quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Mère Marie-Salomé

Original em: http://www.soeurs-blanches.cef.fr/qui-sommes-nous/fondation/mere-marie-salome-histoire-et-les-debuts-difficiles/

Tradução de Diego Ferracini

Sexta filha de René Roudaut e Marie-Jeanne Lessec, Marie-Renée Roudaut nasceu em Guisseny no dia 03 de março de 1847, foi batizada no dia seguinte. Dois meninos ainda nasceriam na família de agricultores, profundamente cristãos, que formam aquela família cristã na qual os pais ensinam aos filhos o bom senso, a coragem e a fé. Perto de completar dez anos, Marie-Renée foi enviada às Filhas do Espírito Santo, onde aprendeu o francês e se preparou para a Primeira Comunhão. No dia seguinte ao da grande celebração, ela confiou à sua madre que havia pedido esta graça: “Tornar-se santa, fazendo tudo que fosse da Vontade de Deus.” Pouco depois, a família Roudaut foi se estabelecer em uma fazenda no povoado de Keranaou em Plouguernau. Algum tempo depois seu pai morreu e Marie-Renée teve de escolher entre a escola e o trabalho no campo para ajudar sua mãe e irmãos. Ela sente um profundo chamado à vida religiosa, mas onde e como? Finalmente decidira entrar nas “Filhas do Espírito Santo”, mas um acidente de carroça lhe quebrara o braço e impediu a entrada no dia fixado. Ela vê como um sinal de que Deus deseja fazê-la esperar, ela aceita. 

Em um lugar bem distante – na Argélia – em 1869, Dom Charles Lavigerie, bispo da diocese, depois de dois anos de trabalho se depara com uma terrível epidemia de cólera juntamente com uma escassez que dizimou a população. Ele então percebe que apenas novas apóstolas seriam capazes de alimentar e educar os órfãos que migram para o bispado. 

Ele fundara no ano anterior a Sociedade dos Padres Brancos para a evangelização da África e faria dessas mulheres uma ajuda apostólica ao trabalho dos Padres Brancos. Mas onde encontrá-las?
Decidiu, então, enviar em seguida o Padre Le Mauff – sacerdote da diocese de Argel, para uma viagem à Bretanha, sua terra natal. O sacerdote voltou à Argélia em 9 de setembro de 1869 com oito moças, somente quatro perseverariam, seriam as “primeiras pedras” da futura congregação.  

Uma prima de Marie-Renée havia seguido o padre Le Mauff, mas por causa de uma doença fora obrigada a deixar o noviciado e voltar para casa em 1871. Marie-Renée questionou o que ela havia feito na Argélia. Yvonne comenta sobre os órfãos árabes acolhidos por Dom Lavigerie, fala dos trabalhos na padaria e na lavanderia, e conclui: “Eu deixei meu coração naquele lugar e mesmo se nunca for curada eu voltarei!” Então, Marie-Renée se decide: “Eu vou no lugar de Yvonne”, e pede admissão. 

A parte mais difícil foi obter o consentimento de sua mãe. Com a ajuda de seu irmão mais velho, ela sai de casa no dia dois de outubro de 1871. É primeira vez que anda de trem, mas uma prima (Maria Roudaut) a acompanha ao postulantado que acaba de ser aberto em Vans, Ardéche.

Após essa primeira etapa, Marie-Renée com suas quatro companheiras no dia 18 de janeiro de 1872 prosseguem sua formação em São Carlos de Kouba, próximo da Argélia, sob os cuidados das Irmãs de São Carlos de Nancy. Ajudadas por suas formadoras as jovens irmãs possuem responsabilidade sobre 300 órfãos e 40 jovens – os meninos mais velhos são confiados aos Padres Brancos na “Casa da praça” em uma cidade próxima da Argélia. Para garantir a vida de todos uma área de 150 hectares é cultivada, é necessário fazer pão, lavar e cozinhar. Na possibilidade de suas forças os órfãos mais jovens ajudam no trabalho. Marie-Renée é encarregada dos menores os quais ela educa com bondade e firmeza consagrando dia e noite aos pequeninos. 

Com suas quatro companheiras ela recebe o hábito no dia 23 de junho de 1872. O hábito branco das noviças lembra a silhueta das moças algerianas que elas querem parecer o máximo possível. Marie-Renée Roudaut se torna Irmã Maria Salomé, nome escolhido entre aquelas Santas Mulheres do Evangelho que seguiram o Cristo nas estradas da Galiléia.

“Apesar do zelo dos Missionários, seus esforços nunca serão capazes de produzir fruto suficiente se não forem ajudados por apóstolas, verdadeiras mulheres. O que os homens não podem fazer, as mulheres fazem. Eles admitem isso com facilidade, até mesmo alegria. A mulher é a origem de tudo porque é mãe.” (Carlos Lavigerie).

Ela professa os primeiros votos em seis de julho de 1873 e foi enviada em janeiro de 1874 para “Saint Cyprien des Attafs” na planície do Chelif a 200 kms ao oeste da Argélia. Este é o lugar onde Dom Lavigerie deseja concretizar seu perigoso projeto de que casais cristãos acolham órfãos e órfãs. Ele dá uma pequena casa, com um lote de terra e uma junta de bois, aos cuidados das Irmãs. Elas começam a cuidar dos bebês e das mulheres jovens da região, de acordo com o carisma original das Irmãs Brancas – o cuidado da mulher. Fazem pães, lavam roupa no rio.

Encarregada dos pequenos rebanhos, precisa cuidar dos animais durante o dia e vigiá-los durante a noite, quem sabe até mesmo correr atrás de algum que se perdeu. Esta é a atividade da Irmã Marie-Salomé. Durante a noite. dormindo no abrigo dos pastores, é preciso muitas vezes estar com um olho aberto. Lembrando a vida dura daqueles primeiros anos dizia as irmãs mais tarde: “Ainda assim, éramos felizes, tínhamos paz e alegria no coração”.

A Congregação cresceu e o trabalhou se multiplicou. Em 1876 foi aberto o “Hospital para árabes”, em Attafs. Em 1877 Lavigerie designa três irmãs, incluindo Irmã Marie-Salomé para fundar uma comunidade em Kabylie, na vila de Ouadhias, onde os Padres Brancos já estão fazem quatro anos. No mês de março do ano de 1879, Irmã Marie-Salomé fora nomeada superiora da comunidade de Attafs – trabalho capital por incluir o hospital, as aldeias de Saint Cyprien e Sainte-Monique com famílias recém chegadas, entre suas responsabilidades. 

Madre Marie-Salomé assume com competência o cuidado das Irmãs, todas juntas estão comprometidas com o serviço de Deus e do povo através de suas qualidades pessoais e com coragem. No hospital se dá início a um trabalho que irá permanecer por mais de cem anos como referência de caridade e cuidado da miséria.

No entanto, após alguns anos, surgem grandes obstáculos. A Congregação passa por momentos complicados. O grande número de aspirantes, na sua grande maioria vindas de localidades rurais, com sua coragem e fé permitiram que as Irmãs fossem desbravadoras admiráveis. Mas a falta de instrução e escolaridade impediu que se ensinasse – indispensável à Missão. Dom Lavigerie está preocupado com o futuro, não consegue encontrar irmãs capazes de governo e ensino, muito menos de formar as mais jovens. Sua solução será unir “sua” jovem Congregação com alguma já estruturada e com irmãs mais capazes. Diversas tentativas causam sofrimentos de ambos os lados, sem uma solução real. Vocações diferentes demais não conseguem se unir em uma unidade de corações e vontades. Um exemplo, a união com as Irmãs de Nossa Senhora da Assunção – comunidade com três categorias de religiosas – possibilitaria a Madre Marie-Salomé estar acima das demais irmãs por seu estudo e capacidade, mas ela recusa se afastar de suas companheiras e acima de tudo de seu árduo trabalho.

Qual era a espiritualidade de Madre Marie-Salomé que lhe deu tanta coragem?

Toda sua vida significou “amar e servir a Deus” para ela a oração estava em primeiro lugar. Sua contemplação era o que motivava a ação. Agia somente por Deus em união com Jesus Cristo. Este “amor forte e ardente de Nosso Senhor” (Regra de vida.) Ele lhe deu um amor apostólico e por isso ela é missionária. Se ela deseja comunicar esse amor e “salvar as almas”, o faz amando e servindo a todos que se aproximam.     

No trato com os outros é fundamentalmente humilde. Isso porque ela não consegue viver senão para seu Criador, suas irmãs e os africanos. Em suas notas e conselhos para as Irmãs, encontramos essas palavras:

 “Procurar a Deus somente, agir por Deus somente, O encontrar em tudo. O que traz a felicidade em uma comunidade é a união de corações. Seremos realmente irmãs se nos amarmos, perdoarmos, e nos unirmos para irmos juntas a Deus!"

Com personalidades tão diferentes como Dom Lavigerie e Madre Marie-Salomé puderam conviver juntas? A erudição do grande eclesiástico e a universalidade profética contrastam com a relativa falta de educação, a modéstia e a natureza silenciosa da religiosa. A seqüência dos fatos fala por si mesma:
Repleto de hesitações, Dom Lavigerie fechou o noviciado, em seguida o reabriu novamente e convidou Madre Marie-Salomé para ser mestra de noviças em 02 de outubro de 1880. Melhor ainda, no primeiro Capítulo Geral da Congregação reunido em 1882, ela foi aclamada de forma unânime como Superiora Geral. 

De forma paradoxal o Arcebispo da Argélia se torna cardeal em 1882 e é nomeado Arcebispo de Cartago na Tunísia, com isso aumenta sua desconfiança sobre o futuro da pequena congregação.
Com sua inteligência, intuição feminina e tato sobrenatural, Madre Marie-Salomé volta imediatamente ao carisma missionária do Fundador, ela continua convencida de que ele deseja que a congregação nascente confie nele. Lavigerie previu o valor apostólico e vital das mulheres na comunidade africana. Nisso é apoiada pelos Padres Brancos a quem recorre diversas vezes pedindo ajuda. 

Tudo será resolvido em 1885. Na véspera de partir para a Tunísia, onde reside com maior freqüência, o Cardeal prepara uma “Ordem de Dissolução” da Congregação que teria efeito um ano mais tarde. Após orar e pensar a noite toda com o Conselho e movida com uma fé tenaz Madre Marie-Salomé contesta a decisão do Cardeal em uma conversa memorável na Argélia no dia 16 de abril de 1885 – mas tudo em vão. 

Diante dessa dolorosa perda, seu único recurso é pedir a Virgem Maria na qual ela coloca toda confiança. Com suas Assistentes vão “aos pés de Nossa Senhora da África, na basílica dedicada a ela e conversam como as filhas conversam com uma mãe. Elas fazem o voto de erigir uma estátua da Virgem diante da Casa-Mãe. A Congregação se salva. 

Após a Paixão vem a Ressurreição. Elas obtêm a graça de uma mudança radical na atitude do Fundador. O cardeal, retido na Tunísia, atrasa a execução de sua decisão. O apego forte às suas religiosas e à vocação missionária que possuem toca seu coração. Por outro lado, uma brilhante aspirante formada em Diplomacia pede insistentemente admissão. Seria um novo sinal da Providência? 

É necessário confiar, desistindo de seu projeto de fechar a Congregação.Foi necessário, portanto, reabrir o noviciado então fechado. Moças chegam dos mais diferentes países da Europa e até mesmo do Canadá, a internacionalidade será sempre um componente essencial do carisma das Irmãs Brancas, eficaz desde o início da Congregação.

Madre Marie-Salomé foi re-eleita Superiora Geral por unanimidade em 1886 e eleição após eleição será Superiora até 1925. O texto final das Constituições do Instituto será provisoriamente aprovado em Roma em 1888 por cinco anos e depois de forma permanente em 1893. A Congregação foi reconhecida como exclusivamente missionária.

Quando o cardeal morreu em 26 de novembro de 1892 uma de suas últimas palavras para Madre Marie-Salomé foram: “Não tema por vossa Congregação, ela viverá!”. A profecia se cumpriu com a expansão do Instituto com a abertura de comunidades na África Equatorial em 1894 e Ocidental em 1897.

Quanto à Madre Marie-Salomé, após 43 anos como superiora da Congregação, ela se ausentou do cargo em 1925 e morreu aos 83 anos em 18 de outubro de 1930 em St. Charles na Argélia. Foi enterrada no “Cemitério da família”.

O voto feito na primeira comunhão havia se realizado. Ela se santificou cumprindo exatamente o que Deus queria.

No seguimento dos acontecimentos na Argélia, os restos mortais de Madre Marie-Salomé foram transferidos em outubro de 1991. A humilde bretã de Plouguernau, cuja fé de granito nunca vacilou no serviço ao Reino de Deus tem a honra de repousar no coração da Basílica de Nossa Senhora da África, aquela que domina a maravilhosa vista para a baía de Argel.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Uma Carta do Sudão


Por um Padre Branco
Algumas Notas sobre o Sudão
http://dspace.dial.pipex.com/suttonlink/351su.html

O artigo a seguir é um relato de uma visita de dois meses ao Sudão entre julho e agosto de 1999. O autor é um Padre Branco que gostaria de permanecer anônimo.

Hajj Yousif fica cerca de 15 quilômetros de distância do centro de Cartum. Lá as estradas e trilhas de macadame, conhecidas apenas pelos iniciados, levam para o leste através de arbustos e semi-desertos. Era por aí que passavam os velhos camelos e os caminhões indo para Kassala, na fronteira com a Etiópia e na costa do Mar Vermelho, antes da nova estrada, que passa por Wad Medani e Gedaref ao Sul, ser construída. Num agora agitado subúrbio de Cartum, Yousif Hajj fora uma vez uma pequena aldeia situada no deserto ao longo do Nilo Azul, a leste da cidade velha de Cartum. Desde 1983, ano no qual o mais recente trágico episódio na cruel guerra civil do Sudão estourou, ondas de refugiados, deslocadas do sul do Sudão, chegaram para habitar nos arredores da capital. Este número tem aumentado em tempos de luta feroz quando cidades caíram nas mãos das facções combatentes ou, então, quando a fome e a doença, tanto reflexo da destruição e revolta causadas pela guerra como pelos períodos de seca, eclodem. Estima-se que cerca de 2.000.000 de almas estão vivendo em torno da capital, buscando melhorar de algum modo a sua existência.

As condições são terríveis. Uma geração de pessoas refugiadas cresceu nestas condições e conhece nada além de miséria em suas breves vidas. Entre estes deslocados encontram-se cristãos de várias denominações, muçulmanos e seguidores de religiões tradicionais africanas. Os mais afortunados encontram trabalho em Cartum ou se juntam às centenas de pessoas que compram e vendem no souq [mercado tradicional ou feira periódica] local. De manhã cedo até tarde da noite, ônibus convencionais, caminhões, pick-ups e táxis - muitos claramente impróprios para levar até mesmo o motorista, para não falar de passageiros - rastejam um colado com outro ao longo da pista, estreita e esburacada, transportando trabalhadores e aqueles que procuram trabalho nas "Três Cidades" – a velha Cartum sobre o Nilo Azul, a Cartum Bahri ao Norte e Omdurman, na margem ocidental do Nilo Branco. Estas três cidades têm como ponto central a confluência do Nilo Azul e do Nilo Branco, vastas extensões de lama e um rápido fluxo de água nesta temporada de chuvas. Os dois Nilos se tornam um e fluem por 1.000 km antes de chegar ao Lago Nasser e na represa de Aswan, na fronteira com o Egito.

Enquanto escrevo, as chuvas já começaram, e particularmente pesadas este ano. O Nilo Azul já está acima um metro do seu limite e céus nublados, tão incomuns no norte do Sudão, trazem a ameaça de chuva ainda mais forte e subsequente inundação. Depois de uma intensa chuva esta semana, a cena em Hajj Yousif, longe da única pista de asfalto, me lembrava cenas  da batalha de Somme da Primeira Guerra Mundial com vastas áreas de lama, trincheiras cavadas para canalizar um pouco da água - mas onde nesta terra tão plana?! - veículos emperrados e abandonados e por todos os lugares pessoas, com suas jellâbiyyas (longas camisas brancas de algodão usadas por homens) ou taubs (coloridos tecidos enrolados usados por mulheres), lutando para fazer o seu trabalho com alguma aparência de normalidade.

É aqui, em Hajj Yousif, no grande subúrbio de Cartum, que os Padres Brancos, Missionários da África, dirigem uma florescente paróquia dos pobres. Por cerca de dez anos, a paróquia tem sido administrada a partir de uma casa particular. Não há um igreja física como concebemos. Dez centros, que servem como escolas primárias durante a semana e como lugares de encontro e oração nos fins de semana, estão situados ao longo da paróquia. As escolas para os refugiados são administrados pela Arquidiocese de Cartum. Cerca de 10.000 crianças recebem educação primária apenas nos centros de Hajj Yousif.

Existem apenas algumas poucas estruturas permanentes. A maioria dos centros consiste simplesmente numa série de râkûbas, abrigos construídos de pedaços de madeira e bambu que fornecem sombra, delimitada por uma cerca de arame farpado. Nos centros onde a propriedade do terreno tem sido garantida, estruturas mais permanentes - um edifício para jovens, um local para o encontro de mulheres, sala de professores e funcionários etc foram construídas. Catequistas treinados, líderes leigos e voluntários ajudam os três sacerdotes, um diácono permanente local e uma comunidade de Irmãs do Bom Pastor com as atividades pastorais da paróquia. Aqui se trabalha para o desenvolvimento e o socorro, apoiados e financiados por muitos benfeitores do exterior – tanto por organizações como por indivíduos - anda de mãos dadas com a instrução cristã, com sessões de formação e workshops sobre vários aspectos da vida cristã. Uma comunidade de Irmãs Carmelitas da Índia organiza o dispensário na paróquia. As Missas e os sacramentos são celebrados no domingo em todos os centros quando há sacerdotes suficientes. Cerca de 300 catecúmenos seguem um programa de instrução para o batismo a cada ano. A celebração da Páscoa, com o batismo de muitos jovens e outros não tão jovens na Vigília Pascal, é o destaque do ano da Igreja e é a causa de grande e profunda alegria entre os fiéis.

Este, então, é o cenário da pequena comunidade muito ativa dos Padres Brancos em Hajj Yousif. Talvez, através do relato de uma ou duas ocorrências diárias que aqui houve ou através de incidentes que aconteceram durante a minha estadia na paróquia, ao longo dos últimos dois meses, o leitor poderá ter uma visão sobre algumas das alegrias e das tristezas vividas pelos habitantes da nossa comunidade.

A cinquenta metros da casa dos Padres, numa área que está sendo desenvolvida para a habitação, uma família Dinka acomoda-se, como muitas centenas de famílias desabrigadas e ao redor de Cartum, numa casa em construção. Agot Deng, apenas com 30 anos de idade, claramente tem tuberculose. Ele se encontra emagrecido deitado sobre uma cama de corda, vestindo uma jellâbiyya suja. Ele, na companhia de sua mulher, Abuc, levanta-se alguns minutos na beira da cama e dá as boas-vindas ao Abuna (Padre). Um grupo de crianças se reúne em volta, espantado com a visita de um khawaja (europeu). Uma jovem viúva e seus dois filhos - e há tantas viúvas jovens como ela num Sudão em guerra – divide com Agot e sua família um quarto da casa que tem um telhado e abrigo feito de sujas sacas levantado no quintal. Uma cadeira é encontrada para Abuna e nos é dada água para beber. A família recebe ajuda alimentar da igreja, mas Agot precisa retornar ao médico para tratamento. Oramos juntos e uma pequena quantia é dada para os honorários médicos. A família agradece a visita.

O diácono permanente mora a cerca de 5 km, no limite da cidade, perto do centro paroquial chamada Dar al-Salam,     “a Casa da Paz". A sua família, situada próximo de campos abertos com valas de irrigação e abundância de grama neste período chuvoso, sofre com os mosquitos e nunca passa uma semana sem alguém cair doente com malária. O Diac. Anthony chegou hoje para pedir ajuda para pagar os medicamentos para seus dois filhos, um sofre de disenteria e outro de febre tifóide. A água fornecida pela burro-de-carga nesta temporada de chuvas é frequentemente lamacenta, amarronzada. Todos correm risco de doença intestinal.

A maioria dos pais e das pessoas de idade que encontro nos centros depois da missa de domingo estão profundamente preocupados com a ameaça - já presente, mas mais ameaçadora este ano - que o governo feche e destrua as escolas paroquiais. Extremamente mal equipadas e com poucos recursos, essas escolas dirigidas pela Igreja têm produzido excelentes resultados ao longo dos anos e criaram um alto padrão de desempenho. Ameaçadoramente, duas enormes novas escolas, construídas com o melhor dos materiais, surgiram na paróquia nos últimos meses. Construídas pela al-Da'wa al-Islamiyya, a Missão Islâmica, e patrocinada por fundos provenientes da Malásia, essas novas escolas estão sendo propostas como substitutos para as escolas de refugiados.

Um novo programa de educação nacional foi recentemente publicado e será implementado em todas as escolas este ano. Uma olhada preliminar no conteúdo da diretriz mostra que está em curso uma islamização muito clara e deliberada de todas as áreas do currículo escolar. Quer as escolas para refugiados  permaneçam independentes ou não, a introdução deste novo programa nacional significa que todas as crianças que frequentam a escola terão que aprender e ser examinadas no conteúdo apartir deste programa. Não será permitida a entrada nas classes secundárias ou no ensino superior para aqueles que não seguiram e assimilaram este programa. Pais, professores e líderes religiosos de todo as vertentes estão justamente preocupados de que a sua liberdade religiosa - na verdade a própria fé de seus filhos - esteja mais uma vez sob o ataque de fundamentalistas islâmicos com influências dentro do governo.

No posto de gasolina perto da casa dos Padres, eu peço cinco galões de diesel, já algum tempo disponíveis. Eu estou sobrecarregado e o atendente, muito simpático e com um sorriso, diz que o suplemento é para a Jihad, o esforço de guerra do governo. Mais uma vez, afirmo que estou aqui como um trabalhador para a paz e me recuso a pagar o suplemento.

O pátio na casa dos Padres raramente está vazio. Trabalhadores paroquiais, catequistas e os pobres chegam de manhã cedo até tarde da noite. Muito tempo e energia são gastos simplesmente ouvindo as tristes histórias dessas pessoas cuja pobreza se estende além das considerações materiais. Arrancados de suas terras tradicionais no Sul e privados de suas casas, gado e fazendas, essas pessoas deslocadas e desorientadas agora veem seus costumes tribais, que deram forma, estrutura e força para suas sociedades, sob ameaça. Os pobres vão em busca de ajuda, principalmente de alimentos ou médicos, de taxas escolares para os seus filhos ou capas de plástico como abrigo para as chuvas, quando as suas casas de tijolos de barro desmoram e caem.

Tarde da noite, Flora, de 14 anos, e seu irmão, Frazier, com cerca de 10 anos, chegaram procurando ajuda para as taxas escolares. O fundo regular para as taxas que ajuda entre 120 crianças da paróquia se esgotara para este ano letivo. Eu explico isso com cuidado para as crianças que estão ai. Flora está chateada, frustrada e irritada porque seu Abuna não quer que ela estude. Agora está escuro e frequentes flahses de relâmpagos anunciam a aproximação de outro bom aguaceiro. A eletricidade é cortada e eu sou incapaz de ler a carta que alguém tinha escrito em nome das crianças, listando as suas necessidades: mensalidades escolares, uniformes, sapatos, cadernos e a muito importante mochila para levar os livros para a escola - o custo total destes itens é de aproximadamente $20. Peço a Flora e seu irmão para voltarem na manhã seguinte. Eles vão receber a ajuda para cobrir os custos.

Chega-nos a notícia sobre dois sacerdotes diocesanos, Pe. Hilary Boma e Pe. Lino Sebit, que foram presos juntamente com outros 20, acusados de conspirar atentados terroristas ano passado em Cartum. Eles passaram os últimos 12 meses em vários tipos de prisões e foram obrigados a comparecer perante vários tipos de tribunais. Abusados e maltratados, a maioria do grupo foi submetida a alguma forma de tortura e três dentre eles "desapareceram". A notícia que recebemos, contudo, é boa . No domingo, 15 de agosto, festa da Assunção de Nossa Senhora, os dois padres foram autorizados a celebrar a Eucaristia - pela primeira vez desde que foram confinados - com um pequeno grupo de irmãos da diocese. Eles estão agora na prisão Kobar e podem receber visitas. Ainda têm acesso a e-mail e a um pequeno rádio portátil. Regozijamo-nos e agradecemos a Deus que a sua situação tenha melhorado um pouco e rezamos pela sua rápida libertação.

A expulsão do Pe. Gilles Poirier, um padre canadense do PME (Prêtres Etrangères des Missions), em 7 de agosto de 1999, é um vívido lembrete de quão precária está a situação da Igreja no atual Sudão. Agentes de segurança, presentes em toda parte, seguem como sombra todo o pessoal da Igreja. Eles estão especialmente presentes nos centros durante as celebrações e reuniões. A situação econômica é tal que os informantes podem ser recrutados dentro das comunidades cristãs e os cristãos têm sido conhecidos por se inscreverem para o treinamento dos  Serviços de Segurança. Nenhuma razão oficial foi dada para a expulsão do Pe. Gilles. Ele trabalhara assiduamente por muitos anos como pároco de Hilla Mayo, um subúrbio pobre a 10 km ao sul de Cartum. Quando funcionários do governo canadense pediram às autoridades sudanesas a razão de sua expulsão, funcionários do Ministério do Exterior negaram qualquer conhecimento sobre o assunto.

As dificuldades experimentadas pelos cristãos na paróquia vizinha de Cartum Bahri, ao rezarem juntos aos domingos no centro de Dour as-Sha'b, se intensificaram recentemente quando um grupo radical fundamentalista, conhecido como o Ansar al-Sunna, atacou sem qualquer motivo  o sacerdote e os fiéis durante a Missa no domingo, 8 de agosto, 1999. Durante a confusão subsequente, algumas pessoas se feriram e a polícia realizou várias prisões de ambos os lados. O centro foi fechado e as  orações passaram a ser proibidas desde então. Sua Excelência Reverendissima o Arcebispo Gabriel Zubeir Wako, está atualmente fora do país participando de reuniões em Nairobi. A responsabilidade pastoral que ele carrega ao liderar e guiar os fiéis desta Arquidiocese de Cartum é enorme, por vezes, uma carga onerosa. Oremos para que o Espírito da Paz possa reforçá-lo e iluminá-lo nesta tarefa.

Meu primeiro compromisso como padre missionário foi na paróquia de outro Padre Branco no Sudão: a paróquia de Nova Halfa, no distrito de Kassala, cerca de 400 km de Hajj Yousif através do deserto, em linha reta, mas 630 km de distância pela estrada de asfalto via Wad Medani e Gedaref. Quando surgiu a oportunidade de visitá-la, esperei uma semana até a minha autorização de viagem ser concedida ... em seguida, carimbada pela Segurança ... em seguida, assinada ...

Numa manhã de sexta-feira eu sai com o motorista, Francis. Nós seguimos o Nilo Azul até Wad Medani ao longo de uma estrada com obras muito atrasadas. Dirigimos lentamente, de modo a evitar os piores buracos.

Em Medani, depois de dois pontos de controles, onde a Segurança nos perguntou sobre o khawaja e verificou sua autorização, deixamos o bairro da Jezîra, a "ilha", a rica e fértil terra entre os Nilos Azul e Branco, e agora cruzamos para o leste através de grandes extensões planas, onde os abutres e marabus circulam e deslizam sobre as térmicas. O painço de sorgo, aqui chamado de dura, a dieta básica da maioria do Sudão, fora semeado  em julho e já viçosos brotos verdes se espalham como um tapete vívido sobre a terra abaixo de um enorme céu.Tomamos café da manhã num restaurante de estrada em Fao, na metade da nossa jornada. E em Gedaref abastecemos de diesel. No início da tarde, chegamos em Khashm el-Girba e deixamos a estrada de asfalto para viajar a 65 km ao longo da acidentada radmiyya. A primeira camada de pedra foi colocada, juntamente com o calhau, para receber a sua superfície de asfalto para a nova estrada que ligará a fábrica de açúcar em Halfa com a estrada principal. Esta grosseira fundação esperou três anos para ser concluída, mas num país em guerra interna os fundos são canalizados para outros lugares - para alimentar, equipar e armar os militares.


Choveu e quando entramos em Halfa, às 16:00, a terra em torno a nós estava sob um metro de água. O padre da paróquia enviou os meninos para nos guiar até igreja através da inundação. Fui recebeido por 60 crianças que celebravam o fim de um "acampamento" durante o qual se prepararam para o grande Jubileu do ano 2000. Uma árvore foi derrubada na chuva da manhã e o complexo da igreja estava alagado. Entretanto, nada atenuava o entusiasmo das crianças, como eles cantavam e brincavam, com os pés descalços, como num concerto de gala na conclusão do "acampamento". Ao cair da noite, o zunido dos mosquitos aumentava nas árvores e em nossa varanda. Nós descarregamos as caixas de remédios e as 50 capas de plástico que trouxemos de Cartum, enquanto isso o pároco saía no meio da noite para conduzir as crianças para casa.

O trabalho dos Padres em Halfa é semelhante ao dos Padres em Hajj Yousif. Aqui, no entanto, o número de cristãos é menor e os centros de oração estão espalhados por uma área de 120 km por 30 km. Nós somos uma comunidade rural, com muitas pessoas ocupadas no trabalho no campo ou na fábrica de açúcar. Os cristãos, a maioria composta por refugiados, como em Cartum, vivem em cabanas africanas típicas fora da cidade de Halfa e em muitas aldeias na área. Estes novos assentamentos foram construídos na década de 1960 para receber milhares de pessoas fugidas da zona de Wadi Halfa ao norte, na fronteira com o Egito, cujas terras gradualmente desapareceram com a subida das águas do Lago Nasser, atrás da represa de Assuã. Irrigada pela água do Rio Atbara, represado em Khashm el-Girba, a área da Nova Halfa produz açúcar, algodão e trigo, bem como diversos tipos de legumes e frutas. Famílias halfaoui possuem terras e cultivam uma variedade de culturas, incluindo lentilhas, feijão e tomate. Algumas famílias cristãs árabes chegaram com os muçulmanos halfaoui que foram evacuados. Assim, o governo da época concedeu terras para a Igreja Católica e para a Igreja Copta. Duas igrejas de tijolos e concreto já existiam em Nova Halfa desde 1970.

O contraste com a vida em Hajj Yousif não poderia ser maior. O ritmo de vida aqui é mais lento e as pessoas têm tempo para conversar. Os Padres visitam as famílias, a prisão e o hospital, buscando prestar serviço às pessoas e cuidar de todos os habitantes, apesar da situação económica ser desesperadora. Ao longo dos anos, os Padres  desenvolveram contatos e relações com algumas famílias muçulmanas, e também estas visitamos. Eu saúdo o administrador local, o muhâfiz, e o líder do conselho. Visitei a fábrica de açúcar para celebrar a Missa na capela. Durante as chuvas, a colheita da cana se torna impossível e a fábrica fecha para manutenção e limpeza. Muitos dos homens mais jovens saem para procurar trabalho em outro lugar, assim a comunidade na Missa fica muito pequena. Ao sul, em Girba, as chuvas transformaram a área ao redor da igreja num mar de lama e lutamos para chegar ao centro para a Missa no domingo. De volta a Halfa, a escola nortuna, que recebe cerca de 150 jovens adultos para o ensino primário em cinco noites por semana, também fica fechada por dois meses durante a estação chuvosa. Um velho paroquiano, originalmente de Wau, John Basha, é contratado para pintar a escola - paredes e quadros-negros. Eu supervisionava o trabalho e fui ajudado pelos meninos de rua, Kur, Jafar, Taha e Dioup, na organização dos móveis e na varredura. O lugar se transforma, agora arrumado e limpo, pronto para a retomada das aulas, em meados de setembro. O vigia de idade, Halakah, um refugiado eritreu aleijado pela poliomielite quando criança, tem o sonho de conseguir um passagem para Jerusalém e pergunta se eu posso falar com o padre da paróquia - mais uma vez - sobre o assunto. Tentamos convencê-lo de que uma viagem a seu próprio país, apenas 130 km de distância, pode revelar-se mais viável. Eu conduzo um dia de recolhimento para alguns casais da paróquia. Todos se aproximam da Confissão e da Comunhão e parecem regenerados pela experiência.

Eu visitei o hospital com o pároco para ungir Kwol, um policial de 28 anos, que, em pouco mais de um ano, foi reduzido a pele e osso pela tuberculose. Ele está extremamente fraco, mas responde às orações e seus olhos nunca deixam de fitar o sacerdote. Dois outros pacientes na enfermaria, ambos muçulmanos, observam e aguardam a sua vez na visita. Kwol morreu na manhã seguinte e foi enterrado sem demora.

No meu último dia em Halfa, fui visitar Sidonia, cujo casamento com Dominic abençoei há alguns anos. Ela, também, é uma sombra de seu antigo eu. Agora esperando seu segundo filho, ela se senta na beira da cama, mas mal conseguia falar. Deixamos-lhe dinheiro para comida – carne, frango ou ovos - para complementar a pobre dieta. Ela toma medicamentos para turbeculose, o que pode afetar a vida de seu bebê. Sua irmã e os vizinhos estão a ajudá-la. Eu precisei partir.

Meu tempo no Sudão está se esgotando rapidamente e devo voltar a Cartum. As grandes planícies são verdes - tão verdes – e a perspectiva de uma boa colheita parece provável. Em Cartum, como em Halfa, fala-se muito de paz - alguma forma de paz para o ano 2000. Grandes esperanças e muitas conversas, mas a realidade revela a miséria se estender por muitas e muitas famílias no Sudão - tanto muçulmanas e como cristãs. Os problemas continuam e a miséria se torna cada dia mais grave. Muitos dos jovens e instruídos entre os sulistas que vivem no norte do Sudão estão partindo para o Egito. Vistos para o Egito estão sendo concedidos livremente e sem dificuldade. O sul está sendo sistematicamente esvaziado por políticas de promoção da guerra, fome e opressão. Se a paz virá, quem estará aqui ou ali – para se beneficiar?

Quem se importa? QUEM SE IMPORTA?

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Arcebispo Livinhac (1846-1922)

Missionário da África (Padre Branco)
Fundador da Igreja Católica em Buganda
Bispo de Pacando
Arcebispo de Oxyrhyncus
Superior Geral dos Missionários da África

Original em: http://www.africamission-mafr.org/mgr_livinhacgb.htm

Esse missionário francês era da diocese de Rodez, no Sul da França. Nasceu no dia 13 de julho de 1846 numa família cristã muito devota da aldeia de Ginals, na freguesia de Buzeins. Batizado Auguste Simon Léon Jules, ele era chamado de Léon. Seus pais eram donos de uma fazenda em Aveyron que eles mantinham com a ajuda de trabalhadores diários. Eles tiveram três filhos, Leon, sua irmã mais velha e seu irmão mais novo. A morte prematura de seu pai e depois de sua mãe, quando Léon tinha 6 anos, afetou a vida feliz das três crianças. A partir de então, a sua educação tornou-se responsabilidade de sua avó e de duas tias, sob o olhar atento de um tio-avô, o pároco de Bonneterre. A perda de seus pais na infância se transformou num ferida profunda, que se agravou quando, em janeiro de 1871, seu único irmão, um antigo Zouave Pontifício, foi morto defendendo a França das incursões da Prússia. Como um homem do dever, com um olhar pensativo e triste, mais tarde ele viria a ser cético diante do desconhecido. Possivelmente devido ao seu passado rural, Livinhac levava um estilo de vida simples, mas estava sempre inclinado a novas idéias.

De 1855 até 1860, Léon frequentou a escola primária dirigida pelos Irmãos das Escolas Cristãs, em Saint Geniez. Durante este tempo, ele provou ser uma criança tímida e sensível, mas sempre aplicada aos estudos. Bem comportado e piedoso, ele recebeu o Sacramento da Confirmação antes de sua Primeira Comunhão, ao contrário da prática dos tempos. Como seu estado de saúde era delicado, ele não estava preparado para o esforço físico. Nada indicava, portanto, que um dia seria um missionário ou até mesmo um padre. Dentro dos intuitos de sua família o jovem Livinhac deveria se tornar num fazendeiro enquanto seu irmão mais novo ingressaria no clero.

Depois da escola primária, Léon foi matriculado em Saint Denis, o colégio diocesano de São Geniez. No entanto, não foi fácil para ele estar lá. Como resultado, sua saúde piorou. Acometido por paralisia nas pernas, ele foi obrigado a voltar para casa de sua família em Ginals. Durante a sua convalescença, ele se confessou ao pároco, o Pe. Malet, que detectou nele uma vocação sacerdotal. Assim, pois, ele começou a receber lições de latim. Finalmente recuperado em 1861, Léon voltou para a faculdade, desta vez como um aluno na seção greco-latina, tendo em vista a sua preparação para o sacerdócio. Seu progresso foi tanto que ele fora capaz de pular uma classe no ano letivo de 1862. Ao longo desse período de estudo, ele viveu na casa de uma "Béate”, um membro de uma associação piedosa de mulheres consagradas.

Em outubro 1867, com 21 anos, entrou no Seminário Maior de Rodez. Este seminário, dirigido pelos Sulpicianos, na época contava com quase 300 seminaristas! Léon primeiro estudou filosofia e, em seguida, teologia. Mais tarde, ele reconheceu que houve falhas em seus estudos e ele nunca as supriria. Seu diretor espiritual era Pe. Georjon, superior do seminário. Entre seus colegas estavam o futuro Bispo Gély de Mende e o Bispo Garriguet, Superior Geral dos Sulpicianos. Léon recebeu a tonsura em maio de 1869 e as Ordens Menores no ano seguinte, em junho. Sua vocação tomaria um rumo inesperado em 187.

No outono, ele conheceu um missionário da África, Padre Charmetant (1844-1921), uma pessoa amável e gentil, enviado para o seminário de Rodez pelo arcebispo Lavigerie (1825-1892) de Argel. Este prelado francês havia fundado uma Sociedade Missionária em 1868 para evangelizar o continente Africano. Desde então, ele buscava nos seminários franceses candidatos para o seu ambicioso projeto. Léon se interessara, mas hesitou em comprometer-se. De fato, certos círculos da Igreja criticavam o famoso projeto que tinha apenas um trabalho de caridade: um pobre orfanato criado em Maison Carrée, perto de Argel, que também foi a primeira casa mãe dos Missionários da África.

Encorajado por seu amigo Padre Charbonnier  (1842-1888), Léon finalmente tomou sua decisão após sua ordenação ao diaconato (Maio de 1872). Ele havia requerido ingresso junto ao Arcebispo Lavigerie no dia 26 fevereiro de 1873, atrasando, assim, a sua ordenação ao sacerdócio. No final de março, Léon, acompanhado por seu colega Auguste Moncet (1849-1889), chegou a Maison Carrée. Ele iniciou o noviciado em 06 de abril e uma semana depois estava vestindo o hábito missionário de Dom Lavigerie - gandoura, chechia e rosário. O seu Mestre de Noviços foi o Padre Terrasse (1831-1922), um jesuíta que lhe apresentou a prática da espiritualidade inaciana.

O Arcebispo Lavigerie, altamente impressionado com este noviço modelo, o ordenou sacerdote em 12 de outubro de 1873. No mesmo dia, ele o nomeou para o escolasticado (Seminário Maior dos Missionários da África.) Padre Léon seria Vice-Reitor, tesoureiro e professor de teologia dogmática, sem ter completado tanto o noviciado como os seus estudos teológicos. Listado como número 22 no registo de admissões, ele fez o seu Juramento Missionário em 7 de Abril de 1874. Além disso, alguns meses depois, em 12 de outubro de 1874, ele era então eleito membro do Conselho Geral durante o primeiro Capítulo Geral dos Missionários da África, conhecido como o Capítulo da Fundação, em vista da importância das suas decisões. Na ocasião, o arcebispo Lavigerie o nomeou Tesoureiro Geral da Sociedade, pobre em recursos financeiros, mas rica em generosidade pessoal. Naquele tempo, constituída por 43 padres e 9 Irmãos, formando ao todo 15 comunidades disseminadas pela Argélia.

No final de dezembro de 1874, o arcebispo Lavigerie enviava Pe. Livinhac a Paris para montar um “procurement office”, o primeiro na Europa. No entanto, oito semanas depois, Léon já estava de volta alegando que não tinha as aptidões para este tipo de responsabilidade. Na verdade, ao longo de sua vida, ele iria sentir repugnância ao exercício da autoridade. Em meados de fevereiro de 1875, o arcebispo Lavigerie o indicou para a comunidade de Ouadhias, em Cabília. Muito contente, Pe. Livinhac lá teve sua primeira experiência missionária em contato direto com o povo: ele estudou cabila, ensinava a algumas crianças, tratava os doentes e visitava os moradores. No entanto, o seu contentamento duraria apenas alguns meses. Em 24 de agosto de 1875, ele retornou mais uma vez para a Maison Carrée para ser agora reitor do escolasticado. Enquanto reitor, lecionou teologia moral,  escreveu uma gramática cabila e redigiu uma Regra de Vida, usado desde então por centenas de jovens irmãos. Esta regra era um resumo do pensamento missionário do Fundador. Em 1876, o Padre Livinhac pela primeira vez pregava um retiro aos seus confrades, na presença do Arcebispo Lavigerie.

Nesse mesmo ano, o assassinato de três de seus confrades, a caminho de Tumbuctu, perpetrado por tuaregues, lembrou-lhe que a vida missionária implica o dom de si mesmo ao martírio. Seu mandato como conselheiro foi renovado no Capítulo Geral de 1877. Mesmo que obtivesse a maioria dos votos, o arcebispo Lavigerie se recusou a colocá-lo à frente da sua sociedade. Pe. Livinhac não ficara infeliz. Na verdade, alguns meses mais tarde em março de 1878, ele seria nomeado para chefiar a primeira caravana que saíra dos altos planaltos da África equatorial. O Papa Leão XIII (1810-1903), tinha confiado a evangelização desta imensa região à Sociedade dos Missionários da África.
Pe. Livinhac permaneceu na África equatorial desde 1878 até 1889, mais particularmente às margens do Lago Vitória, em condições materiais miseráveis com caminhadas intermináveis a pé e desconfortáveis viagens por canoa. Ele sobreviveu a dois naufrágios, um causado pela tempestade e outro por um hipopótamo. Durante este período, ele e seus colegas, Padres Lourdel (1853-1890), Girault (1853-1941), Barbot (1846-1882) e o irmão Amans Delmas, todos franceses, fundaram a Igreja Católica em Buganda,  escrupulosamente aplicando as instruções do Arcebispo Lavigerie. O sucesso obtido iria torná-los, a seguir, modelos para seus confrades.

Obrigado pelas circunstâncias, eles fundaram a Igreja no seio da corte do reino de Buganda, outrora muito poderoso, mas agora à mercê das tensões criadas pela presença ocidental e árabe. Esses conflitos, com base na politicagem comercial e religiosa, daria origem a uma assustadora violência  entre os baganda (habitantes de Buganda), que levaria a uma guerra civil, religiosa e colonial em 1892. Justamente por razões de segurança, no início de 1883, o Padre Livinhac transferira sua residência para Kamoga, em Bukumbi, uma região ao sul do Lago Vitória. Em última análise, ele próprio passaria pouco tempo em Buganda, de junho de 1879 até novembro de 1882 e alguns meses em 1886, 1888 e 1890.

Depois de sua nomeação como Vigário Apostólico do Vicariato Vitória-Nyanza, em junho de 1883, Livinhac passara a viver em Maison Carrée, onde, em 14 de Setembro de 1884, o arcebispo Lavigerie o ordenava bispo titular de Pacando. Depois, tendo participado do oitavo Capítulo Geral, retornara à África equatorial em maio de 1885. Em Buganda se deparou com uma situação muito tensa. O Kabaka (Rei) Mwanga, (1866-1903), tornou-se refém das rivalidades entre curandeiros da corte, comerciantes árabes, anglicanos e católicos. Cada facção procurava a sua conversão e a monopolização do país.

Em 1886, o bispo Livinhac estava presente quando das mortes heróicas dos Mártires de Baganda que escolheram permanecer fieis à fé cristã. Estes se recusaram a obedecer às ordens de Mwanga, que buscava testar a lealdade de seus servos, de acordo com o direito consuetudinário. Naquele tempo, Livinhac  escreveu uma gramática de luganda para tornar o aprendizado da língua mais fácil para os seus confrades. Em 24 de agosto de 1887, em Kipalapala, ele sagrou bispo o seu amigo Padre Charbonnier, que havia sido nomeado Vigário Apostólico do Vicariato de Tanganyika. Esta foi a primeira ordenação episcopal na África equatorial.

No Domingo de Pentecostes, em 25 de maio de 1890, em Kamoga, Livinhac celebrou a ordenação episcopal do seu sucessor, Pe. Hirth (1854-1931). Ele era da Alsácia e tinha sido seu aluno. De fato, em setembro de 1889, durante o décimo Capítulo Geral, Livinhac havia sido eleito Superior Geral - uma eleição que recebeu com pouco entusiasmo. Em 19 de setembro de 1890, acompanhado por 14 jovens baganda, desembarcou em Marselha a tempo de assistir o Congresso Anti-Escravidão. Além disso, Livinhac visitou o Vaticano, levando com ele os jovens africanos. Em 05 de novembro de 1890, o Arcebispo Lavigerie instalou-o como Superior Geral, aos 46 anos. Quando o arcebispo Lavigerie ofereceu para fazer-lhe o seu coadjutor, ele se recusou, a fim de dedicar-se à sua nova tarefa.  Os confrades o apreciavam muito pela sua bondade e firmeza, o que faria com que fosse reeleito Superior Geral nos Capítulos Gerais de 1894, 1900 e 1906 Gerais e Superior Geral para a vida,, relutantemente, no Capítulo 1912. Depois, ele assim participaria no Capítulo Geral de  1920.

O Bispo Livinhac liderou a Sociedade dos Missionários da África, em colaboração com a Congregação para a Propagação da Fé, até sua morte, em 1922, um período de 33 anos, coincidindo com o retalhamento do continente Africano entre as potências europeias. Assim, portanto, ele pode ser considerado como o segundo fundador da Sociedade, mas, sem dúvida, menos flamejante que o primeiro. Ele conduziu a Congregação em nome dos Capítulos Gerais, com a ajuda de quatro Conselheiros, incluindo seu sucessor Pe. Voillard, (1860-1946), francês. Seus primeiros três anos como Superior ainda foram muito influenciados pela presença do Arcebispo Lavigerie, então envolvido na Campanha Anti-escravidão. Esta Campanha tivera grandes repercussões junto aos seus missionários na África equatorial, dando origem à ira dos comerciantes árabes contra suas missões forçando-os, mais cedo do que o previsto, a submeter-se às potências coloniais.

Somente após a morte do fundador, em novembro de 1892, que Livinhac se tornou verdadeiramente Superior Geral, com poderes e responsabilidades; antes dessa data, ele era apenas "Vigário Geral", como seus antecessores. Ele, então, escreveu aos seus irmãos uma frase que resumiu sucintamente sua atitude em relação ao futuro: "Agora nós temos que seguir o modelo usual das Congregações que perderam seu Fundador: cada um de nós, em seu maior ou menor âmbito, deve tornar-se um homem de iniciativa, enquanto, ao mesmo tempo, evitando qualquer coisa que não esteja em conformidade com as regras e ordens recebidas do alto”.

Sob a direção do bispo Livinhac, a Sociedade dos Missionários da África passara por uma expansão extraordinária seguida do rápido aumento de seus membros. Considerando que, em 1892, eram 3 Bispos, 185 Padres e 64 Irmãos, em 1922 havia 16 bispos, 674 padres e 180 irmãos. Graças a este aumento, o bispo Livinhac foi capaz de abrir casas de promoção e formação no Canadá, Luxemburgo, Bélgica, Grã-Bretanha, Alemanha, Itália e até na Argentina. Ele também fora capaz de multiplicar fundações na África e organizar a evangelização de novas regiões como Ruanda, Burundi e Sudão francês. Os três vicariatos e 3 Pro-Vicariatos de 1892 seriam 13 vicariatos em 1922!

Reformas administrativas e financeiras seriam instituídas. O Bispo Livinhac deu Constituições (1908) à sua sociedade e também um Diretório (1914), aprovado pela Santa Sé. Ansioso para criar um espírito de família, incentivou a publicação de várias revistas para o uso dos seus confrades: Chronique Trimestrielle 1879-1909, Rapports  Annuels de 1905, e Petit Echo, o boletim lançado em 1912, promovendo a partilha de experiências e idéias.

Enquanto Superior Geral, escreveu 133 circulares a seus confrades em que se mostrou  um mestre espiritual muito influenciado pelas idéias de Santo Inácio de Loyola, (1491-1556). Com grande confiança na Providência e uma fervorosa devoção à Virgem Maria, ele exigiu obediência de seus confrades ao Soberano Pontífice. Segundo ele, o sucesso da evangelização dependia da santidade do missionário. Ele se correspondeu pessoalmente com cada confrade. Assim, tornou-se o pai de uma família missionária muito unida. Fora da Sociedade, ele conseguiu criar interesse junto aos católicos pela promoção de um bem organizado trabalho missionário na África.

Durante seu tempo como Superior, Livinhac teve que enfrentar vários desafios. O primeiro foi a partilha de bens e responsabilidades entre a Sociedade dos Missionários da África e a Arquidiocese de Argel. O segundo desafio diz respeito à Igreja Católica em Buganda. Sua existência tinha sido colocada em risco na sequência dos dramáticos acontecimentos de janeiro de 1892, quando os anglicanos, apoiados por Londres, tomaram poder esmagando os católicos. Na ocasião, os Missionários da África foram acusados de serem agentes secretos, às vezes, de Paris e, por vezes, de Berlim. O Bispo Livinhac tomou para si o desafio de encontrar uma solução que satisfizesse todas as partes. A partir de então, ele se esforçara para internacionalizar sua sociedade, dado que tinha permanecido muito francesa. As potências coloniais exigiram que os missionários em suas colônias fossem da mesma nacionalidade que os seus governantes ocidentais. As tensões entre as potências coloniais acabariam por provocar a Primeira Guerra Mundial (1914-1918).

Isso acarretaria graves consequências para a Sociedade dos Missionários da África: suas atividades iriam funcionar num ritmo mais lento por vários anos e entre os seus membros convocados para o serviço militar, 60 seriam mortos, 29 seriam gravemente ferido e 42 mudariam de direção na vida como resultado. O Bispo Livinhac conseguiu restaurar sua Sociedade do desastre humano. Em 1904, mais uma vez ele enfrentou outro desafio ligado à política anticlerical do governo francês que ameaçava a própria existência da Sociedade dos Missionários da África. Este desafio, que deu origem a muitas ansiedades, iria encontrar uma solução inesperada quando o governo francês abandonara sua política anticlerical alguns anos mais tarde.

O Bispo Livinhac foi escutado pelo Papa Bento XV (1854-1922). Até mesmo algumas de suas idéias foram tomadas por ele em sua encíclica missionária “Maximum Illud”, publicada em novembro de 1919. Nesta encíclica, o Papa destacou a rejeição dos nacionalismos europeus, a necessidade de formar um clero local e a importância da colaboração entre os Institutos Missionários e Vicariatos nos países de missão. Neste contexto, em junho de 1920, beatificou os mártires de Baganda, cuja causa foi introduzida em 1912. O Bispo Livinhac, que não pôde comparecer à cerimônia por motivos de saúde, foi criado Arcebispo de Oxyrhyncus em 21 de novembro de 1920. Desgastado pela sua pesada responsabilidade como Superior Geral, ele faleceu em Maison Carrée em 11 de Novembro de 1922, aos 76 anos.

Desde 1975, os restos mortais de Dom Livinhac estão em Uganda, e desde 24 de junho de 2007 no Santuário de Nabugala.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Padres Brancos: Missionários e Etnógrafos



 Alguns dos M.Afr. citados ao longo do texto

Original em: http://www.mafrome.org/ethnographie.htm#gb

"Padre Schynse, eu presumo".  Assim poderia ter dito Henry Morton Stanley (1841-1904), o aventureiro, quando se encontrou com Pe. Auguste Schynse. Em setembro de 1889, a expedição de Stanley, em socorro a Emin Pasha, parou no bairro da Missão Bukumbi  (Vitória-Nyanza do Sul) e lá recebeu dos missionários mantimentos, roupa, sapatos e burros. Mais tarde, o Padre Schynse, acompanhando o incapacidatado Pe. Ludovic Girault para Zanzibar, encontrou-se no caminho com a caravana de Stanley e Emin.

Cardeal Lavigerie queria que seus missionários fossem principalmente apóstolos, em vez de homens de ciência ou simples exploradores. Eles não estavam ali para ser, nas palavras humoradas de Lavigerie, os "Robinson Crusoes". No entanto, reconheceu que estava enviando seus homens para o interior de um continente praticamente desconhecido para a comunidade científica da Europa.

No serviço da ciência estavam geógrafos, etnógrafos e inúmeros outros especialistas ocupados na abertura deste território desconhecido e, assim, queriam que os Missionários da África contribuissem para este processo. "Todos os (tais) serviços prestados à ciência", escreveu Lavigerie, "podem ​​ser considerados como uma resposta eficaz aos ataques odiosos dirigidas contra a Igreja por seus inimigos." Ele pediu que um missionário dedicasse um mínimo de 15-20 minutos por dia, mantivesse uma rotina que seria vista como uma contribuição para a ciência. Ele desejara que as lendas, narrativas históricas e os mitos sagrados fossem catalogados, porque estes poderiam confirmar as verdades da Sagrada Escritura e os ensinamentos cristãos sobre a unidade do gênero humano. Observações e coleções científicas, feitas com a ajuda de instruções e ferramentas fornecidas pelas sociedades científicas em Paris, deveriam ser enviadas regularmente.

O período entre 1892-1914 assistiu ao nascimento da etnografia missionária na Igreja Católica. Sua principal estrela, e uma das maiores autoridades da época em linguística, etnologia e história da religião, era Wilhelm Schmidt (1868-1954), padre dos Missionários do Verbo Divino. Em 1906, Schmidt fundou a revista Anthropos, em Moedling, perto de Viena, Áustria. Isto se tornou no foco do Instituto Anthropos, que dirigiu entre os anos 1932-1950. O trabalho de Schmidt, doze volumes monumentais sobre a origem da idéia de Deus, começou a aparecer em 1912. Os Padres Brancos foram encorajados pelo exemplo de Schmidt para entrar no campo da etnografia e vários publicaram suas descobertas nas páginas da Anthropos durante estes anos. Antes da “Idéia de Deus” de Schmidt começar aparecer, outro astro já estava publicando artigos sobre "religião primitiva" e "O Papel Científico do Missionário" na primeira edição da Anthropos. Este era o Espiritano Alexandre Leroy.

Em 1909, Leroy publicou um importante trabalho sobre a religião primitiva, que se concentrou nas áreas de língua banto da África. Este livro apresenta uma imagem totalmente diferente da religião tradicional daquela dos exploradores e estudiosos, que faziam deselegantes comparações com as chamados religiões "superiores". Ele refutou a nova "religião" europeia do evolucionismo e suas teorias da promiscuidade primitiva e politeísmo. O trabalho de Leroy foi solidamente baseado em tradições orais, nas línguas e práticas rituais por ele observadas, provando conclusivamente que os africanos eram monoteístas. Apenas o cristianismo católico, acreditava, poderia responder às questões levantadas por estas religiões. Após o seu aparecimento, Léon Livinhac, Superior Geral dos Padres Brancos, escreveu ao autor, parabenizando-o em nome da Sociedade, e aplaudindo a investida contra o evolucionismo. Os missionários de Livinhac deram total apoio às teses de Leroy.

O primeiro Padre Branco em campo foi Auguste Achte (1861-1905), que publicou uma dúzia ou mais de artigos em periódicos de missão entre 1894 e 1905, ano da sua morte. O trabalho mais notável de Achte foi sua inédita “História dos Reis de Baganda”, terminada em janeiro de 1900. Outra obra ainda não publicada também foi produzida em 1900 por Jacques "Yacouba" Dupuis (1865-1945). Tratava da geografia física e humana de Timbuktu, incluindo uma completa etnografia e história da sua descoberta e ocupação pelos franceses. Jan (ou Jean) Martin-Michel, van der Burgt (1863-1923) era um padre holandês Branco e um dos primeiros missionários no Burundi, que se tornou um escritor prolífico nos primeiros anos do século XX. Seu Dicionário Francês-Kirundi foi enviado em manuscrito para o Museu de Berlim, em 1899, junto com 348 objetos etnográficos, embalados em três caixas. A seção etnográfica desta obra foi publicada em 1903 em s'Hertogenbosch, na Holanda, seguida de um dicionário completo e gramática em 1904.

A etnografia revela van der Burgt como um excêntrico polímata de primeira ordem. Sua bibliografia conta 491 itens e, após uma longa introdução de 113 páginas, seguida por um dicionário etnográfico com 196 artigos, em conjunto com 250 gravuras e figuras impressas, mais 10 mapas. A introdução, que é de extraordinária amplitude e erudição, tratava da classificação racial, teoria hamítica, pré-história africana, Egito antigo, fenícios, sabeus, gregos e romanos na África, escritores árabes, Zimbabwe e Monomotapa, os povos de Oromo-Galla , animais domésticos e estatísticas negras. O resto do livro é uma espécie de "notas e consultas", organizadas de forma alfabética, sobre a etnografia do Burundi. Há artigos sobre crenças religiosas, hinos religiosos tradicionais, curandeirismo, medicamentos, fazedores de chuva, mitos e literatura oral, bem como listas de reis, gravuras de uma centena de estilos de cabelo com os seus nomes, 14 gravuras de tatuagens e 138 gravuras de edifícios, obras de arte, utensílios e roupas.

Após este “tour de force”, não é surpreendente que van der Burgt recebesse uma distinção do governo alemão. O autor, no entanto, não se refestelava sobre os seus louros. Um fluxo de artigos publicados continuou a ser derramado de sua pena, incluindo, em 1921, dois anos antes de sua morte, uma história da missão na África Central, escrito em holandês.

O Bispo Adolphe Lechaptois (1852-1917), do Vicariato de Tanganica, produziu uma única etnografia dos povos Fipa e Bende de seu vicariato em 1913, fruto de 20 anos de experiência. Nas margens do lago Tanganyika está uma compreensiva e positva descrição de sua história, política, vida familiar, tradições orais, artes, conhecimento científico e industrial. Até mesmo se encontrava partituras musicais. O livro ganhou merecidamente o prêmio e a medalha de prata da Sociedade Geográfica de Paris.

Eugène Mangin (1877-1922) foi o etnógrafo do povo Mossi. Tendo contribuído com quatro artigos importantes sobre os Mossis na Anthropos entre 1914 e 1916, as suas cópias foram publicados pela revista como um livro e depois republicadas pelos Missionários da África em Argel em 1960. O trabalho é uma competente etnografia do povo Mossi e das suas reais tradições, com ênfase em suas crenças religiosas e ritualísticas.

O Bispo Julien Gorju (1868-1942) tornou-se no primeiro Vigário Apostólico de Burundi em 1922. Antes disso, ele estava no Seminário Bukalasa, em Uganda, onde fundou o jornal Munno e dirigia a imprensa. Ele também foi Notariado Eclesiástico para a causa dos Mártires de Uganda. Sua obra mais importante, pelo qual recebeu um prêmio da Academia Francesa, foi uma pesquisa etnográfica dos povos do norte de Nyanza, no seu Vicariato, entre os lagos Vitória, Alberto e Eduardo. Esta obra foi publicada em 1920, mas foi baseada em um quarto de século de estudos lingüísticos e culturais. O livro, que apareceu pela primeira vez como uma série de artigos distintos, foi organizado em Bukalasa em 1919. Os povos descritos são o Ganda, Hima, Nyoro, Nkole, de Uganda, Kiziba do territórii Tanganica (anteriormente África Oriental Alemã), e os Tutsis, Hutus e Twa de Ruanda e Burundi. Depois de se mudar para o Burundi, Gorju descreveu sua primeira viagem em outro trabalho substancial, juntamente com as informações etnográficas.

Félix Dufays (1877-1954) era um luxemburguês que foi para a Ruanda em 1903, nomeado para fundar a missão de Mulera. Suas obras publicadas apareceram após a Primeira Guerra Mundial, mas foram baseadas em pesquisas e experiênias anteriores. Seu livro de história, Páginas de um épico africano – Temos Difíceis 1928, conta a história do tenso início de Mulera de 1903 até o assassinato de Loupias em 1910. Já sua “Au Kinyaga les enchainés”, de 1939, consiste em notas etnográficas coletadas a mais de 26 anos e que circularam entre os confrades, em 1913. Ele também escreveu um romance moral em suaíli, após a I Guerra Mundial, que teve duas edições em francês.

Dois outros Missionários da África etnógrafos foram para a África Oriental Alemã durante o período de 1892-1914. Eles eram Jean-Marie Robert (1879-1966), que chegou ao país em 1906, e o Padre Branco suíço Fridolin Bösch (1881-1968), que veio em 1909. Robert começou a publicar seu material sobre Fipa (Tanganyika) em 1930, enquanto a Bosch iniciou seu estudo de Nyamwezi em 1912, logo após a chegada de Dom Henri Léonard, de quem recebeu o incentivo. Começou a publicar suas descobertas em 1920. Ao todo, a produção etnográfica dos Missionários da África, durante os anos 1892-1914, forma um orgulhoso recorde.

Outras Ciências

Alguns Missionários da África contribuíram para a exploração da história e para a descoberta geográfica ou ingressando em expdições como exploradores ou através das suas jornadas em regiões até então despercebidas pelos europeus. Um deles foi o primeiro sacerdote alemão da Sociedade, Auguste Wilhelm Schynse (1857-1891), de Trier, que fez seu juramento missionário em 1883 e que foi enviado com José Dupont e Merlon Armand para iniciar a missão de Bungana, em Kwamouth no Congo, em 1885. Schynse escreveu um relato em alemão de seus dois anos em Kwamouth, que foi publicado em 1889. Em setembro de 1889 a expedição de Morton Stanley em socorro a Emin Pasha passou no bairro da Missão Bukumbi, em Nyanza do Sul, e recebeu suprimentos dos missionários.

Em 24 de setembro, Schynse, acompanhado por Ludovic Girault (1853-1941), o Pro-Vigário de Unyanyembe, que estava sofrendo da cegueira dos rios, foi ao encontro do doutor Stanley, e foi decidido que Girault deveria retornar para a Europa para o tratamento. Em 04 de outubro Schynse e Girault deixaram Bukumbi com 20 carregadores e quatro soldados para se juntarem a Stanley e Emin em seu caminho para a costa. Schynse voltou no ano seguinte, na companhia de Emin. Schynse escreveu um relato da viagem com Stanley e Emin, publicado em francês, alemão e italiano. Ele oferece uma série de insights sobre o caráter e os hábitos de ambos os exploradores. Ele morreu um ano depois, com a idade de 34.

Augustin Hacquard (1860-1901) entrou para a Expedição Hidrográfica Hourst para mapear o rio Níger, em 1896. Sua caravana para o Sudão francês, em 1895, criou grande interesse e expectativa entre a comunidade científica em Paris, que estava ansiosa pela informação geográfica, etnográfica e linguística. Ele, de fato, dirigiu estes dados à Sociedade Geográfica de Paris, em 1894. Hacquard publicou um grande número de artigos em periódicos geográficas e missionários sobre a expedição Hourst e sobre suas outras viagens no Saara e no Sudão francês, notadamente em “Les Missions Catholiques”. Um de seus artigos mais importantes descreveu suas duas visitas ao Reino Mossi.

Na África Oriental Alemã, Théophile Dromaux (1849-1909) foi pioneiro de uma nova rota a partir de Ugogo ao Lago Tanganyika, em 1897. A viagem levou-o através de regiões de Ukimbu e Ukonongo até então não descritas. Seu relato no jornal “The Geopraphical Journal”  contém os dados da geografia física e humana das áreas por onde ele passava.

Nesse período o maior cientista Missionário da África foi, indiscutivelmente,  o arqueólogo Alfred-Louis Delattre (1850-1932). Delattre, que poderia ser facilmente comparado com os melhores arqueólogos de hoje, passou a vida escavando as ruínas púnicas, romanas e cristãs que ainda existiam na colina de  Byrsa, em Cartago, na Tunísia. Sua bibliografia inclui 250 publicações numeradas, além de outros 25 grandes documentos. Delattre era a pedra angular de uma equipe montada por Lavigerie para estudar a história e arqueologia da Igreja primitiva do Norte Africano.

O Bispo Anatole Toulotte (1852-1907) foi um importante membro dessa equipe. Embora tivesse escrito um relato de sua viagem pelo Sudão francês em 1896-1897 e um estudo lingüístico do uso árabe na região, a maioria de suas obras era sobre arqueologia, história, geografia e cultos cristãos no Norte da África, sendo muitos desses nunca foram publicados. Joseph Mesnage (1859-1922), que era herdeiro literário e intérprete de Toulotte, produziu uma impressionante lista de escritos sobre o cristianismo no norte da África. Entre os mais importantes estavam os relatos sobre os antigos bispados e as ruínas associados a estes, investigação que teve como base o material inédito de Toulotte, principalmente a sua consideração sobre o declínio e extinção do cristianismo na África romana. Seu trabalho também ajudou na revisão do chamado mito cristão de Kabyle.

André Vellard (1865-1906) escreveu um guia para a Cartago antiga e moderna. Vellard também foi o autor de vários manuscritos inéditos sobre a história e geografia, física e humana, do Saara. Seu trabalho mais significativo, no entanto, foi o jornal manuscrito sobre a viagem que fez com Charles Guérin para o Saara Ocidental em 1903, e sua estadia com Charles de Foucauld em Beni Abbés.

Durante os anos 1892-1914, os Padres Brancos na África equatorial, e, particularmente, na colônia alemã, foram os anfitirões de um número sem fim de viajantes. O colonialismo parece ter liberado um bando de homens itinerantes de um tipo ou de outro. Eles eram uma mistura de excêntricos viajantes, caçadores e especuladores comerciais. Entre eles estavam alguns genuínos cientistas.

Os missionários em Mpala já tinham começado a coleta de insetos e conchas, quando foram visitados por Edouard Foa, o explorador francês, caçador e geógrafo, em 1898. Foa, que foi patrocinado pelo Ministério da Instrução Pública e pelo Museu Francês de História Natural, ficou encantada com o inseto gigante e espécimes de borboletas que os Padres lhe deram. Ademais, ficara profundamente abalado ao saber que as conchas que ele próprio tinha recolhido já eram conhecidas pelos Padres Brancos e que foram classificadas num trabalho sobre os moluscos do lago Tanganyka, a seu pedido, feito pelo naturalista francês Jules-René Bourgignat em 1888. Um diretor do museu italiano chegou a Bukalasa (Nyanza do Norte), em 1907, à procura de tesourinhas (dermaptera). Ainda havia outras visitas de entomólogos da França, bem como cientistas de museus britânicos e holandeses, para Busubizi (Nyanza do Norte) e Lusaka (Alto Congo) , coletando borboletas e outros insetos. Bruno Schmitz (1872-1905) criou um museu mineralógico privado em Mpala e Baudouinville. O Bispo Dupont, por sua vez, coletava cobras em Chilubula (Niassa) e enviava o veneno para o Instituto Pasteur de Lille. Dois professores da Universidade de Viena passaram por Msalala (Unyanyembe) em 1909, com meia dúzia de espécimes de aves, peixes e mandíbulas de rinoceronte.

Em Wargla (Ouargla), no deserto do Saara, Edmond Huguenot (1850-1933) criou um museu de artefatos arqueológicos pelo qual, em seguida, foi feito um oficial da Academia Francesa em 1907, com “académiques Palmes”, pelos serviços prestados à pré-história. Garimpeiros e geólogos abundavam da África equatorial, Sudão Francês e do Saara. Um geólogo do Museu Francês de História Natural, o professor V. Gauthier,  visitou Timbuktu em 1906, trazendo saudações de Charles de Foucauld. Notícias se seguiram logo após a morte de Stanislas Comte (1865-1906), companheiro de Vellard na mal-fadada Biskra wadi. Comte foi ele próprio um geólogo que tinha feito um estudo da Silex Subsaariana (quartzo fundido na pedra).

Na África Equatorial as visitas científicas atingiram seu clímax com a chegada de dois duques reais em 1906 e 1907: o duque de Abruzzi e o duque de Mecklenburg-Strelitz, ambos alpinistas. O último viajou com a sua própria comissão científica, que permaneceu após a sua partida. Seu interesse principal era craniometria, ou a medição de características cranianas, uma falaciosa pseudo-ciência amada pelos apologistas coloniais. Com alguma dificuldade, os Missionários evitaram comprometer-se.

Esse casual flerte dos Padres Brancos com os variados expoentes de ciência colonial revelou o grau em que os missionários já estavam: de forma independente comprometidos com uma variedade de projetos científicos próprios. Nos anos de 1892-1914, os Missionários da África, apesar de muitas desvantagens decorrentes de uma mentalidade tendenciosamente europeia e das desigualdades e imposições da situação colonial, desenvolveram, com poucas exceções, um verdadeiro amor e compreensão dos povos africanos entre os quais trabalhavam. Eles também contribuíram muito para o conhecimento mundial da África e para a compreensão do modo como os próprios africanos enxergavam a si mesmos.

domingo, 13 de janeiro de 2013

A Missão dos Missionários de São Francisco de Sales




Original em: www.msfssouthwest.org

A Congregação dos Missionários de São Francisco de Sales (MSFS / Fransalesianos) foi fundada em Annecy, na França, em 24 de outubro de 1838 pelo Servo de Deus Pierre Marie Mermier, sob o patrocínio de São Francisco de Sales. Foi a realização de um desejo há muito acalentado pelo Pe. Mermier, apóstolo das missões paroquiais. O distúrbio político no país, especialmente a Revolução Francesa, também teve o seu impacto sobre o mundo espiritual, em especial no modo como deixou o povo numa profunda crise espiritual e de indiferença para com os seus deveres religiosos. Sentindo a necessidade do seu tempo, Mermier tomou para si a tarefa de uma renovação espiritual entre os seus, pregando missões paroquiais. Este especial apostolado, por sua vez, deu origem a uma comunidade de pregadores congregados ao redor dele. Seu firme zelo missionário estava muito claro em seu slogan, "Eu quero a missão".

A recém-formada comunidade de missionários, composta por seis membros, começou a viver junta em La-Roche-Sur-Foron, em 1834. Percebendo a necessidade de dar um respaldo formal a esta equipe, Pe. Mermier foi em frente com o plano de torná-la numa sociedade religiosa. A regra de vida foi elaborada por ele em 1836 e a comunidade se mudou para uma nova casa, La Feuillette, em Annecy. Mons. Pierre Joseph Rey, bispo de Annecy, que era uma fonte de constante apoio e inspiração para os missionários, conferiu a aprovação canônica da jovem congregação em 24 de outubro de 1838 e a confiou ao cuidado e proteção de São Francisco de Sales, nomeando a congregação Missionários de São Francisco de Sales. O bispo exortou os membros a estudar as obras do santo, cultivar o seu espírito e adotar o seu método em suas relações com as almas.

O plano de missão do Padre Mermier também incluía missões estrangeiras e, portanto, ele fez conhecer para a Sagrada Congregação para a Propagação da Fé o seu desejo e vontade de assumir missões na África. No entanto, ao contrário de todas as expectativas, Roma confiou à sua pequena congregação o vasto território missionário de Visakhapatnam na Índia, em 1845. Aceitando o desafio, Mermier preparou seus seis melhores homens a serem estabelecidos para a nova missão. A equipe pioneira, que era composta pelo Pe.
Jacques Martin, Pe. Joseph Lavorel, Pe. Jean Marie Tissot, Pe. Jean Thevenet, Ir. Pierre Carton e pelo Ir. Sulpice Fontanel, despediu-se dos seus confrades e da pátria e embarcou no navio em 08 de junho de 1845, chegando em Pondicherry depois de três meses, no dia 08 de setembro.

A missão confiada aos MSFS era um grande território, incluindo partes dos estados atuais de Andhra Pradesh, Orissa, Madhya Pradesh, Maharashtra e Chattisgarh. Os missionários prestaram os seus serviços a partir de quatro centros de missão em Visakhapatnam, Yanam, Kamptee e Aurangabad.  Pe. Mermier, percebendo as necessidades urgentes da missão em Visakh, não deixou pedra sobre pedra na busca de financiamento e de pessoal para a mesma. Pobreza e dor, humilhação e heroísmo, foram os alicerces sobre os quais os Missionários construíram as duas grandes dioceses indianas de Visakhapatnam e Nagpur.

Aos poucos, os missionários começaram a estender seu trabalho também para outros países. A missão MSFS na Inglaterra se iniciou graças à generosidade do capitão Charles Dewel que estava na unidade militar em Kamptee, na Índia. Ele ofereceu a sua casa e propriedade em Malmesbury, de volta ao seu país de origem, para os MSFS e para o Pe. Francis Larive, este que fora fundamental, ao ser enviado de Kamptee para a Inglaterra, em 1861, na abertura da nova missão. O trabalho dos missionários pioneiros deu ricos frutos e a missão inglesa, com o passar do tempo, tornou-se numa província de pleno direito.

Pe. Mermier, querendo ver sua jovem congregação crescer de forma constante, foi a Roma para buscar a aprovação da Santa Sé. Ele obteve o decreto final de aprovação em 1860 e as Constituições foram aprovadas em 1899. Em 1862, na manhã do dia 30 de setembro, por volta das nove horas, o Padre Mermier, o santo fundador, partiu para sua recompensa eterna, deixando todos os seus confrades profundamente tristes.


Vários dos missionários que foram para a Índia aprenderam muitas línguas autóctones e algumas deles foram tão proficientes que escreveram livros nestes idiomas. Eles trabalharam duro, enfrentando todas as dificuldades. Doenças, mau tempo e o cansaço tiraram a vida de muitos jovens, missionários zelosos. O vasto território de Visakhapatnam foi dividido em dois em 1887, formando a nova diocese de Nagpur, com o MSFS Alexis Riccaz como seu primeiro bispo. No entanto, a vastidão do território e com o aumento da necessidade de mais pessoal e recursos levou à divisão da missão Visakhapatnam original em muitas dioceses que foram, em seguida, entregues a outras congregações religiosas no decorrer do tempo. Os fransalesianos, por sua vez, cresceram e começaram a espalhar-se para as outras partes da Índia. Em 1965, ambas as regiões de Visakhaptnam e Nagpur se tornaram províncias conhecidas como província de Viskhapatnam e província de Maharashtra-Goa, respectivamente. Hoje a Índia reúne cinco províncias, viz., Visakhapatnam, Sul-Oeste, Nordeste, Nagpur e Pune e uma região, viz., Tamilnadu-Pondichery.

De volta à França, em 1903, os MSFS perderam a casa mãe em Annecy, que fora tomada pelo Estado. Outra casa adjacente à primeira foi comprada tornando-se na casa mãe, batizada como “Proupeine." Cerca de seis décadas depois, as autoridades estaduais, ao escavar no local da velha fundação, encontraram os túmulos do Padre Mermier e de outros MSFS primeiros confrades. Diz-se que quando o túmulo do Servo de Deus Pierre Mermier foi aberto, na presença das autoridades eclesiásticas e civis, seu corpo foi encontrado incorrupto, até mesmo com as vestes intactas. Logo, os restos mortais do venerável fundador e dos outros homens santos foram transferidos para a nova casa em 24 de outubro de 1960. Os confrades na França e na Suíça estavam diretamente ligados ao Superior Geral até 1959. Tornou-se numa região em 1960 e numa província em 1965, conhecida como província Franco-suíça.

Os Fransalesianos também estabeleceram suas missões no continente americano. Em 1926 a missão no Brasil foi iniciada a convite do Arcebispo de São Paulo. No decorrer do tempo criou raízes profundas e se tornou numa província em 1965. A missão nos Estados Unidos foi iniciada em 1972 e transformou-se numa missão autônoma em 1990 e, hoje, espalhou-se para um grande número de dioceses prestando valioso serviço à Igreja. Em 1975 os MSFS  chegaram ao Nordeste da Índia para o trabalho missionário. Esta região se tornou numa província em 1990. Em 1994, uma missão MSFS foi aberta no Chile.

O desejo original do fundador, para assumir uma missão na África, materializou-se quando uma equipe de quatro missionários MSFS de Visakhapatnam desembarcou na Tanzânia, em 1988. A Fundação MSFS  se tornou na província do leste da África em 1996, estendendo seus serviços a todos os países do Leste Africano.

Em 1991, a província de Visakhapatnam foi dividida e a nova província do Sudoeste da Índia foi erguida. Em 1996, a província de Maharashtra-Goa foi separada e as duas novas províncias de Pune e Nagpur foram criadas. A missão nas Filipinas foi inaugurada em 1993, sob a égide da província do Sudoeste indiano. A província do Nordeste assumiu a missão da Namíbia e da África do Sul em 1998 e 1999, respectivamente, que foi estabelecida como região da África Austral em 2003. A província de Nagpur assumiu a missão em Moçambique em 2000. Em 1999, a província Sudoeste iniciou a missão no Oeste Africano compreendendo os países francófonos do Chade e Camarões. Em 2003, a missão na Polônia foi aberta pela província Franco-suíça. Em 2005, uma nova região, Tamilnadu-Pondichery, sob a província Visakhapatnam, foi estabelecida.

Além destas províncias e regiões há muitas fundações MSFS em países como Alemanha, Itália, Espanha, Áustria, Austrália, Índias Ocidentais, Irlanda etc

Assim, hoje, os Missionários de São Francisco de Sales (MSFS) fazem parte de uma grande congregação espalhada por vários países do mundo, prestando serviços valiosos à humanidade, mantendo em seu carisma e modo de viver o espírito e a espiritualidade de São Francisco de Sales, especialmente em sua missão através do triplo apostolado de renovação da vida cristã através da pregação, das missões paroquiais e ad gentes, assim como na pioneira evangelização, educação e formação, especialmente dos jovens.