terça-feira, 29 de maio de 2012

Cadê o espírito da liturgia?


É notório que existe atualmente na Igreja um forte clamor pela retomada da estética. Entretanto, como já nos ensina o Santo Padre, esta busca não deve se transformar no esteticismo vazio, mas, isto sim, tem que ser consequência de algo anterior, da intimidade com Deus e da busca sincera pela vivência coerente da fé cristã.

Entretanto, também é notório que muitos se satisfazem nas rendas e nos brocados ou já consideram batalha ganha se os seminaristas usam batina. Contudo, a preocupação de Bento XVI se encontra muito mais na evangelização da cultura e na reflexão a respeito da crise da modernidade. Porém, em perfeita sintonia com o seu projeto, o Sumo Pontífice, em suas cerimônias, procura colocar em prática aquilo que já destacara em obras como “Introdução ao Espírito da Liturgia.”

Como o próprio título do livro do então Cardeal Ratzinger nos mostra, a liturgia tem um espírito, e certamente este não se encontra na vazia percepção horizontal. Reduzir a “reforma da reforma”, como alguns gostam de chamar o novo movimento litúrgico, ao uso de casula romana ou alva com renda de frivolité é, simplesmente, incidir no mesmíssimo erro tão comum nas décadas de 70 e 80. O esvaziamento do mistério pode ser feito tanto de túnica, estola e atabaque como com brocados, batinas e latim.

Deste modo, é mais do que urgente fortalecer as mais diversas frentes. Assim, se é necessário que a Igreja esteja refletindo sobre a cultura, também é importante que haja outros empenhados na defesa da liturgia. Entretanto, que todos saibam pelo que estão lutando e porque estão batalhando. Não há espaço para simplismos e idealizações românticas. Não se pode confundir tradição com uso de batina ou casula romana. Pode ser, porém, que o uso de batinas, rendas, brocados ou qualquer coisa do gênero seja uma faceta da tradição, mas seria extremamente inocente de nossa parte cantar odes de alegria ao se deparar com um sacerdote trajado com o seu hábito talar ou portando um barrete na Santa Missa. Preocupemos-nos primeiro com a coerência de vida e a com a busca sincera da santidade, o resto, sim, o resto, é consequência e fruto.

sábado, 19 de maio de 2012

A admirável honestidade de Mons. Fellay


As polêmicas cartas trocadas entre os Bispos da FSSPX fortaleceram ainda mais o indício de que é iminente a solução para o fim do cisma iniciado por Mons. Lefebvre. O interessante, entretanto, é o belíssimo tom usado por Mons. Fellay na sua resposta aos seus três irmãos de Fraternidade. Não obstante, fica claríssimo como em muitos guetos tradicionalistas, quiçá em todo o seu corpo, existe uma relação quase fetichista com a revolta e a desobediência.

A carta de resposta escrita por Mons. Fellay é digna de um Cardeal da Santa Igreja. Fundamentada numa realista sensibilidade católica, o Superior da FSSPX mostra que, diferentemente do que parecia, há sim um forte sensus ecclesiae no modo como olha a Igreja visível de Cristo. Ademais, os três outros Bispos, de maneira encarniçada, manifestaram mais uma vez como o radical-tradicionalismo, quando não movido pela caridade, transforma-se numa vocação rebelde por excelência.

Obviamente a verdadeira caridade encontra-se na Verdade, ou seja, não apenas se fundamenta em Cristo como deve ser vivida baseada no Senhor. Entretanto, a caridade é, antes de tudo, uma virtude que transforma, que é objeto dos nossos pedidos e alvo da nossa conquista diária. Assim, pois, o amor cristão, mas do que um discurso teórico, realiza-se na prática da vida marcada pelo encontro pessoal com Cristo. Infelizmente, contudo, muitos dentre nós são levados a uma radical teorização do discurso cristão onde não há espaço para outra coisa que não seja a visão burocrática da fé. Nesse cenário a sobrenaturalidade é simplificada no aparato litúrgico, doutrinal e moral, isto é, o cristianismo deixa de ser a Religião da vida, assistida pelo Espírito Santo, para se transformar na crença de um manual.

Os tradicionalistas radicais, tendo hoje os três Bispos da FSSPX como símbolos fulgurantes, não apenas incidem num sedevacantismo prático negando qualquer possibilidade de emendo daquilo que consideram a Roma pós-conciliar, como parecem olhar para a Igreja com uma visão horizontal na qual não cabe nenhuma crença na ação sobrenatural do Espírito Santo. A rebeldia e a desobediência de tão entranhadas se tornam, então, em algo próximo aos carismas infundidos por Deus na figura dos Fundadores. Assim, pois, Mons. Lefebvre teria transmitido aos seus nada menos que espiritualidade da desconfiança infalível diante da "Roma modernista" e o carisma da revolta contra a "Igreja pós-conciliar".

Mons. Fellay, assim, ao buscar solucionar o cisma trairia não apenas a causa “da Tradição” como mostraria sua radical infidelidade ao legado de Lefebvre. Dentro da lógica tradicionalista é este o raciocínio que permeia e funda a dura crítica ao número um da FSSPX. Entretanto, o que o Bispo suíço vem mostrar a todos os católicos é a crença sobrenatural na graça de Deus naquela que É a Sua Igreja – e isto é fundamental, do contrário seria cair no sedevacantismo com a negação da assistência divina – e também a percepção realista de que o contexto atual difere profundamente dos tribulados tempos pós-conciliares.

Rezemos de verdade pelo Superior Geral da Fraternidade e por todos aqueles envolvidos em tal processo. O retorno da FSSPX primeiramente beneficiará a própria FSSPX, que gozará da plena comunhão com a Igreja. Entretanto, o Corpo Místico de Cristo também recebe um novo vigor quando as suas fileiras são fortalecidas por bravos soldados na luta contra o Inimigo.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Solus cum Solo: Santa Teresa de Lisieux e Beato John Henry Newman

Pedro Ravazzano

Ao longo da história da Igreja é possível contemplar uma diversidade de relacionamentos de Deus com os Seus filhos. Desde as arrebatadoras experiências místicas até a mais profunda aridez espiritual, o Senhor age de maneiras inexplicáveis e desconhecidas. Entretanto, no outro lado se encontra uma alma sedenta da água viva e que responde aos desígnios do alto. Santa Teresinha do Menino Jesus e o Beato John Henry Newman são dois grandes testemunhos de como a intimidade pessoal com Cristo também acontece na solidão do abismo. Solus cum solo!

O coração fala ao coração, já dizia o lema do Cardeal Newman, também no deserto da alma ávida por Deus. A vida desse convertido é uma clara amostra dos frutos que podem ser colhidos no homem que ruma em direção à Verdade. Ademais, dentro da experiência do beato inglês é notório como as provações e a aridez foram claros instrumentos pelos quais pôde ele se aproximar do Senhor. Pensar que a relação com Deus se faz exclusivamente através das erupções sentimentais é desconhecer a grandeza da oração que brota da alma enamorada e que independe da resposta do Amado. O processo de busca de Newman, que teve como coroa a sua conversão, refletiu não apenas a busca intelectual, mas, principalmente, a dinâmica espiritual na qual ele, solitariamente, sem o auxílio direto dos artifícios eclesiais, identificou a sua incapacidade de fazer-se a si mesmo. Apenas no Outro, naquele que o faz, pode a vida gozar de pleno sentido.
It is face to face, "solus cum solo,"Only this I know full well now, and did not know then, that the Catholic Church allows no image of any sort, material or immaterial, no dogmatic symbol, no rite, no sacrament, no Saint, not even the Blessed Virgin herself, to come between the soul and its Creator. It is face to face, "solus cum solo," in all matters between man and his God. He alone creates; He alone has redeemed; before His awful eyes we go in death; in the vision of Him is our eternal beatitude.”
Santa Teresinha, do mesmo modo, encontrou o Senhor na aridez do Carmelo e na corrida pela perfeição dentro da pequena via. No convento, a infância espiritual, como inspirada por Deus, foi alvo de incompreensões e dificuldades. Quando finalmente encontrou alguém que a compreendera, Pe. Alexis Prou, tivera que se afastar por conta das proibições da Superiora. Assim entende-se a razão pela qual as próprias irmãs da santa reconheciam a sua secura em certos hábitos recorrentes na vida carmelitana; Exercícios Espirituais, orações vocais, penitências e até mesmo o rosário. Santa Teresinha repetidamente falara que não tendo a compreensão de confessores e diretores espirituais, fora justamente na solidão com Deus – “o Diretor dos diretores” – onde encontrara repouso para o seu coração. Estava, pois, sozinha com o seu querido, a sós com o Só.

Tanto o Beato John Henry Newman como Santa Teresa de Lisieux, cada um com experiências únicas, buscaram o encontro com Cristo mediante o silêncio da vida interior. A Doutora da Igreja ensinava que através da solidão da interioridade era possível contemplar a Deus; “Take silence, for example, what good it does to the soul, what failures in charity it prevents, and so many other troubles of all kinds.” Assim, entende-se a visão pequena – mas não inferior - que Santa Teresinha tinha da santidade. A aparente dialética entre “águias” e “passarinhos”, “grande via” e “pequena via”, “pequena santidade” e “grandes santos”, não era reflexo de um olhar distorcido, quiçá herético porque quietista, mas, na oposição a qualquer heterodoxia, partia do senso de que o homem poderia, lançando mão da vida como louvor de glória, buscar a santidade através de gestos e atos de pouco valor, mas agora totalmente providos de razão em Cristo: "Sanctity does not consist in performing such and such acts; it means being ready at heart to become small and humble in the arms of God, acknowledging our own weaknesses and trusting in His fatherly goodness to the point of audacity."

John Henry Newman, pois, com o seu “solus com solo” não apenas vai compreender a profundidade desse encontro “face-a-face”, apenas a alma com Deus, como vai tornar essa experiência o substrato da sua reflexão a respeito da consciência. No livro “Authority,Dogma and History : The Role of Oxford Movement Converts and the Infallibility Debates of the Nineteenth Century,1835 – 1875” Jay Hammond III diz que “It was from the foundational experience of solus cum solo that Newmans emphasis on conscience throughout his works can be traced. Conscience was the compass that guided Newmans actions; to act against his conscience was simply inconceivable.” Ora, a consciência que encontra o Seu Criador se lapida e cresce na sua capacidade de olhar a realidade com a pureza e equilíbrio. A pequena via de Santa Teresinha do mesmo modo entende que o homem, ainda – e principalmente - se reconhecendo pecador, pode e deve encher os pequenos gestos com o olhar dirigido ao céu, como “gritos de gratidão e de amor”.

Hars Urs Von Balthasar, grande devoto e entusiasta de Santa de Lisieux, afirmara que a pequena via, continuamente acusada de incidir no quietismo protestante, afastava-se totalmente do rigorismo recorrente e das premissas adotadas pelos Reformadores. “Therese's little way is a way to perfection, a way for those who have courageously resolved to love and to do nothing else but love. And the faults of which she speaks are not the sins which Luther had in mind; they are ‘faults which do not offend God’” Assim, pois, em Teresinha, diferentemente de Lutero, “ the drama of sin never entwines itself round her soul.” Ademais, “she recognizes the drama of God's descending into the nothingness of the creature and the flame of love with which the Absolute, God, unites himself to his creature's nothingness.”

“Um abismo invoca outro abismo” O nada do homem se encontra com a totalidade abissal que é Cristo numa relação que em Newman e Teresinha realizou-se na solidão da interioridade. O Cardeal e a Doutora da Igreja, de maneiras distintas, puderam reconhecer a pequenez da condição pecadora através da contemplação da grandeza de Deus. O Outro que o faz é confessado quando o homem distingue que não é capaz de se fazer. Teresinha, na vida claustral, compreendera que a estrutura carmelitana muitas vezes se tornava num obstáculo para a superação da vaidade espiritual. John Henry Newman, por sua vez, com a sua caminhada intelectual, descobriu que o conhecimento da Verdade só seria possível com a ciência da condição pecadora e imperfeita do homem que, mediante uma árdua virada, remete ao reconhecimento do amor de Deus. Ambos, pois, numa vida espiritual aparentemente insossa, sem arrebatamentos místicos e luzes esplendorosas, conseguiram descobrir a beleza da existência permeada pelo amor ao Senhor em todos os atos e gestos. Deus, então, escolhera um simples reverendo anglicano e uma pequena garota francesa, e fez deles em vida atores coadjuvantes e incompreendidos para que, na glória celeste, gozassem da contemplação da Sua face! Solus cum solo!

sábado, 5 de maio de 2012

Eu e o Cardeal

“Cor ad cor loquitur”! Esta é a frase escolhida pelo Cardeal John Henry Newman como o seu lema pessoal. Entretanto, tomo a liberdade, reconhecendo a grande audácia do que faço, de dizer que fora através, justamente, do coração desse gigante que Cristo falou ao meu coração. Através de Newman a minha conversão se consolidou; larguei o agnosticismo/ateísmo e retornei ao catolicismo real, não apenas fruto de certo idealismo juvenil.

Quando li pela primeira vez Apologia Pro Vita Sua estava em processo de conversão. A procura pela Verdade já me impulsionava na busca do Outro onde quer que se encontrasse. Recordo-me que depois de passar um tempo considerável flertando com o islamismo, deparei-me com o enorme prédio cristão construído no coração da Civilização Ocidental. Não estava mais diante da caricatura que parecia o cristianismo liberal hodierno, mas o oposto, ou seja, um legado concreto e transmitido pelas gerações. Seria verdade que a fé desses Apóstolos incultos no Cristo morto e ressuscitado foi capaz de converter o mundo? E se tudo procedia, esta era a mesma fé dos tempos atuais? Neste ínterim me aproximei da Igreja Ortodoxa, buscando viver, e não apenas teorizar, a experiência relatada nos Evangelhos, defendida pelos Santos Padres e testemunhada pelos mártires.

A Igreja Católica, contudo, sempre me parecera tristemente decadente e perdida em seu afã pela adaptação ao mundo moderno. Se o cristianismo me era atraente, certamente não tinha como razão a sua eterna capacidade de atualização. Até então a fé se confundia com um anseio de reconstruir o mundo patrístico e medieval. Não havia, pois, a compreensão de que Cristo, quando realmente experimentado como Deus encarnado, não se limitava pelo tempo e que a Sua mensagem, vivida como real, deveria justamente se tornar atual.

Na época da leitura do livro Apologia Pro Vita Sua a minha proximidade com o catolicismo era iminente. Ao final de tal processo se encontrava o ápice da minha procura; a confissão – a segunda da minha vida – seguida da comunhão, Cristo! O importante, e isto me lembro bem, é que através da obra do Cardeal Newman compreendi o percurso que passara, um caminho extremamente fatigante, mas recompensador. A conversão deste que fora fellow do Oriel College mostrou a profundidade da fidelidade da consciência à Verdade. Não importava o preço que deveríamos pagar, se encontramos o que buscamos, a quem buscamos, o Outro, tudo deve ser entregue; o orgulho próprio, a vida, a amada Oxford.

Cardeal Newman, então, foi um dos claros sinais que Cristo colocou em minha vida, um meio pelo qual Ele pôde mostrar até que ponto chega o homem apaixonado pela Verdade. O caminho não apenas se confunde com Ele, o caminho é o próprio Verbo feito carne, e quem se encontra diante dessa belíssima estrada deve conscientemente iniciar o percurso que tem como fim último a contemplação da Sua face. Newman, com a sua vida, mostrou como a Verdade não nos cobra nada, mas a consciência quando a encontra não tem outra reação a não ser despojar-se totalmente diante da grandeza da Sua majestade.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Welcome to Rwanda...

Recordar é viver! Artigo publicado faz tempo, mas que persiste em continuar atual.


Pedro Ravazzano

Eu, um tútsi brasileiro, escrevo uma breve reflexão nesse dia da Consciência Hutu. O nosso país caminha para a edificação de uma sociedade bipolar, dividida entre brancos e negros. A começar, bem sabemos que o Brasil jamais foi um Estado racista, com uma política de discriminação oficial. Ademais, devemos pontuar que até mesmo a triste escravidão, com um estudo muito ideologizado hoje em dia diga-se de passagem, não teve motivação racial; brancos não escravizavam negros, dominadores escravizavam subjugados. Além disso, é importante frisar que o alvorecer do racismo cientifico se consolidou apenas no séc. XIX.

O mesmo racismo científico que favoreceu políticas oficiais de discriminação, plantou a semente do que veio a ser, no futuro, o caricato pan-africanismo. Inicialmente liderado por intelectuais americanos que sequer conheciam a África, a utopia da união do continente "negro" refletia, cruelmente, o simplismo assustador do racismo reverso. O pan-africanismo, fadado ao fracasso desde o seu nascimento, desconhecia, ou pretendia desconhecer, a incrível riqueza cultural da África. Os americanos negros, os primeiros pensadores do sonho africanista, formados sobre a ótica do racismo científico, simplificavam e sintetizavam as plurais caraterísticas africanas na cor de pele. A utopia não agüentou a realidade de um continente composto por culturas das mais variadas; foi o fim do pan-africanismo.

Entretanto, mesmo o sonho da unidade africana morrendo, persistiu o espírito racialista da pior forma possível. Na África do Sul, onde a discriminação era institucionalizada, os brancos africâneres impunham um regime de segregação oficial, uma realidade surreal em terras majoritariamente negras. Interessantemente, o delírio de uma nação branca se uniu à promoção do orgulho étnico. A política da África do Sul arquitetava um plano que passava pela independência dos bantustões, zonas tribais criadas pelo regime do apartheid. Entretanto, era essencial que a luta pela liberdade fosse alimentada através da criação do mito da etnia. Assim, etnólogos, geógrafos, historiadores etc, construíram identidades étnicas e raciais. Universidades passaram a ter centros de estudos de cultura africana e institutos foram fundados com o propósito de levantar o edifício do orgulho da raça negra. O projeto não foi eficiente, os bantustões não lutaram pela independência e os negros continuaram fascinados pelas grande metrópoles "brancas", mas conseguiu criar, em laboratório, um mito.

O exemplo mais assustador dos péssimos frutos do pensamento racialista se encarna na triste história de Ruanda, um país encravado no coração da África. A nação, que tinha um reino centralizado, se dividia entre tútsis e hutus. Os primeiros compunham a elite nobiliárquica da nação. Os reis de Ruanda reinavam gloriosamente e, até hoje, perpetuam sua história na figura de Kigeli V que atua em defesa do seu povo e da tradição ruandense. Vale lembrar, por sua vez, que não havia identidade étnica encrustada no espírito social; tútsis pobres eram hutus e hutus ricos eram tútsis. Os belgas, que tomaram posse de Ruanda depois da derrota alemã na Primeira Guerra Mundial, perpetuaram o poder tútsi e a estrutura monárquica. Não obstante, para consolidar o domínio favoreceu e divulgou o orgulho étnico numa nação que o desconhecia. Pesquisas foram feitas com o propósito de comprovar a origem superior dos tútsis. Estes não eram mais irmãos dos hutus - como relatava o antigo mito de criação nacional - mas sim descendentes dos nobres etíopes. Uma origem tão elevada se confirmava na diferença de porte, estrutura facial etc, dos tútsis comparados aos hutus. Os primeiros eram mais altos, com narizes mais finos, elegantes e garbosos. Entretanto, as diferenças entre ambas as “etnias” simplesmente não existiam. E se, por acaso, tútsis eram maiores estruturalmente que os hutus, isso se devia a alimentação mais balanceada que estes tinham - o que podemos comprovar ao comparar coreanos do norte e do sul.

O mito foi criado pelos belgas e usado como a bandeira do levante hutu. Depois da queda da monarquia, com a morte de Mutara III Charles, e a ascensão da República, o governo, de maioria hutu, deu início às políticas de repressão (expulsão e morte) contra a população tútsi. Tudo era justificado como dentro da aceitada reparação histórica. Os choques entre Frente Patriótica Ruandesa (RPF), composta por tútsis refugiados, e o governo de Habyarimana, se converteram em conflitos com numerosos mortos. Não obstante, no Acordo de Arusha, assinado entre as duas forças, ficou acertado um cessar-fogo e a construção de um governo de transição, composto pelas dois “povos”. Todavia, num atentado que até hoje não se sabe ao certo quem promoveu, o presidente de Ruanda, Habyarimana, foi assassinado. Esse foi o estopim para que a Interahamwe, milícias armadas hutus, lideradas por George Rutaganda, treinadas pelo exército ruandense e estimulada por extremados membros do governo, desse início ao genocídio. Cerca de 800 mil pessoas foram assassinadas em 100 dias - o número é incerto, alguns falam de 1 milhão ou até 2 milhões - 11% da população e 4/5 dos tútsis - entre eles 300 clérigos e freiras. O genocídio só acabou com a ocupação do país pela RPF, dirigida por Paul Kagame, atual Presidente.

As rádios conclamavam a expulsão dos tútsis, alegando que, como ocupantes da nação, descendentes dos etíopes, deveriam ser exterminados; “matem as baratas!” Os corpos de centenas de milhares de tútsis eram jogados no rio Nyabarongo que flui até o Lago Vitória, na nascente do Nilo; os tútsis, supostamente imigrantes abissínios, deveriam voltar para o vale do Rio Nilo, vivos ou mortos.

O mito da raça foi criado em Ruanda e promoveu uma cadeia de ódio e rancor que refletiu no genocídio. Tanto a triste história ruandense como a edificação da dialética racial no Brasil partem da mesma ótica desatualizada. O que triunfa é a predestinação; o indivíduo é condicionado pela sua cor de pele, pela sua ascendência. Dentro dessa mentalidade a cultura é genética, um polilogismo racial digno do nazismo. O tútsi tinha que ser exterminado porque, sendo tútsi, e condicionado pela cultura "tútsi", era um artífice da prevaricação e opressão contra os hutus. Assim como o judeu deveria ser massacrado porque, sendo judeu, estava fadado a fabricar a usura. Do mesmo modo, no Brasil, alguém que é fenotipicamente negro, mestiço, é obrigado a carregar uma carga cultural pré-fabricada, com direito a cabelos trançados, iniciação no candomblé e engajamento em políticas raciais.

Triste mundo moderno. Triunfa a predestinação racial; o homem não é mais aquilo que ele quer ser, mas aquilo que o seu antepassado foi.

Tútsis brasileiros, corram que os hutus vem aí!

quinta-feira, 19 de abril de 2012

A crise da cultura no Nordeste Profundo


Pedro Ravazzano

Até que ponto o local do nosso nascimento influencia na formação da nossa personalidade? A questão pode ser resolvida mediante a compreensão de como a cultura – aqui entendida de modo elioteano, ou seja, que abarca tudo aquilo que muitas vezes é visto como segmentos culturais; educação, erudição, música, arte etc – forja a experiência íntima de cada homem consigo e com a sociedade. Infelizmente, contudo, a grandeza cultural do Nordeste, da Bahia e de Salvador, no meu caso particular, vem sendo sistematicamente desconstruída pelo ethos do liberalismo e do materialismo atuais. Não obstante, essas regiões trazem em si uma marcada herança que as transformam em baluartes das “coisas permanentes” que criaram o Brasil.

O Nordeste é uma região extremamente heterogênea. Obviamente há em todos os estados um fio condutor que torna possível a identificação, entretanto, a uniformidade nordestina atual é muito mais fruto de certo simplismo “sulista” ao enxergar a região. Até mesmo dentro de um estado como a Bahia a identidade “estadual” é complicada. O que une o baiano de Salvador e do Recôncavo ao baiano sertanejo do interior? Certamente o segundo tem muito mais vínculo cultural com o pernambucano do Sertão do que com o seu conterrâneo da capital. Não obstante, o vínculo é real e é fruto do denso e vivo legado deixado pelo 2 de Julho, a luta pela independência da Bahia que, de certo modo, unificou o território que sempre foi marcadamente diverso.

O Nordeste tem características comuns que perpassam os nove estados; diversas manifestações artísticas, uma elevada produção intelectual, o reconhecimento da sabedoria popular, ou seja, a clara compreensão de que a cultura não se reduz à pomposa erudição. Se a cultura é a encarnação da religião, como dissera T.S Eliot, no Nordeste essa máxima é facilmente compreendida. Se há certa unidade nordestina é porque esta é fruto da fé. Assim, pois, o Nordeste é o Nordeste Profundo, católico, aberto ao infinito porque confiante na ação de Deus e reconhecedor de que tudo aquilo que nos faz agora é herança. Os poetas, escritores, pintores, escultores, músicos etc, que surgiram nas nossas terras também são tomados por esse mesmo espírito que é maior do que os limites visíveis de uma paróquia ou de uma piedosa procissão de Corpus Christi. Vale frisar, ademais, que a grandeza nordestina está nessa abertura contagiosa que torna tanto o erudito da capital como a senhora devota do sertão unidos porque, cada um a seu modo, contemplam a realidade com o mesmo olhar, enxergam-se como herdeiros de algo.

Desde o alvorecer da sociedade técnica o Nordeste se encontra invadido por certa mentalidade materialista. O ethos liberal vem sistematicamente arrasando tudo aquilo que de mais caro há em nossas cidades. Alguns preferem reduzir o problema afirmando que é culpa do “american way of life” propagado pela música e pelo cinema. Isso não é totalmente verdadeiro. A questão mais profunda se encontra na desconstrução das elites culturais, isto é, sem paradigmas de erudição cultural o corpo todo perde o seu referencial. A solução não é fazer com que todos os nordestinos leiam Castro Alves ou apreciem as esculturas de Frei Agostinho da Piedade, isso seria cair no erro da educação moderna que confunde cultura com erudição de massa e onde se pressupõe que aquilo que emana do povo não tem valor cultural próprio. Entretanto, se nem todos precisam ser eruditos, é necessário que haja quem seja para que assim os outros consigam captar esse mesmo olhar de reconhecimento diante daquilo que foram a eles legados, seja o barroco baiano ou os sapientes conselhos da avó. Só assim, ou seja, através da retomada da cultura em sua totalidade, poderá o Nordeste manter viva não apenas a sua força como celeiro de manifestações artísticas, como também perpetuar para as próximas gerações a marcada sabedoria popular que resiste nos mais distantes rincões dos nove estados.

terça-feira, 10 de abril de 2012

As pontes destruídas na terra devastada


Pedro Ravazzano

O mundo moderno destruiu as pontes que se ligavam ao passado e que, consequentemente, possibilitavam o seu auto-reconhecimento. A crise da civilização ocidental é reflexo inevitável do rechaço sistemático ao passado que leva, naturalmente, à relação fetichista com o futuro e o progresso. Redescobrir, contudo, a grandeza do homem através da sua natural vocação é a forma pela qual a terra devastada pode ser semeada e reconstruída.

A experiência moral é o fundamento do intrínseco senso ético do homem. Entretanto, é obviamente impossível que um homem tenha acumulado todos os juízos possíveis no confrontamento com a realidade. Assim, ainda que seja a experiência moral a base do olhar crítico perante o real, esta bagagem não é estritamente individual, mas, isto sim, transmitida e legada pelos pais, antepassados, tradição. Destarte, o homem que se faz só se realiza mediante a experiência moral herdada. O se voltar para o passado livra, então, o indivíduo do moralismo enrijecido – que pretere a moral enquanto princípio aplicado – e possibilita a fuga de qualquer devaneio pelo qual o presente se simplifica na ante-sala do futuro.

A Civilização Ocidental sempre existiu nos corações dos homens por ela educados. O valor da experiência moral comunicada por todos os séculos sempre foi formativa. Assim, ainda que apenas um seletíssimo grupo tivesse acesso aos nomes mais eruditos e clássicos produzidos, todo o corpo da civilização bebia da força da experiência. A dinâmica interna do funcionamento da pedagogia civilizatória sempre precisou da clara distinção cultural e da sua especialização nos variados segmentos. Destarte, para que senhoras piedosas no interior do país tenham um forte senso moral, é necessário que na capital haja um grupo de eruditos que se reúna para debater a vivacidade experiencial da poesia de Ezra Pound e das telas de Gauguin.

Obviamente seria um total absurdo acreditar que a Civilização seria sinônimo de erudição universal. Isso, além de confundir cultura com uma das suas facetas, rebaixa a verdade contida nas manifestações culturais e morais que emanam de segmentos com pouco ou nenhum acesso ao arcabouço clássico. A grandeza civilizatória não se encontra, então, num projeto nonsense, mas sim no fato de que, ainda que apenas uma elite tenha formação erudita, todos os homens se reconhecem como dependentes das experiências transmitidas, herdadas, sejam de seus sábios avós ou da literatura grega.

Desta forma, salvar a Civilização não é um projeto a ser construído através de cartilhas ideológicas, sejam de “direita” ou “esquerda”. Em todos esses casos há, no máximo, a instrumentalização do passado sem nenhum reconhecimento da sua força atual, presente. Assim, o Ocidente precisa ir além de proteger as obras antigas, os altares barrocos e as telas renascentistas. Sem o vínculo realista – no sentido mais filosófico possível, ou seja, como a adequação do intelecto à realidade – o homem não consegue fazer a virada onde a contemplação transforma-se em experiência vivida no agora. Destarte, salvar a Civilização Ocidental é reconstruir as pontes que ligam o presente ao passado, por meio dessas verdades atemporais que fazem o eu.