Por Zélia Viana*
Folha de São Pedro
Paróquia de São Pedro - Salvador/BA
Mostrar a beleza do Evangelho, propagar a notícia do amor de Deus, testemunhar esse amor com palavras e com a vida em todas as circunstâncias e onde quer que se encontre, essa é a missão do discípulo missionário de Cristo. Não é pois do clero – insisto - mas de nós leigos que somos maioria na Igreja, que vivemos e frequentamos os mais diversificados ambientes da sociedade que o mundo espera uma resposta para essa crise. Se nos calamos ou, pior ainda, se nossa palavra não é coerente com aquilo que vivemos, nosso testemunho torna-se duvidoso e perde toda a credibilidade. Daí a insistência do Papa Bento XVI da necessidade de um amadurecimento na fé.
Na literatura bíblica as palavras Porta e Fé são muito significativas. O próprio Jesus declara-se a Porta: “Eu garanto a vocês: Eu sou a Porta das ovelhas” (Jo 10, 7) e no Livro dos Atos São Lucas narra que ao chegarem em Antioquia da Síria, Barnabé e Paulo “reuniram a comunidade e contaram tudo o que Deus havia feito por meio deles: o modo como Deus tinha aberto a porta da fé para os pagãos” (At 14,27).
Para compreender melhor o desejo do Sumo Pontífice e para que esse ano de graça “desperte em cada católico o anseio de viver sua fé com convicção, confiança e esperança e seja uma ocasião propícia para aumentar a celebração da fé na liturgia e, de modo especial na Eucaristia”, é importante que antes de qualquer coisa mergulhemos no significado da expressão Porta da Fé.
O vocábulo porta é definido nos dicionários como a abertura através da qual as pessoas entram ou saem de um lugar. Essa porta de entrada é o Batismo através do qual somos convocados a acolher em nossa vida a Palavra de Deus, deixando-nos converter por ela, e a entrar em íntima comunhão com Deus e com os irmãos, passando a fazer parte da sua grande família na terra que é a Igreja. Não podemos esquecer que a evangelização para ser eficaz e duradoura apoia-se na fé pessoal e comunitária.
Vivemos num mundo pluralista onde o Deus da Fé ainda é confundido com o Deus da Crença. Mas fé e crença não são exatamente a mesma coisa.
Fé, é a primeira virtude teologal, é portanto dom de Deus. Já a crença parte de convicções puramente humanas. A fé, porque crê e espera contra toda esperança como ensina São Paulo, é inquebrantável. A crença, porque se apoia apenas no humano, esfacela-se facilmente. É pela fé em Cristo que nos santificamos. A crença pode até sacralizar lugares e objetos, mas não santifica. A fé liberta. A crença escraviza e fabrica fanáticos. As Escrituras narram que Satanás acreditava que Jesus era o Filho de Deus. Satanás então tinha fé? Não. Tinha crença.
No mundo ocidental Fé é usualmente definida como crer, acreditar. No conceito bíblico porém esta é uma definição incompleta vez que a verdadeira fé aponta para algo bem mais amplo que simplesmente considerar algo verdadeiro. Na cultura hebraica Fé é mais que acreditar na existência e mesmo no poder de Deus. A palavra latina Fides supõe esta perseverança, confiança, fidelidade, estabilidade, lealdade, adesão incondicional a seu projeto de amor.
Abraão é considerado o Pai da Fé não somente porque no mundo politeísta de então acreditou na existência de um único Deus que havia criado tudo o que existe, mas também porque em obediência a Ele não hesitou em sacrificar o próprio filho, seu mais precioso bem. A verdadeira fé é aquela confia cegamente em Deus e dá testemunho, com gestos e ações, daquilo que crê. É por isso que São Tiago diz que a fé sem obras é morta.
Grande é hoje o número de batizados que conservam uma fé infantil, equivocada, confundindo-a com emoção, devoção, belas orações e fervor religioso. Uma fé baseada apenas na emoção ou que brota de uma consciência religiosa infantil é uma fé frágil, sem firmeza, que facilmente desmorona. A fé madura e firme tem suas raízes no coração e na razão. Ela compreende a razão pela qual se crê e essa razão é uma pessoa: Jesus Cristo.
Para que o Ano da Fé dê frutos abundantes, precisamos assumir com entusiasmo a convocação de redescobrir e aprofundar os conteúdos da fé que professamos e a tomar consciência de que naquele dia em que, pelas mãos de nossos padrinhos atravessamos a Porta da Fé, passamos a fazer parte da missão sacerdotal de Cristo de conduzir a humanidade para Deus. Este é o nosso desafio. Que como Paulo e Barnabé saibamos acolher a intransferível missão de professar, rezar e celebrar a nossa fé a fim de que nosso testemunho adquira credibilidade junto aos batizados que perderam sua identidade e aos que ainda não creem.
* Minha avó ;)





