
Pedro Ravazzano
O mundo moderno é tão febril e perdido no próprio devaneio quanto o pedantismo liberal de Stiepan Trofimovicth. Entretanto, para o leitor atento de Os Demônios, a mão do escritor-de-nenhum-livro tocou direta ou indiretamente todas as personagens que deram forma não apenas ao pensamento, mas à práxis niilista, anarquista etc. Caminhamos, isto sim, para formação da futura geração insana como Piotr Vierkhoviénski e angustiada como Nikolai Stavróguin.
Qual o fruto da geração liberal, bon-vivant, utópica em seus objetivos e em sua soberba magistral? O vazio das crianças. Stiepan Trofimovicth, encarna a caricatura mais emblemática do intelectual-poeta-revolucionário afogado em seus delírios liberais, junto a alguma obra do iluminismo francês e na mão a pena do livro que jamais escreveu. A típica modernidade líquida. Esse idealismo doentio, com ares internacionalistas, forma a primeira geração perdida, isto é, rarefeita no que se refere ao entendimento da Civilização. O estereótipo importado, mediante a acentuada crítica a tudo que seja tipicamente russo, ao espírito eslavo, é marca da destruição gradual das raízes fundamentais que, na próxima geração, será radicalizada.
“Quanto mais a vida é dura para o homem, quanto mais é um povo oprimido e miserável, tanto mais se obstina em sonhar compensações no paraíso; e se cem mil padres se põem a encorajá-lo nas suas ilusões e a especular sobre elas, então...”
Destarte, Stiepan Trofimovicth forma os seus “filhos” no vazio interior que dará margem a um relativismo feroz, esculpindo nas almas o niilismo e o anarquismo. Os seus critérios flutuantes serão rapidamente rechaçados e substituídos pelo ardor revolucionário objetivo. Assim, o que a próxima geração sonha é, simplesmente, a concretização dos frágeis e confusos ideais por ele ostentados.
Do devaneio vacilante de Stiepan Trofimovicth vamos ao delírio revolucionário de Piotr Vierkhoviénski, numa paixão ideológica que cega, que se forma primitivamente no nada interior, na falta de critérios, parâmetros, de intimidade consigo.
“Os espíritos superiores são naturalmente despóticos e sempre causaram mais mal que bem. Será preciso bani-los ou condená-los à morte. Arrancar a língua a Cícero, furar os olhos de Copérnico, lapidar Shakespeare, eis o chigalievismo! Os escravos devem ser iguais: sem despotismo jamais houve rebanho, eis o chigalievismo! Ah! Ah! Ah! Isto parece-lhe estranho? Eu sou pelo chigalievismo.”
A sua devoção pela revolução, quando “o mundo será revirado como ainda não o foi”, quando “a noite descerá sobre a Rússia” e “a terra chorará seus antigos deuses” é o sonho da nova ordem, iniciada a partir da tibieza moral e espiritual dos seus pais. Sem embargo, trata-se de uma dinâmica de desconstrução da tradição, mediante a ostentação da razão, com o triunfo do nada. Piotr Vierkhoviénski simplesmente desperta para o caráter fraco e escorregadio de seu genitor. Simplesmente realiza o mal o externalizando.
“Mas uma ou duas gerações de costumes corrompidos é coisas indispensável; corrupção desenfreada, monstruosa, em que o homem será transformado num réptil lamacento, abjeto, cruel, imundo! Eis o que nos falta!”
Nikolai Stavróguin, por sua vez, na angústia e desespero que norteiam as suas ações, apresenta uma dimensão interna em oposição às facetas práticas de Piotr. Ele é o príncipe emblemático sonhado pelas senhoritas e alvo das fofocas da cidade. Contudo, carrega na alma o peso do coração esmagado pela inquietude. Nesse sentido é pesaroso ler o apêndice de Os Demônios, onde se encontra o seu diálogo com o Bispo Tíkhon – não fora colocado na versão publicada por Dostoiévski por temer alguma retaliação pelo caráter próprio do trecho -, e pensar que, caso cumprisse o conselho do sábio religioso talvez o seu fim não seria com a corda no pescoço, com o testamento reduzido a um bilhete suicida. Em certa altura do diálogo Tíkhon o diz:
“O perfeito ateísmo situa-se no alto da escada, no antepenúltimo degrau que leva à fé perfeita (toda a questão está em saber se o galgará ou não), ao passo que o indiferente não tem fé nenhuma, a não ser o medo vil, e somente por vezes, se é homem pecador”
Parece-me que Nikolai Stavróguin, no sofrimento dilacerante da alma, ao invés de buscar a Deus que habita no mais profundo do ser, lançou-se do alto da escada num salto que não teria outro fim senão a morte. Não que ele tenha se convertido ao ideal de Kirilov - “Haverá liberdade completa, quando for totalmente indiferente viver ou não viver. Tal é o fim universal” e “Aquele que se matar unicamente para matar o temor, tornar-se-á na mesma hora um Deus.”. Não. O seu suicídio não foi um ato de “coragem” diante da coerência com o ideal defendido, mas sim uma ação da mais profunda angústia. Stiepan Trofimovicth, no seu discurso derradeiro, com característica quase delirante, diferentemente de Stavróguin, parece despertar, ao menos em parte, ao reconhecimento do caráter transcendental da existência humana
"Se se viesse a privar os humanos desse infinitamente grande, eles não quereriam mais viver e morreriam de desespero. O incomensurável e infinito são tão necessários ao homem quanto o pequeno planeta sobre o qual ele se move... Meus amigos, todos, todos, viva o grande Pensamento, o Pensamento eterno, infinito! Todo homem! Até mesmo o homem mais estúpido tem necessidade de alguma coisa de grande. Pietrucka! Oh! Como desejaria revê-los todos... Eles ignoram, sim, eles ignoram, que também eles encerram em si aquele mesmo grande Pensamento eterno.”
O questionamento lançado por Stavróguin ao estudante Chátov – “Mas em Deus, crê em Deus?” – ecoa por toda a obra. A resposta enigmática – “Eu...acreditarei em Deus.” – é a marca da alma que, ainda lutando contra a existência no vazio, é incapaz, por conta das marcas deixadas pelos traumas do sofrimento, de chegar à experiência com Deus.
Resta apenas, em meio a essa gênese da história do espírito moderno, repetir como o Bispo Tíkhon que, num murmúrio apaixonado, diante do “demoníaco” Strávoguin, afirmou; “Senhor, não terei vergonha de tua cruz”








