segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Arcebispo Livinhac (1846-1922)

Missionário da África (Padre Branco)
Fundador da Igreja Católica em Buganda
Bispo de Pacando
Arcebispo de Oxyrhyncus
Superior Geral dos Missionários da África

Original em: http://www.africamission-mafr.org/mgr_livinhacgb.htm

Esse missionário francês era da diocese de Rodez, no Sul da França. Nasceu no dia 13 de julho de 1846 numa família cristã muito devota da aldeia de Ginals, na freguesia de Buzeins. Batizado Auguste Simon Léon Jules, ele era chamado de Léon. Seus pais eram donos de uma fazenda em Aveyron que eles mantinham com a ajuda de trabalhadores diários. Eles tiveram três filhos, Leon, sua irmã mais velha e seu irmão mais novo. A morte prematura de seu pai e depois de sua mãe, quando Léon tinha 6 anos, afetou a vida feliz das três crianças. A partir de então, a sua educação tornou-se responsabilidade de sua avó e de duas tias, sob o olhar atento de um tio-avô, o pároco de Bonneterre. A perda de seus pais na infância se transformou num ferida profunda, que se agravou quando, em janeiro de 1871, seu único irmão, um antigo Zouave Pontifício, foi morto defendendo a França das incursões da Prússia. Como um homem do dever, com um olhar pensativo e triste, mais tarde ele viria a ser cético diante do desconhecido. Possivelmente devido ao seu passado rural, Livinhac levava um estilo de vida simples, mas estava sempre inclinado a novas idéias.

De 1855 até 1860, Léon frequentou a escola primária dirigida pelos Irmãos das Escolas Cristãs, em Saint Geniez. Durante este tempo, ele provou ser uma criança tímida e sensível, mas sempre aplicada aos estudos. Bem comportado e piedoso, ele recebeu o Sacramento da Confirmação antes de sua Primeira Comunhão, ao contrário da prática dos tempos. Como seu estado de saúde era delicado, ele não estava preparado para o esforço físico. Nada indicava, portanto, que um dia seria um missionário ou até mesmo um padre. Dentro dos intuitos de sua família o jovem Livinhac deveria se tornar num fazendeiro enquanto seu irmão mais novo ingressaria no clero.

Depois da escola primária, Léon foi matriculado em Saint Denis, o colégio diocesano de São Geniez. No entanto, não foi fácil para ele estar lá. Como resultado, sua saúde piorou. Acometido por paralisia nas pernas, ele foi obrigado a voltar para casa de sua família em Ginals. Durante a sua convalescença, ele se confessou ao pároco, o Pe. Malet, que detectou nele uma vocação sacerdotal. Assim, pois, ele começou a receber lições de latim. Finalmente recuperado em 1861, Léon voltou para a faculdade, desta vez como um aluno na seção greco-latina, tendo em vista a sua preparação para o sacerdócio. Seu progresso foi tanto que ele fora capaz de pular uma classe no ano letivo de 1862. Ao longo desse período de estudo, ele viveu na casa de uma "Béate”, um membro de uma associação piedosa de mulheres consagradas.

Em outubro 1867, com 21 anos, entrou no Seminário Maior de Rodez. Este seminário, dirigido pelos Sulpicianos, na época contava com quase 300 seminaristas! Léon primeiro estudou filosofia e, em seguida, teologia. Mais tarde, ele reconheceu que houve falhas em seus estudos e ele nunca as supriria. Seu diretor espiritual era Pe. Georjon, superior do seminário. Entre seus colegas estavam o futuro Bispo Gély de Mende e o Bispo Garriguet, Superior Geral dos Sulpicianos. Léon recebeu a tonsura em maio de 1869 e as Ordens Menores no ano seguinte, em junho. Sua vocação tomaria um rumo inesperado em 187.

No outono, ele conheceu um missionário da África, Padre Charmetant (1844-1921), uma pessoa amável e gentil, enviado para o seminário de Rodez pelo arcebispo Lavigerie (1825-1892) de Argel. Este prelado francês havia fundado uma Sociedade Missionária em 1868 para evangelizar o continente Africano. Desde então, ele buscava nos seminários franceses candidatos para o seu ambicioso projeto. Léon se interessara, mas hesitou em comprometer-se. De fato, certos círculos da Igreja criticavam o famoso projeto que tinha apenas um trabalho de caridade: um pobre orfanato criado em Maison Carrée, perto de Argel, que também foi a primeira casa mãe dos Missionários da África.

Encorajado por seu amigo Padre Charbonnier  (1842-1888), Léon finalmente tomou sua decisão após sua ordenação ao diaconato (Maio de 1872). Ele havia requerido ingresso junto ao Arcebispo Lavigerie no dia 26 fevereiro de 1873, atrasando, assim, a sua ordenação ao sacerdócio. No final de março, Léon, acompanhado por seu colega Auguste Moncet (1849-1889), chegou a Maison Carrée. Ele iniciou o noviciado em 06 de abril e uma semana depois estava vestindo o hábito missionário de Dom Lavigerie - gandoura, chechia e rosário. O seu Mestre de Noviços foi o Padre Terrasse (1831-1922), um jesuíta que lhe apresentou a prática da espiritualidade inaciana.

O Arcebispo Lavigerie, altamente impressionado com este noviço modelo, o ordenou sacerdote em 12 de outubro de 1873. No mesmo dia, ele o nomeou para o escolasticado (Seminário Maior dos Missionários da África.) Padre Léon seria Vice-Reitor, tesoureiro e professor de teologia dogmática, sem ter completado tanto o noviciado como os seus estudos teológicos. Listado como número 22 no registo de admissões, ele fez o seu Juramento Missionário em 7 de Abril de 1874. Além disso, alguns meses depois, em 12 de outubro de 1874, ele era então eleito membro do Conselho Geral durante o primeiro Capítulo Geral dos Missionários da África, conhecido como o Capítulo da Fundação, em vista da importância das suas decisões. Na ocasião, o arcebispo Lavigerie o nomeou Tesoureiro Geral da Sociedade, pobre em recursos financeiros, mas rica em generosidade pessoal. Naquele tempo, constituída por 43 padres e 9 Irmãos, formando ao todo 15 comunidades disseminadas pela Argélia.

No final de dezembro de 1874, o arcebispo Lavigerie enviava Pe. Livinhac a Paris para montar um “procurement office”, o primeiro na Europa. No entanto, oito semanas depois, Léon já estava de volta alegando que não tinha as aptidões para este tipo de responsabilidade. Na verdade, ao longo de sua vida, ele iria sentir repugnância ao exercício da autoridade. Em meados de fevereiro de 1875, o arcebispo Lavigerie o indicou para a comunidade de Ouadhias, em Cabília. Muito contente, Pe. Livinhac lá teve sua primeira experiência missionária em contato direto com o povo: ele estudou cabila, ensinava a algumas crianças, tratava os doentes e visitava os moradores. No entanto, o seu contentamento duraria apenas alguns meses. Em 24 de agosto de 1875, ele retornou mais uma vez para a Maison Carrée para ser agora reitor do escolasticado. Enquanto reitor, lecionou teologia moral,  escreveu uma gramática cabila e redigiu uma Regra de Vida, usado desde então por centenas de jovens irmãos. Esta regra era um resumo do pensamento missionário do Fundador. Em 1876, o Padre Livinhac pela primeira vez pregava um retiro aos seus confrades, na presença do Arcebispo Lavigerie.

Nesse mesmo ano, o assassinato de três de seus confrades, a caminho de Tumbuctu, perpetrado por tuaregues, lembrou-lhe que a vida missionária implica o dom de si mesmo ao martírio. Seu mandato como conselheiro foi renovado no Capítulo Geral de 1877. Mesmo que obtivesse a maioria dos votos, o arcebispo Lavigerie se recusou a colocá-lo à frente da sua sociedade. Pe. Livinhac não ficara infeliz. Na verdade, alguns meses mais tarde em março de 1878, ele seria nomeado para chefiar a primeira caravana que saíra dos altos planaltos da África equatorial. O Papa Leão XIII (1810-1903), tinha confiado a evangelização desta imensa região à Sociedade dos Missionários da África.
Pe. Livinhac permaneceu na África equatorial desde 1878 até 1889, mais particularmente às margens do Lago Vitória, em condições materiais miseráveis com caminhadas intermináveis a pé e desconfortáveis viagens por canoa. Ele sobreviveu a dois naufrágios, um causado pela tempestade e outro por um hipopótamo. Durante este período, ele e seus colegas, Padres Lourdel (1853-1890), Girault (1853-1941), Barbot (1846-1882) e o irmão Amans Delmas, todos franceses, fundaram a Igreja Católica em Buganda,  escrupulosamente aplicando as instruções do Arcebispo Lavigerie. O sucesso obtido iria torná-los, a seguir, modelos para seus confrades.

Obrigado pelas circunstâncias, eles fundaram a Igreja no seio da corte do reino de Buganda, outrora muito poderoso, mas agora à mercê das tensões criadas pela presença ocidental e árabe. Esses conflitos, com base na politicagem comercial e religiosa, daria origem a uma assustadora violência  entre os baganda (habitantes de Buganda), que levaria a uma guerra civil, religiosa e colonial em 1892. Justamente por razões de segurança, no início de 1883, o Padre Livinhac transferira sua residência para Kamoga, em Bukumbi, uma região ao sul do Lago Vitória. Em última análise, ele próprio passaria pouco tempo em Buganda, de junho de 1879 até novembro de 1882 e alguns meses em 1886, 1888 e 1890.

Depois de sua nomeação como Vigário Apostólico do Vicariato Vitória-Nyanza, em junho de 1883, Livinhac passara a viver em Maison Carrée, onde, em 14 de Setembro de 1884, o arcebispo Lavigerie o ordenava bispo titular de Pacando. Depois, tendo participado do oitavo Capítulo Geral, retornara à África equatorial em maio de 1885. Em Buganda se deparou com uma situação muito tensa. O Kabaka (Rei) Mwanga, (1866-1903), tornou-se refém das rivalidades entre curandeiros da corte, comerciantes árabes, anglicanos e católicos. Cada facção procurava a sua conversão e a monopolização do país.

Em 1886, o bispo Livinhac estava presente quando das mortes heróicas dos Mártires de Baganda que escolheram permanecer fieis à fé cristã. Estes se recusaram a obedecer às ordens de Mwanga, que buscava testar a lealdade de seus servos, de acordo com o direito consuetudinário. Naquele tempo, Livinhac  escreveu uma gramática de luganda para tornar o aprendizado da língua mais fácil para os seus confrades. Em 24 de agosto de 1887, em Kipalapala, ele sagrou bispo o seu amigo Padre Charbonnier, que havia sido nomeado Vigário Apostólico do Vicariato de Tanganyika. Esta foi a primeira ordenação episcopal na África equatorial.

No Domingo de Pentecostes, em 25 de maio de 1890, em Kamoga, Livinhac celebrou a ordenação episcopal do seu sucessor, Pe. Hirth (1854-1931). Ele era da Alsácia e tinha sido seu aluno. De fato, em setembro de 1889, durante o décimo Capítulo Geral, Livinhac havia sido eleito Superior Geral - uma eleição que recebeu com pouco entusiasmo. Em 19 de setembro de 1890, acompanhado por 14 jovens baganda, desembarcou em Marselha a tempo de assistir o Congresso Anti-Escravidão. Além disso, Livinhac visitou o Vaticano, levando com ele os jovens africanos. Em 05 de novembro de 1890, o Arcebispo Lavigerie instalou-o como Superior Geral, aos 46 anos. Quando o arcebispo Lavigerie ofereceu para fazer-lhe o seu coadjutor, ele se recusou, a fim de dedicar-se à sua nova tarefa.  Os confrades o apreciavam muito pela sua bondade e firmeza, o que faria com que fosse reeleito Superior Geral nos Capítulos Gerais de 1894, 1900 e 1906 Gerais e Superior Geral para a vida,, relutantemente, no Capítulo 1912. Depois, ele assim participaria no Capítulo Geral de  1920.

O Bispo Livinhac liderou a Sociedade dos Missionários da África, em colaboração com a Congregação para a Propagação da Fé, até sua morte, em 1922, um período de 33 anos, coincidindo com o retalhamento do continente Africano entre as potências europeias. Assim, portanto, ele pode ser considerado como o segundo fundador da Sociedade, mas, sem dúvida, menos flamejante que o primeiro. Ele conduziu a Congregação em nome dos Capítulos Gerais, com a ajuda de quatro Conselheiros, incluindo seu sucessor Pe. Voillard, (1860-1946), francês. Seus primeiros três anos como Superior ainda foram muito influenciados pela presença do Arcebispo Lavigerie, então envolvido na Campanha Anti-escravidão. Esta Campanha tivera grandes repercussões junto aos seus missionários na África equatorial, dando origem à ira dos comerciantes árabes contra suas missões forçando-os, mais cedo do que o previsto, a submeter-se às potências coloniais.

Somente após a morte do fundador, em novembro de 1892, que Livinhac se tornou verdadeiramente Superior Geral, com poderes e responsabilidades; antes dessa data, ele era apenas "Vigário Geral", como seus antecessores. Ele, então, escreveu aos seus irmãos uma frase que resumiu sucintamente sua atitude em relação ao futuro: "Agora nós temos que seguir o modelo usual das Congregações que perderam seu Fundador: cada um de nós, em seu maior ou menor âmbito, deve tornar-se um homem de iniciativa, enquanto, ao mesmo tempo, evitando qualquer coisa que não esteja em conformidade com as regras e ordens recebidas do alto”.

Sob a direção do bispo Livinhac, a Sociedade dos Missionários da África passara por uma expansão extraordinária seguida do rápido aumento de seus membros. Considerando que, em 1892, eram 3 Bispos, 185 Padres e 64 Irmãos, em 1922 havia 16 bispos, 674 padres e 180 irmãos. Graças a este aumento, o bispo Livinhac foi capaz de abrir casas de promoção e formação no Canadá, Luxemburgo, Bélgica, Grã-Bretanha, Alemanha, Itália e até na Argentina. Ele também fora capaz de multiplicar fundações na África e organizar a evangelização de novas regiões como Ruanda, Burundi e Sudão francês. Os três vicariatos e 3 Pro-Vicariatos de 1892 seriam 13 vicariatos em 1922!

Reformas administrativas e financeiras seriam instituídas. O Bispo Livinhac deu Constituições (1908) à sua sociedade e também um Diretório (1914), aprovado pela Santa Sé. Ansioso para criar um espírito de família, incentivou a publicação de várias revistas para o uso dos seus confrades: Chronique Trimestrielle 1879-1909, Rapports  Annuels de 1905, e Petit Echo, o boletim lançado em 1912, promovendo a partilha de experiências e idéias.

Enquanto Superior Geral, escreveu 133 circulares a seus confrades em que se mostrou  um mestre espiritual muito influenciado pelas idéias de Santo Inácio de Loyola, (1491-1556). Com grande confiança na Providência e uma fervorosa devoção à Virgem Maria, ele exigiu obediência de seus confrades ao Soberano Pontífice. Segundo ele, o sucesso da evangelização dependia da santidade do missionário. Ele se correspondeu pessoalmente com cada confrade. Assim, tornou-se o pai de uma família missionária muito unida. Fora da Sociedade, ele conseguiu criar interesse junto aos católicos pela promoção de um bem organizado trabalho missionário na África.

Durante seu tempo como Superior, Livinhac teve que enfrentar vários desafios. O primeiro foi a partilha de bens e responsabilidades entre a Sociedade dos Missionários da África e a Arquidiocese de Argel. O segundo desafio diz respeito à Igreja Católica em Buganda. Sua existência tinha sido colocada em risco na sequência dos dramáticos acontecimentos de janeiro de 1892, quando os anglicanos, apoiados por Londres, tomaram poder esmagando os católicos. Na ocasião, os Missionários da África foram acusados de serem agentes secretos, às vezes, de Paris e, por vezes, de Berlim. O Bispo Livinhac tomou para si o desafio de encontrar uma solução que satisfizesse todas as partes. A partir de então, ele se esforçara para internacionalizar sua sociedade, dado que tinha permanecido muito francesa. As potências coloniais exigiram que os missionários em suas colônias fossem da mesma nacionalidade que os seus governantes ocidentais. As tensões entre as potências coloniais acabariam por provocar a Primeira Guerra Mundial (1914-1918).

Isso acarretaria graves consequências para a Sociedade dos Missionários da África: suas atividades iriam funcionar num ritmo mais lento por vários anos e entre os seus membros convocados para o serviço militar, 60 seriam mortos, 29 seriam gravemente ferido e 42 mudariam de direção na vida como resultado. O Bispo Livinhac conseguiu restaurar sua Sociedade do desastre humano. Em 1904, mais uma vez ele enfrentou outro desafio ligado à política anticlerical do governo francês que ameaçava a própria existência da Sociedade dos Missionários da África. Este desafio, que deu origem a muitas ansiedades, iria encontrar uma solução inesperada quando o governo francês abandonara sua política anticlerical alguns anos mais tarde.

O Bispo Livinhac foi escutado pelo Papa Bento XV (1854-1922). Até mesmo algumas de suas idéias foram tomadas por ele em sua encíclica missionária “Maximum Illud”, publicada em novembro de 1919. Nesta encíclica, o Papa destacou a rejeição dos nacionalismos europeus, a necessidade de formar um clero local e a importância da colaboração entre os Institutos Missionários e Vicariatos nos países de missão. Neste contexto, em junho de 1920, beatificou os mártires de Baganda, cuja causa foi introduzida em 1912. O Bispo Livinhac, que não pôde comparecer à cerimônia por motivos de saúde, foi criado Arcebispo de Oxyrhyncus em 21 de novembro de 1920. Desgastado pela sua pesada responsabilidade como Superior Geral, ele faleceu em Maison Carrée em 11 de Novembro de 1922, aos 76 anos.

Desde 1975, os restos mortais de Dom Livinhac estão em Uganda, e desde 24 de junho de 2007 no Santuário de Nabugala.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Padres Brancos: Missionários e Etnógrafos



 Alguns dos M.Afr. citados ao longo do texto

Original em: http://www.mafrome.org/ethnographie.htm#gb

"Padre Schynse, eu presumo".  Assim poderia ter dito Henry Morton Stanley (1841-1904), o aventureiro, quando se encontrou com Pe. Auguste Schynse. Em setembro de 1889, a expedição de Stanley, em socorro a Emin Pasha, parou no bairro da Missão Bukumbi  (Vitória-Nyanza do Sul) e lá recebeu dos missionários mantimentos, roupa, sapatos e burros. Mais tarde, o Padre Schynse, acompanhando o incapacidatado Pe. Ludovic Girault para Zanzibar, encontrou-se no caminho com a caravana de Stanley e Emin.

Cardeal Lavigerie queria que seus missionários fossem principalmente apóstolos, em vez de homens de ciência ou simples exploradores. Eles não estavam ali para ser, nas palavras humoradas de Lavigerie, os "Robinson Crusoes". No entanto, reconheceu que estava enviando seus homens para o interior de um continente praticamente desconhecido para a comunidade científica da Europa.

No serviço da ciência estavam geógrafos, etnógrafos e inúmeros outros especialistas ocupados na abertura deste território desconhecido e, assim, queriam que os Missionários da África contribuissem para este processo. "Todos os (tais) serviços prestados à ciência", escreveu Lavigerie, "podem ​​ser considerados como uma resposta eficaz aos ataques odiosos dirigidas contra a Igreja por seus inimigos." Ele pediu que um missionário dedicasse um mínimo de 15-20 minutos por dia, mantivesse uma rotina que seria vista como uma contribuição para a ciência. Ele desejara que as lendas, narrativas históricas e os mitos sagrados fossem catalogados, porque estes poderiam confirmar as verdades da Sagrada Escritura e os ensinamentos cristãos sobre a unidade do gênero humano. Observações e coleções científicas, feitas com a ajuda de instruções e ferramentas fornecidas pelas sociedades científicas em Paris, deveriam ser enviadas regularmente.

O período entre 1892-1914 assistiu ao nascimento da etnografia missionária na Igreja Católica. Sua principal estrela, e uma das maiores autoridades da época em linguística, etnologia e história da religião, era Wilhelm Schmidt (1868-1954), padre dos Missionários do Verbo Divino. Em 1906, Schmidt fundou a revista Anthropos, em Moedling, perto de Viena, Áustria. Isto se tornou no foco do Instituto Anthropos, que dirigiu entre os anos 1932-1950. O trabalho de Schmidt, doze volumes monumentais sobre a origem da idéia de Deus, começou a aparecer em 1912. Os Padres Brancos foram encorajados pelo exemplo de Schmidt para entrar no campo da etnografia e vários publicaram suas descobertas nas páginas da Anthropos durante estes anos. Antes da “Idéia de Deus” de Schmidt começar aparecer, outro astro já estava publicando artigos sobre "religião primitiva" e "O Papel Científico do Missionário" na primeira edição da Anthropos. Este era o Espiritano Alexandre Leroy.

Em 1909, Leroy publicou um importante trabalho sobre a religião primitiva, que se concentrou nas áreas de língua banto da África. Este livro apresenta uma imagem totalmente diferente da religião tradicional daquela dos exploradores e estudiosos, que faziam deselegantes comparações com as chamados religiões "superiores". Ele refutou a nova "religião" europeia do evolucionismo e suas teorias da promiscuidade primitiva e politeísmo. O trabalho de Leroy foi solidamente baseado em tradições orais, nas línguas e práticas rituais por ele observadas, provando conclusivamente que os africanos eram monoteístas. Apenas o cristianismo católico, acreditava, poderia responder às questões levantadas por estas religiões. Após o seu aparecimento, Léon Livinhac, Superior Geral dos Padres Brancos, escreveu ao autor, parabenizando-o em nome da Sociedade, e aplaudindo a investida contra o evolucionismo. Os missionários de Livinhac deram total apoio às teses de Leroy.

O primeiro Padre Branco em campo foi Auguste Achte (1861-1905), que publicou uma dúzia ou mais de artigos em periódicos de missão entre 1894 e 1905, ano da sua morte. O trabalho mais notável de Achte foi sua inédita “História dos Reis de Baganda”, terminada em janeiro de 1900. Outra obra ainda não publicada também foi produzida em 1900 por Jacques "Yacouba" Dupuis (1865-1945). Tratava da geografia física e humana de Timbuktu, incluindo uma completa etnografia e história da sua descoberta e ocupação pelos franceses. Jan (ou Jean) Martin-Michel, van der Burgt (1863-1923) era um padre holandês Branco e um dos primeiros missionários no Burundi, que se tornou um escritor prolífico nos primeiros anos do século XX. Seu Dicionário Francês-Kirundi foi enviado em manuscrito para o Museu de Berlim, em 1899, junto com 348 objetos etnográficos, embalados em três caixas. A seção etnográfica desta obra foi publicada em 1903 em s'Hertogenbosch, na Holanda, seguida de um dicionário completo e gramática em 1904.

A etnografia revela van der Burgt como um excêntrico polímata de primeira ordem. Sua bibliografia conta 491 itens e, após uma longa introdução de 113 páginas, seguida por um dicionário etnográfico com 196 artigos, em conjunto com 250 gravuras e figuras impressas, mais 10 mapas. A introdução, que é de extraordinária amplitude e erudição, tratava da classificação racial, teoria hamítica, pré-história africana, Egito antigo, fenícios, sabeus, gregos e romanos na África, escritores árabes, Zimbabwe e Monomotapa, os povos de Oromo-Galla , animais domésticos e estatísticas negras. O resto do livro é uma espécie de "notas e consultas", organizadas de forma alfabética, sobre a etnografia do Burundi. Há artigos sobre crenças religiosas, hinos religiosos tradicionais, curandeirismo, medicamentos, fazedores de chuva, mitos e literatura oral, bem como listas de reis, gravuras de uma centena de estilos de cabelo com os seus nomes, 14 gravuras de tatuagens e 138 gravuras de edifícios, obras de arte, utensílios e roupas.

Após este “tour de force”, não é surpreendente que van der Burgt recebesse uma distinção do governo alemão. O autor, no entanto, não se refestelava sobre os seus louros. Um fluxo de artigos publicados continuou a ser derramado de sua pena, incluindo, em 1921, dois anos antes de sua morte, uma história da missão na África Central, escrito em holandês.

O Bispo Adolphe Lechaptois (1852-1917), do Vicariato de Tanganica, produziu uma única etnografia dos povos Fipa e Bende de seu vicariato em 1913, fruto de 20 anos de experiência. Nas margens do lago Tanganyika está uma compreensiva e positva descrição de sua história, política, vida familiar, tradições orais, artes, conhecimento científico e industrial. Até mesmo se encontrava partituras musicais. O livro ganhou merecidamente o prêmio e a medalha de prata da Sociedade Geográfica de Paris.

Eugène Mangin (1877-1922) foi o etnógrafo do povo Mossi. Tendo contribuído com quatro artigos importantes sobre os Mossis na Anthropos entre 1914 e 1916, as suas cópias foram publicados pela revista como um livro e depois republicadas pelos Missionários da África em Argel em 1960. O trabalho é uma competente etnografia do povo Mossi e das suas reais tradições, com ênfase em suas crenças religiosas e ritualísticas.

O Bispo Julien Gorju (1868-1942) tornou-se no primeiro Vigário Apostólico de Burundi em 1922. Antes disso, ele estava no Seminário Bukalasa, em Uganda, onde fundou o jornal Munno e dirigia a imprensa. Ele também foi Notariado Eclesiástico para a causa dos Mártires de Uganda. Sua obra mais importante, pelo qual recebeu um prêmio da Academia Francesa, foi uma pesquisa etnográfica dos povos do norte de Nyanza, no seu Vicariato, entre os lagos Vitória, Alberto e Eduardo. Esta obra foi publicada em 1920, mas foi baseada em um quarto de século de estudos lingüísticos e culturais. O livro, que apareceu pela primeira vez como uma série de artigos distintos, foi organizado em Bukalasa em 1919. Os povos descritos são o Ganda, Hima, Nyoro, Nkole, de Uganda, Kiziba do territórii Tanganica (anteriormente África Oriental Alemã), e os Tutsis, Hutus e Twa de Ruanda e Burundi. Depois de se mudar para o Burundi, Gorju descreveu sua primeira viagem em outro trabalho substancial, juntamente com as informações etnográficas.

Félix Dufays (1877-1954) era um luxemburguês que foi para a Ruanda em 1903, nomeado para fundar a missão de Mulera. Suas obras publicadas apareceram após a Primeira Guerra Mundial, mas foram baseadas em pesquisas e experiênias anteriores. Seu livro de história, Páginas de um épico africano – Temos Difíceis 1928, conta a história do tenso início de Mulera de 1903 até o assassinato de Loupias em 1910. Já sua “Au Kinyaga les enchainés”, de 1939, consiste em notas etnográficas coletadas a mais de 26 anos e que circularam entre os confrades, em 1913. Ele também escreveu um romance moral em suaíli, após a I Guerra Mundial, que teve duas edições em francês.

Dois outros Missionários da África etnógrafos foram para a África Oriental Alemã durante o período de 1892-1914. Eles eram Jean-Marie Robert (1879-1966), que chegou ao país em 1906, e o Padre Branco suíço Fridolin Bösch (1881-1968), que veio em 1909. Robert começou a publicar seu material sobre Fipa (Tanganyika) em 1930, enquanto a Bosch iniciou seu estudo de Nyamwezi em 1912, logo após a chegada de Dom Henri Léonard, de quem recebeu o incentivo. Começou a publicar suas descobertas em 1920. Ao todo, a produção etnográfica dos Missionários da África, durante os anos 1892-1914, forma um orgulhoso recorde.

Outras Ciências

Alguns Missionários da África contribuíram para a exploração da história e para a descoberta geográfica ou ingressando em expdições como exploradores ou através das suas jornadas em regiões até então despercebidas pelos europeus. Um deles foi o primeiro sacerdote alemão da Sociedade, Auguste Wilhelm Schynse (1857-1891), de Trier, que fez seu juramento missionário em 1883 e que foi enviado com José Dupont e Merlon Armand para iniciar a missão de Bungana, em Kwamouth no Congo, em 1885. Schynse escreveu um relato em alemão de seus dois anos em Kwamouth, que foi publicado em 1889. Em setembro de 1889 a expedição de Morton Stanley em socorro a Emin Pasha passou no bairro da Missão Bukumbi, em Nyanza do Sul, e recebeu suprimentos dos missionários.

Em 24 de setembro, Schynse, acompanhado por Ludovic Girault (1853-1941), o Pro-Vigário de Unyanyembe, que estava sofrendo da cegueira dos rios, foi ao encontro do doutor Stanley, e foi decidido que Girault deveria retornar para a Europa para o tratamento. Em 04 de outubro Schynse e Girault deixaram Bukumbi com 20 carregadores e quatro soldados para se juntarem a Stanley e Emin em seu caminho para a costa. Schynse voltou no ano seguinte, na companhia de Emin. Schynse escreveu um relato da viagem com Stanley e Emin, publicado em francês, alemão e italiano. Ele oferece uma série de insights sobre o caráter e os hábitos de ambos os exploradores. Ele morreu um ano depois, com a idade de 34.

Augustin Hacquard (1860-1901) entrou para a Expedição Hidrográfica Hourst para mapear o rio Níger, em 1896. Sua caravana para o Sudão francês, em 1895, criou grande interesse e expectativa entre a comunidade científica em Paris, que estava ansiosa pela informação geográfica, etnográfica e linguística. Ele, de fato, dirigiu estes dados à Sociedade Geográfica de Paris, em 1894. Hacquard publicou um grande número de artigos em periódicos geográficas e missionários sobre a expedição Hourst e sobre suas outras viagens no Saara e no Sudão francês, notadamente em “Les Missions Catholiques”. Um de seus artigos mais importantes descreveu suas duas visitas ao Reino Mossi.

Na África Oriental Alemã, Théophile Dromaux (1849-1909) foi pioneiro de uma nova rota a partir de Ugogo ao Lago Tanganyika, em 1897. A viagem levou-o através de regiões de Ukimbu e Ukonongo até então não descritas. Seu relato no jornal “The Geopraphical Journal”  contém os dados da geografia física e humana das áreas por onde ele passava.

Nesse período o maior cientista Missionário da África foi, indiscutivelmente,  o arqueólogo Alfred-Louis Delattre (1850-1932). Delattre, que poderia ser facilmente comparado com os melhores arqueólogos de hoje, passou a vida escavando as ruínas púnicas, romanas e cristãs que ainda existiam na colina de  Byrsa, em Cartago, na Tunísia. Sua bibliografia inclui 250 publicações numeradas, além de outros 25 grandes documentos. Delattre era a pedra angular de uma equipe montada por Lavigerie para estudar a história e arqueologia da Igreja primitiva do Norte Africano.

O Bispo Anatole Toulotte (1852-1907) foi um importante membro dessa equipe. Embora tivesse escrito um relato de sua viagem pelo Sudão francês em 1896-1897 e um estudo lingüístico do uso árabe na região, a maioria de suas obras era sobre arqueologia, história, geografia e cultos cristãos no Norte da África, sendo muitos desses nunca foram publicados. Joseph Mesnage (1859-1922), que era herdeiro literário e intérprete de Toulotte, produziu uma impressionante lista de escritos sobre o cristianismo no norte da África. Entre os mais importantes estavam os relatos sobre os antigos bispados e as ruínas associados a estes, investigação que teve como base o material inédito de Toulotte, principalmente a sua consideração sobre o declínio e extinção do cristianismo na África romana. Seu trabalho também ajudou na revisão do chamado mito cristão de Kabyle.

André Vellard (1865-1906) escreveu um guia para a Cartago antiga e moderna. Vellard também foi o autor de vários manuscritos inéditos sobre a história e geografia, física e humana, do Saara. Seu trabalho mais significativo, no entanto, foi o jornal manuscrito sobre a viagem que fez com Charles Guérin para o Saara Ocidental em 1903, e sua estadia com Charles de Foucauld em Beni Abbés.

Durante os anos 1892-1914, os Padres Brancos na África equatorial, e, particularmente, na colônia alemã, foram os anfitirões de um número sem fim de viajantes. O colonialismo parece ter liberado um bando de homens itinerantes de um tipo ou de outro. Eles eram uma mistura de excêntricos viajantes, caçadores e especuladores comerciais. Entre eles estavam alguns genuínos cientistas.

Os missionários em Mpala já tinham começado a coleta de insetos e conchas, quando foram visitados por Edouard Foa, o explorador francês, caçador e geógrafo, em 1898. Foa, que foi patrocinado pelo Ministério da Instrução Pública e pelo Museu Francês de História Natural, ficou encantada com o inseto gigante e espécimes de borboletas que os Padres lhe deram. Ademais, ficara profundamente abalado ao saber que as conchas que ele próprio tinha recolhido já eram conhecidas pelos Padres Brancos e que foram classificadas num trabalho sobre os moluscos do lago Tanganyka, a seu pedido, feito pelo naturalista francês Jules-René Bourgignat em 1888. Um diretor do museu italiano chegou a Bukalasa (Nyanza do Norte), em 1907, à procura de tesourinhas (dermaptera). Ainda havia outras visitas de entomólogos da França, bem como cientistas de museus britânicos e holandeses, para Busubizi (Nyanza do Norte) e Lusaka (Alto Congo) , coletando borboletas e outros insetos. Bruno Schmitz (1872-1905) criou um museu mineralógico privado em Mpala e Baudouinville. O Bispo Dupont, por sua vez, coletava cobras em Chilubula (Niassa) e enviava o veneno para o Instituto Pasteur de Lille. Dois professores da Universidade de Viena passaram por Msalala (Unyanyembe) em 1909, com meia dúzia de espécimes de aves, peixes e mandíbulas de rinoceronte.

Em Wargla (Ouargla), no deserto do Saara, Edmond Huguenot (1850-1933) criou um museu de artefatos arqueológicos pelo qual, em seguida, foi feito um oficial da Academia Francesa em 1907, com “académiques Palmes”, pelos serviços prestados à pré-história. Garimpeiros e geólogos abundavam da África equatorial, Sudão Francês e do Saara. Um geólogo do Museu Francês de História Natural, o professor V. Gauthier,  visitou Timbuktu em 1906, trazendo saudações de Charles de Foucauld. Notícias se seguiram logo após a morte de Stanislas Comte (1865-1906), companheiro de Vellard na mal-fadada Biskra wadi. Comte foi ele próprio um geólogo que tinha feito um estudo da Silex Subsaariana (quartzo fundido na pedra).

Na África Equatorial as visitas científicas atingiram seu clímax com a chegada de dois duques reais em 1906 e 1907: o duque de Abruzzi e o duque de Mecklenburg-Strelitz, ambos alpinistas. O último viajou com a sua própria comissão científica, que permaneceu após a sua partida. Seu interesse principal era craniometria, ou a medição de características cranianas, uma falaciosa pseudo-ciência amada pelos apologistas coloniais. Com alguma dificuldade, os Missionários evitaram comprometer-se.

Esse casual flerte dos Padres Brancos com os variados expoentes de ciência colonial revelou o grau em que os missionários já estavam: de forma independente comprometidos com uma variedade de projetos científicos próprios. Nos anos de 1892-1914, os Missionários da África, apesar de muitas desvantagens decorrentes de uma mentalidade tendenciosamente europeia e das desigualdades e imposições da situação colonial, desenvolveram, com poucas exceções, um verdadeiro amor e compreensão dos povos africanos entre os quais trabalhavam. Eles também contribuíram muito para o conhecimento mundial da África e para a compreensão do modo como os próprios africanos enxergavam a si mesmos.

domingo, 13 de janeiro de 2013

A Missão dos Missionários de São Francisco de Sales




Original em: www.msfssouthwest.org

A Congregação dos Missionários de São Francisco de Sales (MSFS / Fransalesianos) foi fundada em Annecy, na França, em 24 de outubro de 1838 pelo Servo de Deus Pierre Marie Mermier, sob o patrocínio de São Francisco de Sales. Foi a realização de um desejo há muito acalentado pelo Pe. Mermier, apóstolo das missões paroquiais. O distúrbio político no país, especialmente a Revolução Francesa, também teve o seu impacto sobre o mundo espiritual, em especial no modo como deixou o povo numa profunda crise espiritual e de indiferença para com os seus deveres religiosos. Sentindo a necessidade do seu tempo, Mermier tomou para si a tarefa de uma renovação espiritual entre os seus, pregando missões paroquiais. Este especial apostolado, por sua vez, deu origem a uma comunidade de pregadores congregados ao redor dele. Seu firme zelo missionário estava muito claro em seu slogan, "Eu quero a missão".

A recém-formada comunidade de missionários, composta por seis membros, começou a viver junta em La-Roche-Sur-Foron, em 1834. Percebendo a necessidade de dar um respaldo formal a esta equipe, Pe. Mermier foi em frente com o plano de torná-la numa sociedade religiosa. A regra de vida foi elaborada por ele em 1836 e a comunidade se mudou para uma nova casa, La Feuillette, em Annecy. Mons. Pierre Joseph Rey, bispo de Annecy, que era uma fonte de constante apoio e inspiração para os missionários, conferiu a aprovação canônica da jovem congregação em 24 de outubro de 1838 e a confiou ao cuidado e proteção de São Francisco de Sales, nomeando a congregação Missionários de São Francisco de Sales. O bispo exortou os membros a estudar as obras do santo, cultivar o seu espírito e adotar o seu método em suas relações com as almas.

O plano de missão do Padre Mermier também incluía missões estrangeiras e, portanto, ele fez conhecer para a Sagrada Congregação para a Propagação da Fé o seu desejo e vontade de assumir missões na África. No entanto, ao contrário de todas as expectativas, Roma confiou à sua pequena congregação o vasto território missionário de Visakhapatnam na Índia, em 1845. Aceitando o desafio, Mermier preparou seus seis melhores homens a serem estabelecidos para a nova missão. A equipe pioneira, que era composta pelo Pe.
Jacques Martin, Pe. Joseph Lavorel, Pe. Jean Marie Tissot, Pe. Jean Thevenet, Ir. Pierre Carton e pelo Ir. Sulpice Fontanel, despediu-se dos seus confrades e da pátria e embarcou no navio em 08 de junho de 1845, chegando em Pondicherry depois de três meses, no dia 08 de setembro.

A missão confiada aos MSFS era um grande território, incluindo partes dos estados atuais de Andhra Pradesh, Orissa, Madhya Pradesh, Maharashtra e Chattisgarh. Os missionários prestaram os seus serviços a partir de quatro centros de missão em Visakhapatnam, Yanam, Kamptee e Aurangabad.  Pe. Mermier, percebendo as necessidades urgentes da missão em Visakh, não deixou pedra sobre pedra na busca de financiamento e de pessoal para a mesma. Pobreza e dor, humilhação e heroísmo, foram os alicerces sobre os quais os Missionários construíram as duas grandes dioceses indianas de Visakhapatnam e Nagpur.

Aos poucos, os missionários começaram a estender seu trabalho também para outros países. A missão MSFS na Inglaterra se iniciou graças à generosidade do capitão Charles Dewel que estava na unidade militar em Kamptee, na Índia. Ele ofereceu a sua casa e propriedade em Malmesbury, de volta ao seu país de origem, para os MSFS e para o Pe. Francis Larive, este que fora fundamental, ao ser enviado de Kamptee para a Inglaterra, em 1861, na abertura da nova missão. O trabalho dos missionários pioneiros deu ricos frutos e a missão inglesa, com o passar do tempo, tornou-se numa província de pleno direito.

Pe. Mermier, querendo ver sua jovem congregação crescer de forma constante, foi a Roma para buscar a aprovação da Santa Sé. Ele obteve o decreto final de aprovação em 1860 e as Constituições foram aprovadas em 1899. Em 1862, na manhã do dia 30 de setembro, por volta das nove horas, o Padre Mermier, o santo fundador, partiu para sua recompensa eterna, deixando todos os seus confrades profundamente tristes.


Vários dos missionários que foram para a Índia aprenderam muitas línguas autóctones e algumas deles foram tão proficientes que escreveram livros nestes idiomas. Eles trabalharam duro, enfrentando todas as dificuldades. Doenças, mau tempo e o cansaço tiraram a vida de muitos jovens, missionários zelosos. O vasto território de Visakhapatnam foi dividido em dois em 1887, formando a nova diocese de Nagpur, com o MSFS Alexis Riccaz como seu primeiro bispo. No entanto, a vastidão do território e com o aumento da necessidade de mais pessoal e recursos levou à divisão da missão Visakhapatnam original em muitas dioceses que foram, em seguida, entregues a outras congregações religiosas no decorrer do tempo. Os fransalesianos, por sua vez, cresceram e começaram a espalhar-se para as outras partes da Índia. Em 1965, ambas as regiões de Visakhaptnam e Nagpur se tornaram províncias conhecidas como província de Viskhapatnam e província de Maharashtra-Goa, respectivamente. Hoje a Índia reúne cinco províncias, viz., Visakhapatnam, Sul-Oeste, Nordeste, Nagpur e Pune e uma região, viz., Tamilnadu-Pondichery.

De volta à França, em 1903, os MSFS perderam a casa mãe em Annecy, que fora tomada pelo Estado. Outra casa adjacente à primeira foi comprada tornando-se na casa mãe, batizada como “Proupeine." Cerca de seis décadas depois, as autoridades estaduais, ao escavar no local da velha fundação, encontraram os túmulos do Padre Mermier e de outros MSFS primeiros confrades. Diz-se que quando o túmulo do Servo de Deus Pierre Mermier foi aberto, na presença das autoridades eclesiásticas e civis, seu corpo foi encontrado incorrupto, até mesmo com as vestes intactas. Logo, os restos mortais do venerável fundador e dos outros homens santos foram transferidos para a nova casa em 24 de outubro de 1960. Os confrades na França e na Suíça estavam diretamente ligados ao Superior Geral até 1959. Tornou-se numa região em 1960 e numa província em 1965, conhecida como província Franco-suíça.

Os Fransalesianos também estabeleceram suas missões no continente americano. Em 1926 a missão no Brasil foi iniciada a convite do Arcebispo de São Paulo. No decorrer do tempo criou raízes profundas e se tornou numa província em 1965. A missão nos Estados Unidos foi iniciada em 1972 e transformou-se numa missão autônoma em 1990 e, hoje, espalhou-se para um grande número de dioceses prestando valioso serviço à Igreja. Em 1975 os MSFS  chegaram ao Nordeste da Índia para o trabalho missionário. Esta região se tornou numa província em 1990. Em 1994, uma missão MSFS foi aberta no Chile.

O desejo original do fundador, para assumir uma missão na África, materializou-se quando uma equipe de quatro missionários MSFS de Visakhapatnam desembarcou na Tanzânia, em 1988. A Fundação MSFS  se tornou na província do leste da África em 1996, estendendo seus serviços a todos os países do Leste Africano.

Em 1991, a província de Visakhapatnam foi dividida e a nova província do Sudoeste da Índia foi erguida. Em 1996, a província de Maharashtra-Goa foi separada e as duas novas províncias de Pune e Nagpur foram criadas. A missão nas Filipinas foi inaugurada em 1993, sob a égide da província do Sudoeste indiano. A província do Nordeste assumiu a missão da Namíbia e da África do Sul em 1998 e 1999, respectivamente, que foi estabelecida como região da África Austral em 2003. A província de Nagpur assumiu a missão em Moçambique em 2000. Em 1999, a província Sudoeste iniciou a missão no Oeste Africano compreendendo os países francófonos do Chade e Camarões. Em 2003, a missão na Polônia foi aberta pela província Franco-suíça. Em 2005, uma nova região, Tamilnadu-Pondichery, sob a província Visakhapatnam, foi estabelecida.

Além destas províncias e regiões há muitas fundações MSFS em países como Alemanha, Itália, Espanha, Áustria, Austrália, Índias Ocidentais, Irlanda etc

Assim, hoje, os Missionários de São Francisco de Sales (MSFS) fazem parte de uma grande congregação espalhada por vários países do mundo, prestando serviços valiosos à humanidade, mantendo em seu carisma e modo de viver o espírito e a espiritualidade de São Francisco de Sales, especialmente em sua missão através do triplo apostolado de renovação da vida cristã através da pregação, das missões paroquiais e ad gentes, assim como na pioneira evangelização, educação e formação, especialmente dos jovens.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

O Ano da Fé

 
Por Zélia Viana*
Folha de São Pedro
Paróquia de São Pedro - Salvador/BA

Atento e preocupado com a crise de fé  que ameaça submergir o mundo, o Papa Bento XVI através da Carta Apostólica Porta Fidei ( A Porta da Fé)  convoca toda a Igreja  para celebrar o Ano da Fé,  com início marcado para o dia  11 de outubro de 2012 e término previsto para 24 de novembro de 2013,  na festa de Cristo Rei do Universo. Ilumina e inspira essa celebração o cinquentenário de abertura do Concílio  Vaticano II (11 de outubro de 1959) e os vinte anos de publicação do Novo Catecismo da Igreja Católica.

Mostrar a beleza do Evangelho, propagar a notícia do amor de Deus,  testemunhar esse amor  com palavras e com a vida  em todas as circunstâncias e onde quer que se encontre, essa é a missão do discípulo missionário de Cristo. Não é pois do clero – insisto -  mas de nós leigos  que somos maioria na Igreja, que vivemos e frequentamos os mais diversificados ambientes da sociedade  que o mundo espera uma resposta para essa crise. Se nos calamos ou, pior ainda, se nossa palavra não é coerente com aquilo que vivemos, nosso testemunho torna-se duvidoso e perde toda a credibilidade. Daí a insistência do Papa Bento XVI  da necessidade de um amadurecimento na fé.

Na literatura bíblica as palavras Porta e Fé  são  muito significativas. O próprio Jesus declara-se a  Porta: “Eu garanto a vocês: Eu sou a Porta das ovelhas” (Jo 10, 7) e no Livro dos Atos São Lucas narra que ao chegarem em Antioquia da Síria, Barnabé e Paulo “reuniram a comunidade e contaram tudo  o que Deus havia feito por meio deles: o modo como Deus tinha aberto a porta da fé para os pagãos” (At 14,27).

Para compreender melhor  o desejo do Sumo Pontífice e para que  esse ano de graça “desperte em cada católico o anseio de viver sua fé com convicção, confiança e esperança e  seja uma ocasião propícia para aumentar a celebração da fé na liturgia e, de modo especial na Eucaristia”, é importante que antes de qualquer coisa mergulhemos  no significado da  expressão Porta da Fé.

O vocábulo porta é definido  nos dicionários como a abertura através da qual as pessoas entram ou saem de um lugar. Essa porta de entrada é o Batismo através do qual somos convocados a acolher em nossa vida a Palavra de Deus, deixando-nos converter por ela, e  a entrar em íntima comunhão com Deus e com os irmãos, passando a fazer parte da  sua grande família na terra que é a Igreja. Não podemos esquecer que  a evangelização para ser eficaz e duradoura  apoia-se na fé pessoal e comunitária. 

Vivemos num mundo pluralista onde o Deus da Fé ainda é confundido com o Deus da Crença. Mas fé e crença  não são exatamente a mesma coisa.
     
Fé, é a primeira virtude teologal, é portanto dom de Deus. Já a crença  parte de convicções puramente humanas. A fé, porque crê e espera contra toda esperança como ensina São Paulo, é inquebrantável. A crença, porque se apoia apenas no humano, esfacela-se facilmente. É pela fé em Cristo que nos santificamos. A crença  pode até sacralizar lugares e objetos, mas não santifica. A fé liberta. A crença  escraviza  e fabrica fanáticos. As Escrituras narram que Satanás acreditava que Jesus era o Filho de Deus.  Satanás então tinha fé? Não. Tinha crença.         

No mundo ocidental Fé é usualmente definida como crer, acreditar. No conceito bíblico porém esta é uma definição incompleta vez que a verdadeira fé  aponta para algo bem mais amplo que simplesmente considerar algo verdadeiro. Na cultura hebraica Fé é mais que acreditar na existência e mesmo no poder de Deus. A palavra latina Fides supõe esta perseverança, confiança, fidelidade, estabilidade, lealdade, adesão incondicional a seu projeto de amor.
      
Abraão é considerado o Pai da Fé  não somente porque no mundo politeísta de então acreditou na existência de um único Deus que havia criado tudo o que existe,  mas também porque em obediência a Ele não hesitou em sacrificar o próprio filho, seu mais precioso bem. A verdadeira fé é aquela confia cegamente em Deus e dá testemunho, com gestos e ações,  daquilo que crê. É  por isso que São Tiago diz que a fé sem obras é morta.

Grande é hoje o número de batizados que conservam uma fé infantil, equivocada, confundindo-a com emoção, devoção, belas orações e fervor religioso.  Uma fé baseada apenas na emoção ou que brota de uma consciência religiosa infantil é uma fé frágil, sem firmeza, que facilmente desmorona. A fé madura e  firme tem suas raízes no coração e na razão. Ela  compreende a razão pela qual se crê e essa razão é uma pessoa: Jesus Cristo.

Para que o Ano da Fé dê frutos abundantes, precisamos assumir com  entusiasmo a  convocação  de redescobrir e aprofundar os conteúdos da fé que professamos  e a tomar consciência  de que naquele dia em que,  pelas mãos de nossos  padrinhos atravessamos  a Porta da Fé,  passamos  a fazer parte da missão  sacerdotal de Cristo de conduzir a humanidade para Deus. Este é o nosso desafio. Que como Paulo e Barnabé saibamos acolher a intransferível missão de   professar, rezar e celebrar a nossa fé a fim de que nosso testemunho adquira credibilidade junto aos batizados  que perderam sua identidade e aos   que ainda não creem.

* Minha avó ;)

sábado, 5 de janeiro de 2013

Pi, Deus e o Mar


Com spoiler!

O filme "As Aventuras de Pi" não é um filme de ação! Todos já se chocam quando se deparam logo ao começo com as reflexões existenciais de Piscine Molitor: a busca por ele mesmo e, mais profundamente, o encontro com Deus. Talvez por isso alguns espectadores se sentiram enganados e acabaram saindo do cinema na metade da sessão. Ainda tendo cenas memoráveis e engraçadas, a proposta do filme é retirar o homem moderno da sua zona de conforto racionalista ou da inércia dos que sequer pensam. "As Aventuras de Pi" é um convite para o uso abundante da imaginação moral e da capacidade empática do sujeito.

Qualquer espectador atento percebe as semelhanças entre o drama de Pi e o sofrimento do Jó bíblico. A tenacidade com que Piscine Molitor acreditava em Deus, dialogava com Ele a ponto de debochar da Sua presença no desespero, era reflexo de uma existência sedenta do divino. A infância do jovem indiano, e o seu encontro com o hinduísmo, o catolicismo e o islamismo, talvez seja a metáfora perfeita para o homem, enquanto homo religiosus, que naturalmente busca a realidade sobrenatural, transcendente e fundante do próprio ser. A epopéia de Pi é a saga da pessoa completamente entregue aos desíginios de Deus e que, nesse processo, coloca-se como necessitado da Sua graça, Ele que é "o Compassivo, o Misericordioso" dos muçulmanos e mais perfeitamente o Filho Unigênito, Jesus Cristo, que o garoto encontrou numa pequena igreja no interior da Índia através de um padre missionário.

A ação da Providência se faz presente em todo o filme, mas se encarna especialmente em Richard Parker. Como bem reconhecera Pi, através do tigre pode ele manter o equilíbrio, a atividade e até mesmo a força vital para continuar na sua luta pela sobrevivência. A provação de Deus nas tormentas e tempestades é respondida com o desespero dos crentes, isto é, com a angústia daqueles que têm fé, mas que esmorecem com os desafios dAquele que sabem que é o Sumo Bem. Entretanto, quando tudo parecia perdido, Deus o vigiava. Quando tudo parecia acabado, Deus concebia proteção. O surgimento miraculoso de uma ilha carnívora é um sopro de esperança junto aos corações atribulados. O seu misterioso funcionamento - gerando vida pela manhã e morte pela noite - pode ser compreendido como o microcosmo da própria existência e da dualidade entre as duas forças que lutam pelas consciências.

A história, entretanto, ganha o seu sentido mais profundo quando o jovem Pi, já salvo, depara-se com japoneses incrédulos da sua saga. Para a sensibilidade racionalista moderna aquela experiência parecia muito fantasiosa, mítica, irracional. Por mais verdadeira que fosse, e assim o era, as façanhas de Piscine Molitor em alto mar eram mais próximas de contos infantis do que de um testemunho real, pensaram. Pi, então, inventa, distorce, a grandeza da realidade, forjando uma história onde os animais se tornam humanos, onde a esperança se transforma em ódio, o amor vira tristeza e, por fim, a imaginação moral, isto é, o aprendizado com os sinais e com a tradição herdada especialmente do pai, vira acomodamento. Richard Parker é Pi e Pi é Richard Parker. Ambas as versões não explicavam a razão do naufrágio - a existência de Deus - mas cada uma escolhia o modo como se relacionar com esse mistério: abertura ou fechamento da razão.

O filme todo, com a abundância de cenas singelas e incrivelmente vibrantes, é um convite à contemplação e à beleza. Pi vivenciou e experimentou, através do olhar atento para aquilo que não era óbvio, a primeira história, aquela que tomava feições fantásticas ao ter como personagens tigres, zebras e chimpanzés, mas que levava consigo a grandeza da alma humana sensível aos sinais. Richard Parker, como presença, depois de cumprida a sua missão, some silenciosamente nas selvas mexicanas. Pi, ao final, assim como Jó, reconstrói a sua família e vive na alegria de ter feito o encontro com Deus através de uma história que será para sempre sinal do Seu amor.


quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

"Histórias Cruzadas" e as nossas babás

"Histórias Cruzadas" é um filme que todos deveriam ver. Ele vai muito além da abordagem rotineira da sociedade segregacionista, e trata, com muito humanidade, das dificuldades profundas das mulheres negras daquele tempo. Deve ser destacado que a realidade do sul dos EUA se assemelhava ao sistema de colonização do Brasil. Ademais, a escravidão se estabeleceu de forma estrutural e definiu profundamente as marcas características de toda a região.

Entretanto, diferentemente do Brasil onde a cultura portuguesa passou por um processo de aculturação, a cultura européia nos EUA sempre esteve protegida de qualquer influência não-branca. Isso fez com que a segregação já no séc. XX se tornasse a conseqüência "natural" entre dois mundos que jamais se encontraram. Na sociedade brasileira pós-escravidão os empregados negros certamente eram tratados com o mesmo rigor exposto no filme, porém os patrões não eram tão brancos ou sequer tinham uma cor muito diferente daquela dos seus serventes. Ademais, na vida cotidiana dos empregadores estavam hábitos e costumes que mais se assemelhavam à sensibilidade africana do que aos modismos ingleses e franceses que atravessavam o Atlântico.

O filme é muito belo porque mostra que ainda numa sociedade estruturalmente feia existem homens e mulheres fortemente vinculados com a verdade e o amor. As mesmas negras que eram discriminadas eram as que educavam as crianças e preparavam as refeições que talvez não fossem das mais refinadas, mas que certamente eram mais apreciáveis ao paladar. Como não assistir a este filme e não lembrar das doces babás que cuidaram e cuidam dos filhos dos brancos - não tão brancos como os do filme, mas "brancos" porque abastados - em nosso mundo, em especial em realidades como a nordestina e com destaque para a soteropolitana? Foram estas mulheres, descendentes das bondosas amas-de-leite, que amamentaram e alimentaram o Brasil.