Em 1535, Catharina Paraguasú, em sonho, teve a visão de uma mulher branca com uma criança no colo, solicitando-lhe ajuda e dizendo encontrar-se numa embarcação que naufragara perto. Realizadas diversas buscas pelo litoral, inclusive no Rio Vermelho, nada foi encontrado. Catharina voltou a ter o mesmo sonho e Caramuru saiu para novas exploracões, dessa vez no litoral sul. Na Ilha de Boipeba, deparou-se com 17 sobreviventes da nau Madre de Dios, que afundou em maio de 1535, nas proximidades de um local que ficou conhecido como Ponta dos Castelhanos. Mas os náufragos informaram-lhe que na embarcação não viajava nenhuma mulher.
Retornando para casa a esposa pediu-lhe que voltasse ao local do naufrágio novamente. Entre os destroços, foi achada uma imagem de madeira – de Nossa Senhora com o Menino Jesus nos braços -, que, levada à Catharina, foi imediatamente reconhecida por ela como a mulher vista nos sonhos. Uma segunda versão diz que Caramuru teria encontrado a imagem numa oca, depois de ter sido recolhida na praia por um índio.
Atendendo a mais um pedido da esposa, Caramuru construiu uma capela de taipa, com cobertura de palha, para abrigar a imagem da Virgem Maria. Estava assim, em 1535, erguida a primeira igreja do Brasil, onde foi oficiada, em 31 de maro de 1549, pelos padres jesuítas da comitiva de Thomé de Souza, uma festa religiosa que contou com a presença do governado-geral.
Mantendo-se fiel ao tupi, Catharina Paraguassú não se comunicava em português. Nunca demonstrou interesse pela língua dos dominadores das terras do seu povo. Na França aprendeu o francês bretão e assimilou dois hábitos dos brancos, a religião católica e o vestuário. Andava recatadamente vestida, ao contrário de muitas índias que continuavam adeptas da nudez total. Vivia cercada pelas mordomias proporcionadas por Caramuru.
Na verdade, Catharina constituía-se numa tupinambá muito especial, tanto que, após o regresso da França, o marido não teria tido mais nenhum evolvimento amoroso com outras indígenas. É quase certo que Caramuru realmente cumpriu os votos de fidelidade proferidos na França, onde se casou com Catherine du Brésil no ritual católico, em solenidade realizada possivelmente em Paris e com a presença do franciscano Pero Fernandes Sardinha, que viria implantar a primeira Diocese do Brasil. O primeiro bispo foi muito bem recebido por Caramuru e Catharina. Todavia, quando se declarou favorável à escravização dos índios, o casal afastou-se dele.
Doação da Igreja da Graça
Catharina Paraguassú, protagonista do primeiro milagre no Novo Mundo e pioneira na difusão da fé católica, também se tornou conhecida pela generosidade, pois dedicou boa parte da vida a praticar caridades. O maior dos gestos, numa demonstração de desprendimento e devoção, ocorreu quando transferiu à Ordem de São Bento a Ermida de Nossa Senhora da Graça e terras vizinhas, que lhes pertenciam por herança do marido. A escritura foi lavrada em 16 de julho de 1586, na casa da doadora, localizada no atual Largo da Graça, estando presentes o padre jesuíta Luís de Gran – confessor e intérprete de Catharina, que não dominava o português [apenas o francês] – e a parte beneficiada, representada pelo frei Antônio Ventura, primeiro abade do Mosteiro de São Bento.
A Matriarca da Bahia morreu em 26 de janeiro de 1589. Como provavelmente teria nascido em 1509, ano da chegada de Caramuru ao Rio Vermelho – local onde ela certamente nunca esteve -, Catharina viveu em torno de 80 anos, dos quais 61 como católica e 54 como devota de Maria Santíssima, a quem rendia tributo na ermida construída pelo marido após o profético sonho. Por dizerem que continuava a sentir o milagre da divina graça, a capela se transformou num centro de romaria dos colonos. Na viuvez, com o santuário já bastante ampliado, gostava de sentar-se numa cadeira junto à nave, onde os católicos lhe beijavam a mãe, em sinal de veneração.
Catharina foi enterrada na igreja que mandou construir após o achamento da imagem da Virgem Maria. A sepultura permanece até hoje no piso da nave, tendo sido preservada nas ampliações e reforma do templo. Em 1797, colocada pela Casa da Torre de Garcia D'Ávila [que após o casamento da filha de Garcia D'Ávila, Isabel D'Ávila, com o neto de Catharina, Diogo Dias, se tornara uma Casa onde também corria seu sangue], foi afixada na parede, à direita do túmulo, uma lápide brasonada com os seguintes dizeres, na grafia da época:
Sepultura de D. Catharina Álvares Paraguassú, Senhora desta Capitania da Bahia, a qual ella e seu marido, Diogo Álvares Corrêa, natural de Vianna, derão aos Senhores Reis de Portugal. Edificou esta Capella de Nossa Senhora da Graça e a deu com as terras annexas ao Patriarca S. Bento, em o anno de 1582.Em reconhecimento à sua importância, na propagação do catolicismo, e pelas benemerências praticadas, uma imagem caracterizando Catharina Paraguassú passou a figurar – juntamente com a da Virgem Maria com o Menino Jesus – no Brasão do Mosteiro de São Bento.
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Retirado do livro "Diogo Álvares, o Caramuru" de Ubaldo Marques Porto Filho





