quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Igrejas modernas e bonitas? Sim, isso existe!

O arquiteto Duncan Stroik tem se destacado como um dos responsáveis pela revitalização da arte sacra nos EUA. Os seus projetos de Catedrais, Igrejas e Capelas se tornaram conhecidos pela beleza, sobriedade e decoro. Criou o Instituto para a Arquitetura Sacra, que edita uma primorosa revista "exclusivamente dedicada às questões da arquitetura da igreja dentro de uma ortodoxa perspectiva católica (...) Esta revista é a mais recente contribuição para o movimento da renovação litúrgica em andamento." Alguns dos seus projetos:

São Paulo Centro Católico, Madison, WisconsinIgreja de Santo Estanislau Kostka, Michigan City, Indiana
Catedral de Midwest, Oklahoma
Capela de Santa Teresa, Sugar Land, Texas
AntesDepois
Santuário do Sagrado Coração de Jesus, St. Louis, Missouri
Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe, La Crosse, Wisconsin
Igreja de Nossa Senhora da Santíssima Trindade, Santa Paula, Califórnia
Capela da Sagrada Família, Nebraska
Igreja de Todos os Santos, Covington, Kentucky

terça-feira, 27 de outubro de 2009

O verdadeiro sentido da missão

Pedro Ravazzano

A Teologia da Libertação é responsável direta pela destruição de séculos de trabalho missionário. A naturalização do sobrenatural, somada a uma análise materialista da fé, propicia a corrupção do sentido da conversão. Tamanho relativismo reduz todo o cristianismo a um mero assistencialismo onde não há necessidade de oração, penitência e mortificação. Cristo, dentro dessa leitura, não pediu a conversão e a crença evangélica, mas sim uma luta pelo bem e justiça social. Como disse o folheto “O Domingo”;
"A páscoa de Jesus se realiza nos grupos e pessoas que, independentemente de credos, se doam em favor dos pequenos e procuram realizar o bem em meio à sociedade."


O trabalho missionário parte de uma compreensão honesta da fé, um entendimento sensato dos ensinamentos de Cristo, do amor ao próximo e no cumprimento do pedido de Nosso Senhor; “Ide e anunciai o evangelho a toda criatura.” A Teologia da Libertação (TL) reduz o anuncio do evangelho a uma ótica materialista, enxergando na religião a ferramenta de libertação social, daí que a “justiça social” e “fazer o bem” sejam os dogmas absolutos da fé. Obviamente, para uma noção tão simplória da crença, Cristo não precisaria da Encarnação, Crucificação e Ressurreição, muito menos fundado uma Igreja. Ademais, toda a religião católica parte da premissa básica de que perpetua os ensinamentos de Nosso Senhor – seria estupidez máxima crer em algo que sabe não ser de Deus, mas dos homens. Assim, a Eucaristia, o Papa, a Virgem SS etc, não são simples realidades doutrinárias acidentais, mas frutos diretos da mensagem deixada por Jesus.

Em concreto, o amor de Deus é misericordioso, e essa misericórdia se encarna na doutrina, justamente por ser esta um caminho objetivo de salvação. Seguir Jesus é seguir tudo aquilo que Ele nos deixou, afinal, é no Seu legado que entendemos a Sua mensagem. Ora, se cremos que a doutrina católica veio de Cristo e reconhecemos a necessidade de seguir a Cristo nos Seus ensinamentos, como colocar em terceiro plano a importância da fé na Igreja Católica? Podemos ir além. A prática maior do amor ao próximo se faz na pregação da Verdade, já que é o gesto máximo de caridade ao homem; mostrá-lo a Cristo. Se reconhecemos os ensinamentos católicos como originados diretamente do coração de Jesus, e sabemos que a comprovação do nosso amor ao próximo se faz na apresentação da Verdade, como, então, desmerecer a necessidade da conversão? Ou nós não amamos, de fato, o próximo - portanto não queremos apresentá-lo a Cristo – ou, então, não cremos na doutrina católica como originada no Senhor – logo, como nos consideramos crentes?

A redução feita pela TL é total e absoluta. A Eucaristia, a Virgem SS, o Papado etc, são pontos secundários da fé se comparados com a necessidade de praticar a “justiça social”. Além da verdadeira justiça se originar em Cristo e na Sua mensagem, toda a doutrina não se contrapõe ao amor de Deus. Tamanha falácia parte de uma compreensão relativista onde doutrina - e até mesmo a simples palavra “doutrina” – é interpretada como uma imposição férrea e fundamentalista da fé. Ora, não seria, justamente, o contrário? A doutrina é fruto da caridade de Cristo, um guia prático de salvação, muito mais edificante do que a ótica subjetivista que impera, onde ninguém sabe ao certo como viver o Evangelho, onde cada indivíduo segue uma fé particular e pessoal, distante da universalidade pretendida por Deus.

Dom Edson Damian, bispo de São Gabriel da Cachoeira, afirmou, em reportagem ao Jornal Nacional, que “São os índios que estão vivendo como viviam os primeiros cristãos que tinham tudo em comum, nós é que temos que nos converter a eles”. Agora é a Cruz que deve ser submetida aos chocalhos e flautas de Tupã? Esse é o relativismo em grandes proporções, não mais a conversão é desnecessária como agora somos nós, cristãos, que devemos nos paganizar. Ademais, vale frisar que, como destacou Jorge Ferrar no Deus lo Vult!, “Para afastar os maus espíritos, Sua Excelência parece preferir o Yaigê às orações católicas; para ser coroado no dia de sua sagração, Sua Excelência parece preferir um cocar indígena a uma mitra católica. Parece preferir o paganismo ao Evangelho”

Obviamente, o Bispo tem pleno entendimento acerca do caráter relativista e herético de tais afirmações. De fato, a sua insistência no modernismo é consciente e intencional. Dom Edson, mui provavelmente, deve conhecer a brilhante explanação feita por S.S João Paulo II na encíclica Redemptoris Missio; “uma das razões mais graves para o escasso interesse pelo empenhamento missionário é a mentalidade do indiferentismo, hoje muito difundida, infelizmente também entre os cristãos, freqüentemente radicada em concepções teológicas incorretas, e geradora de um relativismo religioso, que leva a pensar que « tanto vale uma religião como outra »...”

Além dos graves problemas doutrinais oriundos dessa postura relativista, que, logicamente, subentende um demérito a toda a crença católica, ainda há o choque com a própria história da Igreja e a vida espiritual. Gostaria de pontuar, nesse tocante, o testemunho da Sociedade de São Francisco de Sales no empenho do trabalho missionário. A diocese de São Gabriel da Cachoeira, por exemplo, foi fundada e erigida por Sacerdotes filhos de Dom Bosco. Dom Edson, o Bispo do Cocar, é o primeiro não-salesiano feito Pastor daquelas terras. Desde cedo o Santo fundador alimentava o desejo de partir, para terras inóspitas, na pregação do Evangelho. Dom Bosco sonhava em poder caminhar com alguns missionários, apenas sustentados na fé em Cristo, mas a sua saúde e os enormes afazeres na Europa, com uma Congregação recém fundada, o impedia. Entretanto, logo tendo oportunidade enviou para a América aqueles que se tornariam peças fundamentais na propagação da fé nos países do Novo Mundo. Vejamos o relato feito por Dom Bosco do seu profético sonho:
"Pareceu-me, disse, encontrar-me numa região inóspita e totalmente desconhecida. Era uma imensa planície toda inculta, em que não se avistavam colinas nem montes. Mas nas extremidades, muitíssimo ao longe, perfilavam-se em toda a volta escarpadas montanhas. Vi nela multidões de homens que a percorriam. Andavam quase nus, eram muito altos, de aspecto feroz, de cabelo comprido e em desalinho, de cor bronzeada e escura, vestidos apenas com grandes mantos de peles de animais, que lhes desciam dos ombros. Andavam armados com uma espécie de lança comprida e com uma funda.
Estas multidões de homens, espalhados por todo o lado, ofereciam ao espectador cenas diversas: uns corriam à caça das feras; outros levavam na ponta das lanças pedaços de carne a deitar sangue. Outros ainda combatiam entre si, outros traziam presos soldados vestidos à europeia, e o terreno estava cheio de cadáveres. Eu tremia perante aquele espectáculo; e eis que despontam na extremidade da planície muitos personagens, que, pela forma de vestir e de se comportar, descobri que eram missionários de várias Ordens.
Estes aproximavam-se para pregar àqueles bárbaros a religião de Jesus Cristo. Fixei-os bem, mas não conheci nenhum deles. Foram para o meio daqueles selvagens; mas os bárbaros, mal os viram, com um furor diabólico, com uma alegria infernal, assaltavam-nos, matavam-nos, esquartejavam-nos com ferocidade, cortavam-nos aos pedaços e espetavam os pedaços daquelas carnes com a ponta das lanças.
Depois de observar aqueles horríveis massacres, disse para mim próprio:

− Como fazer para converter esta gente tão brutal?

Entretanto, vejo ao longe um grupo de outros missionários que se aproximavam dos selvagens de rosto muito alegre, precedidos por uma turba de jovenzinhos.

Eu tremia pensando:

− Vêm cá para ser mortos.

E aproximei-me deles: eram clérigos e padres. Fixei-os com atenção e vi que eram os nossos Salesianos. Os primeiros eram meus conhecidos, e embora não tenha podido conhecer pessoalmente muitos outros que seguiam os primeiros, dei-me conta de que eram também Missionários Salesianos, mesmo dos nossos.

− Como vai isso − exclamei.

Não queria deixá-los passar e pus-me à frente deles para os parar.

Receava que de um momento para o outro tivessem a mesma sorte dos antigos Missionários. Queria fazê-los voltar para trás, quando vi que a sua aparição encheu de alegria todas aquelas multidões de bárbaros, que baixaram as armas, puseram de parte a ferocidade e acolheram os nossos Missionários com todos os sinais de cortesia.

Maravilhado com isto, disse para mim próprio:

− Vamos ver como é que isto vai terminar!

E vi que os nossos Missionários avançavam em direcção àquelas hordas de selvagens; instruíam-nos e eles escutavam-nos de bom grado; ensinavam e eles punham em prática as suas instruções. Parei a observar, e dei-me conta que os Missionários rezavam o santo Terço, enquanto os selvagens, correndo de todos os lados, abriam alas à sua passagem e respondiam com gosto àquela oração.

Passado algum tempo, os salesianos dispersaram-se pelo meio daquela multidão que os rodeava e ajoelharam-se. Os selvagens, tendo deposto as armas por terra aos pés dos Missionários, ajoelharam também. E eis que um dos salesianos entoa: “Louvemos Maria…”, e todas aquelas turbas, a uma só voz, continuaram o cântico, tão em uníssono e com voz tão forte, que eu, quase assustado, acordei.
Este sonho fez-me muita impressão, pensando tratar-se de um aviso celeste"
Esse sonho confirmou aquela misteriosa vontade que o Santo já nutria no coração. Assim, depois de alguns acasos da Providência, os salesianos foram enviados para a Patagônia, inclusive o futuro Cardeal Cagliero, Vigário Apostólico da Patagônia, confessor da Beata Laura Vicuña e amigo de Beato Zeferino Namuncurá. Os filhos de Dom Bosco logo chegaram ao Brasil. No Mato Grosso evangelizaram a tribo dos Bororos e, mais tarde, constituíram uma prelazia, a Prelazia do Registro do Araguaia. Entraram corajosamente na floresta amazônica, construindo verdadeiros oásis da fé. Desde 1908, Dom Frederico Costa, Bispo do Amazonas, queria a presença dos salesianos na região do Rio Negro. Em 1910 a Prefeitura Apostólica do Rio Negro foi criada e, posteriormente, confiada aos filhos de Dom Bosco – atualmente Diocese de São Gabriel da Cachoeira. Na região trabalharam junto aos Tucanos e outros tribos, tudo para a glória de Deus.


Os sonhos de Dom Bosco profetizavam o esplendor da sua Congregação. Ademais, eram sinais claros da origem Divina dos anseios mais profundos da Sociedade de São Francisco de Sales. Afirmar, como é comum hoje em dia, que o trabalho missionário é desnecessário e inoportuno – falo de verdadeiro trabalho missionário que visa à conversão – se choca com a doutrina da Igreja e com a ação do Senhor na história. Os sonhos de Dom Bosco seriam falsas criações de mentes ultramontanas, refletindo apenas uma realidade temporal? Então a Virgem Santíssima se enganaria nas suas promessas feitas ao Santo?

Vejamos o teor de outro sonho, relatado por A. Auffray SDB na biografia de Dom Bosco, “A divina Pastora que aos nove anos lhe tinha feito ver com clareza a sua futura missão, mostrou-lhe nessa noite os pontos principais do caminho que iriam percorrer os seus missionários. Num instante sua fantasia foi transportada ao pé das Cordilheiras, a Santiago e a Valparaiso; de ai ao coração mesmo das matas da África; finalmente a Pequim, a capital do Celeste Império! Por mais robusta que fosse a fé de Dom Bosco, era difícil acreditar tais maravilhas. Evangelizar extensões tão grandes! Vencer tantos obstáculos! Percorrer espaços enormes! e com um exército tão exíguo e com meios tão. escassos! Não! Era um sonho apenas e nada mais! Porém a Dama misteriosa acalmou-lhe os receios: "Não temas disse-lhe ela. Não sómente os teus filhos, mas os filhos de teus filhos realizarão estes prodígios" Nesse sonho a Virgem mostra ao Santo os belíssimos frutos da sua Congregação; a conversão dos povos e das raças. Ainda promete que tais “prodígios” seriam perpetuados por todos os seus filhos.

Comparemos, nesse instante, a doutrina da Igreja e os sonhos de Dom Bosco com o posicionamento da Teologia da Libertação e o seu relativismo. Se somos católicos – e somos livremente – é porque cremos que a Igreja, enquanto instituição fundada por Cristo, reflete os ensinamentos deixados por Nosso Senhor. Entretanto, mesmo as revelações privadas não sendo de crença obrigatória, exprimem um caráter sobrenatural. Assim, se as experiências de Dom Bosco foram originadas em Cristo – e assim a Igreja acredita – reproduzem a imutabilidade inerente a Deus. Ou será que alguém crê que o Senhor transmite ensinamentos mutáveis e falíveis, escravos do tempo?

De um lado temos o Evangelho e a Igreja e, do outro, Bispos e religiosos relativistas. De um lado uma conversão sincera, com prática de oração e vida sacramental, do outro lado a práxis “evangélica” perpetuada na manutenção de crenças pagãs e no discurso assistencialista.

Quando Monsenhor Cagliero voltou da Patagônia, levou consigo uma jovem indígena convertida. No leito de morte, Dom Bosco experimentou uma sublime alegria. Não podendo ir até as terras de missão, o seu filho trouxe um fruto dos trabalhos salesianos em solo argentino. A jovenzinha, ajoelhada aos pés do Santo, falando um italiano carregado de sotaque, disse; "Pai, eu vos agradeço por terdes mandado vossos missionários para salvar a mim e a meus irmãos" Dom Bosco, extremamente comovido, verteu lágrimas de regozijo, lágrimas de caridade e de puro amor! Ele sabia que havia cumprido a sua tarefa na terra!

Infelizmente, essa é uma experiência que D. Edson Damian nunca vai passar! Afinal, para que converter?

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Era São Josemaria Escrivá franquista?

Quantas vezes ouvimos acusações contra o Fundador do Opus Dei? Uma das mais comuns é aquela que o acusa de ter compactuando com o governo do Generalíssimo Franco e toda a incursão nacionalista contra a República espanhola. Como todas as críticas feitas ao Opus Dei, esta não passa de uma velha falácia sem o mínimo sentido histórico. Vejamos!

A aversão que São Josemaria Escrivá nutria ao Regime Republicano Revolucionário era reflexo não de um sentimento ideológico, mas de um conhecimento empírico acerca do caráter totalitário do sistema comunista. Não é de estranhar que os religiosos espanhóis tivessem uma natural e espontânea aproximação com os tradicionalistas, falangistas e nacionalistas. Enquanto igrejas eram destruídas, vasos sagrados profanados e religiosos assassinados, na Espanha Vermelha, conventos eram protegidos, missas eram celebradas e Sacerdotes reverenciados no meio das ruas com continência e aplausos, na Espanha Azul.


São Josemaria Escrivá nunca favoreceu ao regime nacionalista por uma simpatia político-ideológica. Ao contrário, sempre mostrou uma distância de discussões partidárias, o que até gerava a estranheza em seus filhos. Nesse tocante, é interessante pontuar que mesmo quando morava na Madri comunista, trocando de residência, forjando documentos, vivendo num cubículo no Consulado de Honduras, apenas por ser Sacerdote católico, jamais proferiu nenhuma crítica ao Governo Republicano.

Obviamente, o Fundador do Opus Dei era afeiçoado a muitos homens, políticos e intelectuais que comungavam da mesma fé e piedade que a sua e que militavam sob as bandeiras de direita. O Santo celebrou, inclusive, uma Missa pela alma do falecido amigo Victor Pradera, destacado tradicionalista espanhol, junto a sua viúva e família. Ademais, entre os seus primeiros seguidores estava Pedro Casciaro, filho de um importante membro madrilenho da Frente Popular, composta pelo Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), a União Geral dos Trabalhadores (UGT), o Partido Comunista da Espanha (PCE), o Partido Operário de Unificação Marxista (POUM), a Izquierda Republicana (IR), a União Republicana (UR) e apoiado pelos nacionalistas catalães da Esquerra Republicana de Catalunya (ERC) e galegos do Partido Galeguista (PG). Não obstante, quando da permanência de São Josemaria Escrivá e os seus na região nacionalista, na cidade de Burgos, – depois da complexa e perigosa saída da zona vermelha, pelos Pirineus – Pedro Casciaro foi acusado de espionagem comunista, mesmo não compactuando com a ideologia do seu pai.

Cobrar de Sacerdotes que eram perseguidos pelo governo republicano uma postura de inércia frente à liberdade religiosa promovida pelos nacionalistas seria surreal. Um Sacerdote vive para celebrar a Missa, a fonte primordial de sustentação da fé, e dar assistência ao povo de Deus, santificando os homens e salvando as almas. Nas regiões dominadas pelos comunistas/socialistas/anarquistas estes não só tinham seu trabalho tolhido como sequer gozavam de autonomia para celebrar a Liturgia. São Josemaria nunca favoreceu ao regime franquista, como muitas vezes é acusado. Mesmo nos piores momentos de perseguição jamais alimentou uma crítica política aos revolucionários comunistas. Como foi pontuada, a sua aversão era fruto da própria experiência em zonas vermelhas.

O Fundador do Opus Dei não era falangista, nacionalista, direitista, ou qualquer outra definição partidária, era apenas um Padre, verdadeiramente Sacerdote, que sofrendo as perseguições incitadas pelos bolcheviques se tornou anti-comunista, justamente por ser...católico.

"Este é um momento de graça", a conversão da Comunhão Anglicana Tradicional

Vivemos um momento histórico que entrará para os anais da Igreja. O céu se rejubila com o retorno da Comunhão Anglicana Tradicional (TAC) que congrega cerca de 500 mil almas em diversos países, com uma profunda e grandiosa estrutura. A Traditional Anglican Communion foi formada pela união de igrejas anglicanas que, juntas, se separararam da Comunhão Anglicana sob o pastoreio do Arcebispo de Cantuária. A TAC corrobora a Declaração de St. Louis – Congresso convocado depois que a Igreja Episcopal dos EUA aprovou a ordenação de mulheres e fez uma radical reforma no ‘Livro de Oração Comum’ – e segue uma hermenêutica tradicional dos Trinta e Nove Artigos – se opondo aos religiosos da Baixa Igreja que já partem de uma ótica calvinista ao ler os Artigos. A Comunhão Anglicana Tradicional não desassociava a Escritura da Tradição, além disso sempre valorizou a teologia dogmática e o decoro litúrgico. Ademais, a TAC mantinha um colégio de Bispos que era responsável pela eleição do Primaz.

A saída desses Bispos da Comunhão Anglicana foi motivada pela permissão da ordenação de mulheres e aceitação do homossexualismo, assim como a subvalorização da Tradição e a reforma litúrgica. Desse modo, esses pastores da Igreja da Inglaterra reconheciam que, por meio dessas mudanças, o anglicanismo rompia com todo o tradicionalismo apostólico.

Em 2007, a Comunhão Anglicana Tradicional, em nome de todos seus Bispos, religiosos e fiéis, pediu admissão na Igreja Católica. Assim disse arcebispo Hepworth, Primaz da TAC:
O Colégio dos Bispos da Comunhão Anglicana Tradicional (TAC), se reuniu em sessão plenária, em Portsmouth, Inglaterra, na primeira semana de outubro de 2007. Os Bispos e Vigários-Gerais aprovaram por unanimidade o texto de uma carta à Sé de Roma buscando plena e sacramental união. A carta foi assinada solenemente por todo o Colégio e confiada ao Primaz e a dois bispos escolhidos pelo colégio para ser apresentada à Santa Sé. A carta foi cordialmente recebida pela Congregação para a Doutrina da Fé. O Primaz da TAC definiu que nenhum membro do Colégio dará entrevistas até que a Santa Sé tenha considerado a carta e respondido
A resposta da Igreja veio em 2008, por meio da Congregação para a Doutrina da Fé, que se mostrou solícita e pronta para analisar a questão. E a questão foi analisada! Ontem, dia 20 de outubro de 2009, a Igreja deu o parecer favorável à conversão de toda a Comunhão Anglicana Tradicional, pontuando que esta terá legitimidade para manter costumes e tradições anglicanas milanares que, tradicionalmente, remontam à catolicidade que ainda vigorava na Igreja da Inglaterra. Os “Padres” e “Bispos” – entre aspas, já que a Igreja Anglicana não tem Sucessão Apostólica – serão ordenados e sagrados. A Santa Sé, de forma paternal, permitiu que os reverendos casados pudessem ser ordenados nesse estado. Ademais, como é costume na Igreja Católica do Oriente, reservou o episcopado aos celibatários.

Vale frisar que a qualidade dessa conversão é imensurável. Estamos falando de fiéis que vivem de forma piedosa a fé e que defendem bravamente a Igreja; pessoas comprometidas com a Verdade. A conversão, por si só, já é sinal de humildade e submissão a Cristo. Os 500 mil homens e mulheres da TAC que podem se tornar católicos vão engrossar as fileiras do exército que luta contra o relativismo religioso e a ditadura totalitária imposto pelo modernismo.

Como disse o “Arcebispo” John Hepworth, Primaz da TAC (e por ser casado será feito Sacerdote católico, apenas), na carta que escreveu por conta desse esplendoroso evento: "Este é um momento de graça, até mesmo um momento histórico, não porque o passado é desfeito, mas porque o passado é transformado." Que Deus seja louvado! Presenciamos o maior retorno organizado de protestantes ao Catolicismo desde a Reforma. Os Santos contra-reformistas se rejubilam, Beato Domingos da Mãe de Deus canta glórias ao Pai e Cardeal Newman se alegra!

terça-feira, 20 de outubro de 2009

A Fundação Ford e o multiculturalismo

Edsel Bryant Ford, filho de Henry Ford, o fundador da Ford Motor Co., presidiu a gigante de Detroit entre 1919 e 1943. Em 1936, ele e seu pai, na tradição filantrópica americana, estabeleceram a FF e definiram como sua missão administrar fundos para o desenvolvimento científico e educacional e para a caridade. Após a morte dos dois fundadores, em 1947, a presidência passou a Henry Ford II, filho de Edsel, a FF recebeu uma fortuna em ações da Ford Motor. Em 1955, por decisão do conselho de curadores, a Fundação começou a vender suas ações da montadora automobilística e, em meados da década de 1970. já não mantinha nenhuma relação com a Ford Motor.

O ensaísta americano Dwight Macdonald descreveu, em 1956, a FF como “um grande corpo de dinheiro totalmente circundado por pessoas que querem algum”. O patrimônio financeiro legado pelos fundadores transformou a Fundação na maior entidade filantrópica do mundo, e sua missão foi redefinida em torno das metas de promover internacionalmente a liberdade, a democracia, a paz e a educação.

Nos anos da aurora da Guerra Fria, a FF funcionou como um tentáculo oculto da política externa americana. Paul Hoffman, um dos mais destacados arquitetos do Plano Marshall na Europa, deixou o governo americano para presidir a FF entre 1950 e 1953, quando ela iniciou a sua expansão no exterior. Richard M. Bissell Jr. Trabalhou como alto- executivo da Fundação logo depois de servir na administração do Plano Marshall e pouco antes de ingressar oficialmente na CIA. John J. McCloy foi secretário da Guerra entre 1941 e 1945 e depois, sucessivamente, presidente do Banco Mundial, alto-comissário dos EUA na Alemanha ocupada, CEO do Chase Manhattan Bank e CEO da FF. Nos sete anos que dirigiu a Fundação, a partir de 1958, manteve o hábito de definir, em visitas informais e conversas com membros do Conselho de Segurança Nacional, os projetos no exterior que seriam agraciados com os maiores financiamentos da FF.

McGeorge Bundy tinha apenas 30 anos quando participou, com Bissell, de um grupo de formuladores de política externa que procurava articular o Plano Marshall à ajuda da CIA a grupos anticomunistas na França e Itália. Ele chegou ao governo junto com a equipe de acadêmicos montada por John Kennedy e serviu como conselheiro de Segurança Nacional nos governos Kennedy e Johnson, até 1966, quando se tornou presidente da FF. Nos treze anos de presidência de Bundy, a Fundação descobriu as minorias, desempenhando um papel crucial na difusão das políticas de raça nos EUA e na arena internacional. A reorientação não podia ser mais radical: em 1960, o item “direitos das minorias” representava 2,5% dos financiamentos; em 1970, atingia 40%.

No fim da década de 1960, a FF estava diante de um cenário de crise política que se agravou ao longo do primeiro mandato de Nixon, quando as coalizões sociais articuladas no movimento pelos direitos civis voltavam-se para a luta contra a Guerra do Vietnã. O núcleo dirigente da Fundação interpretou a radicalização dos protestos como um sintoma de funcionamento defeituoso do pluralismo político e formulou o conceito de multiculturalismo como uma ferramenta para restabelecer a normalidade nas engrenagens da democracia. De acordo com a lógica do multiculturalismo, as amplas coalizões sociais deveriam dar lugar a organinazações e movimentos específicos, delineados em função dos interesses de cada minoria. A Fundação ajudaria a esculpir esses movimentos, oferecendo-lhes plataformas políticas e fundos capazes de sustentar grupos de pressão.

A introdução das “políticas da diferença” – ou da “diversidade”, na linguagem oficial da FF – teve um poderoso efeito de cooptação de lideranças e intelectuais. Investigando as fundações filantrópicas, o sociólogo Craig Jenkins registrou que elas funcionam como “porteiros”, financiando os movimentos e as iniciativas que, por essa via, conseguem converter suas bandeiras em políticas públicas. “No processo, elas também selecionaram as novas organizações que se tornaram traços permanentes da paisagem política.” É precisamente o que ocorreu nos EUA a partir da intervenção da FF.

A estratégia foi deflagrada por meio da advocacia de interesse público voltada para minorias. A FF financiou fundos para litigância em defesa dos mexicanos-americanos (Maldef), dos porto-riquenhos (PR-LDEF), dos povos indígenas (Native-American LDEF) e das mulheres (WLF). Essas organizações, que não têm uma base de associados, dependem inteiramente de doações oferecidas por empresas e fundações, em especial a FF. Como é natural, seus dirigentes são ativistas ligados à Fundação. Contudo, esses ativistas se apresentam na esfera pública como representantes dos interesses das respectivas “minorias” e, em virtude dos recursos financeiros de que dispõem, exercem significativa influência institucional. Previsivelmente, todas as organizações criadas nessas bases engajaram-se na promoção das políticas de discriminação reversa, funcionando como grupos de pressão profissionalizada.

O envolvimento da FF com os negros iniciou-se pelo financiamento de uma organização histórica, que desempenhou papéis relevantes nas lutas pelos direitos civis. A NAACP ganhou um fundo jurídico e educacional, mas perdeu sua independência. Apesar de manter mais de seiscentos mil filiados, passou a depender essencialmente das grandes entidades filantrópicas e engajou-se nas políticas de raça. O processo culminou em 1994, quando a venerável organização, que enfrentava situação falimentar, foi resgatada por duas contribuições da FF, num total de seiscentos mil dólares, depois de substituir seu diretor-executivo pelo pretendente indicado pela Fundação.

A FF não se limitou a financiar as organizações previamente existentes. Com o seu patrocínio, movimentos militantes de “chicanos” foram transformados numa organização étnica. O Conselho do Sudoeste de La Raza (SWCLR) nasceu em Phoenix, Arizona, em 1968, a partir da contratação de três lideranças comunitárias pela FF. Cinco anos depois. O SWCLR tornou-se uma organização nacional, mudou sua sede para Washington e seu nome para Conselho Nacional de La Raza (NCLR). Logo depois, a Fundação entrou em atrito com o sindicalista Henry Santiestevan, que presidia o NCLR, e exigiu a sua substituição, ameaçando suspender os financiamentos. Raul Yzaguirre assumiu a presidência, alinhou por completo a organização à agenda política do doador original e converteu-a numa poderosa instituição, financiada pelo governo federal, além de grandes empresas e diversas entidades filantrópicas.

O discurso da vitimização e os recursos financeiros da FF uniram-se para gerar o que o jornalista George Will caracterizou, apropriadamente, como “a proliferação de grupos acalentando mágoas e reinvidicando direitos”. Como registrou Joan Roelofs, um dos resultados do processo foi a cooptação em massa de lideranças independentes: “ativistas de movimentos sociais são desse modo transformados em pesquisadores, administradores e litigantes; e os movimentos são fragmentados em ‘políticas identitárias’.

Na sua origem, a FF já representava as tendências modernas da filantropia, que não pretende oferecer donativos aos pobres, mas fazer uso das ciências sociais para reformar as sociedades. Desde a revisão de sua missão, no pós-guerra, a Fundação havia se fixado na meta de influenciar as políticas públicas e promover reformas institucionais não só a partir do convencimento dos governos, mas, especialmente, pela mobilização de base. A aventura multiculturalista nas universidades americanas derivou da combinação dos dois paradigmas.

A abordagem básica da Fundação consistiu em incentivar a adoção de sistemas de admissão orientados por preferências para “grupos minoritários”. O instruumento pragmático utilizado foi oferecer vultosas doações, condicionando-as à implantação de cotas para minorias. Contudo, as ambições da FF ultrapassavam em muito a mera mudança dos sistemas de admissão. A finalidade era reformar de alto a baixo as perspectivas acadêmicas, as atitudes políticas, os currículos e as práticas nas universidades. Tratava-se, no fim das contas, de incutir o princípio do multiculturalismo no código genético do fazer acadêmico. Mais uma vez, a ferramenta de persuasão seria a oferta condicional de generosas doações.

Os relatórios anuais da FF descrevem, às vezes com minúcias, o modus operandi do assalto às universidades. Um único exemplo em 1989, duzentas universidades e faculdades foram convidadas a concorrer por doações de cem mil dólares “para revisar ou desenvolver programas acadêmicos voltados a dar uma máxima atenção à cultura e experiência de minorias étnicas e a fazer as perspectivas multiculturais pesarem em todos os aspectos do currículo”. Uma das 19 instituições agraciadas, a Universidade Brandeis, de Massachusetts, comprometeu-se a organizar um curso de verão sobre as tradições orais na África e na “diáspora africana” e, mais amplamente, a incorporar materiais africanos e “derivados da África” no núcleo de seu currículo.

O cientista político Harold Laski (1893-1950), com sua longa experiência em Harvard, Yale e na London School of Economics, conhecia o impacto das fundações sobre as universidades: “As fundações não controlam, simplesmente porque, no significado direto e simples da palavra, não há necessidade de fazerem isso. Elas têm apenas que indicar a inclinação momentânea de suas mentes para todo o mundo universitário descobrir o sentido apontado e tender rapidamente para aquele ângulo do compasso intelectual”. Entretanto, Laski não viveu o suficiente para apreciar a ousada operação da FF no mundo universitário americano. A Fundação não se limitou a distribuir doações institucionais condicionadas, mas criou vastos programas de bolsas de pesquisas, destinados a professores, e de especialização, destinados a pós-graduados e graduandos. Para ter mais mais chances de sucesso na conquista das bolsas, os pretendentes deviam formar “equipes multiculturais” e definir temas e abordagens multiculturalistas.

Do ponto de vista teórico , o multiculturalismo assenta-se sobre um primeiro pressuposto que não é dramaticamente distinto do artigo de fé do “racismo científico”. Esse pressuposto pode ser expresso como a noção de que a humanidade se divide em “famílias” discretas e bem definidas, denominadas etnias. O “racismo científico” fazia as suas “famílias” - as raças – derivarem da natureza. O multiculturalismo faz as etinias derivarem da cultura. O segundo pressuposto do multiculturalismo é que a cultura corresponde a um atributo essencial, imanente e ancestral de cada grupo étnico. Essa naturalização da cultura evidencia que o conceito de etnia, na narrativa multiculturalista, ocupa um nicho metodológico paralelo àquele do conceito de raça na narrativa do “racismo científico”.

Sob o influxo dos milionários financiamentos da FF, as universidades imitaram os padrões de segregação urbana e criaram seus próprios guetos, na forma de novos campos de estudo – Black Studies, depois African-American Studies, Mexican-American Studies, Native-American Studies, os estudos de race relations, os “estudos femininos” e incontáveis estudos étnicos específicos. Nos cinco anos iniciais, implantaram-se mais de quinhentos programas de Black Studies nos EUA. Desse modo, os pressupostos multiculturalistas adquiriam vida e realidade, como componentes do saber acadêmico consagrado. Mas, não satisfeita em produzir objetos de estudo, a “transformação curricular” injetou a raça, a etnia e o gênero em todos os departamentos e disciplinas, investigando, por exemplo, o “olhar afro-americano” das paisagens urbanas, os temas feministas na arte conteporânea e a misoginia inscrita na Nona Sinfonia de Beethoven.

Universidades em busca de dinheiro e acadêmicos em busca de prestígio definirtam suas prioridades acadêmicas nos termos sugeridos pelo doador. A Universidade de Chicago, seguindo as tendências gerais, implantou um Centro para o Estudo da Raça, Política e Cultura que, no início de 2005, recebeu da FF de de outras entidades filantrópicas mais de um milhão de dólares em doações. Cathy Cohen, diretora do Centro, explicou que o “recebimento das doações mostra que pesquisa inovadora está sendo realizada”, um raciocínio amparado na curiosa idéia de que os donos do dinheiro são os melhores avaliadores da pertinência de um saber.

A maior das doações recebidas naquele ano pelo Centro dirigido por Cohen, proveniente da FF, no valor de seiscentos mil dólares, destinava-se à linha de pesquisa “Os jovens afro-americanos e seu empoderamento sexual: sexo, política e cultura”. É claro que a linha de pesquisa não existiria sem a intervenção da Fundação. Mas há algo de maior relevância: a mera enunciação do programa acadêmico significa que, de acordo com o saber institucional adventício, “afro-americanos” constituem um grupo perfeitamente identificável e distinto dos demais por feições culturais relacionadas ao sexo e à política.

A marcha do multiculturalismo pelos campi universitários nem sempre contou com a adesão voluntária dos acadêmicos, mas a Fundação soube manejar com eficácia seus meios de persuasão. Robert Steele, professor de Psicologia na Universidade Wesleyan, de Connecticut, que cumpriu o papael de coordenador de uma das sessões da conferência “Intensificação da diversidade cultural”, patrocinada pela FF em Pasadena, Califórnia, em 2004, explicitou o receituário: “As pessoas não serão pacificamente assimiladas ao multiculturalismo por meio da verdade, através do diálogo. Você lhes dá assistentes de pesquisa, você oferece orientadores de pós-graduação.” A meta não é apenas inncutir idéias, mas colocar os acadêmicos ligados à Fundação nos postos de comando e, efetivamente, assumir o controle de departamentos e universidades inteiras: “Nós teremos mudado a universidade quando mulheres e pessoas de cor possam se ver dirigindo o lugar.”

Henry Ford II deixou a presidência da FF em 1950, mas permaneceu envolvido com a sua direção durante mais um quarto de século, como CEO e depois como curador. Contudo, ele experimentou uma desilusão crescente com os rumos da entidade filantrópica e, em 1977, renunciou à sua posição no conselho. “A Fundação é uma criatura do capitalismo”, observou, mas tornou-se difícil identificar algum traço de capitalismo “em qualquer coisa que ela faz. É ainda mais difícil encontrar uma compreensão disso em muitas das instituições, particularmente as universidades, que são beneficiárias do programa de subvenções da Fundação”.

O herdeiro dos fundadores era um conservador da velha estirpe e não entendia o sentido das políticas conduzidas pela FF desde o final da década de 1960. Mas, pela perspectiva de Bundy e de seus sucessores, o multiculturalismo era um remendo vital para o sistema político do capitalismo – e não apenas nos EUA.

(...)

A FF participou de todos os aspectos do empreendimento multiculturalista nos EUA. Mas, sobretudo, ela funcionou como o nó mais importante de articulação entre a universidade, as organizações de pressão e os órgãos da administração pública. Por intermédio da Fundação, acadêmicos encontraram os caminhos rumo a postos na direção das organizações de minorias e a cargos governamentais encarregados de programas de ação afirmativa. No sentido inverso, ativistas foram inseridos em programas universitários de pós-graduação, sob a orientação de professores financiados pela Fundação. Como consequência dessa “circulação de cérebros”, configurou-se uma rede multiculturalista tentacular, organicamente descentralizada, mas que compartilha a mesma visão de mundo.

Desde as origens, a FF viu-se a si mesma como um ator global. O poderio financeiro da Fundação conferia-lhe uma capacidade de projetar influência muito além das fronteiras americanas e ela organizou-se para atuar agressivamente no exterior. Em 1952, inaugurou seu primeiro escritório regional, em Nova Délhi, na Índia, logo seguido pelo de Jacarta (Indonésia) e, em 1957, pelo do Ciro (Egito). No início da década de 1960, surgiram os escritórios africanos de Lagos (Nigéria) e Nairóbi (Quênia) e os latino-americanos da Cidade do México, Rio de Janeiro e Santiago (Chile). Numa fase posterior, com a abertura chinesa, o encerramento da Guerra Fria e o colapso do apartheid, implantaram-se escritórios em Pequim (China), Moscou (Rússia), Hanói (Vietnã) e Johannesburgo (África do Sul). Em 2005-2006, as doações dos escritórios regionais representavam 30% dos desembolsos totais da Fundação.

A sede mundial, em Nova York, base do conselho de curadores de 13 membros, e os escritórios regionais do exterior empregam um corpo permanente de seis centenas de funcionários. Dinheiro nunca foi problema. No ano fiscal de 2007, a FF estava entre as cinco entidades filantrópicas mais ricas, com patrimônio total de 13,7 bilhões de dólares. Ao longo de sete décadas, ela distribuiu mais de 15 bilhões em doações para milhares de instituições e indivíduos. Em 2001, na maior subvenção singular de sua história, usou 280 milhões de dólares para criar um programa de bolsas de pós-graduação destinadas a “lideranças emergentes de comunidades marginalizadas fora dos EUA”. Trata-se, evidentemente, de uma ferramenta de cooptação de lideranças comunitárias em larga escala. Com cerca de 4,3 mil bolsistas espalhados pelo mundo, o programa recebeu, em 2006, 75 milhões adicionais e foi estendido até 2004.

O multiculturalismo organizou praticamente todos os aspectos da atuação da FF nos EUA a partir dos anos 1970. No exterior, o novo paradigma teve que ser adaptado aos variados cenários nacionais e a outras prioridades na agenda da Fundação. Na Índia, o escritório regional definiu a “diversidade” nos termos postos pelo antigo sistema de castas, que havia sido reativado pelas políticas coloniais britânicas, e dirigiu recursos para os defensores da ação afirmativa em benefício das “castas desfavorecidas”. No México e na América Central, a FF concentrou-se na promoção de identidades étnicas de grupos ameríndios, que foram classificados como minorias marginalizadas.

Na África, os escritórios de Lagos e Nairóbi subvencionaram organizações de proteção de direitos de minorias, o que em diversos casos, mas não sempre, significa a promoção de interesses exclusivistas de elites étnicas e regionais. Com o fim do apartheid, a política de black empowerment conduzida pelo governo sul-africano evidenciou-se mais de uma vez pela presença de “homens da Ford” em ministérios e na alta administração governamental. O caso mais notório é o da Nigéria, cujo ex-ditador Olusegun Obasanjo tornou-se membro do conselho de curadores da Fundação, dirigindo seu Comitê de Assuntos Internacionais, cargo do qual renunciou para se eleger presidente do seu país pelo voto popular, em 1999. Após a posse de Obasanjo, a FF ajudou a subvencionar a comissão oficial encarregada de redigir uma nova Cosntituição.

A difusão internacional do multiculturalismo, foi interpretada pelos sociólogos franceses Bourdieu e Wacquant como “uma verdadeira ‘globalização’ das problemáticas americanas”. A ação da FF no Brasil atesta a agudeza desse diagnóstico. As subvenções da Fundação replicaram nas universidades brasileiras os modelos de estudos étnicos e de “relações raciais” aplicados nos EUA e consolidaram uma rede de organizações racialistas que começaram a reproduzir os discursos e demandas das similares afro-americanas. Por essa via, a polaridade branco/preto, que se coagulou nos EUA com a regra da gota de sangue única, foi exportada para os ativistas no Brasil, um país atravessado por desigualdades sociais muito diferentes e cuja tradição identitária articulou-se em torno da idéia de mestiçagem.

Da inauguração do escritório brasileiro até 2001, a FF desembolsou em doações 347 milhões de dólares, em valores ajustados à inflação. Na década inicial, os valores anuais de subvenções giraram em torno de 11 milhões. A partir de 1975, as doações caíram dramaticamente, até 2,1 milhões em 1978 e, em 2001, o valor doado atingiu 16 milhões de dólares. No decênio iniciado em 1995, os valores médios alcançaram o patamar de 13 milhões.

O perfil dos financiamentos no Brasil conheceu uma mudança de outra natureza, expressa na nítida tendência histórica de aumento do número anual de doações, que saltou de menos de uma dezena nos anos iniciais para mais de uma centena desde o final dos anos 1990. a estratégia original de concentração das doações em grandes donatários institucionais, especialmente universidades, deu lugar a uma orientação de pulverização do dinheiro por inúmeras pequenas organizações não governamentais (ONGS). Os números atestam a escala da mudança de rota: as ONGS brasileiras, que receberam 4% das subvenções totais na primeira década, saltaram para 54% no início do século XXI.

O “giro popular” da Fundação acompanhou a sua “decisão de privilegiar uma definição mais instrumental das Ciências Sociais” e beneficiou, em especial, as “organizações de ativistas afro-brasileiros” engajadas nas políticas de raça e na demanda de iniciativas de discriminação reversa. Num movimento complementar, as doações destinadas a universidades, embora continuassem a fornecer recursos para os mais variados programas, passaram a privilegiar instituições que figuraram como modelos para a difusão dos sistemas de admissão por cotas raciais.*

No Brasil, não existiam organizações tradicionais como a NAACP, com uma ampla base social entre os negros. Inexistiam também organizações militantes de relevância, com exceção do Movimento Negro Unificado, que tendia a rejeitar o modelo americano do black capitalism. Por isso, o “giro popular” da FF resultou, basicamente, no surgimento de uma rede de ONGS racialistas constituídas ao redor de ativistas acadêmicos. As novas ONGS cultivaram as suas relações com a Fundação e importaram utilitariamente a linguagem multiculturalista elaborada nos EUA.

Entretanto, a doutrina multiculturalista incorporou-se ao código genético do escritório regional da FF e foi convertida num eixo transversal de articulação do conjunto das subvenções. O sociólogo Edward Telles, chefe do programa de Direitos Humanos da Fundação no Brasil entre 1996 e 2000, explicou a metodologia utilizada para a seleção de donatários desde o final dos anos 1990:

A Ford-Brasil requer uma”tabulação da diversidade” e uma explicação de todos os seus financiados em todos os campos de atuação. Isto inclui mais de cem apoios por ano, dos quais menos de vinte são, principalmente, sobre questões raciais. Esta tabulação enumera toda a equipe em diferentes níveis, de acordo com critérios de gênero (...), de raça (brancos/não brancos) , e a explicação induz os financiados e explicarem por que eles refletem, ou não, a diversidade local com respeito a gênero e cor e o que eles pretendem fazer para melhorar isto.
* A Universidade Estadual do Rio de Janeiro recebeu uma doação de US$1,3 milhão, que figura na lista das maiores da história do escritório, em 2001, quando implantou seu programa pioneiro de cotas raciais. A Universidade de Brasília implantou seu programa em 2004 e nos anos seguintes recebeu sucessivas doações. A Universidade Federal do Rio Grande do Sul resistiu até 2007, quando instituiu cotas raciais e recebeu US$ 130 mil. A Universidade Federal de São Carlos, outra “retardatária”, foi contemplada com uma doação excepcional de U$S 1,5 milhão em 2007, ano em que aderiu ao sistema de cotas.

(Retirado do livro "Uma Gota de Sangue" de Demétrio Magnoli e transcrito por Graça Maria Ravazzano)

domingo, 18 de outubro de 2009

Casulas, estolas, dalmáticas e...veste afro?!

Creio que não seja surpresa para ninguém que a Família Paulina está impregnada de Teologia da Libertação. Tamanho relativismo se faz não só nos livros publicados pelas suas editoras - desde obras de teólogos condenados, como Boff, até manuais de ecologismo-xamânico-esquerdista. Preciosos livros de espiritualidade, teologia dogmática, hagiografias fabulosas etc, foram substituídos por outros bem opostos aos ensinamentos da Igreja e da mensagem cristã. Ademais, não satisfeitas em promover erros doutrinais, as Pias Discípulas do Divino Mestre, também fundadas pelo Beato Tiago Alberione, no seu "Apostolado Litúrgico", incitam a desobediência litúrgica.

No site do "Apostolado Litúrgico" podemos encontrar:

Cálices e patenas de cerâmica
http://www.apostoladoliturgico.com.br/detalhamento.php?id=69
http://www.apostoladoliturgico.com.br/detalhamento.php?id=70
http://www.apostoladoliturgico.com.br/detalhamento.php?id=68

Sacrários de madeira
http://www.apostoladoliturgico.com.br/busca.php?tipo_busca=1&id_subcat=20
http://www.apostoladoliturgico.com.br/busca.php?tipo_busca=1&id_subcat=28
http://www.apostoladoliturgico.com.br/busca.php?tipo_busca=1&id_subcat=29
http://www.apostoladoliturgico.com.br/busca.php?tipo_busca=1&id_subcat=31
http://www.apostoladoliturgico.com.br/busca.php?tipo_busca=1&id_subcat=24
http://www.apostoladoliturgico.com.br/busca.php?tipo_busca=1&id_subcat=30

Veste afro
http://www.apostoladoliturgico.com.br/busca.php?tipo_busca=1&id_subcat=62

Qualquer católico com o mínimo de conhecimento litúrgico sabe que todos os vasos sagrados e o Sacrário devem ser feitos de material nobre - ouro e prata. Tamanho simbolismo parte da compreensão de que nós, homens, entregamos ao Senhor os mais sublimes e luxuosos frutos que nossas mãos podem produzir. Claro que, obviamente, Deus não precisa de metais preciosos e pedrarias, mas, não obstante, é através dessa ostentação, da via pulchritudinis, que reverenciamos a grandeza do Senhor e honramos a Sua dignidade. O homem não produz cálices e cibórios de ouro para si, mas para Deus.

Entretanto, não satisfeitas em vender vasos sagrados de cerâmica e Sacrários de madeira - o que não é lícito, vale frisar - inventaram um novo paramento litúrgico; a tal veste afro. O que seria isso eu não sei. Mui provavelmente é fruto dos devaneios sincréticos dos religiosos que, no ápice do relativismo caricatural, criam não um novo rito, como pretendem, mas um rascunho de uma nova crença, fundamentada sobre o modernismo.

Apostolado Litúrgico?! Já passou da hora de refletir se é apostolado de fato e se é litúrgico de verdade!

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Liberdade e Verdade

"A verdadeira liberdade pressupõe a busca da Verdade - para o verdadeiro bem - e, portanto, encontra o seu cumprimento, precisamente, em saber e fazer o que é certo e justo. Verdade, em outras palavras, é a norma de orientação para a liberdade, e a bondade é a perfeição da liberdade"

Papa Bento XVI
Encontro com autoridades civis e políticas da República Tcheca.