terça-feira, 17 de julho de 2012

Missa Tridentina na CN, Tradicionalistas e René Girard


Alguns membros e dirigentes da Canção Nova assistiram à Santa Missa celebrada na forma extraordinária por Pe. Demétrio. Sem dúvida um momento marcante na história dessa comunidade. Entretanto, o que me chamou atenção foram as reações de perplexidade e entusiasmo, opostas, mas ambas fundadas em percepções radicais e nonsense.

Os entusiastas cantam odes à forma extraordinária como se o latim, o ad Orientem ou as alfaias fossem a tábua da salvação da humanidade. O centro do mistério, isto é, Jesus Cristo, é o núcleo principal da vocação cristã e eucarística. Transformar a força desse evento em algo além do que foi é trabalhar contra a causa. Não é a Missa Tridentina que irá salvar os cristãos ou a CN, mas a experiência feita por cada um com a pessoa de Cristo. O rito romano, em suas duas formas, só pode ser compreendido mediante essa anterior conversão, do contrário se transforma em mero ritualismo estético. O espírito da liturgia não está nas rubricas, mas no Espírito que as suscitou ao longo da história da Igreja e que impulsiona a cada um de nós.

Contudo, os perplexos e críticos se destacaram com larga vantagem. Alguns reclamaram da homilia de Pe. Demétrio, outros falaram que de nada adianta a celebração da forma extraordinária sem a demissão de Pe. Fábio de Melo, já outros protestaram com palavras de ordem. Interessante que em toda essa reação se encontra, além da mentalidade de seita, a noção da perda do domínio sobre a "Tradição". Vou me sustentar em René Girard para explicar. O pensador francês, ao estudar o desejo mimético, afirma que na mediação interna, quando o modelo do desejo se encontra próximo o bastante do sujeito - imitador, o objeto do desejo torna-se motivo de um conflito, ambos desejam o mesmo objeto, criando uma reciprocidade violenta. O desejo transcende a posse do objeto. Os duplos surgem quando existe a indiferenciação. O objeto some e os rivais tornam-se idênticos. O modelo passa a imitar seu próprio desejo por meio do discípulo ao descobrir no objeto o alvo da tensão mimética. Assim, se o discípulo passa a ser o modelo do desejo do seu modelo, este se transforma em discípulo do seu discípulo. O modelo é transformado em antimodelo e cria-se um ciclo de imitação e ódio retroalimentado. Surge, por fim, a crise mimética onde o objeto disputado na rivalidade mimética passa a ser alvo da cobiça e da atratividade mimética por parte da comunidade de indivíduos. Ou todo mundo se auto-destrói ou se usa o bode expiatório para tranquilizar a crise.

Agora voltando! A grande questão é que tais tradicionalistas-de-seita simplesmente estão percebendo a posse da "Tradição" escapando pelos seus dedos escorregadios. Se até mesmo a "carismática-e-modernista" Canção Nova, para não dizer poderosa e eficiente na divulgação da mensagem evangélica, celebra a forma extraordinária o que sobra para jovens que, no máximo, se reúnem para debater, muito "realisticamente", o fim da "apostasia pós-conciliar"? Uma Missa tridentina transmitida pela CN será mais frutífera para o apostolado "tradicional" do que anos de publicações e intrigas cibernéticas.

Eu poderia dizer simplesmente que o faniquito tradicionalista contra a CN foi apenas isso, chilique de criança que não quer dividir o brinquedo, mas apelar para René Girard torna tudo muito mais elegante!

segunda-feira, 18 de junho de 2012

"Prometheus" e a busca do homem


Com alguns spoilers!

Desde que vi o trailer de Promotheus sabia que o filme teria um forte aporte filosófico. Ou cairia no niilismo radical, mostrando a vacuidade da existência, ou, todavia, abriria a possibilidade da reflexão a respeito da vida como existência fundamentada em algo inerente ao próprio homem. Estava certo! A obra é marcadamente permeada por tais premissas, entretanto, quem assim quiser, pode apreciá-la como mais um excelente filme de ficção científica, mero entretenimento. A arte tem a capacidade de se abrir para uma diversidade de leituras, muitas delas sequer conjeturadas pelos seus autores.


A busca por respostas que endossavam a existência humana se encontrava na compreensão do mistério da nossa criação. O darwinismo desfavorecia qualquer concepção criacionista, contudo, dentro da teoria pensada pela Dra. Elizabeth Shaw, esta fé que ela escolheu acreditar, o homem era fruto de um encontro extraterrestre, os nossos deuses não eram astronautas, mas eram moradores do universo! Assim, pois, todo o desenvolvimento do filme se fundamenta na mentalidade cientificista-positivista. Por mais estapafúrdia que fosse a tênue crença dos pesquisadores, era uma crença na vacuidade da própria existência; as respostas existiam e estavam em outra galáxia, era só uma questão de tempo, disposição e dinheiro para encontrá-las.

Não obstante, ficou claro que as perguntas não seriam respondidas tão facilmente. O desenrolar do filme, com ações dignas de um grande blockbuster, mostra como os “deuses” não eram tão divinos e que as respostas não eram tão óbvias e facilmente achadas com o grande devotamento cientifico. Mortes assustadoras e a perda de controle são os sintomas do desespero diante da incompreensão da existência e da busca. Resta alguma coisa? A fé na objetividade positivista da humanidade se encontrava em frangalhos, não sobrava outra atitude que não o nada. Peter Weyland, o grande investidor da pesquisa, estava motivado pela busca da imortalidade, reflexo certamente da existência baseada na frieza egoística da imanência. O seu interesse era totalmente distante do nobre anseio da Dra. Shaw, esta sim insuflada pela fé que escolhera nos seus deuses alienígenas, impulsionada pelo ardor de encontrar sentido no existir.

Dentro da dinâmica própria do filme é possível fazer um paralelo entre as duas frases de mais impacto. O ancião Weyland, indo ao encontro do último dos nossos criadores, sobrevivente do aparente extermínio da raça causado pelas armas que estes criaram para nos destruir, pretendera encontrar a cura para a sua morte mais do que iminente. Não obstante, depara-se com um ser raivoso e inflamado de ódio contra os homens, suas criações. Ao ser brutalmente assassinado, jazendo dolorosamente no chão, diz, pois, “que não resta mais nada”. Se o filme acabasse neste instante certamente seria a maior ode niilista já produzido pelo cinema. Fomos criados por seres alienígenas, criados pelo DNA sacrificial dos extraterrestres, como mostra a primeira cena do filme, mas agora somos alvos da fúria “divina”. Há sentido no existir? Há razão para voltar os olhos para o alto ou sequer para si mesmo? Sobra o nada e só há o nada.

Entretanto, na última cena há uma reviravolta totalmente surpreendente e digna de ser meditada. Dra. Shaw, a única sobrevivente depois que a nave Promotheus propositadamente se chocara com a nave alienígena que pretendia destruir a Terra, ao se deparar com o desespero da morte e da solidão, com o fracasso da expedição e o fracasso da sua fé científica, parece redescobrir a razão mais intima da sua essência, isto é, aquilo que de mais profundo e radical habita no coração do homem. Se, pois, os extraterrestres nos criaram, quem os criou? “Eu vou continuar a buscar!”, disse. Esta é, portanto, a vocação humana, esta é a cruz que a Dra. Shaw toma de volta, buscar o sentido do existir, um senso de abertura, de ligação, de religação e, portanto, de religião, que só pode ser saciado quando o nosso ser se reconhece no Outro que nos faz.

O filme acaba estupendamente com o Prelúdio Op. 28, No. 15, de Chopin, esta obra que Mons. Luigi Giussani, ao comentar sobre a nota constante que persiste em toda a obra, diz; “A nota que domina desde o início ao fim e decide o sentido da toda a peça de Chopin, esta é a nota do começo ao fim que decide o que é a vida humana: é a sede de felicidade. (…) Havia uma nota que permanecia intacta, embora com alguma mutação ligeira, do começo ao fim permanece intacta na sua profundidade e na sua simplicidade absoluta, e, na sua singularidade, domina a vida: a sede de felicidade”

O titã Promoteu deu aos homens o fogo e, com isto, possibilitou que fossem superiores aos animais. Entretanto, fora punido pelos deuses e sofreu todos os dias enquanto esteve preso no Monte Cáucaso onde seu fígado era continuamente dilacerado pelo corvo. Entretanto, muito além da humana mitologia grega, devemos reconhecer que o homem só encontra sentido na sua existência ao perceber a força que o move, ao reconhecer a presença de quem nos fez e nos faz, daquele que não apenas nos deu fogo, mas nos deu vida e redenção, que nos deu o seu sangue.

domingo, 10 de junho de 2012

A UFBA e a sua eterna paixão pela esquerda


A UFBA, como boa parte das UFs, já se tornou num circo anárquico onde não há mais uso da racionalidade. Tive a curiosidade de ler a carta aberta escrita pelos estudantes reunidos em Assembleia Geral. Tirando o fato de me perder diversas vezes por conta da multiplicidade de palavras dignas da novilíngua orweliana e das construções frasais inclusivistas - pelos/pelas, dos/das etc, o fato é que o pandemônio está mais do que estabelecido. Se uma educação livre, como pensava o poeta T.S Eliot, era destinada a responder às perguntas últimas do homem, a educação moderna tem como grande pretensão a reformulação da própria humanidade.

A UFBA, esta que um dia foi a minha Universidade, vive uma relação fetichista com o que de mesquinho há na mentalidade esquerdista. Não só as diversas facções socialistas combatem entre si, desde petistas das não sei quantas tendências até marxianos sociais-democratas, como pretendem construir o cenário dialético como se realmente existissem forças obscuras do capitalismo-burguês-conservador na espreita. Entretanto, não só vivemos num estado que segue a cartilha petista, mas estudamos numa Universidade onde o princípio da educação liberal é totalmente preterido pelos ditames da educação de inclusão ou da educação para todos.

A carta escrita pelos estudantes em Assembleia, isto é, alguns poucos militantes engajados e mais preocupados com a politicagem do que com a reflexão, é uma amostra do alto grau da doença esquerdista que assola as mentes da juventude brasileira. Os paradigmas estão tão tomados de totalitarismo e delírios de poder que eles sequer sabem diferenciar reivindicações honestas de motivações partidárias. Obviamente a Universidade deve ser um espaço de discussão e é mais do que saudável que haja posições destoantes. Não obstante, o pensamento socialista não concebe a possibilidade de conviver com posições diversas, nem mesmo diversas dentro do espectro socialista. O ódio, o argumentum ad hominem e a agressão se tornam nas pontas da lança da incursão pelo poder.

A carta é a síntese do delírio. Vai desde a abertura para o uso dos "nomes sociais" dos/das/de/ travestis e transformistas - afinal Samanthas e Kymberlhys têm seus direitos - até as velhas críticas contra a privatização da Universidade, em oposição às fundações privadas parceiras de algumas faculdades - não ironicamente são estas as mais eficientes e capazes na formação dos seus estudantes. Todavia, como a Universidade moderna é tudo menos lugar de produção de saber, é compreensível que esta instituição se encontre totalmente tolhida em sua real vocação.

O nosso estado totalitário - porque começar com letra maiúscula só Deus! - tem como grande projeto o controle da educação, pela qual poderia criar uma cultura de massa pensada e mantida pelo governo. Entretanto, a educação na concepção clássica é muito mais um “treino da mente” e uma “disciplina intelectual” do que um mero projeto estatal de finalidade utilitarista. O utilitarismo educacional destrói a verdadeira cultura, reduz a reflexão ao aspecto prático, material e com o sonho igualitarista arrasa com a diversidade tão fundamental para a nossa civilização.

O maior perigo dessa modelo de Universidade é a onipotência do coletivo em total oposição à liberdade individual. A padronização da educação só se torna possível através do reconhecimento da capacidade do governo de gerir o grande pressuposto que alicerça este paradigma; a igualdade de oportunidade. Tendo como chave a “consciência social”, o estado transfere para si a responsabilidade, até então própria do sujeito, de responder à vocação de cada homem. Assim, em nome de um ideal de sociedade abstrato e rarefeito, justifica-se a transformação da educação na mais ineficiente fábrica de tediosos cidadãos.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

A imaginação moral em "Branca de Neve e o Caçador"


Com spoilers

Depois de escutar bons comentários a respeito do filme "Branca de Neve e o Caçador" resolvi assisti-lo. Não vou ao cinema buscando reflexões filosóficas ou existenciais, muitas vezes um bom e simples entretenimento é necessário e oportuno para viver equilibradamente. De fato, no quesito aventura o filme é animador. Entretanto, consegui perceber, não sei até que ponto colocado ali de forma explícita, uma referência clara ao imaginário moral cristão.


No aspecto externo são claras as manifestações cristãs do filme. Não havia nenhuma necessidade, por exemplo, em ambientar a produção num aparente reino medieval. O conto, em sua versão original, tanto na tradição oral alemã como fora consolidado pelos Irmãos Grimm, se passa num cenário fantástico, povoado por anões, fadas e monstros. Não obstante, "Branca de Neve e o Caçador" faz uso de certo realismo e constrói uma história com traços que remetem à história do Medievo. Também não havia nenhuma razão fundamental em colocar "Snow White" rezando o Pai-Nosso ou Bispos celebrando o casamento e coroando a bela Rainha ao final, cenas irrelevantes no que se referem ao entendimento da obra. Assim, pois, é sim lícito pensar que estes sinais foram plantados propositadamente, tendo como finalidade atingir o imaginário cristão. É importante lembrar que uma vez li em algum lugar o dado estatístico de que os filmes que mais arrecadavam em Hollywood tinham temáticas conservadoras.

Além de tais referências claras ao cristianismo, o filme consegue abordar as virtudes sem cair em certo maniqueísmo tão recorrente. Obviamente há uma distinção entre bem e mal, verdade e mentira, beleza e feiura. Entretanto, a própria Branca de Neve, ao matar a Rainha Má, a contempla com o olhar da bondade, isto é, da compaixão. A personagem principal, num diálogo com o Caçador, comentara que o ódio que nutria pela madrasta havia se transformado em pena, piedade.

Ainda é possível pensar no bosque das fadas como uma simbolismo da realidade sem pecado original, com homens e criaturas vivendo em perfeita harmonia e em ordem. Ademais, a presença majestosa da árvore, mesma árvore que aparece no escudo real, possibilita a reflexão a respeito. Interessante, contudo, a forma como o filme entende o triunfo do mal na proporção em que o bem se enfraquece. A própria força da floresta negra vinha do medo daqueles que nela entravam. Do mesmo modo a frágil resistência contra a bruxa era incapaz de se organizar porque incapaz de reconhecer a grandeza dos seus valores.

Todavia, mais importante do que procurar referências diretas ou indiretas ao cristianismo, é entender como a nossa imaginação moral é rica em sua diversidade e extensão. A Civilização nos formou de tal modo que anões, fadas, bruxas e princesas nos falam de virtudes e princípios universais, ensinamentos e contos que antecedem ao cristianismo, mas que encontraram a sua plenitude na mensagem evangélica.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Cadê o espírito da liturgia?


É notório que existe atualmente na Igreja um forte clamor pela retomada da estética. Entretanto, como já nos ensina o Santo Padre, esta busca não deve se transformar no esteticismo vazio, mas, isto sim, tem que ser consequência de algo anterior, da intimidade com Deus e da busca sincera pela vivência coerente da fé cristã.

Entretanto, também é notório que muitos se satisfazem nas rendas e nos brocados ou já consideram batalha ganha se os seminaristas usam batina. Contudo, a preocupação de Bento XVI se encontra muito mais na evangelização da cultura e na reflexão a respeito da crise da modernidade. Porém, em perfeita sintonia com o seu projeto, o Sumo Pontífice, em suas cerimônias, procura colocar em prática aquilo que já destacara em obras como “Introdução ao Espírito da Liturgia.”

Como o próprio título do livro do então Cardeal Ratzinger nos mostra, a liturgia tem um espírito, e certamente este não se encontra na vazia percepção horizontal. Reduzir a “reforma da reforma”, como alguns gostam de chamar o novo movimento litúrgico, ao uso de casula romana ou alva com renda de frivolité é, simplesmente, incidir no mesmíssimo erro tão comum nas décadas de 70 e 80. O esvaziamento do mistério pode ser feito tanto de túnica, estola e atabaque como com brocados, batinas e latim.

Deste modo, é mais do que urgente fortalecer as mais diversas frentes. Assim, se é necessário que a Igreja esteja refletindo sobre a cultura, também é importante que haja outros empenhados na defesa da liturgia. Entretanto, que todos saibam pelo que estão lutando e porque estão batalhando. Não há espaço para simplismos e idealizações românticas. Não se pode confundir tradição com uso de batina ou casula romana. Pode ser, porém, que o uso de batinas, rendas, brocados ou qualquer coisa do gênero seja uma faceta da tradição, mas seria extremamente inocente de nossa parte cantar odes de alegria ao se deparar com um sacerdote trajado com o seu hábito talar ou portando um barrete na Santa Missa. Preocupemos-nos primeiro com a coerência de vida e a com a busca sincera da santidade, o resto, sim, o resto, é consequência e fruto.

sábado, 19 de maio de 2012

A admirável honestidade de Mons. Fellay


As polêmicas cartas trocadas entre os Bispos da FSSPX fortaleceram ainda mais o indício de que é iminente a solução para o fim do cisma iniciado por Mons. Lefebvre. O interessante, entretanto, é o belíssimo tom usado por Mons. Fellay na sua resposta aos seus três irmãos de Fraternidade. Não obstante, fica claríssimo como em muitos guetos tradicionalistas, quiçá em todo o seu corpo, existe uma relação quase fetichista com a revolta e a desobediência.

A carta de resposta escrita por Mons. Fellay é digna de um Cardeal da Santa Igreja. Fundamentada numa realista sensibilidade católica, o Superior da FSSPX mostra que, diferentemente do que parecia, há sim um forte sensus ecclesiae no modo como olha a Igreja visível de Cristo. Ademais, os três outros Bispos, de maneira encarniçada, manifestaram mais uma vez como o radical-tradicionalismo, quando não movido pela caridade, transforma-se numa vocação rebelde por excelência.

Obviamente a verdadeira caridade encontra-se na Verdade, ou seja, não apenas se fundamenta em Cristo como deve ser vivida baseada no Senhor. Entretanto, a caridade é, antes de tudo, uma virtude que transforma, que é objeto dos nossos pedidos e alvo da nossa conquista diária. Assim, pois, o amor cristão, mas do que um discurso teórico, realiza-se na prática da vida marcada pelo encontro pessoal com Cristo. Infelizmente, contudo, muitos dentre nós são levados a uma radical teorização do discurso cristão onde não há espaço para outra coisa que não seja a visão burocrática da fé. Nesse cenário a sobrenaturalidade é simplificada no aparato litúrgico, doutrinal e moral, isto é, o cristianismo deixa de ser a Religião da vida, assistida pelo Espírito Santo, para se transformar na crença de um manual.

Os tradicionalistas radicais, tendo hoje os três Bispos da FSSPX como símbolos fulgurantes, não apenas incidem num sedevacantismo prático negando qualquer possibilidade de emendo daquilo que consideram a Roma pós-conciliar, como parecem olhar para a Igreja com uma visão horizontal na qual não cabe nenhuma crença na ação sobrenatural do Espírito Santo. A rebeldia e a desobediência de tão entranhadas se tornam, então, em algo próximo aos carismas infundidos por Deus na figura dos Fundadores. Assim, pois, Mons. Lefebvre teria transmitido aos seus nada menos que espiritualidade da desconfiança infalível diante da "Roma modernista" e o carisma da revolta contra a "Igreja pós-conciliar".

Mons. Fellay, assim, ao buscar solucionar o cisma trairia não apenas a causa “da Tradição” como mostraria sua radical infidelidade ao legado de Lefebvre. Dentro da lógica tradicionalista é este o raciocínio que permeia e funda a dura crítica ao número um da FSSPX. Entretanto, o que o Bispo suíço vem mostrar a todos os católicos é a crença sobrenatural na graça de Deus naquela que É a Sua Igreja – e isto é fundamental, do contrário seria cair no sedevacantismo com a negação da assistência divina – e também a percepção realista de que o contexto atual difere profundamente dos tribulados tempos pós-conciliares.

Rezemos de verdade pelo Superior Geral da Fraternidade e por todos aqueles envolvidos em tal processo. O retorno da FSSPX primeiramente beneficiará a própria FSSPX, que gozará da plena comunhão com a Igreja. Entretanto, o Corpo Místico de Cristo também recebe um novo vigor quando as suas fileiras são fortalecidas por bravos soldados na luta contra o Inimigo.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Solus cum Solo: Santa Teresa de Lisieux e Beato John Henry Newman

Pedro Ravazzano

Ao longo da história da Igreja é possível contemplar uma diversidade de relacionamentos de Deus com os Seus filhos. Desde as arrebatadoras experiências místicas até a mais profunda aridez espiritual, o Senhor age de maneiras inexplicáveis e desconhecidas. Entretanto, no outro lado se encontra uma alma sedenta da água viva e que responde aos desígnios do alto. Santa Teresinha do Menino Jesus e o Beato John Henry Newman são dois grandes testemunhos de como a intimidade pessoal com Cristo também acontece na solidão do abismo. Solus cum solo!

O coração fala ao coração, já dizia o lema do Cardeal Newman, também no deserto da alma ávida por Deus. A vida desse convertido é uma clara amostra dos frutos que podem ser colhidos no homem que ruma em direção à Verdade. Ademais, dentro da experiência do beato inglês é notório como as provações e a aridez foram claros instrumentos pelos quais pôde ele se aproximar do Senhor. Pensar que a relação com Deus se faz exclusivamente através das erupções sentimentais é desconhecer a grandeza da oração que brota da alma enamorada e que independe da resposta do Amado. O processo de busca de Newman, que teve como coroa a sua conversão, refletiu não apenas a busca intelectual, mas, principalmente, a dinâmica espiritual na qual ele, solitariamente, sem o auxílio direto dos artifícios eclesiais, identificou a sua incapacidade de fazer-se a si mesmo. Apenas no Outro, naquele que o faz, pode a vida gozar de pleno sentido.
It is face to face, "solus cum solo,"Only this I know full well now, and did not know then, that the Catholic Church allows no image of any sort, material or immaterial, no dogmatic symbol, no rite, no sacrament, no Saint, not even the Blessed Virgin herself, to come between the soul and its Creator. It is face to face, "solus cum solo," in all matters between man and his God. He alone creates; He alone has redeemed; before His awful eyes we go in death; in the vision of Him is our eternal beatitude.”
Santa Teresinha, do mesmo modo, encontrou o Senhor na aridez do Carmelo e na corrida pela perfeição dentro da pequena via. No convento, a infância espiritual, como inspirada por Deus, foi alvo de incompreensões e dificuldades. Quando finalmente encontrou alguém que a compreendera, Pe. Alexis Prou, tivera que se afastar por conta das proibições da Superiora. Assim entende-se a razão pela qual as próprias irmãs da santa reconheciam a sua secura em certos hábitos recorrentes na vida carmelitana; Exercícios Espirituais, orações vocais, penitências e até mesmo o rosário. Santa Teresinha repetidamente falara que não tendo a compreensão de confessores e diretores espirituais, fora justamente na solidão com Deus – “o Diretor dos diretores” – onde encontrara repouso para o seu coração. Estava, pois, sozinha com o seu querido, a sós com o Só.

Tanto o Beato John Henry Newman como Santa Teresa de Lisieux, cada um com experiências únicas, buscaram o encontro com Cristo mediante o silêncio da vida interior. A Doutora da Igreja ensinava que através da solidão da interioridade era possível contemplar a Deus; “Take silence, for example, what good it does to the soul, what failures in charity it prevents, and so many other troubles of all kinds.” Assim, entende-se a visão pequena – mas não inferior - que Santa Teresinha tinha da santidade. A aparente dialética entre “águias” e “passarinhos”, “grande via” e “pequena via”, “pequena santidade” e “grandes santos”, não era reflexo de um olhar distorcido, quiçá herético porque quietista, mas, na oposição a qualquer heterodoxia, partia do senso de que o homem poderia, lançando mão da vida como louvor de glória, buscar a santidade através de gestos e atos de pouco valor, mas agora totalmente providos de razão em Cristo: "Sanctity does not consist in performing such and such acts; it means being ready at heart to become small and humble in the arms of God, acknowledging our own weaknesses and trusting in His fatherly goodness to the point of audacity."

John Henry Newman, pois, com o seu “solus com solo” não apenas vai compreender a profundidade desse encontro “face-a-face”, apenas a alma com Deus, como vai tornar essa experiência o substrato da sua reflexão a respeito da consciência. No livro “Authority,Dogma and History : The Role of Oxford Movement Converts and the Infallibility Debates of the Nineteenth Century,1835 – 1875” Jay Hammond III diz que “It was from the foundational experience of solus cum solo that Newmans emphasis on conscience throughout his works can be traced. Conscience was the compass that guided Newmans actions; to act against his conscience was simply inconceivable.” Ora, a consciência que encontra o Seu Criador se lapida e cresce na sua capacidade de olhar a realidade com a pureza e equilíbrio. A pequena via de Santa Teresinha do mesmo modo entende que o homem, ainda – e principalmente - se reconhecendo pecador, pode e deve encher os pequenos gestos com o olhar dirigido ao céu, como “gritos de gratidão e de amor”.

Hars Urs Von Balthasar, grande devoto e entusiasta de Santa de Lisieux, afirmara que a pequena via, continuamente acusada de incidir no quietismo protestante, afastava-se totalmente do rigorismo recorrente e das premissas adotadas pelos Reformadores. “Therese's little way is a way to perfection, a way for those who have courageously resolved to love and to do nothing else but love. And the faults of which she speaks are not the sins which Luther had in mind; they are ‘faults which do not offend God’” Assim, pois, em Teresinha, diferentemente de Lutero, “ the drama of sin never entwines itself round her soul.” Ademais, “she recognizes the drama of God's descending into the nothingness of the creature and the flame of love with which the Absolute, God, unites himself to his creature's nothingness.”

“Um abismo invoca outro abismo” O nada do homem se encontra com a totalidade abissal que é Cristo numa relação que em Newman e Teresinha realizou-se na solidão da interioridade. O Cardeal e a Doutora da Igreja, de maneiras distintas, puderam reconhecer a pequenez da condição pecadora através da contemplação da grandeza de Deus. O Outro que o faz é confessado quando o homem distingue que não é capaz de se fazer. Teresinha, na vida claustral, compreendera que a estrutura carmelitana muitas vezes se tornava num obstáculo para a superação da vaidade espiritual. John Henry Newman, por sua vez, com a sua caminhada intelectual, descobriu que o conhecimento da Verdade só seria possível com a ciência da condição pecadora e imperfeita do homem que, mediante uma árdua virada, remete ao reconhecimento do amor de Deus. Ambos, pois, numa vida espiritual aparentemente insossa, sem arrebatamentos místicos e luzes esplendorosas, conseguiram descobrir a beleza da existência permeada pelo amor ao Senhor em todos os atos e gestos. Deus, então, escolhera um simples reverendo anglicano e uma pequena garota francesa, e fez deles em vida atores coadjuvantes e incompreendidos para que, na glória celeste, gozassem da contemplação da Sua face! Solus cum solo!