
Todos os seres têm o transcendental beleza, mas é a arte que, por excelência, externaliza a grandeza desse aspecto ontológico das coisas. Entretanto, a arte é forjada através das experiências morais e pessoais do autor. Desse modo, é unicamente por meio da forte carga subjetiva que a beleza se expressa seja numa poesia, numa pintura ou numa composição musical. Infelizmente, contudo, vivemos numa era onde todas as expressões artísticas foram atingidas pela horizontalização da vocação essencial da arte.
Se a arte expressa a riqueza da alma, e se vivemos numa época onde o aspecto espiritual do homem se encontra em profunda degeneração, a consequência natural é que a própria arte se perceba desorientada no seu real propósito. O espírito do homem o movimenta e o anima. Talvez, nesse sentido, a religião e a arte sejam os dois grande produtos desse atributo inerente ao sujeito. Entretanto, também seria uma completa falácia pensar na tradição na arte como alguma característica engessada em modelos temporais. É, pois, belo um quadro de Caravaggio? Sim, mas é necessário pensar na tradição como o reconhecimento da pessoa que o produz, e não na sua redução aos modelos e métodos definidos.
T.S Eliot afirmou que "the poets and dramatists of our day have dug into the most perverse of human complexes, exposing them with the scalpel of a surgeon rather than of a philosopher." Ora, o exemplo elioteano é muito sintomático e rico. O próprio poeta fora colocado dentro da poesia modernista, trazendo consigo novidades para uma literatura que se encontrava em frangalhos por ainda se achar tipicamente vitoriana. Eliot, ao seu modo, ainda sendo conservador, não se encontrava alienado pela cultura moderna. Desse modo, conseguira redimir o tempo por meio da arte como expressão do próprio sujeito na modernidade, seja no horror ou na apatia na qual a alma se encontrava.
Como colocado pelo Prof. Gregory Wolfe, tanto Eliot quanto Picasso partiram do dado real fornecido pelo mundo moderno e, então, a partir da experiência moral íntima fizeram arte expressando a imagem do homem. A fronteira entre o belo e o mau gosto é muito tênue, e se encontra na percepção verdadeira e espiritual da própria realidade. Todavia, se Eliot conseguira completar a sua peregrinação, indo d'A Terra Devastada até os Quartos Quartetos, o pintor espanhol persistira no triste quadro dos horrores de uma sociedade em decadência. Wolfe diz, portanto, que "they wanted art to be able to do more than describe the surface of things or provide uplifting images of an ideal world. They wanted to shock, not merely to be sensational, but in the sense that the artist can help us see the world anew, as if the for first time, with a shock of recognition."
O grande perigo, portanto, é confundir o essencial e o não essencial, "the real and the sentimental", como diz Eliot, entre aquilo que permanece e atravessa a própria história com os frutos gerados ao logo dos tempos. O que é mais tradicional é, portanto, a valorização da vida que produziu a própria tradição. Justamente por isso a arte deve sempre recordar do seu aspecto transcendental no sentido mais ontológico possível, comunicando ao homem de qualquer geração as verdades que se encarnam através da beleza e do horror das eras.





