segunda-feira, 26 de março de 2012

A carismática opção preferencial pelos pobres


Qual é a atualidade da opção preferencial pelos pobres? Eu a vi extremamente dinâmica e real na Missa de Pe. Marcelo Rossi. Obviamente que do ponto de vista litúrgico a Celebração é marcadamente abusiva. Não obstante, me permito um certo conforto fenomenológico para me distanciar desses erros visando olhar para algo mais fundamental e profundo.

O “Santuário da Mãe de Deus”, ou seja, o galpão até então abandonado na Zona Sul de São Paulo, é, para muitos freqüentadores, o oásis espiritual e a única forma concreta de vivenciar a fé católica em suas vidas. A esmagadora maioria dos fiéis que para lá vão são pobres, homens e mulheres esmagados pelo dia-a-dia da capital paulista e que, em sua maior parte, são confrontados com as recorrentes incursões protestantes. Enquanto que em seus bairros pululam a quantidade de seitas pentecostais, eles optam por peregrinar do subúrbio paulistano até a “Missa de Pe. Marcelo”.

A grandeza da iniciativa do Sacerdote, sem esquecer dos objetivos erros litúrgicos que são freqüentes nas celebrações, está na sua consciência de que sem o uso de uma linguagem popular – sem ser populesca – e acessível – sem ser menos verdadeira – uma parte considerável dos católicos de classes baixas não poderiam ter a experiência real de Cristo em sua existência. O que de belo há na Teologia da Libertação, por exemplo, é o reconhecimento de que Jesus não é apenas uma idéia e que a intimidade com Ele não se faz unicamente de modo ritualístico. A experiência com Cristo muda concretamente a vida do cristão que nEle crê.

Pe. Marcelo, contudo, se afasta da Teologia da Libertação quando propõe não apenas a intimidade com Jesus na realidade do fiel, mas sim que essa transformação se faz mediante a vida de oração, sacramental e devocional. A transformação causada por Cristo é reflexo da caminhada espiritual, transcendente, que volta os olhos para os céus.

Assim, pois, no galpão abandonado eu vi uma vivacidade da experiência religiosa e da abertura de homens e mulheres a Cristo. Pobres que caminham até a Missa levando para o altar os sofrimentos e desesperos de uma vida marcada pelo falta de sentido. Ali, em meio a cantos e banhos de água benta, eles enxergam uma brecha do esplendor que os espera na morada celeste.

sábado, 10 de março de 2012

Os modernamente tradicionais

Todos já sabem da polêmica carta que alguns sacerdotes escreveram contra Pe. Paulo Ricardo! Todos também sabem que essa iniciativa é tão baixa quanto desprovida de qualquer lógica - como se acusa um sacerdote unicamente por ser...ortodoxo? Entretanto, o que realmente não esperava foram algumas reações de jovens católicos no - ou de - facebook.

Não poucos conclamaram uma revolta em frente à cúria da Arquidiocese de Cuiabá. Pera lá! A Igreja agora é uma democracia? Mas não fora este o pressuposto usado pelos Padres revoltosos que escreveram a carta? Não tinham, justamente, como intenção pressionar o episcopado para punir Pe. Paulo Ricardo? Ora, a mentalidade revolucionária se mostra tão fortemente presente nos paradigmas atuais que para defender aquilo que de bom, justo e verdadeiro Pe. Paulo Ricardo fala a favor alguns seguidores repetem os mesmos métodos antitradicionais, isto é, revolucionários, dos seus contrários.

Infelizmente, contudo, não é uma situação atípica, mas, ao contrário, recorrente. Um número considerável de católicos, especialmente na internet, tem uma crença terrivelmente estranha na "Tradição" - entendida como uma idéia vaga, quase sempre simplificada ao que, de fato, é a tradição (com T minúsculo) - porque infalsificável. Explico-me! A pessoa que se coloca contrária, ou ao menos não simpatizante, com as causas "da Tradição", é reduzida rapidamente a inimigo da Igreja e de Cristo. O tradicionalismo, assim, se transforma numa doutrina irrefutável como o marxismo e a psicanálise. Qualquer um que se opõe a tal paradigma, e não ao que de fato é a Tradição, é acusado de ser hereticamente modernista. Com isso há o cenário adequado para se edificar o típico pensamento de seita, que é, do mesmo modo, moderno. Surgem disso jovens que tradicionalmente defendem a doutrina, mas que modernamente defendem o protesto na Cúria!

quinta-feira, 1 de março de 2012

"Religião e Literatura" - T.S Eliot

Amritbir Kaur

Tradução de Pedro Ravazzano
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O ensaio "Religião e Literatura", escrito por T. S. Eliot, pode ser encarado como uma reação contra a tradição de ver uma obra literária a partir do ponto de vista puramente estético. Muitos críticos, especialmente os New Critics, acreditavam que a literatura não poderia ser medida pelo seu significado ético e teológico. Mas T.S. Eliot tinha a opinião de que apenas o criticismo literário não era suficiente. Depois de uma obra literária ser vista como um obra da imaginação, também deveria ser considerada a partir de uma ótica ética e teológica. Na nossa época isso é ainda mais importante, justamente porque não há acordo sobre valores éticos e teológicos. Para conhecer a grandeza de uma obra literária, o trabalho da imaginação deve ser apreciado a partir de ângulos éticos e teológicos.

Embora a literatura tenha sido julgada a partir de padrões morais, ainda que tenha sido acreditado por muito tempo que não existe uma relação entre religião e literatura, T.S. Eliot considerava que existia e deveria ser uma relação entre a literatura e a religião. Em seu ensaio, "Religião e Literatura", ele discutiu a aplicação da religião à crítica literária. De acordo com Eliot o ensaio não é sobre literatura religiosa mas, dentro de uma gradação, menciona três tipos de literatura religiosa. Em primeiro lugar, a literatura religiosa, que tem qualidades literárias próprias. Por exemplo, a versão autorizada da Bíblia ou as obras de Jeremy Taylor. Essas pessoas, que descrevem a Bíblia apenas como uma obra literária e falam de sua influência sobre a literatura inglesa, tem sido referidas como "parasitas". De acordo com Eliot, a Bíblia deve ser considerada como "palavra de Deus". Em segundo lugar, ele menciona a poesia devocional. Um poeta devocional, diz ele, não é o único que trata do assunto no espírito religioso, mas um dos que tratam de parte do assunto. Eliot considera poetas como Spencer, Hopkins, Vaughan e Southwell poetas menores, enquanto Dante, Corneille e Racine como grandes poetas. Em terceiro lugar, afirma, são as obras de autores que querem avançar a causa da religião. Estes tipos de obras estão sob a propaganda, por exemplo, “Man who was Thursday” e "Padre Brown" de Chesterton.

Eliot lamenta a irracionalidade por detrás da separação dos nosso julgamentos literários e religiosos. Exemplificando a literatura por meio do romance (que tem uma ascendência sobre um maior número), ele diz que essa secularização foi um processo gradual durante os últimos trezentos anos. Desde Defoe o processo tem sido contínuo. O processo pode ser dividido em três fases. Na primeira fase caem os romances em que Fé é um dado adquirido e a omitem da imagem da vida. Os autores pertencentes a esta fase são: Fielding e Thackeray. Na segunda fase dos romances a Fé é posta em dúvida, sofre com tensões e é controvertida. Inclui autores como George Eliot, George Meredith e Thomas Hardy. A terceira fase é a idade em que estamos vivendo e todos os romancistas contemporâneos estão incluídos, excepto James Joyce.

Esta secularização é evidente na forma como um leitor lê um romance – sem se preocupar com o efeito que tem sobre o comportamento de cada um. O fator comum entre religião e literatura é o comportamento. Nossa religião nos impõe a ética, o julgamento e a crítica de nós mesmos e de nossos comportamentos com os nossos próximos. A Literatura também tem um efeito no nosso comportamento. Quaisquer que sejam as intenções dos autores, suas obras nos afetam inteiramente como seres humanos. Mesmo quando lemos uma obra literária apenas para fins estéticos (mantendo nossa ética e moralidade em um compartimento separado), ela afeta-nos como seres humanos, querendo ou não.

Leitores modernos perderam seus valores religiosos. Eles não têm a sabedoria que os torna capazes de obter o conhecimento da vida, comparando uma opinião com a outra. Além disso, o conhecimento da vida que obtemos da ficção não é da própria vida, mas é o conhecimento de outras pessoas do conhecimento da vida. O que agrava o problema é que existem muitos livros e o leitor é confuso. Apenas eminentes escritores modernos causam um efeito melhor, por outro lado, os escritores contemporâneos causam um efeito degradante. O leitor deve ter em mente duas coisas - 'o que nós gostamos ", ou seja, aquilo que realmente sinto, e' o que temos de gostar", ou seja, entender as suas deficiências. Como homens honestos, não devemos supor que o que nós gostamos é o que devemos desejar e como cristãos honestos devemos assumir o que fazemos como o que devemos gostar.

Eliot está preocupado, sobretudo, com a secularização da literatura; não há preocupação com as coisas do espírito; simplesmente é esquecido ou ignorando o primado do sobrenatural sobre o mundo natural. A maioria dos livros são escritos por pessoas que não têm uma real crença na ordem sobrenatural. Além disso, são ignorantes do fato de que o mundo ainda tem muitos crentes. Faz parte do dever dos cristãos o uso de certos critérios para além dos usadas pelo resto do mundo. Se um cristão está consciente do fosso entre ele e literatura contemporânea, ele não será prejudicado por ela.

A maioria das pessoas consideram males econômicos como a causa de todos os problemas e apelam para drásticas mudanças econômicas, enquanto outras querem mais ou menos drásticas mudanças sociais. Ambos os tipos de mudanças se opõem, mas um ponto em comum é que as duas defendem um pressuposto de secularização. Alguns querem o indivíduo subordinando seus interesses aos do Estado. Eliot discorda dos que assim pensam. Ele não se queixa da literatura moderna porque é imoral ou amoral, mas porque ela instiga o homem a descambar por todo o tipo de experiência, a não ficar para trás, perdendo qualquer novidade. Um leitor cristão deve adicionar à crítica literária seguida pelo resto do mundo padrões éticos e teológicos.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

O real e o ideal na Teologia da Libertação

Pedro Ravazzano

A Teologia da Libertação (TL) tem algo de bom? Existe alguma faceta própria dela que seja realmente digna de ser valorizada? Essas são perguntas que, muitas vezes, passam longe da cabeça da maioria dos católicos comprometidos e conscientes da problemática da Igreja na América Latina nos últimos trinta anos. Entretanto, são questionamentos que devem nos levar a buscar aquilo que é dado pela realidade, isto é, abrir mão de visões distorcidas, quiçá românticas do que seja o cristianismo na sua mais profunda natureza. Desse modo, compreendendo de forma honesta o desenrolar desse pensamento teológico é possível construir uma crítica sincera e honesta.

A Teologia da Libertação entendeu corretamente a importância real do cristianismo na vida concreta do homem. Jesus deixa de ser apenas uma figura ideal, sem objetividade efetiva na existência do cristão, e passa a ter uma função essencial já que Ele se torna o transformador e catalisador do destino mesmo deste. Esta característica é marcante em todos os pressupostos que permeiam os paradigmas da Teologia da Libertação. Entretanto, a grande virada “libertadora” foi a sua grande decepção, isto é, o uso da leitura marxista.

O marxismo enquanto método fundamental da interpretação da realidade, como pensado pelos grandes arautos da TL, levou de modo sistemático ao fim do olhar transcendente diante do mundo. Ou seja, se Cristo era presença na existência mais íntima e plena do homem, Ele certamente humanizava-se de tal modo que perdia a Sua divindade. Essa crescente descristianização de Cristo é acompanhada da desconstrução da imagem do Jesus real, isto é, do Deus feito homem, restando apenas um famigerado “Jesus histórico”, morto por ser uma ameaça a ordem social estabelecida. Assim, por exemplo, Pe. Ignacio Ellacuría, um dos célebres adeptos deste pensamento, chega a defender, em nome da historicidade de Cristo, o Reino de Deus imanente, construído concretamente na luta contra o mundo estruturalmente contraditório. Nessa leitura a fé se torna comprometimento político e viver a experiência cristã se transforma em batalhar pela efetivação do ideal. Justamente na continuidade lógica desse raciocínio, Sacerdotes como Manuel Pérez Martínez e Camilo Torres Restrepo pegaram em armas e comandaram o Exército de Libertação Nacional, uma das mais violentas guerrilhas colombianas.

Os discursos “libertadores”, embebidos no materialismo histórico, não enxergavam o povo de Deus como homens e mulheres que carregavam uma riqueza própria. Assim, o natural espaço da individualidade era esmagado pela massificação do real. Enquanto Cristo buscava um relacionamento pessoal com cada homem, a Teologia da Libertação se fundamentava nos paradigmas coletivistas onde a realidade mesma da existência era transformada em meros reflexos das estruturas de poder. Por mais apocalípticos que soassem as traduções que a Teologia da Libertação fazia dos clamores do povo estas não passavam, em sua maioria, de simplórios devaneios ideológicos. Dizer, por exemplo, que a vida dos camponeses católicos do interior do Brasil só iria melhorar quando os modelos burgueses de domínio fossem destruídos poderia soar até profundamente real e acertado, entretanto isso seria uma saída muito mais cômoda – na mesma proporção que falsa – do que assumir a gravidade dos problemas pessoais e que concernem às experiências concretas e aparentemente banais de Dona Maria e Seu Zé.

Em nome de uma compreensão até correta da presença de Cristo junto ao homem na realidade a Teologia da Libertação criou o ideal e, em nome desse mesmo ideal, pretendeu modificar a realidade. Usando a chave de leitura dada por Eric Voegelin podemos então compreender que o abandono da realidade, a primeira, surge com a estruturação da segunda realidade, mediante um sistema ideológico que abarca absolutamente tudo. Como fruto desse processo surgem homens que não vivem mais na realidade, mas sim numa falsa imagem desta. Nascem, então, Padres que, em nome de Cristo, pegam em armas e criam guerrilhas. Não há mais cristianismo, resta apenas a paixão da ideologia!

*Na foto Pe. Camilos Torres Restrepo

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

O jovem alienígena e alguns católicos

Pedro Ravazzano

Um jovem alienígena marciano cai na terra e em seus tempos livres acessa a rede mundial de computadores. Lá, então, ele conhece alguns terráqueos que, ainda sendo separados por questões sociais, raciais e geográficas, se apresentam todos como cristãos católicos, membros de uma tal Igreja Católica Apostólica Romana. O nosso caríssimo E.T, que chamaremos de Zezinho para proteger o seu anonimato, como um bom estudioso dos povos atrasados de outras galáxias, resolve se inteirar a respeito do que estes católicos professam.

Em conversas com alguns jovens humanos o viajante estelar toma contato com um idioma exótico chamado latim. Ainda que a maioria dos atuais habitantes desconheça esta língua e os poucos que gostam sequer saibam usá-la, o certo é que para alguns grupos entre os católicos que conheceu este idioma exerce uma atração irresistível, ele acredita que seja reflexo de algum poder mental. Em seguida mandaram que o nosso querido E.T fosse num sebo – assim é como os atrasados humanos chamam lojas que vendem livros, algo muito rudimentar, diga-se de passagem - para arranjar um breviário, fundamental para que ele acompanhasse aquilo que os habitantes terráqueos nomeiam de Missa Tridentina. Ele ainda não entendeu o que seria propriamente isso, mas soube que tinha algo relacionado com a sua condenação, almas, fogo do inferno, redenção, sacrifício incruento da cruz e um homezinho de costas – esta última parte é muito importante para os humanos, percebera rapidamente o marciano.

Zezinho, então, continuando a sua investigação, se aproximou de outros jovens católicos, mas foi seriamente repreendido pelos primeiros que conheceu. Estes acusaram os novos amigos do extraterrestre de serem modernistas. O nosso estimado E.T não compreendeu muito bem o que seria o modernismo, concluiu que tivesse algo a ver com bom humor, calças jeans e cervejas. Mantendo a sua proximidade com os católicos, descobriu que deveria rapidamente mudar os seus indecorosos trajes extra-planetários; o seu pescoço estava exposto e poderia ser razão do pecado de delicadas moças que só saiam de suas casas às 18:20 para tomarem banho de sol acompanhadas pelos seus irmãos e esposos e vestidas com longos pedaços de tecido.

Persistindo na sua investigação e ganhando a confiança dos seus novos companheiros, Zezinho conseguiu ser iniciado nos sumos mistérios. Recebeu em suas mãos um exemplar do grande livro que os humanos denominavam de “Suma Teológica”. O seu uso pareceu um pouco esquisito. Quase todos a citavam, mas poucos eram os que de fato a conheciam. Em seguida recebeu uma cartilha de recomendações que abarcavam quase todos os aspectos do ser. Deveria tradicionalizar os seus gostos musicais, artísticos, visuais e devocionais, do contrário seria grosseiramente moderno para acompanhar os encontros em que debatiam as multifacetadas colorações douradas usadas por Fra Angelico em suas obras ou a indecorosa sensualidade contida nas telas do barroco tardio do noroeste dos Países Baixos.

O jovem E.T estava achando interessante, ainda que exótica, essa religião humana. Contudo se assustou quando descobriu que já organizavam uma “Cruzada do séc. XXI; Per Conversionem Marcianorum et Hereticorum Extraplanetaria Contritio”. Foi aí que soube que tais católicos o chamavam de herege e servo de Satanás, o que não demorou a perceber que se tratavam de adjetivos nada positivos tendo em vista as caras de repulsa que os acompanhavam quando proferiam. Zezinho, portanto, temendo a sua segurança física parte para casa acreditando que os católicos não passavam de humanos mal humorados que viviam uma religião tão chata quanto eles próprios.

Ah, quando o nosso viajante estelar estava pronto para partir, ouviu alguém gritar de longe; “Fica com Deus, que Cristo o abençoe”. Não entendeu muito bem o que essa amistosa despedida queria dizer, “seria Cristo o Deus dos humanos?!”, pensou. Acabou declinado desse mesmo pensamento, afinal convivera com os carrancudos católicos e tal nome jamais havia sido citado, muito mais de modo tão cordial.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

A crise da fidelidade fundacional


Pedro Ravazzano

As Ordens e Congregações religiosas vêm sofrendo com uma grave crise não apenas vocacional, mas estrutural. O número de religiosos é cada vez mais escasso e os conventos e mosteiros cada vez mais se aproximam da falência. Nessa problemática se destaca, contudo, a desconstrução da figura dos fundadores, quase sempre esquecidos ou ofuscados em meio a uma radical contextualização das suas vidas e ensinamentos.

Os carismas apresentados por Deus aos fundadores são vivos e dinâmicos no seio da Igreja. Obviamente não estão fechados dentro dos limites históricos e culturais próprios da época da fundação. Não obstante, na essência de qualquer família religiosa deve haver a vivência sincera da espiritualidade apontada pelo Espírito Santo. Os fundadores, assim, são exemplos claros e objetivos do modo de experimentar o carisma. Ademais, os seus ditames apontam o norte da vida comunitária reunida na proposta fundacional e “precisamente nessa fidelidade à inspiração dos fundadores e fundadoras, dom do Espírito Santo, se descobrem mais facilmente e se revivem com maior fervor os elementos essenciais da vida consagrada.” (Vita Consecrata)

Infelizmente, com a crise pós-Vaticano II, fruto da errônea compreensão dos documentos conciliares, as Congregações e Ordens buscaram, num grande afã, a atualização diante das necessidades do mundo moderno. Nesse processo, além de hábitos arrancados, de devoções mutiladas e de apostolados deformados, também se encontraram os fundadores renegados. A famigerada contextualização, partindo de leituras imprecisas, os transformaram em idéias vagas, sem qualquer objetividade concreta. As suas vidas exemplares e os seus ensinamentos tornaram-se escravos do tempo, presos ao momento histórico preciso e sem qualquer influência na existência real dos seus filhos “modernos”. Portanto, opõem-se claramente ao que fora dito na exortação apostólica pós-sinodal Vita Consecrata, que diz que são os fundadores “exemplos a que as pessoas consagradas devem constantemente fazer referência, para resistirem aos impulsos centrífugos e desagregadores, hoje particularmente activos.”

A relativização mesma do legado dos fundadores é reflexo da anterior entrada de princípios estranhos na mentalidade cristã. A Igreja, até como herdeira do humanismo clássico, sempre compreendeu o saber como transmissão e expansão fundamentado na tradição recebida e comunicada, algo totalmente diverso da razão utilitarista e técnica atual. Contudo, nesse processo crítico os carismas e todo o legado fundacional padeceram com a obrigatoriedade de adesão às “necessidades dos tempos”, convertidos numa práxis difusa ostentada esta, por sua vez, através de uma leitura horizontal da realidade cristã e da linguagem vazia e desespiritualizada muito similar à novilíngua orwelliana.

A Vita Consecrata diz que “nos fundadores e fundadoras, aparece sempre vivo o sentido da Igreja, que se manifesta na sua participação plena da vida eclesial em todas as suas dimensões e na pronta obediência aos Pastores, especialmente ao Romano Pontífice”. Entretanto a atualizada vida religiosa, influenciada por teologias estranhas que pretendem polarizar, através da dialética moderna, a Igreja institucional e hierárquica do povo de Deus romanticamente idealizado, nivela todos os carismas a uma práxis “libertadora”, desprovidos de identidade e relação direta com a experiência íntima do fundador. Não obstante, ainda em meio a esse cenário, devemos ter em mente a importância fundamental da vida religiosa na manutenção e expansão da fé não só no passado, mas como no presente e no futuro. Desse modo, repetindo as palavras do Beato João Paulo II, sabemos que “a vida consagrada, profundamente arreigada nos exemplos e ensinamentos de Cristo Senhor, é um dom de Deus Pai à sua Igreja, por meio do Espírito.”

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

A crise da Universidade e a crise do espírito

Pedro Ravazzano

Como bem disse Otto Maria Carpeaux “das universidades depende a vida espiritual das nações”. Infelizmente vivemos uma grave crise da Academia, crise esta que vai muito além de conteúdos normativos. A união do pensamento iluminista com a idéia do progresso material positivista transformou as Universidades numa fábrica do pensamento técnico, “útil”. Assim, dentro do espaço acadêmico onde outrora havia uma densa reflexão e a produção de uma cultura espiritual, resta apenas certo ranço utilitarista e desprovido de qualquer convicção profunda.

As Universidades têm uma função basilar na construção e constituição das nações. No ambiente acadêmico as gerações atuais alcançam a maturidade necessária para refletir acerca da realidade e pensar nas veredas que guiarão os seus filhos e netos. Contudo, a partir do alvorecer iluminista, com a estruturação do repúdio formal a qualquer pensamento tradicional – tradição aqui entendida num contexto muito particular -, a Universidade perdera o sentido histórico mais profundo, isto é, a responsável por perpetuar aos novos o mundo interior legado pelos seus antigos.

O filósofo Alasdair MacIntyre afirmou a necessidade de recuperar “uma concepção de pesquisa racional incorporada numa tradição; uma concepção de acordo com a qual os próprios padrões da justificação racional avultem e façam parte de uma história na qual eles sejam exigidos pelo modo como transcendem as limitações e fornecem soluções para as insuficiências de seus predecessores, dentro da história dessa mesma tradição.” Entretanto, os ouvidos modernos tremem quando ouvem falar de tradição. A pedagogia humanística entra, então, em decadência quando morre no homem a sua união espiritual com o passado, com a herança recebida de seus pais. O homem sem espírito, sem o nous metafísico, limita a sua própria capacidade racional. Assim, na mentalidade materialista e utilitarista engendrada desde o iluminismo, resta apenas o espaço para a produção de um saber meramente técnico, sem qualquer pretensão que não seja a melhoria imediata e sensível da sociedade. Vivemos, desse modo, a ditadura do progresso onde, logicamente, o passado é necessariamente visto como o reduto da obscuridade e atraso.

Se a Universidade não deve ser compreendida como nostalgia, não tem muito menos como finalidade a educação para um conteúdo útil e profissional. Na sua constituição mesma está como destino último o cultivo do intelecto. O “hábito filosófico da mente”, como colocara John Henry Newman, era fruto justamente do refinamento e enriquecimento das capacidades intelectuais. Assim, a ansiada busca da verdade, sentido da reflexão e da discussão, encontra-se integrada ao amplo conhecimento cultural transmitido e recebido por meio da tradição, da família e da religião.

No prefácio do seu livro “The Idea of a University”, o Cardeal Newman, definindo a noção de Universidade, diz; “That it is a place of teaching universal knowledge. This implies that its object is, on the one hand, intellectual, not moral; and, on the other, that it is the diffusion and extension of knowledge rather than the advancement. If its object were scientific and philosophical discovery, I do not see why a University should have students; if religious training, I do not see how it can be the seat of literature and science.” Ora, se o iluminismo tirou da racionalidade o seu natural espaço tradicional, o positivismo a trancafiou dentro da mentalidade material e técnica, subtraindo da razão a sua capacidade de, através de um olhar atento, contemplar a realidade de modo universal.

A gênese moderna da Academia tende a reduzi-la a uma instituição profissional e, na esteira de tal transformação, num centro altamente politizado onde o conhecimento encontra-se assimilado aos ditames ideológicos. Não obstante, a Universidade tem como função a preservação e ampliação do conhecimento, a constituição de um centro de saber e reflexão. Isso precisa ser redescoberto para que o homem possa, no futuro, reconhecer-se como tal e integrado numa cultura espiritual que o torna apto a compreender a sua existência de forma ampla, além dos limites estipulados pelo momento presente.