segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Lênin por Stálin ou Lula por Dilma

Eu assisti pela televisão a cerimônia de posse da Presidente Dilma Roussef. O interesse era duplo; prestigiar a minha nação e presenciar as "excentricidades" que, inevitavelmente, iriam ocorrer. Não posso negar que a solenidade, teoricamente, é pujante e feita com a clara intenção de ostentar o poderio da República. Entretanto, desde o despontar da estrela vermelha na Terra de Santa Cruz tudo tomou uma feição um tanto, digamos, informal.

A posse de Dilma foi a síntese do Brasil. Ainda que tivesse vocação para grandiosidade, não passou de um rascunho do que, de fato, poderia ser. A cerimônia foi caótica, desordenada, bagunçada e com pouca seriedade. Claro que não esperava muito de uma Presidente petista e de um Congresso majoritariamente composto por parlamentares aliados ao governo. O analfabetismo simbólico, a perda de sentido dos símbolos republicanos, "sagrados" se levarmos em consideração a apropriação, desde a Revolução Francesa, da mística cristã para o Estado, tornavam patente o desconhecimento do ethos intrínseco aos festejos.

No momento mais importante, quando da tomada de posse no Congresso, os parlamentares gritavam "Dilma", aplaudiam, assobiavam, parecia reunião de estudantes da UFBA. Os diversos atrasos ao longo da solenidade foram prova do desleixo, direto ou indireto, e da desorganização do cerimonial. Ademais, como bem foi frisado por uma amiga, Dilma, no momento da revista das tropas, mostrou pouca seriedade e comprometimento, mais interessada em abrir os braços para os populares.

A Presidente Dilma, não satisfeita, fez questão de "homenagear" os companheiros que "tombaram" na "luta pela liberdade" num "momento de sombras e escuridão". Vejamos! Isso é uma mentira óbvia, lógica, histórica. A VAR-Palmares, grupo guerrilheiro no qual militava a nossa Presidente, de inspiração leninista, pretendia instaurar um regime como o soviético, que assassinara 20 milhões de pessoas! Esplendor da liberdade. Ademais, além da hipocrisia ideológica a Sra. Dilma fez questão de escancarar o seu arraigado espírito revanchista - lembrando que a radical ministra Maria do Rosário - o que não falta é ministério para a patrulha ideológica petista, diga-se de passagem como prêmio de consolação para os companheiros derrotados nas urnas - já apareceu defendendo a comissão da verdade pela ditadura. Isso sem contar da Sra. Iriny Lopes, da Secretaria de Política para as Mulheres - que também tem status de ministério - que num malabarismo retórico invejável defendeu o aborto mas sem defendê-lo.

O que será do Brasil de Dilma Roussef? Não tenho grandes expectativas. Como a URSS tão reverenciada pela então terrorista (interessante que na hora de chorar os 356 mortos pelo regime militar a Sra. Roussef é muito humanista, já os milhões assassinados pelos kamaradas russos - e cubanos - são convenientemente esquecidos) trocamos Lênin por Stálin.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Moral católica e combate à Aids


Nas últimas semanas, a mídia deu grande destaque a repercussões das palavras de Bento XVI, em seu livro-entrevista Luz do Mundo, sobre o uso de preservativos em determinadas circunstâncias.

A interpretação geral da mídia foi de que a Igreja mudou sua posição e agora permite o uso desses pseudo-profiláticos, em certos casos. Alguns teólogos e dignitários eclesiásticos de alto nível adotaram a mesma posição, causando confusão entre os católicos.

Obviamente, tais posições são injustificáveis do ponto de vista da Moral natural e da doutrina católica.

Baseado nos princípios tradicionais da Moral católica e da Lei natural, o Instituto Plinio Corrêa de Oliveira (IPCO) formulou algumas considerações a respeito das implicações morais do uso do preservativo, levando previamente em conta o que dizem a ciência e a experiência quanto aos resultados de tal uso.

Clique aqui e leia o texto no site do IPCO

sábado, 25 de dezembro de 2010

Reflexões Natalinas

Ontem eu estava na Missa de Natal um pouco insatisfeito. A rapidez do Sacerdote, a falta de piedade dos coroinhas, dos ministros e o barulho na assembleia me deixavam verdadeiramente embasbacado; o que eles estavam fazendo aqui? Não entendia como poderiam sair de casa para celebrar o nascimento de Nosso Senhor quando, ao mesmo tempo, tratavam a igreja e a presença eucarística com um desdém prático. Entretanto, em meio a esse aparente caos Deus me mostrou o real sentido do espírito natalino.

No banco da frente estavam sentados uma senhora com o seu neto e próximo a eles a esposa com o seu marido e mais um filho, não deveriam passar dos 10 e 8 anos, eu acho. Uma belíssima família. O mais novo, um garoto muito engraçado, ligeiramente gordo e bochechudo, conseguiu encaminhar-me para a meditação do nascimento do Menino Deus. Quando o coral começou a cantar o "Adeste Fideles" esse menino, na sua mais pura e bonita inocência, voltou a sua cabeça para trás boquiaberto, como não acreditando no que ouvia. A mãe e o pai olhavam para ele sorridentes, felizes ao contemplar a alegria infantil do filho. Ele então fitou para o irmão e abriu um belíssimo sorriso, numa resposta inconsciente da sua admiração do mistério. Naquele sorriso ligeiro, inocente e espontâneo eu entendi o Natal! Achei bastante engraçado o seu visível esforço para ficar de pé, ajoelhado e em constante participação na Liturgia. A sua vontade contagiava o seu irmão. Quando o Padre convidou todos os meninos para que levassem a imagem do Menino Jesus até o presépio ele não pensou duas vezes em ir até o altar. Que devoção tão pura e natural. Ainda que não entendendo muito bem o mistério celebrado sabia que naquela igreja barroca, com um coral angelical e pessoas em constante oração, existia algo além do óbvio.

Deus, então, fazendo uso dos sinais de Sua presença entre nós lançou mão dessa criança para que meditasse acerca da pureza e do espírito de filiação que sempre devemos ter diante da Sua presença onipotente.

Feliz Natal!

domingo, 12 de dezembro de 2010

Aslam: Cordeiro e Leão

Pedro Ravazzano

Com spoilers!

The Voyage of the Dawn Treader, o quinto livro da saga de C.S Lewis e o terceiro filme da série, endossa com mais vigor a forte referência cristã que permeia toda a obra. Além da defesa clara das virtudes e dos valores humanos, o enredo e a construção das personagens aprofundam nas relações dos homens e na perspectiva de transcendência diante do sagrado.

A obra é muito bem construída e nela cabem tanto leituras alegóricas e morais como anagógicas. Para um espectador desavisado "As Crónicas de Nárnia" serão apenas filmes com memoráveis cenas de ação e uma temática que é digna da atenção de toda a família. Claro que essa percepção, ainda que superficial, é válida e frutífera. Não obstante, é na compreensão do sentido mais profundo que os escritos de C.S Lewis se fazem plenos. Esse supra-sentido, como diz Dante Alighieri, “ocorre quando se expõe espiritualmente um escrito, o qual, pelas coisas significadas, significa as sublimes coisas da glória eterna.” (Convívio, II, 1) .

No terceiro filme destaca-se três grandes momentos; toda a incursão dos homens na luta contra o Mal - e aqui se sobressai a maldade em sua essência mais bruta que relaciona-se diretamente com a ausência do amor, de Deus - a forte transformação e redenção de Eustáquio e, por fim, a apoteótica despedida de Aslam a Lúcia e Edmundo.

A obra se forma centrada na saga dos homens que iniciam uma empreitada pela salvação dos narnianos oprimidos e perseguidos pelo Mal. Vale frisar, primeiramente, que os viajantes são aconselhados por um virtuoso mago a enxergarem não apenas as trevas que assolam Nárnia mas principalmente a escuridão que habita neles. Isso se confirma diante das tentações e provações que pelas quais passam. Assim como eles poderiam escolher o mal optam, livremente, pelo caminho do bem. Ademais, essa temática se afasta com firmeza de qualquer princípio calvinista; ainda que sem Deus o homem nada possa, é na sua abertura à graça que o Senhor age.

Outra cena bem particular é a transformação de Eustáquio. O que era um garoto pobre em virtudes e valores, desprovido de qualquer percepção do Sagrado - vide a sua relutância em compreender a "fantasia" de Nárnia - redimi-se após a forte experiência da mutação em dragão. O momento do seu retorno à forma humana inicia-se com a tentativa de com as suas garras cortar o grosso coro draconiano - isso após uma atuação extraordinária contra a diabólica serpente marinha. Ou seja, já há o fundamental desejo e a essencial vontade de livrar-se da condição de miserabilidade. Não obstante, sem Deus, sem Aslam, não poderia fazer. Surge então o Leão que com as suas patas cortando a areia e o seu majestoso rugido rompe a carapaça que cobria o Eustáquio velho, dando-lhe um banho - o batismo. Assim nasce um novo homem redimido pela ação do Senhor. O próprio atesta em seguida; "A princípio ardeu muito, mas em seguida foi uma delícia"
Por fim a cena mais impactante dessa obra; a despedida final. Lúcia e Edmundo, assim como Susana e Pedro, foram avisados que não mais poderão retornar. Aslam, então transfigurado em Cordeiro - clara alusão ao Cordeiro de Deus, Jesus Cristo - os apresenta ao seu país, protegido por uma densa parede aquática e que só poderia ser desbravado pelos homens que não mais intentassem voltar; a ida será definitiva. A jovem Lúcia, comovida com a partida, questiona o Leão. Vejamos o trecho completo:
Continuaram e viram que era um cordeiro.
Venham almoçar – disse o Cordeiro na sua voz doce e meiga. [banquete do Cordeiro?]
Notaram que ardia sobre a relva uma fogueira, na qual se fritava peixe. Sentaram-se comeram, sentindo fome pela primeira vez desde muitos dias. E aquela comida era a melhor de todas as que haviam provado.
– Por favor, Cordeiro – disse Lúcia –, é este o caminho para o país de Aslam?
– Para vocês, não – respondeu o Cordeiro. – Para vocês, o caminho de Aslam está no seu próprio mundo.
– No nosso mundo também há uma entrada para o país de Aslam? – perguntou Edmundo.
– Em todos os mundos há um caminho para o
meu país – falou o Cordeiro. E, enquanto ele falava, sua brancura de neve transformou-se em ouro quente, modificando-se também sua forma.
E ali estava o próprio Aslam, erguendo-se acima deles e irradiando luz de sua juba.
– Aslam! – exclamou Lúcia. – Ensine para nós como poderemos entrar no seu país partindo do nosso mundo.
– Irei ensinando pouco a pouco. Não direi se é longe ou perto. Só direi que fica do lado de lá de um rio. Mas nada temam, pois sou eu o grande Construtor da Ponte.
[Cristo, Pontífice e Sumo Sacerdote da humanidade diante de Deus] Venham. Vou abrir uma porta no céu para enviá-los ao mundo de vocês.
– Por favor, Aslam – disse Lúcia –, antes de
partirmos, pode dizer-nos quando voltaremos a Nárnia? Por favor, gostaria que não demorasse...
– Minha querida – respondeu Aslam muito d
ocemente –, você e seu irmão não voltarão mais a Nárnia.
– Aslam! – exclamaram ambos, entristecidos.
– Já são muito crescidos. Têm de chegar mais perto do próprio mundo em que vivem.
– Nosso mundo é Nárnia – soluçou Lúcia. – Como poderemos viver sem vê-lo?
– Você há de encontrar-me, querida – disse Aslam.
– Está também em nosso mundo? – perguntou Edmundo.
Estou. Mas tenho outro nome. Têm de
aprender a conhecer-me por esse nome. Foi por isso que os levei a Nárnia, para que, conhecendo-me um pouco, venham a conhecer-me melhor.
Aslam, o Cordeiro de Deus e o Leão da Tribo de Judá, é Nosso Senhor Jesus Cristo!

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Demônio, de M. Night Shyamalan


Com muitos spoilers!

Ontem tive uma grata e excelente surpresa; o filme Demônio, de M. Night Shyamalan. Eu, particularmente, esperava mais uma daquelas produções com sangue, gritos histéricos, sustos tresloucados e muito caos estético. E não é que eu estava errado?! O filme é muito bom!


A trama é extremamente simples e o filme toma corpo com facilidade. Diferente de outras produções, não existe "banho-maria" que obriga o espectador a exercer a virtude da santíssima paciência. Justamente por ser muito dinâmico, o filme conquista facilmente aqueles que estão vendo. Além disso, desde o início já há uma certa empatia diante dos acontecimentos passados na vida do Detetive Bowden que ganham mais dramaticidade com o suicídio nos primeiros segundos da trama. Vale frisar, por sua vez, que a narração inicial, que toca justamente no âmago do enredo - a ação demoníaca no mundo - concede a coloração dramática na medida.

O que poderia ser uma tentativa frustrada de produzir um filme com suspense, envolvente e simples tornou-se num distinto sucesso. Assumo que a sinopse não ajudou; qual o interesse numa história centrada em cinco pessoas presas num elevador sob influência demoníaca? Parecia enredo de filme trash. Não obstante, com direito a todos os gritos, sangue e flashs assustadores em meio à escuridão, o filme se desenvolve diante do drama dos acontecimentos no elevador mas também na transformação da perspectiva do Detetive frente ao sobrenatural.

Entretanto, sem dúvida alguma, o ápice é o desfecho, de extremo bom gosto e muito profundo de sentido e significado. O demônio havia deixado como última vítima o motorista responsável pela morte de dois inocentes, mãe e filho, que ainda tendo consciência da culpa não buscou o arrependimento e a retratação diante do mal cometido. Entretanto, confrontado pelo Mal, verdadeiramente envergonhado das suas ações passadas, Janecowski confessa os seus pecados - e justamente para quem mas sofrera com a sua omissão - e, com isso, afasta a influência demoníaca sobre ele. Ademais, se faz mister pontuar que todos ali levavam uma vida pecaminosa - furtos, agressão, estelionato, que vão sendo descobertos ao longo das investigações policiais - , colocando-se, assim, sob a influência de Satanás. Frustrado mediante a contrição perfeita do rapaz, o demônio só pode lamentar a sua derrota. Finalmente abrem o elevador com um saldo de três mortos e tiraram o único sobrevivente.

Essa cena já valeria o filme, entretanto, o que veio em seguida foi ainda mais acertado. O Detetive, motivado pela ira, pareceu muito convicto na sua decisão de dar fim ao responsável pelo extermínio da sua família. Não obstante, perdoa o assassino de seu filho e de sua esposa, num ato de Misericórdia e de compaixão que deixa não só Janecowski assustado como aos próprios espectadores.

O final foi apoteótico. Ao longo do filme não há nenhuma referência a Deus, anjos, sacerdotes, Igreja. Só uma cena desesperada onde o guarda Ramirez, o narrador-personagem, reza uma Ave-Maria pelo que ele sabia ser uma manifestação demoníaca. Não obstante, já nos segundos finais da produção, o narrador termina com a própria conclusão da história que houvera contado no início; "Mas minha mãe disse para eu não ter medo, porque se o demônio existe, Deus também existe"

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

O Movimento gay com a sua tolerância de conveniência

A Universidade Presbiteriana Mackenzie foi alvo da patrulha gay. O movimento LGBT (vale frisar que o "L" de "lésbicas" vem atualmente na frente por ser uma "questão de gênero") se indignou com o pronunciamento oficial da Universidade, no "Manifesto Presbiteriano sobre a Lei da Homofobia", feito pelo Chanceler Augustus Nicodemus Gomes Lopes.

O mais interessante de todo esse circo é a intolerância dos tolerantes. Ora, vamos fazer uma breve análise. Estamos falando de uma instituição acadêmica privada e confessional. Portanto, quem estuda na Mackenzie o faz livremente e com ciência dos princípios que norteiam toda a formação. Não obstante, a militância homossexual não só realiza incursões violentas como comprova a sua intolerância radical - e olhe que a PL 122 ainda não foi aprovada.

Se uma Universidade não goza da autonomia para defender seus princípios, dentro do respeito e da fraternidade, sem ser alvo de ataques e acusações infantis e caricaturais de "medieval" e "inquisitória" é sinal inconteste da deformação de qualquer noção de liberdade. Até mesmo a OAB se pronunciou sobre o acontecido chamando de "postura da Idade Média" a atitude da Mackenzie. Além de ser uma acusação pueril, fruto de visões distorcidas e ideológicas do que teria sido o medievo, a Ordem dos Advogados do Brasil deixa clara a sua contaminação com o gérmen do espírito politicamente correto.

A liberdade, protegida pela Constituição, que a Universidade Mackenzie tem para defender seus valores foi alvo de ataques. A questão em jogo não é apenas a posição do Rev. Augustus Nicodemos em relação ao Projeto de Lei, mas sim a autonomia que o movimento LGBT (em breve essa sigla será quase todo o alfabeto) tem para realizar os seus julgamentos em tribunais paralelos aos da Lei, fazendo análises ideológicas e totalmente passionais. Se um individuo goza de liberdade para ser homossexual, outros indivíduos - nesse casos organizados numa instituição - não têm a mesma liberdade para ser contra o homossexualismo? E, ironicamente, enquanto a medieval Mackenzie lança um Manifesto pacífico, o moderno e arejado Movimento Gay só falta queimar bíblias em praça pública.

Ademais, o circo armado foi tipicamente caricatural. Com direito até àquelas encenações mequetrefes que esses "artistas" alternativos gostam de fazer em sabor de protesto.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

O mito da crise de vocações

Por Pedro Ravazzano

Na atualidade tornou-se deveras comum o discurso que se fundamenta na análise da pobreza e das estruturas de opressão. Com uma clara motivação ideológica, tais estudos são quase sempre superficiais e essencialmente desti
nados ao fracasso devido aos próprios intentos desejados. Dentro da Igreja, infelizmente, existem alas fortíssimas onde essa leitura não só se faz presente como ocupa importantes espaços em diversos campos eclesiásticos.
Cônegos Premonstratenses da Abadia de São Miguel, nos EUA. Fundada na década de 60 já conta com quase 50 Sacerdotes e 20 seminaristas.
Desde o fim do Concílio Vaticano II, certas Congregações, embebidas numa visão segmentada e imperfeita dos documentos conciliares, abriram mão das próprias tradições internas – hábito, devoções, ritos – e, inclusive, da correta visão do carisma e da espiritualidade. O amor aos pobres, aos idosos, às crianças, aos enfermos etc, transformou-se num assistencialismo ideologizado muito distante da correta compreensão da mensagem evangélica. Enquanto outrora irmãos iam pelas ruas à procura dos excluídos, dando a eles o amor de Cristo, os Sacramentos e, em seguida, o auxílio ao corpo, se em outros tempos frades andavam pelo corredor dos colégios educando os jovens, dando a eles formação cristã e humana, hoje encontramos portentosas obras “sociais” administradas pelas Congregações, mas comandadas por um enorme séquito de leigos e com religiosos muito ocupados fazendo análises econômicas e sociológicas sobre a pobreza e a concentração de renda no país.

Claro que o estudo intelectual dos problem
as que assolam o mundo moderno é importante e pertinente. Entretanto, existe uma total diferença entre adentrar no campo do estudo e preterir a vida espiritual e a própria doutrina tendo em vista uma compreensão totalmente ideologizada do que seja a pobreza e o pobre. Não ironicamente muitas dessas Congregações vivem uma triste realidade de poucas vocações. De fato, o que motiva a identificação do chamado com o carisma é a vivência plena – numa sadia radicalidade – do espírito inaugurado pelo Fundador inspirado por Deus. Não obstante, na atualidade encontramos não só o esvaziamento dessa riqueza espiritual como, influenciado pela ideologia marxista-libertadora, o rebaixamento e equiparação dos carismas. Por exemplo, viver a Paixão de Cristo tornou-se cuidar dos “crucificados” pelo capitalismo, amar os pobres e a pobreza transformou-se em engajamento de cunho político e motivação revolucionária, educar a juventude reduziu-se a infantilizar a fé e livrar-se de qualquer “arcaísmo” etc.
Arautos do Evangelho: não existe a idéia de crise vocacional nas suas fileiras
O que difere o camiliano que funda o hospital, o capuchinho que está nas ruas, o lassalista que abre instituições de ensino, da ONG e grupos de apoio aos mais necessitados é a motivação real e concreta; o amor a Jesus Cristo. Entretanto, essa experiência pessoal com Nosso Senhor, o motor que impulsiona os corações apaixonados, realiza-se através da vida espiritual e sacramental. Sem o equilíbrio necessário entre a relação vertical – Deus e homem – e horizontal – homem e homem – o ardor apostólico transforma-se em mero assistencialismo ordinário. O amor aos pobres inicia-se de joelhos diante do Sacrário!

A falta de percepção a respeito dessa r
ealidade tão natural na vida religiosa foi causada pela má compreensão do Concílio Vaticano II. Entretanto, foi através da crescente influência da mentalidade marxista dentro das casas de formação que a ótica materialista galgou degraus nas comunidades religiosas. A Teologia da Libertação minou o espaço da oração, da vida sacramental, da ortodoxia doutrinária, e destacou a importância da “pastoral” e da práxis. Não obstante, o apostolado só é frutífero quando brota antecipadamente do espírito de piedade e contemplação. Ora, se não há vida interior a ação apostólica vai esvaziar-se de sentido e passará a se fundamentar na iniciativa meramente material de buscar a transformação social, a famigerada “libertação”.
Beneditinas, em Kansas City: nove monjas fazendo profissão de votos solene e com número crescente de vocações
As Congregações mais envoltas na perspectiva da Teologia da Libertação sofrem com uma grave crise de vocações. Ou não conseguem atrair os jovens ou só encontram espaço junto aos rapazes que procuram a vida religiosa como forma de ascensão e/ou esconderijo. Entretanto, falar de “crise vocacional” é uma afirmação temerária. Devemos, outrossim, analisar o quadro em sua amplitude. Diversas Congregações, Ordens e Institutos vivem um grande alvorecer de chamados; Monjas Carmelitas, Legionários de Cristo, Arautos do Evangelho, Toca de Assis, Arca de Maria, alguns conventos de Clarissas, Dominicanas, mosteiros Beneditinos, Cistercienses etc. O que há em comum entre todos eles? Podem ser considerados como religiosos que levam com radicalidade o carisma ao qual Deus os chamou, são coerentes com a vocação e trilham plenamente o chamado feito pelo Senhor. Logicamente, no testemunho da própria espiritualidade, o religioso é o chamariz da beleza do carisma por ele abraçado.

As Dominicanas de Nashville, as Carmelitas de Cotia, os Beneditinos de Núrsia, os Premonstratense de Oragen Country etc, não têm a mínima idéia do que seja “crise vocacional”; grande número de postulantes, noviços e simplesmente interessados. Para eles crise vocacional é, no máximo, falta de espaço. Cenário muito distinto de certas Congregações onde não há devoção eucarística, testemunho do carisma, oração, piedade e coerência com a espiritualidade e a vida do Fundador. A Conferência dos Bispos dos Estados Unidos realizou uma profunda pesquisa a respeito das vocações à vida religiosa, efetuada pelo Center for Applied Research on the Apostolate da Georgetown University. A análise disse, entre outras coisas, que “As instituições de maior sucesso em termos de atrair e reter novos membros são, no momento, aquelas que seguem um estilo mais tradicional de vida religiosa, em que os membros vivem juntos em comunidade, participam da Comunhão diária, recitam o Ofício Divino, fazem práticas devocionais, usam hábito religioso, trabalham juntos no apostolado comum e mostram ostensivamente a sua fidelidade à Igreja e aos ensinamentos do Magistério. Todas estas características são particularmente atraentes para os jovens que ingressam hoje na vida religiosa.”
Franciscanos da Imaculada: 9 frades ordenados diáconos numa mesma cerimônia e com cada vez mais casas espalhas pelo mundo
Em sintonia com esse crescente aumento de vocações, a Inglaterra e o País de Gales têm visto o constante incremento do número de jovens que buscam concretizar o chamado de Deus no Sacerdócio. Obviamente, os frutos que hoje são colhidos refletem um trabalho muito bem articulado pelas dioceses da região. Em 2005, por exemplo, a Conferência da Inglaterra iniciou uma campanha ostensiva, com presença nas ruas e nos metrôs, com o slogan “Get Collared for the Challenge of a Lifetime”

O jovem que procura a vocação, inspirado por Deus, está sedento da identidade a qual o Senhor o chama. Assim, as Congregações que buscam apresentar um carisma distorcido, algo distante da cruz e do próprio testemunho estão fadadas a presenciar o próprio fim. Quão triste é olhar para a vida do Fundador e ao contemplar a sua fundação na atualidade não enxergar a continuidade e a vivência integral da novidade por ele trazida.
Dominicanas em Nashville, EUA: já são mais de 100 Irmãs e a média de idade não passa dos 26 anos
A crise de vocações é uma falácia e desconhecida para muitas Ordens, conventos e mosteiros. Os que mais divulgam a sua existência são os religiosos que abraçam - com a devoção que não têm à Igreja - as suas percepções distorcidas do que seja a fé e a experiência com Cristo. Afastam as vocações enquanto gritam que estão no caminho certo. É como o barco que afunda em alto mar enquanto o timoneiro grita “terra à vista”!