O Magistério da Igreja, como é de sua responsabilidade, refletiu a respeito da temática da salvação fora das fronteiras visíveis do cristianismo. Ademais, sabendo da relevância da missão na próprio coerência da fé em relação ao mandato deixado por Cristo, frisara a necessidade de priorizar o anúncio da Boa Nova entre os povos.
O documento do Servo de Deus Pio XII, Mystici Corporis Christi, afirma que os que não pertencem à Igreja são chamados a ela através de um desejo inconsciente. A carta de 8 de agosto de 1949, do Santo Ofício ao Bispo de Boston, apresenta dois conceitos: necessitas praecepitis e intrinseca necessitas, ou seja, a união da salvação à Igreja – instrumento de salvação – e a necessidade dos meios indispensáveis para a salvação. Destarte, a salvação pode ser conquistada pelo desejo implícito de permanecer na ignorância invencível que coloca o homem fora dos limites visíveis de Cristo.
O documento Evangelii Praecones, do mesmo Pio XII, avança nos processos de missão e evangelização, assim como busca institucionalizar as igrejas locais. O Evangelho, como colocado, não deve sufocar o que há de bom, honesto e belo nas tradições próprias dos povos evangelizados. A transformação, outrossim, ocorre internamente. Coloca, então, a Anima Naturaliter Christiana, iluminados pela luz Divina e pela graça, adequando a alma com Cristo. O cristianismo não suprime as facetas culturais não-cristãs, mas as consagra e as purifica. A fé cristã não deve ser vista como a transplantação da Civilização Européia.
Outro documento magisterial de considerável importância nessa temática é a declaração conciliar Nostra Aetate. Em Lumen Gentium 22 já há uma exposição do que seria mais aprofundado à frente. Diz que Cristo morreu por todos e só uma é a vocação – divina – do homem, assim, o Espírito Santo, por caminhos que só Deus conhece, concede a graça de inserir o homem no mistério salvífico.
A NE não é uma reflexão completa a respeito das relações do cristianismo com as religiões, aponta aquilo que nos une, mas não busca engendrar uma análise minuciosa e sistemática da problemática. A origem e o fim do homem do homem é entrar na unidade com Cristo, buscando os enigmas da condição humana que agitam e dinamizam a própria existência. O senso religioso, como compreendido, é a percepção da força divina, de onde surge a religião. A força da NE parte da percepção de que a fé cristã, para os cristãos, não é uma prerrogativa, mas um dom que deve ser anunciado e comunicado.
O Beato João Paulo II, na Redemptoris Missio, deu continuidade a essa linha de documentos magisteriais. O Papa aborda o impulso missionário – coração da Igreja e saúde da comunidade cristã – como parte da essência mesma da fé. Constatando a crise do ardor missionário no tempo pós-conciliar, viu-se a necessidade de renovação da vida cristã. Inaugura-se, assim, as missões Ad Intra e Ad Extra. Tendo em vista que ninguém tem a certeza da salvação e de estar na graça de Deus, como ensinou o Concílio de Trento, percebeu-se a importância de iniciar uma nova evangelização que fosse além do Ad Gentes, que também estivesse direcionada aos homens já cristãos mas que perderam o sentido do Sagrado.
O documento tem alguns pontos fundamentais: Jesus Cristo é o único Salvador, a fé em Cristo é a proposta à liberdade do homem, a Igreja é sinal e instrumento de salvação, a salvação é oferecida para todos os homens, necessidade intrínseca à fé: missão, significado do Reino de Deus, o Espírito Santo, protagonista da missão.
O Papa tem o cuidado de refutar todas as cristologias imprecisas e heréticas que pululavam desde a década de 70. Coloca que as outras mediações – que não são paralelas, nem complementares – apenas cobram valor na mediação de Cristo. Ademais, afirma que é impossível fazer uma separação entre Cristo e o Verbo Encarnado. Destarte, Jesus Cristo é o centro e fim da história e o seu anúncio não atenta à liberdade. Desse modo, propor a fé é um direito de todos os povos e obrigação da Igreja, Mãe e Mestra, e não uma instituição de cunho sociológico.
A RM reafirma a fé tradicional da Igreja ao colocá-la como sacramento universal de salvação. A missão, então, é o cumprimento da vontade salvífica universal de Deus, anunciando a verdadeira libertação, a abertura ao amor de Cristo. Ademais, ao propor o “subsiste” ao invés do simples “é” a Igreja responde à reflexão teológica a respeito dos elementos de santificação contidos fora dela. Obviamente não relativiza, mas concede um valor mais objetivo.
Além disso, João Paulo II pontua o perigo da desconstrução do verdadeiro ideal do Reino numa mensagem difusa e confusa, sem qualquer referência à dimensão cristológica. A natureza do Reino é, verdadeiramente, a comunhão de todos os seres humanos entre si e com Deus. Considerar a o Reino numa perspectiva puramente antropocêntrica foi o erro, por exemplo, de Paul Knitter. Essas teologias reinocêntricas ofuscam a figura de Cristo, quando o Reino é inseparável de Cristo e da Igreja e tem uma relação intrínseca com esta.