terça-feira, 27 de setembro de 2011

A angústia moderna em “Os Demônios”

Pedro Ravazzano

O mundo moderno é tão febril e perdido no próprio devaneio quanto o pedantismo liberal de Stiepan Trofimovicth. Entretanto, para o leitor atento de Os Demônios, a mão do escritor-de-nenhum-livro tocou direta ou indiretamente todas as personagens que deram forma não apenas ao pensamento, mas à práxis niilista, anarquista etc. Caminhamos, isto sim, para formação da futura geração insana como Piotr Vierkhoviénski e angustiada como Nikolai Stavróguin.

Qual o fruto da geração liberal, bon-vivant, utópica em seus objetivos e em sua soberba magistral? O vazio das crianças. Stiepan Trofimovicth, encarna a caricatura mais emblemática do intelectual-poeta-revolucionário afogado em seus delírios liberais, junto a alguma obra do iluminismo francês e na mão a pena do livro que jamais escreveu. A típica modernidade líquida. Esse idealismo doentio, com ares internacionalistas, forma a primeira geração perdida, isto é, rarefeita no que se refere ao entendimento da Civilização. O estereótipo importado, mediante a acentuada crítica a tudo que seja tipicamente russo, ao espírito eslavo, é marca da destruição gradual das raízes fundamentais que, na próxima geração, será radicalizada.
“Quanto mais a vida é dura para o homem, quanto mais é um povo oprimido e miserável, tanto mais se obstina em sonhar compensações no paraíso; e se cem mil padres se põem a encorajá-lo nas suas ilusões e a especular sobre elas, então...”
Destarte, Stiepan Trofimovicth forma os seus “filhos” no vazio interior que dará margem a um relativismo feroz, esculpindo nas almas o niilismo e o anarquismo. Os seus critérios flutuantes serão rapidamente rechaçados e substituídos pelo ardor revolucionário objetivo. Assim, o que a próxima geração sonha é, simplesmente, a concretização dos frágeis e confusos ideais por ele ostentados.

Do devaneio vacilante de Stiepan Trofimovicth vamos ao delírio revolucionário de Piotr Vierkhoviénski, numa paixão ideológica que cega, que se forma primitivamente no nada interior, na falta de critérios, parâmetros, de intimidade consigo.
“Os espíritos superiores são naturalmente despóticos e sempre causaram mais mal que bem. Será preciso bani-los ou condená-los à morte. Arrancar a língua a Cícero, furar os olhos de Copérnico, lapidar Shakespeare, eis o chigalievismo! Os escravos devem ser iguais: sem despotismo jamais houve rebanho, eis o chigalievismo! Ah! Ah! Ah! Isto parece-lhe estranho? Eu sou pelo chigalievismo.”
A sua devoção pela revolução, quando “o mundo será revirado como ainda não o foi”, quando “a noite descerá sobre a Rússia” e “a terra chorará seus antigos deuses” é o sonho da nova ordem, iniciada a partir da tibieza moral e espiritual dos seus pais. Sem embargo, trata-se de uma dinâmica de desconstrução da tradição, mediante a ostentação da razão, com o triunfo do nada. Piotr Vierkhoviénski simplesmente desperta para o caráter fraco e escorregadio de seu genitor. Simplesmente realiza o mal o externalizando.
“Mas uma ou duas gerações de costumes corrompidos é coisas indispensável; corrupção desenfreada, monstruosa, em que o homem será transformado num réptil lamacento, abjeto, cruel, imundo! Eis o que nos falta!”
Nikolai Stavróguin, por sua vez, na angústia e desespero que norteiam as suas ações, apresenta uma dimensão interna em oposição às facetas práticas de Piotr. Ele é o príncipe emblemático sonhado pelas senhoritas e alvo das fofocas da cidade. Contudo, carrega na alma o peso do coração esmagado pela inquietude. Nesse sentido é pesaroso ler o apêndice de Os Demônios, onde se encontra o seu diálogo com o Bispo Tíkhon – não fora colocado na versão publicada por Dostoiévski por temer alguma retaliação pelo caráter próprio do trecho -, e pensar que, caso cumprisse o conselho do sábio religioso talvez o seu fim não seria com a corda no pescoço, com o testamento reduzido a um bilhete suicida. Em certa altura do diálogo Tíkhon o diz:
“O perfeito ateísmo situa-se no alto da escada, no antepenúltimo degrau que leva à fé perfeita (toda a questão está em saber se o galgará ou não), ao passo que o indiferente não tem fé nenhuma, a não ser o medo vil, e somente por vezes, se é homem pecador”
Parece-me que Nikolai Stavróguin, no sofrimento dilacerante da alma, ao invés de buscar a Deus que habita no mais profundo do ser, lançou-se do alto da escada num salto que não teria outro fim senão a morte. Não que ele tenha se convertido ao ideal de Kirilov - “Haverá liberdade completa, quando for totalmente indiferente viver ou não viver. Tal é o fim universal” e “Aquele que se matar unicamente para matar o temor, tornar-se-á na mesma hora um Deus.”. Não. O seu suicídio não foi um ato de “coragem” diante da coerência com o ideal defendido, mas sim uma ação da mais profunda angústia. Stiepan Trofimovicth, no seu discurso derradeiro, com característica quase delirante, diferentemente de Stavróguin, parece despertar, ao menos em parte, ao reconhecimento do caráter transcendental da existência humana
"Se se viesse a privar os humanos desse infinitamente grande, eles não quereriam mais viver e morreriam de desespero. O incomensurável e infinito são tão necessários ao homem quanto o pequeno planeta sobre o qual ele se move... Meus amigos, todos, todos, viva o grande Pensamento, o Pensamento eterno, infinito! Todo homem! Até mesmo o homem mais estúpido tem necessidade de alguma coisa de grande. Pietrucka! Oh! Como desejaria revê-los todos... Eles ignoram, sim, eles ignoram, que também eles encerram em si aquele mesmo grande Pensamento eterno.”
O questionamento lançado por Stavróguin ao estudante Chátov – “Mas em Deus, crê em Deus?” – ecoa por toda a obra. A resposta enigmática – “Eu...acreditarei em Deus.” – é a marca da alma que, ainda lutando contra a existência no vazio, é incapaz, por conta das marcas deixadas pelos traumas do sofrimento, de chegar à experiência com Deus.

Resta apenas, em meio a essa gênese da história do espírito moderno, repetir como o Bispo Tíkhon que, num murmúrio apaixonado, diante do “demoníaco” Strávoguin, afirmou; “Senhor, não terei vergonha de tua cruz”

sábado, 24 de setembro de 2011

Batalha de Iwo Jima e o heroísmo católico, detalhes desconhecidos sobre a famosa foto



Escrevi este artigo depois de pesquisar em fontes norte-americanas, pois não encontrei dados - mesmo irrelevantes - em nenhum site ou blog de língua portuguesa. Talvez até – pode ser uma pura pretensão minha - seja a primeira vez que ela é contada, ao menos na internet, em nosso idioma. Submeto-a para apreciação de nossos leitores.


***

A foto famosa ao lado, intitulada Raising the flag on Iwo Jima, registrou o momento em que os marines conquistaram, no dia 23 de fevereiro de 1945, o cume do vulcão Suribachi (foto acima), ponto mais alto da ilha de Iwo Jima. Esta foto foi tirada por Joe Rosenthal na segunda vez em que a bandeira norte-americana foi levantada.

Mas o que não é muito conhecido é lado da bravura profundamente católica que envolveu o primeiro hasteamento da bandeira.

O livro do padre jesuíta Donald Crosby, Battlefield Chaplains: Catholic Priests in World War II, narra os feitos dos padres católicos que participaram da segunda Guerra Mundial. Entre eles, Pe. Crosby conta a história do sacerdote jesuíta Charles F. Suver, com então 38 anos de idade, pertencente ao 5ª Divisão de Fuzileiros Navais. Ele era um dos 19 capelães que ministravam os sacramentos para as três divisões marines que participaram da mais sangrenta batalha no Pacífico.

Localização da ilha vulcânica de Iwo Jima.
Pe. Suver nasceu em Ellensburg, Washington, no ano de 1907. Formou-se na faculdade de Seattle, em 1924, e foi ordenado padre em 1937. Pouco depois do ataque japonês em Pearl Harbor, ele entrou para a marinha como capelão e foi designado para acompanhar os soldados na batalha de Iwo Jima.

Um dia antes do desembarque na ilha, a tensão aumentava entre os soldados que sentiam a morte se aproximar na medida em que o navio ficava mais perto de seu destino. Eles sabiam que teriam que enfrentar, em breve, mais de 23.000 japoneses liderados por um dos mais capazes generais do Japão. A coragem dos marines seria testada ao máximo.

Alguns fuzileiros foram, então, após o jantar, até a cabine do Pe. Charles Suver para conversar sobre a invasão que ocorreria ao amanhecer. Em certo momento, um jovem oficial disse que se ele tivesse uma bandeira americana, a levaria até o alto do monte e talvez alguém a hasteasse lá em cima.

O tenente Haynes, desafiando o oficial, imediatamente respondeu: "Certo, você leva a bandeira que eu a coloco lá em cima". Com uma santa ousadia, Pe. Suver acrescentou: "Vocês colocam ela lá em cima e eu celebro uma missa embaixo dela!"

Às 5:30 da manhã do dia seguinte, 19 de fevereiro, ainda a bordo do navio (LST 684), o Pe. Suver celebrou uma missa para os fuzileiros navais. Logo após, alguns marines fizeram várias perguntas a ele, especialmente sobre coragem. Então, o sacerdote jesuíta respondeu: "Um homem corajoso cumpre o seu dever, apesar do medo atroz. Muitos homens têm medo, por muitas razões diferentes, mas poucos são corajosos".

Padre Suver desembarcou naquele dia às 9:40 da manhã, na mais perigosa de todas as praias, a Green Beach. Sob o fogo de metralhadoras que começaram de repente a disparar, ele foi forçando a se atirar no chão. Mais tarde soube que tinha estado atrás das linhas japonesas e no território controlado por cinco metralhadoras.

Ele se arrastou imediatamente para o próximo trincheira. Apesar destas situações enervantes, padre Suver não abandonou a ideia de rezar uma missa no Monte Suribachi assim que a bandeira americana fosse hasteada lá. Sua vida esteve em risco diversas vezes durante a batalha, mas ele conseguiu sempre manter o domínio de si mesmo e continuou a exercer sua função.

Cinco dias de combates sangrentos se passaram. Pe. Suver estava trabalhando em um posto de socorro com seu ajudante Jim Fisk (durante a batalha foram designados assistentes para transportar os equipamentos dos capelães) quando percebeu que os marines cautelosamente escalavam o Monte Suribachi. Embora a situação fosse extremamente perigosa, ele decidiu que este era o momento. Convocou seu ajudante, pegou sua mala com o material necessário para celebrar a Missa e correu em direção do vulcão.

Enquanto subiam, viu a bandeira tremulando no cume do monte. Uma onda de entusiasmo tomou conta de todos os marines, alguns até choraram de alegria quando viram a bandeira americana balançando ao sabor do vento. "Todos nós experimentamos uma emoção que nenhum de nós nunca vai ser capaz de descrever", disse o padre Suver.

Infelizmente, o tenente Haynes, que tinha se prontificado a hastear a bandeira no alto do monte, foi baleado nas costas momentos antes e ficou paralisado até o fim de sua vida

Foto: Primeira missa em Iwo Jima, celebrada pelo padre jesuíta Charles Suver no
cume do monte Suribachi. Autor: Louis Burmeister.
Pe. Suver chegou ao topo e, com a aprovação do comandante, preparou-se para celebrar o Santo Sacrifício da Missa. Dois tambores de gás vazio com uma placa colocada em cima eram tudo o que podiam encontrar para servir de altar. Mais ou menos vinte soldados vieram assistir à Missa com suas armas em riste, pois a resistência japonesa ainda estava muito acirrada.

Para proteger o sacerdote e os utensílios sagrados, dois marines segurava um manto contra o vento feroz. Os fuzileiros navais protegiam o sacerdote não só do vento, mas também de um possível ataque que poderia ser eminente.

As cavernas próximas ainda abrigavam soldados japoneses e estavam tão perto que o padre Suver podia ouvir os japoneses falando sobre aquela desconhecida cerimônia religiosa. Providencialmente, os japoneses não atacaram e Pe. Suver conseguiu realizar a histórica primeira missa da ilha de Iwo Jima. 

Joe Rosenthal, judeu convertido ao
catolicismo.
Jim Fisk, o ajudante do Pe. Suver, publicou posteriormente um artigo afirmando que a missa foi celebrada durante o hasteamento da primeira bandeira, cerca das 10:30 da manhã. O segundo levantamento da bandeira - fotografada por Joe Rosenthal, vide foto no início deste artigo - ocorreu entre 12:00 e 12:30.

Sobre o momento em que a missa foi celebrada, há uma versão do padre jesuíta Jerry Chapdelaine, que foi amigo do Pe. Suver e que conviveu com ele na escola jesuíta Bellarmine, em Tacoma, Washington. Segundo ele, o padre Suver lhe disse pessoalmente que a missa foi rezada antes do hasteamento da bandeira e não depois. Pe. Chapdelaine conta que o padre Suver disse aos seus homens: "Eu vou rezar missa para vocês e, em seguida, vocês levantam a bandeira".

"Ele era um cara durão", comenta o Pe Chapdelaine sobre o Pe. Suver, "era fisicamente forte e tinha muita coragem. Mas ele era um homem muito gentil, também". Pe. Suver morreu de câncer em 1993 aos 86 anos. Era domingo de Páscoa. "Ele queria morrer na Sexta-Feira Santa - segundo ele próprio me disse", contou o padre Chapdelaine, que celebrou seu funeral na Igreja St. Joseph, em Seattle.

Sobre o papel dos capelães jesuítas, o fotógrafo Joe Rosenthal - a quem, antes de desembarcar, o tenente Haynes se gabou de que ia levantar uma bandeira no cume do Suribachi e que o padre Suver prometeu celebrar uma missa debaixo dela - comenta que  que tinha boas recordações dos sacerdotes corajosos que serviram como capelão durante a Segunda Guerra Mundial. "A maioria dos capelães foram bons (...). Os jesuítas foram admirados por todos os Marines. (...) Se eles encontravam um fuzileiro naval morrendo, eles iam até lá [correndo o risco de serem atingidos], como uma coisa natural. Eles eram tão heroicos quanto os marines".

Pe. Suver e os seus homens tinham cumprido a sua promessa, apesar do grande perigo que encontraram. Muita batalha ainda havia pela frente em Iwo Jima, mas o levantamento da bandeira e a missa encorajaram os marines para manter a luta em uma combinação sublime de bravura patriótica e fervor religioso.

____________________
Fontes consultadas:

Something Else Sublime Happened on Mount Suribachi, Blog The America Needs Fatima, http://americaneedsfatima.blogspot.com/2008/11/something-else-sublime-happened-on.html, acessado em 22/9/2011.

Fr. Charles F. Suver, S.J. "The Jesuit of Iwo Jima", Blog Good Jesuit, Bad Jesuit, http://goodjesuitbadjesuit.blogspot.com/2011/01/fr-charles-f-suver-sj-jesuit-of-iwo.html, acessado em 22/9/2011.

The Forgotten Mass on Iwo Jima, site The Remnant Newspaper, http://www.remnantnewspaper.com/Archives/archive-2006-0831-iwo-jima.htm, acessado em 22/9/2011.

The Mass on Mount Suribachi, site The American Catholic, http://the-american-catholic.com/2009/03/30/the-mass-on-mount-suribachi/, acessado em 22/9/2011.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

A Civilização do Amor

Artigo baseado na palestra dada por Pe. Patrick de Laubier sobre a “Escatologia” no SMME

Pedro Ravazzano

O mundo ateu e secularizado, partindo de uma visão distorcida do saber racional, é incapaz de, mediante uma abertura à transcendência, compreender a realidade do homem enquanto um ser fundamentado em Deus. Obviamente, e cabe a análise feita por Pe. Leonel Franca, a crise do mundo moderno é uma crise metafísica. A realidade atual é entendida como o tempo do progresso, da ciência e da técnica. Entretanto, apenas em Cristo é possível erigir a Civilização do Amor.

A técnica e a ciência são como a magia da modernidade, isto é, a gnose, portanto pseudo-teológica, que se coloca não apenas na antípoda da religião como em sua substituição. O homem científico é aquele que faz e, assim, opõem-se ao homem religioso, aquele que recebe. Não obstante, mediante o saber filosófico, uma conversação baseada na reflexão racional a respeito da realidade, faz-se possível o combate a esta gnose.

A cidade humana, onde há o constante combate entre a Jerusalém e a Babilônia, é justamente a complexa e dinâmica relação do homem moderno que, preso a uma realidade imanente, encontra-se impossibilitado de contemplar a transcendência ainda que, por meio do seu próprio ser, busque algo que se encontra além dos limites impostos.

Entretanto, o cristianismo ao romper com toda a tradição hinduísta, grega, egípcia, do tempo cíclico, do constante retorno ao tempo mítico – in illo tempore – permite ao homem, na Igreja, encontrar a Cristo no hoje. O kronós – Χρόνος -, o tempo ordinário, é completado pelo tempo profético, o kairós - καιρό, que extrapola as restrições e que abarca a totalidade do real. Nesse tocante, a Igreja na história deve ser entendida como uma analogia perfeita à vida de Jesus. A perseguição do Rei Herodes e o massacre dos santos inocentes e os primeiros mártires da nascente comunidade cristã; o jovem Jesus pregando no templo e os Padres da Igreja até o séc. IV; a vida pública e a expansão do cristianismo por todo o orbe, etc.

Quando Cristo entra glorioso em Jerusalém, onde a sua humanidade é exaltada – “Hosana ao Filho de David” – ao mesmo tempo em que reconhecem a sua divindade – “no mais alto dos céus” – inicia-se a caminhada que terá como fim a redentora crucifixão - trinta anos de vida íntima, três anos de vida pública, três horas de via crucis, três dias para a Ressurreição! A Eucaristia, também no mesmo sentido, pode ser entendida como analogia ao tempo de Cristo: Kyrie e Santos Inocentes, Glória e Nascimento, Liturgia da Palavra e Vida Pública, Santo e Entrada de Cristo em Jerusalém, Consagração e Paixão, Presença de Cristo e Ressurreição.

Ora, se a Igreja na história caminha com os passos de Nosso Senhor, em qual altura da estrada nós estamos? Como disse Pe. Patrick de Laubier a resposta é pessoal, tendo em vista que a hora, como a Sagrada Escritura coloca, não fora determinada. Não obstante os sinais se fazem presentes. Vemos a apostasia e os precursores do anticristo. Vale destacar, outrossim, que o anticristo não pode ser entendido como um líder de batalha, mas sim um líder espiritual. Como colocara o destacado sacerdote francês “Uma heresia é pior do que uma invasão militar”. Destarte, as duas bestas do Apocalipse – da terra e do mar – são a força da febre ideológica que se forma a partir de uma reflexão pretensiosamente racional – Marx e Lênin, Nietzsche e Hitler, por exemplo.

Ora, ainda que os tempos modernos nos mostrem uma realidade de caos, de crescente ascensão do espírito do ateísmo, de forte secularização, a Igreja sempre se mostrou, ao longo da história, como radiante e vigorosa, ainda nas contrariedades. Isso me recorda o que Chesterton, analisando a história do cristianismo ao longo dos tempos, comentara: “Pelo menos cinco vezes, com os arianos e os albigenses, com os céticos humanistas, depois de Voltaire e depois de Darwin, a Fé ao que tudo indica foi atirada aos cães. Mas em cada um dos cinco casos os cães é que morreram”

A resposta do Cristianismo só é possível através do surgimento da Civilização do Amor, como colocou o Papa Paulo VI em 1975, no auge da crise pós-conciliar. A sua construção não ocorrerá baseada em idéias, ideais radiantes ou em ideologias, mas sim em Jesus Cristo, mediante a experiência íntima com Ele, a pessoa de Cristo! Assim, o problema do mundo moderno, por mais análises que sejam feitas, não se encontra no secularismo, no islamismo, no comunismo, etc, mas sim nos católicos, que, como dissera Pe. Patrick de Laubier, ainda que pareçam piedosos, não conhecem a pessoa de Jesus. Os cristãos não devem se fiar em pessimismos ou otimismos, mas na Fé! Apenas pelo conhecimento íntimo de Nosso Senhor será possível combater os erros do mundo moderno e construir a Civilização do Amor.

Por fim, o presbítero francês nos colocou uma imagem sublime. Nas quarenta horas passadas entre a morte na Cruz e a Ressurreição, o corpo morto de Cristo encontrou-se unido, agarrado, junto ao colo da Virgem Maria. O seu Imaculado Coração, nesse instante, bateu no lugar do Sagrado Coração de Seu Filho, que ali se encontrava em silêncio, por toda a Igreja nascente, para que desse modo, enquanto Jesus ia aos infernos, pudesse, em sua volta, bater para toda a eternidade.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

A nossa irmã Dona Calça



Pedro Ravazzano

Hoje, infelizmente, vem ganhando força certo tradicionalismo de sabor ideológico, isto é, que idealiza a ‘segunda realidade’ e que, conseqüentemente, deforma o mundo real. Obviamente não entra na discussão a validade de algumas posições adotadas. O ‘arqueologismo’, outrossim, forma-se como reflexo dessa dinâmica confusa, abstrata e idealizada – quiçá gnóstica - do tempo passado.

O pacote do tradicionalismo-ideológico abarca a totalidade do homem que nele se insere. As posições políticas, religiosas, os gostos literários, artísticos e, inclusive, a forma de se vestir. Friso, e é sempre bom pontuar, que aqui não cabe a condenação de tais posições, até porque seria um verdadeiro contra-senso de minha parte tendo em vista que comungo de algumas dessas colocações. Sem embargo, o ponto fundamental da questão não é se esta visão de mundo é, em si mesma, maléfica. O problema é quando a adesão a esta é conseqüência não do resultado de uma reflexão pessoal ou do progressivo aprimoramento do espírito humano, mas sim da simples adesão a um grupo.

O tradicionalismo-ideológico não apenas idealiza os tempos passados, especificamente pré-conciliares, como advoga o retorno a este “in illo tempore”, mítico. Nesse sentido a forma de se vestir é parte essencial das ações em busca da revitalização da tradição – e aqui entra a confusão entre Tradição e tradição. De fato, mulheres que usam calças certamente não são boas pessoas ou, no mínimo, comungam dos ideais feministas! Isto é tão falso como acreditar que fenomenólogos não podem ser católicos praticantes ou que todo (neo)tomista é sempre um primor de fidelidade. A ideologia, isto sim, atrofia a acertada e equilibrada ótica. Constatar a crise do mundo moderno não é muito difícil; Heidegger, frankfurtianos, etc, também chegaram a este resultado. Entretanto, a diferença está na prática adotada para, no mundo real, combater essa época desligada ou, se preferirem, convocar a cruzada da contra-revolução.

Creio, realmente, que queimar calças na fogueira – com todas as desculpas à Inquisição pelo trocadilho – não irá ajudar na revitalização dos valores morais e espirituais da Civilização Ocidental. Ainda que a pobre calça jeans tenha um passado obscuro, nada nos impede de recebê-la no seio da Igreja como a prostituta arrependida. Ora, se é para retornar aos tempos áureos, eu me recuso a usar trajes modernos como terno e gravata! Quero o direito de sair pelas ruas usando trajes rococós – sim, o ideal seria uma honrosa armadura do medievo, mas gosto é gosto! Mas se eu reivindico o direito de vestir-me com tecidos contendo representações de paisagens, por que alguém não poderia clamar pela legitimidade do sonho de paramentar-se com a mais genuína toga romana?

Os tempos mudam! Sim, eu afirmei isso, mas peço a boa vontade para que não me entendam mal. Dentro da normalidade e da moralidade acompanhar os tempos não apenas é legítimo como aconselhável. Uma saia não é mais digna do que uma calça pelo simples fato de ser saia. A mente humana é tão potente que nós vamos da mini-saia até os “conservadores” trajes puritanos. Não é diferente com a pobre da calça!

No mundo real, esse mundo que se transformou quando da vinda do Verbo Encarnado, iniciar uma evangelização não pelas aulas de catecismo mas com um passeio pelas lojas para a elaboração de um novo ‘guarda-roupas’ não só é estranho como surreal. Ademais, colocar a forma de vestir – não vamos confundir gostos com moralidade. Uma coisa é uma calça/saia, outra é uma calça/saia imoral – como parte importante do processo de conversão é um total retrocesso. Vale destacar, além disso, que na visão ideológica a questão muitas vezes sequer entra na moralidade ou imoralidade da calça, mas se concentra no fato de ter uma origem revolucionária, feminista, antiestética, etc. Tudo isso pode ser verdade, mas não torna o uso desaconselhável simplesmente porque – tirando as horrorosas militantes feministas (redundância?) – ninguém usa uma calça como sinal de afronta aos valores cristãos e à Sagrada Tradição!

A coitada da calça busca um refúgio para se esconder de senhoritas que, com paus e pedras, querem linchá-la publicamente.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Ser tolerante, ou não ser tolerante, eis a questão!

Pedro Ravazzano

Os “protestos” organizados quando da Jornada Mundial da Juventude trazem consigo uma pertinente reflexão sobre a mentalidade peculiar do militante das causas “modernas” e “arejadas”. Não só na Espanha, mas como também aqui no Brasil a lógica própria, que funda as ações ideológicas, destaca não apenas o caráter totalitário de tais movimentos como a sua essencial intransigência com tudo que, direta ou indiretamente, oponha-se ao objetivo ansiado.

O Movimento do Abecedário, isto é, LGBTT, impõe ao mundo a sua forma de pensar e orquestra um grande rede de poder que tem como fim tolher qualquer iniciativa que coloque-se na antípoda dos axiomas da modernidade. Anarquistas, socialistas cults, homossexuais engajados, ateus militantes, todos estes engrossam a fileira em prol da cartilha ideológica politicamente correta.

Por um lado, através do poder político governamental, fazem valer pela força leis que transgridem qualquer idéia de direito e criam verdadeiras constituições paralelas que privilegiam as minorias. Obviamente, e aqui não cabe nenhuma inocência, a causa dos grupos minoritários militantes concede ao estado poder de legislar sobre pontos cruciais da vida social; é o estado que define a vida, é o estado que distingue as raças, é o estado que marca a fronteira entre o moral e o imoral, é o estado que limita a religião etc. Sem embargo, o excesso poderio estatal, numa situação ordinária, cresce na proporção dos decibéis dos militantes que clamam pela proteção das leis contra a perversa e intolerante sociedade! Não sem propósito o governo brasileiro custeia e mantém um número invejável de ONGs ligadas às mais ricas e necessárias causas.

O pacto entre o governo - fortalecido pelas minorias – com as minorias - elevadas a um estado de tão grande prestígio que as leis para elas estão numa constante epokhé - finca as bases de toda a ação organizada contra a Igreja e a normalidade. O militante que se sente confortável para debochar de freiras e padres lançando vitupérios e os agredindo fisicamente, é o mesmo militante que, no dia seguinte, aparece com olhinhos tristes e lacrimosos no jornal da manhã alegando que neo-nazistas agrediram o seu companheiro. Qualquer indivíduo com bom senso consegue captar a barbaridade moral de ambos os atos. O militante, por sua vez, reclama quando é agredido mas na tarde seguinte já está liberando o seu trauma queimando retratos do Papa e ultrajando jovens de batina.

A soberba ideológica da noite e a vitimização da manhã são duas faces de uma mesma moeda; por um lado extravasam a sua ira totalitária e, por outro, apelam para o lado sensível que, quando maximizados pela grande mídia, atingem uma parte considerável da população.

Esse politicamente correto que abrange questões religiosas, raciais, sociais, afetivas, políticas, ainda alegando flexibilidade e tolerância, destaca-se pela intolerância contra tudo que, pelo simples fato de existir, já é visto como obstáculo vivo da própria intolerância. Um branco, heterossexual, católico, classe média e conservador, por ser branco, heterossexual, católico, classe média e conservador é um inimigo da causa e um potencial alvo das agressões dos militantes.

Ser tolerante, no axioma moderno, é ser delimitado pelas leis do estado e controlado pelos movimentos ideológicos que determinam onde começa e acaba o mundo cor-de-rosa paz e amor da tolerância que eles edificaram.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Enquete: Na Itália, desagregação familiar se soma a crise econômica

O portal de notícias IG reproduziu em 7 de agosto um artigo da agência EFE sobre o importante papel que a família, na Itália, teria neste momento de crise financeira, não fossem os fatores de decadência que nela penetraram.

"A família é o amortecedor secreto da crise social", disse Marco Ferraroti, sociólogo e professor da Universidade La Sapienza de Roma. Ferraroti observa que, pela influência da Igreja Católica, a Itália ainda "é muito mais familiar do que qualquer outro país da Europa” e que “a crise da sociedade enfatizou o papel da família”. “Quando nada funciona em uma sociedade, a família é que resolve os problemas", explicou.

Para Giussepe Roma, diretor-geral do Centro de Sociologia Censis, a família italiana "é o grande motor do país", mas constata que a instituição já não é mais como outrora. A baixa natalidade fez com que no país a metade da população seja constituída atualmente por idosos. Além disso, os divórcios e a falta de casamentos entre pessoas abaixo de 35 anos tornou a família menor e mais fraca. “Nos encontramos diante de uma forte crise de valores e, portanto, a família como pilar da sociedade corre sério risco”, afirmou Giussepe Roma.

Para o leitor, quais dos fatores abaixo contribuem mais para aumentar a crise e a decadência da família?

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Aprendendo a ser o que não é ou As ôtoridades no facebook

Pedro Ravazzano

O facebook vem se tornando no potencializador de todos os fracassos que, no mundo concreto, seriam levados pela correnteza. Tornou-se incrivelmente comum encontrar com doutores em todos os assuntos e temáticas. Depois que surgiu o Google e as redes sociais ninguém – eu disse ninguém – pode ser dar o direito de não ter a resposta na ponta da língua.

Entretanto, ainda que João, Maricota, Alfredo e Américo dêem pitacos sobre a política nacional, a crise no Egito ou as tensões entre Israel-Palestina, outros indivíduos se especializaram numa arte mais refinada e complexa. Não é um pitaco mundano, mas contextualizado, recheado de autoridade e embebido num tom pontifical que deixaria o Beato Pio IX tímido.

Quase sempre essas figuras seguem a mesma cartilha. Vejamos os passos. Normalmente escolhem um autor ou uma figura na qual vão se “especializar”. Pode ser alguma entidade do panteão tradicionalista, como algum Bispo desobediente, ou quem sabe um filósofo de renome, mas que seja de difícil compreensão ou menosprezado por grande parte do mainstream ordinário. O importante é a distinção – ah, Girard!

Depois de se “especializar”, ler alguma coisa no Google – mormente a Wikipédia – já pode iniciar as polêmicas com muito ar combativo nas redes sociais. Para ser mais verdadeiro, para encarnar melhor o personagem, é indicado uma caracterização fidedigna; um português arcaico sempre cai bem, gosto pelo exótico do “in illo tempore” está em alta e um grupo de amigos – isso é essencial – que não apenas acredita na sua farsa como alimente o seu ego intelectual é importante. Vale destacar que nesse grupo o papel de líder do indivíduo em questão é indiscutível. Junto aos iniciados ele tem a função de estipular os limites do "conhecimento", isto é, os chavões que vão ser repetidos. De certa forma é uma missão relevante, tendo em vista que tais seguidores não teriam outra forma de saber a não ser por meio do simplório conteúdo proferido pelo mestre.

Ora, chegará o momento em que você, verdadeiramente, acreditará que sabe o que não sabia e que acha que passou a saber. Talvez, quem sabe, você realmente se interesse por saber, mas o fato é que não sabe!

Obviamente, e tenho a clara intuição – intuição é coisa de fenomenólogo modernista, hein? - que alguém não vai entender, não estou dizendo que defender, gostar desses autores, apreciar um bom cachimbo, incentivar o uso do véu, interessar-se pelo estudo do latim, ser contra o endeusamento do estado etc, sejam sempre facetas dessas seqüestradores. Não, de forma alguma! Ao contrário! O maior perigo é, justamente, quando os expoentes do pensamento austríaco, do tomismo, dos [bons e equilibrados] defensores da Tradição etc, não são os que, de fato, o são, mas apenas essas figuras horrendas e montadas.