O surgimento do jansenismo se deu ao longo da discussão travada a respeito da predestinação e do livre arbítrio. O Bispo de Ypres, Cornélio Jansênio (1585-1638), ao retomar os escritos agostinianos – então esquecidos devido ao caos protestante – aproximou-se da perspectiva luterana ao afirmar que o homem, depois do pecado original, está dominado pela concupiscência.
Em concreto, o jansenismo partia de uma concepção moral rigorosa e estóica. Mesmo sendo “um sistema que se afasta do protestantismo pela primeira tese (...) pela segunda se aproxima dele” (ROPS, 2000). Como destacado por Daniel Rops, o jansenismo pode ser denominado como um “semi-protestantismo”. Dentro das suas diversas matizes o pensamento de Jansênio, centralizado na problemática da graça e da predestinação, fruticou e conquistou espaços relevantes na sociedade francesa em especial. O jansenismo, como pontuado por Theo Janses, da Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, apresentava duas feições distintas e complementares; o jansenismo popular, de forte caráter espiritual, ascético e moralista e, em segundo plano, o jansenismo de influência aristocrática com fortes adeptos no parlamento galicano. Nesse sentido, o jansenismo e suas teorias multiformes endossavam as posições episcopalistas dos políticos franceses. A politização do pensamento de Jansênio chegou ao seu máximo no Sínodo de Pistoya, condenado pela bula Auctorem fidei.
O jansenismo aristocrático deu margem às iniciativas de emancipação política e religiosa de certos parlamentares franceses. Do mesmo modo, a sua versão popular submeteu todo o paradigma da fé. Os homens influenciados por esta heresia se fecharam para a vida de piedade e esperança cristã, formando o contexto favorável para a incredulidade:
Favorecida pelo enfraquecimento da piedade dos fiéis – ocasionado pelo jansenismo e pelos outros fermentos que o protestantismo do século XVI desgraçadamente deixara no Reino Cristianíssimo – tal ação teve por efeito no século XVIII uma dissolução quase geral dos costumes, um modo frívolo e brilhante de considerar as coisas, um endeusamento da vida terra, que preparou o campo para a vitória gradual da irreligião. (DE OLIVEIRA, 1998)A eclesiologia jansenista, fundamentada no ideal de participação e descentralização, se colocava na antípoda do modelo institucional católico. As taxativas condenações magisteriais a esta heresia não conseguiram retificar o espírito revolucionário vigente nas concepções inauguradas por Jansênio. Destarte, é correto falar de um certo princípio galicano mitigado por ideais milenaristas. Partindo da utopia romanceada da Igreja primitiva, os jansenistas se levantaram em oposição ao poder. Assim, o jansenismo não pode ser entendido em sua plenitude se não for levado em consideração o seu caráter político. O arraigado senso de desobediência às leis do Estado refletia a teologia da autoridade inaugurada pelos seus adeptos. O homem jansenista é um homem desesperado e o mundo jansenista é increvelmente pessimista. Por vezes, o intento de fugir da realidade – condenada e decadente nesta percepção – levava a radicalismos aberrantes que, bem canalizados, fomentariam verdadeiras e colossais revoltas.
Depois do alvorecer revolucionário, o jansenismo perdeu a influência concreta. Entretanto, as suas sementes já tinham germinado juntamente com o terror francês. O individualismo proposto pelo jansenismo, com a absolutização do homem em sua busca solitária e autônoma, partindo de paradigmas protestantes da consciência e da liberdade cristã, com a emancipação humana diante da autoridade e da tradição, forjaram e consolidaram os ideais que, bebendo do subjetivismo, desaguaram na explosão de movimentos revolucionários: “A contenda destacou-se na França, assumindo nesse país o matiz político-religioso que caracterizaria até o fim” (LACOSTE, 2004).
Tanto o galicanismo quanto o jansenismo refletiu, essencialmente, o ethos protestante. A divinização do homem – medida e fim – acarretou no desabrochar da ânsia revolucionária. Como consequência desta perspectiva, a Igreja passou a ser vista como ferramenta de dominação e instrumento ligado às forças contra-revolucionárias. Nesse sentido, a leitura marxista da Revolução Francesa entra em sintonia com a mentalidade dos homens que se levantaram contra o Antigo Regime, fruto da mesma árvore:
A Revolução francesa fez germinar idéias que levam além das idéias de todo o antigo estado do mundo. O movimento revolucionário, que começou em 1789 no Cercle social que, no meio da sua carreira, teve como representantes principais Leclerc e Roux e acabou por sucumbir provisoriamente com a conspiração de Babeuf, tinha feito germinar a idéia comunista que o amigo de Babeuf, Buonarroti, reintroduziu em França depois da revolução de 1830. Esta idéia, consequentemente desenvolvida, é a idéia da nova ordem universal. (MARX, 1974)A ótica marxista, adotada no entendimento da história, reduz este marco descartando a sua complexidade genuína, centralizando o processo e submetendo toda a sua leitura ao choque de forças opostas e contrárias. Os antecedentes da Revolução Francesa são compreendidos dialeticamente, portanto, a estrutura social petrificada – ainda que aberta à ascensão – baseada em três “estados” – clero, nobreza e povo – contorna a percepção adotada por Marx; “A filosofia da práxis é o coroamento de todo este movimento de reforma intelectual e moral, dialetizando no contraste ente cultura popular e alta cultura.” (GRAMSCI, 1981). De fato, o forte poder do Estado, juntamente com condições de vida inapropriadas, instauraram um contexto favorável a certas revoltas. Não obstante, a distância entre motins e Revolução sempre foi bastante considerável:
A Reforma Luterana e o calvinismo suscitaram um vasto movimento popular-nacional no qual se difundiram, mas tão somente em épocas posteriores criaram uma cultura superior (...) A França foi dilacerada pelas guerras religiosas, cuja vitória coube aparentemente ao catolicismo, mas obteve uma grande reforma popular no século XVIII, com o iluminismo, o voltairianismo, a Enciclopédia que precedeu e acompanhou a revolução de 1789; tratou-se, na realidade, de uma grande reforma intelectual e moral do povo francês, mais completa do que a luterana alemã, já que envolveu também as grandes massas camponeses rurais, pois teve um fundo laico acentuado e tentou substituir a religião por uma ideologia completamente laica, representada pela vinculação nacional e patriótica. (GRAMSCI, 1981)Destarte, se faz mister pontuar o papel crucial – quiçá vital – das grandes mentalidades iluministas, de formação aristocrática ou burguesa, responsáveis por dar forma ideológica ao que se tornou a Revolução Francesa; “As idéias encarnaram-se em fatos; o filosofismo armou-se em revolução e o Terror realizou a associação repugnante de Diderot quando saudava o dia em que haveria de ver; Des boyaux du dernier prêtre/ Serrer le cou du dernier roi.” (FRANCA, 1955). A intelectualidade “das luzes”, carregada do mais radical espírito antimedieval, inflamou as massas, no máximo, insatisfeitas. A estrutura social francesa refletia, naturalmente, a mentalidade do homem cristão. O clero, enquanto grupo social fundado diretamente por Deus, para os crentes, encabeçava a nação pelas altas virtudes e valores que regiam os seus atos e ações. Na linha contrária, os iluministas, embriagados com a ira anticlerical, reconheceram na Igreja Católica não só o alvo como a grande base que mantinha o equilíbrio da nação. Durante todo o processo revolucionário, desde a Convenção, passando pelo Grande Terror, chegando até o 18 de Brumário, com todas as multiformes ações, se manteve o mesmo organizado e orquestrado ataque à Igreja, seja para destruí-la ou para submetê-la.
A problemática religiosa da Revolução Francesa “construiu-se e organizou-se em torno do gigantesco combate entre a Igreja Católica e o novo regime” (VOVELLE, 1987). A mentalidade revolucionária foi formada a partir da convergência de fatores que lapidaram a consciência do homem. Assim, o combate à Igreja, consequência de certo ranço de sabor galicano e jansenista, deu margem ao florescimento do devaneio e da utopia política. Por exemplo, a estapafúrdia tríade fundamental dos “Mártires da Liberdade”, composta por Lepeletier, Marat e Chalier, gozando de veneração, e a excêntrica religiosidade revolucionária com cultos a razão, a “Boa Mãe”. Esta transferência de sacralidade, da fé cristã à religião revolucionária, partiu de dois movimentos complementares. Por um lado uma ação de descristianização organizada, com combate à vida sacramental, ao ensino catequético, e a tudo que se referisse ao sobrenatural, e, por outro lado, uma espontaneidade popular diante da nova “crença”, fruto, em parte, da influência jansenista com a privação da vida da graça.
A Revolução Francesa, dizem os teóricos marxistas, foi o apogeu das forças dialéticas que se tornaram insustentáveis numa nação altamente injusta e com grandes massas em estado de opressão. Entretanto, analisando uma perscpetiva mais ampla, a Revolução Francesa se forma com o alvorecer da mentalidade moderna, inaugurada formalmente na Reforma.
O evento de 1789 deve ser estudado em sua diversidade, levando em consideração as diversas variantes que o influenciaram – direta ou indiretamente. Em concreto, a complexa e delicada situação do “terceiro estado” é fator relevante na análise, não obstante, deve-se frisar o crescente espírito humanista, surgido no Renascimento, e o fortalecimento das filosofias de sabor liberal, com destacadas características individualistas, racionalistas, socialistas, nascidas factualmente do berço do protestantismo. Ademais, a intelectualidade francesa - burguesa e aristocrática - foi, seguramente, a responsável por despertar nas massas o ardor revolucionário que, para os marxistas, estas carregam na própria essência proletária.
Partir de uma leitura que entende a Revolução como fruto da organização espontânea do “terceiro estado” é não só reduzir a complexidade da história como mascarar uma realidade óbvia; trabalhadores e camponeses não pensam ideologias nem arquitetam tomadas de poder, no máximo revoltas. Os grupos intelectuais elitizados, estes sim, que forjam as utopias e lapidam as paixões ideológicas.
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