sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

O Ano da Fé

 
Por Zélia Viana*
Folha de São Pedro
Paróquia de São Pedro - Salvador/BA

Atento e preocupado com a crise de fé  que ameaça submergir o mundo, o Papa Bento XVI através da Carta Apostólica Porta Fidei ( A Porta da Fé)  convoca toda a Igreja  para celebrar o Ano da Fé,  com início marcado para o dia  11 de outubro de 2012 e término previsto para 24 de novembro de 2013,  na festa de Cristo Rei do Universo. Ilumina e inspira essa celebração o cinquentenário de abertura do Concílio  Vaticano II (11 de outubro de 1959) e os vinte anos de publicação do Novo Catecismo da Igreja Católica.

Mostrar a beleza do Evangelho, propagar a notícia do amor de Deus,  testemunhar esse amor  com palavras e com a vida  em todas as circunstâncias e onde quer que se encontre, essa é a missão do discípulo missionário de Cristo. Não é pois do clero – insisto -  mas de nós leigos  que somos maioria na Igreja, que vivemos e frequentamos os mais diversificados ambientes da sociedade  que o mundo espera uma resposta para essa crise. Se nos calamos ou, pior ainda, se nossa palavra não é coerente com aquilo que vivemos, nosso testemunho torna-se duvidoso e perde toda a credibilidade. Daí a insistência do Papa Bento XVI  da necessidade de um amadurecimento na fé.

Na literatura bíblica as palavras Porta e Fé  são  muito significativas. O próprio Jesus declara-se a  Porta: “Eu garanto a vocês: Eu sou a Porta das ovelhas” (Jo 10, 7) e no Livro dos Atos São Lucas narra que ao chegarem em Antioquia da Síria, Barnabé e Paulo “reuniram a comunidade e contaram tudo  o que Deus havia feito por meio deles: o modo como Deus tinha aberto a porta da fé para os pagãos” (At 14,27).

Para compreender melhor  o desejo do Sumo Pontífice e para que  esse ano de graça “desperte em cada católico o anseio de viver sua fé com convicção, confiança e esperança e  seja uma ocasião propícia para aumentar a celebração da fé na liturgia e, de modo especial na Eucaristia”, é importante que antes de qualquer coisa mergulhemos  no significado da  expressão Porta da Fé.

O vocábulo porta é definido  nos dicionários como a abertura através da qual as pessoas entram ou saem de um lugar. Essa porta de entrada é o Batismo através do qual somos convocados a acolher em nossa vida a Palavra de Deus, deixando-nos converter por ela, e  a entrar em íntima comunhão com Deus e com os irmãos, passando a fazer parte da  sua grande família na terra que é a Igreja. Não podemos esquecer que  a evangelização para ser eficaz e duradoura  apoia-se na fé pessoal e comunitária. 

Vivemos num mundo pluralista onde o Deus da Fé ainda é confundido com o Deus da Crença. Mas fé e crença  não são exatamente a mesma coisa.
     
Fé, é a primeira virtude teologal, é portanto dom de Deus. Já a crença  parte de convicções puramente humanas. A fé, porque crê e espera contra toda esperança como ensina São Paulo, é inquebrantável. A crença, porque se apoia apenas no humano, esfacela-se facilmente. É pela fé em Cristo que nos santificamos. A crença  pode até sacralizar lugares e objetos, mas não santifica. A fé liberta. A crença  escraviza  e fabrica fanáticos. As Escrituras narram que Satanás acreditava que Jesus era o Filho de Deus.  Satanás então tinha fé? Não. Tinha crença.         

No mundo ocidental Fé é usualmente definida como crer, acreditar. No conceito bíblico porém esta é uma definição incompleta vez que a verdadeira fé  aponta para algo bem mais amplo que simplesmente considerar algo verdadeiro. Na cultura hebraica Fé é mais que acreditar na existência e mesmo no poder de Deus. A palavra latina Fides supõe esta perseverança, confiança, fidelidade, estabilidade, lealdade, adesão incondicional a seu projeto de amor.
      
Abraão é considerado o Pai da Fé  não somente porque no mundo politeísta de então acreditou na existência de um único Deus que havia criado tudo o que existe,  mas também porque em obediência a Ele não hesitou em sacrificar o próprio filho, seu mais precioso bem. A verdadeira fé é aquela confia cegamente em Deus e dá testemunho, com gestos e ações,  daquilo que crê. É  por isso que São Tiago diz que a fé sem obras é morta.

Grande é hoje o número de batizados que conservam uma fé infantil, equivocada, confundindo-a com emoção, devoção, belas orações e fervor religioso.  Uma fé baseada apenas na emoção ou que brota de uma consciência religiosa infantil é uma fé frágil, sem firmeza, que facilmente desmorona. A fé madura e  firme tem suas raízes no coração e na razão. Ela  compreende a razão pela qual se crê e essa razão é uma pessoa: Jesus Cristo.

Para que o Ano da Fé dê frutos abundantes, precisamos assumir com  entusiasmo a  convocação  de redescobrir e aprofundar os conteúdos da fé que professamos  e a tomar consciência  de que naquele dia em que,  pelas mãos de nossos  padrinhos atravessamos  a Porta da Fé,  passamos  a fazer parte da missão  sacerdotal de Cristo de conduzir a humanidade para Deus. Este é o nosso desafio. Que como Paulo e Barnabé saibamos acolher a intransferível missão de   professar, rezar e celebrar a nossa fé a fim de que nosso testemunho adquira credibilidade junto aos batizados  que perderam sua identidade e aos   que ainda não creem.

* Minha avó ;)

sábado, 5 de janeiro de 2013

Pi, Deus e o Mar


Com spoiler!

O filme "As Aventuras de Pi" não é um filme de ação! Todos já se chocam quando se deparam logo ao começo com as reflexões existenciais de Piscine Molitor: a busca por ele mesmo e, mais profundamente, o encontro com Deus. Talvez por isso alguns espectadores se sentiram enganados e acabaram saindo do cinema na metade da sessão. Ainda tendo cenas memoráveis e engraçadas, a proposta do filme é retirar o homem moderno da sua zona de conforto racionalista ou da inércia dos que sequer pensam. "As Aventuras de Pi" é um convite para o uso abundante da imaginação moral e da capacidade empática do sujeito.

Qualquer espectador atento percebe as semelhanças entre o drama de Pi e o sofrimento do Jó bíblico. A tenacidade com que Piscine Molitor acreditava em Deus, dialogava com Ele a ponto de debochar da Sua presença no desespero, era reflexo de uma existência sedenta do divino. A infância do jovem indiano, e o seu encontro com o hinduísmo, o catolicismo e o islamismo, talvez seja a metáfora perfeita para o homem, enquanto homo religiosus, que naturalmente busca a realidade sobrenatural, transcendente e fundante do próprio ser. A epopéia de Pi é a saga da pessoa completamente entregue aos desíginios de Deus e que, nesse processo, coloca-se como necessitado da Sua graça, Ele que é "o Compassivo, o Misericordioso" dos muçulmanos e mais perfeitamente o Filho Unigênito, Jesus Cristo, que o garoto encontrou numa pequena igreja no interior da Índia através de um padre missionário.

A ação da Providência se faz presente em todo o filme, mas se encarna especialmente em Richard Parker. Como bem reconhecera Pi, através do tigre pode ele manter o equilíbrio, a atividade e até mesmo a força vital para continuar na sua luta pela sobrevivência. A provação de Deus nas tormentas e tempestades é respondida com o desespero dos crentes, isto é, com a angústia daqueles que têm fé, mas que esmorecem com os desafios dAquele que sabem que é o Sumo Bem. Entretanto, quando tudo parecia perdido, Deus o vigiava. Quando tudo parecia acabado, Deus concebia proteção. O surgimento miraculoso de uma ilha carnívora é um sopro de esperança junto aos corações atribulados. O seu misterioso funcionamento - gerando vida pela manhã e morte pela noite - pode ser compreendido como o microcosmo da própria existência e da dualidade entre as duas forças que lutam pelas consciências.

A história, entretanto, ganha o seu sentido mais profundo quando o jovem Pi, já salvo, depara-se com japoneses incrédulos da sua saga. Para a sensibilidade racionalista moderna aquela experiência parecia muito fantasiosa, mítica, irracional. Por mais verdadeira que fosse, e assim o era, as façanhas de Piscine Molitor em alto mar eram mais próximas de contos infantis do que de um testemunho real, pensaram. Pi, então, inventa, distorce, a grandeza da realidade, forjando uma história onde os animais se tornam humanos, onde a esperança se transforma em ódio, o amor vira tristeza e, por fim, a imaginação moral, isto é, o aprendizado com os sinais e com a tradição herdada especialmente do pai, vira acomodamento. Richard Parker é Pi e Pi é Richard Parker. Ambas as versões não explicavam a razão do naufrágio - a existência de Deus - mas cada uma escolhia o modo como se relacionar com esse mistério: abertura ou fechamento da razão.

O filme todo, com a abundância de cenas singelas e incrivelmente vibrantes, é um convite à contemplação e à beleza. Pi vivenciou e experimentou, através do olhar atento para aquilo que não era óbvio, a primeira história, aquela que tomava feições fantásticas ao ter como personagens tigres, zebras e chimpanzés, mas que levava consigo a grandeza da alma humana sensível aos sinais. Richard Parker, como presença, depois de cumprida a sua missão, some silenciosamente nas selvas mexicanas. Pi, ao final, assim como Jó, reconstrói a sua família e vive na alegria de ter feito o encontro com Deus através de uma história que será para sempre sinal do Seu amor.


quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

"Histórias Cruzadas" e as nossas babás

"Histórias Cruzadas" é um filme que todos deveriam ver. Ele vai muito além da abordagem rotineira da sociedade segregacionista, e trata, com muito humanidade, das dificuldades profundas das mulheres negras daquele tempo. Deve ser destacado que a realidade do sul dos EUA se assemelhava ao sistema de colonização do Brasil. Ademais, a escravidão se estabeleceu de forma estrutural e definiu profundamente as marcas características de toda a região.

Entretanto, diferentemente do Brasil onde a cultura portuguesa passou por um processo de aculturação, a cultura européia nos EUA sempre esteve protegida de qualquer influência não-branca. Isso fez com que a segregação já no séc. XX se tornasse a conseqüência "natural" entre dois mundos que jamais se encontraram. Na sociedade brasileira pós-escravidão os empregados negros certamente eram tratados com o mesmo rigor exposto no filme, porém os patrões não eram tão brancos ou sequer tinham uma cor muito diferente daquela dos seus serventes. Ademais, na vida cotidiana dos empregadores estavam hábitos e costumes que mais se assemelhavam à sensibilidade africana do que aos modismos ingleses e franceses que atravessavam o Atlântico.

O filme é muito belo porque mostra que ainda numa sociedade estruturalmente feia existem homens e mulheres fortemente vinculados com a verdade e o amor. As mesmas negras que eram discriminadas eram as que educavam as crianças e preparavam as refeições que talvez não fossem das mais refinadas, mas que certamente eram mais apreciáveis ao paladar. Como não assistir a este filme e não lembrar das doces babás que cuidaram e cuidam dos filhos dos brancos - não tão brancos como os do filme, mas "brancos" porque abastados - em nosso mundo, em especial em realidades como a nordestina e com destaque para a soteropolitana? Foram estas mulheres, descendentes das bondosas amas-de-leite, que amamentaram e alimentaram o Brasil. 

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

A santidade não é "O Impossível"


Quem assiste ao filme "O Impossível" faz uma experiência fabulosa daquilo que de mais profundo e belo há no homem. A história real nos leva a compreender a grandeza da humanidade: a sua capacidade de abnegação, a sua resiliência diante das adversidades, a força com a qual a pessoa sai de si mesma e contempla o outro, o reconhecendo como irmão. Ademais, infelizmente, não podemos negar a existência de homens incapazes de alçar esse voo, não porque haja alguma imperfeição intrínseca na sua composição, mas porque não foram educados na formação do olhar diante da realidade.

A sala de cinema estava cheia, muitos olhos vidrados naquela história real. Entretanto, não sei quantos conseguiram captar a grandeza da experiência da família. Algums assistiam ao filme como se não passasse de uma aventura ou ação digna dos blockbusters de Hollywood. Outros, não satisfeitos, davam risadas em cenas dramáticas e que refletiam acontecimentos verídicos. De fato, é motivo de perplexidade perceber como existem homens diante dos quais os sentimentos do outro são totalmente estranhos. Estes espectadores não percebiam a respectividade entre as personagens e eles próprios. Os sentimentos ali representados, experiências reais, eram tão esquisitos e exóticos como o enredo de um filme de ficção. O homem que não se enxerga no outro de certa forma perde a sua humanidade: torna-se como o animal incapaz de se ver no reflexo do espelho.

Entretanto, curiosamente, "O Impossível", com toda a dramaticidade dos fatos reais, é uma ode ao completo oposto dessa inércia. O nome já é sugestivo. Se levarmos em consideração os paradigmas modernos de relacionamento, onde a pessoa humana é substituída pelo indivíduo e suas escolhas, como justificar o total desprendimento e essa grandeza de espírito que leva alguém a abrir mão da própria segurança em benefício de desconhecidos? O que leva o homem a atos tão maiores que ele próprio? O filme nos motiva a identificar a maravilha desse atributo que é o seu modo de ir além dos limites humanos. De certa forma "O Impossível" nos induz a reconhecer que tais gestos tornam os homens deuses, na medida em que experimentam um pouco da forma com que Deus se revela a nós de forma misericordiosa, compassiva e amorosa. 

"As estrelas mortas brilham tanto quanto as estrelas vivas", e "é impossível saber qual brilho pertence a cada uma delas", diz uma cena do filme. Os mortos e os vivos nos iluminam da mesma forma. Para alguns isso seria a "comunidade de almas", isto é, a tradição moral que é transmitida ao longo dos tempos, a democracia dos mortos. Entretanto, é mais belo e completo conceber essa fala na linha da comunhão dos santos, ou seja, a experiência de eternidade na qual estão inseridos os homens que na terra se sacrificaram pelo próximo e permitiram que aflorasse a maior vocação dada por Deus. 

domingo, 23 de dezembro de 2012

A Congregação dos Missionários de São Francisco de Sales e o seu carisma




A congregação dos Missionários de São Francisco de Sales nasceu sob o impulso da espiritualidade salesiana e fundamentada no ardor de Pierre Mermier. Como se sabe, São Francisco de Sales, além de fundar a Ordem da Visitação de Santa Maria, tinha o intuito de congregar padres missionários, mas faleceu antes de poder realizar o seu desejo. Alguns séculos depois, o seu sucessor em Annecy, Monsenhor Riley, juntamente com o Servo de Deus Pierre Mermier, concretizam a vontade do Doutor do Amor Divino. Eles tinham como foco primeiro o combate à "ignorância religiosa" dos franceses depois da Revolução. Como reflexo do amadurecimento espiritual, a Congregação resolvera partir para a missão ad gentes. O Fundador requisitou territórios de missão na África, mas o Papa os queria na Índia, e para lá foram enviados os melhores confrades. 


Historicamente é impossível dissociar a Congregação dos Missionários de São Francisco de Sales do caos revolucionário. Com o advento da Revolução Francesa sobreveio um cisma não-oficial na igreja local entre os padres juramentados e não-juramentados, chamados refratários. Os não-juramentados eram os que se negavam a jurar pela Constituição anticlerical do novo estado francês. Iniciou-se, assim, uma dura campanha de descristianização em todo o território: substituição de nomes cristãos por nomes laicos, culto à “Deusa Razão”,  destruição de igrejas não-juramentadas etc. Em 1792, dois anos após o nascimento do Pierre Mermier, houve o Massacre de Setembro, onde diversos padres e religiosos foram brutalmente assassinados.


Os pais do Fundador acolhiam padres não-juramentados em sua casa onde celebravam a Santa Missa às escondidas. Nesse ambiente de perseguição ao cristianismo e ao clero o pequeno Mermier presenciou testemunhos vivos de fé.  Certamente diante de tal cenário pôde ele entender, desde jovem, o peso da vocação sacerdotal. Deste modo, a Revolução Francesa teve um papel fundamental na formação da personalidade de Pierre Mermier e, ademais, construiu o cenário no qual, anos mais tarde, trabalhará. 


Quando Pierre Mermier fora ordenado sacerdote em 1813 a Revolução Francesa já havia acabado há quatorze anos. Entretanto, a sociedade tinha sido profundamente marcada pelos dez anos de terror. A prática da religião decaíra gravemente, o que se acentuava graças aos resquícios jansenistas que ainda se faziam presentes por todo o território. Pode-se dizer, portanto, que este ambiente em pleno séc. XIX não diferia muito do mundo secularizado atual. Pierre Mermier estava diante daquilo que chamou de “ignorância religiosa”. Em meio a este quadro Deus concedera a graça e, pela mão do bispo de Annecy, anos mais tarde, em 1830 se iniciara a fundação dos Missionários de São Francisco de Sales.


Destarte, a Congregação é erigida sobre a urgência da nova evangelização dos homens afastados da fé. A ignorância religiosa deveria ser combatia através de sacerdotes instruídos, cultos e bem formados, capazes de pregar e anunciar a Boa Nova em todos os recantos da França. Estes seriam, então, pregadores itinerantes, visitando paróquias e reanimando a Igreja francesa que parecia moribunda. O diferencial desses novos Missionários, além da instrução, era a vivência radical da espiritualidade de São Francisco de Sales: o amor a Deus e aos homens. Esta experiência, numa França altamente influenciada pelo rigor jansenista, era algo avassalador. 


O amadurecimento do carisma nas missões paroquiais inflamou ainda mais o coração do Pe. Pierre Mermier. Ele agora queria que seus filhos espirituais, baseados no exemplo do Doutor do Amor divino, anunciassem o Cristo amoroso aos povos incrédulos. Foi assim que o Fundador pediu junto ao Papa Gregório XVI missões no continente africano. Entretanto, a África era, até então, um local adverso para os missionários e, ademais, as potências europeias ainda disputavam a partilha dos territórios das suas novas colônias. Foi assim que, providencialmente, a Propaganda Fide, atual Congregação para Evangelização dos Povos, concedeu territórios de missão na longínqua e exótica Índia. Pierre Memier aceitou de bom grado e enviou os melhores missionários entre os onze que compunham naquele tempo a Congregação. A experiência da missão ad gentes foi fabulosa e rendeu frutos que são colhidos até hoje. Ainda em vida Pierre Mermier administrou cerca de 90 missões e do seu esforço surgiram diversas prelazias e futuramente dioceses indianas. 


Neste mesmo processo de maturação, os Missionários de São Francisco de Sales perceberam que a melhor forma de combater a ignorância religiosa e o método mais eficaz para construir uma sociedade cristã era através da educação. Surge, então, o terceiro paradigma do carisma fransalesiano: o ensino como ferramenta de elevação cultural, transmissão de conhecimento e criação de homens nos quais a mensagem evangélica se encarna profundamente. Pierre Mermier já sabia que era pela pregação que o Sacerdote atingia os corações, assim, portanto, por meio do ensino poderiam os missionários forjar uma juventude renovada e fundada na experiência com Cristo.


Destarte, tanto as missões paroquias, passando pelas missões ad gentes e chegando, por fim, na educação da juventude, definem o carisma da Congregação dos Missionários de São Francisco de Sales e o modo como Deus foi revelando ao Pe. Pierre Mermier a identidade da sua fundação. Todas as três formas estão alicerçadas na urgência da nova evangelização e na propagação da fé pelo mundo descrente. Com missionários edificados no amor salesiano e instruídos na razão será possível levar conhecimento onde há ignorância religiosa e luz para onde só habita as trevas.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

E se o Brasil fosse protestante?


E se o Brasil fosse protestante? Esta é uma pergunta muito pertinente, mas o seu real sentido é nos levar a refletir a respeito do papel fundamental do catolicismo na formação da identidade brasileira. Pensar, portanto, na Terra da Santa Cruz calvinista seria, então, arrancar as bases sobre as quais surgiu a nossa nação. Se o Brasil fosse protestante certamente teríamos uma sociedade racialmente sectarizada, talvez numa síntese entre o segregacionismo do sul dos EUA e o apartheid da África do Sul. A enorme quantidade de escravos e seus descendentes, unida ao altivo espírito nacional protestante contrário à miscigenação levaria, conseqüentemente, ao incremento das forças de oposição culturais entre brancos europeus e negros africanos. Assim, portanto, o Brasil aclamado e conhecido pelas suas manifestações culturais forjadas no encontro de três povos não existiria. 

O catolicismo luso-brasileiro, de acordo com Gilberto Freyre, não era "nem a religião dura do norte reformado, nem a religião dramática de Castela", mas sim "um doce cristianismo lírico". Dois aspectos, portanto, tornaram o catolicismo no Brasil de fundamental importância para o desenvolvimento do país: primeiramente o seu caráter universal, algo totalmente oposto à fragmentada identidade protestante muito associada às nações e aos estados nascentes. Outro fator de grande relevância foi a experiência católica portuguesa. A multiplicidade cultural ibérica fez com que, desde cedo, o povo luso estivesse habituado a uma religião que se manifestava ativamente em todos os aspectos com formas muito distintas, sem a rigidez e gravidade dos calvinistas holandeses, por exemplo. O encontro com o mundo maometano tornou o português mais tolerante ao outro e, como conseqüência, mais plástico culturalmente. Ademais, o regime do padroado, pelo qual os reis gozavam de autonomia na nomeação de bispos, possibilitou o surgimento de manifestações religiosas desde a construção de capelas até confrarias e irmandades, que não tiveram similar em toda a América Latina. 

Se "o catolicismo foi realmente o cimento da nossa unidade", como diz Freyre, a ligação da Igreja Católica com a identidade nacional é de caráter essencial. Os portugueses que atravessaram o Atlântico, que já carregavam fortes traços de miscigenação entre os povos que invadiram a península ibérica, estavam unidos na guerra de cristãos contra infiéis. Afirma o autor de "Casa-Grande e Senzala" que as "guerras contra os índios nunca foram guerras de branco contra peles-vermelhas, mas de cristãos contra bugres." A heresia, portanto, é o grande inimigo da colônia, não o estrangeiro: franceses, holandeses e ingleses convertidos serão tratados com a mesma doçura que um lusitano legítimo. O Brasil nasceu, assim, sob a urgência da ortodoxia – ainda que aparente. Destarte, na Terra de Santa Cruz o crivo se tornou o batismo católico e não a gota de sangue, como ocorrera nos EUA. 

Diz o pensador pernambucano que “a religião tornou-se o ponto de encontro e de confraternização entre as duas culturas, a do senhor e a do negro; e nunca uma intransponível ou dura barreira”. As festas religiosas eram os momentos nos quais os negros, com a autorização do clero ou no mínimo com o seu olhar permissivo, manifestavam com muita liberalidade as suas tradições agora unidas com a fé cristã. Sem abrir mão da força doutrinal, os escravos tornaram o catolicismo em sua versão popular o ambiente talvez mais profundamente marcado pelas facetas africanas. Assim como ocorrera com muito do catolicismo português aculturado com a cultura moura, no Brasil este catolicismo se abriu em seus elementos externos ao legado trazido pelos escravos. A religião teve um peso vital na edificação da colônia nos trópicos. O catolicismo luso-brasileiro, talvez o menos “europeu” entre todos aqueles nos domínios na América, gerou uma sociedade de maior plasticidade e mais aberta ao contato com indígenas e africanos, algo nunca visto na história dos povos colonizados. 

O protestantismo seria, portanto, o oposto cultural ao fermento católico. A identidade luso-católica, brasileira era o inverso da rigidez moral e ritual dos calvinistas. Utilizando de uma famosa construção dialética, ainda consciente da imprecisão dos termos, pode-se dizer que a sociedade brasileira, marcadamente dionisíaca, não existiria com a dureza apolínea reformada. As conseqüências históricas seriam ainda mais alarmantes. Como o calvinismo protestante em sua aversão à miscigenação, confrontado com a enorme massa de escravos libertos, se comportaria? A Igreja Reformada sempre esteve altamente atrelada à noção de nacionalidade e até então incapaz de produzir uma cultura além dos limites de suas paróquias, como fizera o catolicismo. Neste cenário as culturas africana e indígena seriam lançadas na clandestinidade ou, no máximo, reguladas e controladas pelas autoridades locais. O Brasil viveria um cenário não muito diferente do apartheid da África do Sul.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

O bom e o mau conservadorismo


Antes mesmo de conceber a identidade do conservador brasileiro é, pois, necessário compreender os dois modos distintos de se pensar o conservadorismo. Ademais, o Brasil tem uma bela tradição de autores que se enquadram no espectro conservador/tradicional. A Terra de Santa Cruz se insere, portanto, num paradigma muito restrito de países que nasceram da junção de diversas origens culturais. A sua identidade tropical torna o Brasil distinto da Europa, da África e, em certos aspectos, da América. O que aqui se formou não foi a multiculturalidade desprovida de unidade, mas uma nação que carrega dentro de si diversas facetas da amálgama brasileira. Cabe, portanto, ao pensamento conservador reconhecer essa raiz e fazer dela o motor da sua reflexão. Entretanto, existe o risco iminente da deturpação da proposta conservadora e da sua transformação numa importada caricatura americana.

É possível, portanto, fazer a distinção entre dois tipos de pensamento conservador. O primeiro seria o conservadorismo da agenda política, voltado para a construção da sociedade baseada nos pressupostos teóricos, algo não muito distante da prática marxista. Este conservadorismo - ou neoconservadorismo - seria, assim, tão revolucionário quanto as ações progressistas porque, usando da chave de leitura concebida por Eric Voegelin, deformaria a primeira realidade - o mundo real - buscando criar a segunda realidade - o mundo ideal, a gnose. A práxis desse conservadorismo, ainda que pretensamente se fundamente em princípios verdadeiramente conservadores, os deforma na medida em que o projeto de poder se coloca como o seu objetivo primeiro. A própria noção de homem, com a sua individualidade e personalidade, dissolve-se em meio à concepção ideológica.

O segundo conservadorismo, ou o verdadeiro conservadorismo, muito na linha do seu maior teórico moderno, Russell Kirk, é menos uma práxis e mais uma visão de mundo. Esta concepção parte da noção de que o homem enquanto homem, em sua composição antropológica-ontológica, o é na medida em que reconhece o seu eu, a sua capacidade subjetiva de contemplar a realidade. Entretanto, essa identidade pessoal não brota repentinamente, mas é fruto da identificação das experiências morais transmitidas ao longo das eras. O homem, portanto, que não faz a si mesmo, é o homem inserido na comunidade e que na comunidade recebe e lapida a própria personalidade. Assim, a defesa da ordem interna e espiritual - e espírito aqui entendido não estritamente do ponto de vista religioso, mas sim com a capacidade do homem de alçar voos além da imanência - deve ser o objetivo de todos os homens, afinal sem ela restaria o caos e a desconstrução da noção de humanidade.

Contudo, desde o alvorecer da modernidade, e em especial com a concretização deste ideal na Revolução Francesa, princípios fundantes da identidade humana foram colocados em discussão e rejeitados. O verdadeiro conservadorismo seria, portanto, não um projeto ideológico ou político, mas sim a restauração da ordem perdida ou deformada. Destarte, sem a carga romântico-gnóstica e, ao contrário, atento ao homem em sua plenitude, o pensamento conservador não busca projetos de poder ou cartilhas universais. Este conservadorismo pode ser defendido com o mesmo ardor em nações como EUA e Brasil, mas será, se realmente conservador, logo atento às tradições herdadas, vivido de formas extremamente distintas.

Desse modo, o que é necessário destacar é que o conservadorismo não pode ser concebido como sinônimo de refinamento europeu ou intelectualismo americano. O pensamento conservador é capaz de se aplicar a todos os cantos do mundo respeitando e elevando a diversidade das culturas e das tradições. O seu interesse não é a construção de ideais, mas a defesa de princípios que estão presentes e, graças ao advento do espírito missionário cristão, espalhados por todos os cantos do mundo. Os conservadores, portanto, que querem moldar o Brasil de acordo com o modelo americano/europeu incidem na mesma caricatura dos aristocratas brasileiros e complexados do  séc. XIX que substituíam os deliciosos quitutes africanos por uma insossa comida inglesa, unicamente para forçar uma elegância e pomposidade à européia. O conservadorismo do Brasil deve ser como os soteropolitanos que, aderindo aos costumes do Velho Mundo, não abriram mão da cartola, mas substituíram o preto calorento das calças pelo branco tropical.