Tradução: Sem. Diego Ferracini
Shakespeare permanece como uma maravilhosa anomalia. Isso pode ser provado pelo fato de que nenhum artista na história do Ocidente alcançou a estima dos críticos e do povo como Shakespeare. Seus poemas e peças continuam a encantar gerações após gerações; sua rica linguagem supera a fala moderna – queiramos ou não. O que acontece para tão longa fascinação? Como podemos explicar a beleza de seus escritos e o poder de sua imaginação?
Talvez jamais respondamos. Deveríamos permanecer em silêncio diante deste gênio, simplesmente aceitando este precioso presente. Mesmo que isso não satisfaça estudiosos e críticos. Queremos mais – isso é, após tudo, nossa pergunta. Queremos fazer perguntas desafiadoras, e esperamos respostas convincentes.
Recentemente, um número de estudiosos revisitou as questões religiosas de Shakespeare. Os estudiosos há tempos aceitam, talvez relutantemente, que a crença religiosa pode servir como impulso para o processo criativo. A piedade religiosa contribui para a arte, para a música, literatura e diversas outras áreas. No entanto, a recente atenção para o possível catolicismo de Shakespeare não é algo normal na comunidade acadêmica. As vozes dominantes desta comunidade, os ídolos do pós-modernismo, geralmente ignoram a dimensão religiosa da arte concentrando-se sobre a Trindade da raça, classe e gênero.
Por que perguntar?
Muitos shakespearianos ignoram o perfil religioso de suas obras. Eles acreditam que ele era de alguma forma alheio ao mundo religioso. O famoso critico Harold Bloom, autor do best-seller “Shakespeare: A Invenção do Humano” (Riverhead Books, 1999), considera toda a questão de posturas religiosas em Shakespeare ridiculamente irrelevantes. Bloom afirma que “Shakespeare era muito sensato para acreditar em algo” politicamente ou religiosamente falando. Ele acrescenta “Fico perplexo quando os críticos argumentam se ele era protestante ou católico, uma vez que as peças nada afirmam”. Segundo Bloom, Shakespeare não poderia professar um credo religiosos e ainda ser Shakespeare.
Stephen Greenblatt, o influente fundador do Novo Historicismo, tem sido criticado por sua incapacidade de reconhecer a importância das crenças religiosas na literatura elisabetana. O Novo Historicismo, ao contrário da cultura inglesa renascentista presente em outros críticos, tende a ter uma perspectiva radicalmente secular. Curiosamente, o seu livro mais recente “Hamlet no purgatório” (2001) tenta explorar questões religiosas, mas não de forma compreensiva. Greenblatt concentra sua considerável inteligência em combater a fé católica ao invés de explorá-la.
A procura por um “Shakespeare católico” evidentemente incomoda alguns professores de universidades católicas. Michael A. Mikolajczak, professor de literatura na Universidade St. Thomas, considera a questão como de mau gosto: “Em minha opinião, está pergunta não é objetiva e muito menos interessante, penso que podemos pecar estereotipando-o por orgulho próprio” Enquanto a teologia obscura do professor Michael cria sua própria confusão (pecado do estereótipo?). Mais preocupante é sua afirmação sem fundamento de que os estudiosos da questão religiosa em Shakespeare são de alguma forma pecadores. Sua postura reflete uma falta de curiosidade e certa preguiça intelectual: ele considera a questão de pouco interesse, logo os outros devem considerar assim também. Parece ter a esperança de que ignorando a questão ela simplesmente desapareça.
No entanto, estudiosos e críticos de todos os estilos há muito reconhecem a importância da fé na produção artística, na literatura e no teatro. Mikolajczak pode ser perdoado por sua postura hostil diante da pergunta - ele não é, afinal, estudioso de Shakespeare -, mas descartar, em primeira mão, a relação entre fé e criação literária cheira a preconceito.
Existem acusações mais sensatas. Por exemplo, Pe. Paul Murray O.P, observa: “Não seria, creio eu, útil caracterizar formalmente Shakespeare como dramaturgo religioso. O fato é que ele preferiu, de modo geral, deixar a religião em paz.” Esta é uma meia-verdade: Shakespeare não foi um escritor religioso. Mas o padre Murray assume que ele não escolheu tratar a questão religiosa de forma clara, visível. Na verdade, tal escolha não era do próprio Shakespeare.
Rigorosas leis proibiam expressamente qualquer manifestação religiosa ou política de serem apresentadas no palco. Nenhum dramaturgo que escreveu para o povo durante o Renascimento Inglês pode ser considerado como religioso. Os reformadores protestantes terminaram com séculos de tradição do teatro religioso, incluindo a encenação de milagres e peças sobre os mistérios da fé. No entanto, questões fundamentais permanecem sem resposta. Por que Shakespeare fez repetidas referências ao catolicismo em suas obras? Por que arriscou sua liberdade retratando de maneira simpática a fé católica?
Claro, a ênfase demasiada sobre a religião (política, sexo ou filosofia) em Shakespeare irá reduzir sua obra. Ele, obviamente, não escreveu homilias para o teatro. Ainda assim, seria igualmente desaconselhável ignorar ou negligenciar a linguagem claramente religiosa, os temas e personagens de suas peças. Alguns afirmam que ele incorporou tais atributos religiosos de forma puramente universal, livre de qualquer significado ou simbolismo. Mas esta posição requer que se ignore as numerosas referências e as repetidas práticas especificamente católicas, como os rituais.
A teoria que afirma sua catolicidade se fundamenta em dois tipos de evidência: registros/arquivos históricos e as percepções colhidas de suas obras. Ambas possuem suas limitações. Os registros e arquivos do período elisabetano e jacobino estão longe de ser abrangentes, e atribuir convicções pessoais de um artista partindo de seu trabalho é algo complicado. Logo, as duas fontes de informação não tem sido úteis.
O que a História nos conta
Os arquivos e evidências históricas da catolicidade de Shakespeare são circunstanciais, mas significativos. Não possuímos um testemunho sob juramento assinado por Shakespeare declarando sua fé. Mas temos indicações menos diretas. Poderíamos citar, por exemplo, a religião da família de sua mãe, os católicos Ardenas, e o testamente espiritual de seu pai John Shakespeare que segue o formulário do “Último Desejo da Alma” de São Carlos Borromeu, fazendo assim uma profissão formal de sua fé católica. Os pais de Shakespeare parecem ter aderido ao Catolicismo, mesmo com o risco de perder a riqueza pessoal, a liberdade ou até mesmo a vida. A ruptura entre a Inglaterra e Roma ainda estava viva na memória, e mesmo assim o governo elisabetano esperava uma conformidade exterior em todos os assuntos. Professar a fé católica durante este período exigia grandes doses de fé e coragem.
Outro ponto a ser levado em consideração é que todos os professores de Shakespeare na escola de gramática Stratford tiveram contato com a “Antiga Fé”. Simon Hunt, seu primeiro mestre, 1571-1575, deixou Stratford para se matricular na Universidade de Douai, no verão de 1575, e mais tarde tornou-se jesuíta. Um dos colegas de Shakespeare no mesmo colégio, Robert Dibdale, deixou abruptamente as atividades junto com Hunt, foi ordenado sacerdote e martirizado em 1586.
Os próximos dois mestre em Stratford foram Thomas Jenkins e John Cottom. Segundo Park Honan, biógrafo mais recente de Shakespeare, estes homens “tinham fortes ligações católicas”. Jenkins, se não ele próprio fosse católico, tinha muitos amigos que o eram; Cottom irmão mais novo de Thomas, foi martirizado em 1582 , quando era reitor do seminário. Surpreendentemente, todos os professores de Shakespeare no liceu de gramática (se ele de fato frequentou a escola de gramática de Stratford, como é geralmente aceito) eram católicos ativos ou tiveram relações estreitas com a “Antiga Fé”.
Os últimos desejos de Shakespeare e seu testamento fornecem um vislumbre de sua vida e de sua fé. Mesmo que a fórmula utilizada por ele, como era costume na maioria dos testamentos elaborados na Inglaterra jacobina, fosse protestante (sem citar, por exemplo, a Mãe de Deus ou a comunhão dos santos), o documento revela um padrão intrigante de amizades com católicos conhecidos.
Dos dez nomes citados em seu testamento e que não pertencem a sua família, a religião de três não são conhecidas (Hamnet Sadler, Francis Collins e Richard Burbage), dois eram anglicanos (John Hemminges e Henry Condell) e cinco eram católicos, ou ao menos simpatizantes (Thomas Combe II, William Reynolds, Anthony Nash, John Nash e Thomas Russell). Obviamente Shakespeare continuou a ter amizade com católicos não-conformistas (os católicos citados), prejudicados ou presos por sua fé.
A teoria mais recente de apoio à formação católica de Shakespeare vem de Richard Wilson. Segundo sua tese, pela primeira vez revisada em 1937 e ocasionalmente revista durante 50 anos subsequentes, o “William Shakeshafte” que viveu com a família católica Houghton em Lancashire é o mesmo jovem Shakespeare de Stratford. Essa teoria ganhou novo impulso com a descoberta de que John Cottom era aristocrata de Lancashire, e parente próximo dos Houghtons. Esta possível ligação criou um choque significativo entre os estudiosos de Shakespeare, ocasionando uma grande conferência internacional em julho de 1999, na qual participaram mais de 200 estudiosos e críticos.
Seria errado tirar conclusões absolutas sobre a fé de Shakespeare baseando-se em seus professores, colegas, amigos e familiares. Seria igualmente equivocado, no entanto, ignorar estes arquivos e ricos registros da relação extraordinária de amigos católicos de Shakespeare. O arquivo/registro histórico torna claro que ele queria e gostava da convivência com católicos. “A Antiga Fé” não tinha desaparecido de sua vida.
Sua visão dramática
A forma mais produtiva de apreciar os focos religiosos da sensibilidade de Shakespeare são os elementos claramente católicos incluídos em suas obras. O que essas alusões à fé nos contam sobre seu drama?
Podemos apreciar o universo imaginativo de Shakespeare de forma mais clara, olhando para o imaginário católico em geral. Em um recente livro intitulado “O imaginário católico” (2000), Pe. Andrew Greeley explora as diferenças entre o imaginário católico (ou, como ele denomina, a imaginação metafórica) e a imaginação protestante (de acordo com o autor, imaginação dialética). Apesar das notáveis evidências de Greeley alguns católicos ortodoxos discordam de suas conclusões. Ele levanta algumas questões cruciais: O agir dos católicos, baseado em uma perspectiva principalmente sacramental, entende a realidade de um modo diferente dos não-católicos? Se assim o for, há como provar e identificar isso?
Greeley acredita que qualquer prova empírica justifica sua afirmação, a imaginação católica permite aos poetas, artistas, pais, padres, fazendeiros e outros uma oportunidade de ver Deus em toda a criação, em todos os prazeres, no amor humano e mesmo na doença. Esta metáfora, a perspectiva sacramental, pode ter contribuído para a visão dramática de Shakespeare. Pois mesmo ele não professando a fé, seus pais, avós e bisavós eram católicos praticantes.
O papel crucial do Clero
Considere, por exemplo, a representação do clero católico em suas peças. Na Inglaterra elisabetana, padres católicos encontrados em solo inglês eram considerados culpados de traição e mortos. O governo de Elisabete I executou dezenas de sacerdotes por tal “crime”. Protestantes ingleses viam todos os padres católicos como culpados, ipso facto, sem abrandamento ou nuances. Muitas peças escritas pelos contemporâneos de Shakespeare, incluindo Cristopher Marlowe, John Webster e Francis Beaumont, faziam essa caracterização redutora quando descreviam o clero católico, ou os leigos, eram todos vilões unidimensionais.
Shakespeare apresenta o clero de forma mais complicada. Frei Lourenço de “Romeu e Julieta” desempenha um papel crucial no desenrolar da trama. Embora prolixo, às vezes, ele oferece conselhos morais e uma amizade fiel, finalmente concordando em casar os jovens amantes esperando que “esta aliança possa fazer feliz esta prova / transformando o rancor das famílias em amor puro”. Apesar de o frade admitir a cumplicidade na tragédia e aceitar livremente a punição, o príncipe o desculpa descrevendo-o “nós ainda (sempre) te consideramos como um homem santo”. Frei Lourenço é um personagem complexo, mas não é um vilão.
Frei Francisco desempenha um papel menor em “Much Ado About Nothing” (Muito barulho por nada) – ele fala menos de 85 linhas. Mas ele pode ser visto como a figura central que move a tragédia em potencial para uma resolução cômica. Na peça, Hero está prestes a se casar com Cláudio, no entanto, ele falsamente acreditando na infidelidade de Hero a deixa no altar. Hero entra em síncope, por seu temperamento quente, solta ameaças. A cena paira próxima da beira do caos. Em seguida, Frei Francisco interrompe a bagunça com uma defesa da inocência de Hero. Ele só defende a moça tendo como base sua experiência como confessor e confidente. Termina seu discurso apelando para a reputação de Hero e sua capacidade de escolha entre o certo e o errado:
“Dizei que estou variando, se o quiserdes; não confieis mais no meu saber, na minha observação, que o
selo da experiência tem sempre confirmado, e recusai-me crédito à idade, à dignidade própria, ao
ministério sacro, se esta moça, tão gentil, não se achar, sem ser culpada, vítima de algum erro clamoroso.”
(Ato IV – cena I)
selo da experiência tem sempre confirmado, e recusai-me crédito à idade, à dignidade própria, ao
ministério sacro, se esta moça, tão gentil, não se achar, sem ser culpada, vítima de algum erro clamoroso.”
(Ato IV – cena I)
Frei Francisco oferece a legitimidade de sua vocação como potencial para o resgate de Hero. Finalmente Hero é provada inocente, ela se casa com Cláudio arrependido. O voto de Frei Francisco é justificado com Hero: Shakespeare aprova o papel do sacerdote junto à comunidade.
Não podemos ignorar a singularidade da representação. Caso surgisse um verdadeiro Frei Francisco, se saísse do palco do “Globe Theater” e praticasse sua fé em público, imediatamente seria detido e, finalmente, executado. Essa ironia frequentemente escapa aos críticos que não querem aceitar este afastamento radical da ortodoxia protestante.
Doutrina e Sacramentos
Shakespeare também menciona os sacramentos católicos de maneira profunda. Durante a discussão entre Hamlet e o fantasma de seu pai morto, o fantasma descreve os horrores de sua situação atual, elementos que se assemelham a doutrina católica do purgatório. Circunstâncias desconhecidas impedem o fantasma de contar sobre sua situação, mas se ele fosse autorizado “a dizer os segredos da minha prisão”, “arrancaria as raízes da tua alma, E gelaria o sangue da tua juventude, Fazendo teus dois olhos abandonarem as órbitas como estrelas perdidas”. Claramente a idéia de purgatório continuou a interessar Shakespeare.
O fantasma então conta o aspecto mais doloroso do assassinato: Ele foi morto antes que tivesse oportunidade de confessar os seus pecados, não pôde receber a Eucaristia, sem preparação espiritual ou unção dos enfermos.
“Assim, dormindo, pela mão de um irmão, perdi, ao mesmo tempo,
A coroa, a rainha e a vida.
Abatido em plena floração de meus pecados,
Sem confissão, comunhão ou extrema- unção,
Fui enviado para o ajuste final,
Com todas minhas imperfeições pesando na alma.
Oh, terrível! Terrível! Tão terrível!”
A coroa, a rainha e a vida.
Abatido em plena floração de meus pecados,
Sem confissão, comunhão ou extrema- unção,
Fui enviado para o ajuste final,
Com todas minhas imperfeições pesando na alma.
Oh, terrível! Terrível! Tão terrível!”
A linguagem arcaica não deve obscurecer o sentido da passagem. O fantasma reclama de sua morte “unhous’led” (sem a Eucaristia) e “unanel’ed” (sem a unção dos enfermos). Além disso, ele morreu “no reck’ning made” (sem confissão). De repente, a enormidade do crime se torna mais evidente. Não foi só o rei Hamlet privado de suas alegrias terrenas, sua falta de preparação espiritual comprometeu a felicidade celeste da mesma forma. Embora seja apenas algumas linhas do diálogo, um debate alargado, esta passagem dá energia e vitalidade para todo o discurso. Se o fantasma simplesmente perdesse o conforto terreno de cama e comida, o seu desânimo perderia uma dimensão importante. Shakespeare aumenta consideravelmente os riscos. Ele faz disso uma questão de vida eterna ou morte. A privação dos Sacramentos – da presença de Deus em nossas vidas – ressalta a injustiça do assassinato, impelindo Hamlet a procurar vingança, sua consciência da eternidade motiva a ação e intensifica o drama da história.
Embora não seja um religioso, por si só é dramaturgo, Shakespeare polvilha suas peças com miríades de referências aos Sacramentos. Quando usa a palavra “Sacramento”, somente oito vezes, ele quer dizer o Santo Sacramento da Eucaristia, Shakespeare também menciona a confissão e a penitência (confissão e absolvição) e a unção (como na unção com óleo). Individualmente, as palavras podem parecer em casos isolados de uma piedade fossilizada, coletivamente, elas sugerem num sentido mais dinâmico e vivo do Sagrado.
A natureza sacramental do matrimônio
Consideremos também a apresentação do casamento em suas peças. Durante este período turbulento, as práticas católicas e protestantes eram diferentes. Depois de 1558 e da adesão de Elisabete I, a igreja da Inglaterra deixou de considerar o casamento como sacramento. A Rainha Elisabete, filha de um segundo casamento ilegítimo, obviamente, tinha um grande interesse em desacramentalizar o matrimônio. Para a igreja inglesa, os costumes do casamento ficaram mais simples. Apesar das variações existentes, o casal só tinha que fazer uma promessa de casamento ou a intenção de se casar na frente de algumas testemunhas e consumar a união. Obviamente, os eclesiásticos com sua supervisão limitada se viram diante de vários problemas. De acordo com a jurista A.G. Harmon, esta situação “poderia causar todo tipo de caos, como promessas em segredo, apertos de mão e trocas de anéis.”
No Concílio de Trento, encerrado em 1563, um ano antes do nascimento de Shakespeare, a Igreja Católica insistiu na sacramentalidade do matrimônio. Embora o Concílio tivesse sublinhado o papel da noiva e do noivo que conferem o sacramento entre si, o Concílio determinou também que todos os casamentos católicos fossem assistidos por um sacerdote.
Shakespeare, motivado por razões desconhecidas, opta pela prática católica do casamento em suas peças. Quer em tempos pagãos ou cristãos, países católicos ou não, o casamento é geralmente descrito como “sacramental na natureza”. Consideremos “Twelfth Night” (Noite de Reis), uma peça sobre a confusão de identidades na Ilíria. Durante a peça, senhora Olívia se apaixona por Cesário (na verdade Viola disfarçada de homem). Olívia se oferece para o recém-chegado Sebastian (irmão gêmeo de Viola, o qual se acreditava morto) e, pensando que Sebastian é realmente Cesário, pede ao atordoado Sebastian sua mão em casamento. Apesar da rapidez do pedido ele concorda em se casar com a bela Olívia. Ela orienta a ação:
“A culpa não está presa a mim. Se você quer dizer assim,
Agora vá comigo e com este santo homem
Na capela por ali, diante dele,
E sob esse teto consagrado,
Dê-me as garantias completas de vossa fé;
Para que o meu maior ciúmes e minha mais duvidosa alma
Possam viver em paz.”
Agora vá comigo e com este santo homem
Na capela por ali, diante dele,
E sob esse teto consagrado,
Dê-me as garantias completas de vossa fé;
Para que o meu maior ciúmes e minha mais duvidosa alma
Possam viver em paz.”
De acordo com o Dicionário Oxford de Inglês, a palavra capela, associada ao altar, ou parte de uma igreja, é onde um ou mais sacerdotes rezam a Missa diariamente para as almas dos fundadores e outras intenções especificas. É específica dos institutos católicos.
Em “Julius Caesar” uma obra que se desenrola nos tempos pagãos, Portia confronta Brutus, pedindo-lhe para revelar a fonte de sua ansiedade. Brutus tenta repetidamente afastar as perguntas, referindo-se a fadiga ou problemas de saúde. Portia exige a verdade, e ela apela para a validade e transcendência dos votos emitidos no casamento:
“Dizei-me, Bruto, se constava cláusula no
contrato do nosso casamento, segundo a qual eu nunca deveria tomar conhecimento dos assuntos que vos
tocam de perto. Eu sou vós próprio, mas, por assim dizer, com toda sorte de restrições? Apenas para o
leito vos partilhar, estar convosco à mesa, e conversar por vezes? Moro apenas no subúrbio de vossa
inclinação? Se for assim, esposa não é Pórcia de Bruto, mas apenas concubina.”
contrato do nosso casamento, segundo a qual eu nunca deveria tomar conhecimento dos assuntos que vos
tocam de perto. Eu sou vós próprio, mas, por assim dizer, com toda sorte de restrições? Apenas para o
leito vos partilhar, estar convosco à mesa, e conversar por vezes? Moro apenas no subúrbio de vossa
inclinação? Se for assim, esposa não é Pórcia de Bruto, mas apenas concubina.”
Portia torna claro que os votos trocados entre eles transformaram a própria natureza – dois em um. Como resultado, Brutus deve respeitar Portia acima de um mero arranjo contratual. A diferença entre essa união e um contrato ajuda a explicar a ligação profunda com sua esposa, e o “pathos” sentido por Brutus quando fica sabendo da morte dela, mais tarde na peça.
Em “Romeu e Julieta”, Shakespeare novamente enfatiza a sacramentalidade do matrimônio. Antes de seu casamento, Romeu e Julieta recebem o sacramento da reconciliação. Frei Lourenço não vai deixar os dois amantes juntos sozinhos “até que a Santa Igreja os una em um só”. Mais tarde, quando a enfermeira audaciosamente recomenda a bigamia para Julieta, ela fica horrorizada e opta por matar ao invés de quebrar seu juramento conjugal com Romeu. O poder e a transcendência de sua união vem, em parte, da natureza transcendente do voto. Se os dois tivessem considerado o casamento como simples contrato, não morreriam um pelo outro, e teriam menos razão a serem movidos ao sacrifício.
Shakespeare continuou a insistir na natureza sacramental do casamento por muito tempo após sua rainha, seu país e a igreja inglesa terem desistido. Como alguém da comunidade compreendendo o valor da vida, continua a insistir na “santidade” do sagrado, uma vez que se pode ser rotulado como extremista, excessivo, ou até mesmo intolerante. Em sua descrição simpática dos Sacramentos, da doutrina católica e do clero, Shakespeare era radical.
A imaginação de um católico
A imaginação católica - a imaginação que permitiu a Shakespeare regar suas obras com referencias a fé católica e praticas de forma significativa – também o permitiu criar mundo fictícios na Dinamarca, Roma, Verona, Veneza e Ilíria. A imaginação que o fez católico também o ajudou a ser o maior escritor do mundo anglófono.
A questão das sensibilidades religiosas de Shakespeare não é uma questão de luta acadêmica. Muito está em jogo para os leitores de suas peças. Não só para a arte, música e literatura floresce a imaginação católica, ela permite que hoje os católicos usem as verdades transcendentes de sua fé de modo mais profundo. Nós, como católicos, não precisamos observar o mundo com as viseiras do fundamentalismo, rejeitando tudo que não cabe em uma visão estreita. Além disso, o imaginário católico atenua o relativismo irrestrito que é cético em relação a qualquer verdade, não importa o quão óbvia seja. O imaginário católico, ancorado na beleza da verdade e na verdadeira beleza, procura conexões com Deus e com sua criação, entre Sua Verdade e a nossa compreensão, as obras de Shakespeare revelam um vislumbre do que é essa imaginação em ação.
Paul J. Voss. "Assurances of Faith: How Catholic was Shakespeare? How Catholic are his Plays?" Crisis 20, no. 7 (July/August 2002): 34-39.
VOSS. Paul J. Professor de Inglês e vice-presidente dos assuntos acadêmicos do Southern Catholic College in Dawsonville, Georgia



