
Pedro Ravazzano
O choque entre a tradição cristã e o iluminismo remonta desde o engendramento da Revolução Francesa quando a paixão anticlerical se estabilizou em todas as fileiras revolucionárias. O iluminismo trouxe o triunfo das áreas do saber unidos pela crença no progresso, assim como a superação da metafísica e a idéia da perfectibilidade do homem. Outrossim, trouxe o imaginário da libertação não mais fruto da graça de Deus mais do esforço do homem em seu próprio humanismo.
O mundo melhor advogado pelo iluminismo não mais tem a graça de Deus, mas é forjado pela capacidade racional do homem. Assim, nasce não apenas a política como conhecemos nos dias de hoje, isto é, o homem como agente da transformação imediata da realidade, como também do estado moderno em seu poderio triunfalista, sumo legislador e responsável por definir o lícito e o ilícito.
O Santo Padre, em sua visita aos EUA, dissera que “Desde o amanhecer da República, a busca da América pela liberdade foi guiada pela convicção de que os princípios que governam a vida política e social estão intimamente ligados à ordem moral baseada no domínio de Deus, o Criador. As marcas dos documentos de fundação desta nação foram feitas sobre esta convicção, quando proclamaram o «self-evident truth», segundo o qual todo homem é criado de forma igual e com direitos inalienáveis, fundamentados nas leis da natureza e do Deus da natureza.” Claro está que o iluminismo inglês, sem o ranço anticlerical do seu original francês, ainda que estruturasse uma visão religiosa tendente ao deísmo, dava à religião uma função moral basilar na fundamentação da sociedade e dos valores, ou como disseram os Pais Fundadores dos EUA: “leis da natureza, e do Deus da natureza”.
O iluminismo acreditava tirar o homem de sua menoridade, dando luz a um entendimento livre e autônomo como dissera Kant. Essa atividade do pensamento seria o próprio conhecimento livre. A iluminação não é outra coisa que não a liberdade.
A revolta do iluminismo contra a tradição cristã obviamente tinha uma forte carga ideológica, entretanto, baseava-se no combate ao que considerava a não-reflexão livre, tutelada, pensando o que já era pensado. Ainda que combatendo muito mais a fé institucional do que a crença em Deus, a Ilustração deu margem a um radical subjetivismo e anarquismo religioso – Jesus sim; Igreja não.
Destarte, por ser livre o homem deve analisar as raízes de tudo o que lhe é apresentado. Não obstante, essa confiança até infantil nos potenciais do homem livre do transcendente, levou à restrição da razão ao terreno do que é observado. Ou seja, a razão coloca, ainda que racionalmente, os seus limites.
A razão, então, quer se auto-limitar racionalmente, o primado da razão contestado por ela mesma. O evolucionismo, nessa gênese, mais do que pensado por Darwin, ao pretender abarcar todo o real não apenas abandonaria qualquer possibilidade de reflexão metafísica como colocaria a capacidade racional na esteira das limitações do homem. O evolucionismo pretende fazer um discurso totalizante da vida, mas impossível de observar a origem, apenas os efeitos, portanto não-científica.
O cristianismo é a fé vitoriosa pela razão – “No princípio era o Verbo [Logos]”. A razão se interessa pela fé e encontra nela a mesma abertura à transcendência. Ora, na modernidade a crença de que fora do mundo empírico só há irracionalidade coloca os potenciais racionais do homem em discussão e em crise.
O Papa Bento XVI, dialogando com a Ilustração, coloca a relevância da novidade iluminista de exaltar o uso livre da razão. Assim, pode-se falar tanto da patologia da razão, isto é, fechada em si mesmo, como da patologia da religião, ou seja, sem diálogo com a razão.
A liberdade, como anunciada pelo Iluminismo, não deve ser usada como o pressuposto para endossar o relativismo no qual não se pode mais falar de natureza, substância e idéias gerais, apenas em conceitos, na esteira do nominalismo de Guilherme de Ockham, assim como o idealismo transcendental kantiano que trata das aparências por ser incognoscível ao homem compreender as coisas-em-si – na realidade. O objeto, então, existente apenas numa relação de conhecimento. Destarte, ao romper com a relação no transcendente e instaurar o reino da imanência o Iluminismo restringiu a capacidade racional criando uma relação de submissão na qual esta se encontra trancafiada aos limites impostos pela experiência.
O cristianismo, assim como o iluminismo, defende o pensamento livre, o diálogo com a cultura. A natureza racional da fé cristã e da Ilustração é a mesma na medida em que se movimenta pela dinâmica da razão livre. Obviamente, não se deve colocar na balança o conteúdo dessa reflexão, mas sim, e apenas, a própria dinâmica que a impulsiona. Os EUA representam a síntese entre esse iluminismo – de origem inglesa, portanto menos anticlerical – e o cristianismo vindo direto da Inglaterra, de matriz protestante, com ênfase no puritanismo. O Papa Bento XVI disse que “nos Estados Unidos, ao contrário de muitos países europeus, a mentalidade secular não foi colocada como intrinsecamente oposta à religião. Dentro do contexto da separação entre Igreja e Estado, a sociedade estadunidense sempre foi marcada por um respeito fundamental pela religião e de seu papel público e, se quisermos acreditar nas sondagens, o povo estadunidense é profundamente religioso.”
Ora, ainda que o cristianismo protestante, por influência direta do Sola fide de Martinho Lutero, seja mais fechado ao saber racional e ao conhecimento, ao se encontrar com a mentalidade iluminista no Novo Mundo possibilitou a compreensão do saber natural fundamentado numa lei natural que remeteria, diretamente, a Deus.
A secularização que atinge a Europa não se faz tão fortemente presente nos EUA. Claro que isso não atesta a saúde moral, religiosa, filosófica da América, mas pode sinalizar que os males do iluminismo que rapidamente se alastraram e levaram à derrocada dos fundamentos da Civilização Ocidental no Velho Mundo, foram mitigados e, portanto, retardados, ainda que não remediados.
O tempo inaugurado pelo iluminismo não é o vilão da cristandade. A fé cristã não se prende ao In Illo Tempore, mas vive o tempo presente. Os pressupostos que sustentam os paradigmas atuais, seja do progresso, da técnica, da experiência, rompem com a visão cristã de mundo e forjam uma mentalidade na qual a radicalização dos princípios idealistas deu origem e forma a um hedonismo extremista e a um niilismo radical. O cristianismo é o único lugar no qual a razão encontra o seu repouso e onde as suas verdadeiras capacidades são exploradas.





