O pluralismo da sociedade atual é um fato que não pode ser negado. A consequência natural é a consolidação do relativismo nas relações morais e religiosas do homem moderno. Entretanto, a gravidade se encontra quando ambos são reconhecidos como princípios nos quais o sujeito desenvolve o seu modo de percepção da realidade. Assim, não há mais possibilidade de diálogo sobre a verdade das coisas, restando apenas um conhecimento convencional sem validade universal. Ademais, quando este espírito entra na Igreja gera consequentemente a desconstrução dos mais basilares paradigmas da fé, como a derrocada do ardor missionário e da noção de ortodoxia.
A consciência moderna percebe a existência de uma sociedade plural na quais opiniões diametralmente opostas gozam da mesma validade aos olhos dos homens. Diante desse cenário existem duas posições: ou se reconhece como realidade de fato ou, então, como princípio. As consequências da segunda opção são opostas ao modo como a Igreja entende a fé e a estruturação teológica da Revelação. As teologias pluralistas e reinocêntricas, cada uma ao seu modo, buscaram desconstruir os paradigmas fundamentais da fé. O relativismo seria, portanto, apenas a concretização prática do relacionamento do homem como uma sociedade plural. A diversidade religiosa, considerada benéfica em si mesma, gera a subvalorização do Evangelho. Assim, portanto, a verdadeira plenitude do homem se dá na realização das virtudes humanas na cultura e na religião na qual nasceu.
Obviamente tal premissa renega todo o ardor missionário da Igreja e o modo enfático como o Magistério, ao longo da sua história, defendeu a necessidade da conversão dos povos. O Beato João Paulo II, em sua encíclica Redemptoris Missio, combateu, justamente, essas teologias pelo modo como concebiam a relação entre Cristo, Igreja e anúncio. Diz, ademais que “uma das razões mais graves para o escasso interesse pelo empenhamento missionário é a mentalidade do indiferentismo, hoje muito difundida, infelizmente também entre os cristãos, frequentemente radicada em concepções teológicas incorrectas, e geradora de um relativismo religioso, que leva a pensar que ‘tanto vale uma religião como outra’”. O relativismo religioso, como a chave para o indiferentismo e o tanto-faz doutrinário, age nas consciências e no modo como o homem de fé concebe o seu compromisso com a religião.
O relativismo nos ambientes eclesiásticos possibilitou a desconstrução da comunhão dos fiéis na Igreja. Resta apenas o individualismo que alimenta a soberba subjetiva agora elevada como autoridade plena. Na esteira desse comportamento é pertinente pensar como a ideia de heresia simplesmente não incomoda mais às mentes modernas. A aceitação do pluralismo como princípio torna a noção de ortodoxia, isto é, da doutrina correta, ou, partindo da acertada concepção cultural elioteana, o exercício livre da consciência do homem em defesa e expansão do legado tradicional recebido, obtusa e enfadonha. Se não há, portanto, ortodoxia a ser defendida e se, ademais, só há uma sociedade diversa com uma multiplicidade de experiências religiosas e devocionais, só resta ao homem reconhecer a riqueza desse cenário e afirmar que a realização plena não se encontra na aceitação de Cristo, mas na fidelidade ao próprio eu. Com tamanho subjetivismo as teologias pluralistas buscam aliviar os pesos da consciência: não diz, como se ensina a ética, que a consciência pode abraçar o mal acreditando ser o bem, mas desconstrói o juízo sobre a maldade do mal, impossibilitando qualquer tipo de análise objetiva sobre os atos humanos. Tudo, desse modo, ficaria restrito a um âmbito unicamente individual.
De fato, a Igreja, especialmente no Concílio Vaticano II, no decreto Ad Gentes, reconheceu a existência das “sementes do Verbo” nas mais diversas culturas e religiões. Com isso não pretendia instaurar o relativismo como princípio, mas reconhecer o modo misterioso como Deus provê com facetas da verdade, portanto verdades imparciais e desprovidas de plenitude, os mais diferentes povos e etnias. Buscava incentivar nas missões o olhar zeloso, isto é, um modo novo de relacionamento com os não-cristãos tendo em vista o enriquecimento da Igreja mediante a elevação e florescimento dessas sementes em Cristo. O exemplo e ardor missionários são fundamentais para que, através da ação de Deus e da Sua Revelação, “os não-cristãos, sob a inspiração interior do Espírito Santo, se convertam livremente à fé no Senhor, e adiram sinceramente Aquele que, sendo «caminho, verdade e vida» (Jo. 14,6), cumula todas as suas esperanças espirituais, mais ainda, supera-as infinitamente”. Se o decreto Ad Gentes afirmou que “ a actividade missionária [conserva] ainda hoje e haja de conservar sempre toda a sua eficácia e a sua necessidade” o resultado fora, justamente, o oposto: a transformação da vocação missionária num assistencialismo humanitário desprovido de significado transcendente.
O pluralismo da sociedade, então, ao ser visto como fato lança um grande desafio na nova evangelização e na necessidade de uma nova paideia. Por mais difícil que esteja o cenário, não é lícito achar que a multiplicidade de crenças se torna um princípio norteador das relações de fé do homem consigo e com o outro. A diversidade, nesse aspecto, torna-se riqueza quando dotada de significado em Cristo. Do contrário o senso católico se fragmenta e perde a sua unidade. Assim como o homem é um espírito encarnado, tendo uma unidade substancial, a Igreja, como Corpo Místico de Cristo, tem como uma de suas notas a unidade entre os membros. Contudo, o pluralismo pensado desse modo torna a relevância da Igreja no anúncio evangélico extremamente criticável. Faz-se necessário, portanto, a renovação da teologia e a redescoberta do tesouro da Igreja. Entretanto, anterior a tudo isso precisamos de homens eclesiais, isto é, unidos a Cristo e que estão na comunhão com o Seu Corpo Místico. O fiel que, humildemente, abre mão das suas opiniões para aderir àquilo que sempre foi e é crido, tornando, assim, a mensagem cristã universal não apenas no tempo, mas através dele.


(1).jpg)


