acadêmicos. Para os primeiros, o ser burguês, quase como um atributo onto-antropológico, é decisivo no modo como o homem enxerga a realidade. Desse modo, existiria tanto o olhar “reacionário” como a visão proletária. As classes reproduzem uma forma de pensar desde os seus mais corriqueiros atos cotidianos até ao modo como concebe a reflexão racional. Os nazistas, assim como seus primos marxistas, fizeram uso do mesmo princípio, o remodelando, obviamente, para o aspecto étnico. Na atualidade, tal polilogismo ainda se mantém em muitos segmentos da esquerda, em especial latino-americana, fortemente marca pelo ar conspiracionista e vitimista. 

Os atuais promotores do polilogismo, contudo, apelam para outros artifícios. Um dos mais recorrentes é a mídia. Explico-me. Hoje qualquer crítico do establishment esquerdista, antes mesmo de ter seus argumentos analisados pelos militantes, vai se deparar com a acusação de que a sua visão é, na verdade, reflexo da absorção indiscriminada das notícias veiculadas por uma mídia "reacionária". Aqueles que se afastam dos paradigmas socializantes da esquerda são rapidamente transformados em leitores da Veja, do Correio da Bahia e fãs de William Bonner. Aqui entram dois absurdos: o primeiro é já partir da premissa de que a imprensa não-esquerdista é necessariamente golpista e fonte falsa de informação e, o segundo, é creditar a estas fontes o cabedal de conhecimento dos opositores. O primor da imprensa "democrática" se encontraria em publicações como Caros Amigos, Carta Capital e TV Brasil. Ademais, é assustador pensar que são estes os mesmos que defendem a reforma da liberdade de imprensa em nome da "pluralidade". 

Outro aspecto interessante do polilogismo tupiniquim é como ele se mostra atualmente: o caráter nacionalista. O "sucesso" do governo petista despertou a esquerda para aquilo que ele nunca nutriu: amor à pátria. Entretanto, se o patriotismo é um sentimento legítimo, o nacionalismo é uma doença moderna. Os críticos se deparam, assim, com uma outra acusação, isto é, formam uma casta americanizada e inimiga dos interesses nacionais. Nesse sentido, estaríamos mais preocupados com a nevada em Nova Iorque do que com as enchentes no Capão Redondo. Trata-se, pois, de um grupo privilegiado que lê inglês e que acha que o Brasil é terra de turista rico. 

Surge, ao final, o terceiro paradigma polilógico, e um dos mais clássicos: a famigerada elite. O polilogismo tem a capacidade de direcionar ao outro a alcunha de elitista. Para Hitler eram os judeus exploradores, para Marx os burgueses donos dos meios de produção, para os petistas qualquer tipo de opositor. Claro que não necessariamente há uma correspondência entre a acusação de "elitista" e a realidade de ser da elite. Não importa, sempre haverá uma carta na manga, como afirmar que alguém é manipulado pelos “donos do poder” e lê jornais com notícias forjadas. O elitismo é, portanto, uma força onipresente. Obviamente não há nenhuma coerência nesse argumento. O próprio Marx, inclusive, era proveniente da elite burguesa alemã e, ainda assim, foi capaz de produzir um pensamento "não-reacionário", fugindo do determinismo social que o próprio criara. Ser acusado de elitismo é ser lançado ao ostracismo social, ainda que quem o acusa seja tão ou mais abastado que você. Elite seria não uma condição, mas um estado de espírito. 

O polilogismo não te deixa saída. Usando da chave de leitura popperiana pode ser dito que é uma concepção infalsificável. Todo o seu pensamento está condicionado: seja pela mídia, seja pela americanização anti-nacional, seja pelo elitismo. Você, estimado opositor, sempre será encaixado em algum desses padrões. É como o louco que diz que não é louco comprovando a sua loucura. Por isso a discussão se torna tão estéril, já que os argumentos de tão “contextualizados” polilogicamente perdem a credibilidade - “Você é branco, classe média, fala inglês e assiste Globo News, você não sabe o que está dizendo”. Ao final da discussão os seus amigos esquerdistas, muitos dos quais estavam discutindo contigo nos seus macs e iphones, indicarão que tome um “banho de povo” e passe a ler outras fontes mais idôneas de informação, como os blogs partidários e as revistas patrocinadas pelo governo.

terça-feira, 19 de março de 2013

Francisco, mensageiro do Cristo Crucificado e Libertador


O Papa Francisco já em poucos dias de pontificado vem destacando algumas idéias que, acredito, tornar-se-ão em pontos centrais do seu magistério. O Santo Padre, além do explícito e recorrente testemunho de caridade, insiste em uma exposição catequética, simples e ao mesmo tempo profunda a respeito do caráter querigmático da fé. Apenas no testemunho do Cristo Crucificado encontra a Igreja o seu mais profundo sentido de existir. Assim, pois, a renovação não passa pela reconstrução, mas pela configuração a Cristo mediante a contínua conversão do coração.

De certa forma muito do enfraquecimento das missões foi reflexo da politização da fé. Sem o aspecto confessional o apostolado perde a sua pedra fundamental. A secularização do ardor missionário simplesmente arranca o que é mais essencial nessa vocação: Cristo. O Papa Francisco, consciente do modo sorrateiro como a religião foi transformada em instrumento da ideologia na América Latina, reconhece que sem a confissão de Jesus Cristo a Igreja se torna em uma "ONG sócio-caritativa, mas não a Igreja, Esposa do Senhor". Claro que os trabalhos humanitários têm seu valor no processo de valorização de povos explorados. Contudo, existe um grande abismo que separa a ambição de ampliar a vivência das virtudes humanas e a consagração pela expansão da mensagem evangélica. Esta última missão vai além do aspecto material e se debruça sobre a angústia existencial do homem e do aspecto redentor do testemunho do Cristo Crucificado.

Entende-se, pois, o esforço do Santo Padre em tornar novo aquela missão dada pelo Senhor aos Apóstolos: o anúncio de Cristo como o único Salvador "do homem todo e de todos os homens". O cristianismo tem, como um das suas incumbências, a melhoria da dignidade do homem em sua realidade política, econômica e social, mas, isto sim, se lança em uma empreitada que vai além da materialidade e atinge o âmago da própria alma humana. Cristo, portanto, salva o homem elevando a sua condição existencial e, assim, abre as portas da salvação para todos aqueles que reconhecem os limites da condição pecadora, levantado os olhos aos Céus em louvor, adoração e contrição. Nesse sentido, "a verdade cristã é fascinante e persuasiva, porque responde a uma necessidade profunda da existência humana", disse o Papa.

A atualidade deste anúncio "permanece válido hoje como o foi nos primórdios do cristianismo, quando se realizou a primeira grande expansão missionária do Evangelho". O Papa Francisco, desde já, revitaliza o ímpeto missionário que sempre fora marca característica da Igreja em sua ação. O enfraquecimento deste anúncio é proporcional à rejeição do caminhar "na presença do Senhor, com a Cruz do Senhor". Sem a cruz não há, pois, Jesus, como já havia dito o então Cardeal Bergoglio. E sem Jesus não há Igreja e não há o que anunciar. Volta-se, portanto, ao dilema do cristianismo convertido em um humanismo ateu incapaz de apresentar ao homem as realidades sobrenaturais. 

A Igreja dos pobres se forma quando o homem reconhece a sua condição pecadora e volta-se para o Senhor. Destarte, por meio da dinâmica de entrega aos desígnios de Deus, é possível perceber que o "verdadeiro poder é o serviço" e que o exercício desse poder está fundamentado naquele "vértice luminoso na Cruz". Não é de se estranhar, portanto, que o Papa Francisco seja, ao mesmo tempo, o Papa da humildade e da pobreza e o Papa do Cristo Crucificado e Libertador. A sua alegria estampada em todas as suas aparições, o seu convite para que não tenhamos medo da "bondade" e da "ternura", assim como a sua esperança de que o homem, quando vigia o o seu "coração", substitui as más intenções pelas boas, tudo isso é conseqüência do amor que brota ininterruptamente da Cruz que se tornou em Árvore da Vida.

O Papa Francisco vem, pois, com o seu carisma pessoal apresentar uma faceta sempre nova do rosto de Cristo e da missão da Igreja. O seu amor aos pobres e o seu entusiasmo só podem ser corretamente compreendidos mediante o olhar da fé. Que o Santo Padre, com as suas palavras e com o seu exemplo, desperte muitos jovens para esse chamado de Deus, na adesão a aventura que é a missão aos povos, principalmente aos homens que vivem na "periferia do nosso coração", mas, para os quais, o Cristo Crucificado os fita com um olhar complacente, bondoso e cheio de misericórdia.

domingo, 17 de março de 2013

Boff e a insistência diante de um projeto fracassado


Ontem na Globo News tivemos a oportunidade de presenciar um belíssimo espetáculo. Estavam presentes Leonardo Boff, o jornalista Arias e o Pe. José Eduardo. O tema era, obviamente, a eleição do Papa Francisco. A discussão desde o início já parecia que prometia. Foi, de fato, uma oportunidade única para ver o discurso superado da década de 70 ser refutado com maestria e realismo pelo sacerdote presente.

Vale destacar, desde já, que o modelo de Igreja defendido por Boff e Arias se mostrou completamente ineficaz. Em todos os locais onde foi implementado, em dioceses, paróquias, congregação, pastoral da juventude etc, o resultado foi o esvaziamento da comunidade na mesma proporção em que se politizava a fé. De fato, em tais ambientes só restam fósseis vivos que ainda acreditam que só por esse caminho a "renovação" é possível. Desde já fica a perplexidade diante da constatação da realidade. Onde a semente da teologia da libertação foi plantada hoje só existe deserto.

Arias, que se destacou pela capacidade de pensar sem a lógica, defendeu uma Igreja transformada em assembléia de condomínio, com a participação de todos os fiéis das mais variadas crenças. É interessante perceber como na mente dos teólogos liberais apenas o catolicismo tem a obrigação de se desconstruir. Muçulmanos, budistas, judeus etc mantém íntegro o seu corpo doutrinal enquanto se cobra da Igreja a prostituição da sua doutrina. Nem há, tampouco, um intuito apostólico, o que tornaria esse intento "menos indigno". O que é pretendido é meramente uma horizontalização das realidades sobrenaturais. Em tal cenário a Igreja seria reduzida em uma religião universal desprovida de identidade, culto, ordem e fé.

Leonardo Boff, quase que em um ato desespero, afirmou que a tradução de "Dictatus Papae", um documento medieval que pontua sobre a autoridade papal, é "Ditadura do Papa". Não sei se por falta de caráter ou ignorância do ex-frade, mas até mesmo uma rápida busca no Google o ajudaria a descobrir que na verdade "Dictatus" não é ditadura, mas, isto sim, "Decretos". Não satisfeito com a desonestidade, continuou despejando o seu projeto de renovação da Igreja. A realidade grita! Se este modelo foi incapaz de manter jovem as pequenas - e alguns nem tão pequenas assim - comunidades eclesiais quanto mais seria eficiente diante da imensidão que é a Igreja em seu vasto tamanho universal. 

O que fica dessa discussão é perceber como funciona a mente ideológica dos nossos fósseis vivos. Eles sequer se esforçam para invalidar a capacidade da fé e da piedade de atraírem os jovens. Até mesmo se dissessem que a multidão que se reúne na Jornada Mundial da Juventude sofre de histeria coletiva seria mais digno do que simplesmente fingir que inexiste sim uma Igreja renovada. Insistem, portanto, em um método que só deixou escombros e destruição. Como responder ao dado apontado pela pesquisa vocacional encomendada pela Conferência Episcopal Americana? Esta afirma que as congregações/ordens com mais vocações e com as menores faixas etárias são as mais ortodoxas, enquanto as congregações/ordens com menos vocações e com as maiores faixas etárias são as mais liberais. Onde se encontra a renovação?

A Igreja Católica "renovada" que eles defendem seria como a cópia daquilo que fizera a igreja anglicana. Entretanto, esta última, já institucionalmente descentralizada e devotamente seguidora das demandas liberais, sofre com uma crise profundíssima pela falta de fiéis. Se a fórmula mágica de Boff gozasse de realismo seria o anglicanismo/episcopalismo um fenômeno contemporâneo da fé e não na fracassada igreja que se tornou. 

A melhor resposta para o apocalipse liberal de Boff e Arias não está nas fantásticas intervenções do Pe. José Eduardo, mas, outrossim, na enorme quantidade de moças que ingressam nos claustros, nos rapazes que lotam os noviciados e seminários das mais sérias congregações e dioceses, na capacidade da RCC de congregar a juventude, na efervescência de novos movimentos como Comunhão e Libertação, Focolares, Regnum Christi, no mar de jovens que se reúnem na JMJ. Eu conheço sim uma Igreja renovada, aberta e fiel, apaixonada por Jesus Cristo e feliz por ser católica. Boff e Arias precisam sair de suas paróquias frequentadas por comunistas octogenários e perceber aquilo que é a mais pura e cristalina realidade: vocês são como a árvore que não produziu frutos.


sábado, 16 de março de 2013

O realismo de Bento e Francisco

O que Francisco e Bento tem em comum? Um foi e o outro é Vigário de Cristo em um mundo atribulado e ambos são profundamente marcados por uma mesma característica: o realismo. Bergoglio e Ratzinger levam ao papado as experiências pelas quais passaram nos tempos de ministério episcopal em seus respectivos países. Tamanha abertura diante dos problemas reais permite que o pontificado se torne mais atento aos grandes obstáculos apresentados pela modernidade. Ademais, para aqueles que consideram a eleição do Papa Francisco como uma "ruptura" aos ensinamentos do seu predecessor é necessário, antes de tudo, uma compreensão católica da própria missão daquele que é o Sucessor de São Pedro.

Joseph Ratzinger  é proveniente de uma ala eclesiástica marcadamene reflexiva. Ele, como professor universitário, deparou-se como uma diversidade de posições teológicas. Destaca-se, contudo, o desenvolvimento da teologia liberal, de claro sabor protestante, que assolava as universidades católicas na Alemanha. De certa forma é possível fazer um paralelo entre esse cenário e o contexto da Igreja na França em pleno século XIX: galicanismo e ultramontanismo em extremos opostos. Em terras alemãs a mesma dinâmica se desenvolvia. Se por um lado existiam os defensores de certo progressismo teológico como resposta ao empobrecimento reflexivo, havia, no patamar inverso, aqueles que não abriam mão do modo como a Igreja se relacionava com o mundo e como o pensamento era produzido nos centros de saber. Ratzinger, contudo, era a síntese dessa celeuma: nem realizado com a situação atual e nem tampouco interessado em abrir mão daquilo que sempre foi crido.

A teologia liberal, entretanto, ganhou espaço e se expandiu. Uma de suas principais posições era o reconhecimento do relativismo, sendo princípio, como fundamento da reflexão. Isso possibilitou o incremento das doutrinas modernistas já adormecidas desde a condenação de São Pio X. Ratzinger, destarte, era extremamente consciente das consequências profundas que este pensamento acarretaria não só para a teologia, mas para o mundo. A filosofia moderna já distante da metafísica e uma teologia moderna agora distante de Deus forjariam, juntas, a nova sociedade onde os valores universais perderiam a sua consistência de ser.

Diante deste realismo, Raztinger, já Bento XVI, combateu duramente a ação coercitiva de tal modo de pensar. As suas primeiras palavras marcaram todo o seu pontificado, tanto a "ditadura do relativismo", fazendo alusão ao modo como o raciocínio relativista se impregnou nos paradigmas fundamentais do homem contemporâneo, como a "hermenêutica da continuidade", se referindo ao método simplista de compreender o Concílio Vaticao II. Bento XVI, portanto, atacou problemas com os quais tinha familiaridade. Ademais, se o fez de modo reflexivo era porque isso era parte da sua natureza. Vale destacar, além disso, que a "Nova Evangelização" é conseqüência desse mesmo reconhecimento e da atenção dada pelo Santo Padre ao processo de secularização da Europa.

Deus, em seguida, nos manda um pai como Francisco. Para muitos a sua eleição foi recebida como um retrocesso ou o coroamento justamente do progressismo combatido por Bento XVI. Entretanto, Francisco foi o sucessor querido pelo Senhor porque ele vem na esteira daquilo que fora plantado por Ratzinger. Ambos são os promotores da verdade, da bondade da beleza, a "tríade essencial" que, como falara o Papa Bergoglio, todos devem comunicar.

O Papa Francisco leva consigo outro arcabouço experiencial. Se Bento XVI conheceu a teoria do pensamento liberal, o Cardeal latino-americano se defrontou diretamente com a prática já encarnada dessa doutrina. A sua luta contra a teologia da libertação desde o tempo de superior jesuíta fez dele persona non grata entre os adeptos da politização da fé. A sua resistência foi capaz de tornar a província argentina da Companhia de Jesus em um oásis seguro da espiritualidade inaciana. Ademais, depois de elevado ao posto de Arcebispo de Buenos Aires, após ser salvo do ostracismo ao que fora enviado pelos teólogos da libertação, Bergolgio se viu diante das ações organizadas da cultura de morte.

Assim, pois, o Papa Francisco traz com ele todo o aprendizado diante não mais de uma Igreja pensante, como ocorrera com Bento, mas sim da Igreja militante, que é atacada e ultrajada - daí a sua referência logo no ínicio do pontificado aos cristãos perseguidos no Oriente Médio e África. O seu conhecimento da prática certamente ajudará a Igreja a caminhar de modo ainda mais seguro na sua missão evangélica. Com Francisco certamente os olhos se voltam para áreas onde a fé luta pela própria sobrevivência. Ademais, justamente por ter conhecimento a respeito do modo sorrateiro como o Evangelho é deformado em ideologia política, Francisco se mostra preocupado com a perda de foco da missão cristã: sem o Cristo Crucificado, sem o anúncio querigmático, a Igreja se transforma em uma "ONG piedosa". E esta, infelizmente, é uma das mais recorrentes tentações demoníacas, que também são alvos frequentes dos pronunciamentos do nosso atual Pontífice.

Bento e Francisco são, portanto, homens realistas. Um foi teórico e o outro prático, ambos, contudo, profundamente orantes e apaixonados por Cristo Jesus. Se Ratzinger se voltava mais para a Europa, Bergoglio olha para continentes no subúrbio do mundo. Se Ratzinger atraía a discussão intelectual, Bergoglio é convidativo aos homens mais simples. Cada um leva em si mesmo uma marca carismática que enriquece a Igreja, e assim a Esposa de Cristo se enriquece com sua história. Temos, portanto, que nos alegrar! É tempo de vivenciarmos concretamente com Francisco tudo aquilo que aprendemos com Bento. Chegou o tempo de mostrar ao mundo a força da caridade que se forma em um coração configurado com o Coração do Senhor Crucificado.


terça-feira, 12 de março de 2013

Uma Igreja amada e odiada pela mídia

A mass media, com o seu afã anticlerical, busca com toda força atacar a Igreja nesses dias que se aproximam. Em algumas situações os casos são mais óbvios, como o da Rede Record e sua instrumentalizada programação ligada à IURD, outros nem tanto, como o da Rede Globo que parece ser uma síntese entre a ignorância, má fé e até boa vontade. Contudo, é patente a preguiça em se aprofundar em temas ligados à Igreja e o uso indiscriminado de uma lógica extremamente obscura para julgar o clero católico.

No processo lógico de conhecimento nem toda a conclusão do método indutivo é verdadeira.  No caso atual parte-se de uma afirmação particular, a respeito dos escândalos de pedofilia envolvendo alguns sacerdotes, e se chega à “conclusão” de que a Igreja é pedófila. Isso é tão absurdo como dizer que já que existem algumas mulheres que praticam a prostituição, todas as mulheres são prostitutas, quase como se a lascívia moral fosse uma condição sine qua non da própria feminilidade. 

Obviamente nem é necessário afirmar que ambos os argumentos são absurdos. Contudo, aceitar o primeiro é ratificar uma “lógica” que torna o segundo também válido. Entretanto, quando o assunto é a Igreja muitas vezes padrões de pensamentos preconceituosos e irracionais são adotados. Ainda é possível dizer que por mais que os maiores índices de pedofilia se encontrem entre pais/parentes isso não transforma a instituição familiar em uma instituição pedófila. É necessária tal compreensão para se livrar da tendência ordinária a absorver indiscriminadamente qualquer conteúdo vinculado pela mass media.

Existe, contudo, uma crise? Certamente, mas que não se compara com outros eventos pelos quais a Igreja já passou, tais como o arianismo, as invasões bárbaras, a reforma protestante, a revolução francesa, as invasões napoleônicas etc. Querer transformar o contexto atual no grande desafio do catolicismo é desconhecer completamente a história. Porém, e aí entram os meios de comunicação, a famigerada crise atual foi sequestrada pela modernidade. Explico-me. A Igreja é atualmente a única voz que destoa da massificação cultural contemporânea. Isso engloba a adoção das demandas liberais, como aborto, eutanásia, casamento homossexual etc. Destarte, a mass media pretende, por um lado, escancarar uma pretensa hipocrisia por parte da instituição eclesiástica e, por outro lado, reforçar, com o apoio popular, o coro em defesa da adaptação da Igreja aos tempos atuais.

Entretanto, não faz o mínimo sentido o mesmo mundo que se regozija com o seu laicismo e secularismo gastar horas comentando, veiculando, refletindo, criticando e odiando a renúncia de um ancião e o encontro de cento e quinze homens vestidos de vermelho para eleger um líder. Isso, na lógica “moderna”, soaria muito mais como um conto dos Irmãos Grimm. Contudo, essa atenção quase doentia pelos atos da Igreja demonstra, primeiramente, o reconhecimento da força do catolicismo na defesa de princípios e valores universais, e, em segundo lugar, mas não por último, o fascínio que a Igreja Católica causa em todos os homens, quase como se fossem as ovelhas perdidas que, já muito longe, ouvem o grito do Pastor que as procura.

segunda-feira, 11 de março de 2013

A Teologia da Libertação e a sua religião sem Deus


A entrevista de Clodovis Boff, o irmão católico de Leonardo Boff, é de uma clareza tocante. O religioso servita, muito mais do que uma mudança doutrinal, mostrou a força da experiência de fé. Infelizmente, fica patente que as posições teológicas fundamentais da assim chamada teologia da libertação estão fora da ortodoxia católica. Antes, porém, que os mais progressistas se arrepiem com esta referência ao corpo doutrinário oficial da Igreja, é importante lembrar que qualquer adesão de fé é feita livremente. Destarte, ser católico imputa a participação de um corpo comum de fiéis e de pensamentos. Por isso mesmo, a correção, ou em casos extremos a excomunhão, é apenas um instrumento autêntico na defesa daquilo que se crê.

A teologia da libertação surge na esteira de todas as teologias contextuais – teologia negra, teologia feminista, teologia ecológica – que nascem das concepções pluralistas. As teologias pluralistas partem do relativismo como princípio de reflexão de iure.  As reinocêntricas e soterocêntricas colocam uma idéia rarefeita do Reino e da salvação como centro da experiência religiosa, normalmente defendida pelos adeptos de concepções secularistas da eclesiologia, como os teólogos da libertação. Já as teocêntricas ratificam uma multiforme manifestação do divino capaz de englobar a diversidade religiosa como parte de uma única família de fé. Todas elas são alvos de condenações em documentos como Dominus Iesus e Redemptoris Missio. Clodovis Boff percebera, assim, que o pluralismo colocado como princípio levaria não apenas à negação da Igreja e do seu papel como instrumento de salvação como, também, ao rechaço do caráter redentor de Cristo:
“Rahner não podia aceitar a condenação de um mundo que amava e concebeu a teoria do ‘cristianismo anônimo’: qualquer pessoa que lute pela justiça já é um cristão, mesmo sem acreditar explicitamente em Cristo. Os teólogos da libertação costumam cultivar a mesma admiração ingênua pela modernidade (...) Vi que, com o rahnerismo, a igreja se tornava absolutamente irrelevante. E não só ela: o próprio Cristo. Deus não precisaria se revelar em Jesus se quisesse simplesmente salvar o homem pela ética e pelo compromisso social”.
O aspecto político de transformação social contido na teologia da libertação pressupõe a existência de uma Igreja vista estritamente como “Serva”. Aqui entram os modelos eclesiológicos como pensados pelo teólogo Avery Dulles. Para ele a Igreja pode ser concebida através de cinco modelos: Instituição, Comunhão Mística, Sacramento, Anunciadora, Serva. Cada um carrega suas particularidades e premissas. Ademais, os modelos também se diferenciam pelo grau de fundamentação nas Escrituras, na Tradição e no Magistério, ainda sendo complementares uns aos outros. Entretanto, para os teólogos da libertação os três primeiros modelos são severamente descartados e não apenas porque evocam uma organização objetiva, mas porque também reconhecem a ação da graça e o aspecto vindouro do Reino.

A Igreja com Anunciadora, modelo desenvolvido pela teologia protestante, ainda sendo mais próximo dos adeptos da teologia da libertação, afasta-se destes quando concebe a missão escatológica da Igreja: o anúncio bíblico da vinda do Reino de Deus na eternidade, o que se adequa perfeitamente às concepções sacramentais e institucionais da missão cristã. Resta, portanto, a Igreja como Serva e sua eclesiologia secularizada. Este modelo não encontra, contudo, muitos fundamentos bíblicos, especialmente no Novo Testamento, onde a salvação é individual e espiritual, e muito mais referenciada ao aspecto apocalíptico do que profético.

Cristo, ademais, é obediente ao Pai e não ao mundo. Ele é o servo do Altíssimo. Desse modo, é em Cristo que se encontra a força de transformação, e não fora dEle. Os famigerados “valores do Reino”, como colocados pela teologia da libertação, são reducionismos propositais, já que o Reino, na verdade, se confunde com a própria plenitude do Senhor e não pode ser identificado com valores abstratos. Ainda assim, a fé em Cristo e a esperança na eternidade são os melhores estímulos para a antecipação daquele gozo que teremos na morada celeste, isto é, o esforço na disseminação dessas virtudes cristãs quase como a preparação para o estabelecimento, por Deus, do novo céu e da nova terra, na eternidade. Diz, então, Avery Dulles:
 
"A noção do Reino de Deus, que é corretamente usada por seculares teólogos para apontar a dimensão da responsabilidade social, não deve ser separada da pregação de Jesus como Senhor. O Reino, partindo do modelo da Igreja como Serva, se perde, portanto, caso procure constituir-se em oposição à noção querigmática ".
A chegada do Reino não será a destruição da Igreja, mas a realização total desta. Apenas na consumação final a dicotomia e tensão entre a Igreja e o mundo serão superadas. Se a teologia da libertação transformara a caridade cristã em subserviência cega ao mundo, os adeptos de outros modelos, como o institucional, podem tornar o triunfo final na glória da própria Igreja, e não o triunfo de Cristo em Sua Igreja apesar das fraquezas e pecados dos homens. Contudo, o perigo da teologia da libertação é ainda maior: o anseio pela construção do Reino no mundo temporal inevitavelmente excluirá muitos homens que não foram tocados por essas “virtudes”, justamente aqueles desesperados, solitários, perseguidos e famintos que desde séculos a Igreja nutre uma especial atenção. De certa forma a imanentização do Reino acaba por excluir milhões de almas que vivem à margem do contato material com os seus promotores.

Entretanto, é possível, através dos esforços da teologia da libertação, renovar ainda mais aquilo que sempre foi crido pela Igreja: a salvação do homem integralmente, corpo e alma. A libertação plena, como diz o documento da Congregação para a Doutrinda Fé Libertatis Nuntius, “é antes de tudo e principalmente libertação da escravidão radical do pecado”. Quando a fé em Cristo toma o primeiro plano podemos movimentar o mundo e verdadeiramente transformá-lo. Esta sim é a verdadeira revolução capaz de ser feita, seja por uma monja contemplativa na clausura, ou por um missionário na África, ou por uma mãe de família educando os seus filhos. As ideologias morrem e deixam como herança mortes, crises e tristeza. Mais uma vez a atualidade do Evangelho se renova. Diz, ao final, Clodovis Boff:
"A modernidade não tem mais nada a dizer ao homem pós-moderno. Quais as ideologias que movem o mundo? Marxismo? Socialismo? Liberalismo? Neoliberalismo? Todas perderam credibilidade. Quem tem algo a dizer? As religiões e, sobretudo no Ocidente, a Igreja Católica."

terça-feira, 5 de março de 2013

A crise da imagem em Avery Dulles

Por Pedro Ravazzano

eminente teólogo Avery Dulles, convertido ao catolicismo nos seus tempos de estudante em Harvard, escrevera um dos mais interessantes livros de eclesiologia do séc. XX, “Models of the Church”. Nele, o sacerdote jesuíta criado Cardeal por João Paulo II, desenvolve uma rica exposição sobre a Igreja entendida por modelos; Instituição, Comunhão Mística, Sacramento, Anunciadora, Serva. Nos capítulos subsequentes explana sobre outros aspectos dessa problemática, como as relações entre Igreja e escatologia, Igreja e revelação, eclesiologia e ministério. Certamente é um livro que se abre para uma imensa possibilidade de debate teológico. O que me interessa, ao menos nesse artigo, são os aspectos que Avery Dulles apresenta no primeiro capítulo – “The Use of Models in Ecclesiology” – como os pressupostos para a reflexão.

Avery Dulles era consciente do papel da imaginação no processo de unificação da própria identidade do homem. O purpurado americano entendia o processo de fragmentação da fé como reflexo da destruição da sensibilidade imaginativa do sujeito:  “The contemporary crisis of Faith is, I believe, in very large part a crisis of images.”  O imaginário religioso pressupõe a respectividade com a experiência do fiel. Contudo, em um mundo altamente secularizado o estilo de vida contemporâneo cada vez endossa uma leitura utilitarista e hedonista da existência. 

A consciência se insere na subjetividade do homem e, por isso, abarca a totalidade do próprio sujeito. Quando Edmund Burke, em uma crítica aos revolucionários franceses, se referiu à destruição dos costumes civilizatórios e culturais, cunhara o termo “imaginação moral”. Foi em Russell Kirk, contudo, que se consolidaram as bases racionais desta ideia. Autores como Samuel T. Coleridge e George MacDonald também de destacaram como grandes teóricos da imaginação. Por sua vez, T.S Eliot e John H. Newman, este último com a sua noção de sentido ilativo, deram os fundamentos para o pensamento kirkeano.

De acordo com Coleridge a imaginação tem duas formas. Primeiramente é o poder de receber impressões externas, do mundo, através dos sentidos, o poder de percepção dos objetos através do conhecimento sensível, tanto referido a realidades pontuais como ao todo. Assim, portanto, pode-se dizer que nesse aspecto a imaginação é um ato espontâneo da mente, afinal a mente humana recebe impressões e sensações externas de modo inconsciente e involuntário. Entretanto, o homem também é capaz de formar e organizar tal conteúdo, criando uma imagem do mundo.

George MacDonald, por sua vez, em “The Imagination: Its Functions and Culture” desenvolve um conceito de imaginação na mesma linha do que fora colocado por Coleridge. Se, portanto, o homem é co-criador, é porque a sua imaginação é feita à imagem da imaginação de Deus. Nesse sentido, portanto, há em MacDonald a mesma percepção newmaniana acerca da abertura da consciência ao transcendente como o fundamento da sua própria capacidade cognitiva.

A imaginação é, assim, a faculdade humana que mais se aproxima da faceta criadora de Deus. Enquanto o divino cria o universo através do seu poder, o artista o imita a partir do momento em que inventa um novo mundo da fantasia e do mito. A imaginação é, então, o veículo da apreensão da natureza sacramental do mundo, repaginando velhas verdades com novas versões. Destarte, se os símbolos são capazes de transformar o modo como o homem enxerga a própria realidade, é compreensível a razão pela qual Avery Dulles associa a crise de fé com a crise da imagem. O Cardeal afirma, portanto:
“Symbols transform the horizons of man’s life, integrate his perception of reality, alter his scale of values, reorient his loyalties, attachments, and aspirations in a manner far exceeding the powers of abstract conceptual thought. Religious images, as used in the Bible and Christian preaching, focus our experience in a new way. They have an aesthetic appeal, and are apprehended not simply by the mind but by the imagination, the heart, or, more properly, the whole man.”
Ao ser um espírito encarnado o homem é capaz de alçar voos além da imanência. A imaginação ou o coração, seja como pensado por Coleridge, MacDonald, Newman, Eliot, Pascal etc, aponta para a capacidade de perceber a realidade como uma intuição que atravessa todas as coisas. A força simbólica de uma flor-de-lis ou de uma águia bicéfala vai além da mera definição conceitual. Assim, a imagem indica ao próprio homem o mistério que não pode ser transmitido em palavras ou através da objetividade de ideias, mas, isto sim, por meio da expressão da alma seja na poesia, na arte ou na prece.

Avery Dulles afirma que qualquer grande e contínua sociedade, dependente da lealdade dos seus membros, “require symbolism to hold it together”. Isso fica muito patente quando, com uma retrospectiva histórica, percebe-se a dinâmica dos movimentos revolucionários: primeiramente a destruição dos símbolos do regime deposto, seja a monarquia francesa ou o czarismo russo, e a criação de uma nova mística nacional com a estatização dos símbolos. Os regimes comunistas foram no mundo contemporâneo os mais cônscios a respeito da funcionalidade da imagem.

Entretanto, a força dos símbolos depende da própria experiência do sujeito. Por isso o empenho dos governos totalitários na imposição de novos paradigmas existenciais. O enfraquecimento, portanto, do imaginário religioso é consequência da estruturação de um estilo de vida fechado ao transcendente. Ademais, a vida cotidiana oferece poucos objetos que sejam harmônicos com a mensagem religiosa. Destarte, a crise da imagem, reflexo do tempo de rápidas mudanças culturais, aponta para a crise da fé. 

 A solução não se encontra apenas em uma revitalização da religião, mas, outrossim, na renovação das estruturas civilizatórias. A imagem simbólica ganha vigor na medida em que os homens nutrem valores eternos e se abrem para uma sensibilidade distante dos axiomas utilitaristas. A Igreja, mais uma vez, não está interessada em salvar apenas os seus, mas em salvar a Civilização; os seus grandes poetas e dramaturgos, os renomados músicos e instrumentistas, os visionários pintores e escultores, os santos homens e mulheres que testemunharam o Evangelho. A alimentação da imagem é consequência de um amplo e variado processo pedagógico no qual o sujeito se insere ao logo de toda a sua vida. Desse modo, sendo um homem integral, dotado de um coração imaginativo, pode ele olhar para a Cruz e entender no silêncio da imagem o mistério que ali se deu.