O filme Dredd pode ser compreendido como uma ode ao fracasso do mundo moderno e dos seus mais fundamentais paradigmas. De forma muito interessante tanto no início quanto no final se anuncia palavras profética de que nas ruínas - "waste land" diz a versão original, isso lembra alguém? - do Velho Mundo nasceram as estruturas do Novo Mundo. Entretanto, ainda que a tendência do homem fosse a identificação da novidade com o progresso, o conforto material trouxe consigo o caos e a desordem. Em tal cenário, portanto, onde triunfa a imanência, a lei nada mais é do que a encarnação da mesma brutalidade.
Seria oportuno fazer uma reflexão profunda sobre a idéia de "indústria cultural" como pensada por Horkheimer. Entretanto, além de uma crítica material ao materialismo moderno, é necessário reconhecer que desprovido de significado ontológico, sem o reconhecimento daquilo que de bom, belo e verdadeiro subsiste no homem e na realidade, resta apenas a feiura e a maldade do mundo perdido em sua busca de sentido.
O filme Dredd retrata muito bem essa dinâmica ao colocar a lei encarnada não em parâmetros naturais, mas em princípios regulatórios definidos pelo estado. Nesse sentido a sociedade do futuro ultrapassa os limites do direito positivo; as normas não apenas emanam do poder como o poder se faz completamente em indivíduos elevados em autoridade. O caos de Mega-City One era fruto da decadência do espírito, entretanto, a solução encontrada foi controlar a desordem através da força de um ação tão desprovida de sentido como a que é combatida.
Existe no filme, portanto, a descrença no homem e na realidade. Não há espaço para a confiança mútua e para a esperança. Tudo se resolve dentro dos muros da grande cidade, em meio a estas novas estruturas que ostentam o poderio da modernidade ao mesmo tempo em que expressam o seu mais profundo fracasso. Nesse mundo o caos impera e a lei é transformada na síntese do desconhecimento do real. Se o homem não pode voltar os olhos para os céus, para si mesmo e para o outro, se não é capaz de identificar a sua própria essência e a sua interioridade, resta apenas aos juízes cumprir o mandato final de guiar a massa, aquilo que outrora havia sido a comunidade de almas.






