
Pedro Ravazzano
As diferenças profundas e marcadas entre os homens refletem a carga subjetiva e íntima que forja a identidade de cada ser humano. Por mais que todos estejam fundamentados na realidade, o olhar particular é o responsável pela estruturação de percepções muito próprias. Contudo, hoje em dia em especial, parece que as posições adotadas nas diversas áreas, com destaque para o cenário eclesiástico, são defendidas num campo de trincheiras. Ademais, devemos fugir do tão comum e recorrente equilíbrio diplomático que, certamente, mais parece um arranjo mal feito do que o sensato posicionamento perante o real.
Nos diversos campos do saber as posições contrárias favorecem a reflexão que provém da saudável dialética. Não obstante, é importante destacar que desde a derrocada da metafísica os parâmetros fundamentais que endossavam o discurso filosófico ruíram. Assim, a discussão racional sequer parte, hoje em dia, de bases comuns, sendo, muitas vezes, reflexão que antecede a reflexão mesma. Entretanto, no campo eclesiástico o cenário é totalmente distinto. Obviamente há espaço para divergências, mas que se fazem dentro dos limites naturais da crença, ou melhor, a fé como a plena realização do espírito.
Logicamente, em todos os variados espectros – progressismo, modernismo, tradicionalismo etc – há uma tenra fidelidade ao que é proposto. Isso é algo louvável quando entendemos como a consequência óbvia da adesão racional a alguma coisa. Contudo, a impressão que fica é que na atualidade cada vez mais a experiência religiosa fica dividida dentro de tais segmentos, não só inexistindo equilíbrio como até mesmo reflexão entre as alas citadas.
O equilíbrio, entretanto, é também alvo de certa incompreensão. Este não é um remendo de posições contrárias que abrem mão de algumas particularidades em busca da unidade. O equilíbrio tem relação direta com a realidade e não com política. Quanto mais equilibrada a posição mais abrangente, mais universal, menos subjetiva. Um dos males do mundo moderno é o individualismo, sendo o responsável pela doença que parece perverter o real em nome do que de mais subjetivo há no homem. Óbvio que, como disse, a carga subjetiva sempre haverá, mas hoje ela pretere a realidade mesma e, consequentemente, se fecha numa infalível convicção de uma pessoa.
Almejar o equilíbrio é se esforçar para enxergar a realidade por mais subjetivo que seja o olhar. Falar de visão é falar daquilo que a antecede, o ser humano. Assim, na leitura do real sempre existirá o homem. Os variados espectros se esforçam para dissertar sobre o mundo que as mentes construíram, num debate rarefeito que não reflete aquilo que de concreto existe. Por isso, buscar o equilíbrio na adversidade é, simplesmente, buscar a serenidade do olhar perante o real.





