
Pedro Ravazzano
Hoje, infelizmente, vem ganhando força certo tradicionalismo de sabor ideológico, isto é, que idealiza a ‘segunda realidade’ e que, conseqüentemente, deforma o mundo real. Obviamente não entra na discussão a validade de algumas posições adotadas. O ‘arqueologismo’, outrossim, forma-se como reflexo dessa dinâmica confusa, abstrata e idealizada – quiçá gnóstica - do tempo passado.
O pacote do tradicionalismo-ideológico abarca a totalidade do homem que nele se insere. As posições políticas, religiosas, os gostos literários, artísticos e, inclusive, a forma de se vestir. Friso, e é sempre bom pontuar, que aqui não cabe a condenação de tais posições, até porque seria um verdadeiro contra-senso de minha parte tendo em vista que comungo de algumas dessas colocações. Sem embargo, o ponto fundamental da questão não é se esta visão de mundo é, em si mesma, maléfica. O problema é quando a adesão a esta é conseqüência não do resultado de uma reflexão pessoal ou do progressivo aprimoramento do espírito humano, mas sim da simples adesão a um grupo.
O tradicionalismo-ideológico não apenas idealiza os tempos passados, especificamente pré-conciliares, como advoga o retorno a este “in illo tempore”, mítico. Nesse sentido a forma de se vestir é parte essencial das ações em busca da revitalização da tradição – e aqui entra a confusão entre Tradição e tradição. De fato, mulheres que usam calças certamente não são boas pessoas ou, no mínimo, comungam dos ideais feministas! Isto é tão falso como acreditar que fenomenólogos não podem ser católicos praticantes ou que todo (neo)tomista é sempre um primor de fidelidade. A ideologia, isto sim, atrofia a acertada e equilibrada ótica. Constatar a crise do mundo moderno não é muito difícil; Heidegger, frankfurtianos, etc, também chegaram a este resultado. Entretanto, a diferença está na prática adotada para, no mundo real, combater essa época desligada ou, se preferirem, convocar a cruzada da contra-revolução.
Creio, realmente, que queimar calças na fogueira – com todas as desculpas à Inquisição pelo trocadilho – não irá ajudar na revitalização dos valores morais e espirituais da Civilização Ocidental. Ainda que a pobre calça jeans tenha um passado obscuro, nada nos impede de recebê-la no seio da Igreja como a prostituta arrependida. Ora, se é para retornar aos tempos áureos, eu me recuso a usar trajes modernos como terno e gravata! Quero o direito de sair pelas ruas usando trajes rococós – sim, o ideal seria uma honrosa armadura do medievo, mas gosto é gosto! Mas se eu reivindico o direito de vestir-me com tecidos contendo representações de paisagens, por que alguém não poderia clamar pela legitimidade do sonho de paramentar-se com a mais genuína toga romana?
Os tempos mudam! Sim, eu afirmei isso, mas peço a boa vontade para que não me entendam mal. Dentro da normalidade e da moralidade acompanhar os tempos não apenas é legítimo como aconselhável. Uma saia não é mais digna do que uma calça pelo simples fato de ser saia. A mente humana é tão potente que nós vamos da mini-saia até os “conservadores” trajes puritanos. Não é diferente com a pobre da calça!
No mundo real, esse mundo que se transformou quando da vinda do Verbo Encarnado, iniciar uma evangelização não pelas aulas de catecismo mas com um passeio pelas lojas para a elaboração de um novo ‘guarda-roupas’ não só é estranho como surreal. Ademais, colocar a forma de vestir – não vamos confundir gostos com moralidade. Uma coisa é uma calça/saia, outra é uma calça/saia imoral – como parte importante do processo de conversão é um total retrocesso. Vale destacar, além disso, que na visão ideológica a questão muitas vezes sequer entra na moralidade ou imoralidade da calça, mas se concentra no fato de ter uma origem revolucionária, feminista, antiestética, etc. Tudo isso pode ser verdade, mas não torna o uso desaconselhável simplesmente porque – tirando as horrorosas militantes feministas (redundância?) – ninguém usa uma calça como sinal de afronta aos valores cristãos e à Sagrada Tradição!
A coitada da calça busca um refúgio para se esconder de senhoritas que, com paus e pedras, querem linchá-la publicamente.





