sexta-feira, 25 de novembro de 2011

O homo religiosus e o conhecimento de Deus

Pedro Ravazzano

O secularismo moderno, herdeiro legítimo do iluminismo, mostra-se pujante e o real responsável por forjar a realidade social na qual o homem está inserido. Contudo, quando parecia que os raios da divindade se extinguiam como o último feixe de luz de uma estrela já morta, como anunciara Nietszche, a experiência religiosa não só se mostra desperta como vem se transformando numa nova potência dentro das exigências do homem atual. Assim, a verticalização da existência, oposta ao materialismo hodierno, reencontra a razão aberta ao absoluto, totalmente diferente da razão amputada defendida pela Ilustração.

A verdadeira liberdade, diferente daquilo que fora proclamado pelos revolucionários de outrora, não se encontra na desconstrução da fé. A utopia de que o mundo distante do dogmatismo religioso seria sinônimo da real autonomia humana se mostrou um pesado fracasso. As intempéries do século XX apresentaram esse novo “sujeito” frente a Deus. Usando uma linguagem zubiriana podemos dizer que quando o homem se considerou absoluto não só em relação ao seu eu – realidade “sua” -, mas também frente às coisas, se encontrou fechado àquilo que é fundamental na sua constituição mesma, ou seja, o caráter cobrado perante o real, de pessoa que só faz seu eu com as coisas, com os demais homens e consigo mesmo. Portanto, o homem fechado à realidade – ideologia, preconceitos etc – não mais compreende o caráter possibilitante, impelente e último desta.

O homo religiosus, ardorosamente combatido, é uma constante na história e reflete a busca incansável do homem por Aquele que é o fundamento mais profundo da existência. A realidade da “transcendência” é justamente a consciência a respeito de um duplo aspecto humano: do seu conhecimento limitado e da sua necessidade ilimitada. A auto-suficiência nada mais é do que a revolta frente ao inefável, direcionada àquele que é o único capaz de saciar o desejo profundo e íntimo do ser do homem. Assim, como disse o Santo Padre, “o homem tem em si uma sede de infinito, uma saudade de eternidade, uma busca de beleza, um desejo de amor, uma necessidade de luz e de verdade, que o impelem rumo ao Absoluto; o homem tem em si o desejo de Deus.” Destarte, a atração do homem a Deus é reflexo da própria marca divina na alma.

O homem implantado na realidade é chamado a conhecer o seu próprio ser. Não obstante, na época moderna, esse convite foi renegado mediante o fortalecimento das ideologias que o fecharam para essa inquietude da existência. Desse modo, sem a necessidade de aprofundar em si mesmo, pelo descobrimento da sua nova condição soberana, o “indivíduo” moderno constatou que estava sozinho e que era absoluto em relação às coisas. Entretanto, apenas pela atração profunda e íntima que Deus exerce no homem, é este capaz de sair de si e viver a sua vida divina.

O homem, então, para chegar a Deus necessita fazer um movimento de retorno. Enquanto constitutivamente religado, a busca pelo seu fundamento se faz não por meio da saída de si, mas mediante o compreender desde onde se veio, aceitando a realidade. Esse é o problema da existência, o problema do ser mesmo do homem enquanto fundamentado em Deus. Edith Stein também dirá, nessa mesma linha, que o homem livre e em construção se compreende no íntimo, isto é, na sua essência. Portanto, é através da presença íntima de Deus, Ser infinito e criador, nas criaturas, nas coisas e na realidade, que pode o homem, a partir da sua vontade livre, conhecê-Lo ao conhecer a si mesmo.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

A crise européia e a redescoberta do homem

Pedro Ravazzano

Parece que a crise econômica européia fortaleceu o discurso que anunciava a falência do capitalismo e das estruturas “neoliberais” de mercado. Não obstante, a realidade parece ser bem diferente. O Estado com o seu famigerado poder sempre foi um problema constante dentro das discussões políticas da modernidade. Hoje em dia a reflexão a respeito das suas funções e do seu fim se torna atual, ainda mais quando no centro se encontra o homem.

A presente crise, dentro da perspectiva da escola austríaca de economia, está longe de ser contabilizada na conta do capitalismo. Não obstante, é importante ter em vista que no seio dessa problemática se encontra o homem muitas vezes esquecido. Se, por um lado, a individualidade – não confundamos com o individualismo – humana é esmagada pelos desmandos do Estado, por outro o “sujeito” é transformado numa variante dentro do cálculo integral e transformado em um dos pontos do gráfico, dentro do paradigma neoclássico de economia.

Partindo da perspectiva da escola austríaca de economia a crise só pode ser definida como reflexo das ações do Estado. Este é responsável, então, por criar artificialmente uma euforia no mercado ao decidir os rumos da economia mediante a injeção de moeda e através da redução de juros, simples movimento de projetos de poder político, criando, conseqüentemente, para os agentes econômicos, a impressão de que existe mais poupança para o investimento. Destarte, tais medidas governamentais, usadas pela máquina burocrática, impulsionam o crescimento econômico de modo artificial, gerando um falso entusiasmo. Assim, ainda continuando dentro da perspectiva econômica, estas atividades acarretarão o aumento do acesso ao crédito, isto é, o barateamento do dinheiro. Desse modo, o crescimento do índice de emprego, consumo e de riquezas exprimem as medidas do governo, porém, com a manutenção dessas políticas artificiais a economia inicia a ruína por meio da perda do valor da moeda, gerando incerteza para os “agentes econômicos”. A solução, nesse ponto, se encontra em optar pela continuação das medidas de outrora ou, buscando remediar a crise, a adoção de projetos restritivos com o aumento de juros e redução dos gastos públicos. Surgem, por fim, as falências e a depressão.

Entretanto, o risco que corremos é que, ainda compreendendo corretamente as origens da crise européia, reduzamos tudo a uma dinâmica estritamente econômica. Nesse sentido é crucial entender não apenas a relevância e protagonismo do homem, mas sim que, inclusive dentro da ciência econômica, é este o único capaz de, usando as suas potencialidades, criar um mundo e cumprir o seu desígnio fundamental que é a felicidade. Apenas com tal olhar conseguimos encontrar o homem perdido em meio aos discursos políticos nos parlamentos e ofuscado pelos cálculos matemáticos que o transforma numa máquina programada. A escola austríaca de economia, ao nos oferecer o homem e suas escolhas, e a Doutrina Social da Igreja, ao apresentar o homem e sua liberdade, apontam para este princípio fundante da sua existência.

Obviamente a crise européia só poderá ser solucionada através de ferramentas do saber econômico, da correta compreensão e captação das estruturas de mercado. No entanto, a sabedoria só é possível de ser entendida pela intervenção da inteligência humana, isto é, nos deparamos com o homem e aquilo que realiza. Com isso frisamos a necessidade do mundo, e principalmente a Europa, se reencontrar com a humanidade, ou seja, com o que de mais fundamental existe na sua natureza, o princípio basilar sobre o qual se realiza e se entende enquanto tal.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

A atualidade do cristianismo

Pedro Ravazzano

Pensar o cristianismo como acontecimento e Cristo como uma presença concreta na existência, como colocara Beato João Paulo II, Beata Teresa de Calcutá, Mons. Luigi Giussani e, inclusive, o atual Papa gloriosamente reinante, Bento XVI, entre tantos outros homens da Igreja, pode ser visto para alguns católicos como uma nova leitura do modernismo ou, simplesmente, como concepções progressistas da fé. Entretanto, essa visão, de fato reavivada pelo Concílio Vaticano II, não se contrapõe aos ritos, devoções, piedade, mas concede a tais manifestações da fé o princípio basilar, isto é, o alicerce sobre o qual se torna possível falar do cristianismo enquanto evento que funda o homem.

O acontecimento tem a força de gerar uma mudança radical de perspectiva, como nos mostra o exemplo de São Paulo; de perseguidor tornou-se Apóstolo dos gentios e se viu modificado a ponto de dizer que o que outrora era o ideal máximo transformou-se em “esterco”. Destarte, a transformação não vem por meio de um pensamento, mas sim pelo impacto do acontecimento, ou seja, da “pela presença irresistível do Ressuscitado, da qual nunca poderá sucessivamente duvidar, dado que foi muito forte a evidência do acontecimento, deste encontro.” (Bento XVI) Por isso este acontecimento, como nos diz o Papa, é o encontro forte com Cristo, o Ressuscitado que “mostra-se como uma luz maravilhosa e fala a Saulo, transforma o seu pensamento e a sua própria vida”.

O ritualismo, devocionismo, moralismo, são degenerações do cristianismo em sua correta compreensão. Quando a pessoa de Cristo é subtraída em Sua influência na existência dos fiéis, aquilo que pode ser compreendido como manifestações do sagrado e signos do transcendente perde o caráter basilar. Obviamente a linha que separa a devoção do devocionismo, por exemplo, é muito tênue ainda mais por ser um aspecto estritamente subjetivo, ou seja, que se refere ao âmbito da consciência e da relação desta com Deus. Não obstante, a atualidade do cristianismo se faz não na leitura legalista e normativa do Mistério, mas sim no despertar para o sentido fundacional e existencial que a pessoa de Jesus Cristo tem junto ao homem nos mais amplos aspectos; cultura, sociedade, política etc.
“O cristianismo é a presença do Senhor aqui e agora, presença que nos sustenta no aqui e agora da vida de fé. Assim, a alternativa é clara: o cristianismo não é teoria, nem moralismo, nem ritualismo, mas um acontecimento, encontro com uma presença, com um Deus que entrou na história e nela entra continuamente.” Cardeal Joseph Ratzinger
Entretanto, é sabido da grande possibilidade disso ser interpretado como a polarização entre um Cristo rarefeito e difuso e a Igreja enquanto instituição responsável por zelar pelo Seu legado. Entretanto, a Igreja não está desassociada de Jesus enquanto presença, mas é sim a Sua atualização e atualidade no mundo hodierno, querer o contrário é reduzir a Esposa de Cristo a uma realidade meramente burocrática. Nesse sentido, corre-se o risco de “salpicar” a pessoa de Nosso Senhor no ritualismo, no moralismo e no clericalismo, ou seja, que parte do não reconhecimento do Seu caráter verdadeiro, da compreensão da dimensão do Mistério do Verbo divino encarnado, que rompe, muda e transforma a história, do qual brota a ordem do homem reconciliado com Deus, sabendo que “o acontecimento cristão é um encontro humano no qual Jesus Cristo se revela significativo para o coração da vida e desvela o eu.” (Mons. Luigi Giussani)

Apenas nessa dimensão e nessa compreensão não apenas intelectual, mas sim, e principalmente, experiencial, podemos falar da grandeza e profundidade do rito, da missão profética da Igreja, da simplicidade e sinceridade das devoções. De fato, é conhecendo e reconhecendo a pessoa de Cristo que se faz possível a vivência intensa da fé cristã em sua plenitude. Sem essa noção desconstruímos o Seu legado e transformamos o evento cristão num gélido e frio instante da angústia do homem que busca Àquele que não encontra.

Esse seguimento radical de Jesus em todas as nossas decisões, como dizia o Cardeal Van Thuan, abre os olhos para a realidade, mas, antes de tudo, abre os olhos para a condição do próprio homem. Assim, na interioridade, como já colocava Santo Agostinho, o homem reconhece o seu fundamento ao se enxergar e, saindo de si mesmo, vai ao mundo para encontrá-Lo. Unicamente nessa dinâmica é possível, para o cristão, penetrar o mais íntimo da experiência em Cristo como existência desperta, com a compreensão da irrupção do Mistério e dizer, como o Doutor da Graça, “Será viva a minha vida toda repleta de Ti!”

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Quando os sedevacantistas se tornam até "coerentes"...

Pedro Ravazzano

O radical-tradicionalismo tem uma lógica muito peculiar que é fruto da desconstrução de paradigmas fundamentais da fé. Não é meu interesse, entretanto, refletir a respeito do conteúdo das recorrentes afirmações, mas sim mostrar como se desenvolve o pensamento que tende, naturalmente, à delirante pretensão.

A Igreja objetivamente, isto é, por meio de documentos, pronunciamentos oficiais, encíclicas etc, aquilo que realmente indica a sua posição, defende, estimula e reverencia realidades consideradas por muitos radicais-tradicionalistas como heréticas. Obviamente, comparam a própria Igreja presente com o ensinamento de outrora que consideram ter sido vilipendiado. Entretanto, afirmando que a Igreja atual errou e contradisse o que fora defendido em outros tempos afirmariam, na conseqüência lógica, ou que ela é falível – o que seria um completo absurdo do ponto de vista da fé - ou então recorreriam aos argumentos sedevancatistas que, nesse ponto, são bem lógicos e coerentes partindo dessas – falsas – premissas. Contudo, lançando mão de falácias eclesiológicas e malabarismos teológicos, preferem dizer que a Igreja é e não é formalmente, ou seja, que ainda que a Igreja, objetivamente, tenha respaldado “heresias” – dentro do argumento “rad-trad” em questão – não fora a Igreja que as respaldou, mas sim esta entidade modernista. Desse modo, é como se a verdadeira Igreja fosse uma idéia vaga, rarefeita, sem concretude e objetividade, supra-institucional conseqüentemente, onde os seus ditames e ensinamentos se tornam livremente interpretados.

Ademais, aparece o segundo obstáculo; o Papa. O Santo Padre defende Movimentos “heterodoxos”, participa de encontros ecumênicos, exalta ardorosamente o Concílio Vaticano II e não parece ter interesse em celebrar publicamente a forma extraordinária do rito romano. Entretanto, esse é o mesmo Sumo Pontífice que liberou a Missa Tridentina, retirou a excomunhão dos Bispos cismáticos lefebvristas e combate a mentalidade secularizante da modernidade. Ora, como conciliar, sobre a mesma autoridade, portanto gozando do mesmo poder legítimo, duas realidades consideradas, pelos “rad-trads”, tão adversas? Apela-se, então, para o modernismo papal, isto é, acusa-se o Santo Padre de heresia para assim, conseqüentemente, poder discernir individualmente o que é passível de seguimento, ou, então, afirma a sua ignorância, ou seja, que não tem o conhecimento necessário para enxergar a cristalina “heresia”, o óbvio “erro” e a evidente “apostasia” daquilo que defende.

No último estágio aparece a pretensão com o surgimento do direito de se arrogar o verdadeiro e real entendedor da Tradição e do Magistério. A Igreja que se opõe a “mim” na verdade não é a Igreja, mas sim um amontoado de modernistas, o Papa que parece se colocar do outro lado daquilo que “eu” defendo ou é herege ou, então, não entende muito bem os documentos escritos pelos seus antecessores. Alegam, contudo, que os fiéis, pautados na fé e na razão, têm o dever moral de fazer aquilo que Roma não mais realiza; alertar para as heresias. O peculiar é que, para isso, partem da livre interpretação, totalmente pessoal, no máximo fundada em certos teólogos, dos documentos da Igreja e do que entendem por Tradição. Desse modo, como os protestantes, dentro do radical-tradicionalismo se encontra uma multiplicidade de pareceres. O interessante dessa dinâmica é o delírio, ou seja, considerar, simplesmente considerar, que, por exemplo, Joseph Ratzinger, não leu ou não compreendeu aquilo que é “óbvio” – na visão “rad-trad” friso – ou, então, simplesmente reduzir toda a discussão na acusação de modernismo, o que garante certa tranqüilidade em escolher o que deve ser seguido – quando o Santo Padre defende a liberdade religiosa certamente é modernista, quando o Santo Padre libera a “forma extraordinária” certamente está em comunhão com os ensinamentos “de sempre”. Ademais, para gozar de uma pequena segurança institucional apelam para autoridades paralelas dentro do universo eclesial para assim mostrar comunhão.

Portanto, é inegável a forma pretensiosa com que se outorgam o direito de, abertamente, contradizer a Igreja e o Santo Padre, enquanto se consideram, ao mesmo tempo, fiéis à Igreja e devotos ao Santo Padre, sem sequer pensar ou na possibilidade de estarem errados ou, pelo menos, na consideração de dar um “voto” de confiança àquela que é a mãe de todos os cristãos; a Igreja.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

O homem e o absoluto

Pedro Ravazzano

O homem é, como pensara Xavier Zubiri, a sua própria realidade. Entretanto, é somente por meio dos seus atos que vai fazendo a figura do Eu, atualizando-o enquanto realidade substantiva. Por isso, o pensador espanhol entendera o Eu como um ser absoluto, não obstante, adquirido e cobrado, então relativamente absoluto. Assim, dentro dessa condição aparentemente paradoxal, brota a inquietude do homem que está fundamentada na própria realidade pessoal e dá origem à voz da consciência.

Enquanto realidade vital, isto é, baseada na “suidade” do sujeito, o homem não é absolutamente absoluto – apenas Deus o é. Contudo, pode ser, então, pensado como absoluto diante da realidade outra, por isso relativamente. Nesse sentido Xavier Zubiri entende o homem como destinado a ter uma abertura à realidade e, conseqüentemente, a Deus. Ora, ao pensá-lo como absoluto, isto é, “soluto”, “solto” – “ab-soluto” – não o faz numa absolutez em si mesma - “Frente a toda realidad en cuanto realidad soy Yo quien soy. En su virtud, el ser del hombre, su Yo, es un ser “ab-soluto” . Absoluto porque es mio, y porque está determinado em función de “la” realidad simpliciter.” - Ao contrário, essa condição se faz mediante a um absoluto frente ao cosmos e ao mundo, portanto um momento relativo a.

Nesse sentido, Zubiri retoma uma reflexão filosófica que abarca a transcendência dentro da realidade, isto é, o reconhecimento da condição religada mediante o anterior reconhecimento do caráter humano e da sua incapacidade de repousar em si mesmo. Ou seja, existe essa realidade apoiada na qual há o que faz que haja. Assim, podemos falar da abertura do homem à realidade na qual, inexoravelmente, descobre-se como religado.
Este ser absoluto que es el Yo, es, sin embargo, algo cobrado. En su virtud, diremos que el Yo es el ser “relativiamente absoluto”. Relativamente, porque es un ser cobrado; pero absoluto en el sentido que acabamos de explicar. Y como lo cobrado es absoluto resulta que el hombre está radicalmente inquieto en la vida. Y como esta inquietud se halla constitutivamente inscrita en mi realidad en cuanto realidad, resulta que es esta realidad la que clama en aquella inquietud. Este clamor es la viz de la conciencia. La voz de la conciencia es el clamor de la realidad camino del ser absoluto. La realidad se me hace presente como noticia em la voz de conciencia.
A inquietude radical do homem é reflexo dos questionamentos que tomam o mais profundo do ser, perguntas que abarcam a completa existência e se formam a partir desse caráter relativamente absoluto, isto é, da necessidade de moldar a sua realidade vital pessoal de modo relativamente absoluto, já que “la vida personal del hombre consiste em poseerse haciendo su Yo, su ser, que es un ser relativamente absoluto, um absoluto cobrado.”

Contudo, no contexto histórico-cultural moderno, essa condição é ofuscada pelos devaneios ideológicos e pela força do sentimento que impede a correta maturação do juízo. O ateísmo, indiferentismo religioso, consumismo, individualismo, vem minar a estrutura fundante do Eu, ou seja, tais projetos desconstroem o caráter aberto da racionalidade, o aspecto transcendente da realidade.

O Outro que me faz, deste modo, quando não expurgado da sociedade atual é reduzido a um papel de total distanciamento da realidade. Assim, a modernidade tende para o secularismo indiferentista de caráter deísta/ateísta ou, então, às filosofias e pensamentos de sabor gnóstico que buscam, mediante a afirmação das misérias do mundo, reformular, repensar e reordenar a realidade partindo dos pressupostos e preconceitos. Consequentemente a inquietude intrínseca à condição humana é anestesiada e a voz da consciência tolhida. Destarte, redescobrir o Outro, ou seja, reconhecer a nossa condição de homens abertos à realidade, é despertar do sono letárgico do mundo moderno.

domingo, 13 de novembro de 2011

180 Movie

Não deixem de ver esse documentário. Foi produzido por protestantes americanos e aborda de forma muito pertinente a defesa da vida. Nos Estados Unidos alcançou grande repercussão e teve 1,2 milhão de acessos no YouTube, apenas no primeiro mês. O filme faz um paralelo entre o aborto o e o holocausto dos judeus na Alemanha. O nome é uma metáfora que representa uma mudança completa e radical de opinião.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

USP: Um amor pela sabedoria em terras universitárias

Pedro Ravazzano

Até quando a esquerda estudantil vai continuar dominando toda a estrutura universitária do Brasil? O que ocorreu na USP é uma realidade possível e presente em grande parte das instituições públicas de ensino superior. Entretanto, enquanto os jovens se encontram embriagados com as mais estapafúrdias ideologias, os seus pais preferem acreditar que tudo não passa de um momento da juventude, de que é inexistente em nosso país o espírito marxista revolucionário de outrora.

Os jovens vivem ideologias, isto é, a segunda realidade que pressupõe a deformação do mundo concreto e real. Obviamente falar de “mundo” e “realidade” é quase um contra-senso se sabemos que, em sua grande maioria, estes estudantes bebem da fonte dos clichês e chavões repetidos ad infinitum. Qualquer brasileiro semi-alfabetizado pode em menos de três minutos reproduzir uma sentença “revolucionária” apenas com a montagem de alguma oração que contenha palavras como “opressão”, “burguesia”, “estruturas de poder”, “alienação”, “repressão”, “elites” e, obviamente, muitos adjetivos bem degradantes. Não há necessidade de lógica e nem de coesão, afinal estes parâmetros emanam de concepções filosóficas produzidas pelas classes dominantes.

Como bem sabia Popper o marxismo chega ao ápice da impossibilidade de ser falsificado, já que tudo se encontra dentro da dinâmica interna que, como também compreendeu Von Mises, parte da bizarra idéia polilógica. Se tudo é fruto da estrutura burguesa, desde instituições até a razão e a realidade, tudo é passível de ser destruído. O que aconteceu na USP é extremamente normal se olhamos o contexto completo, ou seja, a influência de pensamentos nefastos, a crise da razão, a ascensão da mentalidade positivista e dos princípios marxistas etc.

Entretanto o circo uspiano já ultrapassou o limite da ridicularidade dos próprios esquerdistas. Se alguém aparecesse com a idéia de que tudo fora orquestrado pelos “tucanos golpistas” para debochar da esquerda estudantil eu até acharia mais lógico e sensato. Mas tendo em vista que a lógica e a sensatez faltam aos montes por essas bandas, é realmente um verdadeiro estudante indignado aquele que aparece na televisão dizendo que quer o direito de fumar o seu “cigarrinho” e que a PM – que reduziu o índice de criminalidade na Cidade Universitária – é o cão da “elite”. E, do mesmo modo, tais jovens de fato apelam para as leis do estado democrático de direito – sim, o mesmo estado “burguês e elitista” que mantém a “satânica” polícia militar – buscando resguardar os seus direitos de cidadãos.