
Pedro Ravazzano
Até que ponto o local do nosso nascimento influencia na formação da nossa personalidade? A questão pode ser resolvida mediante a compreensão de como a cultura – aqui entendida de modo elioteano, ou seja, que abarca tudo aquilo que muitas vezes é visto como segmentos culturais; educação, erudição, música, arte etc – forja a experiência íntima de cada homem consigo e com a sociedade. Infelizmente, contudo, a grandeza cultural do Nordeste, da Bahia e de Salvador, no meu caso particular, vem sendo sistematicamente desconstruída pelo ethos do liberalismo e do materialismo atuais. Não obstante, essas regiões trazem em si uma marcada herança que as transformam em baluartes das “coisas permanentes” que criaram o Brasil.
O Nordeste é uma região extremamente heterogênea. Obviamente há em todos os estados um fio condutor que torna possível a identificação, entretanto, a uniformidade nordestina atual é muito mais fruto de certo simplismo “sulista” ao enxergar a região. Até mesmo dentro de um estado como a Bahia a identidade “estadual” é complicada. O que une o baiano de Salvador e do Recôncavo ao baiano sertanejo do interior? Certamente o segundo tem muito mais vínculo cultural com o pernambucano do Sertão do que com o seu conterrâneo da capital. Não obstante, o vínculo é real e é fruto do denso e vivo legado deixado pelo 2 de Julho, a luta pela independência da Bahia que, de certo modo, unificou o território que sempre foi marcadamente diverso.
O Nordeste tem características comuns que perpassam os nove estados; diversas manifestações artísticas, uma elevada produção intelectual, o reconhecimento da sabedoria popular, ou seja, a clara compreensão de que a cultura não se reduz à pomposa erudição. Se a cultura é a encarnação da religião, como dissera T.S Eliot, no Nordeste essa máxima é facilmente compreendida. Se há certa unidade nordestina é porque esta é fruto da fé. Assim, pois, o Nordeste é o Nordeste Profundo, católico, aberto ao infinito porque confiante na ação de Deus e reconhecedor de que tudo aquilo que nos faz agora é herança. Os poetas, escritores, pintores, escultores, músicos etc, que surgiram nas nossas terras também são tomados por esse mesmo espírito que é maior do que os limites visíveis de uma paróquia ou de uma piedosa procissão de Corpus Christi. Vale frisar, ademais, que a grandeza nordestina está nessa abertura contagiosa que torna tanto o erudito da capital como a senhora devota do sertão unidos porque, cada um a seu modo, contemplam a realidade com o mesmo olhar, enxergam-se como herdeiros de algo.
Desde o alvorecer da sociedade técnica o Nordeste se encontra invadido por certa mentalidade materialista. O ethos liberal vem sistematicamente arrasando tudo aquilo que de mais caro há em nossas cidades. Alguns preferem reduzir o problema afirmando que é culpa do “american way of life” propagado pela música e pelo cinema. Isso não é totalmente verdadeiro. A questão mais profunda se encontra na desconstrução das elites culturais, isto é, sem paradigmas de erudição cultural o corpo todo perde o seu referencial. A solução não é fazer com que todos os nordestinos leiam Castro Alves ou apreciem as esculturas de Frei Agostinho da Piedade, isso seria cair no erro da educação moderna que confunde cultura com erudição de massa e onde se pressupõe que aquilo que emana do povo não tem valor cultural próprio. Entretanto, se nem todos precisam ser eruditos, é necessário que haja quem seja para que assim os outros consigam captar esse mesmo olhar de reconhecimento diante daquilo que foram a eles legados, seja o barroco baiano ou os sapientes conselhos da avó. Só assim, ou seja, através da retomada da cultura em sua totalidade, poderá o Nordeste manter viva não apenas a sua força como celeiro de manifestações artísticas, como também perpetuar para as próximas gerações a marcada sabedoria popular que resiste nos mais distantes rincões dos nove estados.





