terça-feira, 2 de junho de 2009
O trágico desaparecimento do Príncipe D. Pedro Luiz
segunda-feira, 1 de junho de 2009
Comunicado: Desaparecimento de D. Pedro Luiz
Transmitimos aqui a nota emitida pela Casal Imperial do Brasil:Cumprimos o doloroso dever de informar que D. Pedro Luiz, filho mais velho de SS.AA.RR. os Príncipes D. Antonio e D. Christine e 4º na linha de sucessão ao Trono brasileiro, encontrava-se no avião da Air France desaparecido no vôo Rio de Janeiro - Paris.
Em razão do trágico desaparecimento do avião da Air France em que se encontrava seu sobrinho o Príncipe Dom Pedro Luiz, o Chefe da Casa Imperial do Brasil, Príncipe Dom Luiz de Orleans e Bragança houve por bem cancelar a realização, no sábado dia 6 de junho, no Rio de Janeiro, do XX Encontro Monárquico, o qual fica adiado para nova data ainda a ser marcada. Pela mesma razão Sua Alteza suspendeu a Missa de Ação de Graças e almoço por seu 71º aniversário, que se realizariam no domingo dia 7.
Àqueles que já tenham efetuado pagamento relativo aos dois eventos, perguntamos se desejam a devolução imediata dos valores, ou se os mesmos podem ficar reservados para a nova data. Agradeceremos sua manifestação, preferentemente por e-mail gcprado@monarquia.org.br
Atenciosamente,
Pró Monarquia.***
sábado, 30 de maio de 2009
A ditadura do politicamente correto avança!
LONDRES, Inglaterra, 21 de maio de 2009 (LifeSiteNews.com) — As igrejas britânicas serão forçadas a aceitar homossexuais ou “transexuais” praticantes em posições de líderes de jovens e funções semelhantes, sob a lei de igualdade que está para vir, disse o governo. A Lei de Igualdade do governo trabalhista proibirá que as igrejas recusem empregar homossexuais ativos mesmo que a religião delas sustente que tal conduta é pecado, disse a vice-ministra Maria Eagle, do Ministério da Igualdade.
A lei entrará em vigor no próximo ano, e as igrejas temem que ela as force a agir contra suas convicções religiosas numa ampla extensão de áreas. Eagle indicou na conferência chamada “Fé, Homofobia, Transfobia & Direitos Humanos” em Londres, que a lei “cobrirá quase todos os que trabalham em igrejas”.
“As circunstâncias em que as instituições religiosas poderão praticar qualquer coisa sem plena igualdade são poucas e raras”, ela disse aos delegados. “Embora o Estado não intervirá em assuntos estritamente rituais e doutrinários dentro dos grupos religiosos, esses grupos não poderão afirmar que tudo o que administram está fora do alcance da lei anti-discriminação. Os membros dos grupos religiosos têm o papel de discutir em seu próprio meio a questão de maior aceitação dos LGBT, mas no meio tempo o Estado tem o dever de proteger as pessoas de tratamento injusto”.
A lei permite isenção religiosa para papéis considerados importantes “para os propósitos de uma religião organizada”, mas restringe essa definição para aqueles que conduzem celebrações litúrgicas ou passam seu tempo ensinando doutrina.
O jornal Daily Telegraph citou Neil Addison, advogado católico e especialista em lei de discriminação religiosa. Ele disse que a lei deixará as igrejas sem forças para defenderem a estrutura de suas organizações. “Essa é uma ameaça à identidade religiosa. O que estamos perdendo é o direito de as organizações fazerem escolhas livres”, disse ele.
Os membros do Ministério da Igualdade incluem o lobista homossexual Ben Summerskill, diretor do Stonewall, principal grupo homossexual britânico. Summerskill reivindicou que as igrejas sejam forçadas a empregar homossexuais e que a polícia detenha cristãos que protestam pacificamente contra as leis homossexuais do lado de fora do Parlamento.
Tony Grew, ativista homossexual e ex-editor do site PinkNews.co.uk, escreveu recentemente que a Lei de Igualdade “estabelecerá de forma muito forte direitos homossexuais em todos os aspectos da vida pública”. Grew escreveu no PinkNews que a lei abrirá oportunidades sem precedentes para os homossexuais.
A lei, disse ele, cobrirá os ministérios principais do governo, as autoridades locais, as agências de educação, saúde e segurança policial e um grande número de outras agências públicas e particulares, inclusive igrejas e instituições administradas por igrejas. A lei imporá o “Dever da Igualdade” em todas as organizações que dão serviços públicos, disse ele, tais como casas de repouso que “terão de considerar as necessidades de casais do mesmo sexo”.
Leia a cobertura relacionada de LifeSiteNews.com:
Enforced “Diversity” will make Britain “First Modern Soft Totalitarian State”
http://www.lifesitenews.com/ldn/2009/may/09050602.html
UK: Religious Schools May Not Teach Christian Sexual Morals “As if They Were Objectively True”
http://www.lifesitenews.com/ldn/2007/mar/07030504.html
Even an Openly Homosexual Actor has Condemned New UK Law Which Would Criminalize Criticizing Homosexuality
http://www.lifesitenews.com/ldn/2007/oct/07101101.html
“Climate of Fear” Growing in Britain for Christian Civil Marriage Registrars
http://www.lifesitenews.com/ldn/2008/may/08052204.html
Traduzido por Julio Severo
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Estamos sob a ditadura do politicamente correto. O Ocidente vive uma realidade totalmente absurda. A ascensão desta cartilha se deu com a invasão de comunistas e agentes socializantes nos movimentos sociais, ambientais, sexuais, raciais etc. A queda da URSS, o fracasso do tal "socialismo real", somado com a estruturação de uma nova leitura do processo revolucionário - Gramsci e Escola de Frankfurt - possibilitaram a estruturação de novas táticas, distantes daquela práxis ativista militante. Assim, norteados por arejados métodos, os marxistas e similares tomaram todas as grandes discussões que, de algum modo, poderiam abraçar um princípio dialético. Conseqüentemente, houve a ideologização das revindicações; o ambientalismo passou a lutar contra o capitalismo opressor, a questão racial adotou um discurso de classes, os homossexuais começaram a atacar a moral - não passava de ferramenta de domínio. Claro que o projeto revolucionário luta contra o espírito cristão, metafísico, sobrenatural e tradicional. Sobre tais entendimentos a Civilização Ocidental se ergueu. Assim, dentro da cartilha politicamente correta, não há espaço para honestidade intelectual, religião, discussão séria e pautada em sólidos argumentos. É o reino do relativismo! Entretanto, este relativismo não é tão relativo. Na verdade a afirmação de que tudo é relativo carrega uma contradição intrínseca - se tudo é relativo, logo "tudo é relativo" é relativo, ou seja, nem tudo é relativo. Mesmo afirmando que tudo é relativo, os apóstolos do modernismo sabem que não há espaço para defesas enfáticas da Verdade.
Aquele papo democrático de um mundo livre de grilhões, distante do fundamentalismo, se choca com a própria prática! Vejamos! Tais homens são os primeiros que se levantam na defesa do relativismo moral, intelectual, religioso. Usando um discurso açucarado e apaziguador, dizem que não há mais espaço para radicalismo. Dentro da idéia de "radicalismo" eles colocam até mesmo aqueles que, simplesmente, acreditam fielmente numa Verdade. Agora entra uma contradição; estes homens são os primeiros que, piamente, seguem uma doutrina, mesmo que tal doutrina combata doutrinas e diga que ter doutrinas é ultrapassado. Não adianta! Eles são adeptos de uma crença - sociológica e filosófica - extremamente radical, tão radical que luta contra outros pensamentos e persegue opositores. Não obstante, enquanto uma religião diz claramente o que é certo e o que é errado, a fé relativista instaura o patrulhamento em nome da democracia: "Não há mais lugar para um mundo de crenças religiosas e princípios metafísicos. Tudo é relativo, nós cremos nisto e vamos perseguir os que não crêem". Ou seja, democraticamente eles instauram uma perseguição em nome da democracia mesmo quando estão sendo antidemocráticos quando impedem a livre expressão.
É justamente o que ocorre na Inglaterra: o homossexual, protegido pela cartilha politicamente correta, vai participar da vida religiosa, em nome da democracia, mesmo quando a comunidade religiosa é impedida, numa atitude antidemocrática, de professar livremente a sua crença. O homossexual é um cidadão de primeiro escalão, já o crente é pária; o crente não pode sequer dizer no que crê; já o homossexual determina o que o crente deve dizer.
Pedro Ravazzano
sexta-feira, 29 de maio de 2009
Sobre a moderação de comentários
domingo, 24 de maio de 2009
Shakespeare, uma caminhada espiritual
Otelo e Desdêmona; a alma e o EspíritoAdemais, é importante levarmos em conta que Shakespeare é uma testemunha ocular do início da decadência da Cristandade, logo do Ocidente. Na sua época já ocorre uma mudança radical nas mentes, nas construções intelectuais, a transformação do homem medieval no homem renascentista. Shakespeare, talvez tenha sido o último grande nome do medievo, era, “à diferença de muitos dos seus colegas dramaturgos, o continuador e o recapitulador do passado, o último sentinela de uma época que desaparecia rapidamente” (Martin Lings) O humanismo trazido pelo Renascimento carregava consigo uma antitradicionalismo arraigado, uma aversão ao sobrenatural, ao entendimento metafísico da Verdade triunfante. A arte da Renascença rompe com a noção estética da Idade Média, tomando como norte o belo pelo belo, sem o sentido transcendental da própria retratação artística; “Se a arte renascentista carece desta abertura para o universal e é totalmente limitada à sua própria época, é porque sua perspectiva é humanista; e o humanismo, que é uma revolta da razão contra o intelecto, considera o homem e outros objetos terrenos inteiramente por si mesmos, como se não houvesse nada além deles”. (Martin Lings) Desse modo, percebemos como a arte pode ser profeta de uma nova sociedade, como nela homens se reúnem e repesam a realidade através da expressão estética; a arte, como forma de cultura, pode indicar, através da sua transformação, o nascimento de uma nova era. Claro que não necessariamente fazemos referência a uma benéfica transformação, ao contrário, quase sempre essas cisões com o passado e com a Tradição se dão por meio de um processo revolucionário. O Renascimento inaugurou, assim, a mentalidade moderna com seu excessivo individualismo e mundanização da realidade e da Religião, sedimentando a relativização dos valores e das instituições, exaltando e banalizando a sensualidade e, por fim, criando um paganismo artificial. O Renascimento estabeleceu o naturalismo e o humanismo, “nesse período, não ocorre apenas uma mudança no pensamento filosófico, mas também, em geral, em toda a vida do homem, em todos os seus aspectos: sociais, políticos, morais, literários, artísticos, científicos e religiosos.” (Giovanne Reale - História da filosofia: Do Humanismo a Kant).
A arte tradicional, cerne da estética medieval, se baseia em princípios metafísicos, num simbolismo universal que remete a uma Tradição primeira, a mesma que alimenta o próprio motor civilizacional. O Renascimento, por sua vez, abriu espaço para a degradação desses valores estéticos, chegando ao seu ápice no entendimento moderno da arte, através do triunfo de uma ótica informal e revolucionária, enquanto distante da ordem. A arte tradicional bebe da fonte religiosa, espiritual, sobrenatural, está intimamente ligada a uma perspectiva transcendentalista. Esse rompimento fez com que o homem atual não mais entendesse a grandeza de obras que carregam uma profundidade simbólica e sagrada imensurável. Umberto Eco até mesmo chegou a criticar Dante, chamando-o de pretensioso, por acreditar que a Divina Comédia, sendo fundamentada sobre uma forte base cristã, era nada mais do que a misteriosa epopéia do homem frente ao Divino.
Dante Alighieri afirmava que o texto carregava quatro sentidos: “A um chama-se literal (...) Ao outro chama-se alegórico (...) O terceiro sentido chama-se moral (...) O quarto sentido chama-se anagógico” (Convívio, II, 1). Esse entendimento não é, nem nunca foi, estranho ao mundo, ao contrário, faz parte da própria estruturação do conhecimento do texto bíblico, norte das letras ocidentais. Assim diz o Catecismo da Igreja Católica: “§115 Segundo uma antiga tradição, podemos distinguir dois sentidos da Escritura: o sentido literal e o sentido espiritual, sendo este último subdividido em sentido alegórico, moral e analógico. A concordância profunda entre os quatro sentidos garante toda a sua riqueza à leitura viva da Escritura na Igreja.”, sabedoria que sempre compôs o conteúdo teológico cristão, como ensinava Hugo de São Vitor; “as palavras do oráculo celeste podem ser entendidas em seu sentido histórico, alegórico, moral ou anagógico.” (Sermo XCV) e Nicolau de Lira: "A letra ensina os fatos, a alegoria, no que deves crer, o sentido moral no que deves fazer e o anagógico ao que deves tender."
O sentido anagógico é o mais profundo, ele possibilita o conhecimento total do texto. Esse supra-sentido “ocorre quando se expõe espiritualmente um escrito, o qual, pelas coisas significadas, significa as sublimes coisas da glória eterna.” (Convívio, II, 1) . Entretanto, o sentido literal não pode ser desmerecido, ao contrário, a passagem por ele é obrigatória para o entendimento pleno do conteúdo. A literalidade da palavra é a base sobre a qual os outros sentidos são erguidos, a casa que contém dentro de suas paredes o mistério e o simbolismo metafísico. “Sendo o sentido literal sempre sujeito e matéria dos outros, principalmente do alegórico, é impossível chegar ao conhecimento dos outros sem o seu conhecimento” (Convívio, II, 1).
Emília com Desdêmona; entre a santidade e o pecado
O que tudo isso tem a ver com Shakespeare? O dramaturgo inglês, como qualquer grande intelectual formado dentro de paidéia civilizacional – medieval e cristã –, tinha conhecimento dos quatto sensi da literatura, coroados com Dante, na sua Divina Comédia, que, por sua vez, os absorveu do pensamento escolástico. Shakespeare, assim como o poeta florentino, se preocupava com a purificação do homem, a sua santificação última, desse modo, cobrava de seus personagens a perfeição que representava a integridade do Espírito, a própria santificação e imortalidade:
“O porteiro do Portão do Purgatório, isto é, o portal da salvação, é, por definição, de incomensurável misericórdia. (…) Mas o porteiro da Porta do Paraíso, isto é, a porta da santificação, é implacavelmente exigente; e, para seus heróis e heroínas, Shakespeare representa esse porteiro. Ele não deixará passar nada exceto a perfeição (…) Sente-se que os personagens, um após o outro, são desenvolvidos e levados a um estado de virtude que chega aos próprios limites da natureza humana”
A sua obra, assim, reproduz essa busca pela perfeição humana, um mergulho dentro da essência decaída e maculada do homem, mas que inspirado pela Verdade, procura o seu aprimoramento espiritual, aspira alcançar o topo da montanha do purgatório no encontro místico com a sua Beatriz depois da desventurosa saga num mundo dominado pela ação demoníaca, força essa que incentiva não apenas a entrega à natureza primitivamente pecadora, mas, também, estimula a destruição de toda a Tradição.
Eu, obviamente, não sou nenhum grande mestre da dramaturgia shakespeariana, mas o que me levou a escrever esse breve artigo foi a profundidade dos personagens e da própria tragédia de Otelo. Sem dúvida alguma, Iago é aquele que mais nos assusta, seja pelo seu amor ao ódio, ou até mesmo pela clareza no seu significado simbólico; o demônio. Com ele, talvez, Shakespeare tenha se aproximado o máximo possível da adoção de uma linguagem sagrada não mais estética, mas teológica. Tirando dessa tragédia a própria trama e, em seguida, resgando o véu do mistério forma-se, claramente, uma obra de espiritualidade cristã. Na peça, como um todo, enxergamos em Iago a representação factual do diabo, essa percepção do leitor é reflexo da postura adotada pelo personagem, aderindo radicalmente ao mal, disseminando a discórdia, corrompendo os homens, atiçando neles o que de mais podre existe na natureza decaída. Entretanto, no final da tragédia Shakespeare nos confirma, categoricamente, a essência da vilania, o dramaturgo revela o personagem por detrás do personagem. Otelo diz, em referência à Iago; “Eu olhei para baixo, em direção a seus pés; mas isto é uma fábula”, fazendo alusão ao lendário conto que dizia que Lúcifer tinha pés rachados. Em seguida, na tentativa de vingar a desgraça fomentada pelo seu alferes, tenta matá-lo com um golpe de espada, dizendo; “Se isto que és é um diabo, não tenho o poder de matar-ter”. Iago, ferido, responde ao parente do Senador Brabâncio, Ludovico; “Estou sagrando, senhor, mas não estou morto”, em claro escárnio, ironia erguida sobre a sua imortalidade demoníaca.
O Demônio e Santo Antão e Otelo e Iago; tentação diabólica
Outro fato que pode passar desapercebido na leitura de muitos é a ação maliciosa de Iago sobre Rodrigo. De acordo com Martin Lings, o “gentil-homem” representa o próprio homem decaído, embrigado com o pecado, impotente, sempre suscetível ao domínio satânico. Iago, atuando como o diabo, incita os mais decadentes sentimentos, estimula os mais podres pensamentos, entretanto, sua ascendência sobre Rodrigo vai além dessa clara influência. O alferes do Mouro, adotando o discurso humanista, combatendo a tradição medieval, representante do discurso renascentista - “Virtude? Uma figa! Está em nós mesmos o poder de sermos assim ou assado. Nossos corpos são nossos jardins, e nossas vontades são jardineiros” - busca em Rodrigo, o homem, o triunfo de uma humanidade limitada pela razão e pela natureza, destruindo a Civilização, derrubando a sua sólida base de sustentação; a Cristandade, através da corrupção da consciência sobrenatural.
Ainda vale frisar que Emília, assim como Otelo, é uma peregrina purgatorial, uma alma divida entre a santidade e a pureza, representadas em Desdêmona, e a morte e o pecado, encarnados em Iago. Enganada por seu marido, ela se converte em peça fundamental nas arquitetações diabólicas. A sua expiação e purificação resultam do próprio sofrimento oriundo da constatação do seu grau de culpa, mesmo que indireta, no assassinato da amada senhora. A sincera aflição, o terror do remorso e a percepção da sua inércia frente ao mal, fomentaram em Emília uma contrição perfeita, coroada com a sua morte.
A purificação de Otelo, necessária para que, no final, houvesse a união entre a alma e o Espírito, se deu através de um processo de descoberta imediata. O mouro vive seu inferno no momento em que, enganado por Iago, desce às profundezas das trevas. Longe da luz, não distingue a verdade da falsidade, é guiado pelos olhos do seu alferes, os olhos demoníacos da vingança e da mentira. Não obstante, a sabedoria dos fatos, que ele só adquire no final da peça, ilumina o seu entendimento, possibilita a compreensão universal da realidade. Otelo ascende à etapa purgatorial quando, devidamente purificado das máculas infernais, se torna digno da união com a amada Desdêmona. A morte do Mouro, enquanto reparatória, é convertida na própria consolidação da sua expiação. Assim, no leito onde a “pérola” repousa eterna e santamente, Otelo se deita e descansa; a alma e o Espírito entram numa imortal comunhão.
quinta-feira, 21 de maio de 2009
Escândalo na Irlanda
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Esse escândalo é o manjar dos deuses para os críticos da Igreja, e aqui faço referência aos mais simplórios e caricaturescos críticos, tipo aqueles que assistem Anjos e Demônios e já saem bradando que o Catolicismo é anticientífico. A seriedade e fidelidade aos fatos – e à Verdade – devem ser pontos pacíficos para qualquer análise honesta e verídica da realidade, infelizmente, quase sempre a história e o jornalismo estão submersos na ideologia, na pessoalidade, nos interesses individuais. Agora vamos entender o que de fato ocorreu.
A República da Irlanda conquistou sua independência do Reino Unido apenas em 1916, mas a estruturação de um Estado organizado, mantenedor da ordem, com um poder judiciário e policial, não foi imediata. O país sofreu com uma guerra civil interna e choques com a Inglaterra, além da dissolução de partidos e conflitos políticos. Apenas em 1949 a Irlanda conseguiu definir seu status político, fazendo da presidência seu órgão máximo – até então a Chefia do Estado estava atrelado ao título de Rei da Irlanda.
O Estado irlandês não tinha competência para prover aos cidadãos uma estrutura de serviços públicos de qualidade. Os orfanatos do país eram oriundos de uma parceria entre o Estado e a Igreja. O governo tinha interesse em tirar das ruas e das famílias desestruturadas as crianças e jovens, mas não tinha instituições públicas para onde mandá-los, aí entra o seu convênio com a Igreja, que, por sua vez, se interessava na formação da juventude. Vale frisar que os orfanatos não eram administrados por Sacerdotes, como foi difundido. Duas Congregações eram responsáveis pelos centros, uma masculina, de irmãos leigos – são os membros não-ordenados da Igreja, como eu e, provavelmente, você, seguindo os três votos - e outra feminina, as Irmãs da Misericórdia. O Estado irlandês, ainda em formação, recém saído de uma guerra, convivendo com um mundo de conflitos internacionais, não se interessava na manutenção de uma dispendiosa rede de bem-estar, ao contrário, preferia aprimorar a sua capacidade produtiva, através do desenvolvimento industrial e bélico, afinal sempre se matinha o perigo inglês rondando os mares irlandeses.
Um ponto a ser lembrado é que os orfanatos e reformatórios estavam quase sempre superlotados, todos viviam com a capacidade máxima de internos. O motivo se encontrava numa lei de 1941 que impedia que pais e mães solteiros mantivessem a guarda dos seus filhos. Ademais, a situação era mais complexa; nem mesmo quando em segundo casamento os pais poderiam requisitar a custódia dos seus filhos, a não ser que tivessem a autorização judicial do seu ex-cônjuge. Resultado, uma multidão de jovens era mandada para os orfanatos da Igreja.
As investigações dos casos de abusos – que não foram em grande parte sexuais, como divulgado, mas sim de agressão – se iniciaram em 2000. Até mesmo um comitê para a avaliação das possíveis indenizações foi formando, não obstante, por falta de provas concretas, os Christian Brothers não poderiam ser incriminados, até porque, juridicamente, o crime já havia expirado. A divulgação pública do caso – o que levou os CB a processarem o governo, conseguindo o sigilo dos nomes dos acusados – foi apenas motivada pelo simples desejo de difamação. Não sei se por conta de um peso na consciência, mas o Estado irlandês se responsabilizou por distribuir indenizações aos acusadores, já que através da justiça eles nada conseguiriam.
Muitas são as pessoas que reclamam da ação da Igreja na punição dos crimes dos seus membros, mas nesse caso nada poderia ser feito juridicamente, afinal os acusados são irmãos leigos, não-clérigos, ou seja, não existe, dentro do Direito Canônico, nenhuma pena para os delitos cometidos por leigos, e também não poderiam ser julgados como clérigos. Como disse Jorge Ferraz no seu blog, Deu lo Vult!: “nada disso justifica os maus procedimentos de sacerdotes do Deus Altíssimo ou de religiosos consagrados à via da perfeição. Nada justifica. Choremos aos pés da Virgem pelas iniqüidades dos sacerdotes do Seu Filho. Ofereçamos a Deus orações e mortificações em reparação pelos pecados do clero. Que Ele tenha misericórdia de nós todos, e digne-Se conceder-nos santos sacerdotes.”
quarta-feira, 20 de maio de 2009
Perguntas que permanecem
Por D. Charles Chaput, Arcebispo de Denver
Tradução de Pedro Ravazzano
A maioria dos discursos de formatura são uma mistura de piedade e de otimismo concebidos para facilitar os problemas dos alunos na vida real. Os melhores têm humor, alguns são genuinamente inspiradores, mas só uns poucos conseguem ser piedosos, otimistas, evasivos, tristes e atingindo a todos ao mesmo tempo. Padre John Jenkins, CSC, o presidente (reitor) de Notre Dame, é um homem de grande inteligência e habilidade. Isto torna o seu comentário introdutório ao discurso do Presidente Obama, no dia 17 de maio, mais embaraçoso.
Vamos lembrar que o debate sobre a visita do presidente Obama à Notre Dame não foi sobre se ele era um homem bom ou mau. O presidente é claramente um homem sincero e capaz. Em suas próprias palavras, a religião tem tido uma influência importante na sua vida. Devemos a ele o respeito que a Escritura nos pede a ter a todas as autoridades. Temos o dever de rezar para que ele tenha sabedoria e para o sucesso do seu serviço para o bem comum – na medida em que isso é guiado pelo correto raciocínio moral.
Temos também o dever de nos opor quando a autoridade se encontra errada sobre questões fundamentais como o aborto, pesquisas com células-tronco embrionárias e assuntos similares. Do mesmo modo, também temos o dever de evitar a prostituição da nossa identidade católica por conta dos apelos ao falso diálogo que mascara uma abdicação do nosso testemunho moral. A Universidade Notre Dame não apenas convidou o presidente para proferir um discurso, mas também conferiu um desnecessário e imerecido grau honorífico a um homem comprometido na defesa de uma das piores decisões da Suprema Corte na história da nossa nação: Roe v. Wade.
Ao convidar o presidente, a Universidade Notre Dame ignorou a orientação da Conferência de Bispos Católicos dos Estados Unidos na declaração Os Católicos na Vida Política, de 2004. Ainda ignorou as preocupações da embaixadora Mary Ann Glendon – indicada para a medalha Laetare da Universidade de Notre Dame em 2009 –, que, diferentemente do presidente, certamente merecia o prêmio, mas o recusou por conta da frustração pela ação da Universidade. A instituição ignorou os apelos do bispo local, do presidente da Conferência Episcopal, de mais de 70 outros bispos e de muitos milhares de alunos de Notre Dame e de centenas de milhares de outros americanos católicos. Mesmo aqui, no Colorado, tenho ouvido tantos apelos que nem posso contar.
Não havia nenhuma desculpa – nenhuma, excepto vaidade intelectual – para a universidade persistir em seu curso. Padre Jenkins agravou uma má decisão inicial com evasivas e dissimuladas explicações para justificá-la posteriormente.
Estas são palavras duras, mas são merecidas, precisamente por causa dos próprios comentários do Padre Jenkins em 17 de maio: até agora, os americanos tinham, realmente, “uma especial expectativa, uma especial esperança sobre o que a Notre Dame pode realizar no mundo.” Para muitos fiéis católicos – e não apenas um “pequeno, mas barulhento grupo”, descrito com tal indesculpável desdém e ignorância em revistas como Time – que mudaram domingo.
Os eventos de 17 de maio têm uma certa ironia, apesar de tudo. Quase exatamente 25 anos atrás, Notre Dame ofereceu o fórum para o governador Mario Cuomo delinear o “católico” caso de serviço público “pró-escolha”. Na época, o discurso de Cuomo foi aclamado na mídia como uma obra-prima do raciocínio católico legal e moral. Do mesmo modo é, claramente, um ilógico e intelectualmente miserável exercício da fabricação de desculpas. As explicações de padre Jenkins e a homenagem ao Presidente são um adequado encerramento em cadeia nacional para um quarto de século do amolecimento do testemunho católico no ensino superior católico. Juntos, eles deram à próxima geração de líderes católicos todas as desculpas de que eles precisam para “batizar” suas conveniências pessoais e ignorar o que é realmente necessário para ser católico na vida pública.
O cardeal-arcebispo de Chicago, Francis George, tem sugerido que Notre Dame “não entendia” o que significava ser católica antes destes acontecimentos começarem. Ele está correto, e Notre Dame se encontra praticamente sozinha nessa sua confusão institucional. Esse é o cerne da questão. A liderança de Notre Dame tem feito um verdadeiro desserviço à Igreja, e agora tenta superar as críticas, tratando-a como uma expressão de raiva. Mas o dano permanece, e os críticos de Notre Dame têm razão. A coisa mais importante que os fiéis católicos podem fazer agora é insistir – com as suas palavras, ações e apoio financeiro – para que as instituições que afirmam ser “católicas” realmente vivam a fé com coragem e coerência. Se isso acontecer, a falha de Notre Dame pode causar alguns involuntários bens.


