terça-feira, 23 de outubro de 2012

O anglicanismo ontem e hoje


A Igreja Anglicana hoje, dividida em diversas facções e alturas – Alta, Média e Baixa -, talvez seja o exemplo mais claro da decadência da fé quando não está alicerçada em fundamentos sólidos e verdadeiros. A separação de Roma não apenas foi um ato de supremacia nacional, mas, antes de qualquer coisa, a perda de um foco objetivo de verdade. Sem o reconhecimento da autoridade dada por Deus, isto é, do modelo institucional da Igreja, os ingleses transformaram a sua nova religião no cenário de uma batalha teológica infindável. 

A história do nascimento da Igreja Anglicana é notória. Ainda que hoje em dia os anglicanos busquem respaldar o surgimento da sua igreja oficial em movimentos separatistas pré-Reforma, o dado histórico verdadeiro mostra que o termo Ecclesia Anglicana, como fora usado constantemente para se referir à presença eclesiástica no reino inglês, sempre foi compreendido como sinônimo da Igreja “na Inglaterra” e não “da Inglaterra”, assim como se usava recorrentemente termos como Ecclesia Galicana, para se referir à Igreja na França, ou Ecclesia Hispanica, à Igreja na Espanha. Assim, pois, outorgando-se a alcunha de católica e reformada, a Igreja Anglicana surge da necessidade concreta de Henrique VIII legitimar a sua nova união. Obviamente o cenário favorecera enormemente a ascensão de teólogos e pensadores ligados ao pensamento luterano e, ademais, a devassidão do clero, encabeçado pelo Cardeal Wolsey, alimentava a fúria de muitos nobres inconformados com o poderio material dos bispos. 

Se inicialmente a Igreja Anglicana estava perdida no seu real propósito, sendo unicamente uma versão nacional e reformada da Igreja Católica, mas mantendo a mesma fé sacramental, no reino de Eduardo VI e Isabel I se estruturara mais claramente uma teologia genuinamente inglesa. No reinado do filho varão de Henrique VIII o protestantismo em sua versão mais radical, com claros cortes calvinistas, galgou espaços profundos no poder clerical institucional: vitrais e imagens destruídos, procissões, água benta, incensos proibidos, o celibato revogado, o sentido sacrificial da Santa Missa negado, altares substituídos por mesas moveis. Surge, assim, The Book of Common Prayer, pensado por Cranmer e que sintetiza a teologia anglicana. Tal radicalização possibilitou a estruturação do pensamento puritano que, no reinado de Isabel I, causara enormes divisões internas na Inglaterra. A “Rainha Virgem” conseguira pacificar o anseio reformista, combatera fortemente os levantes das seitas calvinistas e, por fim, destruíra todo o legado católico deixado por sua irmã, Maria I. 

Hoje a Igreja Anglicana surge como o maior exemplo das contradições internas do protestantismo. As igrejas nacionais dos países escandinavos largaram o radical puritanismo e debandaram para o relativismo moral e doutrinal. Entretanto, a Igreja da Inglaterra se orgulha de reunir sob a mesma autoridade a tradição evangélica – Low Church – que enfatiza o aspecto reformado da identidade anglicana, aclamando a autoridade da Escritura ao modo calvinista e reconhecendo a justificação, a tradição católica – High Church – que ressurgiu como o Movimento de Oxford em 1830, e que enxerga a Igreja Anglicana na continuidade da Igreja dos tempos patrístico e medieval, destacando, ademais, o caráter visível da instituição eclesiástica mediante a estrutura hierárquica ministerial de pretensa origem apostólica. Por fim, a tradição liberal – Middle Church – que partindo de princípios teológicos progressistas pretende responder aos questionamentos do homem moderno e que hoje responde por parte considerável da sensibilidade teológica anglicana mainstream. 

Atualmente, contudo, a Igreja Anglicana se fragmenta cada vez mais em siglas que têm percepções práticas da fé cristã totalmente opostas. Aspectos morais, como a ordenação de mulheres e homossexuais, assim como a legitimação da união de parceiros do mesmo sexo, têm instigado feridas profundas dentro da Comunhão Anglicana. Nesse aspecto o pastoreio de Rowan Williams na Cantuária é uma clara amostra da capacidade da Igreja da Inglaterra de conciliar o inconciliável. O Primaz, em sua posição teológica, simpatiza com leituras liberais, mas, ao mesmo tempo, adota um tom em defesa da ortodoxia e da vida sacramental típica das alas anglo-católicas. Ademais, Williams busca pacificar as tensões entre os grupos conservadores e progressistas da sua Igreja. Ao mesmo tempo em que nomeara Drexel Gomez, conhecido bispo conservador anglicano, para a Lambeth Conference e possibilitara a criação do Windsor Report para estudar o caso da sagração episcopal de Gene Robinson, homossexual não-celibatário, e das bênçãos matrimoniais às uniões homossexuais na diocese de Nova Westminster, fora ele mesmo pouco engajado no combate ao crescimento da sensibilidade moral progressista na sua Comunhão. A consequência foi a debandada de bispos conservadores em todo o mundo, o aumento das tensões internas e o fortalecimento do progressismo na Igreja Episcopal dos EUA, na Igreja Anglicana do Canadá e em todas as Igrejas nacionais dos países que compõem o Reino Unido. 

Pode-se considerar, portanto, que a situação atual do anglicanismo reflete a sua gênese histórica. A intencional busca pela descaraterização do clero, como pensada principalmente por Cromwell e diversos outros “humanistas” da época, gerou consequentemente a desconstrução da identidade que marca a vida consagrada. Ademais, a influência da teologia católica, luterana e calvinista, e o modo como cada uma delas ascendia e caia a depender do entusiasmo dos bispos e dos monarcas, fez com que a Igreja Anglicana jamais pudesse organizar uma unidade de pensamento. Diante deste histórico a teologia liberal encontrou o habitat ideal para se proliferar. Além disso, mediante a íntima relação com o poder secular, pôde canalizar todas as tensões do mundo para dentro da vida eclesial, perdendo, portanto, o caráter missivo e transformador do Evangelho.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

A Batina: entre os seus admiradores e perseguidores

Discute-se constantemente hoje em dia a importância do hábito eclesiástico na vida ordinária cristã. Existem muitos que transformam a batina na representação de toda a carga opressiva da doutrina e da lei da Igreja, entretanto, tão danoso quanto, outros realmente acreditam que pedaços de pano acrescentam uma dignidade ontológica aos que os trajam. Não obstante os opostos radicais, é necessário reconhecer, antes de qualquer coisa, a força simbólica que os hábitos carregam naturalmente. 

A lei da Igreja recomenda e indica o uso de hábitos que distinguem o consagrado dos homens comuns. Aqui já há uma ideia altamente colocada em discussão. Muitos dirão que esse tipo de distinção aumenta o abismo que separa o povo do clero, tornando as relações do laicato com a Igreja institucional extremamente burocrática e artificial. Outros, por sua vez, apreciam essa dissemelhança entre consagrados e leigos e, ademais, acreditam que tal hierarquização exprime o sentido mais profundo da essência do sentimento eclesial. 

O equilíbrio, contudo, se encontra no reconhecimento da distinção gerada pelo hábito, mas que deve ser entendida como serviço. O consagrado se veste de maneira diferente para anunciar ao mundo a existência de vidas separadas unicamente para Deus, porém que se oferecem aos homens através do testemunho da caridade. Assim, pois, o hábito não deve ser visto como a aristocratização do clero ou das comunidades religiosas, mas, isto sim, deve ser entendido como anúncio de existências entregues unicamente a Deus.

De forma muito interessante, num mundo altamente secularizado, com homens analfabetos para os sinais transcendentes, os símbolos perdem a sua riqueza. A Igreja, contudo, é chamada a reeducar os homens para a fé cristã, e parte integral desse processo é a comunicação da força simbólica que dialoga diretamente com a alma. O aparato usado para respaldar esse caráter dos sinais nos dá a fenomenologia da religião. Toda a estrutura religioso-mítica sempre foi profundamente marcada pela construção e uso abundante de ritos, paramentos, línguas, gestos etc que tiram o homem comum da sua situação ordinária. No cristianismo esse significado ganha a sua total plenitude já que o próprio Deus usou da linguagem humana para se comunicar.

Os regimes comunistas e revolucionários, desde o México maçônico, passando pelos anarquistas da Guerra Civil Espanhola e indo até a perseguição brutal dos regimes comunistas do leste europeu, sempre tiveram como uma das suas mais fortes políticas a proibição do uso dos trajes eclesiásticos. A razão era que, de forma muito correta, eles compreendiam a sua força simbólica. A presença cotidiana de padres e religiosos no mundo, anunciando de modo silencioso a gravidade da vida consagrada, era um grito da fé na sociedade. O pensamento Iluminista já lançava as bases dessa práxis quando pretendeu reduzir a experiência da fé ao ambiente privado. Os padres devem usar batina, isto sim, da porta dos templos para dentro. Entretanto, infelizmente, essa mesma percepção anticlerical e secularizante dos maiores inimigos da Igreja se tornou recorrente no discurso de muitos líderes católicos. 

É necessário, portanto, redescobrir o sentido do hábito eclesiástico: nem é sinal de opressão e nem é instrumento de aristocratização. O traje religioso é, acima de tudo, testemunho de consagração, expressão de um Deus que continua operando no mundo e escolhendo moças e rapazes que estão aptos a gastar sua juventude por Ele.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

A Nova Evangelização: o homem tem sede de infinito


O homem tem em si uma sede de infinito, uma capacidade inerente de abertura diante do transcendente. Entretanto, esta sua aptidão não se faz unicamente mediante elucubrações racionais, mas, e principalmente, através da vida como presença dAquele que é fundamento. Muitos pensadores estruturaram uma reflexão na esteira desse raciocínio  Destaca-se, contudo, Xavier Zubiri com a sua ideia de religação. Porém, o que aqui nos interessa é captar a dramaticidade existencial da vida como sinal, ou seja, reflexo imediato do próprio aconchego de Deus. 

O homem é o que Xavier Zubiri definiu como um ser religado – religatum esse, religio - , isto é, religado ao fundamento. Destarte, ao se encontrar entre as coisas, o homem é impelido a, com as mesmas coisas, fazer-se. Assim, a realidade é o fundamento “possibilitante” do homem na estruturação mesma da sua personalidade. Apreendendo, à vista disso, o poder da realidade como deidade, ele é conduzido à divindade. Deus, então, encontra-se nas coisas reais de modo fundante. Não obstante, ainda sendo absolutamente diverso, mas não apartado das coisas reais e da totalidade destas, as constitui formalmente como reais. Portanto, toda coisa real é realidade justamente por ser fundada em Deus. O homem, de tal sorte, angaria a força para viver do princípio fundante. Assim, a busca do fundamento não se inicia a partir de uma saída de si, mas sim de acatar desde onde viemos no que se refere à aceitação da realidade humana. 

De forma menos rebuscada e mais concreta, Bento XVI dirá que “o homem tem em si uma sede de infinito, uma saudade de eternidade, uma busca de beleza, um desejo de amor, uma necessidade de luz e de verdade, que o impelem rumo ao Absoluto; o homem tem em si o desejo de Deus. E o homem sabe, de qualquer modo, que pode dirigir-se a Deus, sabe que lhe pode rezar”. Esta abertura inerente ao sujeito que está na realidade, como já afirma a teoria zubiriana, encarna-se, contudo, não apenas na oração contemplativa. A vida espiritual é impulsionada pela graça, levando o crente a buscar a intimidade com Deus. Entretanto, a procura, sendo intrínseca à própria condição existencial humana, mostra-se no mundo em sua complexidade e contradição. A realidade é, portanto, obra de Deus e deve ser percebida através do olhar de oração

Essa abertura se realiza tanto na vida do jovem que busca a felicidade plena como na alegria da monja apaixonada por Cristo. Ambos estão vivendo na consequência dessa inquietação que, para muitos, torna-se fundante da vida. O homem, ainda que consiga abafar a voz que clama dentro dele, tem a natural espera pelo Outro. Contudo, diante do mundo no qual os símbolos se encontram esvaziados, em meio a uma sociedade incapaz de compreender a democracia dos mortos chestortiana, o sujeito se percebe desorientado nessa busca. Quando o mundo exalta o tempo presente pelo seu caráter atual, esquece que o presente se torna passado a cada instante. A grandeza da experiência cristã é, justamente, a percepção da atualidade concreta da existência tendo em vista o seu sentido vertical, isto é, eterno. 

A Igreja, com a Nova Evangelização, pretende, justamente, anunciar ao homem moderno que a sua sede de verdade pode ser saciada em Cristo. A Igreja tem a missão de levar cada “indivíduo” à comunhão com os outros e com o totalmente Outro. Nas dificuldades e paradoxos da vida atual, o Santo Padre reconhece a importância de, ao mesmo tempo em que se mantém o olhar aberto proposto pelo Concílio Vaticano II, incitar na modernidade o reconhecimento de Deus como realidade mais real do que nós mesmos, como fundamento do ser e fonte de todos os anseios que inquietam o coração.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

O PT não é tão corrupto assim...


O que mais vem me impressionando no julgamento do mensalão é ver a lógica petista em ação. Obviamente o Partido dos Trabalhadores tem todo o direito de considerar o julgamento uma grande chaga na sua história. Entretanto, o que se revela com mais força são os efeitos concretos do ardor ideológico. A paixão partidária é capaz de deformar a realidade, criando um mundo fictício que se coadune com o projeto idealizado.

Temos há mais de dez anos um governo petista nesse país. O estado brasileiro já se encontra totalmente aparelhado pela ideologia e, com a força das alianças, a extensão desse domínio vermelho se disseminou com muito mais rapidez. Este cenário, entretanto, é o oposto daquilo que é repetido exaustivamente pelos militantes do PT: o Brasil é um país governado pelas elites conservadoras. Vale destacar, antes de tudo, que até mesmo a nossa Suprema Corte, que teoricamente reflete a mentalidade de grande parte da população brasileira, tem uma clara sensibilidade progressista, é só ver como se posiciona em temas como aborto e extradição de Cesare Battisti. Ademais, a maioria dos nossos juízes foi escolhida e indicada na gestão de Lula, tendo espaço, inclusive, para ex-advogados do partido apenas graduados em Direito, como é o caso de Dias Toffoli. 

Dentro da mentalidade esquerdista em geral a vitimização é fundamental, já que intensifica o fetichismo ao redor da ideia de alienação e opressão. Se há, pois, oprimidos, é porque existem opressores. Porém, quando o país é presidido pela própria esquerda, os arautos da dominação das massas devem ser encontrados em outro lugar que não o governo. Assim, pois, cria-se um espantalho etéreo que não existe na realidade. Os conservadores do Brasil hoje são apenas Seu Zé da Farmácia, Dona Maria da Quitanda e Senhora Fabiana da Paróquia. As elites políticas, por conta da demonização das bandeiras liberais e conservadoras, correm de qualquer paradigma considerado direitista. A mentalidade esquerdista já se confundiu com a própria ideia de política. 

Ainda que digam o contrário, a clara imagem que os petistas vendem é que os crimes perpetrados pelo DEM e pelo PSDB atenuam a gravidade dos crimes dos companheiros de partido. Primeiramente, o fato do PT incidir no mesmo erro dos seus adversários já agrava a própria situação da sigla, afinal o Partido dos Trabalhadores sempre se arrogou a bandeira da transparência e do combate à corrupção. Ademais, estamos falando não apenas de um enriquecimento ilícito, o que já seria absurdo, mas de  algo muito mais profundo, ou seja, um projeto de poder que pretendia a violação da independência dos Três Poderes. 

Em nome de uma compreensão até correta do senso de justiça, o PT criou o ideal e, em nome desse mesmo ideal, pretendeu modificar a realidade. Usando a chave de leitura dada por Eric Voegelin podemos então compreender que o abandono da realidade, a primeira, surge com a estruturação da segunda realidade, mediante um sistema ideológico que abarca absolutamente tudo. Como fruto desse processo surgem homens que não vivem mais na realidade, mas sim numa falsa imagem desta. Nascem, então, os projetos de poder que são financiados com dinheiro público e com a compra de parlamentares. Acaba-se, entretanto, com petistas condenados, mas sendo aclamados e ovacionados como heróis e guerreiros do Brasil.

sábado, 22 de setembro de 2012

A imanentização da ordem em "Dredd"


O filme Dredd pode ser compreendido como uma ode ao fracasso do mundo moderno e dos seus mais fundamentais paradigmas. De forma muito interessante tanto no início quanto no final se anuncia palavras profética de que nas ruínas - "waste land" diz a versão original, isso lembra alguém? - do Velho Mundo nasceram as estruturas do Novo Mundo. Entretanto, ainda que a tendência do homem fosse a identificação da novidade com o progresso, o conforto material trouxe consigo o caos e a desordem. Em tal cenário, portanto, onde triunfa a imanência, a lei nada mais é do que a encarnação da mesma brutalidade.

Seria oportuno fazer uma reflexão profunda sobre a idéia de "indústria cultural" como pensada por Horkheimer. Entretanto, além de uma crítica material ao materialismo moderno, é necessário reconhecer que desprovido de significado ontológico, sem o reconhecimento daquilo que de bom, belo e verdadeiro subsiste no homem e na realidade, resta apenas a feiura e a maldade do mundo perdido em sua busca de sentido. 

O filme Dredd retrata muito bem essa dinâmica ao colocar a lei encarnada não em parâmetros naturais, mas em princípios regulatórios definidos pelo estado. Nesse sentido a sociedade do futuro ultrapassa os limites do direito positivo; as normas não apenas emanam do poder como o poder se faz completamente em indivíduos elevados em autoridade. O caos de Mega-City One era fruto da decadência do espírito, entretanto, a solução encontrada foi controlar a desordem através da força de um ação tão desprovida de sentido como a que é combatida. 

Existe no filme, portanto, a descrença no homem e na realidade. Não há espaço para a confiança mútua e para a esperança. Tudo se resolve dentro dos muros da grande cidade, em meio a estas novas estruturas que ostentam o poderio da modernidade ao mesmo tempo em que expressam o seu mais profundo fracasso. Nesse mundo o caos impera e a lei é transformada na síntese do desconhecimento do real. Se o homem não pode voltar os olhos para os céus, para si mesmo e para o outro, se não é capaz de identificar a sua própria essência e a sua interioridade, resta apenas aos juízes cumprir o mandato final de guiar a massa, aquilo que outrora havia sido a comunidade de almas.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

O Papa no Líbano: fundamentalismo e indiferentismo


Pedro Ravazzano

A visita do Santo Padre ao Líbano é muito sugestiva e simbólica. Estamos tratando do país mais tradicionalmente ocidentalizado do Oriente Médio, não só pela sua forte história cristã, mas como, e principalmente, por ter sido o porto da França na Ásia. Assim, pois, a nação libanesa se orgulha do seu desenvolvimento social reflexo, em muitos aspectos, das concepções ocidentais de sociedade.

Entretanto, se o Líbano sempre fora o país mais pluralista do Oriente Médio, com uma população composta por 54% de muçulmanos (27% sunita e 27% xiita), 5% de drusos e 41% de cristãos (católicos orientais e ortodoxos, basicamente), hoje sofre com o crescente perigo do aumento do fundamentalismo. Desde o ínicio dos conflitos Israel-Palestina, o sul do país tem se tornado numa região de tensões entre a OLP e o exército israelense. Ademais, o grande número de refugiados palestinos no país favorece ainda mais o incremento das tensões internas e externas. Nesse contexto, contudo, surge outro perigo iminente, talvez mais destrutivo que o próprio fundamentalismo; o indiferentismo.

Países como Turquia, Marrocos, Tunísia, Argélia etc, todos muçulmanos, vem passando por um processo de desconstrução dos paradigmas tradicionais. Mediante o combate às heranças religiosas - na Turquia chegou-se a tal ponto que a suprema corte pretendera proibir o uso do hijab (o véu islâmico) em imitação à decisão tomada pelo laicista estado francês - se estrutura uma sociedade antitética, isto é, o discurso dos arautos do secularismo fortalece a propaganda fundamentalista. O Egito, por exemplo, ao iniciar a "Primavera Árabe" tendo como força motriz a busca pela democracia e liberdade, epítetos que poderiam ser encontrados em qualquer plataforma política ocidental, abrira espaço para a fúria de radicais da Irmandade Muçulmanas e, mais perigosamente, salafistas wahabbitas.

Portanto, numa realidade social em chamas, surge Bento XVI como o arauto da Paz! Em seu discurso aos membros do governo o Papa lembrou que "O mal, o demónio, passa através da liberdade humana, através do uso da nossa liberdade; procura um aliado, o homem: o mal precisa dele para se espalhar. E assim, depois de ter violado o primeiro mandamento, o amor a Deus, vem para perverter o segundo, o amor ao próximo." e, em seguida, disse que "A chamada tolerância não elimina as discriminações; antes, por vezes até as reforça. E, sem a abertura ao transcendente que permite encontrar resposta para os interrogativos do próprio coração sobre o sentido da vida e sobre como viver de forma moral, o homem torna-se incapaz de agir segundo a justiça e comprometer-se em prol da paz."

Ai, pois, se encontra a solução para os problemas do Oriente Médio, já que o Sumo Pontífice nos fala dos problemas do homem em sua universalidade. A resposta não se encontra na defesa propagandística da tolerância como se fosse o remédio ocidental paras as mentes fideístas islâmicas. No coração das dificuldades se encontra o sujeito que, incapaz de alçar voos mais altos, buscando a Deus na sua autotranscendência, usando um termo muito caro a Bernard Lonergan, volta-se contra o seu irmão. A solução, portanto, está na conscientização do aspecto transcendente da própria condição individual. Assim, mediante o reconhecimento da dependência ao Outro que nos faz, ao cumprimento desse "destino original", dessa vocação natural, pode o homem construir, finalmente, a Civilização do Amor.

sábado, 8 de setembro de 2012

Os Quatro Pinheirinhos e o Estado


Era uma vez, numa bela tarde primaveril, algumas sementinhas. Estas, ao longo de trinta longos anos, cresceram em estatura e em sabedoria diante das mangueiras e dos vegetais, tornando-se em maduros e esbeltos pinheiros. Os quatro Pinheirinhos, como eram melhor conhecidos entre os seus, serviam como o lar de meigas e bondosas joaninhas, neles, ademais, cantarolantes pardais e alegres colibris faziam seus ninhos. Ao chegar o outono, os Pinheiros lançavam suas aveludadas folhas que eram carregadas pelo assoviar do vento.

Tudo parecia feliz, radiante e alegre, até que os quatro Pinheirinhos, assim como as suas duas primas, as adolescentes palmeiras, foram acusados por um homem mesquinho e malicioso de causarem dor, humilhação e sofrimento íntimo. Pobres Pinheirinhos! A humanidade não mais conseguia conviver com a tranquilidade que emanava dessas árvores!

- Livrem-se desses pinheiros, disse o odioso senhor aos seus responsáveis.

Os Pinheirinhos, contudo, pareciam que estavam protegidos pelos seus guardiões humanos. Entretanto, ninguém esperava que viesse em defesa do rancoroso cidadão o estado e sua famigerada estrutura estatólatra. Os Pinheirinhos instigaram a fúria burocrática. Não mais se encontravam em segurança. As suas fotos e os seus nomes já estampavam as capas dos diários oficiais e dos mandados policiais.

Geólogos e ambientalistas, a pedido dos guardiões humanos, foram ao terreno e atestaram que a vida dos amados Pinheirinhos não colocava em risco a existência dos cidadãos. Entretanto, em contrapartida, o estado, insatisfeito, enviara um dos seus sequazes, escoltado com homens armados com metralhadoras, com a ordem de, assustadoramente, exterminar, aniquilar, acabar com aquelas humildes e felizes obras da natureza.

Os guardiões humanos não se deixaram esmorecer e defenderam a vida das árvores. Hoje elas vivem, crescem e se reproduzem, ademais, continuam servindo como a morada de doces animais. Contudo, ainda estão sendo ameaçadas pela sombra da estatolatria que parece se incomodar incrivelmente com a existência de três pacíficos Pinheirinhos.

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Ridiculamente baseado em fatos reais!