terça-feira, 10 de abril de 2012

As pontes destruídas na terra devastada


Pedro Ravazzano

O mundo moderno destruiu as pontes que se ligavam ao passado e que, consequentemente, possibilitavam o seu auto-reconhecimento. A crise da civilização ocidental é reflexo inevitável do rechaço sistemático ao passado que leva, naturalmente, à relação fetichista com o futuro e o progresso. Redescobrir, contudo, a grandeza do homem através da sua natural vocação é a forma pela qual a terra devastada pode ser semeada e reconstruída.

A experiência moral é o fundamento do intrínseco senso ético do homem. Entretanto, é obviamente impossível que um homem tenha acumulado todos os juízos possíveis no confrontamento com a realidade. Assim, ainda que seja a experiência moral a base do olhar crítico perante o real, esta bagagem não é estritamente individual, mas, isto sim, transmitida e legada pelos pais, antepassados, tradição. Destarte, o homem que se faz só se realiza mediante a experiência moral herdada. O se voltar para o passado livra, então, o indivíduo do moralismo enrijecido – que pretere a moral enquanto princípio aplicado – e possibilita a fuga de qualquer devaneio pelo qual o presente se simplifica na ante-sala do futuro.

A Civilização Ocidental sempre existiu nos corações dos homens por ela educados. O valor da experiência moral comunicada por todos os séculos sempre foi formativa. Assim, ainda que apenas um seletíssimo grupo tivesse acesso aos nomes mais eruditos e clássicos produzidos, todo o corpo da civilização bebia da força da experiência. A dinâmica interna do funcionamento da pedagogia civilizatória sempre precisou da clara distinção cultural e da sua especialização nos variados segmentos. Destarte, para que senhoras piedosas no interior do país tenham um forte senso moral, é necessário que na capital haja um grupo de eruditos que se reúna para debater a vivacidade experiencial da poesia de Ezra Pound e das telas de Gauguin.

Obviamente seria um total absurdo acreditar que a Civilização seria sinônimo de erudição universal. Isso, além de confundir cultura com uma das suas facetas, rebaixa a verdade contida nas manifestações culturais e morais que emanam de segmentos com pouco ou nenhum acesso ao arcabouço clássico. A grandeza civilizatória não se encontra, então, num projeto nonsense, mas sim no fato de que, ainda que apenas uma elite tenha formação erudita, todos os homens se reconhecem como dependentes das experiências transmitidas, herdadas, sejam de seus sábios avós ou da literatura grega.

Desta forma, salvar a Civilização não é um projeto a ser construído através de cartilhas ideológicas, sejam de “direita” ou “esquerda”. Em todos esses casos há, no máximo, a instrumentalização do passado sem nenhum reconhecimento da sua força atual, presente. Assim, o Ocidente precisa ir além de proteger as obras antigas, os altares barrocos e as telas renascentistas. Sem o vínculo realista – no sentido mais filosófico possível, ou seja, como a adequação do intelecto à realidade – o homem não consegue fazer a virada onde a contemplação transforma-se em experiência vivida no agora. Destarte, salvar a Civilização Ocidental é reconstruir as pontes que ligam o presente ao passado, por meio dessas verdades atemporais que fazem o eu.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Zeus na Semana Santa

Detalhe de "O Rapto de Proserpina", de Bernini, obra exposta na Galleria Borghese, local construído pelo Cardeal Scipione Caffarelli-Borghese que reúne a sua coleção de arte

O poderoso Zeus, vencedor da guerra contra os Titãs e vingador do ódio de seu pai Cronos, só foi destronado de sua fortaleza olímpica quando galileus incultos aportaram nas grandes cidades da Grécia. A queda olimpiana foi proporcional ao empenho dos cristãos em proclamar e testemunhar o Evangelho de Nosso Senhor. Ao mesmo tempo, o amor pela verdade, beleza e bondade, como ensinado pela Igreja a mando de Cristo, fez com que no cristianismo as heranças helênicas não sobrevivessem como velharias antigas, mas, isto sim, tivessem um espaço importante na formação do homem presente. Destarte, reconhecendo que só somos no hoje quando nos reconhecemos como membros de uma continuidade histórica, cultural, civilizacional, a Igreja é e sempre foi a grande protetora e promotora do legado clássico.

O que isso tem a ver com Semana Santa? Aparentemente quase nada, mas devemos pensar que tudo aquilo que somos, temos, sabemos, desde as obras de Hesíodo, passando pelas composições de Mozart, pelas telas de Rembrandt e, porque também não, até pelos escritos de Marx, Sartre e Nietzsche, se deve a força da experiência profunda que os primeiros discípulos de Cristo tiveram com a Sua morte e gloriosa Ressurreição! A Igreja conservou e construiu a Civilização não porque considerava o mundo antigo "feio" e "imoral", ou porque se sentia impelida por algum ideal utópico. Nós somos filhos da Ressurreição e foi esse evento que permitiu que os homens fossem plenamente homens!



sábado, 31 de março de 2012

T.S Eliot e Perseu

Pedro Ravazzano

Hoje assisti ao filme “Fúria de Titãs 2”, realmente muito bom como entretenimento e diversão. Entretanto, é interessante pensar como os mitos gregos, com mais de 2000 anos de existência, perduram na fantasia do homem moderno, ainda que este mesmo homem venha sistematicamente destruindo tudo aquilo que o liga ao seu passado. O sucesso do filme, além de consequência da excelente produção, se deve principalmente ao modo como atinge a imaginação mediante uma história que, ainda estando restrita a um determinado contexto histórico e cultural, impõe-se ao homem atual como realidade presente.

“Fúria de Titãs 2”, muito ao seu modo, trabalha a favor daquilo que T.S Eliot chamava de “coisas permanentes,” ou seja, realidades atemporais que unem o passado e o presente. Contudo, não seria correto compreendê-las como saudosismo nostálgico ou romantismo idílico. As coisas permanentes nos ajudam a conhecer o nosso eu porque através do reconhecimento do passado nos entendemos como homens. Assim, a partir do tempo – um segundo, um minuto, uma hora, um ano, um século – nos enxergamos como parte da comunidade de almas que lega aos seus filhos as experiências dos antigos. Tanto a “democracia dos mortos”, de G.K Chesterton como o pacto entre os mortos, os vivos e os que ainda nascerão, de Edmund Burke, partem da mesma constatação.

Hoje, infelizmente, vivemos numa era onde o passado é preterido pelo progresso. Esse rechaço leva consequentemente a uma vida marcadamente melancólica porque fundada no futuro inalcançável. A grandeza das coisas permanentes, ou da tradição quer queiram, é perceber que esses legados foram e são fundamentais na construção da civilização na qual nos encontramos. Assim, tanto o Velho e o Novo Mundo se unem naquilo que são as heranças comuns a todos os ocidentais. Como disse o Prof. Carlos Ramalhete “Tradição" é o que é trazido. E isso inclui o pagão Cícero, o luterano, Bach, o jansenista Pascal, o agnóstico Ortega y Gasset. Tudo isso é *trazido*, "traditum", pela nossa civilização, que foi construída pela Igreja e que é nosso patrimônio.” Ora, através da identificação do homem presente com o Perseu cinematográfico há, justamente, a superação do tempo, uma ponte é construída e o indivíduo em pleno século XXI se sente moralmente unido ao mítico herói grego.

Essa dinâmica só se torna possível através da “imaginação moral” como pensada por Russell Kirk e Edmund Burke. Destarte, como um ser moral, consegue o homem estruturar, por meio da consciência, metáforas que se relacionam com as suas experiências morais. As coisas permanentes são fatores basilares na construção dessa apreensão através do legado dos antigos. A origem natural do homem na família e na sociedade é um sinal da sua condição comunitária, isto é, membro de uma ordem na comunidade que reflete a mesma ordem que há na sua alma. Assim, zelar e perpetuar a memória de Perseu, Hades e Zeus é, como bem já sabiam os gregos, um modo de imortalizá-los. Entretanto, tal eternidade, que une o passado com presente, se torna real quando o homem se identifica com a força moral dessa herança. Compreender o valor da música de Bach, das obras de Ovídio, dos escritos de Dostoievski e das telas de Caravaggio, é, pois, a maneira de eternizar a experiência que as criaram e a forma pela qual os nossos filhos e netos conseguirão se reconhecer como homens integrados.

terça-feira, 27 de março de 2012

Quando Stálin louvou a "liberdade de expressão"


Pedro Ravazzano

A discussão a respeito do secularismo da PUC-SP está em alta e cresceu em proporção por conta do pronunciamento do Bispo emérito de Garulhos, Dom Luiz Bergonzini. Este defendeu que a Universidade, por ser católica, deve se fundamentar nos princípios cristãos. Não poucos foram os arautos da “liberdade” que se levantaram contra aquilo que consideraram a fala totalitária e anti-reflexiva do Prelado.

Para compreender as nuances e a profundidade dessa discussão devemos nos livrar do típico preconceito secularista que, direta ou indiretamente, toma conta da consciência do homem moderno. Antes de atentarmos para a famigerada “liberdade de expressão”, é crucial reconhecer que, de modo coerente, o catolicismo é parte integral e fundante da PUC. Assim, pois, como alguém em sã consciência pretende criticá-la por querer ser católica?

A liberdade de expressão não é “unidirecional”, do contrário estaríamos falando do sonho dos totalitários, ou seja, da liberdade de alguns poucos se pronunciarem enquanto muitos outros são sistematicamente taxados de “reacionários”, “fascistas”, “medievais” etc. Que qualquer homem comum goza de liberdade para defender o aborto, o casamento homossexual, eutanásia, é algo óbvio e cristalino. Não obstante, a realidade mostra-se terrivelmente deformada quando tais propostas não apenas são defendidas dentro de uma Universidade Católica como quando os seus defensores se sentem no direito de atentar contra a coerência mesma da Instituição. E tudo em nome da liberdade.

Em um dos artigos do estatuto da PUC-SP se diz que o cumprimento da sua missão “orienta-se, fundamentalmente, pelos princípios da doutrina e moral cristãs” e que “dentro desse espírito, assegura a liberdade de investigação, de ensino e de manifestação de pensamento, objetivando sempre a realização de sua função social, considerada a natureza e o interesse público de suas atividades.” Ora, estamos falando, portanto, de uma instituição católica e que se alicerça em claros paradigmas cristãos. Vale frisar, contudo, que o que é proposto não é a transformação da sacralidade acadêmica numa aula de catequese paroquial, mas sim que o ethos que sustenta a vida universitária é, obviamente, cristão.

Os revoltosos secularistas afirmam que se a PUC aderisse ao que a ela é pedido se distanciaria da essencial liberdade de expressão. Entretanto, a PUC-SP não é a única Universidade do mundo e, ao que me consta, ninguém ingressou nela sem saber o que representam as letras “P” e “C” que aparecem na sua sigla. Ademais, nunca haverá um ambiente universitário livre de influências externas, sejam elas políticas, religiosas, ideológicas – as nossas Universidades Federais que o digam. Assim, é natural que os homens que constroem as Academias – não, elas não caem do céu e nem brotam por partenogênese – estejam unidos por um projeto comum. Foi assim que surgiram as Universidades historicamente – criadas pela Igreja, diga-se de passagem – e foi assim que nasceram diversas instituições acadêmicas das mais variadas matizes; comunistas, luteranas, católicas, liberais, umbandistas etc.

Destarte, é assustador perceber como um grande número de jovens e pensadores não percebe a gravidade de tamanha incoerência. Tal grupo advoga o direito de estudar e lecionar numa instituição católica e de defender uma agenda moral que vai de encontro com aquilo que é defendido, racionalmente, pela Igreja, mas sequer aceita o direito da mesma instituição católica de querer ser católica e de se posicionar no mesmo aspecto. Trata-se, então, de uma liberdade de expressão enviesada e assustadoramente ideologizada. Devemos, entretanto, buscar viver realisticamente, só assim será possível nos afastar do desejo idealista que sempre ronda o coração.

segunda-feira, 26 de março de 2012

A carismática opção preferencial pelos pobres


Qual é a atualidade da opção preferencial pelos pobres? Eu a vi extremamente dinâmica e real na Missa de Pe. Marcelo Rossi. Obviamente que do ponto de vista litúrgico a Celebração é marcadamente abusiva. Não obstante, me permito um certo conforto fenomenológico para me distanciar desses erros visando olhar para algo mais fundamental e profundo.

O “Santuário da Mãe de Deus”, ou seja, o galpão até então abandonado na Zona Sul de São Paulo, é, para muitos freqüentadores, o oásis espiritual e a única forma concreta de vivenciar a fé católica em suas vidas. A esmagadora maioria dos fiéis que para lá vão são pobres, homens e mulheres esmagados pelo dia-a-dia da capital paulista e que, em sua maior parte, são confrontados com as recorrentes incursões protestantes. Enquanto que em seus bairros pululam a quantidade de seitas pentecostais, eles optam por peregrinar do subúrbio paulistano até a “Missa de Pe. Marcelo”.

A grandeza da iniciativa do Sacerdote, sem esquecer dos objetivos erros litúrgicos que são freqüentes nas celebrações, está na sua consciência de que sem o uso de uma linguagem popular – sem ser populesca – e acessível – sem ser menos verdadeira – uma parte considerável dos católicos de classes baixas não poderiam ter a experiência real de Cristo em sua existência. O que de belo há na Teologia da Libertação, por exemplo, é o reconhecimento de que Jesus não é apenas uma idéia e que a intimidade com Ele não se faz unicamente de modo ritualístico. A experiência com Cristo muda concretamente a vida do cristão que nEle crê.

Pe. Marcelo, contudo, se afasta da Teologia da Libertação quando propõe não apenas a intimidade com Jesus na realidade do fiel, mas sim que essa transformação se faz mediante a vida de oração, sacramental e devocional. A transformação causada por Cristo é reflexo da caminhada espiritual, transcendente, que volta os olhos para os céus.

Assim, pois, no galpão abandonado eu vi uma vivacidade da experiência religiosa e da abertura de homens e mulheres a Cristo. Pobres que caminham até a Missa levando para o altar os sofrimentos e desesperos de uma vida marcada pelo falta de sentido. Ali, em meio a cantos e banhos de água benta, eles enxergam uma brecha do esplendor que os espera na morada celeste.

sábado, 10 de março de 2012

Os modernamente tradicionais

Todos já sabem da polêmica carta que alguns sacerdotes escreveram contra Pe. Paulo Ricardo! Todos também sabem que essa iniciativa é tão baixa quanto desprovida de qualquer lógica - como se acusa um sacerdote unicamente por ser...ortodoxo? Entretanto, o que realmente não esperava foram algumas reações de jovens católicos no - ou de - facebook.

Não poucos conclamaram uma revolta em frente à cúria da Arquidiocese de Cuiabá. Pera lá! A Igreja agora é uma democracia? Mas não fora este o pressuposto usado pelos Padres revoltosos que escreveram a carta? Não tinham, justamente, como intenção pressionar o episcopado para punir Pe. Paulo Ricardo? Ora, a mentalidade revolucionária se mostra tão fortemente presente nos paradigmas atuais que para defender aquilo que de bom, justo e verdadeiro Pe. Paulo Ricardo fala a favor alguns seguidores repetem os mesmos métodos antitradicionais, isto é, revolucionários, dos seus contrários.

Infelizmente, contudo, não é uma situação atípica, mas, ao contrário, recorrente. Um número considerável de católicos, especialmente na internet, tem uma crença terrivelmente estranha na "Tradição" - entendida como uma idéia vaga, quase sempre simplificada ao que, de fato, é a tradição (com T minúsculo) - porque infalsificável. Explico-me! A pessoa que se coloca contrária, ou ao menos não simpatizante, com as causas "da Tradição", é reduzida rapidamente a inimigo da Igreja e de Cristo. O tradicionalismo, assim, se transforma numa doutrina irrefutável como o marxismo e a psicanálise. Qualquer um que se opõe a tal paradigma, e não ao que de fato é a Tradição, é acusado de ser hereticamente modernista. Com isso há o cenário adequado para se edificar o típico pensamento de seita, que é, do mesmo modo, moderno. Surgem disso jovens que tradicionalmente defendem a doutrina, mas que modernamente defendem o protesto na Cúria!

quinta-feira, 1 de março de 2012

"Religião e Literatura" - T.S Eliot

Amritbir Kaur

Tradução de Pedro Ravazzano
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O ensaio "Religião e Literatura", escrito por T. S. Eliot, pode ser encarado como uma reação contra a tradição de ver uma obra literária a partir do ponto de vista puramente estético. Muitos críticos, especialmente os New Critics, acreditavam que a literatura não poderia ser medida pelo seu significado ético e teológico. Mas T.S. Eliot tinha a opinião de que apenas o criticismo literário não era suficiente. Depois de uma obra literária ser vista como um obra da imaginação, também deveria ser considerada a partir de uma ótica ética e teológica. Na nossa época isso é ainda mais importante, justamente porque não há acordo sobre valores éticos e teológicos. Para conhecer a grandeza de uma obra literária, o trabalho da imaginação deve ser apreciado a partir de ângulos éticos e teológicos.

Embora a literatura tenha sido julgada a partir de padrões morais, ainda que tenha sido acreditado por muito tempo que não existe uma relação entre religião e literatura, T.S. Eliot considerava que existia e deveria ser uma relação entre a literatura e a religião. Em seu ensaio, "Religião e Literatura", ele discutiu a aplicação da religião à crítica literária. De acordo com Eliot o ensaio não é sobre literatura religiosa mas, dentro de uma gradação, menciona três tipos de literatura religiosa. Em primeiro lugar, a literatura religiosa, que tem qualidades literárias próprias. Por exemplo, a versão autorizada da Bíblia ou as obras de Jeremy Taylor. Essas pessoas, que descrevem a Bíblia apenas como uma obra literária e falam de sua influência sobre a literatura inglesa, tem sido referidas como "parasitas". De acordo com Eliot, a Bíblia deve ser considerada como "palavra de Deus". Em segundo lugar, ele menciona a poesia devocional. Um poeta devocional, diz ele, não é o único que trata do assunto no espírito religioso, mas um dos que tratam de parte do assunto. Eliot considera poetas como Spencer, Hopkins, Vaughan e Southwell poetas menores, enquanto Dante, Corneille e Racine como grandes poetas. Em terceiro lugar, afirma, são as obras de autores que querem avançar a causa da religião. Estes tipos de obras estão sob a propaganda, por exemplo, “Man who was Thursday” e "Padre Brown" de Chesterton.

Eliot lamenta a irracionalidade por detrás da separação dos nosso julgamentos literários e religiosos. Exemplificando a literatura por meio do romance (que tem uma ascendência sobre um maior número), ele diz que essa secularização foi um processo gradual durante os últimos trezentos anos. Desde Defoe o processo tem sido contínuo. O processo pode ser dividido em três fases. Na primeira fase caem os romances em que Fé é um dado adquirido e a omitem da imagem da vida. Os autores pertencentes a esta fase são: Fielding e Thackeray. Na segunda fase dos romances a Fé é posta em dúvida, sofre com tensões e é controvertida. Inclui autores como George Eliot, George Meredith e Thomas Hardy. A terceira fase é a idade em que estamos vivendo e todos os romancistas contemporâneos estão incluídos, excepto James Joyce.

Esta secularização é evidente na forma como um leitor lê um romance – sem se preocupar com o efeito que tem sobre o comportamento de cada um. O fator comum entre religião e literatura é o comportamento. Nossa religião nos impõe a ética, o julgamento e a crítica de nós mesmos e de nossos comportamentos com os nossos próximos. A Literatura também tem um efeito no nosso comportamento. Quaisquer que sejam as intenções dos autores, suas obras nos afetam inteiramente como seres humanos. Mesmo quando lemos uma obra literária apenas para fins estéticos (mantendo nossa ética e moralidade em um compartimento separado), ela afeta-nos como seres humanos, querendo ou não.

Leitores modernos perderam seus valores religiosos. Eles não têm a sabedoria que os torna capazes de obter o conhecimento da vida, comparando uma opinião com a outra. Além disso, o conhecimento da vida que obtemos da ficção não é da própria vida, mas é o conhecimento de outras pessoas do conhecimento da vida. O que agrava o problema é que existem muitos livros e o leitor é confuso. Apenas eminentes escritores modernos causam um efeito melhor, por outro lado, os escritores contemporâneos causam um efeito degradante. O leitor deve ter em mente duas coisas - 'o que nós gostamos ", ou seja, aquilo que realmente sinto, e' o que temos de gostar", ou seja, entender as suas deficiências. Como homens honestos, não devemos supor que o que nós gostamos é o que devemos desejar e como cristãos honestos devemos assumir o que fazemos como o que devemos gostar.

Eliot está preocupado, sobretudo, com a secularização da literatura; não há preocupação com as coisas do espírito; simplesmente é esquecido ou ignorando o primado do sobrenatural sobre o mundo natural. A maioria dos livros são escritos por pessoas que não têm uma real crença na ordem sobrenatural. Além disso, são ignorantes do fato de que o mundo ainda tem muitos crentes. Faz parte do dever dos cristãos o uso de certos critérios para além dos usadas pelo resto do mundo. Se um cristão está consciente do fosso entre ele e literatura contemporânea, ele não será prejudicado por ela.

A maioria das pessoas consideram males econômicos como a causa de todos os problemas e apelam para drásticas mudanças econômicas, enquanto outras querem mais ou menos drásticas mudanças sociais. Ambos os tipos de mudanças se opõem, mas um ponto em comum é que as duas defendem um pressuposto de secularização. Alguns querem o indivíduo subordinando seus interesses aos do Estado. Eliot discorda dos que assim pensam. Ele não se queixa da literatura moderna porque é imoral ou amoral, mas porque ela instiga o homem a descambar por todo o tipo de experiência, a não ficar para trás, perdendo qualquer novidade. Um leitor cristão deve adicionar à crítica literária seguida pelo resto do mundo padrões éticos e teológicos.