domingo, 12 de agosto de 2012

A Tradição e a Arte


Todos os seres têm o transcendental beleza, mas é a arte que, por excelência, externaliza a grandeza desse aspecto ontológico das coisas. Entretanto, a arte é forjada através das experiências morais e pessoais do autor. Desse modo, é unicamente por meio da forte carga subjetiva que a beleza se expressa seja numa poesia, numa pintura ou numa composição musical. Infelizmente, contudo, vivemos numa era onde todas as expressões artísticas foram atingidas pela horizontalização da vocação essencial da arte.

Se a arte expressa a riqueza da alma, e se vivemos numa época onde o aspecto espiritual do homem se encontra em profunda degeneração, a consequência natural é que a própria arte se perceba desorientada no seu real propósito. O espírito do homem o movimenta e o anima. Talvez, nesse sentido, a religião e a arte sejam os dois grande produtos desse atributo inerente ao sujeito. Entretanto, também seria uma completa falácia pensar na tradição na arte como alguma característica engessada em modelos temporais. É, pois, belo um quadro de Caravaggio? Sim, mas é necessário pensar na tradição como o reconhecimento da pessoa que o produz, e não na sua redução aos modelos e métodos definidos.

T.S Eliot afirmou que "the poets and dramatists of our day have dug into the most perverse of human complexes, exposing them with the scalpel of a surgeon rather than of a philosopher." Ora, o exemplo elioteano é muito sintomático e rico. O próprio poeta fora colocado dentro da poesia modernista, trazendo consigo novidades para uma literatura que se encontrava em frangalhos por ainda se achar tipicamente vitoriana. Eliot, ao seu modo, ainda sendo conservador, não se encontrava alienado pela cultura moderna. Desse modo, conseguira redimir o tempo por meio da arte como expressão do próprio sujeito na modernidade, seja no horror ou na apatia na qual a alma se encontrava.

Como colocado pelo Prof. Gregory Wolfe, tanto Eliot quanto Picasso partiram do dado real fornecido pelo mundo moderno e, então, a partir da experiência moral íntima fizeram arte expressando a imagem do homem. A fronteira entre o belo e o mau gosto é muito tênue, e se encontra na percepção verdadeira e espiritual da própria realidade. Todavia, se Eliot conseguira completar a sua peregrinação, indo d'A Terra Devastada até os Quartos Quartetos, o pintor espanhol persistira no triste quadro dos horrores de uma sociedade em decadência. Wolfe diz, portanto, que "they wanted art to be able to do more than describe the surface of things or provide uplifting images of an ideal world. They wanted to shock, not merely to be sensational, but in the sense that the artist can help us see the world anew, as if the for first time, with a shock of recognition."

O grande perigo, portanto, é confundir o essencial e o não essencial, "the real and the sentimental", como diz Eliot, entre aquilo que permanece e atravessa a própria história com os frutos gerados ao logo dos tempos. O que é mais tradicional é, portanto, a valorização da vida que produziu a própria tradição. Justamente por isso a arte deve sempre recordar do seu aspecto transcendental no sentido mais ontológico possível, comunicando ao homem de qualquer geração as verdades que se encarnam através da beleza e do horror das eras.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

"Eliot’s theme is the rehabilitation of a system of beliefs"


Passage from the book "T.S Eliot A Study of His Writings by Several Hands"

"The Waste Land: An Analysis"
Cleanth Brooks

We shall better understand why the form f the poem is right and inevitable if we compare Eliot’s theme to Dante’s and to Spenser’s. Eliot’s theme is not the statement of a faith held and agreed upon (Dante’s Divine Comedy) nor is it the projection of a ‘new’ system of beliefs (Spenser’s Faerie Queene). Eliot’s theme is the rehabilitation of a system of beliefs, known but now discredited. Dante did not have to ‘prove’ his statement; he could assume it and move within it about a poets business. Eliot does not care, like Spencer, to force the didactism. He prefers to stick to the poets business. But, unlike Dante, he cannot assume acceptance of the statement. A direct approach is calculated to elicit powerful ‘stock responses’ which will prevent the poems being read at all. Consequently, the only method prevent to work by indirection. The ‘Christian’ material is at the centre, but the poet never deals with it directly. The them of resurrection is made on the surface in terms of the fertility rites; the words which the thunder speaks are Sanskrit words.

(...)

To put the matter in still other terms: the Christian terminology is for the poet here a mass of clichés. However ‘true’ he may feel the terms to be, he is still sensitive to the fact that they operate superficially as clichés, and his method of necessity must be a process of bringing them to life again. The method adopted in The Waste Land is thus violent and radical, but thoroughly necessary. For the renewing and vitalizing of symbols which have been crusted over with a distorting familiarity demands the type of organization which we have already commented on in discussing particular passages: the statement of surface similarities which are ironically revealed to be dissimilarities, and the association of apparently obvious dissimilarities which culminates in a later realization that the dissimilarities are only superficial – that the chains of likeness are in reality fundamental. In this way the statement of beliefs emerges through confusion and cynicism – not in spite of them.

domingo, 5 de agosto de 2012

A nova ordem e o Cavaleiro das Trevas

O novo filme de Batman é marcadamente influenciado por uma visão muito peculiar da realidade. Obviamente, como qualquer obra artística, esta não se engessa numa única leitura possível. Entretanto, seria no mínimo inocente excluir uma hermenêutica que lança mão daquilo que se chama "imaginação moral". O filme, portanto, usando de um microcosmo, reflete a crise profunda da própria Civilização Ocidental.

A tenebrosa Gotham City, muito antes do surgimento de Bane, já caminhava rumo à terra devastada; "O inverno nos agasalhava, envolvendo/ A terra em neve deslembrada, nutrindo/ Com secos tubérculos o que ainda restava de vida." (A Terra Devastada, T. S Eliot) . A imoralidade e a perversão dos habitantes da cidade refletiam a derrocada do próprio espírito do homem. Uma crise tão profunda que minara sistematicamente a vivacidade mesma do Cavaleiro das Trevas. Batman não era mais bem vindo num local que sequer compreendia a luta pela moralidade. Ele era Peregrino em sua cidade.

Entretanto, se Gotham já estava destinada ao seu fracasso moral, Bane surge como um arauto da Terra Devastada. Ele era o cadáver - "O cadáver que plantaste ano passado em teu jardim/
Já começou a brotar? Dará flores este ano?" (A Terra Devastada, T. S Eliot)-, o novo homem sem herança e totalmente apaixonado pela causa da reconstrução. Ainda que a leitura feita por ele não fosse totalmente errada, isto é, a corrupção moral das elites e a fraqueza espiritual do povo já estavam estabelecidas de modo estrutural, a solução escolhida era totalmente brutal. Nesse sentido Bane encarna fielmente o espírito ideológico e o ardor gnóstico das revoluções. A nova ordem deveria ser construída sobre as ruínas do passado.

Assim, portanto, a destruição imediata de Gotham era necessária para que fosse edificada a nova realidade horizontal de homens livres. Tal liberdade, contudo, só seria possível por meio da destruição das heranças herdadas, das tradições transmitidas, da imaginação moral que brota da alma. Por isso se entende a razão pela qual apenas depois da superação da apatia do espírito Batman conseguira sair do profundo do poço.

A redenção sem a alma era querida por Bane, a redenção através da alma fora feita por Batman. O auto-sacrifício, muito mais do que uma ação altruísta, era, isto sim, o sinal do mais alto grau de desprendimento, clara amostra da abnegação de si pelo bem objetivo do povo de Gotham. Batman precisava existir, afirmou o Comissário, não apenas como o herói, mas como a representação do espírito de heroísmo que se faz tanto nas aventuras do homem mascarado como no cotidiano do policial. Essa descoberta, esse reconhecimento, só é possível numa cidade, numa civilização, que se faz mediante a imaginação moral.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Estado, Salvador e Eleições


A experiência das eleições é sempre algo enigmático para mim. O maior problema da política brasileira é a concepção estatólatra que permeia e fundamenta o discurso e a práxis. Aqui na Bahia a realidade é muito peculiar. A eleição em Salvador será, sem dúvida, uma amostra do poder fetichista do estado. Enquanto tudo parece ruir, com serviços públicos em total decomposição, um linha de metrô que vive eternamente em obras, greves e protestos, os candidatos oferecem como solução...mais estado!

Os professores estaduais estão em greve há cerca de dois meses. Hoje mesmo vi uma das suas passeatas. Curiosamente procurei alguma bandeira com a estrela vermelha. Não fiquei surpreso ao perceber que não havia uma mísera bandeira do PT tremulando. Se hoje, porém, os professores grevistas repudiam o governo de Jaques Wagner e lutam contra a candidatura de Pelegrino no município é importante destacar, todavia, as décadas e décadas de total estreitamento entre os sindicatos e o PT baiano. Ora, a questão é muito mais complexa do que considerar legítima ou não a greve. Obviamente é um protesto válido, porém em total sintonia ideológica com o que de pior há na mentalidade governista.

Entretanto, além do fetichismo estatista brasileiro há entre nós um resquício da febre romântica petista. Diante do "carlismo" e seus sequazes alguns companheiros soteropolitanos parecem defender orgulhosamente o brio moral do partido. Foi-se o tempo em que votar em ACM - seja neto, filho ou avô - era motivo de anátema dentro de uma família de classe média baiana. Ora, quem vota no PT de Lula pode reclamar do DEM de Antonio Carlos?! O lamentável é saber que alguns petistas ainda se arrogam moralidade e eficiência para reclamar dos eleitores carlistas que parecem que estão saindo do ostracismo.

Triste Bahia! O estado parece que desponta como a saída para a resolução dos problemas que o próprio criara. Salvador, portanto, se encontra entre a ineficiente e danosa ideologia petista e o dinossauro carlista. Que venha o Rex! Salve Antonio Carlos!

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Homens do presente redimido


O presente é o tempo que nos foi dado por Deus para nos fazer. A realização do próprio eu só é possível no tempo presente, esse tempo que deve ser redimido através do reconhecimento do homem da sua dependência a um Outro. Entretanto, a grande tentação do homem atual consciente da gravidade da crise da modernidade é a busca quase romântica, porque ideológica, do passado mítico. Existem, portanto, duas saídas certas, ou a identificação da imaginação moral, isto é, do passado que se faz presente mediante a extensão dos ensinamentos transmitidos, afinal o passado ainda não passou, diria Faulkner, ou, então, a tristeza tediosa daqueles que se lamentam pelas eras passadas e não vividas.

O mundo está em crise, o homem não mais produz arte, a cultura se encontra em ruínas, a literatura se encontra em frangalhos. O que fazer? Retornar ao medievo? Louvar as obras renascentistas? Ou quiçá definir a fronteira segura entre a Civilização saudável e enferma? Tal intento, além de aparentemente impregnado de concepções gnósticas, desconhece a profundidade da crise. A salvação do homem se encontra no tempo presente e se tudo parece em desconstrução é porque as bases fundamentais do homem ocidental, esta razão sobrenatural que englobava desde a profundidade espiritual dos místicos até a angústia existencial de poetas do início do século XX, foi sistematicamente minada.

As razões da crise são diversas e complexas. Reduzi-las com a objetividade de um gráfico é desmerecer a gravidade dos eventos. Ademais, a simplicidade na crítica reflete, quase sempre, o simplismo da hermenêutica. Assim, pois, ao invés de olharmos para as tristes mazelas que impulsionam a nossa decadente Civilização, que nunca saberemos até que ponto é mais decadente do que outros períodos civilizatórios, vamos realizar, pintar, escrever, ler, compor, viver com a profundidade que apenas um homem completo é capaz de viver. Não é o ativismo moderno e totalmente desprovido de sentido, de espírito. O que necessitamos é um movimento genuíno porque movido, isto é, impulsionado por algo, por Alguém. Só assim poderemos sair de discursos políticos ou, então, cheios de rancor, e produzir a cultura que perpetuará o legado do passado, as heranças dos nossos antepassados, desde a minha bisavó, passando pelos escritos de Santa Teresinha e chegando até as poesias de T.S Eliot, herança que também é minha, nossa, e renovar o mundo mediante o tempo redimido.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Missa Tridentina na CN, Tradicionalistas e René Girard


Alguns membros e dirigentes da Canção Nova assistiram à Santa Missa celebrada na forma extraordinária por Pe. Demétrio. Sem dúvida um momento marcante na história dessa comunidade. Entretanto, o que me chamou atenção foram as reações de perplexidade e entusiasmo, opostas, mas ambas fundadas em percepções radicais e nonsense.

Os entusiastas cantam odes à forma extraordinária como se o latim, o ad Orientem ou as alfaias fossem a tábua da salvação da humanidade. O centro do mistério, isto é, Jesus Cristo, é o núcleo principal da vocação cristã e eucarística. Transformar a força desse evento em algo além do que foi é trabalhar contra a causa. Não é a Missa Tridentina que irá salvar os cristãos ou a CN, mas a experiência feita por cada um com a pessoa de Cristo. O rito romano, em suas duas formas, só pode ser compreendido mediante essa anterior conversão, do contrário se transforma em mero ritualismo estético. O espírito da liturgia não está nas rubricas, mas no Espírito que as suscitou ao longo da história da Igreja e que impulsiona a cada um de nós.

Contudo, os perplexos e críticos se destacaram com larga vantagem. Alguns reclamaram da homilia de Pe. Demétrio, outros falaram que de nada adianta a celebração da forma extraordinária sem a demissão de Pe. Fábio de Melo, já outros protestaram com palavras de ordem. Interessante que em toda essa reação se encontra, além da mentalidade de seita, a noção da perda do domínio sobre a "Tradição". Vou me sustentar em René Girard para explicar. O pensador francês, ao estudar o desejo mimético, afirma que na mediação interna, quando o modelo do desejo se encontra próximo o bastante do sujeito - imitador, o objeto do desejo torna-se motivo de um conflito, ambos desejam o mesmo objeto, criando uma reciprocidade violenta. O desejo transcende a posse do objeto. Os duplos surgem quando existe a indiferenciação. O objeto some e os rivais tornam-se idênticos. O modelo passa a imitar seu próprio desejo por meio do discípulo ao descobrir no objeto o alvo da tensão mimética. Assim, se o discípulo passa a ser o modelo do desejo do seu modelo, este se transforma em discípulo do seu discípulo. O modelo é transformado em antimodelo e cria-se um ciclo de imitação e ódio retroalimentado. Surge, por fim, a crise mimética onde o objeto disputado na rivalidade mimética passa a ser alvo da cobiça e da atratividade mimética por parte da comunidade de indivíduos. Ou todo mundo se auto-destrói ou se usa o bode expiatório para tranquilizar a crise.

Agora voltando! A grande questão é que tais tradicionalistas-de-seita simplesmente estão percebendo a posse da "Tradição" escapando pelos seus dedos escorregadios. Se até mesmo a "carismática-e-modernista" Canção Nova, para não dizer poderosa e eficiente na divulgação da mensagem evangélica, celebra a forma extraordinária o que sobra para jovens que, no máximo, se reúnem para debater, muito "realisticamente", o fim da "apostasia pós-conciliar"? Uma Missa tridentina transmitida pela CN será mais frutífera para o apostolado "tradicional" do que anos de publicações e intrigas cibernéticas.

Eu poderia dizer simplesmente que o faniquito tradicionalista contra a CN foi apenas isso, chilique de criança que não quer dividir o brinquedo, mas apelar para René Girard torna tudo muito mais elegante!

segunda-feira, 18 de junho de 2012

"Prometheus" e a busca do homem


Com alguns spoilers!

Desde que vi o trailer de Promotheus sabia que o filme teria um forte aporte filosófico. Ou cairia no niilismo radical, mostrando a vacuidade da existência, ou, todavia, abriria a possibilidade da reflexão a respeito da vida como existência fundamentada em algo inerente ao próprio homem. Estava certo! A obra é marcadamente permeada por tais premissas, entretanto, quem assim quiser, pode apreciá-la como mais um excelente filme de ficção científica, mero entretenimento. A arte tem a capacidade de se abrir para uma diversidade de leituras, muitas delas sequer conjeturadas pelos seus autores.


A busca por respostas que endossavam a existência humana se encontrava na compreensão do mistério da nossa criação. O darwinismo desfavorecia qualquer concepção criacionista, contudo, dentro da teoria pensada pela Dra. Elizabeth Shaw, esta fé que ela escolheu acreditar, o homem era fruto de um encontro extraterrestre, os nossos deuses não eram astronautas, mas eram moradores do universo! Assim, pois, todo o desenvolvimento do filme se fundamenta na mentalidade cientificista-positivista. Por mais estapafúrdia que fosse a tênue crença dos pesquisadores, era uma crença na vacuidade da própria existência; as respostas existiam e estavam em outra galáxia, era só uma questão de tempo, disposição e dinheiro para encontrá-las.

Não obstante, ficou claro que as perguntas não seriam respondidas tão facilmente. O desenrolar do filme, com ações dignas de um grande blockbuster, mostra como os “deuses” não eram tão divinos e que as respostas não eram tão óbvias e facilmente achadas com o grande devotamento cientifico. Mortes assustadoras e a perda de controle são os sintomas do desespero diante da incompreensão da existência e da busca. Resta alguma coisa? A fé na objetividade positivista da humanidade se encontrava em frangalhos, não sobrava outra atitude que não o nada. Peter Weyland, o grande investidor da pesquisa, estava motivado pela busca da imortalidade, reflexo certamente da existência baseada na frieza egoística da imanência. O seu interesse era totalmente distante do nobre anseio da Dra. Shaw, esta sim insuflada pela fé que escolhera nos seus deuses alienígenas, impulsionada pelo ardor de encontrar sentido no existir.

Dentro da dinâmica própria do filme é possível fazer um paralelo entre as duas frases de mais impacto. O ancião Weyland, indo ao encontro do último dos nossos criadores, sobrevivente do aparente extermínio da raça causado pelas armas que estes criaram para nos destruir, pretendera encontrar a cura para a sua morte mais do que iminente. Não obstante, depara-se com um ser raivoso e inflamado de ódio contra os homens, suas criações. Ao ser brutalmente assassinado, jazendo dolorosamente no chão, diz, pois, “que não resta mais nada”. Se o filme acabasse neste instante certamente seria a maior ode niilista já produzido pelo cinema. Fomos criados por seres alienígenas, criados pelo DNA sacrificial dos extraterrestres, como mostra a primeira cena do filme, mas agora somos alvos da fúria “divina”. Há sentido no existir? Há razão para voltar os olhos para o alto ou sequer para si mesmo? Sobra o nada e só há o nada.

Entretanto, na última cena há uma reviravolta totalmente surpreendente e digna de ser meditada. Dra. Shaw, a única sobrevivente depois que a nave Promotheus propositadamente se chocara com a nave alienígena que pretendia destruir a Terra, ao se deparar com o desespero da morte e da solidão, com o fracasso da expedição e o fracasso da sua fé científica, parece redescobrir a razão mais intima da sua essência, isto é, aquilo que de mais profundo e radical habita no coração do homem. Se, pois, os extraterrestres nos criaram, quem os criou? “Eu vou continuar a buscar!”, disse. Esta é, portanto, a vocação humana, esta é a cruz que a Dra. Shaw toma de volta, buscar o sentido do existir, um senso de abertura, de ligação, de religação e, portanto, de religião, que só pode ser saciado quando o nosso ser se reconhece no Outro que nos faz.

O filme acaba estupendamente com o Prelúdio Op. 28, No. 15, de Chopin, esta obra que Mons. Luigi Giussani, ao comentar sobre a nota constante que persiste em toda a obra, diz; “A nota que domina desde o início ao fim e decide o sentido da toda a peça de Chopin, esta é a nota do começo ao fim que decide o que é a vida humana: é a sede de felicidade. (…) Havia uma nota que permanecia intacta, embora com alguma mutação ligeira, do começo ao fim permanece intacta na sua profundidade e na sua simplicidade absoluta, e, na sua singularidade, domina a vida: a sede de felicidade”

O titã Promoteu deu aos homens o fogo e, com isto, possibilitou que fossem superiores aos animais. Entretanto, fora punido pelos deuses e sofreu todos os dias enquanto esteve preso no Monte Cáucaso onde seu fígado era continuamente dilacerado pelo corvo. Entretanto, muito além da humana mitologia grega, devemos reconhecer que o homem só encontra sentido na sua existência ao perceber a força que o move, ao reconhecer a presença de quem nos fez e nos faz, daquele que não apenas nos deu fogo, mas nos deu vida e redenção, que nos deu o seu sangue.