quinta-feira, 9 de junho de 2011

O mundo moderno na banca de revista mais próxima de você!

Pedro Ravazzano

Eu não levo nada a sério teoria das conspirações, por isso não acredito que os livros de Nietzsche, Dalai Lama e Zíbia Gasparetto sejam vendidos em qualquer esquina porque haja um plano mundial de dominação onde os vendedores de revistas são parte essencial da vitória final! Não, sejamos mais realistas até porque, analisando os fatos com mais objetividade e livre de idéias pré-concebidas podemos constatar que a realidade é muito pior do que as mais insanas teorias da conspiração.

Se uma banca de revista em São Paulo está vendendo niilismo, espiritismo e budismo açucarado é porque, mercadologicamente raciocinando, há saída. Do contrário estes livros não seriam facilmente encontrados em áreas de destaque - eu mesmo já encontrei "A Democracia na América" velho e esquecido numa banca. Ora, o sucesso da auto-ajuda tibetana e do espiritismo é mais fácil de compreender. O budismo em sua origem, vale frisar, se destacava pelo ateísmo prático; o progresso da vida espiritual se dava por um esforço do próprio homem. O espiritismo com toda a sua difícil e escorregadia definição propõe um mundo água-com-açúcar, com uma "lei do karma" simplificada numa idéia confusa de bondade, felicidade e justiça. Ambas as considerações destacam não só o esforço do homem como a sua auto-suficiência.

Ora, o niilismo de Nietzsche, na esteira do humanismo ateu de Feuerbach e do materialismo histórico de Karl Marx, pensava o homem como medida e fim último. A sua liberdade, então, brotaria da morte de Deus, da razão e dos valores, levando uma vida regida pelos extintos e paixões. O homem, assim, cria e forja os seus próprios valores de acordo com os seus próprios desejos. Do nada ele veio e para o nada ele irá. Tudo se reduz à imanência, às sensações, às experiências que provém do corpo. Assim, não há como falar de outro mundo, transcendente, contemplativo.

O niilismo é o próprio espírito que permeia as mentes do homem moderno. O relativismo consolida a crença da autonomia do indivíduo e desconstrói qualquer possibilidade do conhecimento da verdade - transcendente. Ademais, uni-se com as crenças adocicadas que destacam a necessidade do homem de, no hoje - novamente sem transcendência - construir o único mundo que conhece - e conhecerá. A auto-ajuda literária apenas surge para canalizar a neurose - como pensada por Freud - e tornar o homem mais feliz enquanto mais cheio de si e crente do seu poder. O espiritismo, do mesmo modo, com a sua doutrina líquida não apenas reduz a ação de Deus a um papel minimamente necessário para ser considerada religião como centraliza todos os esforços no indivíduo e na sua auto-suficiência de edificar o mundo de paz!

domingo, 5 de junho de 2011

O Magistério e a missão

Pedro Ravazzano

O Magistério da Igreja, como é de sua responsabilidade, refletiu a respeito da temática da salvação fora das fronteiras visíveis do cristianismo. Ademais, sabendo da relevância da missão na próprio coerência da fé em relação ao mandato deixado por Cristo, frisara a necessidade de priorizar o anúncio da Boa Nova entre os povos.

O documento do Servo de Deus Pio XII, Mystici Corporis Christi, afirma que os que não pertencem à Igreja são chamados a ela através de um desejo inconsciente. A carta de 8 de agosto de 1949, do Santo Ofício ao Bispo de Boston, apresenta dois conceitos: necessitas praecepitis e intrinseca necessitas, ou seja, a união da salvação à Igreja – instrumento de salvação – e a necessidade dos meios indispensáveis para a salvação. Destarte, a salvação pode ser conquistada pelo desejo implícito de permanecer na ignorância invencível que coloca o homem fora dos limites visíveis de Cristo.

O documento Evangelii Praecones, do mesmo Pio XII, avança nos processos de missão e evangelização, assim como busca institucionalizar as igrejas locais. O Evangelho, como colocado, não deve sufocar o que há de bom, honesto e belo nas tradições próprias dos povos evangelizados. A transformação, outrossim, ocorre internamente. Coloca, então, a Anima Naturaliter Christiana, iluminados pela luz Divina e pela graça, adequando a alma com Cristo. O cristianismo não suprime as facetas culturais não-cristãs, mas as consagra e as purifica. A fé cristã não deve ser vista como a transplantação da Civilização Européia.

Outro documento magisterial de considerável importância nessa temática é a declaração conciliar Nostra Aetate. Em Lumen Gentium 22 já há uma exposição do que seria mais aprofundado à frente. Diz que Cristo morreu por todos e só uma é a vocação – divina – do homem, assim, o Espírito Santo, por caminhos que só Deus conhece, concede a graça de inserir o homem no mistério salvífico.

A NE não é uma reflexão completa a respeito das relações do cristianismo com as religiões, aponta aquilo que nos une, mas não busca engendrar uma análise minuciosa e sistemática da problemática. A origem e o fim do homem do homem é entrar na unidade com Cristo, buscando os enigmas da condição humana que agitam e dinamizam a própria existência. O senso religioso, como compreendido, é a percepção da força divina, de onde surge a religião. A força da NE parte da percepção de que a fé cristã, para os cristãos, não é uma prerrogativa, mas um dom que deve ser anunciado e comunicado.

O Beato João Paulo II, na Redemptoris Missio, deu continuidade a essa linha de documentos magisteriais. O Papa aborda o impulso missionário – coração da Igreja e saúde da comunidade cristã – como parte da essência mesma da fé. Constatando a crise do ardor missionário no tempo pós-conciliar, viu-se a necessidade de renovação da vida cristã. Inaugura-se, assim, as missões Ad Intra e Ad Extra. Tendo em vista que ninguém tem a certeza da salvação e de estar na graça de Deus, como ensinou o Concílio de Trento, percebeu-se a importância de iniciar uma nova evangelização que fosse além do Ad Gentes, que também estivesse direcionada aos homens já cristãos mas que perderam o sentido do Sagrado.

O documento tem alguns pontos fundamentais: Jesus Cristo é o único Salvador, a fé em Cristo é a proposta à liberdade do homem, a Igreja é sinal e instrumento de salvação, a salvação é oferecida para todos os homens, necessidade intrínseca à fé: missão, significado do Reino de Deus, o Espírito Santo, protagonista da missão.

O Papa tem o cuidado de refutar todas as cristologias imprecisas e heréticas que pululavam desde a década de 70. Coloca que as outras mediações – que não são paralelas, nem complementares – apenas cobram valor na mediação de Cristo. Ademais, afirma que é impossível fazer uma separação entre Cristo e o Verbo Encarnado. Destarte, Jesus Cristo é o centro e fim da história e o seu anúncio não atenta à liberdade. Desse modo, propor a fé é um direito de todos os povos e obrigação da Igreja, Mãe e Mestra, e não uma instituição de cunho sociológico.

A RM reafirma a fé tradicional da Igreja ao colocá-la como sacramento universal de salvação. A missão, então, é o cumprimento da vontade salvífica universal de Deus, anunciando a verdadeira libertação, a abertura ao amor de Cristo. Ademais, ao propor o “subsiste” ao invés do simples “é” a Igreja responde à reflexão teológica a respeito dos elementos de santificação contidos fora dela. Obviamente não relativiza, mas concede um valor mais objetivo.

Além disso, João Paulo II pontua o perigo da desconstrução do verdadeiro ideal do Reino numa mensagem difusa e confusa, sem qualquer referência à dimensão cristológica. A natureza do Reino é, verdadeiramente, a comunhão de todos os seres humanos entre si e com Deus. Considerar a o Reino numa perspectiva puramente antropocêntrica foi o erro, por exemplo, de Paul Knitter. Essas teologias reinocêntricas ofuscam a figura de Cristo, quando o Reino é inseparável de Cristo e da Igreja e tem uma relação intrínseca com esta.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Sem a Igreja não há salvação

Pedro Ravazzano

A Igreja é o signo da mais clara salvação, edificada por Cristo não apenas como sinal de unidade mas como real e verdadeiro meio para se alcançar a plenitude da fé. Para os não-cristãos a Igreja tem a missão de ser intercessora, não apenas rezando, mas buscando o anúncio do Evangelho para que todos conheçam e reconheçam a Jesus como Salvador.

A visão pluralista nega a verdade da expressão ou anula o seu valor ao buscar analisar o contexto histórico no qual surgiu, desconstruindo a sua validade e justificando a sua permanência na Tradição da Igreja. Já a teologia cristocêntrica advoga uma reinterpretação do axioma fundamental, mantendo seu cerne a respeito da importância crucial da Igreja para a salvação.

Essa interpretação, partindo de uma ótica ortodoxa, destaca a necessidade da Igreja para a salvação. Cristo quis unir o seu mistério à Igreja. Todos os que crêem em Jesus necessariamente precisam pertencer ao Seu Corpo Místico, Sacramento Universal de Salvação.

Os teólogos dessa linha, buscando, inclusive, desviar-se dos ranços modernistas dos adeptos de pluralismo, propõem, então, “Sine ecclesia nula salus” – Sem a Igreja não há salvação. Deus quer que todos os homens se salvem, mas muitos estão impossibilitados de adentrar na Igreja com o anúncio evangélico. Ora, toda salvação passa por Cristo, ainda que de modo invisível.

Destarte, é o amor que move o anúncio dos missionários e não o temor da danação. Para os que não negam que a Igreja é instituída por Cristo, devem perseverar nela para conquistar a salvação. Para os que nunca tiveram contato com a Igreja, a salvação se dá por meios misteriosos que os encaminham para Cristo. Não obstante, não são vias paralelas à Igreja, mas parte integrantes desta. São Cipriano de Cartago já havia dito que não pode ter a Deus por Pai quem não tem a Igreja por mãe. O contexto não se refere aos não-cristãos, mas aos hereges e cismáticos que, conhecendo-a, a rejeitaram.

A graça salvífica, até para os não-cristãos, depende de uma adesão que está orientada para Cristo e Sua Igreja. Essa adesão à Igreja, como Corpo Místico de Cristo, aos que não receberam o anúncio do Evangelho, é ignorada. Ainda que as religiões possam exercer um impulso positivo, a ação essencial e salvífica vêm do Espírito Santo e encaminha para Cristo. Obviamente, ao considerar as facetas de verdade que estão contidas em outras crenças o Magistério, como coloca o documento Dominus Iesus, afirma que tudo provém do próprio Cristo e, portanto, é parte da Sua Igreja. Ademais, se faz mister destacar as questões ligadas à consciência e ao seguimento da lei natural como pontos crucias ao refletir a respeito da salvação entre os desconhecedores involuntários da Boa Nova. Assim, a Igreja é indispensável por estar ao serviço de Cristo e, desse modo, exerce um peso implícito na salvação dos não-cristãos.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

A epistemologia e o progresso

Pedro Ravazzano

O repúdio ao saber metafísico no mundo contemporâneo tem um forte teor ideológico. A reflexão epistemológica moderna tivera muito relevância na oposição à ontologia partindo de uma leitura e compreensão restritas a respeito da realidade e da ciência. O Círculo de Viena, ao estruturar o que seria considerado o neopositivismo, com o seu forte teor anti-metafísico, fincou as bases do que, no futuro, seria transformado na exaltação da técnica.

O Círculo de Viena, fundado na década de 20, pretendera unificar o saber científico livrando-se de todos os conceitos vazios da metafísica. Ao romper com os critérios ontológicos estes pensadores aplicaram o critério da verificabilidade como medida para distinguir a ciência da metafísica, separadas pela possibilidade da comprovação objetiva das proposições colocadas. Ademais, no limite da linguagem, como dissera Wittgenstein, encontra-se o limite do próprio universo. Destarte, tudo se encontraria reduzido aos signos – linguagem da física - e às interpretações, numa linguagem lógica – formalismo lógico - e analítica que permitiria, até mesmo, a unificação da ciência em contraposição à dispersão científica. Longe da verificação empírica a metafísica destina-se ao submundo do saber.

Karl Popper, também da epistemologia, apresenta uma nova percepção a respeito do saber científico. Para ele a metafísica fora o preâmbulo da ciência da qual emergiu os questionamentos que levaram o homem a buscar o conhecimento das coisas. A falsificabilidade é a teoria popperiana por excelência – o verdadeiro critério de demarcação entre o científico e o não-científico. Para ele não é possível falar de uma certeza definitiva e todo o conhecimento seria, por natureza, conjetural. Destarte, a hipótese científica, caso permita a correção e o desenvolvimento das teorias, é falsificável e, portanto, válida. Popper coloca-se contrário ao princípio verilicacionista dos neopositivistas com a pretensa distinção da racionalidade científica em contraponto ao saber não-científico – distante da linguagem lógica e analítica assim como da verificação empírica. O marxismo e a psicanálise são dois exemplos colocados pelo próprio Popper como amostras de sistemas fechados em si e, conseqüentemente, irrefutáveis pelo fato de criarem uma lógica interna que abarca toda a realidade tornando, então, impossível se livrar dos pressupostos colocados. Outrossim, com uma ciência baseada em hipóteses sustentadas na abertura à refutação e, portanto, ao aperfeiçoamento, há um progresso real que se destina à verdade.

Para Popper a metafísica pode ter sentido quando inspiradora no contexto do descobrimento das hipóteses científicas. Assim, a falsicabilidade abre a racionalidade das ciências. Se a teoria precede a própria experiência, a ciência, como pensada por Popper, abre-se a uma racionalidade ampla, não-exata, rompendo definitivamente com a ótica analítica do neopositivismo que é baseada numa atividade estritamente indutiva e em leis que, quando verificadas, tornam-se gerais.

Thomas Kuhn, na esteira de Karl Popper, também se esforça para livrar o saber científico do ranço analítico colocado pelo Círculo de Viena, tentando fortalecer o cenário onde se estrutura uma ciência aberta às relações sociais. Destarte, no seu pensamento emerge a idéia essencial do paradigma, isto é, um modo de pensar, uma tradição intelectual, que fundamenta toda a reflexão científica. Para Kuhn o conhecimento científico não progride numa linha retilínea de saber acumulado, ao contrário, o crescimento ocorre sem uma seqüência orgânica que não pressupõe um desenvolvimento concatenado. Assim, Kuhn desconstrói a idéia de uma ciência intocável e identificada estritamente à cientificidade e à racionalidade. Por outro lado, colocando os fatores externos – psicológicos e sociológicos – que influem no modo de organizar e pensar ciência. Nesse sentido, o pensamento kuhniano gera um rompimento mais profundo com os aspectos lógico-metodológicos, destacando as facetas subjetivas.

O progresso como pensado por Kuhn, em conjunto, é chamado de “paradigma”, isto é, a matriz comum à comunidade científica, que sustenta a visão de mundo sobre a qual se levanta o prédio da ciência. O paradigma, então, como uma concepção geral, abarca as teorias, instrumentos, conceitos, métodos, os princípios basilares do saber. Do mesmo modo, para Kuhn, os saltos qualitativos se dão por um processo revolucionário que rompe com as velhas tradições inaugurando uma ótica nova. Não obstante, não se pode falar de continuidade, mas do nascimento de uma leitura moderna e original. Da ciência normal o progresso tende para a ciência revolucionária, no período onde o antigo modelo já entra em decadência com a crescente ascensão de problemas e incongruências destinando-se, então, ao alvorecer de um novo horizonte científico.

Da astronomia copernicana o homem saltou até a mecânica de Galileu e, em seguida, à mecânica quântica. Para Kuhn não há como falar em continuidade sem rupturas, mas em rompimentos que ocorrem com o despertar de uma nova visão de mundo que pode brotar a partir de um único indivíduo. A verdade, então, perpassa por todas essas teorias que, no contexto em que se inseriam, eram plenamente verdadeiras. Portanto, é parte intrínseca à ciência a noção da sua falibilidade no sentido em que, partindo da própria capacidade do homem, uma nova descoberta pode invalidar o que antes era visto como a resposta definitiva. Kuhn acredita que na própria ciência existem elementos metafísicos e, inclusive que as ciências só brotaram e se desenvolveram depois que o homem solucionara as questões de caráter ontológico.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

A fé sem a razão e a razão sem a fé

Pedro Ravazzano

O alvorecer da mentalidade moderna remonta ao rompimento da relação da fé com a razão. A derrocada da Civilização Ocidental, ainda que esteja marcada por eventos revolucionários, tais como a Reforma Protestante e a Revolução Francesa, deve os seus pressupostos filosóficos ao que Descartes inaugurou ao arvorar o triunfo da razão.

A razão se liga a Deus, o seu criador, e encaminha o homem ao conhecimento da realidade que o permeia. O conhecimento das coisas-em-si se dá por um esforço intelectual totalmente possível ao individuo dotado dos potenciais da sua racionalidade. Não obstante, a razão separada da fé, ao colocar Deus como mais um objeto da reflexão, abre-se à sua própria segmentação.

O racionalismo admite o conhecimento racional, porém desvinculado da experiência, totalmente independente da objetividade do mundo, o que deu margem ao distanciamento tipicamente positivista. O empirismo, por sua vez, nega a possibilidade do conhecimento universal e verdadeiro – incluí-se os princípios morais, a religião etc – e fundamenta o conhecimento numa impressão puramente subjetiva baseada no mundo sensível.

Assim como a razão se dividira a fé, separada da razão com o protestantismo, também se fragmentara em diversas denominações baseadas em centenas de impressões. A Sola fide de Martinho Lutero fora a versão religiosa da cisão que ocorrera no saber engendrada por Descartes, Hume, Kant etc.

A aversão da Reforma Protestante à razão criou um cenário muito propício às críticas infundadas dos racionalistas que taxavam a crença como um produção da irracionalidade do homem. Essa distinção entre fé e razão deu forma às filosofias que colocaram Deus como alvo da reflexão ou simplesmente negaram qualquer possibilidade de conhecimento por ser – caso o fosse – uma coisa que extrapola os limites da empiria. Os frutos do protestantismo endossaram essa leitura restrita da religião ao romper com a razão e ao fazer brotar confissões baseadas no sentimento, no fideísmo e na compreensão do saber racional como um sustentáculo externo à própria experiência religiosa.

A reconciliação entre fé e razão, como colocada pela Fides et Ratio, vai reestruturar não apenas a ordem como possibilitar o conhecimento pleno do homem e de sua relação com Deus. Nesse sentido, o saber fenomenológico, como pensado por Edith Stein, ao propor uma reflexão aberta em relação ao fenômeno religioso, possibilitara à filosofia a retomada de uma visão ampla e livre do dogmatismo racionalista e do subjetivismo empirista.

terça-feira, 31 de maio de 2011

A fúria virtual

Pedro Ravazzano

Um dia desses eu me senti confrontado ao me deparar com um posicionamento muito duro em relação a Pe. Fábio de Melo. Todos que acompanham o Acarajé Conservador sabem que não sou nada conivente com os pronunciamentos e as posições problemáticas e difíceis que o referido Sacerdote insiste em colocar, entretanto, é essencial ter a o discernimento para saber o que falar, como falar e onde falar.

Não obstante, eu até considero um grande ironia as posições adotadas. Muitos são os católicos que virtualmente se arrogam o poder pontifical de decretar heresias formais e definir onde começam e acabam as punições canônicas. Citam trechos do Código, colocam passagens de documentos magisteriais, mas tudo numa grande salada que se baseia em impressões puramente pessoais e que não gozam de qualquer respaldo dentro da eclesiologia. Óbvio que não se discute os pressupostos sobre os quais se baseiam para fazer tal análise. O referido Padre – ou qualquer caso em que essa temática se encaixa – notoriamente adota percepções imprecisas, entretanto, além do fato de ser Sacerdote – use batina ou camisa baby look -, não cabe um julgamento que passe por cima do que seja lícito tanto dentro do Direito quanto da caridade e do bom senso.

Não é a primeira vez que me deparo com o mesmo ar pontifical tupiniquim. Jovens que, como um dia eu fui assumo, lançam mão de um ardor passional – muitas vezes sem ser acompanhado pela inteligência, portanto provindo do maligno – que ainda que tenha como intenção defender a Igreja de Cristo não só promove um círculo de ofensas gratuitas como parte de uma visão um tanto forçada do que seja lícito.

Alguns desses têm os olhos voltados para a Roma pré-conciliar, mas esquecem que antes do Concílio seria impensável imaginar um simples leigo citando normas canônicas para acusar de heresia quem quer que fosse, ainda mais um Sacerdote, por mais que tenha culpa no cartório.

Ainda que a intenção seja boa, esta parte de uma visão restrita do que é uma heresia formal, não leva em consideração os problemas de consciência que, querendo ou não, atenuam as posições adotadas e, para agravar, colocadas com um ar tão natural e espontâneo que beira ao desrespeito.

Não é a primeira vez que encontro esse tipo de colocação no facebook, Orkut ou blogs. O rigor contra a heterodoxia e os abusos em campo de doutrina, fé e liturgia não deve ser visto como autorização para sair gritando aos quatro ventos palavras de ordem puramente passionais. Saiamos do campo superficial! Vamos para a discussão que transcenda à simples repetição. Se as afirmações têm um pressuposto óbvio e cristalino o problema não é tê-las e colocá-las – contanto que haja prudência – mas sim expô-las inconseqüentemente.

sábado, 28 de maio de 2011

Bento XVI e o Iluminismo

Pedro Ravazzano

O choque entre a tradição cristã e o iluminismo remonta desde o engendramento da Revolução Francesa quando a paixão anticlerical se estabilizou em todas as fileiras revolucionárias. O iluminismo trouxe o triunfo das áreas do saber unidos pela crença no progresso, assim como a superação da metafísica e a idéia da perfectibilidade do homem. Outrossim, trouxe o imaginário da libertação não mais fruto da graça de Deus mais do esforço do homem em seu próprio humanismo.

O mundo melhor advogado pelo iluminismo não mais tem a graça de Deus, mas é forjado pela capacidade racional do homem. Assim, nasce não apenas a política como conhecemos nos dias de hoje, isto é, o homem como agente da transformação imediata da realidade, como também do estado moderno em seu poderio triunfalista, sumo legislador e responsável por definir o lícito e o ilícito.

O Santo Padre, em sua visita aos EUA, dissera que “Desde o amanhecer da República, a busca da América pela liberdade foi guiada pela convicção de que os princípios que governam a vida política e social estão intimamente ligados à ordem moral baseada no domínio de Deus, o Criador. As marcas dos documentos de fundação desta nação foram feitas sobre esta convicção, quando proclamaram o «self-evident truth», segundo o qual todo homem é criado de forma igual e com direitos inalienáveis, fundamentados nas leis da natureza e do Deus da natureza.” Claro está que o iluminismo inglês, sem o ranço anticlerical do seu original francês, ainda que estruturasse uma visão religiosa tendente ao deísmo, dava à religião uma função moral basilar na fundamentação da sociedade e dos valores, ou como disseram os Pais Fundadores dos EUA: “leis da natureza, e do Deus da natureza”.

O iluminismo acreditava tirar o homem de sua menoridade, dando luz a um entendimento livre e autônomo como dissera Kant. Essa atividade do pensamento seria o próprio conhecimento livre. A iluminação não é outra coisa que não a liberdade.

A revolta do iluminismo contra a tradição cristã obviamente tinha uma forte carga ideológica, entretanto, baseava-se no combate ao que considerava a não-reflexão livre, tutelada, pensando o que já era pensado. Ainda que combatendo muito mais a fé institucional do que a crença em Deus, a Ilustração deu margem a um radical subjetivismo e anarquismo religioso – Jesus sim; Igreja não.

Destarte, por ser livre o homem deve analisar as raízes de tudo o que lhe é apresentado. Não obstante, essa confiança até infantil nos potenciais do homem livre do transcendente, levou à restrição da razão ao terreno do que é observado. Ou seja, a razão coloca, ainda que racionalmente, os seus limites.

A razão, então, quer se auto-limitar racionalmente, o primado da razão contestado por ela mesma. O evolucionismo, nessa gênese, mais do que pensado por Darwin, ao pretender abarcar todo o real não apenas abandonaria qualquer possibilidade de reflexão metafísica como colocaria a capacidade racional na esteira das limitações do homem. O evolucionismo pretende fazer um discurso totalizante da vida, mas impossível de observar a origem, apenas os efeitos, portanto não-científica.

O cristianismo é a fé vitoriosa pela razão – “No princípio era o Verbo [Logos]”. A razão se interessa pela fé e encontra nela a mesma abertura à transcendência. Ora, na modernidade a crença de que fora do mundo empírico só há irracionalidade coloca os potenciais racionais do homem em discussão e em crise.

O Papa Bento XVI, dialogando com a Ilustração, coloca a relevância da novidade iluminista de exaltar o uso livre da razão. Assim, pode-se falar tanto da patologia da razão, isto é, fechada em si mesmo, como da patologia da religião, ou seja, sem diálogo com a razão.

A liberdade, como anunciada pelo Iluminismo, não deve ser usada como o pressuposto para endossar o relativismo no qual não se pode mais falar de natureza, substância e idéias gerais, apenas em conceitos, na esteira do nominalismo de Guilherme de Ockham, assim como o idealismo transcendental kantiano que trata das aparências por ser incognoscível ao homem compreender as coisas-em-si – na realidade. O objeto, então, existente apenas numa relação de conhecimento. Destarte, ao romper com a relação no transcendente e instaurar o reino da imanência o Iluminismo restringiu a capacidade racional criando uma relação de submissão na qual esta se encontra trancafiada aos limites impostos pela experiência.

O cristianismo, assim como o iluminismo, defende o pensamento livre, o diálogo com a cultura. A natureza racional da fé cristã e da Ilustração é a mesma na medida em que se movimenta pela dinâmica da razão livre. Obviamente, não se deve colocar na balança o conteúdo dessa reflexão, mas sim, e apenas, a própria dinâmica que a impulsiona. Os EUA representam a síntese entre esse iluminismo – de origem inglesa, portanto menos anticlerical – e o cristianismo vindo direto da Inglaterra, de matriz protestante, com ênfase no puritanismo. O Papa Bento XVI disse que “nos Estados Unidos, ao contrário de muitos países europeus, a mentalidade secular não foi colocada como intrinsecamente oposta à religião. Dentro do contexto da separação entre Igreja e Estado, a sociedade estadunidense sempre foi marcada por um respeito fundamental pela religião e de seu papel público e, se quisermos acreditar nas sondagens, o povo estadunidense é profundamente religioso.”

Ora, ainda que o cristianismo protestante, por influência direta do Sola fide de Martinho Lutero, seja mais fechado ao saber racional e ao conhecimento, ao se encontrar com a mentalidade iluminista no Novo Mundo possibilitou a compreensão do saber natural fundamentado numa lei natural que remeteria, diretamente, a Deus.

A secularização que atinge a Europa não se faz tão fortemente presente nos EUA. Claro que isso não atesta a saúde moral, religiosa, filosófica da América, mas pode sinalizar que os males do iluminismo que rapidamente se alastraram e levaram à derrocada dos fundamentos da Civilização Ocidental no Velho Mundo, foram mitigados e, portanto, retardados, ainda que não remediados.

O tempo inaugurado pelo iluminismo não é o vilão da cristandade. A fé cristã não se prende ao In Illo Tempore, mas vive o tempo presente. Os pressupostos que sustentam os paradigmas atuais, seja do progresso, da técnica, da experiência, rompem com a visão cristã de mundo e forjam uma mentalidade na qual a radicalização dos princípios idealistas deu origem e forma a um hedonismo extremista e a um niilismo radical. O cristianismo é o único lugar no qual a razão encontra o seu repouso e onde as suas verdadeiras capacidades são exploradas.