
Pedro Ravazzano
A tensão entre fé e razão é formada com o alvorecer da modernidade e da desconstrução de todo o aspecto de transcendência. O ateísmo é o fenômeno ao final do radical processo de secularização e do triunfo do pensamento racionalista na Civilização Ocidental. Ele inicia o seu engendramento com a crise da metafísica que fecha o homem ao transcendente e com a conseqüente derrocada da linguagem simbólica. A redução dos potenciais do espírito deu forma ao superficialismo atual. A morte de Deus foi seguida pelo festejo do seu sepultamento, d’Os Irmãos Karamazov nos destinamos para Os Demônios.
A crise do sagrado, com a restrição do transcendente ao esforço racionalista estruturou o ateísmo tanto em sua forma militante como ao ateísmo prático que finca as suas bases na sociedade. Ora, a religião é intrínseca ao ser humano. Destarte, se onde há cultura humana há, indubitavelmente, a religião, a crise da religião torna-se a crise da cultura.
O fenômeno sagrado abarca a totalidade do homem e é o coração da experiência religiosa. Ademais, pode ser identificado em algumas instâncias. Primeiramente faz referência a uma realidade material que encarna e sintetiza toda a carga fenomênica, como, por exemplo, a estrutura do templo e toda exterioridade do sagrado. Ademais, apreendemos, através da razão, a lógica simbólica e os atributos do sagrado num sistema que engloba toda a projeção cultural na qual o homem se insere. As tradições, escritos, mitos, são as emanações do sagrado enquanto fenômeno e compõem parte fundamental na compreensão do mistério e na universalização da experiência religiosa. Outrossim, o reconhecimento do sagrado se faz completo ao remeter ao caráter transcendente, fascinante, totalizante, da dimensão religiosa, em união com o sentimento religioso numa esfera que escapa à razão conceitual.
A transcendência é um dos pontos fundamentais do mistério religioso e da experiência religiosa. Brota do sentimento religioso de total abertura ao sagrado e da compreensão da grandeza majestosa da realidade na qual lança seus olhos. O transcendente faz referência direta ao inalcançável, não obstante, em suas diversas facetas a transcendência pode ser compreendida como a inacessibilidade em conceitos e em sentidos, no conhecimento do que representa o sagrado em sua totalidade, portanto epistemológica. Ademais, o transcendente representa o objeto da religião como superior, mais perfeito e mais sublime do que o homem. Desse modo, essa superioridade ontológica, que trata da superioridade em si do sagrado, torna o homem o nada diante do mistério. Por isso o mistério religioso é valor supremo e incomparável e no qual os valores dos homens se espelham e buscam se aproximar.
A compreensão do sagrado e da transcendência não deve ser vista como uma polarização entre fé e razão. Esse forçado cenário, no qual o ateísmo moderno não só se sustenta mas mantém o seu discurso, é recente se comparado com a caminhada filosófica na qual a fé despontava no horizonte da razão. Max Weber, com o seu “desencantamento do mundo”, faz referência ao desenvolvimento da cultura técnica-utilitarista e da ciência. Este, para o sociólogo, veio acompanhado da reflexão a respeito da racionalização e dos limites da razão humana, sobre a capacidade do progresso de explicar os fenômenos inexplicáveis solapando, desse modo, o horizonte totalizante da religião que procurava atribuir um sentido para o mundo e para as coisas.
Já Durkheim remete todo o processo religioso ao estrondo de um evento social; o totem é o símbolo da força que mantém o indivíduo, sustentáculo da própria sociedade. O totem expressa, então, a unidade do grupo social e cria os vínculos vitais para o desenvolvimento e manutenção da ordem interna. Freud, na mesma linha totêmica, o coloca, além do alicerce da mentalidade da comunidade, como a fonte na qual os ritos, interditos e proibições são emanados. Os tabus, que encarnam a neurose obsessiva, estão intimamente relacionados com o totem, responsável pela criação das práticas cerimoniais e dos mandamentos derivados. Deus, então, é meramente fruto da ação dos mecanismos sociais, psíquicos e antropológicos. René Girard, ainda que reflita sobre a origem sacrificial das religiões – o desfecho da crise mimética e o surgimento das instituições com a morte do bode expiatório – apresenta a força da mediação – interna e externa - nas relações sociais e de como a morte de Deus acaba por gerar a falsa divinização do indivíduo na qual o próprio homem surge como modelo para o homem num aspecto prático.
À medida que o homem se afasta de Deus ele se afunda no irracional, primeiro em nome da razão e depois em seu próprio nome. Dostoievski, em Os Irmãos Karamazov e em Os Demônios reflete sobre essa dinâmica na qual o homem é colocado ao centro da mediação, como modelo e fim. Ora, o “se Deus não existe, tudo é permitido” propicia o contexto no qual o homem não apenas se enxerga medida suprema como o construtor da realidade que é formada pelas paixões e ideologias. O homem do subsolo dostoievskiano, o homem angustiado, é aquele que almeja ser o que o outro é. Esse desejo, edificado quando se decreta a morte de Deus, é radicalizado e transformado no motor de todas as teorias e filosofias que, com muita ânsia, buscam destruir os fundamentos basilares da Civilização.
A tese lançada por Ivan Karamazov sustenta-se numa percepção muito delicada acerca da constatação de um mal que, desde o séc. XIX, é atuante em todas as esferas da Civilização Ocidental. A dúvida é colocada não de forma retórica, mas sim como a reflexão que tem como objetivo pensar a respeito da liberdade do homem diante da descrença. O juízo moral, então, como pressupunha Marx, seria apenas o reflexo de uma violência autoritária da opressão religiosa? O homem sem Deus seria mais livre porque menos submetido a uma moral de escravos, como pensava Nietzche?
A ética utilitarista ao gerar o triunfo do bem-estar, de uma felicidade paganizada no sentido de que rompe com qualquer moral na mais fidedigna perspectiva cristã, criou uma modernidade que vive embriagada com o seu niilismo e acredita no homem como forma do próprio homem.
O Deus – Verdade e Princípio – que é colocado em discussão n'Os Irmãos Karamazov, em Os Demônios tem a sua não-existência mostrada de forma prática. Dostoiévski não apenas faz a anatomia ficcional do fanatismo ideológico – anarquista e niilista – mas descreve o ardor passional e religioso dos revolucionários, existencialistas, marxistas e burocratas da violência.
O Beato João Paulo II na Fides et Ratio, no movimento de reconciliação entre os potenciais da capacidade humana e a existência de Deus, coloca uma proposta que não parte de uma dicotomia entre fé e razão, como se fossem realidade antitéticas, contraditórias e, necessariamente, em conflito. A razão aponta para os sentidos da fé que, por sua vez, complementa aquilo que o homem com a sua faculdade reflexiva não consegue alcançar.
Quando Deus é excluído da realidade concreta na qual o indivíduo se insere, é substituído pelas febres ideológicas e revolucionárias que, definitivamente, surgem para dotar o homem do sentido que perdera com a “morte” de Deus.





