sábado, 22 de setembro de 2012

A imanentização da ordem em "Dredd"


O filme Dredd pode ser compreendido como uma ode ao fracasso do mundo moderno e dos seus mais fundamentais paradigmas. De forma muito interessante tanto no início quanto no final se anuncia palavras profética de que nas ruínas - "waste land" diz a versão original, isso lembra alguém? - do Velho Mundo nasceram as estruturas do Novo Mundo. Entretanto, ainda que a tendência do homem fosse a identificação da novidade com o progresso, o conforto material trouxe consigo o caos e a desordem. Em tal cenário, portanto, onde triunfa a imanência, a lei nada mais é do que a encarnação da mesma brutalidade.

Seria oportuno fazer uma reflexão profunda sobre a idéia de "indústria cultural" como pensada por Horkheimer. Entretanto, além de uma crítica material ao materialismo moderno, é necessário reconhecer que desprovido de significado ontológico, sem o reconhecimento daquilo que de bom, belo e verdadeiro subsiste no homem e na realidade, resta apenas a feiura e a maldade do mundo perdido em sua busca de sentido. 

O filme Dredd retrata muito bem essa dinâmica ao colocar a lei encarnada não em parâmetros naturais, mas em princípios regulatórios definidos pelo estado. Nesse sentido a sociedade do futuro ultrapassa os limites do direito positivo; as normas não apenas emanam do poder como o poder se faz completamente em indivíduos elevados em autoridade. O caos de Mega-City One era fruto da decadência do espírito, entretanto, a solução encontrada foi controlar a desordem através da força de um ação tão desprovida de sentido como a que é combatida. 

Existe no filme, portanto, a descrença no homem e na realidade. Não há espaço para a confiança mútua e para a esperança. Tudo se resolve dentro dos muros da grande cidade, em meio a estas novas estruturas que ostentam o poderio da modernidade ao mesmo tempo em que expressam o seu mais profundo fracasso. Nesse mundo o caos impera e a lei é transformada na síntese do desconhecimento do real. Se o homem não pode voltar os olhos para os céus, para si mesmo e para o outro, se não é capaz de identificar a sua própria essência e a sua interioridade, resta apenas aos juízes cumprir o mandato final de guiar a massa, aquilo que outrora havia sido a comunidade de almas.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

O Papa no Líbano: fundamentalismo e indiferentismo


Pedro Ravazzano

A visita do Santo Padre ao Líbano é muito sugestiva e simbólica. Estamos tratando do país mais tradicionalmente ocidentalizado do Oriente Médio, não só pela sua forte história cristã, mas como, e principalmente, por ter sido o porto da França na Ásia. Assim, pois, a nação libanesa se orgulha do seu desenvolvimento social reflexo, em muitos aspectos, das concepções ocidentais de sociedade.

Entretanto, se o Líbano sempre fora o país mais pluralista do Oriente Médio, com uma população composta por 54% de muçulmanos (27% sunita e 27% xiita), 5% de drusos e 41% de cristãos (católicos orientais e ortodoxos, basicamente), hoje sofre com o crescente perigo do aumento do fundamentalismo. Desde o ínicio dos conflitos Israel-Palestina, o sul do país tem se tornado numa região de tensões entre a OLP e o exército israelense. Ademais, o grande número de refugiados palestinos no país favorece ainda mais o incremento das tensões internas e externas. Nesse contexto, contudo, surge outro perigo iminente, talvez mais destrutivo que o próprio fundamentalismo; o indiferentismo.

Países como Turquia, Marrocos, Tunísia, Argélia etc, todos muçulmanos, vem passando por um processo de desconstrução dos paradigmas tradicionais. Mediante o combate às heranças religiosas - na Turquia chegou-se a tal ponto que a suprema corte pretendera proibir o uso do hijab (o véu islâmico) em imitação à decisão tomada pelo laicista estado francês - se estrutura uma sociedade antitética, isto é, o discurso dos arautos do secularismo fortalece a propaganda fundamentalista. O Egito, por exemplo, ao iniciar a "Primavera Árabe" tendo como força motriz a busca pela democracia e liberdade, epítetos que poderiam ser encontrados em qualquer plataforma política ocidental, abrira espaço para a fúria de radicais da Irmandade Muçulmanas e, mais perigosamente, salafistas wahabbitas.

Portanto, numa realidade social em chamas, surge Bento XVI como o arauto da Paz! Em seu discurso aos membros do governo o Papa lembrou que "O mal, o demónio, passa através da liberdade humana, através do uso da nossa liberdade; procura um aliado, o homem: o mal precisa dele para se espalhar. E assim, depois de ter violado o primeiro mandamento, o amor a Deus, vem para perverter o segundo, o amor ao próximo." e, em seguida, disse que "A chamada tolerância não elimina as discriminações; antes, por vezes até as reforça. E, sem a abertura ao transcendente que permite encontrar resposta para os interrogativos do próprio coração sobre o sentido da vida e sobre como viver de forma moral, o homem torna-se incapaz de agir segundo a justiça e comprometer-se em prol da paz."

Ai, pois, se encontra a solução para os problemas do Oriente Médio, já que o Sumo Pontífice nos fala dos problemas do homem em sua universalidade. A resposta não se encontra na defesa propagandística da tolerância como se fosse o remédio ocidental paras as mentes fideístas islâmicas. No coração das dificuldades se encontra o sujeito que, incapaz de alçar voos mais altos, buscando a Deus na sua autotranscendência, usando um termo muito caro a Bernard Lonergan, volta-se contra o seu irmão. A solução, portanto, está na conscientização do aspecto transcendente da própria condição individual. Assim, mediante o reconhecimento da dependência ao Outro que nos faz, ao cumprimento desse "destino original", dessa vocação natural, pode o homem construir, finalmente, a Civilização do Amor.

sábado, 8 de setembro de 2012

Os Quatro Pinheirinhos e o Estado


Era uma vez, numa bela tarde primaveril, algumas sementinhas. Estas, ao longo de trinta longos anos, cresceram em estatura e em sabedoria diante das mangueiras e dos vegetais, tornando-se em maduros e esbeltos pinheiros. Os quatro Pinheirinhos, como eram melhor conhecidos entre os seus, serviam como o lar de meigas e bondosas joaninhas, neles, ademais, cantarolantes pardais e alegres colibris faziam seus ninhos. Ao chegar o outono, os Pinheiros lançavam suas aveludadas folhas que eram carregadas pelo assoviar do vento.

Tudo parecia feliz, radiante e alegre, até que os quatro Pinheirinhos, assim como as suas duas primas, as adolescentes palmeiras, foram acusados por um homem mesquinho e malicioso de causarem dor, humilhação e sofrimento íntimo. Pobres Pinheirinhos! A humanidade não mais conseguia conviver com a tranquilidade que emanava dessas árvores!

- Livrem-se desses pinheiros, disse o odioso senhor aos seus responsáveis.

Os Pinheirinhos, contudo, pareciam que estavam protegidos pelos seus guardiões humanos. Entretanto, ninguém esperava que viesse em defesa do rancoroso cidadão o estado e sua famigerada estrutura estatólatra. Os Pinheirinhos instigaram a fúria burocrática. Não mais se encontravam em segurança. As suas fotos e os seus nomes já estampavam as capas dos diários oficiais e dos mandados policiais.

Geólogos e ambientalistas, a pedido dos guardiões humanos, foram ao terreno e atestaram que a vida dos amados Pinheirinhos não colocava em risco a existência dos cidadãos. Entretanto, em contrapartida, o estado, insatisfeito, enviara um dos seus sequazes, escoltado com homens armados com metralhadoras, com a ordem de, assustadoramente, exterminar, aniquilar, acabar com aquelas humildes e felizes obras da natureza.

Os guardiões humanos não se deixaram esmorecer e defenderam a vida das árvores. Hoje elas vivem, crescem e se reproduzem, ademais, continuam servindo como a morada de doces animais. Contudo, ainda estão sendo ameaçadas pela sombra da estatolatria que parece se incomodar incrivelmente com a existência de três pacíficos Pinheirinhos.

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Ridiculamente baseado em fatos reais!

domingo, 12 de agosto de 2012

A Tradição e a Arte


Todos os seres têm o transcendental beleza, mas é a arte que, por excelência, externaliza a grandeza desse aspecto ontológico das coisas. Entretanto, a arte é forjada através das experiências morais e pessoais do autor. Desse modo, é unicamente por meio da forte carga subjetiva que a beleza se expressa seja numa poesia, numa pintura ou numa composição musical. Infelizmente, contudo, vivemos numa era onde todas as expressões artísticas foram atingidas pela horizontalização da vocação essencial da arte.

Se a arte expressa a riqueza da alma, e se vivemos numa época onde o aspecto espiritual do homem se encontra em profunda degeneração, a consequência natural é que a própria arte se perceba desorientada no seu real propósito. O espírito do homem o movimenta e o anima. Talvez, nesse sentido, a religião e a arte sejam os dois grande produtos desse atributo inerente ao sujeito. Entretanto, também seria uma completa falácia pensar na tradição na arte como alguma característica engessada em modelos temporais. É, pois, belo um quadro de Caravaggio? Sim, mas é necessário pensar na tradição como o reconhecimento da pessoa que o produz, e não na sua redução aos modelos e métodos definidos.

T.S Eliot afirmou que "the poets and dramatists of our day have dug into the most perverse of human complexes, exposing them with the scalpel of a surgeon rather than of a philosopher." Ora, o exemplo elioteano é muito sintomático e rico. O próprio poeta fora colocado dentro da poesia modernista, trazendo consigo novidades para uma literatura que se encontrava em frangalhos por ainda se achar tipicamente vitoriana. Eliot, ao seu modo, ainda sendo conservador, não se encontrava alienado pela cultura moderna. Desse modo, conseguira redimir o tempo por meio da arte como expressão do próprio sujeito na modernidade, seja no horror ou na apatia na qual a alma se encontrava.

Como colocado pelo Prof. Gregory Wolfe, tanto Eliot quanto Picasso partiram do dado real fornecido pelo mundo moderno e, então, a partir da experiência moral íntima fizeram arte expressando a imagem do homem. A fronteira entre o belo e o mau gosto é muito tênue, e se encontra na percepção verdadeira e espiritual da própria realidade. Todavia, se Eliot conseguira completar a sua peregrinação, indo d'A Terra Devastada até os Quartos Quartetos, o pintor espanhol persistira no triste quadro dos horrores de uma sociedade em decadência. Wolfe diz, portanto, que "they wanted art to be able to do more than describe the surface of things or provide uplifting images of an ideal world. They wanted to shock, not merely to be sensational, but in the sense that the artist can help us see the world anew, as if the for first time, with a shock of recognition."

O grande perigo, portanto, é confundir o essencial e o não essencial, "the real and the sentimental", como diz Eliot, entre aquilo que permanece e atravessa a própria história com os frutos gerados ao logo dos tempos. O que é mais tradicional é, portanto, a valorização da vida que produziu a própria tradição. Justamente por isso a arte deve sempre recordar do seu aspecto transcendental no sentido mais ontológico possível, comunicando ao homem de qualquer geração as verdades que se encarnam através da beleza e do horror das eras.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

"Eliot’s theme is the rehabilitation of a system of beliefs"


Passage from the book "T.S Eliot A Study of His Writings by Several Hands"

"The Waste Land: An Analysis"
Cleanth Brooks

We shall better understand why the form f the poem is right and inevitable if we compare Eliot’s theme to Dante’s and to Spenser’s. Eliot’s theme is not the statement of a faith held and agreed upon (Dante’s Divine Comedy) nor is it the projection of a ‘new’ system of beliefs (Spenser’s Faerie Queene). Eliot’s theme is the rehabilitation of a system of beliefs, known but now discredited. Dante did not have to ‘prove’ his statement; he could assume it and move within it about a poets business. Eliot does not care, like Spencer, to force the didactism. He prefers to stick to the poets business. But, unlike Dante, he cannot assume acceptance of the statement. A direct approach is calculated to elicit powerful ‘stock responses’ which will prevent the poems being read at all. Consequently, the only method prevent to work by indirection. The ‘Christian’ material is at the centre, but the poet never deals with it directly. The them of resurrection is made on the surface in terms of the fertility rites; the words which the thunder speaks are Sanskrit words.

(...)

To put the matter in still other terms: the Christian terminology is for the poet here a mass of clichés. However ‘true’ he may feel the terms to be, he is still sensitive to the fact that they operate superficially as clichés, and his method of necessity must be a process of bringing them to life again. The method adopted in The Waste Land is thus violent and radical, but thoroughly necessary. For the renewing and vitalizing of symbols which have been crusted over with a distorting familiarity demands the type of organization which we have already commented on in discussing particular passages: the statement of surface similarities which are ironically revealed to be dissimilarities, and the association of apparently obvious dissimilarities which culminates in a later realization that the dissimilarities are only superficial – that the chains of likeness are in reality fundamental. In this way the statement of beliefs emerges through confusion and cynicism – not in spite of them.

domingo, 5 de agosto de 2012

A nova ordem e o Cavaleiro das Trevas

O novo filme de Batman é marcadamente influenciado por uma visão muito peculiar da realidade. Obviamente, como qualquer obra artística, esta não se engessa numa única leitura possível. Entretanto, seria no mínimo inocente excluir uma hermenêutica que lança mão daquilo que se chama "imaginação moral". O filme, portanto, usando de um microcosmo, reflete a crise profunda da própria Civilização Ocidental.

A tenebrosa Gotham City, muito antes do surgimento de Bane, já caminhava rumo à terra devastada; "O inverno nos agasalhava, envolvendo/ A terra em neve deslembrada, nutrindo/ Com secos tubérculos o que ainda restava de vida." (A Terra Devastada, T. S Eliot) . A imoralidade e a perversão dos habitantes da cidade refletiam a derrocada do próprio espírito do homem. Uma crise tão profunda que minara sistematicamente a vivacidade mesma do Cavaleiro das Trevas. Batman não era mais bem vindo num local que sequer compreendia a luta pela moralidade. Ele era Peregrino em sua cidade.

Entretanto, se Gotham já estava destinada ao seu fracasso moral, Bane surge como um arauto da Terra Devastada. Ele era o cadáver - "O cadáver que plantaste ano passado em teu jardim/
Já começou a brotar? Dará flores este ano?" (A Terra Devastada, T. S Eliot)-, o novo homem sem herança e totalmente apaixonado pela causa da reconstrução. Ainda que a leitura feita por ele não fosse totalmente errada, isto é, a corrupção moral das elites e a fraqueza espiritual do povo já estavam estabelecidas de modo estrutural, a solução escolhida era totalmente brutal. Nesse sentido Bane encarna fielmente o espírito ideológico e o ardor gnóstico das revoluções. A nova ordem deveria ser construída sobre as ruínas do passado.

Assim, portanto, a destruição imediata de Gotham era necessária para que fosse edificada a nova realidade horizontal de homens livres. Tal liberdade, contudo, só seria possível por meio da destruição das heranças herdadas, das tradições transmitidas, da imaginação moral que brota da alma. Por isso se entende a razão pela qual apenas depois da superação da apatia do espírito Batman conseguira sair do profundo do poço.

A redenção sem a alma era querida por Bane, a redenção através da alma fora feita por Batman. O auto-sacrifício, muito mais do que uma ação altruísta, era, isto sim, o sinal do mais alto grau de desprendimento, clara amostra da abnegação de si pelo bem objetivo do povo de Gotham. Batman precisava existir, afirmou o Comissário, não apenas como o herói, mas como a representação do espírito de heroísmo que se faz tanto nas aventuras do homem mascarado como no cotidiano do policial. Essa descoberta, esse reconhecimento, só é possível numa cidade, numa civilização, que se faz mediante a imaginação moral.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Estado, Salvador e Eleições


A experiência das eleições é sempre algo enigmático para mim. O maior problema da política brasileira é a concepção estatólatra que permeia e fundamenta o discurso e a práxis. Aqui na Bahia a realidade é muito peculiar. A eleição em Salvador será, sem dúvida, uma amostra do poder fetichista do estado. Enquanto tudo parece ruir, com serviços públicos em total decomposição, um linha de metrô que vive eternamente em obras, greves e protestos, os candidatos oferecem como solução...mais estado!

Os professores estaduais estão em greve há cerca de dois meses. Hoje mesmo vi uma das suas passeatas. Curiosamente procurei alguma bandeira com a estrela vermelha. Não fiquei surpreso ao perceber que não havia uma mísera bandeira do PT tremulando. Se hoje, porém, os professores grevistas repudiam o governo de Jaques Wagner e lutam contra a candidatura de Pelegrino no município é importante destacar, todavia, as décadas e décadas de total estreitamento entre os sindicatos e o PT baiano. Ora, a questão é muito mais complexa do que considerar legítima ou não a greve. Obviamente é um protesto válido, porém em total sintonia ideológica com o que de pior há na mentalidade governista.

Entretanto, além do fetichismo estatista brasileiro há entre nós um resquício da febre romântica petista. Diante do "carlismo" e seus sequazes alguns companheiros soteropolitanos parecem defender orgulhosamente o brio moral do partido. Foi-se o tempo em que votar em ACM - seja neto, filho ou avô - era motivo de anátema dentro de uma família de classe média baiana. Ora, quem vota no PT de Lula pode reclamar do DEM de Antonio Carlos?! O lamentável é saber que alguns petistas ainda se arrogam moralidade e eficiência para reclamar dos eleitores carlistas que parecem que estão saindo do ostracismo.

Triste Bahia! O estado parece que desponta como a saída para a resolução dos problemas que o próprio criara. Salvador, portanto, se encontra entre a ineficiente e danosa ideologia petista e o dinossauro carlista. Que venha o Rex! Salve Antonio Carlos!