sexta-feira, 1 de outubro de 2010

A Ação Revolucionária e a Igreja

O marxismo tem como uma das características mais marcantes a sua práxis. De fato, dentro dos paradigmas propostos por Karl Marx, a prática revolucionária é o fundamento basilar da sociedade comunista. Os princípios econômicos desta doutrina refletem a perspectiva materialista da história e da existência. Assim, para o pensador alemão, toda a evolução social parte do desenvolvimento de forças produtivas, causadoras, portanto, da opressão e da alienação. Em concreto, a religião é, observando esses princípios, mais um instrumento de dominação do proletariado e, como consequência, o combate ao sagrado é parte integral do processo revolucionário.

A religião, segundo o materialismo histórico, se relaciona com a opressão; do mesmo modo que o bem produzido pelo trabalhador torna-se estranho a ele, graças à exploração do trabalho e da mais-valia, gozando de vida própria independente do seu criador, Deus, uma criação também humana, se volta contra o indivíduo de forma hostil. A religião transforma-se, então, num fator de esvaziamento do homem, o distanciando da sua essência. Assim como a alienação econômica, a religiosa cria um produto com identidade estabelecida; Deus, que sacrifica o próprio homem. A fé, enquanto tal, é mais uma peça fundamental do que Marx denomina “superestrutura” que, por sua vez, é responsável pela manutenção e perpetuação do sistema opressivo e dialético. A alienação religiosa é originada na classe burguesa que, na perpetuação de crenças, legitima o seu poder, justifica a dominação e impede o despertar revolucionário entre o proletariado.

Obviamente, a perspectiva materialista do marxismo se afasta radicalmente de qualquer princípio cristão, a começar pelo fato de submeter toda a existência a um dado econômico. O marxismo, concebe a revolução como uma verdadeira redenção, não só desconsiderando a única e real Redenção, a de Cristo, como alimentando a crença de que o resultado desta seria um novo homem, com uma nova filosofia e um novo paradigma existencial. Karl Marx acreditava, factualmente, no poder redentor do comunismo revolucionário, entretanto, desconsiderava um dado crucial e essencial no entendimento da complexa natureza humana; o pecado original.

Explicando o marxismo, na Quadragesimo Anno, S.S Pio XI diz que “a sociedade humana” para os comunistas “não é mais do que forma ou aparência da matéria, em evolução segundo as suas leis; por uma necessidade fatal, tende, por meio de um perpétuo conflito de forças, para a síntese final: uma sociedade sem classes (...) Insistindo no aspecto dialético do seu materialismo, pretendem os comunistas que o conflito, destinado a levar o mundo para a síntese final, pode ser precipitado, devido aos esforços humanos. Por isso procuram tornar mais agudos os antagonismos ressurgentes entre as diversas classes da sociedade. A luta de classes, com os seus ódios a as suas destruições, reveste o aspecto de uma cruzada do progresso da humanidade. Pelo contrário, todas as forças se opõem a estas violências sistemáticas, sejam de que natureza forem, devem ser aniquiladas, como inimigas do genêro humano.”

Nesse processo dialético, de luta de classes, a revolução toma forma como o fim dos anseios humanos por uma sociedade fundamentada na justiça e na concórdia. Entretanto, os princípios marxistas partem, em suas origens, de concepções relativistas que se chocam com a utopia imaginada pelos arautos do comunismo. O próprio Lênin, justificando a prática bolchevique, que em sua época já havia matado sete milhões de ucranianos de fome, dissera, no discurso ao Comitê Central do Partido Comunista, em Julho de 1928, que “É sofisma usar da palavra violência, quando referida à ação revolucionária. Isto não impede os socialistas de serem partidários duma guerra revolucionária” O que o revolucionário russo pretendera defender é que “qualquer guerra é justa, desde que sirva a Revolução Soviética (...) a violência é justificada, quando favorece a ação revolucionária. A violência é condenável quando contrária à revolução comunista”, como comentou o fabuloso Arcebispo de Nova Iorque Fulton Sheen.

Desde a queda do muro de Berlim o marxismo ortodoxo, de cunho tipicamente soviético, foi perdendo forças para ações baseadas em Gramsci, Lukács, frankfurtianos etc. Gramsci já era lido e debatido nas rodas revolucionárias, em especial com os crescentes problemas internos da URSS e a percepção de outros teóricos a respeito do papel crucial da cultura no processo da revolução. Entretanto, só com a derrocada da ortodoxia marxista, encarnada em Moscou, que se deu a devida relevância à sua cartilha. Antes disso, com o poder bolchevique exportando guerras, ainda se acreditava na redenção revolucionária através das armas. Dito isso, o processo revolucionário vivencia, atualmente, um novo paradigma de atuação. Aqueles que ainda crêem no poder místico de uma AK-47 perdem espaço para jovens que adotam como bandeira a ação cultural da revolução, com maior eficácia no mundo moderno. Dentro dessa linha, sem dúvida alguma, Gramsci se destaca. O comunista da “filosofia dela prassi” se opunha ao caráter dogmático do marxismo soviético; atrofiava a prática revolucionária e fechava a teoria. A cultura, para ele, tem uma função essencial, já que dentro da perspectiva gramsciana a união entre o pensamento e a ação se faz nas circunstâncias concretas, através de um processo interno que abarca a intelectualidade e tendo como fim a revolução. A “filosofia da práxis” se transforma numa verdadeira reforma revolucionária, levando em conta a liberdade cultural da sociedade e as variantes que não podem ser forçadas por meio de uma prática marxista pré-fabricada, como quiseram os russos.

O pensamento de Antonio Gramsci se revitaliza nos tempos atuais juntamente com a necessidade do marxismo de revisar os modelos falidos da URSS. O absolutismo da democracia desfavorece a “práxis” que não adota a roupagem democrática, mesmo que seja de forma nominal. O contexto atual lança ao ostracismo político aqueles que defendem, numa honestidade interna louvável, o processo revolucionário como ruptura violenta - vide, por exemplo, a imagem de partidos como PCO, PSTU e PCB. A relevância do teórico comunista italiano se faz, justamente, no novo modelo proposto; não mais uma revolução entendida como luta armada e motins sociais, mas sim que parte da cultura e da classe intelectual.

A “função orgânica” dos intelectuais, como diz Gramsci, torna-os peças relevantes em todas as etapas de reprodução social, refletindo, obviamente, o poder de liderança que têm junto ao homem comum. Nesse tocante, o comunista italiano afirma que a intelectualidade deve ser transformada em artífice de uma nova moral e uma nova cultura, combatendo a “hegemonia” e a opressão das classes capitalistas, gerindo a reflexão social que abarcaria toda e cultura e teria como fim, no devido momento histórico, o socialismo; “Admiro os revolucionários que se dão a tanto trabalho para explodir muralhas com dinamite, enquanto o molho de chaves das pessoas bem-pensantes lhes teria permitido entrar tranquilamente pela porte, sem acordar ninguém”, assim disse o magistral pároco do “Diário de um pároco de aldeia”, de Georges Bernanos.

A escola, “aparelho privado de hegemonia”, era, para Gramsci, do mesmo modo, peça relevante na edificação de um novo paradigma social. A juventude, formada nos colégios, absorve modos de raciocínio que bebem da cultura dominante, da ideologia da opressão. Logo, se faz mister romper com a subordinação intelectual, erigindo a nova sociedade, a começar pela desconstrução do discurso moralista, religioso.

Destarte, Antonio Gramsci destacava o papel relevante da Igreja na contra-revolução, por ser esta uma força essencialmente “reacionária”. Assim como as escolas deveriam ser tomadas por agentes da ideologia partidária, a destruição da Igreja, Mãe e Mestra da Verdade, se tornava parte determinante de qualquer projeto socialista de governo. O socialismo, para Gramsci, era a “a religião que” mataria “o cristianismo”. Ademais, dentro da ótica gramsciana, o Partido Comunista adota uma mística religiosa, sendo uma reprodução “vermelha” do Príncipe maquiavélico. A subordinação sem limites do militante à sigla reflete, em essência, a ânsia do ser humano por Deus. A dura disciplina interna, somada ao forte estudo intelectual-doutrinário, com uma destacada centralização, transforma o Partido sonhado por Gramsci quase como uma instituição religiosa de fundo transcendental, destinado ao misticismo revolucionário.

A ação comunista contra a Igreja Católica compreende, hoje em dia, uma diversidade de práticas, desde o ataque frontal, até às sórdidas arquitetações da grande mídia. O Cristianismo enfrenta uma violência interna e muito bem articulada. O relativismo moral e religioso da sociedade moderna, fruto, de certo modo, da decadência alimentada pela perspectiva coletivista, cria o habitat apropriado para o fortalecimento dos “chavões sociais” comumente repetidos nas sacristias e passeatas.

De todo o modo, nem mesmo o mais organizado dos ataques conseguirá derrubar aquela que é a Esposa de Cristo, a única instituição Divinamente pensada e sobrenaturalmente guardada. Como bem disse Fulton Sheen – oxalá seja uma profecia; “O martelo que tantas habitações e tantos lares destruíra, tantos santuários profanara, há-de um dia, em virtude de tantas preces e de tantos sacrifícios feitos por milhões de homens e mulheres, transformar-se numa cruz; a foice que os comunistas usaram para ceifar tanto caule verde, tanta vida incipiente, deixará o seu simbolismo e transformar-se-á numa lua de pureza sob os pés da Virgem Nossa Senhora.”

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Padre Alberto Hurtado




El hombre necesita pan, pero necesita también fe; necesita bienes materiales, pero más aún necesita el rayo de luz que viene de arriba y alienta y orienta nuestra peregrinación terrena: y esa fe esa luz, sólo Cristo y su Iglesia pueden darla.

Santo Alberto Hurtado

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Dom Luiz Gonzaga Bergonzini: "Sigo minha Consciência, não a CNBB".


Pivô da polêmica mobilização contra Dilma Rousseff, o bispo de Guarulhos (SP), D. Luiz Gonzaga Bergonzini [foto] afirma que não recuará e levará sua manifestação de veto à presidenciável às missas e celebrações das 37 paróquias da cidade.Ele considera o PT favorável à descriminalização do aborto e divulgou artigo recomendando aos católicos que boicotem a petista.Bispo de Guarulhos recomenda a católicos que não votem em Dilma que nega defender aborto e diz que opinião de bispo não é uma posição da CNBB. [sic!]Governado desde 2001 pelo PT, o município é o segundo colégio eleitoral do Estado, com 788 mil votantes. A campanha informal alicerçada na diocese desagradou o prefeito Sebastião Almeida."Sou católica e respeito a posição do religioso. Mas não posso concordar com a transformação de uma posição doutrinária da Igreja Católica em apoio ou rejeição a qualquer candidato."Em entrevista à Folha, D. Luiz Gonzaga, 74 anos, diz não ter nada pessoal contra a candidata, mas é irredutível, mesmo após as recorrentes negativas da ex-ministra da Casa Civil.Diz o Bispo: "Ela [Dilma] segue o partido, ela é a candidata. Então eu vou matar a cobra na cabeça. Pessoalmente não tenho nada contra ela. Mas o direito à vida é o maior direito humano. O aborto é atitude covarde e criminosa. Eu não arredo o pé, não."Leia os principais trechos da entrevista concedida pelo bispo.
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Folha - Mesmo com a recomendação da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) pela neutralidade na campanha, o senhor decidiu explicitar sua posição contrária à candidata Dilma Rousseff. Por quê?
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D. Luiz Gonzaga Bergonzini - Em primeiro ligar, que recomendação é essa? A CNBB não tem autoridade nenhuma sobre os bispos. Eu segui a voz da minha consciência. Sou cristão de verdade e defendo o mandamento "não matarás". Não tem esse negócio de "meio termo".
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Folha - A candidata afirma que não defende a descriminalização do aborto. Mesmo assim, o senhor cita o nome dela no artigo.
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Ela [Dilma] segue o partido, ela é a candidata. Então eu vou matar a cobra na cabeça. Pessoalmente não tenho nada contra ela. Mas o direito à vida é o maior direito humano. O aborto é atitude covarde e criminosa. Eu não arredo o pé, não.
.Folha - Como o senhor concluiu que ela tem essa posição? Isso nunca ficou claro e ela nega.
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É o terceiro plano de governo que ela adota. Como percebeu que havia reação, foi mudando. Não vou recuar.
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Folha - O senhor pretende levar ao conhecimento dos fiéis da diocese essa recomendação de não votar na candidata Dilma?
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Os padres devem notificar ao povo a orientação do bispo. Eu não vou arredar o pé, não importa as consequências que eu venha sofrer, mas o que importa é minha consciência e seguir o Evangelho. Eu não tenho medo. O que pode acontecer? Deus saberá!
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Folha - Inclusive nas missas, os padres vão tratar do tema? Vão citar o nome da candidata?
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Tratar do tema, não. Podem citar o nome dela, porque vou mandar uma carta para os padres notificarem as pessoas da minha recomendação nas missas. Como cidadão, tenho direito de expressar minha opinião e, como bispo, tenho a obrigação de orientar os fiéis.
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Folha - O senhor teme algum tipo de retaliação ou reação negativa, seja por parte da CNBB ou de partidários da candidata Dilma?Sempre tem alguma coisa. Tenho recebido muitos e-mails. Não sei se são ameaças, mas contestando. Mas posso te dizer que muitos de apoio. As pessoas dizem: "finalmente alguém que usa calça comprida resolveu reagir".

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Chesterton neles!

Não sei até que ponto seria leviano dizer que o homem moderno não é comprometido com a Verdade. Alguém poderia alegar dizendo que eu, sendo um homem moderno, também estaria abarcado nessa generalização. Entretanto, quero fazer uma distinção entre homem moderno e homem na modernidade.

Ora, a expressão "homem moderno", em sua gênese conceitual, como usada pela intelectualidade atual, pressupõe não apenas uma questão temporal mas sim - e principalmente - a redefinição da humanidade e do sentido da própria existência. Dentro dessa perspectiva progressista o homem não é mais tomado pela coerência do ser, mas pela vontade do ter. Ainda que os arautos da sociedade igualitária advoguem que o materialismo capitalista é o responsável pelos males do mundo, o fato concreto é que as teses marxistas se fundamentam num materialismo muito mais profundo - ainda que essencialmente contraditório, mas isso é tema para outro artigo.

Gosto muito das inteligentes e irônicas intervenções chestertonianas. O grande autor inglês, que comentara a respeito da "explosão" de vícios e virtudes depois da Reforma, afirmou que o homem fora concebido para duvidar de si mesmo, não no sentido de depreciar a própria existência, mas de fiar-se na Verdade objetiva. Não obstante, o homem moderno é aquele que não só crê em si mesmo e no seu caráter absoluto como duvida da razão divina. Nessa dupla dinâmica, de soerguimento do homem e do repúdio ao conhecimento verdadeiro, surge o reino do relativismo.

"Estamos em vias de produzir uma raça de homens mentalmente modestos demais para acreditar na tabuada. "
A filosofia do "acreditar em si mesmo", como relatada por Chesterton, em nada se diferencia do "seguir a consciência" - verdadeiro veneno para a consciência como mostra a teologia moral - tão em voga na atualidade. Sem dúvida, uma crença deveras supersticiosa como esta é "uma das marcas mais comuns de um patife", até porque "Os homens que realmente acreditam em si mesmos estão todos em asilos de lunáticos."

Se continuarmos assim iremos conviver com homens que sequer se reconhecem diante do espelho!

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Quando a despenalização vira direito – O caso da Colômbia: caça aos anti-abortistas

A Corte Constitucional da Colômbia, em 2006, despenalizou a prática do aborto em casos de estupro, riscos à saúde da mulher e de crianças com anencefalia. Para gestantes menores de idade, ficou apenas como obstáculo a necessidade de uma “permissão judicial”.

Tal despenalização foi logo entendida como um direito. E a corte passou a exigir, em 2009, que os Ministérios da Educação e Proteção Social promovessem programas educacionais para expor os assim chamados “direitos sexuais e reprodutivos”.

A sentença solicitou que se assegurasse que todas as entidades prestadoras de serviços de saúde “respeitem o direito das mulheres a abortar”. E aboliram a necessidade da “permissão judicial” para a prática do aborto em menores devido ao de fato de vários juízes, alegando o direito à objeção de consciência, se negarem outorgá-lo.

A Corte também buscou cercear o direito à objeção de Consciência nos centros médicos ao mandar o Tribunal Nacional de Ética Médica abrir investigações nos casos em que a realização do aborto seja negada.

Tais medidas foram tomadas por pressão da ONU que em 2007 pediu à representação colombiana para que liberalize ainda mais o aborto e desenvolva campanhas favoráveis a tal prática; enfim, uma maior aplicação do protocolo da “Convenção para a Eliminação de toda forma de Discriminação contra a Mulher” (CEDAW). (Cfr. Rádio Vaticano, 3/2/2007).

Despenalização e direito

Como bem observou Justo Aznar, diretor do Observatório de Bioética da Universidade Católica de Valência San Vicente Mártir, em entrevista à Zenit, “não é a mesma coisa descriminalizar um delito e exercer um direito”, pois, “tudo que é legal também é moral”. E a conseqüência disso, alerta Aznar, é que “certamente será ampliada no nosso país a ideia de que o aborto é um ato moralmente aceitável”.

Transformar tal prática em um direito é a meta do movimento pró-aborto. Primeiro os abortistas costumam sensibilizar as pessoas dizendo que também são contra o aborto, mas que a penalidade legislativa imposta não ajuda em nada, apenas coloca as mulheres na ilegalidade e dificulta qualquer possível ajuda às mesmas. “Ninguém é favorável ao aborto”, dizem eles.

Mas é só despenalizar o aborto que o discurso muda, passando, então, a ser abordado como um direito da mulher. Como se bastasse o roubo de carteiras ser despenalizado para se transformar em um direito dos trombadinhas.

Aquilo que era defendido como um mal menor, transforma-se em uma necessidade ontológica feminina de direito natural que deve ser reconhecida por todas as constituições e, muito além disso, por todas as consciências.

Considerando o aborto um “direito sexual e reprodutivo” que uma mulher pode praticar livremente sem coerção externa em nenhum sentido, compreende-se a guerra que o movimento pró-aborto desenvolve no mundo inteiro contra a objeção de consciência.

É o caso do Dr. Germán Arango Rojas que perdeu, em 2008, o direito de exercer a medicina após se negar a realizar um aborto em uma menor de idade, a pedido dos pais. A penalidade foi imposta pelo Tribunal de Ética Médica Nacional ao médico colombiano que, sem direito à defesa, foi ainda obrigado a indenizar a menor.

Liberdade para o homem enquanto "revolucionário"

E assim a inversão de valores do mundo atual chega ao seu extremo colocando na ilegalidade os que lutam pela vida indefesa.

Em seu livro Revolução e Contra-Revolução, o professor Plinio Corrêa de Oliveira expõe com precisão essa característica do liberalismo moral mais exacerbado:

“Percebe-se que o liberalismo pouco se importa com a liberdade para o bem. Só lhe interessa a liberdade para o mal. Quando no poder, ele facilmente, e até alegremente, tolhe ao bem a liberdade, em toda a medida do possível. Mas protege, favorece, prestigia, de muitas maneiras, a liberdade para o mal. No que se mostra oposto à civilização católica, que dá ao bem todo o apoio e toda a liberdade, e cerceia quanto possível o mal.

“Ora, essa liberdade para o mal é precisamente a liberdade para o homem enquanto ‘revolucionário’ em seu interior.” (Parte I, Cap VII, pág 68, Art Press, 1998)

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Governador mexicano é multado em 2 mil dólares por haver mencionado nome de Deus em campanha eleitoral

No passado, considerava-se delito blasfemar contra o nome de Deus, agora é crime mencioná-lo. Esse foi o caso do atual governador de Sinaloa, México, Mario López Valdez (foto acima) que venceu as recentes eleições para o governador e foi multado por ter, durante sua campanha eleitoral, pronunciado o nome de Deus.

O Tribunal Eleitoral do Poder Judiciário da Federação, órgão máximo na matéria no México, alegou a laicidade do estado e a proibição constitucional que proíbe o uso de expressões religiosas em disputa eleitoral, para justificar a punição.

Os Partidos derrotados ainda se acharam no dever de denunciar ao tribunal que Mario López invocou a proteção de Deus em outras ocasiões.

Como bem alertou o Professor Plinio Corrêa de Oliveira, em seu livro Revolução e Contra-Revolução, “o laicismo é uma forma de ateísmo. (...) Ele afirma a impossibilidade de se ter certeza da existência de Deus. De onde, na esfera temporal, o homem deve agir como se Deus não existisse. Ou seja, como pessoa que destronou a Deus.” (Parte I, Cap VII, pág 63, Art Press, 1998)

domingo, 1 de agosto de 2010

Causas religiosas da Revolução Francesa - III


O surgimento do jansenismo se deu ao longo da discussão travada a respeito da predestinação e do livre arbítrio. O Bispo de Ypres, Cornélio Jansênio (1585-1638), ao retomar os escritos agostinianos – então esquecidos devido ao caos protestante – aproximou-se da perspectiva luterana ao afirmar que o homem, depois do pecado original, está dominado pela concupiscência.

Em concreto, o jansenismo partia de uma concepção moral rigorosa e estóica. Mesmo sendo “um sistema que se afasta do protestantismo pela primeira tese (...) pela segunda se aproxima dele” (ROPS, 2000). Como destacado por Daniel Rops, o jansenismo pode ser denominado como um “semi-protestantismo”. Dentro das suas diversas matizes o pensamento de Jansênio, centralizado na problemática da graça e da predestinação, fruticou e conquistou espaços relevantes na sociedade francesa em especial. O jansenismo, como pontuado por Theo Janses, da Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, apresentava duas feições distintas e complementares; o jansenismo popular, de forte caráter espiritual, ascético e moralista e, em segundo plano, o jansenismo de influência aristocrática com fortes adeptos no parlamento galicano. Nesse sentido, o jansenismo e suas teorias multiformes endossavam as posições episcopalistas dos políticos franceses. A politização do pensamento de Jansênio chegou ao seu máximo no Sínodo de Pistoya, condenado pela bula Auctorem fidei.

O jansenismo aristocrático deu margem às iniciativas de emancipação política e religiosa de certos parlamentares franceses. Do mesmo modo, a sua versão popular submeteu todo o paradigma da fé. Os homens influenciados por esta heresia se fecharam para a vida de piedade e esperança cristã, formando o contexto favorável para a incredulidade:
Favorecida pelo enfraquecimento da piedade dos fiéis – ocasionado pelo jansenismo e pelos outros fermentos que o protestantismo do século XVI desgraçadamente deixara no Reino Cristianíssimo – tal ação teve por efeito no século XVIII uma dissolução quase geral dos costumes, um modo frívolo e brilhante de considerar as coisas, um endeusamento da vida terra, que preparou o campo para a vitória gradual da irreligião. (DE OLIVEIRA, 1998)
A eclesiologia jansenista, fundamentada no ideal de participação e descentralização, se colocava na antípoda do modelo institucional católico. As taxativas condenações magisteriais a esta heresia não conseguiram retificar o espírito revolucionário vigente nas concepções inauguradas por Jansênio. Destarte, é correto falar de um certo princípio galicano mitigado por ideais milenaristas. Partindo da utopia romanceada da Igreja primitiva, os jansenistas se levantaram em oposição ao poder. Assim, o jansenismo não pode ser entendido em sua plenitude se não for levado em consideração o seu caráter político. O arraigado senso de desobediência às leis do Estado refletia a teologia da autoridade inaugurada pelos seus adeptos. O homem jansenista é um homem desesperado e o mundo jansenista é increvelmente pessimista. Por vezes, o intento de fugir da realidade – condenada e decadente nesta percepção – levava a radicalismos aberrantes que, bem canalizados, fomentariam verdadeiras e colossais revoltas.

Depois do alvorecer revolucionário, o jansenismo perdeu a influência concreta. Entretanto, as suas sementes já tinham germinado juntamente com o terror francês. O individualismo proposto pelo jansenismo, com a absolutização do homem em sua busca solitária e autônoma, partindo de paradigmas protestantes da consciência e da liberdade cristã, com a emancipação humana diante da autoridade e da tradição, forjaram e consolidaram os ideais que, bebendo do subjetivismo, desaguaram na explosão de movimentos revolucionários: “A contenda destacou-se na França, assumindo nesse país o matiz político-religioso que caracterizaria até o fim” (LACOSTE, 2004).

Tanto o galicanismo quanto o jansenismo refletiu, essencialmente, o ethos protestante. A divinização do homem – medida e fim – acarretou no desabrochar da ânsia revolucionária. Como consequência desta perspectiva, a Igreja passou a ser vista como ferramenta de dominação e instrumento ligado às forças contra-revolucionárias. Nesse sentido, a leitura marxista da Revolução Francesa entra em sintonia com a mentalidade dos homens que se levantaram contra o Antigo Regime, fruto da mesma árvore:
A Revolução francesa fez germinar idéias que levam além das idéias de todo o antigo estado do mundo. O movimento revolucionário, que começou em 1789 no Cercle social que, no meio da sua carreira, teve como representantes principais Leclerc e Roux e acabou por sucumbir provisoriamente com a conspiração de Babeuf, tinha feito germinar a idéia comunista que o amigo de Babeuf, Buonarroti, reintroduziu em França depois da revolução de 1830. Esta idéia, consequentemente desenvolvida, é a idéia da nova ordem universal. (MARX, 1974)
A ótica marxista, adotada no entendimento da história, reduz este marco descartando a sua complexidade genuína, centralizando o processo e submetendo toda a sua leitura ao choque de forças opostas e contrárias. Os antecedentes da Revolução Francesa são compreendidos dialeticamente, portanto, a estrutura social petrificada – ainda que aberta à ascensão – baseada em três “estados” – clero, nobreza e povo – contorna a percepção adotada por Marx; “A filosofia da práxis é o coroamento de todo este movimento de reforma intelectual e moral, dialetizando no contraste ente cultura popular e alta cultura.” (GRAMSCI, 1981). De fato, o forte poder do Estado, juntamente com condições de vida inapropriadas, instauraram um contexto favorável a certas revoltas. Não obstante, a distância entre motins e Revolução sempre foi bastante considerável:
A Reforma Luterana e o calvinismo suscitaram um vasto movimento popular-nacional no qual se difundiram, mas tão somente em épocas posteriores criaram uma cultura superior (...) A França foi dilacerada pelas guerras religiosas, cuja vitória coube aparentemente ao catolicismo, mas obteve uma grande reforma popular no século XVIII, com o iluminismo, o voltairianismo, a Enciclopédia que precedeu e acompanhou a revolução de 1789; tratou-se, na realidade, de uma grande reforma intelectual e moral do povo francês, mais completa do que a luterana alemã, já que envolveu também as grandes massas camponeses rurais, pois teve um fundo laico acentuado e tentou substituir a religião por uma ideologia completamente laica, representada pela vinculação nacional e patriótica. (GRAMSCI, 1981)
Destarte, se faz mister pontuar o papel crucial – quiçá vital – das grandes mentalidades iluministas, de formação aristocrática ou burguesa, responsáveis por dar forma ideológica ao que se tornou a Revolução Francesa; “As idéias encarnaram-se em fatos; o filosofismo armou-se em revolução e o Terror realizou a associação repugnante de Diderot quando saudava o dia em que haveria de ver; Des boyaux du dernier prêtre/ Serrer le cou du dernier roi.” (FRANCA, 1955). A intelectualidade “das luzes”, carregada do mais radical espírito antimedieval, inflamou as massas, no máximo, insatisfeitas. A estrutura social francesa refletia, naturalmente, a mentalidade do homem cristão. O clero, enquanto grupo social fundado diretamente por Deus, para os crentes, encabeçava a nação pelas altas virtudes e valores que regiam os seus atos e ações. Na linha contrária, os iluministas, embriagados com a ira anticlerical, reconheceram na Igreja Católica não só o alvo como a grande base que mantinha o equilíbrio da nação. Durante todo o processo revolucionário, desde a Convenção, passando pelo Grande Terror, chegando até o 18 de Brumário, com todas as multiformes ações, se manteve o mesmo organizado e orquestrado ataque à Igreja, seja para destruí-la ou para submetê-la.

A problemática religiosa da Revolução Francesa “construiu-se e organizou-se em torno do gigantesco combate entre a Igreja Católica e o novo regime” (VOVELLE, 1987). A mentalidade revolucionária foi formada a partir da convergência de fatores que lapidaram a consciência do homem. Assim, o combate à Igreja, consequência de certo ranço de sabor galicano e jansenista, deu margem ao florescimento do devaneio e da utopia política. Por exemplo, a estapafúrdia tríade fundamental dos “Mártires da Liberdade”, composta por Lepeletier, Marat e Chalier, gozando de veneração, e a excêntrica religiosidade revolucionária com cultos a razão, a “Boa Mãe”. Esta transferência de sacralidade, da fé cristã à religião revolucionária, partiu de dois movimentos complementares. Por um lado uma ação de descristianização organizada, com combate à vida sacramental, ao ensino catequético, e a tudo que se referisse ao sobrenatural, e, por outro lado, uma espontaneidade popular diante da nova “crença”, fruto, em parte, da influência jansenista com a privação da vida da graça.

A Revolução Francesa, dizem os teóricos marxistas, foi o apogeu das forças dialéticas que se tornaram insustentáveis numa nação altamente injusta e com grandes massas em estado de opressão. Entretanto, analisando uma perscpetiva mais ampla, a Revolução Francesa se forma com o alvorecer da mentalidade moderna, inaugurada formalmente na Reforma.

O evento de 1789 deve ser estudado em sua diversidade, levando em consideração as diversas variantes que o influenciaram – direta ou indiretamente. Em concreto, a complexa e delicada situação do “terceiro estado” é fator relevante na análise, não obstante, deve-se frisar o crescente espírito humanista, surgido no Renascimento, e o fortalecimento das filosofias de sabor liberal, com destacadas características individualistas, racionalistas, socialistas, nascidas factualmente do berço do protestantismo. Ademais, a intelectualidade francesa - burguesa e aristocrática - foi, seguramente, a responsável por despertar nas massas o ardor revolucionário que, para os marxistas, estas carregam na própria essência proletária.

Partir de uma leitura que entende a Revolução como fruto da organização espontânea do “terceiro estado” é não só reduzir a complexidade da história como mascarar uma realidade óbvia; trabalhadores e camponeses não pensam ideologias nem arquitetam tomadas de poder, no máximo revoltas. Os grupos intelectuais elitizados, estes sim, que forjam as utopias e lapidam as paixões ideológicas.

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