quinta-feira, 19 de abril de 2012

A crise da cultura no Nordeste Profundo


Pedro Ravazzano

Até que ponto o local do nosso nascimento influencia na formação da nossa personalidade? A questão pode ser resolvida mediante a compreensão de como a cultura – aqui entendida de modo elioteano, ou seja, que abarca tudo aquilo que muitas vezes é visto como segmentos culturais; educação, erudição, música, arte etc – forja a experiência íntima de cada homem consigo e com a sociedade. Infelizmente, contudo, a grandeza cultural do Nordeste, da Bahia e de Salvador, no meu caso particular, vem sendo sistematicamente desconstruída pelo ethos do liberalismo e do materialismo atuais. Não obstante, essas regiões trazem em si uma marcada herança que as transformam em baluartes das “coisas permanentes” que criaram o Brasil.

O Nordeste é uma região extremamente heterogênea. Obviamente há em todos os estados um fio condutor que torna possível a identificação, entretanto, a uniformidade nordestina atual é muito mais fruto de certo simplismo “sulista” ao enxergar a região. Até mesmo dentro de um estado como a Bahia a identidade “estadual” é complicada. O que une o baiano de Salvador e do Recôncavo ao baiano sertanejo do interior? Certamente o segundo tem muito mais vínculo cultural com o pernambucano do Sertão do que com o seu conterrâneo da capital. Não obstante, o vínculo é real e é fruto do denso e vivo legado deixado pelo 2 de Julho, a luta pela independência da Bahia que, de certo modo, unificou o território que sempre foi marcadamente diverso.

O Nordeste tem características comuns que perpassam os nove estados; diversas manifestações artísticas, uma elevada produção intelectual, o reconhecimento da sabedoria popular, ou seja, a clara compreensão de que a cultura não se reduz à pomposa erudição. Se a cultura é a encarnação da religião, como dissera T.S Eliot, no Nordeste essa máxima é facilmente compreendida. Se há certa unidade nordestina é porque esta é fruto da fé. Assim, pois, o Nordeste é o Nordeste Profundo, católico, aberto ao infinito porque confiante na ação de Deus e reconhecedor de que tudo aquilo que nos faz agora é herança. Os poetas, escritores, pintores, escultores, músicos etc, que surgiram nas nossas terras também são tomados por esse mesmo espírito que é maior do que os limites visíveis de uma paróquia ou de uma piedosa procissão de Corpus Christi. Vale frisar, ademais, que a grandeza nordestina está nessa abertura contagiosa que torna tanto o erudito da capital como a senhora devota do sertão unidos porque, cada um a seu modo, contemplam a realidade com o mesmo olhar, enxergam-se como herdeiros de algo.

Desde o alvorecer da sociedade técnica o Nordeste se encontra invadido por certa mentalidade materialista. O ethos liberal vem sistematicamente arrasando tudo aquilo que de mais caro há em nossas cidades. Alguns preferem reduzir o problema afirmando que é culpa do “american way of life” propagado pela música e pelo cinema. Isso não é totalmente verdadeiro. A questão mais profunda se encontra na desconstrução das elites culturais, isto é, sem paradigmas de erudição cultural o corpo todo perde o seu referencial. A solução não é fazer com que todos os nordestinos leiam Castro Alves ou apreciem as esculturas de Frei Agostinho da Piedade, isso seria cair no erro da educação moderna que confunde cultura com erudição de massa e onde se pressupõe que aquilo que emana do povo não tem valor cultural próprio. Entretanto, se nem todos precisam ser eruditos, é necessário que haja quem seja para que assim os outros consigam captar esse mesmo olhar de reconhecimento diante daquilo que foram a eles legados, seja o barroco baiano ou os sapientes conselhos da avó. Só assim, ou seja, através da retomada da cultura em sua totalidade, poderá o Nordeste manter viva não apenas a sua força como celeiro de manifestações artísticas, como também perpetuar para as próximas gerações a marcada sabedoria popular que resiste nos mais distantes rincões dos nove estados.

terça-feira, 10 de abril de 2012

As pontes destruídas na terra devastada


Pedro Ravazzano

O mundo moderno destruiu as pontes que se ligavam ao passado e que, consequentemente, possibilitavam o seu auto-reconhecimento. A crise da civilização ocidental é reflexo inevitável do rechaço sistemático ao passado que leva, naturalmente, à relação fetichista com o futuro e o progresso. Redescobrir, contudo, a grandeza do homem através da sua natural vocação é a forma pela qual a terra devastada pode ser semeada e reconstruída.

A experiência moral é o fundamento do intrínseco senso ético do homem. Entretanto, é obviamente impossível que um homem tenha acumulado todos os juízos possíveis no confrontamento com a realidade. Assim, ainda que seja a experiência moral a base do olhar crítico perante o real, esta bagagem não é estritamente individual, mas, isto sim, transmitida e legada pelos pais, antepassados, tradição. Destarte, o homem que se faz só se realiza mediante a experiência moral herdada. O se voltar para o passado livra, então, o indivíduo do moralismo enrijecido – que pretere a moral enquanto princípio aplicado – e possibilita a fuga de qualquer devaneio pelo qual o presente se simplifica na ante-sala do futuro.

A Civilização Ocidental sempre existiu nos corações dos homens por ela educados. O valor da experiência moral comunicada por todos os séculos sempre foi formativa. Assim, ainda que apenas um seletíssimo grupo tivesse acesso aos nomes mais eruditos e clássicos produzidos, todo o corpo da civilização bebia da força da experiência. A dinâmica interna do funcionamento da pedagogia civilizatória sempre precisou da clara distinção cultural e da sua especialização nos variados segmentos. Destarte, para que senhoras piedosas no interior do país tenham um forte senso moral, é necessário que na capital haja um grupo de eruditos que se reúna para debater a vivacidade experiencial da poesia de Ezra Pound e das telas de Gauguin.

Obviamente seria um total absurdo acreditar que a Civilização seria sinônimo de erudição universal. Isso, além de confundir cultura com uma das suas facetas, rebaixa a verdade contida nas manifestações culturais e morais que emanam de segmentos com pouco ou nenhum acesso ao arcabouço clássico. A grandeza civilizatória não se encontra, então, num projeto nonsense, mas sim no fato de que, ainda que apenas uma elite tenha formação erudita, todos os homens se reconhecem como dependentes das experiências transmitidas, herdadas, sejam de seus sábios avós ou da literatura grega.

Desta forma, salvar a Civilização não é um projeto a ser construído através de cartilhas ideológicas, sejam de “direita” ou “esquerda”. Em todos esses casos há, no máximo, a instrumentalização do passado sem nenhum reconhecimento da sua força atual, presente. Assim, o Ocidente precisa ir além de proteger as obras antigas, os altares barrocos e as telas renascentistas. Sem o vínculo realista – no sentido mais filosófico possível, ou seja, como a adequação do intelecto à realidade – o homem não consegue fazer a virada onde a contemplação transforma-se em experiência vivida no agora. Destarte, salvar a Civilização Ocidental é reconstruir as pontes que ligam o presente ao passado, por meio dessas verdades atemporais que fazem o eu.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Zeus na Semana Santa

Detalhe de "O Rapto de Proserpina", de Bernini, obra exposta na Galleria Borghese, local construído pelo Cardeal Scipione Caffarelli-Borghese que reúne a sua coleção de arte

O poderoso Zeus, vencedor da guerra contra os Titãs e vingador do ódio de seu pai Cronos, só foi destronado de sua fortaleza olímpica quando galileus incultos aportaram nas grandes cidades da Grécia. A queda olimpiana foi proporcional ao empenho dos cristãos em proclamar e testemunhar o Evangelho de Nosso Senhor. Ao mesmo tempo, o amor pela verdade, beleza e bondade, como ensinado pela Igreja a mando de Cristo, fez com que no cristianismo as heranças helênicas não sobrevivessem como velharias antigas, mas, isto sim, tivessem um espaço importante na formação do homem presente. Destarte, reconhecendo que só somos no hoje quando nos reconhecemos como membros de uma continuidade histórica, cultural, civilizacional, a Igreja é e sempre foi a grande protetora e promotora do legado clássico.

O que isso tem a ver com Semana Santa? Aparentemente quase nada, mas devemos pensar que tudo aquilo que somos, temos, sabemos, desde as obras de Hesíodo, passando pelas composições de Mozart, pelas telas de Rembrandt e, porque também não, até pelos escritos de Marx, Sartre e Nietzsche, se deve a força da experiência profunda que os primeiros discípulos de Cristo tiveram com a Sua morte e gloriosa Ressurreição! A Igreja conservou e construiu a Civilização não porque considerava o mundo antigo "feio" e "imoral", ou porque se sentia impelida por algum ideal utópico. Nós somos filhos da Ressurreição e foi esse evento que permitiu que os homens fossem plenamente homens!



sábado, 31 de março de 2012

T.S Eliot e Perseu

Pedro Ravazzano

Hoje assisti ao filme “Fúria de Titãs 2”, realmente muito bom como entretenimento e diversão. Entretanto, é interessante pensar como os mitos gregos, com mais de 2000 anos de existência, perduram na fantasia do homem moderno, ainda que este mesmo homem venha sistematicamente destruindo tudo aquilo que o liga ao seu passado. O sucesso do filme, além de consequência da excelente produção, se deve principalmente ao modo como atinge a imaginação mediante uma história que, ainda estando restrita a um determinado contexto histórico e cultural, impõe-se ao homem atual como realidade presente.

“Fúria de Titãs 2”, muito ao seu modo, trabalha a favor daquilo que T.S Eliot chamava de “coisas permanentes,” ou seja, realidades atemporais que unem o passado e o presente. Contudo, não seria correto compreendê-las como saudosismo nostálgico ou romantismo idílico. As coisas permanentes nos ajudam a conhecer o nosso eu porque através do reconhecimento do passado nos entendemos como homens. Assim, a partir do tempo – um segundo, um minuto, uma hora, um ano, um século – nos enxergamos como parte da comunidade de almas que lega aos seus filhos as experiências dos antigos. Tanto a “democracia dos mortos”, de G.K Chesterton como o pacto entre os mortos, os vivos e os que ainda nascerão, de Edmund Burke, partem da mesma constatação.

Hoje, infelizmente, vivemos numa era onde o passado é preterido pelo progresso. Esse rechaço leva consequentemente a uma vida marcadamente melancólica porque fundada no futuro inalcançável. A grandeza das coisas permanentes, ou da tradição quer queiram, é perceber que esses legados foram e são fundamentais na construção da civilização na qual nos encontramos. Assim, tanto o Velho e o Novo Mundo se unem naquilo que são as heranças comuns a todos os ocidentais. Como disse o Prof. Carlos Ramalhete “Tradição" é o que é trazido. E isso inclui o pagão Cícero, o luterano, Bach, o jansenista Pascal, o agnóstico Ortega y Gasset. Tudo isso é *trazido*, "traditum", pela nossa civilização, que foi construída pela Igreja e que é nosso patrimônio.” Ora, através da identificação do homem presente com o Perseu cinematográfico há, justamente, a superação do tempo, uma ponte é construída e o indivíduo em pleno século XXI se sente moralmente unido ao mítico herói grego.

Essa dinâmica só se torna possível através da “imaginação moral” como pensada por Russell Kirk e Edmund Burke. Destarte, como um ser moral, consegue o homem estruturar, por meio da consciência, metáforas que se relacionam com as suas experiências morais. As coisas permanentes são fatores basilares na construção dessa apreensão através do legado dos antigos. A origem natural do homem na família e na sociedade é um sinal da sua condição comunitária, isto é, membro de uma ordem na comunidade que reflete a mesma ordem que há na sua alma. Assim, zelar e perpetuar a memória de Perseu, Hades e Zeus é, como bem já sabiam os gregos, um modo de imortalizá-los. Entretanto, tal eternidade, que une o passado com presente, se torna real quando o homem se identifica com a força moral dessa herança. Compreender o valor da música de Bach, das obras de Ovídio, dos escritos de Dostoievski e das telas de Caravaggio, é, pois, a maneira de eternizar a experiência que as criaram e a forma pela qual os nossos filhos e netos conseguirão se reconhecer como homens integrados.

terça-feira, 27 de março de 2012

Quando Stálin louvou a "liberdade de expressão"


Pedro Ravazzano

A discussão a respeito do secularismo da PUC-SP está em alta e cresceu em proporção por conta do pronunciamento do Bispo emérito de Garulhos, Dom Luiz Bergonzini. Este defendeu que a Universidade, por ser católica, deve se fundamentar nos princípios cristãos. Não poucos foram os arautos da “liberdade” que se levantaram contra aquilo que consideraram a fala totalitária e anti-reflexiva do Prelado.

Para compreender as nuances e a profundidade dessa discussão devemos nos livrar do típico preconceito secularista que, direta ou indiretamente, toma conta da consciência do homem moderno. Antes de atentarmos para a famigerada “liberdade de expressão”, é crucial reconhecer que, de modo coerente, o catolicismo é parte integral e fundante da PUC. Assim, pois, como alguém em sã consciência pretende criticá-la por querer ser católica?

A liberdade de expressão não é “unidirecional”, do contrário estaríamos falando do sonho dos totalitários, ou seja, da liberdade de alguns poucos se pronunciarem enquanto muitos outros são sistematicamente taxados de “reacionários”, “fascistas”, “medievais” etc. Que qualquer homem comum goza de liberdade para defender o aborto, o casamento homossexual, eutanásia, é algo óbvio e cristalino. Não obstante, a realidade mostra-se terrivelmente deformada quando tais propostas não apenas são defendidas dentro de uma Universidade Católica como quando os seus defensores se sentem no direito de atentar contra a coerência mesma da Instituição. E tudo em nome da liberdade.

Em um dos artigos do estatuto da PUC-SP se diz que o cumprimento da sua missão “orienta-se, fundamentalmente, pelos princípios da doutrina e moral cristãs” e que “dentro desse espírito, assegura a liberdade de investigação, de ensino e de manifestação de pensamento, objetivando sempre a realização de sua função social, considerada a natureza e o interesse público de suas atividades.” Ora, estamos falando, portanto, de uma instituição católica e que se alicerça em claros paradigmas cristãos. Vale frisar, contudo, que o que é proposto não é a transformação da sacralidade acadêmica numa aula de catequese paroquial, mas sim que o ethos que sustenta a vida universitária é, obviamente, cristão.

Os revoltosos secularistas afirmam que se a PUC aderisse ao que a ela é pedido se distanciaria da essencial liberdade de expressão. Entretanto, a PUC-SP não é a única Universidade do mundo e, ao que me consta, ninguém ingressou nela sem saber o que representam as letras “P” e “C” que aparecem na sua sigla. Ademais, nunca haverá um ambiente universitário livre de influências externas, sejam elas políticas, religiosas, ideológicas – as nossas Universidades Federais que o digam. Assim, é natural que os homens que constroem as Academias – não, elas não caem do céu e nem brotam por partenogênese – estejam unidos por um projeto comum. Foi assim que surgiram as Universidades historicamente – criadas pela Igreja, diga-se de passagem – e foi assim que nasceram diversas instituições acadêmicas das mais variadas matizes; comunistas, luteranas, católicas, liberais, umbandistas etc.

Destarte, é assustador perceber como um grande número de jovens e pensadores não percebe a gravidade de tamanha incoerência. Tal grupo advoga o direito de estudar e lecionar numa instituição católica e de defender uma agenda moral que vai de encontro com aquilo que é defendido, racionalmente, pela Igreja, mas sequer aceita o direito da mesma instituição católica de querer ser católica e de se posicionar no mesmo aspecto. Trata-se, então, de uma liberdade de expressão enviesada e assustadoramente ideologizada. Devemos, entretanto, buscar viver realisticamente, só assim será possível nos afastar do desejo idealista que sempre ronda o coração.

segunda-feira, 26 de março de 2012

A carismática opção preferencial pelos pobres


Qual é a atualidade da opção preferencial pelos pobres? Eu a vi extremamente dinâmica e real na Missa de Pe. Marcelo Rossi. Obviamente que do ponto de vista litúrgico a Celebração é marcadamente abusiva. Não obstante, me permito um certo conforto fenomenológico para me distanciar desses erros visando olhar para algo mais fundamental e profundo.

O “Santuário da Mãe de Deus”, ou seja, o galpão até então abandonado na Zona Sul de São Paulo, é, para muitos freqüentadores, o oásis espiritual e a única forma concreta de vivenciar a fé católica em suas vidas. A esmagadora maioria dos fiéis que para lá vão são pobres, homens e mulheres esmagados pelo dia-a-dia da capital paulista e que, em sua maior parte, são confrontados com as recorrentes incursões protestantes. Enquanto que em seus bairros pululam a quantidade de seitas pentecostais, eles optam por peregrinar do subúrbio paulistano até a “Missa de Pe. Marcelo”.

A grandeza da iniciativa do Sacerdote, sem esquecer dos objetivos erros litúrgicos que são freqüentes nas celebrações, está na sua consciência de que sem o uso de uma linguagem popular – sem ser populesca – e acessível – sem ser menos verdadeira – uma parte considerável dos católicos de classes baixas não poderiam ter a experiência real de Cristo em sua existência. O que de belo há na Teologia da Libertação, por exemplo, é o reconhecimento de que Jesus não é apenas uma idéia e que a intimidade com Ele não se faz unicamente de modo ritualístico. A experiência com Cristo muda concretamente a vida do cristão que nEle crê.

Pe. Marcelo, contudo, se afasta da Teologia da Libertação quando propõe não apenas a intimidade com Jesus na realidade do fiel, mas sim que essa transformação se faz mediante a vida de oração, sacramental e devocional. A transformação causada por Cristo é reflexo da caminhada espiritual, transcendente, que volta os olhos para os céus.

Assim, pois, no galpão abandonado eu vi uma vivacidade da experiência religiosa e da abertura de homens e mulheres a Cristo. Pobres que caminham até a Missa levando para o altar os sofrimentos e desesperos de uma vida marcada pelo falta de sentido. Ali, em meio a cantos e banhos de água benta, eles enxergam uma brecha do esplendor que os espera na morada celeste.

sábado, 10 de março de 2012

Os modernamente tradicionais

Todos já sabem da polêmica carta que alguns sacerdotes escreveram contra Pe. Paulo Ricardo! Todos também sabem que essa iniciativa é tão baixa quanto desprovida de qualquer lógica - como se acusa um sacerdote unicamente por ser...ortodoxo? Entretanto, o que realmente não esperava foram algumas reações de jovens católicos no - ou de - facebook.

Não poucos conclamaram uma revolta em frente à cúria da Arquidiocese de Cuiabá. Pera lá! A Igreja agora é uma democracia? Mas não fora este o pressuposto usado pelos Padres revoltosos que escreveram a carta? Não tinham, justamente, como intenção pressionar o episcopado para punir Pe. Paulo Ricardo? Ora, a mentalidade revolucionária se mostra tão fortemente presente nos paradigmas atuais que para defender aquilo que de bom, justo e verdadeiro Pe. Paulo Ricardo fala a favor alguns seguidores repetem os mesmos métodos antitradicionais, isto é, revolucionários, dos seus contrários.

Infelizmente, contudo, não é uma situação atípica, mas, ao contrário, recorrente. Um número considerável de católicos, especialmente na internet, tem uma crença terrivelmente estranha na "Tradição" - entendida como uma idéia vaga, quase sempre simplificada ao que, de fato, é a tradição (com T minúsculo) - porque infalsificável. Explico-me! A pessoa que se coloca contrária, ou ao menos não simpatizante, com as causas "da Tradição", é reduzida rapidamente a inimigo da Igreja e de Cristo. O tradicionalismo, assim, se transforma numa doutrina irrefutável como o marxismo e a psicanálise. Qualquer um que se opõe a tal paradigma, e não ao que de fato é a Tradição, é acusado de ser hereticamente modernista. Com isso há o cenário adequado para se edificar o típico pensamento de seita, que é, do mesmo modo, moderno. Surgem disso jovens que tradicionalmente defendem a doutrina, mas que modernamente defendem o protesto na Cúria!