terça-feira, 24 de julho de 2012

Estado, Salvador e Eleições


A experiência das eleições é sempre algo enigmático para mim. O maior problema da política brasileira é a concepção estatólatra que permeia e fundamenta o discurso e a práxis. Aqui na Bahia a realidade é muito peculiar. A eleição em Salvador será, sem dúvida, uma amostra do poder fetichista do estado. Enquanto tudo parece ruir, com serviços públicos em total decomposição, um linha de metrô que vive eternamente em obras, greves e protestos, os candidatos oferecem como solução...mais estado!

Os professores estaduais estão em greve há cerca de dois meses. Hoje mesmo vi uma das suas passeatas. Curiosamente procurei alguma bandeira com a estrela vermelha. Não fiquei surpreso ao perceber que não havia uma mísera bandeira do PT tremulando. Se hoje, porém, os professores grevistas repudiam o governo de Jaques Wagner e lutam contra a candidatura de Pelegrino no município é importante destacar, todavia, as décadas e décadas de total estreitamento entre os sindicatos e o PT baiano. Ora, a questão é muito mais complexa do que considerar legítima ou não a greve. Obviamente é um protesto válido, porém em total sintonia ideológica com o que de pior há na mentalidade governista.

Entretanto, além do fetichismo estatista brasileiro há entre nós um resquício da febre romântica petista. Diante do "carlismo" e seus sequazes alguns companheiros soteropolitanos parecem defender orgulhosamente o brio moral do partido. Foi-se o tempo em que votar em ACM - seja neto, filho ou avô - era motivo de anátema dentro de uma família de classe média baiana. Ora, quem vota no PT de Lula pode reclamar do DEM de Antonio Carlos?! O lamentável é saber que alguns petistas ainda se arrogam moralidade e eficiência para reclamar dos eleitores carlistas que parecem que estão saindo do ostracismo.

Triste Bahia! O estado parece que desponta como a saída para a resolução dos problemas que o próprio criara. Salvador, portanto, se encontra entre a ineficiente e danosa ideologia petista e o dinossauro carlista. Que venha o Rex! Salve Antonio Carlos!

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Homens do presente redimido


O presente é o tempo que nos foi dado por Deus para nos fazer. A realização do próprio eu só é possível no tempo presente, esse tempo que deve ser redimido através do reconhecimento do homem da sua dependência a um Outro. Entretanto, a grande tentação do homem atual consciente da gravidade da crise da modernidade é a busca quase romântica, porque ideológica, do passado mítico. Existem, portanto, duas saídas certas, ou a identificação da imaginação moral, isto é, do passado que se faz presente mediante a extensão dos ensinamentos transmitidos, afinal o passado ainda não passou, diria Faulkner, ou, então, a tristeza tediosa daqueles que se lamentam pelas eras passadas e não vividas.

O mundo está em crise, o homem não mais produz arte, a cultura se encontra em ruínas, a literatura se encontra em frangalhos. O que fazer? Retornar ao medievo? Louvar as obras renascentistas? Ou quiçá definir a fronteira segura entre a Civilização saudável e enferma? Tal intento, além de aparentemente impregnado de concepções gnósticas, desconhece a profundidade da crise. A salvação do homem se encontra no tempo presente e se tudo parece em desconstrução é porque as bases fundamentais do homem ocidental, esta razão sobrenatural que englobava desde a profundidade espiritual dos místicos até a angústia existencial de poetas do início do século XX, foi sistematicamente minada.

As razões da crise são diversas e complexas. Reduzi-las com a objetividade de um gráfico é desmerecer a gravidade dos eventos. Ademais, a simplicidade na crítica reflete, quase sempre, o simplismo da hermenêutica. Assim, pois, ao invés de olharmos para as tristes mazelas que impulsionam a nossa decadente Civilização, que nunca saberemos até que ponto é mais decadente do que outros períodos civilizatórios, vamos realizar, pintar, escrever, ler, compor, viver com a profundidade que apenas um homem completo é capaz de viver. Não é o ativismo moderno e totalmente desprovido de sentido, de espírito. O que necessitamos é um movimento genuíno porque movido, isto é, impulsionado por algo, por Alguém. Só assim poderemos sair de discursos políticos ou, então, cheios de rancor, e produzir a cultura que perpetuará o legado do passado, as heranças dos nossos antepassados, desde a minha bisavó, passando pelos escritos de Santa Teresinha e chegando até as poesias de T.S Eliot, herança que também é minha, nossa, e renovar o mundo mediante o tempo redimido.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Missa Tridentina na CN, Tradicionalistas e René Girard


Alguns membros e dirigentes da Canção Nova assistiram à Santa Missa celebrada na forma extraordinária por Pe. Demétrio. Sem dúvida um momento marcante na história dessa comunidade. Entretanto, o que me chamou atenção foram as reações de perplexidade e entusiasmo, opostas, mas ambas fundadas em percepções radicais e nonsense.

Os entusiastas cantam odes à forma extraordinária como se o latim, o ad Orientem ou as alfaias fossem a tábua da salvação da humanidade. O centro do mistério, isto é, Jesus Cristo, é o núcleo principal da vocação cristã e eucarística. Transformar a força desse evento em algo além do que foi é trabalhar contra a causa. Não é a Missa Tridentina que irá salvar os cristãos ou a CN, mas a experiência feita por cada um com a pessoa de Cristo. O rito romano, em suas duas formas, só pode ser compreendido mediante essa anterior conversão, do contrário se transforma em mero ritualismo estético. O espírito da liturgia não está nas rubricas, mas no Espírito que as suscitou ao longo da história da Igreja e que impulsiona a cada um de nós.

Contudo, os perplexos e críticos se destacaram com larga vantagem. Alguns reclamaram da homilia de Pe. Demétrio, outros falaram que de nada adianta a celebração da forma extraordinária sem a demissão de Pe. Fábio de Melo, já outros protestaram com palavras de ordem. Interessante que em toda essa reação se encontra, além da mentalidade de seita, a noção da perda do domínio sobre a "Tradição". Vou me sustentar em René Girard para explicar. O pensador francês, ao estudar o desejo mimético, afirma que na mediação interna, quando o modelo do desejo se encontra próximo o bastante do sujeito - imitador, o objeto do desejo torna-se motivo de um conflito, ambos desejam o mesmo objeto, criando uma reciprocidade violenta. O desejo transcende a posse do objeto. Os duplos surgem quando existe a indiferenciação. O objeto some e os rivais tornam-se idênticos. O modelo passa a imitar seu próprio desejo por meio do discípulo ao descobrir no objeto o alvo da tensão mimética. Assim, se o discípulo passa a ser o modelo do desejo do seu modelo, este se transforma em discípulo do seu discípulo. O modelo é transformado em antimodelo e cria-se um ciclo de imitação e ódio retroalimentado. Surge, por fim, a crise mimética onde o objeto disputado na rivalidade mimética passa a ser alvo da cobiça e da atratividade mimética por parte da comunidade de indivíduos. Ou todo mundo se auto-destrói ou se usa o bode expiatório para tranquilizar a crise.

Agora voltando! A grande questão é que tais tradicionalistas-de-seita simplesmente estão percebendo a posse da "Tradição" escapando pelos seus dedos escorregadios. Se até mesmo a "carismática-e-modernista" Canção Nova, para não dizer poderosa e eficiente na divulgação da mensagem evangélica, celebra a forma extraordinária o que sobra para jovens que, no máximo, se reúnem para debater, muito "realisticamente", o fim da "apostasia pós-conciliar"? Uma Missa tridentina transmitida pela CN será mais frutífera para o apostolado "tradicional" do que anos de publicações e intrigas cibernéticas.

Eu poderia dizer simplesmente que o faniquito tradicionalista contra a CN foi apenas isso, chilique de criança que não quer dividir o brinquedo, mas apelar para René Girard torna tudo muito mais elegante!

segunda-feira, 18 de junho de 2012

"Prometheus" e a busca do homem


Com alguns spoilers!

Desde que vi o trailer de Promotheus sabia que o filme teria um forte aporte filosófico. Ou cairia no niilismo radical, mostrando a vacuidade da existência, ou, todavia, abriria a possibilidade da reflexão a respeito da vida como existência fundamentada em algo inerente ao próprio homem. Estava certo! A obra é marcadamente permeada por tais premissas, entretanto, quem assim quiser, pode apreciá-la como mais um excelente filme de ficção científica, mero entretenimento. A arte tem a capacidade de se abrir para uma diversidade de leituras, muitas delas sequer conjeturadas pelos seus autores.


A busca por respostas que endossavam a existência humana se encontrava na compreensão do mistério da nossa criação. O darwinismo desfavorecia qualquer concepção criacionista, contudo, dentro da teoria pensada pela Dra. Elizabeth Shaw, esta fé que ela escolheu acreditar, o homem era fruto de um encontro extraterrestre, os nossos deuses não eram astronautas, mas eram moradores do universo! Assim, pois, todo o desenvolvimento do filme se fundamenta na mentalidade cientificista-positivista. Por mais estapafúrdia que fosse a tênue crença dos pesquisadores, era uma crença na vacuidade da própria existência; as respostas existiam e estavam em outra galáxia, era só uma questão de tempo, disposição e dinheiro para encontrá-las.

Não obstante, ficou claro que as perguntas não seriam respondidas tão facilmente. O desenrolar do filme, com ações dignas de um grande blockbuster, mostra como os “deuses” não eram tão divinos e que as respostas não eram tão óbvias e facilmente achadas com o grande devotamento cientifico. Mortes assustadoras e a perda de controle são os sintomas do desespero diante da incompreensão da existência e da busca. Resta alguma coisa? A fé na objetividade positivista da humanidade se encontrava em frangalhos, não sobrava outra atitude que não o nada. Peter Weyland, o grande investidor da pesquisa, estava motivado pela busca da imortalidade, reflexo certamente da existência baseada na frieza egoística da imanência. O seu interesse era totalmente distante do nobre anseio da Dra. Shaw, esta sim insuflada pela fé que escolhera nos seus deuses alienígenas, impulsionada pelo ardor de encontrar sentido no existir.

Dentro da dinâmica própria do filme é possível fazer um paralelo entre as duas frases de mais impacto. O ancião Weyland, indo ao encontro do último dos nossos criadores, sobrevivente do aparente extermínio da raça causado pelas armas que estes criaram para nos destruir, pretendera encontrar a cura para a sua morte mais do que iminente. Não obstante, depara-se com um ser raivoso e inflamado de ódio contra os homens, suas criações. Ao ser brutalmente assassinado, jazendo dolorosamente no chão, diz, pois, “que não resta mais nada”. Se o filme acabasse neste instante certamente seria a maior ode niilista já produzido pelo cinema. Fomos criados por seres alienígenas, criados pelo DNA sacrificial dos extraterrestres, como mostra a primeira cena do filme, mas agora somos alvos da fúria “divina”. Há sentido no existir? Há razão para voltar os olhos para o alto ou sequer para si mesmo? Sobra o nada e só há o nada.

Entretanto, na última cena há uma reviravolta totalmente surpreendente e digna de ser meditada. Dra. Shaw, a única sobrevivente depois que a nave Promotheus propositadamente se chocara com a nave alienígena que pretendia destruir a Terra, ao se deparar com o desespero da morte e da solidão, com o fracasso da expedição e o fracasso da sua fé científica, parece redescobrir a razão mais intima da sua essência, isto é, aquilo que de mais profundo e radical habita no coração do homem. Se, pois, os extraterrestres nos criaram, quem os criou? “Eu vou continuar a buscar!”, disse. Esta é, portanto, a vocação humana, esta é a cruz que a Dra. Shaw toma de volta, buscar o sentido do existir, um senso de abertura, de ligação, de religação e, portanto, de religião, que só pode ser saciado quando o nosso ser se reconhece no Outro que nos faz.

O filme acaba estupendamente com o Prelúdio Op. 28, No. 15, de Chopin, esta obra que Mons. Luigi Giussani, ao comentar sobre a nota constante que persiste em toda a obra, diz; “A nota que domina desde o início ao fim e decide o sentido da toda a peça de Chopin, esta é a nota do começo ao fim que decide o que é a vida humana: é a sede de felicidade. (…) Havia uma nota que permanecia intacta, embora com alguma mutação ligeira, do começo ao fim permanece intacta na sua profundidade e na sua simplicidade absoluta, e, na sua singularidade, domina a vida: a sede de felicidade”

O titã Promoteu deu aos homens o fogo e, com isto, possibilitou que fossem superiores aos animais. Entretanto, fora punido pelos deuses e sofreu todos os dias enquanto esteve preso no Monte Cáucaso onde seu fígado era continuamente dilacerado pelo corvo. Entretanto, muito além da humana mitologia grega, devemos reconhecer que o homem só encontra sentido na sua existência ao perceber a força que o move, ao reconhecer a presença de quem nos fez e nos faz, daquele que não apenas nos deu fogo, mas nos deu vida e redenção, que nos deu o seu sangue.

domingo, 10 de junho de 2012

A UFBA e a sua eterna paixão pela esquerda


A UFBA, como boa parte das UFs, já se tornou num circo anárquico onde não há mais uso da racionalidade. Tive a curiosidade de ler a carta aberta escrita pelos estudantes reunidos em Assembleia Geral. Tirando o fato de me perder diversas vezes por conta da multiplicidade de palavras dignas da novilíngua orweliana e das construções frasais inclusivistas - pelos/pelas, dos/das etc, o fato é que o pandemônio está mais do que estabelecido. Se uma educação livre, como pensava o poeta T.S Eliot, era destinada a responder às perguntas últimas do homem, a educação moderna tem como grande pretensão a reformulação da própria humanidade.

A UFBA, esta que um dia foi a minha Universidade, vive uma relação fetichista com o que de mesquinho há na mentalidade esquerdista. Não só as diversas facções socialistas combatem entre si, desde petistas das não sei quantas tendências até marxianos sociais-democratas, como pretendem construir o cenário dialético como se realmente existissem forças obscuras do capitalismo-burguês-conservador na espreita. Entretanto, não só vivemos num estado que segue a cartilha petista, mas estudamos numa Universidade onde o princípio da educação liberal é totalmente preterido pelos ditames da educação de inclusão ou da educação para todos.

A carta escrita pelos estudantes em Assembleia, isto é, alguns poucos militantes engajados e mais preocupados com a politicagem do que com a reflexão, é uma amostra do alto grau da doença esquerdista que assola as mentes da juventude brasileira. Os paradigmas estão tão tomados de totalitarismo e delírios de poder que eles sequer sabem diferenciar reivindicações honestas de motivações partidárias. Obviamente a Universidade deve ser um espaço de discussão e é mais do que saudável que haja posições destoantes. Não obstante, o pensamento socialista não concebe a possibilidade de conviver com posições diversas, nem mesmo diversas dentro do espectro socialista. O ódio, o argumentum ad hominem e a agressão se tornam nas pontas da lança da incursão pelo poder.

A carta é a síntese do delírio. Vai desde a abertura para o uso dos "nomes sociais" dos/das/de/ travestis e transformistas - afinal Samanthas e Kymberlhys têm seus direitos - até as velhas críticas contra a privatização da Universidade, em oposição às fundações privadas parceiras de algumas faculdades - não ironicamente são estas as mais eficientes e capazes na formação dos seus estudantes. Todavia, como a Universidade moderna é tudo menos lugar de produção de saber, é compreensível que esta instituição se encontre totalmente tolhida em sua real vocação.

O nosso estado totalitário - porque começar com letra maiúscula só Deus! - tem como grande projeto o controle da educação, pela qual poderia criar uma cultura de massa pensada e mantida pelo governo. Entretanto, a educação na concepção clássica é muito mais um “treino da mente” e uma “disciplina intelectual” do que um mero projeto estatal de finalidade utilitarista. O utilitarismo educacional destrói a verdadeira cultura, reduz a reflexão ao aspecto prático, material e com o sonho igualitarista arrasa com a diversidade tão fundamental para a nossa civilização.

O maior perigo dessa modelo de Universidade é a onipotência do coletivo em total oposição à liberdade individual. A padronização da educação só se torna possível através do reconhecimento da capacidade do governo de gerir o grande pressuposto que alicerça este paradigma; a igualdade de oportunidade. Tendo como chave a “consciência social”, o estado transfere para si a responsabilidade, até então própria do sujeito, de responder à vocação de cada homem. Assim, em nome de um ideal de sociedade abstrato e rarefeito, justifica-se a transformação da educação na mais ineficiente fábrica de tediosos cidadãos.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

A imaginação moral em "Branca de Neve e o Caçador"


Com spoilers

Depois de escutar bons comentários a respeito do filme "Branca de Neve e o Caçador" resolvi assisti-lo. Não vou ao cinema buscando reflexões filosóficas ou existenciais, muitas vezes um bom e simples entretenimento é necessário e oportuno para viver equilibradamente. De fato, no quesito aventura o filme é animador. Entretanto, consegui perceber, não sei até que ponto colocado ali de forma explícita, uma referência clara ao imaginário moral cristão.


No aspecto externo são claras as manifestações cristãs do filme. Não havia nenhuma necessidade, por exemplo, em ambientar a produção num aparente reino medieval. O conto, em sua versão original, tanto na tradição oral alemã como fora consolidado pelos Irmãos Grimm, se passa num cenário fantástico, povoado por anões, fadas e monstros. Não obstante, "Branca de Neve e o Caçador" faz uso de certo realismo e constrói uma história com traços que remetem à história do Medievo. Também não havia nenhuma razão fundamental em colocar "Snow White" rezando o Pai-Nosso ou Bispos celebrando o casamento e coroando a bela Rainha ao final, cenas irrelevantes no que se referem ao entendimento da obra. Assim, pois, é sim lícito pensar que estes sinais foram plantados propositadamente, tendo como finalidade atingir o imaginário cristão. É importante lembrar que uma vez li em algum lugar o dado estatístico de que os filmes que mais arrecadavam em Hollywood tinham temáticas conservadoras.

Além de tais referências claras ao cristianismo, o filme consegue abordar as virtudes sem cair em certo maniqueísmo tão recorrente. Obviamente há uma distinção entre bem e mal, verdade e mentira, beleza e feiura. Entretanto, a própria Branca de Neve, ao matar a Rainha Má, a contempla com o olhar da bondade, isto é, da compaixão. A personagem principal, num diálogo com o Caçador, comentara que o ódio que nutria pela madrasta havia se transformado em pena, piedade.

Ainda é possível pensar no bosque das fadas como uma simbolismo da realidade sem pecado original, com homens e criaturas vivendo em perfeita harmonia e em ordem. Ademais, a presença majestosa da árvore, mesma árvore que aparece no escudo real, possibilita a reflexão a respeito. Interessante, contudo, a forma como o filme entende o triunfo do mal na proporção em que o bem se enfraquece. A própria força da floresta negra vinha do medo daqueles que nela entravam. Do mesmo modo a frágil resistência contra a bruxa era incapaz de se organizar porque incapaz de reconhecer a grandeza dos seus valores.

Todavia, mais importante do que procurar referências diretas ou indiretas ao cristianismo, é entender como a nossa imaginação moral é rica em sua diversidade e extensão. A Civilização nos formou de tal modo que anões, fadas, bruxas e princesas nos falam de virtudes e princípios universais, ensinamentos e contos que antecedem ao cristianismo, mas que encontraram a sua plenitude na mensagem evangélica.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Cadê o espírito da liturgia?


É notório que existe atualmente na Igreja um forte clamor pela retomada da estética. Entretanto, como já nos ensina o Santo Padre, esta busca não deve se transformar no esteticismo vazio, mas, isto sim, tem que ser consequência de algo anterior, da intimidade com Deus e da busca sincera pela vivência coerente da fé cristã.

Entretanto, também é notório que muitos se satisfazem nas rendas e nos brocados ou já consideram batalha ganha se os seminaristas usam batina. Contudo, a preocupação de Bento XVI se encontra muito mais na evangelização da cultura e na reflexão a respeito da crise da modernidade. Porém, em perfeita sintonia com o seu projeto, o Sumo Pontífice, em suas cerimônias, procura colocar em prática aquilo que já destacara em obras como “Introdução ao Espírito da Liturgia.”

Como o próprio título do livro do então Cardeal Ratzinger nos mostra, a liturgia tem um espírito, e certamente este não se encontra na vazia percepção horizontal. Reduzir a “reforma da reforma”, como alguns gostam de chamar o novo movimento litúrgico, ao uso de casula romana ou alva com renda de frivolité é, simplesmente, incidir no mesmíssimo erro tão comum nas décadas de 70 e 80. O esvaziamento do mistério pode ser feito tanto de túnica, estola e atabaque como com brocados, batinas e latim.

Deste modo, é mais do que urgente fortalecer as mais diversas frentes. Assim, se é necessário que a Igreja esteja refletindo sobre a cultura, também é importante que haja outros empenhados na defesa da liturgia. Entretanto, que todos saibam pelo que estão lutando e porque estão batalhando. Não há espaço para simplismos e idealizações românticas. Não se pode confundir tradição com uso de batina ou casula romana. Pode ser, porém, que o uso de batinas, rendas, brocados ou qualquer coisa do gênero seja uma faceta da tradição, mas seria extremamente inocente de nossa parte cantar odes de alegria ao se deparar com um sacerdote trajado com o seu hábito talar ou portando um barrete na Santa Missa. Preocupemos-nos primeiro com a coerência de vida e a com a busca sincera da santidade, o resto, sim, o resto, é consequência e fruto.