quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Pensamentos do Cardeal Charles Lavigerie - II


  
VISÃO DE LAVIGERIE SOBRE O FUTURO DA ÁFRICA

 "Os missionários devem ser, portanto,  principalmente iniciadores, mas o trabalho duradouro deve ser realizado pelo africanos, uma vez que se tornaram cristãos e apóstolos.

E deve ser claramente notado que aqui dizemos ser "cristãos" e não "franceses" ou "europeus". Seria absurdo transformá-los em europeus e franceses. Isso torná-los-ia menos aptos para a tarefa que está diante deles, como já disse. Seus corações e suas mentes precisam ser transformados, isto é, o interior, a fim de torná-los verdadeiramente cristãos, mas todo o exterior, com sua coloração local, precisa ser deixado intacto, ou seja, moradia, e, acima de tudo, a linguagem “. (Instrução Capitular sobre o assunto da direção dos seminários)

Vocês vão se ver, no centro da África, em meio a conflitos,  divisões e paixões, que são muitas vezes legítimos, de todas as nações envolvidas em disputas nas quais o futuro da África depende. Nunca tome partido em qualquer questão política, seja ela qual for; nunca apoie nenhuma outra causa que não a da fé e da humanidade. Nunca permita que a sua causa ou o seu nome se envolva com interesses políticos ou comerciais.  Se você está injustamente acusado de fazer isso, proteste e continue protestando, não deixe que as pessoas desconsiderem o fato de que são homens verdadeiramente apostólicos, isto é, homens que sabem como abraçar com carinho todas as nações do mundo. Dê uma prova disso, mostre não tanto por palavras, mas por atos que este é o seu primeiro e único desejo ... "(Discurso de despedida aos 20 missionários que partiam para a África Equatorial, Argélia, 29 de Junho de 1890)

 "... Para ter sucesso na transformação da África, as seguintes condições, de acordo com o meu entendimento, são necessárias. A primeira é a de educar os africanos, selecionadas por nós, em condição para que, do ponto de vista material, sejam genuinamente africanos. A segunda é dar-lhes uma educação que, com uma despesa mínima possível para a missão, lhes permitirá ter a maior influência sobre os seus compatriotas. A terceira é deixar a influência do empreendimento de tal forma que quando você partir o seu pleno efeito estará garantido."

"... Eu insisto sobre este último ponto, porque é muito importante. Ao falar da educação material de nossos jovens africanos, eu disse que esta tinha que ser africana, essencialmente africana. Por outro lado, a sua educação religiosa deve ser essencialmente apostólica ... " (Memorando secreto)

 Os Padres devem observar este ponto com muito cuidado para que o sentido que eles dão aos seus esforços seja mais eficaz. Seria absurda a tentativa de organizar suas aulas da mesma maneira como nos colégios da França. Proíbo-los explicitamente de dar às crianças trajes europeus, camas europeias, costumes europeus. Devemos deixá-los com os seus trajes africanos e com todos os hábitos exteriores, incluindo os relativos à dormir e comer. Eu também proibi-los explicitamente a dar às crianças aulas formais numa língua européia, francês, por exemplo. Deixemo-nos aprendê-la com a prática. Eles devem ser ensinados a ler e escrever em Swahili ou no dialeto corrente da missão particular onde residem ... "

 Os jovens africanos que forem escolhidos devem estar em seu próprio país e na Missão, exceto em casos muito raros. Enviá-los para a Europa deve ser considerado o equivalente a assassiná-los. Até mesmo colocá-los em instituições ao longo da costa, onde seriam educados como os europeus, seria um erro muito grande ... "(Novas instruções para os Padres da Caravana  de 1879)

“Eles não devem ter ilusões: nas missões de hoje, entre os pagãos, as apostasias são tão numerosas em proporção ao número de conversões. Levados pelo desejo irracional de marcar almas com o selo dos filhos de Deus, alguns missionários estão administrando o Batismo com muita facilidade, sem levar em conta a força de seus convertidos ou os perigos quase intransponíveis a que são expostos ".

 "... Estes diferentes motivos levam-me a usar o poder que recebi da Santa Sé em vista da criação das missões na África Equatorial; em virtude deste poder e levando em conta a situação moral das populações perante as quais os Padres devem evangelizar, eu decidi que a antiga disciplina da Igreja, que nunca foi formalmente ab-rogada, deve ser vigorosamente respeitada pelos nossos missionários. Consequentemente, devem estabelecer três graus distintos entre seus neófitos: o primeiro é o de "postulantes", a quem  vão ensinar apenas as verdades fundamentais da ordem natural, iluminadas pela Revelação, como já indicado acima, abstendo-se de ensinar-lhes nada além disso. O segundo grau é o de "catecúmenos", a quem vão explicar as verdades essenciais do cristianismo , mas sem falar do culto ou de outros Sacramentos além do Batismo; finalmente o terceiro grau será o de 'Fiel', para quem não haverá segredos.

Eu prescrevo que, exceto no caso de perigo de morte, os neófitos devem passar pelo menos dois anos inteiros primeiramente como postulantes, então como catecúmenos, para que só após um tempo de quatro anos o batismo possa ser administrado. Em muitos casos, na verdade, será necessário aguardar até a hora da morte ... "

  
A CAMPANHA ANTI-ESCRAVIDÃO

"... A escravidão, como é praticada na África, não só é, de fato, contrária ao Evangelho, é contrária à lei natural. (...) Agora, as leis naturais não apenas concernem aos cristãos, mas, isto sim, envolvem toda a humanidade. É por isso que eu estou apelando para todos, sem distinção de partido, nacionalidade ou credo religioso. Eu não me dirijo apenas à fé, mas à razão, à justiça, ao respeito,  ao amor de liberdade ... " (Discurso na Igreja do Gesù, Roma, 28 de dezembro de 1888)

"... Não é suficiente apenas saber dos horrores da escravidão: temos que trabalhar para aboli-los (...) Para tal intento, o que é especialmente necessário é a organização, a unidade, um entendimento comum, em tão enorme tarefa. Devemos, portanto, antes de ir para uma ação geral, apelar a todas as energias, todas as experiências. O que está em jogo aqui é trazer um quarto do globo para a civilização e a vida. (...) É por isso que devemos já agora pensar num encontro, e até mesmo, ouso dizer, sem medo, num Congresso internacional, com delegados dos comitês anti-escravidão agora existentes na Europa. (...) O que eu espero deste encontro é fazer com que os ouvidos de toda a humanidade escutem o enorme coro de gritos de desespero, por justiça e liberdade, do coração de toda uma raça, tão cruelmente condenada à morte. Na esperança de que aquilo que a  voz de um homem velho, um pastor, não pode fazer sozinha, todas essas fraternais vozes unidas possam a Sua vontade realizar. (Carta do Cardeal para Sr. Keller, presidente do Conselho de Administração da Sociedade Anti-Escravidão, Marselha, 19 de janeiro de 1889)

 (...) Foi apenas com o despertar da opinião pública, há um século atrás [sic], que o movimento anti-escravidão americano superou a resistência que havia encontrado. (...) "É somente quando as pessoas reagem com paixão", exclamou Cowper na ocasião, "que o governo começa a agir ..." (Carta aos Comitês Anti-escravidão para convidá-los a um congresso internacional, Argel, 25 de Abril de 1889)


 UM HOMEM "POLÍTICO"

O BRINDE DE ARGEL - O GRITO DE GUERRA

“O que é pior, as pessoas comuns foram induzidas ao erro, e elas acreditaram, e ainda acreditam, que a Igreja não só incentivou o povo cristão à sonolência, como também se opôs à participação das pessoas em qualquer forma do governo secular. Foi assim que esta terrível hostilidade surgiu, no final do século passado, e foi transportada para o início deste, e que tem tido consequências tão deploráveis. Não se pode negar que a Igreja denunciou todos os erros, todos os crimes e a violência sangrenta que repentinamente eclodiu no velho mundo cristão em nome do povo. Mas Igreja nunca condenou a população como um todo, longe isso, ela entrou numa aliança com os homens em todos os lugares onde a doutrina cristã e os padrões morais ainda eram respeitados ... "(Carta Pastoral sobre a Encíclica Sapientiae Christianae de Leão XIII, 3 de Fevereiro de 1890)

"... Deixe-me assegurar-lhe que a união é também o primeiro desejo da Igreja e de seus pas-tores em todos os níveis da hierarquia. (...) É claro que ela não nos pede para abrir mão das nossas memórias das glórias do passado e nem dos sentimentos de fidelidade e gratidão que honram todos os homens. Mas quando a vontade de um povo é expressa claramente, como Leão XIII declarou recentemente, a forma de governo nada tem de oposta aos princípios que só podem trazer vida para as nações cristãs e civilizadas. Assim, a fim de salvar um país dos perigos que o ameaçam, o apoio incondicional de uma tal forma de governo é necessário -, então, chegou o tempo de declarar que o período experimental está encerrado e que, para pôr fim às nossas divisões, estamos prontos para sacrificar toda a consciência e honra que permitem, e até mesmo nos pedem, o sacrifício, para a salvação de nossa pátria.

Isso é o que eu ensino aos que estão próximos, isto é, o que eu espero que todo o nosso clero ensine na França - e, ao dizer isso, eu tenho certeza que não vou ser reprovado por qualquer voz autorizada ... "(Brinde pronunciado diante da Marinha Francesa, 12 de novembro de 1890, na residência do Arcebispo, em Saint Eugène, perto de Argel)

Você entende, claro, que quando eu aconselho renúncia ou adesão 'sincera’, eu falo do ponto de vista político apenas. Quero dizer que, no meu ministério ou como cidadão, eu não faria ou encorajaria qualquer ação que tenderia a se opor ou a derrubar o governo estabelecido. Mas tanto os sacerdotes e os fiéis devem estar convencidos em seus corações que quando aderem à República estão colocando nela a sua fé e as suas legítimas reivindicações. Na verdade, isso é para o bem da própria República. Gostaríamos de assim fazer não pela força e nem absolutamente pela renúncia ou miserável redinção. Nós  verdadeiramente podemos servir à República e ao país apenas se levamos conosco o sangue cristão que falta em suas veias". (Carta ao Bispo Bourret de Rodez, Biskra, 02 de dezembro de 1890)

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Pensamentos do Cardeal Charles Lavigerie - I




Pensamentos do Cardeal Charles Lavigerie - I

Tradução por Pedro Ravazzano

A IGREJA E SOCIEDADE MODERNA

  "... A Igreja não é a inimiga de sua inteligência ou de sua filosofia, nem é ela contra suas ciências ou suas indústrias, ou qualquer um dos produtos do gênio do homem: ela não é a inimigo quer de sua liberdade ou do progresso da sociedade humana: ela só pede que todas essas coisas permaneçam dentro dos limites da razão e da justiça. Pelo contrário, ela se alegra, e nos alegramos com ela, em tudo o que aumente este patrimônio de glória, riqueza, honra e prosperidade, os frutos do trabalho do homem e da inteligência...” (Carta Pastoral  quando foi instalado como bispo de Nancy, 05 de abril de 1863).

 "... Às vezes a Igreja é deliberadamente apresentada em falsas cores com a intenção de colocar as pessoas contra ela: não só fazem dela a inimiga de todo o verdadeiro progresso, como também é apontada por ser totalmente contra os triunfos mais legítimos do espírito humano. Agora, em seu nome, eu declaro que não é assim (...) Não há nada grande e nobre neste mundo que não seja consagrado por ela; ela abençoa tudo o que é justo e incentiva tudo o que é frutífero. Ela é sempre a primeira a elogiar os trabalhos do gênio do homem, pois ele é a obra-prima de Deus, a quem ela serve! ... " (Discurso proferido na entrega de prêmios numa escola em Nancy, 11 de Agosto 1866).

“O povo cristão deu a impressão de que dormira por muito tempo. Nos primeiros séculos costumava tomar parte proeminente na propagação e na defesa da fé, e até mesmo participando no governo e administração, uma vez que ajudava na eleição dos seus pastores, mas de alguma forma gradualmente pareceram perder o interesse em todas as suas atividades anteriores (...) mas, ao mesmo tempo, enquanto os leigos na Igreja estavam dormindo, em todo o mundo, o povo ímpio de repente acordou. (...) O que é pior, as pessoas comuns foram induzidas ao erro, e elas acreditaram, e ainda acreditam, que a Igreja não só incentivou o povo cristão à sonolência, como também se opôs à participação das pessoas em qualquer forma do governo secular. Foi assim que esta terrível hostilidade surgiu, no final do século passado, e foi transportada para o início deste, e que tem tido consequências tão deploráveis. Não se pode negar que a Igreja denunciou todos os erros, todos os crimes e a violência sangrenta que repentinamente eclodiu no Velho Mundo cristão em nome do povo. Mas Igreja nunca condenou a população como um todo, longe isso, ela entrou numa aliança com os homens em todos os lugares onde a doutrina cristã e os padrões morais ainda eram respeitados ... "(Carta Pastoral sobre a Encíclica Sapientiae Christianae de Leão XIII, 3 de Fevereiro de 1890) 


O APOSTOLADO NO ORIENTE
E A UNIÃO DAS IGREJAS

 “É imperativo que os alunos greco-melquitas em Jerusalém sejam educados em seu próprio rito, e, tanto quanto possível, nos costumes do país no que se refere à alimentação, bebida, roupas, moradia etc. Caso contrário, eles não terão impacto sobre o conversão do Oriente, e serão incapazes de fortalecer a fé do povo de seu próprio rito. É verdade que estas são apenas questões materiais, mas elas têm a sua importância. (Carta ao Prefeito da Propaganda, 19 de novembro de 1881).

 "... As únicas línguas a serem estudadas em casa, além da francesa, são as línguas orientais, árabe e grega. Nunca permita que os alunos participem do rito latino. Mais tarde, mesmo que alguns deles desejem se juntar à Sociedade dos Missionários que os educaram, devem manter seu próprio rito. Numa palavra, a Escola Apostólica de Santa Ana, fundada exclusivamente para os orientais, deve direcionar tudo para esse fim. Deve, portanto, permanecer Oriental, não apenas no seu rito e ensino , mas também no modo de viver, vestir, morar e se alimentar ... " (Instruções aos missionários enviados a Jerusalém).

 “O erro fundamental cometido no Oriente é estar distante dos orientais e mostrar desdém pelos seus ritos, e querer latinizá-los ao fazê-los entrar na Igreja. Esse modo de agir é duplamente lamentável. Por um lado, ele só pode chegar a um número muito limitado de pessoas, apenas pouquissimos orientais teriam o heroísmo de desistir de sua língua nos cultos e práticas que consideram como uma herança preciosa.

Além disso, de acordo com o modo como os missionários católicos abordam esse assunto, eles são suspeitos de ter segundas intenções de natureza política. As pessoas não entendem porque os orientais deveriam ser desencorajados a desistir de sua língua e costumes, a menos que os missionários tenham sido chamados para promover os interesses e as intrigas da política ocidental. Há apenas um método que pode dar frutos no Oriente, e pode ser definido assim: aceitar e respeitar tudo que pode ser encontrado entre os orientais, com a única exceção do vício e do erro ... "(Instruções aos missionários enviados a Jerusalém ).

 "... Os Padres devem ter em mente que o principal obstáculo ao seu trabalho seria a menor suspeita de um pretenso interesse na latinização. Todos os ofícios litúrgicos assistidos pelos alunos devem ser no rito grego. (...) Este é o espírito que deve ser neles redespertado num esforço para uni-los mais estreitamente com a Santa Sé, e para ir mostrando-lhes como são grandes e necessárias para a salvação esta união e a perfeita ortodoxia ... " (Instruções aos missionários enviados a Jerusalém).


O PAPEL DO PAPADO
E O GOVERNO DA IGREJA

 "... Todo o governo romano, na minha opinião, tanto da Igreja e como do Estado, é marcado por um grande mal - não é um governo católico. Deixe-me explicar, quero dizer que durante os últimos 300 anos, e apenas nos últimos 300 anos, em vez de procurar homens de todas as nações para o governo, só admitira romanos em suas fileiras, ou pelo menos italianos, incluindo o Colégio Sagrado, fazendo com que apenas Cardeais pertencentes a Itália fossem eleitos como Chefe de  Igreja (...).

Assim, pois, especialmente durante este último quarto de século, um espetáculo mais peculiar ainda vem ocorrendo diante de nossos olhos: sob o pretexto da unidade católica, o mundo inteiro está sendo Italianisado, especialmente a França. Estamos adotando sua liturgia, práticas disciplinares, música e até mesmo o modo de se vestir do clero italiano, e, o que é muito infeliz, temos toda uma multidão de espíritos iludidos que se sentem obrigados a cumprir com tudo isso.

Não teria sido possível nenhum desses exageros que têm ocorrido se Papas de todas as diferentes nações tivessem sucedido um após o outro, ao invés de uma sucessão de Papas italianos. Como também se os assessores e os outros homens ao serviço do Santo Padre pertencessem em números iguais a todos os países católicos, em vez de todos serem romanos. Seria perfeitamente natural que cada indivíduo perseverasse naquilo que fosse bom em seu próprio país e, assim, teria sido uma escolha entre duas coisas, ou ao menos seriam deixados livres em tudo o que fosse de menor importância. Se a uniformidade fosse realmente necessária, esta uniformidade seria o produto final de todas as excelentes coisas de cada país, e não uma reprodução servil das boas e más práticas de apenas um deles.

 "... Você acha que aqui seria o mesmo se você tivesse cardeais de todos os diferentes países na proporção de suas populações? Francês, Americano, Inglês, Espanhol – ao invés de ter nenhum, mas apenas Cardeais Italianos? Certamente não. Pelo contrário, com conservadores e liberais presentes, se forma um grupo bem equilibrado, tendo aqui um Senado muito moderado, porque seria animado pela verdadeira sabedoria ... " (Carta a Faugère, Conselheiro Político do Escritório para Assuntos Estrangeiros, Roma, 10 de janeiro de 1863).

 "... No futuro, o elemento italiano no Sagrado Colégio deve ser compensado pela presença de tantos estrangeiros Cardeais como possível aqui em Roma. E não é por acaso que eu digo aqui em Roma, porque os Cardeais que residem na França, Espanha, Áustria e Inglaterra não têm absolutamente nenhuma influência sobre assuntos eclesiásticos. Há apenas uma maneira de ganhar essa influência, e é estando perto do Papa, pois nele está investido todo o poder pessoal e soberano, colocando-se numa posição onde se pode vê-lo freqüentemente, falar com ele e aconselhá-lo quando necessário, como também aos cardeais que foram confiados pelo Papa na direção de seus negócios ... " (Nota confidencial ao Ministro da Religião, sobre a nomeação dos cardeais franceses, Maio 1875).

 "... A minha missão, querido Monsenhor, é iniciar des-italianização da Igreja. Tudo me preparou para isso. Meus estudos, a minha estadia em Roma, o meu envolvimento nos assuntos episcopais franceses e, finalmente, o meu apostolado na África, levou-me ao afastamente de tudo aquilo que divide... Tudo (...) daqui em diante depende deste processo mais crucial: a des-italianização da Igreja. Eu sei quais medidas devem ser tomadas para este fim e eu estou pronto para apontá-las. Eu me ofereço inteiramente para esta tarefa, digo-lhe, mais uma vez, aqui reside o meu caminho ... " (Carta a Maret, 03 de dezembro de 1875).

 "... Tenha bem em mente que enquanto os cardeais italianos continuarem a ser maioria, eles jamais nomearão um estrangeiro: seria muito imprudente tentar fazer o público pensar o contrário. A única coisa prática a fazer é influenciar o Papa, de modo que ele possa vir a aumentar gradualmente o número de cardeais  não-italianos. Isso pode gerar alguns resultados ... cem anos a partir de agora ... " (Carta a um jornalista, 1888).

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Quem é Maurice Bellière?


Traduzido do francês por Diego Ferracini

Nascido em 10 de junho de 1874 (um ano e meio depois de Santa Teresinha), filho de Alphonse e Marie Bellière. Sua mãe morreu uma semana após o parto. Maurice foi confiado aos cuidados de sua tia por decisão do pai. Após tal atitude jamais se terá notícias do paradeiro de Alphonse. Antoinette Barthélemy será a responsável por Maurice. Casada com Louis, ela não tem filhos. Sem ser formalmente adotado, Maurice cresceu acreditando ser seu filho. Ela contou a verdade ao menino quando ele completou onze anos. Isso marcou profundamente a personalidade do garoto. Entrou para o Seminário Maior em 1894, com vinte e um anos e meio, quando começara a se corresponder com o Carmelo. As onze cartas escritas por ele revelam um homem: simples, alegre, aberto e criativo, mas também um tanto inseguro de si mesmo, impetuoso e ingênuo 

No Seminário teve como diretor espiritual o Pe. Charles Barry, sulpiciano – reitor do mesmo Seminário. O sacerdote admirava a energia e grande generosidade do seminarista, qualidades igualmente descobertas e admiradas por Teresa. As provações não são capazes de destruir sua confiança em Deus. No verão de 1896 os superiores do Seminário Maior negam seu pedido de tonsura, na época o primeiro passo para o estado religioso. O pedido de ingresso nas Missões Estrangeiras de Paris é igualmente negado. Maurice jamais comentou essa triste sequência de fatos em suas cartas para Teresa, mas é na carmelita que ele encontra uma voz amiga que incentiva e apóia seu desejo de seguir servindo ao Senhor em sua Igreja. 

“O Senhor vos fará seguir pelo mesmo caminho que eu”, ela escreve em 21 de junho de 1897. Em 1 de outubro de 1897 é tanto o primeiro dia de Teresa no céu como o primeiro dia de Maurice na África. 

Um ano depois da morte de Teresa chega até Maurice “História de uma Alma”, o livro contém as cartas trocadas entre ele e a carmelita, ele transborda de alegria: “Acabei de ler a primeira parte e terminei entre lágrimas, perplexo. Deus está entre aquelas páginas. Eu chorei. Os dois missionários que imploraram aos Céus com orações e lágrimas... Eu era o primeiro dentre eles. Que benção para mim!” 

Maurice reza constantemente para Teresa e leva consigo a fotografia que ela lhe enviara como presente: “Eu sei que ela está perto de mim, eu me acostumei a consultá-la antes de tomar uma decisão. Eu digo: Mostre-me o que devo fazer! Seu retrato está sempre diante de mim e muitas vezes me encontro ajoelhado diante dele em oração com fé e confiança.” 

Em agosto de 1898 deixou o noviciado de Argel e foi para o Seminário de Cartago. Recebeu a ordenação sacerdotal e 29 de junho de 1901. Após quatro anos longe de casa, voltou de férias, reencontrou a mãe e passou pelo Carmelo de Lisieux antes de receber sua primeira missão como sacerdote. Primeiramente foi designado como secretário do bispo de Argel, o seu conhecimento do inglês facilitava o contanto com o governo britânico. Entre as atividades do secretariado conheceu Dom Livianhac e Charles de Foucauld – o eremita do Saara. Após um breve tempo na França, Maurice embarca em Marselha no dia 29 de julho de 1902 com 10 companheiros para um uma longa viagem de 67 dias até Dar-es-Salaam às margens da Tanzânia. Marcham durante quinze dias levados de Nyassa até Chiwamba, ponto de encontro de todos os caminhos próximos. Maurice, felizmente, consegue encontrar outros três sacerdotes missionários, mas logo depois é enviado ao norte, para Likuni, com um irmão missionário. Ele fica gravemente doente e é salvo por pouco de uma febre biliosa, como escreverá em novembro de 1903 a um padre amigo: “Não se pergunte de um dia para o outro se receberá um telegrama informando que vosso irmão passou para a outra vida. Eu vivo cada dia somente.” O clima é terrível e os missionários morrem jovens, aproximadamente após seis anos de missão. 

Em 22 de outubro de 1905, Maurice deixa Likuni, oito anos após ter chegado na África, enfraquecido pela doença e desanimado pelas incompreensões a seu respeito por parte de um idoso bispo missionário, Dom Dupont que voltara a Likuni em 1904. Voltou para sua pátria sem a autorização dos superiores os quais ordenam que volte para sua missão. A doença o impede. Pediu então exclaustração da Sociedade dos Padres Brancos, voltando para a diocese de Bayeux. Sua saúde física e mental declinou rapidamente. Sofria insônia como conseqüência do tsé-tsé (epidemia grave entre o período de 1896-1906). Esta doença provocava diversos distúrbios neurológicos: agitação, confusão mental, insônia. Em 08 de junho de 1907 é hospitalizado no Bom Salvador de Caen, mesmo hospital onde estivera o pai de Teresa algumas décadas antes. Morreu em 14 de julho de 1907. Acabava de completar 33 anos.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Quando a Globo News vira Canção Nova...


Eu fiz o propósito de não assistir às análises feitas pela TV sobre a renúncia de Bento XVI, e estou sendo bem fiel. Entretanto, não posso negar que já presumo todas as baboseiras que são ditas e repetidas exaustivamente. Começa que, repentinamente, todos que até ontem sabiam absolutamente tudo de engenharia e ordenamento urbano - caso da boate Kiss - viraram especialistas em assuntos eclesiásticos. Pululam os pretensos vaticanistas e vaticanólogos que não se dão nem ao trabalho de procurar no google ou no yahoo as respostas para as dúvidas mais pueris a respeito da fé e da dinâmica interna da Igreja.

Temos alguns analistas que acreditam que a renúncia papal afeta o dogma da infalibilidade, outros que fazem o já usual discurso antitético entre o pontificado de João Paulo II e Bento XVI, e aqueles que se juntam ao coro dos defensores de um Papa latino-americano, um Papa moreno, preto, do povo, pensam. 1. Qualquer zapeada pela wikipedia já desmente a total credibilidade das análises que pretenderam diminuir a coesão lógica do dogma da infalibilidade com a saída do Santo Padre. Já no binômio Ratzinger-Wojtyla sobra boa intenção e falta honestidade: 2. João Paulo II, além de não ser o anjo de candura que os progressistas tanto aclamam - até Jean Wyllis o fez sem saber que o Sumo Pontífice polonês chamara o homossexualismo de "um comportamento intrinsecamente mau do ponto de vista moral" - foi o responsável pela ascensão do jovem Cardeal alemão no Vaticano. Ademais, esse papo de papa colorido, representante das nações pobres, esconde, de forma não tão velada, o anseio por um representante da cartilha moderna. Um Papa negro eles pedem, mas não querem os Cardeais africanos como Turkson ou Arinze. Vamos ter que mandar nossos teólogos brancos, latino-americanos e inculturados até a Mama África para ensinar aos negros o que é ser preto.

Além disso, veja como são as coisas, nos deparamos com jornalistas preocupados e profundamente perplexos com a perda de fiéis por parte da Igreja Católica. Nessas horas Globo News vira Canção Nova. A solução para tal queda só se encontraria, miraculosamente, na superação dos desafios apresentados pela modernidade: aborto, uniões homossexuais, eutanásia, política de gênero etc. A aceitação de tais demandas faria com que a Igreja estivesse, primeiramente, em consonância com a sua época e, em seguida, resolveria as dificuldades com a debandada de fiéis. Ora, a Igreja Episcopal, a Igreja Anglicana e as Igrejas Luteranas Nacionais já se abriram aos tempos, adaptadas e adaptando-se ao mundo contemporâneo, em total sintonia como a nova ordem mundial; ordenam periquito e papagaio e só faltam discutir a validade das relações pan-sexuais. Infelizmente, para a tristeza dos nossos sinceros vaticanistas, estão fechando as portas, reduzidas a um mero assistencialismo pragmático, em profunda crise institucional por falta de perspectiva de futuro.

Se a Igreja fosse tão mesquinha como pintam os seus críticos, e caso estivesse desesperadamente atrás de fiéis e caso fizesse algum sentido a associação de causa-efeito entre políticas liberais e aumento de membros, não vejo porque os Papas desde antes não permitiriam o relaxamento moral e sexual. Ora, algo está errado nessa equação! Qual o sentido lógico de se defender princípios que acarretam a diminuição do número de crentes, na leitura dos vaticanistas, ainda mais feita por uma instituição corrupta, ainda na visão dos vaticanálogos? Com uma Igreja tão tomada pela ânsia de poder e com líderes tão permissivos, a promiscuiedade já deveria ter se tornado em dogma faz tempo.

Entretanto, para o escândalo de muitos, e dos bem intencionados vaticanistas, a Igreja está aí, sozinha, na defesa de princípios, valores e verdade que não são agradáveis ao mundo moderno, já tão acostumado com a lascívia moral e lógica. Não faz sentido que existam homens, como Bento XVI, mais comprometidos com aquilo que é eterno do que com as demandas temporais que passam e passarão. No fundo o que eles querem é o óbvio, tornar a Igreja de Cristo como mais uma instituição em frangalhos, sem credibilidade para falar de si e do outro, sem autoridade no anúncio de Jesus Cristo, como a sombra do que um dia foi. Para eles, apenas, "não prevalecerão".

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Todos com Bento!



Diego Ferracini e Pedro Ravazzano

Todo ser humano que embarca no desafio da fé terá que, diversas vezes, decidir por qual direção caminhar tendo que escolher não entre algo bom e ruim, mas, isto sim, entre algo bom e algo melhor ainda. A existência humana, quando iluminada pela luz da fé, passa a ter horizontes mais largos, sente a realidade divina palpitante entre cada nova decisão, o pulsar celeste de um "Non praevalebunt!". 

A decisão de Joseph Ratzinger que calou o mundo de forma singela é um exemplo claro disso. Este homem que na plena posse de si não abandona a Barca de Pedro, mas a lança mais adiante com seu exemplo. Bento XVI no Annus Fidei, proclamado de forma jubilosa por ele mesmo, dá na mais radical concretude da fé um exemplo que acaba de entrar para a história. O exemplo de que o Papa não confia em si mesmo, mas no dono da Barca.    

Bento XVI, como um Cooperador da Verdade, foi – e é – um homem atento aos desafios apresentados pela modernidade. Em meio a um mundo dominado pela dúvida e cada vez mais distante do seu Criador, o Papa teve a coragem, e porque não dizer audácia, de reafirmar a força da crença, da fé. Talvez a sua posição incomodasse aos sequazes do espírito liberal. Bento XVI enfrentava as dificuldades da realidade moderna com a mesma serenidade com que portava um turíbulo durante a liturgia. 

A Verdade impõe a si mesmo. Bento XVI sabia disso e, portanto, jamais precisou apelar para a paixão retórica. Os seus discursos, pronunciamentos e homilias sempre foram marcados pela clareza lógica e profundidade de conteúdo. Este foi Papa que como nunca antes na história debateu e dialogou frontalmente com todas as questões apresentadas pelo mundo moderno. Mas, obviamente, sem incidir em concepções relativistas. Sendo um amante da Verdade, um verdadeiro pensador, foi fiel àquilo que, como católico, acreditava. Avançou no diálogo com judeus e muçulmanos, mas sem cair no subjetivismo nada produtivo, ao contrário, fomentou discussões sérias, encorpadas. O seu pontificado é, simplesmente, o pontificado da coerência. Pode-se não concordar com o que defendera, mas não se pode negar a sua fidelidade a tudo que compõe a unidade da fé católica.

O amor à Verdade, o amor à Igreja - a qual abraçou como esposo fiel e humilde - conduziram Sua Santidade a esta atitude. Na contemplação deste último ato soberano como Sucessor de Pedro reconhecemos nossa incapacidade de compreensão. Por mais que se façam especulações - algumas com reta intenção - o mistério sobre o qual se funda esta atitude jamais será conhecido. 

Um certo santo sentenciou em forma de oração: Omnes cum Petro ad Jesum per Mariam - Todos com Pedro a Jesus por Maria. Peçamos ao Divino Espírito Santo que nos conceda a unidade de fé e afeto ao Sucessor de Pedro, para irmos até o Cristo Ressuscitado pelas mãos maternas de Maria. A Virgem Santíssima, a quem tantas vezes Bento XVI demonstrou seu amor filial, seja o porto seguro e de descanso a este Exemplar trabalhador da Vinha do Senhor. 

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Abd el-Kader e o Massacre de Damasco



Tradução Pedro Ravazzano

O ano era 1860, e o mundo estava, como de costume, em convulsão. Na China, a Segunda Guerra do Ópio estava chegando ao fim. A América estava se preparando para uma grande cirurgia, na forma da Guerra Civil, que finalmente curaria a jovem nação de seu defeito congênito da escravidão. E no coração do Oriente Médio, numa província do Império Turco Otomano, que mais tarde se tornaria na moderna Síria, uma profana mistura estava se formando. É isso mesmo: a política foi unida à religião.

Cristãos e muçulmanos viveram lado-a-lado na terra santa há mais de mil anos. Exércitos muçulmanos conquistaram a moderna Síria, Líbano, Israel e Egito, em meados do século VII, e enquanto os muçulmanos mantinham a autoridade política plena, os cristãos e judeus estavam autorizados a praticar livremente sua religião. A noção de que os não-muçulmanos foram forçados a se converter na ponta da espada é ridícula - no Egito, por exemplo, estima-se que os muçulmanos só se tornaram metade da população no ano de 1200, 500 anos depois.

A área em torno do Líbano e da Síria, em particular, era um local como nenhum outro no séc. XIX quando o assunto se tratava da diversidade religiosa. Além de um número significativo de muçulmanos (sunitas e xiitas), de cristãos (católicos, católicos maronitas, ortodoxos gregos, caldeus, siríacos, e outros), e de judeus, havia também grupos religiosos como a alauítas e drusos, que se separaram séculos antes do Islã tradicional e agora se enxergavam como religiões próprias.

Pelos padrões da época, esses grupos viviam em relativa harmonia. O que quer dizer, também pelos padrões da época, que o fato desses grupos coexistirem ser um milagre. Se você fosse uma minoria religiosa em qualquer lugar do mundo sua vida estava em perigo. Apenas um ano antes, o primeiro pogrom ocorrera em Odessa, na Rússia, ceifando a vida de muitos judeus. Nem mesmo a América era imune a esse tipo de violência religiosa: em 1838, 18 homens mórmons foram mortos no massacre de Haun’s Mill, no Missouri.

Os maronitas e drusos estavam concentrados no Líbano. Os dois grupos nunca tinham gostado do outro e sua relação foi ficando ainda pior. Incrementava a tensão o fato das potências externas encorajarem ambos os lados. Os franceses apoiavam os cristãos, os britânicos apoiaram os drusos, e com o Império Otomano se desintegrando a cada dia, os governantes turcos foram incapazes, ou não, de acabarem com o conflito.

Em 1858, os camponeses cristãos no Líbano organizaram um levante contra seus senhores feudais drusos. Os drusos retaliaram. O Patriarca dos maronitas, então, ameaçou remover à força os drusos das montanhas libanesas. Assim, portanto, as coisas ficaram feias.

Em maio de 1860, um grupo de cristãos atirou num grupo de drusos fora de Beirute, matando um. Na onda de violência que se seguiu em ambos os lados, dezenas de aldeias foram queimadas e centenas de pessoas foram mortas. A violência se espalhou para fora do Líbano e caminhara até a Síria, em direção a Damasco, onde ambiciosos homens estavam conspirando para dar uma forma a esta violência, até então desorganizada, em algo muito mais bizarro.

O principal deles fora o governador turco de Damasco, Ahmed Pasha, que não queria nada além do que dar a sua população uma "correção" - hoje diríamos limpeza étnica. Em março, ele já tinha começado uma reunião secreta com dois chefes dos drusos e com o mufti de Damasco. Juntos, eles traçaram um plano para provocar uma guerra total no bairro cristão da cidade.

O plano parece ter sido este: os drusos incitariam ataques contra os cristãos, "forçando" os turcos a intervir e, teoricamente buscando proteger a comunidade crista, a escoltaria até uma cidadela fora da cidade. Lá, conspiradores drusos estariam esperando para matá-los. 

Com o aumento das tensões entre os dois lados a cada dia, seria necessária uma única fagulha para acender o fogo. Esta chama foi acesa em 08 de julho. Pasha havia providenciado alguns meninos muçulmanos para desenhar imagens de cruzes na beira do bairro cristão da cidade, depois as profanaria, cuspindo e jogando lixo sobre elas. As aturdidas crianças foram imediatamente presas, punidas por ter provocado a ira da grande comunidade muçulmana.

"Em 9 de julho, os culpados, meros suportes num cenário planejado por Ahmed Pasha, foram ordenados a ser publicamente açoitados, então forçados, pelas mãos e joelhos, a limparem as ruas que sujaram com o lixo. Os provocadores fizeram o resto. "

O massacre de Damasco tinha começado.

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"Foi-me dito que Abd el-Kader fora o  George Washington argelino, o pai da moderna Argélia (...)  Abd el-Kader foi o primeiro árabe a criar uma aparência de unidade tribal para combater a ocupação francesa. Mas com a derrota, notei uma semelhança com Robert E. Lee. Ele era gentil, generoso, respeitado por seus inimigos e profundamente religioso.
"

Abd el-Kader foi um desses homens que, nas palavras de Shakespeare, tinha a grandeza sobre ele. Ele certamente não nasceu para si. Era proveniente de uma região remota da província turca da que hoje chamamos Argélia, em 1808, numa família tribal nas bordas do deserto do Saara. Você seria duramente pressionado a encontrar uma região tão menos improvável na terra para o surgimento de um dos homens mais influentes do século.

Abd el-Kader nasceu numa tribo de guerreiros, homens que durante séculos tinham colocado a valentia acima de tudo e valorizado um cavalo rápido e resistente. Seu pai, Muhi al-Din, era um marabu, um líder religioso de sua tribo, e um líder de uma tradição suf conhecida como ordem Kadiriyya. Esperava-se, a partir do momento de seu nascimento, que Abd el-Kader seguiria os passos de seu pai. "Seu destino, caso tivesse abraçado o de mentor, teria sido a de um monge casado, vivendo uma vida de oração, meditação e ensino".

Como todos os homens de sua tribo, Abd el-Kader foi treinado em equitação e esgrima e nas outras artes de guerra, mas a sua formação principal era em seus estudos religiosos. Quando adolescente, ele foi enviado por seu pai para a cidade de Oran para continuar seus estudos. Ele voltou para casa com quinzes anos. Com dezessete se casara, e, em seguida, partiu com seu pai para a peregrinação a Meca, uma viagem que levaria dois anos para ser concluída. Esta viagem incluiu paradas em Damasco e Bagdá, onde "este jovem magrebiano de incrível conhecimento e agilidade intelectual espalhava a sua palavra e poderia muito educadamente mantê-la diante dos principais estudiosos da cidade." Abd el-Kader voltou para sua aldeia natal de Mascara em 1828, e provavelmente teria passado o resto de sua vida lá não fossem a interferência dos eventos.

E eles interferiram. Em 1830, o rei Carlos da França, viu uma campanha imperial como uma ótima maneira de combater a sua impopularidade em casa, e, assim, usara um pequeno incidente diplomático como desculpa para invadir a Argélia. Argel se rendeu aos franceses rapidamente e sem derramamento de sangue, embora não tenha sido suficiente para salvar o rei, Carlos, que abdicou ao final daquele ano, e transferiu a coroa para seu primo, Louis-Phillipe.

Se os franceses tivessem sido mais generosos na vitória, a guerra poderia ter sido mais rápida. Os turcos não eram bem quistos pela população local, por isso, se era apenas uma questão de pagar impostos a um líder diferente, a maioria dos cidadãos teria aderido com um protesto mínimo.

Mas como tantos conquistadores estrangeiros, os franceses logo colocaram a população local contra eles por serem desnecessariamente duros e completamente surdos à cultura local. Ademais, expulsaram os turcos, o único grupo de pessoas que poderia ter servido como intermediário. Como Alexis de Tocqueville escrevera em 1837, "Uma vez que o governo turco foi destruído e nenhum substituto fora colocado em seu lugar, o país caiu na terrível anarquia."

O vácuo político gritava pela liderança, que por padrão caiu sobre os líderes religiosos de várias tribos fora da cidade. A brutalidade da ocupação francesa forçou os líderes tribais religiosos a se unir contra o opressor. Em 1832, as várias tribos se uniram para nomear o pai de Abd el-Kader, Muhi al-Din, seu sultão.

Muhi al-Din concordou, mas com uma condição: que imediatamente depois de aceitar o cargo, abdicaria em favor de seu filho. Esta cláusula fora recebida com aprovação imediata; o conhecimento religioso de  el-Kader, sua força e coragem, já eram famosas em toda a região. Na idade de vinte e quatro anos, Abd el-Kader tornou-se o líder de seu povo numa guerra contra a ocupação estrangeira. Ele logo ganharia o título de "Emir al-Mumineen", o Comandante dos Crentes.

Em retrospecto, a tarefa de Abd el-Kader era desesperançosa desde o início. Nenhuma quantidade de brio militar poderia fazer diferença diante do poder e tecnologia do exército francês confrontado com um grupo desorganizado de beduínos argelinos. Mas o homem fez a sua tentativa.

Durante quinze anos Abd el-Kader conduziu seu povo na resistência contra os franceses. Ele levou os seus soldados, por exemplo, a ficarem dia e noite sobre a sela, parando apenas para rezar, às vezes cobrindo até 150 milhas num dia para enfrentar o inimigo na batalha. Os franceses ficaram surpresos, e depois impressionados, com o poderio militar de seu jovem inimigo.

Abd el-Kader não travou simplesmente uma guerra contra os franceses, mas também estava lutando para estabelecer uma nação entre seu próprio povo. Ele formou um exército independente. Ele estabeleceu e recolhia impostos necessários para manter seu exército abastecido. Ele criou um gabinete de conselheiros, incluindo um comerciante judeu que serviu como seu embaixador junto aos franceses.

Ele teve que lutar não só com os franceses, mas com os líderes do seu próprio povo, muitos dos quais não eram avessos a trabalhar com o inimigo ou rebelar-se de outras formas, se isso lhes conviesse.

Em 1834, as forças de Abd el-Kader havia conseguido tal sucesso que o general francês encarregado de subjugá-los pediu por um cessar-fogo, que foi concedido. Alguns extremistas em sua própria comunidade rotulou-o como um herege por conta da negociação com os franceses, forçando Abd el-Kader a travar outra batalha para derrotá-los.

Um ano depois, porém, um outro general do exército francês usou um frágil pretexto para romper o cessar-fogo e marchar sobre as forças de Abd el-Kader. As forças francesas foram emboscadas e sofreram uma derrota humilhante, que incrementou a reputação de Abd el-Kader, tanto junto ao seu próprio povo como ao redor do mundo. 

Isso só fez deixar os franceses ainda mais furiosos e, assim, em 1836, eles vieram com mais forças e mais determinação para exterminar seu adversário. Abd el-Kader aprendeu rapidamente que ele não poderia derrotar o exército francês numa batalha de campo, e recorreu a ataques relâmpago, com sua cavalaria emergindo do deserto como surpresa e destruindo a unidade francesa, e depois desaparecendo na areia tão rapidamente.

Enquanto isso, as façanhas deste indestemível líder guerrilheiro, subfinanciado, levantando-se contra a poderosa França, começaram a atrair o interesse dos britânicos e dos americanos - os britânicos por causa de sua rivalidade de longa data com os franceses e os americanos por conta de sua própria experiência lutando contra imperialismo britânico apenas algumas décadas antes.

As façanhas de Abd el-Kader foram contadas na América em publicações populares, como a Little’s Living Age, e um leitor foi suficientemente tomado por el-Kader a ponto de nomear uma cidade em sua homenagem. Timothy Davis, um advogado que tinha estabelecido em Dubuque, em 1836 (Iowa ainda não era um Estado, que ainda era parte do território da Louisiana), adquiriu uma propriedade nas proximidades do Rio Turquia, que parecia ideal para um moinho de farinha, e projetou uma nova cidade a ser construída ao redor da usina. "Então, Timothy Davis, um espírito pioneiro, advogado respeitado e admirador distante deste resistente azarão, nomeava em seguida o novo assentamento de Abd el-Kader, sabiamente encurtado para línguas americanas como Elkader".

Elkader, Iowa, foi fundada em 1846. Permanece até hoje como a sede do condado de Clayton, com uma população de cerca de 1500. É a única cidade da América com um nome em árabe.

Em 1837, o general Thomas Bugeaud fora encarregado das operações francesas na Argélia. Sua missão inicial era garantir outro tratado de paz com Abd el-Kader, o que ele fez. Este tratado reconheceu a soberania da França sobre as cidades costeiras de Argel e Oran, embora concedendo as regiões desérticas do interior a Abd el-Kader. Mais uma vez, o governo francês não estava satisfeito com os termos do tratado depois que os detalhes se tornaram conhecidos. Além disso, o texto do tratado em árabe era pouco, mas fundamentalmente, diferente do texto em francês. Em 1839, os franceses aproveitaram da ambigüidade para marchar seu exército através de uma região do país que estava proibida a eles na versão árabe. A guerra tem um novo começo.

Por volta de 1841, os franceses já estavam cansados com a resistência de Abd el-Kader e seu pequeno exército. Ficou claro que suas táticas de guerra convencionais não estavam funcionando. Geral Bugeaud deu a sua recomendação ao Parlamento. "Precisamos de um líder que deverá ser implacável e de uma guerra ilimitada." Ele estava se referindo a si mesmo.

Para os próximos seis anos, a França travaria uma guerra intensa. Mais de 100 mil soldados - um terço de todo o exército francês - estava estacionado na Argélia, e eles não se sentiram constrangidos pelas regras comuns da guerra. Casas foram queimadas, o gado foi baleado, lavouras foram destruídas. Se Abd el-Kader foi Robert E. Lee, então Bugeaud foi William T. Sherman.

Nas palavras de um dos oficiais de maior confiança Bugeaud, "Eu não deixarei em pé sequer uma árvore em seus pomares, nenhuma cabeça sobre os ombros destes árabes miseráveis (...) Vou queimar tudo, matar todo mundo." O mesmo oficial foi responsável pelo asfixiamento de centenas de homens, mulheres e crianças, que tinham se refugiados dentro de uma série de cavernas. Na imprensa inglesa, Bugeaud ficou conhecido como "O Açougueiro dos beduínos".

Por outro lado, Abd el-Kader conduzira a guerra  da forma mais civilizada possível. Ele planejou uma série de regras para o tratamento de prisioneiros que foram, em alguns aspectos, precursoras das regras oficiais codificadas na Convenção de Genebra em 1949. Num exemplo, ele libertou um grupo de soldados franceses capturados porque não tinha comida suficiente para alimentá-los. Alguns prisioneiros ficaram tão impressionados com o tratamento dado por Abd el-Kader que chegaram ao ponto de formalmente desertarem para o outro lado, servindo como consultores estrangeiros para o emir.

Através de intermediários, Abd el-Kader desenvolvera correspondência com o Bispo de Argel, concordando em libertar os prisioneiros de guerra franceses em troca da promessa do bispo de pressionar os militares franceses na libertação dos prisioneiros árabes - o que ele fez, com sucesso limitado. Se os soldados franceses sabiam que não seriam abatidos pelo inimigo caso fossem feitos prisioneiros, eles não lutariam tão apaixonadamente. Como o coronel francês escreveu: "Nós somos obrigados a fazer o máximo possível para esconder essas coisas [o tratamento dado aos prisioneiros franceses pelo emir] de nossos soldados. Porque se eles suspeitassem de tais questões, não se lançariam com tanta fúria contra Abd el-Kader. "

Os presos levados até Abd el-Kader eram questionados para se certificar de que tinham sido bem tratados em sua viagem, se não fossem, o soldado argelino responsável por seus cuidados era açoitado. As mulheres cativas foram entregues aos cuidados da única pessoa no mundo que Abd el-Kader mais confiava: sua própria mãe.

Mas os franceses eram muito fortes, e os argelinos de Abd el-Kader  muito desunidos. Em 1847 ele não estava lutando uma guerra tanto como estava fugindo da captura. Seus tenentes começavam a render-se aos franceses. Abd el-Kader levou sua família para Marrocos, em busca de refúgio, mas foram expulsos pelo sultão, que não queria instigar a ira da França. Muitos de seus seguidores leais restantes queriam lançar um último ataque, para sair num momento de glória. Abd el-Kader recusou tal intento.

"Se eu achasse que ainda havia a possibilidade de derrotar a França, eu continuaria. Mais resistência só irá criar sofrimento vão. Devemos aceitar o julgamento de Deus, que não nos deu a vitória e que, em Sua infinita sabedoria, quer agora esta terra pertencente aos cristãos. Será que vamos nos opor à Sua vontade? "

Em dezembro de 1847, Abd el-Kader mandou comunicar ao general Lamoriciére, agora líder da batalha contra ele, que estava preparado para discutir os termos de sua rendição. Um acordo foi alcançado, e assinado pelo próprio filho do rei, onde se falava da rendição de Abd el-Kader e de seus homens, terminando a guerra que durara quinze anos, em troca de passagem segura para Alexandria ou Acre no Egito, onde Abd el-Kader planejava o viver o resto de seus dias.

E, mais uma vez, Abd el-Kader foi traído, quando o acordo que chegara não permitia que fosse aceita a sua liberdade. Os franceses tinham outras coisas em mente sobre o que fazer com Abd el-Kader - a monarquia do rei Louis-Philippe estava em colapso, e em fevereiro de 1848 ele abdicara antes que pudesse ser derrubado. O novo governo se recusou a ratificar o acordo. Abd el-Kader e sua família foram forçados a se mudar para a França, onde se tornaram prisioneiros - num ambiente bastante luxuoso - por mais de quatro anos.

A traição francesa a Abd el-Kader só fez dele uma figura ainda mais heróica aos olhos do mundo. Em 1850, um cavalo chamado Abd el-Kader (apelidado de "Pequeno Ab ") participou do Grand National Steeple Chase,  na Inglaterra. O cavalo, como uma possibilidade remota de 33-1, venceu. E venceu a corrida também no ano seguinte. O autor britânico William Thackeray escreveu uma elegia à Abd el-Kader, intitulada "The Caged Hawk." De Tocqueville chamara Abd el-Kader de "um Cromwell muçulmano".

Na França, Abd el-Kader se tornou numa espécie de celebridade. "Um culto começou a se formar em torno da pessoa do emir. Franceses vinham de todos os cantos para visitá-lo”. Foi, imagino eu, uma espécie de versão do século 19 daquilo que ocorrera no encontro do Papa no Yankee Stadium. Num determinado ponto foi atribuído um novo guarda para Abd el-Kader que pediu para ser transferido porque "ele queria a honra de guardar o emir para pagar a consideração pela qual foi tratado quando foi ex-prisioneiro." Como uma freira que cuidou da família de Abd el-Kader escreveu a seu superior; "excetuando algumas questões de natureza teológica, não há nenhuma virtude cristã que Abd el-Kader não pratique no mais alto grau."

Em 1849, os cidadãos de Bordeaux colocaram o nome de Abd el-Kader na cédula de votação como candidato nas eleições presidenciais. Em 1852, a opinião pública francesa se transformara em favor de seu inimigo derrotado e o presidente eleito, Luís Napoleão (em breve Imperador Napoleão III), anunciou que Abd el-Kader estava prestes a ser libertado. Depois de um desfile triunfal pelas ruas de Paris, Abd el-Kader e sua família foram enviados para Bursa, cidade turca não muito longe de Istambul. Bursa não se contentara com a chegada do emir, porém, e em 1855 - depois de obter a aprovação de Napoleão - Abd el-Kader mudou-se para Damasco.

No caminho de Damasco, Abd el-Kader conheceu e fez amizade com o adido militar britânico no Líbano, o coronel Charles Henry Churchill - primo distante de Winston. Churchill acabaria por escrever a biografia definitiva de Abd el-Kader e de seu tempo. Quando Abd el-Kader chegou em Damasco, como Churchill escreveu, "desde os dias de Saladino ninguém recebeu uma tão recepção triunfal."

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E foi assim que, em 1860, Abd el-Kader, o herói trágico do mundo árabe, encontrou-se no epicentro do turbilhão. Abd el-Kader já havia se retirado da vida política, mas ainda exercia uma quantidade substancial de poder simbólico, caso precisasse. E ele exerceria tal influência.

Ligado como ele era junto às elites de Damasco, Abd el-Kader ouvira rumores de que certos elementos da sociedade damascena estavam planejando tirar vantagem da violência no Líbano para lançar um ataque contra os cristãos locais. Ele estava suficientemente preocupado a ponto de informar ao cônsul francês e, juntos, foram ver o governador, Ahmed Pasha. Este, por sua vez, não acreditava que esta conspiração fosse se concretizar. Pasha assegurou que não havia nenhum motivo para os rumores.

No entanto, os rumores eram tão persistentes que o cônsul foi convencido a fazer algo extraordinário: sob o mais rigoroso sigilo, autorizou o gasto de dinheiro francês para armar Abd el-Kader e mil de seus homens argelinos.

Em 08 de julho, Abd el-Kader tinha descoberto os detalhes da trama entre os drusos e os turcos e se organizara fora da cidade para enfrentar a cavalaria drusa  antes que atacassem. Ele - e seu pequeno exército – conseguiu convencê-los a desistir do seu ataque. Entretanto, estava alheio ao fato de que havia uma multidão já varrendo Damasco.

Ele voltou para a cidade em 10 de julho e encontrou o caos estruturado. "Abd el-Kader logo descobriu que as tropas turcas, designadas para proteger a população, tinha sido enviadas para a cidadela ou ficaram observando com interesse enquanto manifestantes estavam furiosamente queimando casas e matando os cristãos."

Naquele momento, Abd el-Kader, o homem que conduziu seu povo muçulmano numa guerra contra os invasores cristãos por quinze anos, sabia o que tinha que fazer. E sabia que tinha que fazê-lo rapidamente.

Primeiro, ele e seus homens correram para o consulado francês para criar um porto seguro. Os franceses foram imediatamente acompanhados pelos diplomatas russos, americanos, holandeses e gregos que procuravam fugir do local. E, em seguida:

Durante toda a tarde de 10 de julho, Abd el-Kader adentrou no caos do bairro cristão, com seus dois filhos,  gritando: "Cristãos, venham comigo! Sou Abd el-Kader, filho de Muhi al-Din, o argelino ... Confiem em mim. Eu vou te proteger. "Durante várias horas os argelinos levaram hesitantes cristãos para a sua casa fortaleza em Nekib Allée, cujos dois andares interiores e os grandes pátios iriam se tornar num refúgio para as desesperadas vítimas. 

"Quando a noite estava avançada, hordas de saqueadores - curdos, árabes, drusos - entraram no bairro e inflaram a multidão furiosa, que, já saturada de despojos, começou a clamar por sangue. Homens e meninos de todas as idades foram obrigados a apostatar e, em seguida, foram circuncidados no local ... As mulheres foram estupradas ou levadas para partes distantes do país, onde foram colocadas em haréns ou casadas instantaneamente com muçulmanos ", escreveu Churchill sobre estes eventos. "Dizer que os turcos não tomaram nenhuma iniciativa para controlar este massacre e destruição seria supérfluo. Eles foram coniventes com tudo isso, instigaram e fizeram parte. Abd el-Kader sozinho ficou entre os vivos e os mortos ".


Abd el-Kader voltou com seus homens e todos os cristãos podiam agora se sentir em segurança na sua propriedade.

A notícia se espalhou entre os manifestantes que o emir estava protegendo os cristãos. No dia seguinte, uma multidão enfurecida se reuniu em sua porta para protestar. Eles estavam dispostos a tolerar o abrigo dado aos diplomatas, mas exigiram que abrisse mão dos cristãos locais sob sua proteção. Como a multidão ficava ainda mais revoltada, o emir chegou à porta.

"Dá-nos os cristãos", gritava a multidão depois que ele acalmou-a unicamente com a sua presença silenciosa.

"Meus irmãos, o seu comportamento viola a lei de Deus. O que faz vocês pensarem que têm o direito de sair por aí matando pessoas inocentes? Vocês afundaram tão baixo que até estão matando mulheres e crianças? Deus não diz em nosso Livro Sagrado que quem mata um homem que nunca cometeu um assassinato ou que tenha criado desordem na terra será considerado como um assassino de toda a humanidade?!"

"Dá-nos os cristãos! Queremos os cristãos! "

"Não disse Deus que não deveria haver nenhuma coação na religião?" O emir em vão respondeu.

"Oh santo guerreiro", gritou um dos líderes do grupo. "Nós não queremos o seu conselho. Por que você mete o nariz no nosso negócio? "

"Você matou cristãos", gritou outro. "Como você pode opor-nos por responder aos seus insultos. Você é mesmo como os infiéis – abre mão daqueles que está protegendo em sua casa ou será punido do mesmo modo como estes que está escondendo " 

"Vocês são loucos! Os cristãos que morreram eram invasores e ocupantes que assolaram nosso país. Se agir contra a lei de Deus não os assusta, então pensem sobre o castigo que vão receber dos homens ... Vai ser terrível, eu prometo. Se vocês não vai me ouvirem, então Deus não irá ampará-los com razão - vocês são como os animais que são despertados somente pela visão do capim e água "

"Você pode manter os diplomatas. Dê-nos os cristãos ", gritou a multidão, parecendo mais e mais como romanos no Coliseu.

"Enquanto um dos meus soldados ainda estiver de pé, vocês não vão tocá-los. Eles são meus convidados. Assassinos de mulheres e crianças, vocês filhos de pecado, tentem tirar um desses cristãos e vão aprender o quão bem lutam os meus soldados. " O emir virou-se para Kara Mohammade. “Pegue minhas armas, meu cavalo. Vamos lutar por uma causa justa, assim como aquela que lutamos antes. "

"Deus é grande", seus homens gritaram, brandindo suas armas e espadas. Diante dos experientes soldados veteranos do emir, a multidão se dissipou atirando insultos.

Bem mais de mil refugiados cristãos foram alojados dentro de casa de Abd el-Kader, tornando-a tão lotada que as pessoas não podiam sentar-se ou deitar-se, e muito menos utilizar as instalações. Então, Abd el-Kader organizou pequenos grupos com seus homens argelinos para acompanhar os cristãos, em grupos de 100, para a cidadela fora da cidade - a mesma cidadela que os drusos tinha originalmente planejado usar para matá-los.

A residência foi finalmente esvaziada e limpa. Abd el-Kader, em seguida, mandou espalhar a notícia que uma recompensa de 50 piastras seria paga por cada cristão que fosse levado para sua casa. Durante cinco dias, o emir raramente dormia, e quando o fez, foi numa esteira de palha no hall de entrada de sua residência, onde ele distribuía o dinheiro de recompensa tirado de um saco que ele mantinha ao seu lado. Assim que 100 refugiados foram recolhidos, seus argelinos os acompanharam até a cidadela.
O pior da rebelião terminou em 13 de julho de 1860 - 150 anos atrás. Pelo menos 3.000 cristãos foram mortos antes que tudo tivesse acabado. A Abd el-Kader foi creditado a salvação de mais de 10 mil cristãos, incluindo todo o corpo diplomático europeu.

A notícia chegou à França uma semana depois - tanto a respeito do horrível massacre, como do incrível e central papel de Abd el-Kader no combate. Os franceses ficaram em êxtase e pasmados. Editoriais elogiando suas ações foram impressos em jornais de todo o país. Le Gazette de France escreveu: 

"O emir Abd el-Kader imortalizou-se pela proteção corajosa que deu os cristãos sírios. Uma das mais belas páginas da história do século 19 será dedicada a ele" Outro jornal escreveu: "...Quando a carnificina estava no seu ápice, o emir apareceu nas ruas, como que enviado por Deus "
A notícia também viajou através do Atlântico. Em 20 de outubro, o New York Times publicou o seu editorial:

"Para Abd-el-Kader este é realmente um capítulo de glória, e da verdadeira glória, também. Não há tão grande feito para a história gravar, que o soldado mais intransigente da independência maometana, quando esta independência manteve as montanhas, brandindo sua espada, tornar-se o guardião mais intrépido da vida e honra cristã nos dias de sua queda política, e no declínio tanto de seu povo e de sua fé. As derrotas que levaram os argelinos a se renderem aos franceses foi estranhamente e nobremente vingada ... Hoje o mundo cristão se une para honrar o Príncipe destronado do Islã, o mais altruísta dos cavaleiros guerreiros, arriscando os seus seguidores e suas vidas para resgatar seus antigos inimigos, seus conquistadores e os vencedores de sua raça e de sua religião, do ultraje e da morte ".

(O New York Times tem, impressionantemente, arquivos que datam desde 1851. Você pode ler o editorial completo aqui.)

Abd el-Kader não fora o único muçulmano que se esforçou para defender os cristãos de Damasco da multidão furiosa. Em particular, na área de Damasco conhecido como Maydan, que (naquela época e agora) era a casa dos muçulmanos mais devotos na cidade, os muçulmanos esconderam e protegeram seus vizinhos cristãos da violência. Mas Abd el-Kader se tornou o rosto islâmico que se levantou em defesa da comunidade cristã e, como tal, as honras e elogios caíram de todo o mundo sobre ele.

Os franceses imediatamente concederam a Abd el-Kader, que apenas uma década antes tinha sido o seu maior inimigo, a Legião de Honra francesa. (Isto seria como a América que, em 1987, concedeu a Medalha de Honra do Congresso para Ho Chi Minh). Rússia, Espanha, Prússia, Grã-Bretanha, e até Papa o premiaram com várias distinções. Dos Estados Unidos vieram de presente um par de pistolas colt finamente forjadas - uma fonte afirma que foram feitas de ouro - entregues numa caixa que trazia a inscrição: Do presidente dos Estados Unidos, a Sua Excelência, o Senhor Abdelkader, 1860. "

(Duas das minhas fontes afirmam que quem enviara o presente fora o Presidente Lincoln e não o Presidente Buchanan. O que tornaria a história ainda melhor - uma dos nossos melhores presidentes, ao invés de um de nossos piores. Lincoln não assumiu o cargo até março de 1861.)

Abd el-Kader era caracteristicamente modesto sobre seu papel nessa história. Numa carta ao bispo de Argel, escrevera:

"... O que nós fizemos para os cristãos, fizemos para sermos fiéis à lei islâmica e respeitosos com os direitos humanos. Todas as criaturas são parte da família de Deus e os mais amados por Deus são aqueles que fazem o melhor para sua família. Todas as religiões do livro se fundamentam em dois princípios - louvar a Deus e ter compaixão pelas suas criaturas ... A lei de Maomé dá maior importância à compaixão e à misericórdia, e tudo aquilo que preserva a coesão social e nos protege da divisão. Mas aqueles que pertencem à religião de Maomé corromperam isso e é por tal razão que eles estão agora como ovelhas perdidas. Obrigado por suas orações e bons votos a mim... "
O impacto do massacre foi significativo. Assim que a notícia chegou à França, um exército foi enviado para o Líbano. O sultão turco, buscando acabar com qualquer argumento dos franceses para a invasão, despachou o seu próprio exército até Damasco para identificar e processar os perpetradores. No final, mais de 300 homens foram considerados culpados, metade dos quais foram exilados do império. Os outros foram condenados à morte, incluindo o governador, Ahmed Pasha, que foi fuzilado. Mas a questão de quem fora o verdadeiro mandante do massacre - se foram os turcos, que queriam vingança, ou se foram até mesmo os britânicos ou franceses que estavam procurando uma desculpa para ocupar Síria - permanece sem solução até hoje.

Enquanto isso, tantos franceses como ingleses tinham projetos na área e, como na espreita até o dia em que pudessem colonizar a região, foi lançada a idéia da instalação de Abd el-Kader como o governante de Damasco. O único problema era que Abd el-Kader não tinha interesse. Como ele disse a um jornalista francês, "Minha carreira política acabou. Eu não tenho nenhuma ambição de glória mundana. A partir de agora, quero apenas os doces prazeres da família, oração e paz."

Ele foi fiel à sua palavra. Abd el-Kader viveu o resto de seus dias em Damasco e sua residência estava na lista de visita obrigatória de qualquer europeu que chegava na cidade. Em 1869, Abd el-Kader fora influente no convencimento dos árabes na importância do projeto para a construção de canal ligando o Mediterrâneo ao Mar Vermelho, o que ajudou a tornar o Canal de Suez uma realidade.

Abd el-Kader, ademais, vivera uma vida de espiritualidade simples, gastando muito de seu tempo escrevendo um comentário sobre as obras de Ibn Arabi, o famoso muçulmano erudito do séc. XIII. Ele morreu de insuficiência renal em 25 de maio de 1883 e foi sepultado junto ao túmulo de Ibn Arabi, em Damasco. O New York Times publicou um obituário poucos meses antes de sua morte, que dizia:

"Um dos mais hábeis governantes e um dos capitães mais brilhantes do século, se as estimativas feitas por seus inimigos estão corretas, está agora, com toda a probabilidade, se aproximando ao final de sua carreira tempestuosa ... A nobreza de seu caráter, não menos do que o brilho de suas façanhas no campo, há muito ganhou a admiração do mundo ... Os grandes homens não são tão abundantes a ponto de darmos o luxo de perdê-los sem uma palavra. Se ser um patriota, um soldado cujo gênio é inquestionável, cuja honra é inoxidável, um estadista que poderia fazer das tribos selvagens da África num formidável inimigo, um herói que poderia aceitar a derrota e o desastre sem um murmúrio - se tudo isso constitui um grande homem, Abd-el-Kader merece ser classificado entre os primeiros dos poucos grandes homens do século. " 

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Uma das pessoas mais jovens a acompanhar Abd el-Kader em sua viagem ao exílio, primeiro na  França e depois em Damasco, foi Muhammad Yunus, que tinha apenas sete anos de idade quando deixou a Argélia. Quando a multidão invadiu Damasco, Muhammad Yunus Al-Jaza'iri (Al-Jaza'iri é "o argelino" em  árabe para) estava com os seus 20 anos, mas já tinha ganho uma posição como confidente de Abd el-Kader e ocupava um lugar de destaque no Exército do emir. Ainda desempenhou um papel fundamental no resgate dos cristãos. O que não é surpreendente, já que o próprio pai de Muhammad Yunus, Muhammad Sha'aban, tinha sido um dos tenentes mais confiáveis de Abd el-Kader durante a guerra na Argélia. Além disso, Abd el-Kader era seu tio.

Enquanto a fama Abd el-Kader o fez intocável, aqueles em torno a ele não tiveram a mesma sorte. Muhammad Yunus foi envenenado e morreu subitamente em 1880. Os drusos foram suspeitos, mas nada foi provado.

Quando Muhammad Yunus morreu, o próprio Abd el-Kader se tornou no executor de sua propriedade, e até a sua morte foi ele o guardião do filho de Muhammad Yunus, Mahmoud, meu bisavô.

Muhammad Yunus era o meu trisavô.

Abd el-Kader, discernindo da melhor forma os registros de genealogia, era meu penta-tio-avô.

Eu tenho escrito profissionalmente há 15 anos, e particularmente desde 9/11 eu venho tentando, quando as circunstâncias permitiam, fazer deste um tema subjacente no meu trabalho: que os muçulmanos e os cristãos possam viver juntos, que há mais que nos une do que nos divide, que só os extremistas, de ambos os lados, querem ver um choque de civilizações, e não co-existência, instalado.

Só sei que grandes homens trilharam este caminho antes de nós. Meus esforços para fazê-lo são um grão de poeira sobre uma enorme montanha de tolerância que meus antepassados construíram em 1860. Eu me sinto honrando em ecoar, qualquer ínfima parte que seja, a mensagem que Abd el-Kader espalhou de forma tão eloquente, e com tal impacto, há 150 anos atrás.

(Todas as palavras em itálico acima foram retiradas diretamente do maravilhoso livro de John W. Kiser, Commander of the Faithful: The Life and Times of Emir Abd el-Kader,, sem o qual este artigo não poderia ter sido escrito)