sábado, 15 de dezembro de 2012

Um conservadorismo autóctone

Com a crescente popularidade do conservadorismo em muitos meios, principalmente entre os jovens, fica a pergunta se estamos falando do conservadorismo no Brasil ou do Brasil. Obviamente a importação de autores e escritos, principalmente dos EUA, enriquece profundamente a reflexão e preenche uma triste lacuna que há de uma literatura conservadora. Entretanto, qualquer tentativa de concretização de tais ensinamentos no Brasil, desconhecendo as nuances da nossa sociedade e da sua grande distância dos paradigmas americanos e europeus, será certamente fracassada.

O conservadorismo consciente que se desenvolveu historicamente no Brasil tinha como característica fundante a primazia da fé católica e a sensibilidade diante da amálgama cultural que é a nossa civilização. Pensadores como Gilberto Freyre, Nelson Rodrigues, Gustavo Corção, Alceu Amoroso Lima, Otto Maria Carpeaux etc estavam, direta ou indiretamente, associados com este paradigma. Havia, contudo, um segundo conservadorismo, porém não consciente, que era fruto do espírito maçônico republicano. Entretanto, diferentemente dos seus similares americanos, no Brasil o conservadorismo foi muito mais tímido em sua produção e na sua capacidade de criação de saber e estética. Não obstante a aparente ineficiência, grande parte dos conservadores brasileiros nutria uma visão de mundo realista da nossa história e condizente com as experiências tradicionais da nação.

O fato do conservadorismo americano ter, em sua grande parte, uma matriz cristã o torna mais palatável ao brasileiro. Ademais, as produções mais recentes têm fortes marcas católicas, livres de perigosas percepções protestantes, tão diferentes da nossa sensibilidade. Entretanto, um segundo fator torna a experiência conservadora da América, e também da Europa, profundamente distinta da realidade brasileira. O Brasil diferencia-se por ser uma civilização ocidental tropical, talvez a mais pujante existente. Para cá vieram os europeus mais miscigenados com os selvagens mouros; portugueses que, diferentemente dos espanhóis, não nutriram nenhum ódio avassalador contra a cultura humana árabe. O português, portanto, nem era puramente o descendente dos nórdicos que na península fundaram cidades, nem apenas a extensão do norte da África em solo europeu. Os povos do antigo Condado Portucalense eram loiros e morenos, ruivos e escuros. Assim, portanto, a Europa que aportou na Terra de Santa Cruz estava longe do caráter circunspecto e grave das nações do norte.

Aqui o português encontrou o índio e, mais tarde, trouxe para o Brasil o povo que definiu profundamente as marcas da cultura brasileira: o negro. Tamanho encontro entre raças e tradições tão distintas deu origem a uma nova forma de relacionamento humano e de visão de mundo. Enquanto os escravos enviados para os EUA eram, em sua maioria, oriundos de uma mesma localidade e sem grandes cargas culturais, entre os negros para o Brasil levados estavam muitos membros da aristocracia e realezas africanas, sacerdotes, sábios das mais diferentes regiões. Tamanha erudição fez com que em certas senzalas habitassem homens mais doutos do que muitos brancos das casas-grandes. A influência dos povos africanos ajudou a formar e reformar costumes e hábitos. Até mesmo a língua portuguesa, fundamental na unidade das províncias e na definição das fronteiras, foi  tomada pelo ritmo e suavidade do modo como os negros a falavam. Os filhos do senhor de engenho estavam mais habituados com a forma usada pelas amas-de-leite do que pela normatividade do português europeu ensinada nos colégios.

Tamanha miscelânea deu forma a uma sociedade muito distinta da Europa e da África, uma experiência única. O Brasil, ao ser colonizado pelo português, tornou-se numa nação onde a realidade multicultural, algo muito distinto do uso corrente do termo, foi sintetizada e transformada em cultura própria. Destarte, o conservadorismo que ignora as tradições mais profundas da história brasileira é nada mais do que uma caricatura dos modelos americanos. Sendo, portanto, incapaz de conhecer e reconhecer as experiências tradicionais do seu povo, o conservadorismo se converte em discurso panfletário, romântico e, até mesmo, revolucionário. Entretanto, é necessário não confundir esta leitura com o nacionalismo. Ao pensamento conservador é possível a junção do patriotismo com o olhar crítico fundamentado na busca pela verdade e pela beleza. Deste modo, falar do conservadorismo DO Brasil é entender o pensamento que não abre mão da nossa história e das nossas origens e que, ao contrário, fundamenta-se em tudo isso para defender a ordem espiritual da comunidade.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Quando o Islã prepara o terreno para o Cristianismo


Estava lendo um texto sobre a história do cristianismo em Uganda e me deparei com um trecho muito interessante. O Islã em Buganda, antigo reino que deu origem ao país africano, suplantou as religiões animistas e abriu a população local aos conceitos fundamentais das religiões monoteístas. Teria, portanto, preparado o terreno para a chegada do cristianismo fazendo, assim, que o islamismo se tornasse numa religião minoritária. Segue o trecho traduzido:

"No século XIX duas "religiões mundiais" - Islã e Cristianismo - levaram a significativos avanços na África. Muitas vezes, eles estavam em séria disputa, e este fato foi o caso em Buganda. Mas isso não deve ofuscar a realidade que tanto o islamismo como o cristianismo eram, em muitos aspectos, complementares. Ambos foram chamados de "dini", em contraposição ao patrimônio religioso tradicional africano. Ambos os credos ofereceram uma "visão de mundo", uma explicação universal da vida com todas as suas oportunidades e problemas. Tais sistemas pareciam cada vez mais relevantes para as sociedades, como Buganda, que estavam sendo arrastadas para um mundo maior. Neste sentido, o Islã em Buganda, apesar de sua rivalidade, preparou o caminho para o cristianismo de diversas maneiras. Na verdade, o cristianismo chegou num momento estratégico - quando o Islã tinha despertado para as necessidades e as aspirações de Baganda. O Islã se tornou arraigado na sociedade de forma que o cristianismo não conseguiu encontrar um ponto de apoio. O Islã, por exemplo, criou uma sede pela alfabetização, especialmente entre os jovens (bagalagala) na corte. O cristianismo foi capaz de através desse interesse, e com suas prensas de impressão e distribuição de livros baratos em vernáculo ou suaíli, satisfazer tal busca com uma extensão muito maior do que o Islã era capaz de fazer. 

Mas o Islã havia preparado o caminho de outras maneiras. A idéia de um livro sagrado, de um dia santo, de um Deus acima de todos os deuses que estava interessado nos negócios desta vida e na vida moral do indivíduo, a espera pela ressurreição do corpo e de um julgamento após a morte. Esses conceitos foram trazidos a essa região pelo Islã, mas recebeu maior ênfase com a vinda dos missionários cristãos. 

Entretanto, até que ponto Baganda já reconhecia a existência de um Deus supremo? Certamente nem o Islã nem o Cristianismo precisavam importar um nome estrangeiro a fim de proclamar o seu Deus. Baganda já conhecia Katonda, o Criador. Mas o status de Katonda tem sido objeto de controvérsia dentro da historiografia religiosa de Buganda. Katonda fora apenas um lubaale muito insignificante? Ou ele sempre foi considerado como superior ao balubaale, acima de Mukasa, Kibuuka e Muwanga, mas distante da vida da nação e do indivíduo, e, portanto, não sendo o foco de um forte culto? Seja qual for a resposta a estas perguntas, é certo que o Islã deu uma nova importância para Katonda e que o cristianismo na região foi construído sobre esta crescente importância. 

Assim, em uma sociedade já aberta a novas idéias, sensível à influência tecnológica, cultural e religiosa do mundo exterior, o Islã e depois o cristianismo causaram um impacto sobre Buganda, na segunda metade do século XIX. Mas se Buganda era tão receptiva  à mensagem de uma "religião mundial", por que não simplesmente permaneceu com o Islã? Como poderia o cristianismo não só se tornar num grande desafio para o Islã, mas, eventualmente, se tornar o dini dominante em Buganda, forçando o Islã a uma posição de uma minoria (mas tenaz) de pequeno porte?"

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

A conversão dos muçulmanos na Espanha reconquistada: Francisco Jiménez de Cisneros X Hernando de Talavera

Pedro Ravazzano

A Espanha tem uma história muito rica e que se formou ao longo dos confrontos entre povos, culturas e religiões. Desde a conversão do rei visigodo Recaredo I, que abdicara o arianismo ingressando na fé católica, a península ibérica, agora unificada religiosamente, ganhara prestígio aos olhos de Roma. Ainda não tendo os graves problemas doutrinais do reino dos francos ou das colônias itálicas nos Balcãs, os reinos da Espanha enfrentaram a maior humilhação quando no território cristão o domínio muçulmano foi consolidado. Entretanto, através das lutas da Reconquista, com a extensão do domínio católico pelas vastas regiões ocupadas pelos mouros, os ibéricos definiram a sua própria história de modo inigualável. Contudo, o que se destaca nesse processo de dominação e expulsão das populações islâmicas é a dualidade entre duas propostas de tratamento. De um lado se encontrava Hernando de Talavera, Arcebispo de Granada e então confessor da Rainha Isabel I, defensor de um processo de evangelização encabeçado por missionários conhecedores da língua e cultura árabes e coroado com conversões espontâneas. Na outra margem estava o Cardeal Francisco Jiménez de Cisneros, Arcebispo de Toledo e Primaz da Espanha, árduo adepto de uma solução mais radical para o problema dos mouros, isto é, a conversão forçada ao cristianismo. 

 O Califado Omíada na Espanha atingiu um alto nível de esplendor intelectual, artístico e cultural. Entretanto, tamanha produção só ocorreu com o fim do projeto expansionista islâmico. Na Batalha de Poitiers Carlos Martel destruiu o anseio muçulmano de ultrapassar os Pirineus chegando até o reino dos francos. Abaixo da Espanha islamizada estava o Califado Abássida, o responsável pelo destronamento dos Omíadas agora exilados na península ibérica. Em meio ao ócio de uma vida não mais militarizada os muçulmanos conseguiram elevar o nível da sua produção intelectual e artística, tornando Al-Andalus num farol de beleza e sabedoria para todo o mundo. 

A expulsão dos mouriscos, ocorrida em 1609 sob a ordem de Felipe III da Espanha, descendente da Rainha Isabel I, foi o evento culminante de um longo processo iniciado pelos Reis Católicos para exterminar toda a influência cultural, religiosa e étnica dos antigos dominadores muçulmanos. Os mouros que não fugiram para o norte da África quando da queda do seu último bastião, o Reino de Granada, foram obrigados à conversão em 1502 após a vitória de Jiménez de Cisneros com o seu rápido processo de cristianização da península. Mas isso não foi suficiente. A expulsão, portanto, tinha um claro caráter étnico, já que os mouriscos – mouros convertidos – eram vistos como o grande infortúnio da nação. Depois de anos de atrito entre as autoridades espanholas e os neo-cristãos, como o último ato, quase como uma desesperada limpeza étnica, todos os mouriscos são conduzidos aos portos marítimos e embarcados para o Marrocos. 

A expulsão dos mouriscos, contudo, não carregou a mesma dramaticidade da expulsão dos judeus ocorrida em 1492. Oito anos após a saída dos israelitas os muçulmanos espanhóis são obrigados à conversão. Entretanto, o que não é sabido é que antes desta ação definitiva da coroa da Espanha houve uma complexa discussão, com profundos pressupostos teológicos, entre Hernando de Talavera e Jiménez Cisneros. O Arcebispo de Granada, talvez por influência de eruditos religiosos, como Pedro, o Venerável, defendia um processo de conversão que fosse autêntico e que estivesse pautado na explanação da verdade e na conquista para Cristo. Séculos antes o Abade de Cluny, Pedro, realizou uma viagem até a Espanha muçulmana, que então vivia o apogeu do seu domínio, e após o aprendizado junto aos mestres islâmicos, realizou a primeira tradução do Corão para o latim. Para ele os muçulmanos deveriam ser atraídos ao cristianismo "não como nosso povo com frequencia faz, pelas armas, não pela força, mas pela razão, não pelo ódio, mas pelo amor". Entretanto, esse método, adotado por Talavera, era lento e pouco visível aos olhos de uma corte que via os mouros e seus descendentes como manifestações crônicas de uma Espanha doente. 

Quando os Reis Católicos visitaram Granada pela primeira vez desde a vitória de 1492 encontraram uma cidade cristã, rica em igrejas e em manifestações religiosas, onde os sinos, tão perseguidos pelos muçulmanos, repicavam livremente e eram extremamente audíveis. Entretanto, também se depararam com uma cidade onde as mesquitas perduravam e enchiam todas as sextas-feiras. Granada era, portanto, até então, uma típica localidade católica onde os não-cristãos tinham plena liberdade para professarem a sua fé. Contudo, a contínua presença da fé islâmica incomodava os Reis Católicos e estes, finalmente, deram vazão aos planos do Arcebispo de Toledo, Jiménez de Cisneros. Agora os sacerdotes e os pregadores do Primaz da Espanha tomariam a cidade e apressariam o processo de conversão dos mouros. Pouco tempo após o seu novo encargo, o prelado espanhol influenciou a elaboração do edito que, em 1502, definiu que todos os muçulmanos deveriam escolher entre o batismo e o exílio no norte da África. Dentro da estruturação lógica do argumento usado pelos soberanos, não havia o enquadramento da conversão forçada, já que fora dada como alternativa a partida para o Marrocos. Na perspectiva de Cisneros a rápida “cristianização” dos mouros facilitaria o trabalho de evangelização. Obviamente há em tal raciocínio uma total inversão da teologia sacramental católica quando se trata do batismo de adultos com uma consciência formada e livre. Cisneros, para tal intento, transferiu a teologia batismal de crianças como pressuposto teológico do seu projeto e, ademais, ao conceber o muçulmano como intrinsecamente selvagem diminuía o papel da consciência na sua própria composição antropológica. 

A grande dificuldade dos cristãos ibéricos, entretanto, não estava tão vinculada ao problema religioso. Havia, de modo muito natural para a época, a desconfiança diante do desconhecido. Judeus, cristãos e muçulmanos desenvolviam lendas e mitos que buscavam demonizar as outras crenças e, ademais, concebiam o outro como selvagem e bárbaro. Com a conversão forçada de judeus e muçulmanos, na busca pela unidade territorial, surgiu uma eterna desconfiança sobre a sinceridade da fé cristã professada pelos cristãos-novos e pelos mouriscos. Entretanto, mais do que a insegurança frente à honestidade religiosa, existia uma forte aversão ao fator cultural. O combate sistemático da coroa espanhola contra a cultura judaica e principalmente moura exemplifica a incapacidade dos cristãos da época de conceberem a ideia do cristianismo ibérico não estar ligado a uma cultura propriamente ibérica. Destarte, ser católico espanhol era, necessariamente, se incluir dentro do espectro cultural lícito, isto é, as diversas facetas culturais que compunham a nação, desde catalã até galega. A busca pela destruição das marcas árabes na vida dos convertidos e com a consequente castelhanização destes era a forma encontrada de exorcizar os fantasmas do passado. Para que a transformação fosse mais aguda a coroa endossou a destruição da identidade mourisca: o idioma árabe foi proibido e livros nesta língua foram queimados, trajes típicos foram declarados ilegais e até mesmo os casamentos entre mouriscos deveriam ser celebrados de portas abertas para que não se duvidasse da ocorrência de uma cerimônia cristã. Ademais, os mouros convertidos estavam proibidos de portar armas, ainda que fosse uma faca doméstica – que deveria ter as pontas arredondadas. A crença prática era de que a “mancha” étnica triunfava diante da graça batismal, uma concepção extremamente herética para a doutrina católica. 

Havia na época um apreço muito grande pela reflexão a respeito da salvação dos não-cristãos, discussão aprimorada com o descobrimento da América e dos seus povos nativos desconhecedores da Revelação. Para o Cardeal Tomás Caetano, infiéis como os muçulmanos estavam sob o domínio cristão, enquanto os indígenas americanos estavam livres da jurisdição da Igreja. Esse tipo de raciocínio possibilitou o incremento da ação da Inquisição contra os mouriscos. Contudo, a situação da Igreja na Espanha era muito complexa. A instituição eclesiástica, inclusa a Inquisição, era usada como instrumento do estado. Ademais, num curto espaço de tempo reis espanhóis, como Carlos V e Felipe II, restringiram os poderes do papado na península ibérica. O confronto foi agravado com a invasão de Roma pelas tropas de Carlos V e o consequente saqueamento da Cidade Eterna. Felipe II, ainda sendo um fiel defensor dos anseios da Igreja na Europa, mostrou-se na Espanha um ardoroso protetor dos interesses do monarca no campo religioso. A Santa Sé, portanto, não apoiou a conversão forçada das massas, que ocorreu, assim, à revelia da autoridade máxima da fé católica. 

O choque de Talavera com Cisneros pode ser concebido, portanto, como a luta entra um propósito sincero de conversão e o uso político da religião para fins obscuros. O Arcebispo de Granada, grande erudito que dominava perfeitamente o idioma árabe, por mais ineficiente que parecesse aos olhos de uma coroa ansiosa pelo fim da presença islâmica na península, não usava de meios violentos, mas, isto sim, através da persuasão racional e do testemunho amoroso apresentava o cristianismo aos mouros. Já o Arcebispo de Toledo, com a conversão forçada dos mouros granadinos e em seguida de todos os islâmicos em Castela, exterminou, ao menos nominalmente, o islã do reino cristão, mas não conseguiu transformar os mouriscos em verdadeiros católicos por mais que sacerdotes e monges entrassem aos montes em suas vilas e bairros. Com a ineficiência da conversão começou a se fortalecer a tese de que a cultura moura, ou até mesmo a raça árabe, era a grande responsável pela dificuldade dos convertidos em abraçar verdadeiramente o cristianismo. Iniciou-se, portanto, um processo sistemático de destruição cultural e de controle sobre a vida dos mouriscos. 

Os sucessores de Cisneros em suas teses continuaram com a busca pela cristianização dos já nominalmente cristãos. Tal tensão criara tamanha desconfiança sobre a sinceridade da fé que até mesmo os que viviam honestamente a nova crença eram vistos com precaução. Incapazes, portanto, de tornar todos os descendentes dos mouros em verdadeiros cristãos e impossibilitados de destruir completamente os resquícios da cultura árabe, a coroa espanhola resolveu expulsá-los da península ibérica, enviando-os para o Marrocos, como já havia ocorrido com os judeus séculos antes. A expulsão ocorreu em 9 de abril de 1609, sob a ordem de Felipe III da Espanha. 

Desde a conversão em 1502 até a expulsão em 1609 um século foi atravessado. O método de Cisneros se mostrou um grande fracasso. Poucos mouros adotavam sinceramente a fé cristã e ainda mesmo aqueles que o faziam não abriam mão de sua rica cultura. Começa-se, portanto, o segundo processo, o de substituição da cultura árabe pela castelhana, o que intensificara a revolta mourisca contra a coroa. Com a tensão no sul da Espanha se tornando cada vez mais complexa e, ademais, com o crescente desenvolvimento de teses que defendiam a ideia de “mancha étnica” indelével, houve-se por bem banir todos os mouriscos do reino da Espanha. 

Certamente Hernando de Talavera, com seu método orgânico de conversão, ainda que não atingisse a totalidade da população moura, geraria conversões sinceras que serviriam como testemunhos profundos da vida cristã junto aos muçulmanos. Entretanto, por mais dinâmica que tenha sido a história de Al-Andalus e da Reconquista, o que fica claro de modo mais enfático é a capacidade do homem de produzir, através do seu espírito, monumentos de eternidade e ações que marcam a sua vida, a dos homens da sua época, mas que atravessam o tempo e chegam até o homem presente. Não cabe, portanto, um juízo metódico sobre Cisneros e suas teses fracassadas, entretanto, fica o aprendizado de que a consciência individual jamais deve ser tolhida na liberdade que tem de seguir, ainda que seja no seguimento do erro.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Terroristas, Marxistas e Teólogos da Libertação

O fundamentalismo islâmico tem em sua origem histórica o wahhabismo de Muhammad ibn Abd al-Wahhab, e auto-proclamado salafismo. Entretanto, ao longo dos tempos, o radicalismo foi tomando uma feição mais em sintonia com os obstáculos apresentados pelo mundo moderno. O choque com a Civilização Ocidental e a crescente pressão pela adoção de parâmetros democráticos de governo geraram o fortalecimento de grupos fundamentalistas. Neste processo surgem figuras de destaque, como Abul Ala Maududi, fundador do Jamaat-e-Islami, com a sua nova leitura da jihad e do "estado islâmico".

Na sua luta contra o ethos secularizante que invadia a Índia Britânica - lembremos que a divisão do território com a criação do Paquistão ocorreu apenas em 1947 - Maududi buscou repensar o método islâmico de combater a extensão do domínio ocidental nas regiões muçulmanas. Na contestação ao inimigo ele acabara por desenvolver uma leitura da realidade muito similar ao que fora proposto pela "teologia da libertação" na América Latina. A percepção dialética favorecia ainda mais a supervalorização da práxis como método de transformação. O fundamentalismo, de tal modo, era consequência do reconhecimento da primazia na ação. A coroação deste método se deu com a transformação radical da compreensão da jihad na fé islâmica.

Maududi percebeu que os papéis do islamismo e do "estado islâmico" não estavam restritos às nações muçulmanas. Tal sensibilidade se aproximava, ainda que indiretamente, da concepção trotskista da revolução permanente e de caráter internacional. Ainda em sintonia com o pensamento comunista, o califado mundial pensado pelos fundamentalistas, por mais discussões que tivessem ocorrido nos primórdios da expansão islâmica sobre a incompatibilidade entre um califado de caráter monárquico e os ensinamentos de Maomé, assemelhava-se ao "estado proletário" concebido pelos teóricos marxistas.

Para uma transformação tão radical na mentalidade dos muçulmanos Maududi concebeu uma nova noção da jihad e um novo papel para o islamismo no cenário mundial:
"Islam wishes to destroy all states and governments anywhere on the face of the earth which are opposed to the ideology and programme of Islam, regardless of the country or the nation which rules it. The purpose of Islam is to set up a state on the basis of its own ideology and programme, regardless of which nation assumes the role of the standard-bearer of Islam or the rule of which nation is undermined in the process of the establishment of an ideological Islamic State. Islam requires the earth—not just a portion, but the whole planet .... because the entire mankind should benefit from the ideology and welfare programme [of Islam] (...) Towards this end, Islam wishes to press into service all forces which can bring about a revolution and a composite term for the use of all these forces is ‘Jihad’. (...) the objective of the Islamic ‘ jihād’ is to eliminate the rule of an un-Islamic system and establish in its stead an Islamic system of state rule."
Dentro deste cenário o fundamentalismo surge como o instrumento da práxis na transformação do Ocidente e na defesa dos padrões islâmicos. Não há, portanto, nenhuma grande diferença entre a lógica radical e a dinâmica concebida pelos comunistas. Contudo, foi o pensamento wahhabita que criou toda a estrutura de pensamento, como a fragmentação da comunidade islâmica entre bons e maus muçulmanos. O Ayatollah Khamenei, Líder Supremo da Revolução, consciente do longo atrito entre o Irã e a Arábia Saudita, lembrou que "if it [Salafism] is interpreted as prejudice, rigidity and violence among Islamic denominations and different faiths, it will not be compatible with the progressiveness and rationality that form the foundation of Islamic thought and civilization, and it will help promote secularism and irreligion." 

O radicalismo islâmico, destarte, como a "teologia da libertação", leva consigo a transformação da realidade através da ação. Indiretamente se aproximam da percepção marxista, o que justifica a razão pela qual diversos partidos de esquerda desenvolveram um forte apreço pela causa dos fundamentalistas. Entretanto, o que se apresenta é um cenário polarizado onde radicais e secularistas muçulmanos vivem num ciclo de retroalimentação vital para o aumento de suas fileiras. Nesse jogo o islamismo, em sua mais natural e espontânea versão, corre o risco de ser esquecido ou ofuscado em meio ao enorme conflito no qual está inserido.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Uma nova Palestina?

Com a elevação da Palestina de órgão observador para "Estado observador não-membro" se complicou as discussões sobre o conflito no Oriente Médio. A posição tomada por Israel e pelos EUA foi uma ação de desespero diante da movimentação da comunidade internacional e da possibilidade concreta da Palestina entrar com ações no Tribunal Penal Internacional contra as incursões israelenses na Cisjordânia e em Gaza. Entretanto, infelizmente, a causa da Palestina foi sequestrada pelos partidos de esquerda que, desde o início do conflito armado, lançaram suas influências nos braços seculares com a OLP e as diversas siglas que a compunham. 

Historicamente o Oriente Médio sempre foi uma região de trânsito entre diversos povos. De fato, faz parte do processo de amadurecimento cultural a dinâmica migratória. Se olharmos com todo o rigor nenhuma nação é natural da sua localidade, mas, isto sim, foi formada ao longo da construção da identidade pelo tempo. Judeus são migrantes, assim como os árabes se lançaram para além dos limites do deserto da península arábica. Até mesmo os milenares persas (iranianos) migraram para o Grande Irã por volta de 2000 a.C. O caso dos turcos, hoje estabelecidos por toda a Anatólia, é ainda mais enigmático: saíram da Ásia Central, o local natural de todos os povos turcomanos, e entraram no Império Seljúcida (também com laços étnicos com os turcos) galgando altos postos na estrutura hierárquica. Com a decadência e a derrota do império só restou o Sultanato de Rum, que foi minado internamente através da ascensão do principado encabeçado pelos Osmanoglu, ou seja, Otomanos.    

O Oriente Médio, portanto, foi o local do choque entre diversos povos, culturas e religiões. Isso é fundamental para reconhecer que a reivindicação de algum direito natural sobre as terras palestinas, como é feito corriqueiramente pelos israelenses, é um absurdo histórico sem precedentes. Assim como é prejudicial esse tipo de argumentação, não há mais espaço para a crítica feita por facções radicais que protestam contra a existência do estado de Israel por ter sido criado através da ingerência da ONU já no séc. XX. As duas nações, portanto, devem aprender a conviver pacificamente dentro de dois estados distintos que estão inseridos em fronteiras historicamente conturbadas. 

Entretanto, o que se destacou com a elevação da Palestina ao status de "Estado observador" foi a reação do Primeiro-Ministro de Israel, Benjamin Netanyahu. Para ele isso "terá consequências", usando de um claro tom ameaçador contra o povo palestino. Que o governo israelense tenha medo dos ataques do Hamas contra as cidades do país, é um sentimento lícito. Contudo, o que temos visto é a intromissão completa de Israel nas decisões internas da Palestina. Israel, inclusive, ameça bloquear os impostos que recolhe para a Autoridade Palestina na Cisjordânia. 

Israel, diante da nova categoria internacional da Palestina, não terá a mesma liberdade com que sempre tratou o povo palestino em suas ações. De fato, diante dessa lógica a paz se torna ainda mais distante já que Israel não teria o completo poder de barganha como sempre ocorreu. A tensão se complica quando as duas nações passam a ser vistas pelas ideologias vigentes como os reinos do capitalismo ou da resistência coletivista. Que os dois estados se consolidem, entretanto, que não seja por meio da polarização entre povos e culturas, mas através da conscientização do direito de auto-determinação. 

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Três pontos esquecidos quando falam do conflito Israel-Palestina

Tenho acompanhado com muito interesse os debates sobre o conflito Israel X Palestina. Ontem mesmo assisti duas discussões que, curiosamente, incidiam em três erros que acredito são cruciais para a acertada compreensão dos problemas no Oriente Médio e do mundo árabe e muçulmano. 

1 - Existe uma certa má vontade no entendimento das nuances próprias do islamismo e, em especial, do islamismo xiita (shia). Desde o alvorecer da Revolução Islâmica do Irã em 1979 o xiismo passou a ser visto como a facção islâmica que mais profundamente encarnava o ideal da sharia. Ademais, esse imaginário foi alimentado pela resistência do Hizbollah aos ataques israelenses no Líbano. Entretanto, tal leitura é desprovida de sentido prático. Historicamente o xiismo sempre foi a ala mais crítica ao islamismo autocrático que se consolidou no califado omíada. A defesa radical pelo primado da Ahl al-Bayt, isto é, pelo governo muçulmano encabeçado pelos descendentes diretos de Maomé através da união de seu primo Ali com a sua filha Fatimah, transformou os xiitas em ardorosos combatentes dos desmandos do governo central. O ostracismo da comunidade shia ainda possibilitara que esta tivesse contato mais amigável com outras minorias, como os cristãos. Isso foi muito profundamente marcado durante a Revolução Iraniana, onde minorias religiosas - judeus, zoroastristas, católicos, cristãos armênios e assírios - passaram a gozar de respaldo constitucional. Obviamente algo muito distante da liberdade religiosa ocidental, já que não há legalidade para o apostolado externo, mas ainda assim uma clara amostra de respeito aos outros credos que fazem parte da nação persa. Ademais, o islamismo xiita, por não ter incindido na distinção entre a jurisprudência e a mística, como ocorrera com os sunitas, sempre foi mais reflexivo e aberto ao diálogo.

2 - Existe uma total ignorância quanto ao papel fundamental de Muhammad ibn Abd al-Wahhab e do seu salafismo na fundação do radicalismo islâmico como conhecemos. A Arábia Saudita, antes parceira da Inglaterra e hoje fiel aliada dos EUA na região, nasceu, justamente, da junção do pensamento reformista de Wahhab com a família Saud, orquestrada pelos agentes britânicos na região. O salafismo, como fora auto-proclamado, tenta se remeter às primeiras gerações de muçulmanos, resgatando a pureza primitiva que havia na fé islâmica. A novidade trazida por esse espírito reformista minou a filosofia e a arte islâmica, combateu sistematicamente tradições próprias do islam, dividiu a Ummah (comunidade islâmica) ao permitir o juízo privado sobre a fé alheia e, ainda sendo condenada pelas quatro escolas de jurisprudência islâmicas, se outorgou o supremo poder de definir os parâmetros essenciais da prática religiosa. O wahhabismo saudita, baseado nos petrodólares, disseminou a ideologia radical por vastas áreas muçulmanas. Dessa influência surgiram os grupos terroristas e movimentos como o deobandi, que originou o Talebã no Afeganistão. A aproximação da Arábia Saudita com os EUA, entretanto, fez com que o radicalismo saudita se focasse em perseguições internas, tornando-se menos interessado pelo controle do mundo islâmico. Ainda sendo considerado sunita, o salafismo wahhabita persegue nas fronteiras sauditas as escolas de jurisprudência que não se alinham com a sua cartilha. O xiismo, obviamente, sequer é considerado islamismo e não tem legalidade. Por anos os muçulmanos shias estavam proibidos de participar do hajj em Meca. A repulsa da Arábia Saudita ao Irã é integral e totalmente violenta. Qualquer analista do Oriente Médio que não compreende a gênese histórica do wahhabismo exclui da equação uma variante essencial. Assim, portanto, se o terrorismo islâmico moderno tem no salafismo a sua raiz primeira, não existe possibilidade deste ratificar uma união concreta com a nação que ostenta orgulhosamente o islamismo xiita, o Irã.

3 - A terceira questão que é muito pessimamente compreendida, talvez pelo desconhecimento do islamismo, é o papel do secularismo nas crises atuais. A Primavera Árabe levou aos países que antes viviam sob a dureza de regimes totalitários a esperança democrática. Contudo, a abertura ao sistema ocidental de governo levou consigo parâmetros liberais extremamente perigosos para a sociedade muçulmana. O secularismo ocidental possibilitará a desconstrução dos paradigmas religiosos, como já ocorre na Turquia, o que, por sua vez, alimentará o discurso dos radicais muçulmanos. Neste sentido o liberalismo e o radicalismo vivem num ciclo de retroalimentação, criando uma tensão viciosa entre ambas as forças. Se o cristianismo praticamente perdeu a sua batalha em defesa do estado confessional, como fora defendido pela Igreja, o islamismo corre o sério perigo de abrir espaço para a ardilosa filosofia iluminista com o seu trator anticlerical e secularizante. Ademais, o fanatismo religioso enxerga no alvorecer da democracia o combustível da sua árdua crítica contra a ingerência ocidental nos problemas internos das nações árabes. Assim, é necessário se alegrar com a queda de regimes totalitários, mas ao mesmo tempo se precaver da ilusão de que o remédio para o mundo se encontra na supremacia da democracia-liberal e seus frutos imediatos, como a perseguição sistemática à religião como fator concreto das decisões de um povo.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

O incrível poder da Ummah


Sempre que eclode conflitos no Oriente Médio a comunidade internacional se surpreende com a comoção gerada em toda as nações islâmicas pelo mundo. Esse efeito emocional quase automático é consequência do incrível poder da Ummah, isto é, da comunhão prática dos muçulmanos mediante uma fraternidade que transcende os limites territoriais. Tão grande novidade trazida por Muhammad numa península arábica violentamente dividida em tribos, possibilitou a coesão dos fiéis da nova crença fazendo com que pouco tempo após a sua morte uma grande parte do mundo conhecido estivesse sob o poder dos minaretes.


Muhammad sabia que para a sobrevivência da sua fé era necessária a profunda mudança de mentalidade por parte dos árabes convertidos. A primeira Ummah que se consolidou em Medina foi marcadamente simbolizada pelo espírito de paz e comunhão. Entretanto, após a morte de Maomé e com o fim do califado dos rashidun, isto é, quando este fora guiado pelos quatros companheiros de Muhammad,  Abu Bakr, Umar ibn al-Khattab, Uthman ibn Affan e, por fim, o grande Ali ibn Abi Talib, iniciou-se um período de expansão ainda mais amplo com os omíadas. Durante essa etapa as conversões ao islamismo eram desencorajadas entre os dhimmis - os judeus e cristãos que viviam no território islâmico - e os muçulmanos viviam em cidades quase inteiramente cristãs, como Jerusalém. As conversões, quando ocorriam, ainda tinham um forte caráter étnico. Havia, de certa forma, uma confusão entre islamismo e arabismo. Os neo-convertidos eram, portanto, associados a alguma tribo árabe acarretando que fossem, quase naturalmente, ainda vistos como cidadãos de segunda classe. A discussão terminou com o fim do regime omíada e a ascensão dos abássidas que levavam com ele todas os clamores dos muçulmanos xiitas contra o regime dos descendentes de Abu Sufyan.

No mundo recente a Ummah foi fundamental para a proteção do mundo islâmico quando da chegada das nações europeias. Os ingleses enfrentaram duras dificuldades na sua tentativa de tomar a Índia e o Irã. Os seus esforços se chocavam com a força da comunidade muçulmana que se unia contra os invasores. Os britânicos buscaram, então, minar a comunhão através da fé, com o financiamento de dois movimentos reformistas, como o bahaísmo e ahmadiyya. Mirza Ghulam Ahmad e Mirza Husayn Ali tentaram instaurar crenças que desconstruiriam a capacidade da Ummah de se unir contra os kuffar, os incrédulos, mas foram incrivelmente ineficientes. Na península arábica os ingleses também custearam outro movimento reformista. A doutrina de Muhammad ibn Abd al Wahhab foi rapidamente taxada pelos mais eruditos jurisprudentes islâmicos como herética. A sua novidade estava no seu afã de purificar o islamismo de versões corrompidas: o muçulmano poderia sim emitir um takfir, um julgamento sobre a fé do outro. Esse tipo de comportamento atacava o cerne da Ummah, da comunhão entre os fiéis. Se era permitido dizer quem era bom ou mau muçulmano, a comunidade islâmica corria o risco de entrar em profunda crise. Ademais, para Muhammad al Wahhab os turcos, senhores do Oriente Médio e de Meca e Medina, eram exemplos máximos da degeneração do islamismo. Assim, era fundamental que os bons muçulmanos se levantassem contra os otomanos. Quão feliz foi para a Inglaterra essa novidade. Da junção de Wahhab com a família Saud, que na época era salteadora de caravanas, surgiu a moderna Arábia Saudita. 

A Ummah, entretanto, ainda hoje mostra o seu poder e eficiência. Para o muçulmano de fé a agressão da comunidade islâmica é proporcional aos sacrilégios eucarísticos para o católico. Esse senso de pertença protegeu o islamismo ainda na época de Maomé e foi o fator de unificação das tribos árabes. Através desse processo a crença de Muhammad se expandiu e conquistou a Ásia, a África e chegou até a Espanha e no ápice do Império Turco-Otomano em terras austríacas. A Ummah foi historicamente fundamental e até hoje é o que possibilita aos muçulmanos se unirem quase automaticamente quando uma parte dessa grande comunidade é agredida.