
Pedro Ravazzano
O repúdio ao saber metafísico no mundo contemporâneo tem um forte teor ideológico. A reflexão epistemológica moderna tivera muito relevância na oposição à ontologia partindo de uma leitura e compreensão restritas a respeito da realidade e da ciência. O Círculo de Viena, ao estruturar o que seria considerado o neopositivismo, com o seu forte teor anti-metafísico, fincou as bases do que, no futuro, seria transformado na exaltação da técnica.
O Círculo de Viena, fundado na década de 20, pretendera unificar o saber científico livrando-se de todos os conceitos vazios da metafísica. Ao romper com os critérios ontológicos estes pensadores aplicaram o critério da verificabilidade como medida para distinguir a ciência da metafísica, separadas pela possibilidade da comprovação objetiva das proposições colocadas. Ademais, no limite da linguagem, como dissera Wittgenstein, encontra-se o limite do próprio universo. Destarte, tudo se encontraria reduzido aos signos – linguagem da física - e às interpretações, numa linguagem lógica – formalismo lógico - e analítica que permitiria, até mesmo, a unificação da ciência em contraposição à dispersão científica. Longe da verificação empírica a metafísica destina-se ao submundo do saber.
Karl Popper, também da epistemologia, apresenta uma nova percepção a respeito do saber científico. Para ele a metafísica fora o preâmbulo da ciência da qual emergiu os questionamentos que levaram o homem a buscar o conhecimento das coisas. A falsificabilidade é a teoria popperiana por excelência – o verdadeiro critério de demarcação entre o científico e o não-científico. Para ele não é possível falar de uma certeza definitiva e todo o conhecimento seria, por natureza, conjetural. Destarte, a hipótese científica, caso permita a correção e o desenvolvimento das teorias, é falsificável e, portanto, válida. Popper coloca-se contrário ao princípio verilicacionista dos neopositivistas com a pretensa distinção da racionalidade científica em contraponto ao saber não-científico – distante da linguagem lógica e analítica assim como da verificação empírica. O marxismo e a psicanálise são dois exemplos colocados pelo próprio Popper como amostras de sistemas fechados em si e, conseqüentemente, irrefutáveis pelo fato de criarem uma lógica interna que abarca toda a realidade tornando, então, impossível se livrar dos pressupostos colocados. Outrossim, com uma ciência baseada em hipóteses sustentadas na abertura à refutação e, portanto, ao aperfeiçoamento, há um progresso real que se destina à verdade.
Para Popper a metafísica pode ter sentido quando inspiradora no contexto do descobrimento das hipóteses científicas. Assim, a falsicabilidade abre a racionalidade das ciências. Se a teoria precede a própria experiência, a ciência, como pensada por Popper, abre-se a uma racionalidade ampla, não-exata, rompendo definitivamente com a ótica analítica do neopositivismo que é baseada numa atividade estritamente indutiva e em leis que, quando verificadas, tornam-se gerais.
Thomas Kuhn, na esteira de Karl Popper, também se esforça para livrar o saber científico do ranço analítico colocado pelo Círculo de Viena, tentando fortalecer o cenário onde se estrutura uma ciência aberta às relações sociais. Destarte, no seu pensamento emerge a idéia essencial do paradigma, isto é, um modo de pensar, uma tradição intelectual, que fundamenta toda a reflexão científica. Para Kuhn o conhecimento científico não progride numa linha retilínea de saber acumulado, ao contrário, o crescimento ocorre sem uma seqüência orgânica que não pressupõe um desenvolvimento concatenado. Assim, Kuhn desconstrói a idéia de uma ciência intocável e identificada estritamente à cientificidade e à racionalidade. Por outro lado, colocando os fatores externos – psicológicos e sociológicos – que influem no modo de organizar e pensar ciência. Nesse sentido, o pensamento kuhniano gera um rompimento mais profundo com os aspectos lógico-metodológicos, destacando as facetas subjetivas.
O progresso como pensado por Kuhn, em conjunto, é chamado de “paradigma”, isto é, a matriz comum à comunidade científica, que sustenta a visão de mundo sobre a qual se levanta o prédio da ciência. O paradigma, então, como uma concepção geral, abarca as teorias, instrumentos, conceitos, métodos, os princípios basilares do saber. Do mesmo modo, para Kuhn, os saltos qualitativos se dão por um processo revolucionário que rompe com as velhas tradições inaugurando uma ótica nova. Não obstante, não se pode falar de continuidade, mas do nascimento de uma leitura moderna e original. Da ciência normal o progresso tende para a ciência revolucionária, no período onde o antigo modelo já entra em decadência com a crescente ascensão de problemas e incongruências destinando-se, então, ao alvorecer de um novo horizonte científico.
Da astronomia copernicana o homem saltou até a mecânica de Galileu e, em seguida, à mecânica quântica. Para Kuhn não há como falar em continuidade sem rupturas, mas em rompimentos que ocorrem com o despertar de uma nova visão de mundo que pode brotar a partir de um único indivíduo. A verdade, então, perpassa por todas essas teorias que, no contexto em que se inseriam, eram plenamente verdadeiras. Portanto, é parte intrínseca à ciência a noção da sua falibilidade no sentido em que, partindo da própria capacidade do homem, uma nova descoberta pode invalidar o que antes era visto como a resposta definitiva. Kuhn acredita que na própria ciência existem elementos metafísicos e, inclusive que as ciências só brotaram e se desenvolveram depois que o homem solucionara as questões de caráter ontológico.





