domingo, 24 de maio de 2009

Shakespeare, uma caminhada espiritual

Pedro Ravazzano
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Qualquer leitor da magnânima obra “Otelo, o Mouro de Veneza”, de Shakespeare, percebe, com clareza, a profundidade e plenitude dos personagens. O ilustre dramaturgo inglês simboliza na sua peça o conflito espiritual dos homens, a luta contra o mal, a luta contra a própria essência decaída. Claro que, para os olhos desavisados, Otelo não passa de mais uma tragédia shakespeariana com um pomposo final trágico. Tomo a liberdade de afirmar, posso até ser leviano, que nessa peça o Bardo de Avon se aproxima de um simbolismo quase escancarado, rompendo o véu do mistério, onde os personagens atuam não como personagens, mas sim como representações verdadeiras da epopéia sobrenatural da humanidade. Assim, baseados na definição usada por Martin Lins, em A Arte Sagrada de Shakespeare, enxergamos em Otelo a alma, o “peregrino purgatorial”, em Desdêmona o Espírito, a imaculada pureza, em Iago o diabo em toda a sua plenitude, apaixonado pelo mal, desprovido de virtude, em Emília a caminhada espiritual, mulher divida entre a santidade e a perdição e, por fim, Rodrigo, a inocência cega do homem decaído, ludibriado pelo demônio na tentativa de fazer triunfar o humanismo antitradicional.
Otelo e Desdêmona; a alma e o Espírito

Ademais, é importante levarmos em conta que Shakespeare é uma testemunha ocular do início da decadência da Cristandade, logo do Ocidente. Na sua época já ocorre uma mudança radical nas mentes, nas construções intelectuais, a transformação do homem medieval no homem renascentista. Shakespeare, talvez tenha sido o último grande nome do medievo, era, “à diferença de muitos dos seus colegas dramaturgos, o continuador e o recapitulador do passado, o último sentinela de uma época que desaparecia rapidamente” (Martin Lings) O humanismo trazido pelo Renascimento carregava consigo uma antitradicionalismo arraigado, uma aversão ao sobrenatural, ao entendimento metafísico da Verdade triunfante. A arte da Renascença rompe com a noção estética da Idade Média, tomando como norte o belo pelo belo, sem o sentido transcendental da própria retratação artística; “Se a arte renascentista carece desta abertura para o universal e é totalmente limitada à sua própria época, é porque sua perspectiva é humanista; e o humanismo, que é uma revolta da razão contra o intelecto, considera o homem e outros objetos terrenos inteiramente por si mesmos, como se não houvesse nada além deles”. (Martin Lings) Desse modo, percebemos como a arte pode ser profeta de uma nova sociedade, como nela homens se reúnem e repesam a realidade através da expressão estética; a arte, como forma de cultura, pode indicar, através da sua transformação, o nascimento de uma nova era. Claro que não necessariamente fazemos referência a uma benéfica transformação, ao contrário, quase sempre essas cisões com o passado e com a Tradição se dão por meio de um processo revolucionário. O Renascimento inaugurou, assim, a mentalidade moderna com seu excessivo individualismo e mundanização da realidade e da Religião, sedimentando a relativização dos valores e das instituições, exaltando e banalizando a sensualidade e, por fim, criando um paganismo artificial. O Renascimento estabeleceu o naturalismo e o humanismo, “nesse período, não ocorre apenas uma mudança no pensamento filosófico, mas também, em geral, em toda a vida do homem, em todos os seus aspectos: sociais, políticos, morais, literários, artísticos, científicos e religiosos.” (Giovanne Reale - História da filosofia: Do Humanismo a Kant).

A arte tradicional, cerne da estética medieval, se baseia em princípios metafísicos, num simbolismo universal que remete a uma Tradição primeira, a mesma que alimenta o próprio motor civilizacional. O Renascimento, por sua vez, abriu espaço para a degradação desses valores estéticos, chegando ao seu ápice no entendimento moderno da arte, através do triunfo de uma ótica informal e revolucionária, enquanto distante da ordem. A arte tradicional bebe da fonte religiosa, espiritual, sobrenatural, está intimamente ligada a uma perspectiva transcendentalista. Esse rompimento fez com que o homem atual não mais entendesse a grandeza de obras que carregam uma profundidade simbólica e sagrada imensurável. Umberto Eco até mesmo chegou a criticar Dante, chamando-o de pretensioso, por acreditar que a Divina Comédia, sendo fundamentada sobre uma forte base cristã, era nada mais do que a misteriosa epopéia do homem frente ao Divino.

Dante Alighieri afirmava que o texto carregava quatro sentidos: “A um chama-se literal (...) Ao outro chama-se alegórico (...) O terceiro sentido chama-se moral (...) O quarto sentido chama-se anagógico” (Convívio, II, 1). Esse entendimento não é, nem nunca foi, estranho ao mundo, ao contrário, faz parte da própria estruturação do conhecimento do texto bíblico, norte das letras ocidentais. Assim diz o Catecismo da Igreja Católica: “§115 Segundo uma antiga tradição, podemos distinguir dois sentidos da Escritura: o sentido literal e o sentido espiritual, sendo este último subdividido em sentido alegórico, moral e analógico. A concordância profunda entre os quatro sentidos garante toda a sua riqueza à leitura viva da Escritura na Igreja.”, sabedoria que sempre compôs o conteúdo teológico cristão, como ensinava Hugo de São Vitor; “as palavras do oráculo celeste podem ser entendidas em seu sentido histórico, alegórico, moral ou anagógico.” (Sermo XCV) e Nicolau de Lira: "A letra ensina os fatos, a alegoria, no que deves crer, o sentido moral no que deves fazer e o anagógico ao que deves tender."

O sentido anagógico é o mais profundo, ele possibilita o conhecimento total do texto. Esse supra-sentido “ocorre quando se expõe espiritualmente um escrito, o qual, pelas coisas significadas, significa as sublimes coisas da glória eterna.” (Convívio, II, 1) . Entretanto, o sentido literal não pode ser desmerecido, ao contrário, a passagem por ele é obrigatória para o entendimento pleno do conteúdo. A literalidade da palavra é a base sobre a qual os outros sentidos são erguidos, a casa que contém dentro de suas paredes o mistério e o simbolismo metafísico. “Sendo o sentido literal sempre sujeito e matéria dos outros, principalmente do alegórico, é impossível chegar ao conhecimento dos outros sem o seu conhecimento” (Convívio, II, 1).

Emília com Desdêmona; entre a santidade e o pecado

O que tudo isso tem a ver com Shakespeare? O dramaturgo inglês, como qualquer grande intelectual formado dentro de paidéia civilizacional – medieval e cristã –, tinha conhecimento dos quatto sensi da literatura, coroados com Dante, na sua Divina Comédia, que, por sua vez, os absorveu do pensamento escolástico. Shakespeare, assim como o poeta florentino, se preocupava com a purificação do homem, a sua santificação última, desse modo, cobrava de seus personagens a perfeição que representava a integridade do Espírito, a própria santificação e imortalidade:

“O porteiro do Portão do Purgatório, isto é, o portal da salvação, é, por definição, de incomensurável misericórdia. (…) Mas o porteiro da Porta do Paraíso, isto é, a porta da santificação, é implacavelmente exigente; e, para seus heróis e heroínas, Shakespeare representa esse porteiro. Ele não deixará passar nada exceto a perfeição (…) Sente-se que os personagens, um após o outro, são desenvolvidos e levados a um estado de virtude que chega aos próprios limites da natureza humana”

A sua obra, assim, reproduz essa busca pela perfeição humana, um mergulho dentro da essência decaída e maculada do homem, mas que inspirado pela Verdade, procura o seu aprimoramento espiritual, aspira alcançar o topo da montanha do purgatório no encontro místico com a sua Beatriz depois da desventurosa saga num mundo dominado pela ação demoníaca, força essa que incentiva não apenas a entrega à natureza primitivamente pecadora, mas, também, estimula a destruição de toda a Tradição.

Eu, obviamente, não sou nenhum grande mestre da dramaturgia shakespeariana, mas o que me levou a escrever esse breve artigo foi a profundidade dos personagens e da própria tragédia de Otelo. Sem dúvida alguma, Iago é aquele que mais nos assusta, seja pelo seu amor ao ódio, ou até mesmo pela clareza no seu significado simbólico; o demônio. Com ele, talvez, Shakespeare tenha se aproximado o máximo possível da adoção de uma linguagem sagrada não mais estética, mas teológica. Tirando dessa tragédia a própria trama e, em seguida, resgando o véu do mistério forma-se, claramente, uma obra de espiritualidade cristã. Na peça, como um todo, enxergamos em Iago a representação factual do diabo, essa percepção do leitor é reflexo da postura adotada pelo personagem, aderindo radicalmente ao mal, disseminando a discórdia, corrompendo os homens, atiçando neles o que de mais podre existe na natureza decaída. Entretanto, no final da tragédia Shakespeare nos confirma, categoricamente, a essência da vilania, o dramaturgo revela o personagem por detrás do personagem. Otelo diz, em referência à Iago; “Eu olhei para baixo, em direção a seus pés; mas isto é uma fábula”, fazendo alusão ao lendário conto que dizia que Lúcifer tinha pés rachados. Em seguida, na tentativa de vingar a desgraça fomentada pelo seu alferes, tenta matá-lo com um golpe de espada, dizendo; “Se isto que és é um diabo, não tenho o poder de matar-ter”. Iago, ferido, responde ao parente do Senador Brabâncio, Ludovico; “Estou sagrando, senhor, mas não estou morto”, em claro escárnio, ironia erguida sobre a sua imortalidade demoníaca.

O Demônio e Santo Antão e Otelo e Iago; tentação diabólica

Outro fato que pode passar desapercebido na leitura de muitos é a ação maliciosa de Iago sobre Rodrigo. De acordo com Martin Lings, o “gentil-homem” representa o próprio homem decaído, embrigado com o pecado, impotente, sempre suscetível ao domínio satânico. Iago, atuando como o diabo, incita os mais decadentes sentimentos, estimula os mais podres pensamentos, entretanto, sua ascendência sobre Rodrigo vai além dessa clara influência. O alferes do Mouro, adotando o discurso humanista, combatendo a tradição medieval, representante do discurso renascentista - “Virtude? Uma figa! Está em nós mesmos o poder de sermos assim ou assado. Nossos corpos são nossos jardins, e nossas vontades são jardineiros” - busca em Rodrigo, o homem, o triunfo de uma humanidade limitada pela razão e pela natureza, destruindo a Civilização, derrubando a sua sólida base de sustentação; a Cristandade, através da corrupção da consciência sobrenatural.

Ainda vale frisar que Emília, assim como Otelo, é uma peregrina purgatorial, uma alma divida entre a santidade e a pureza, representadas em Desdêmona, e a morte e o pecado, encarnados em Iago. Enganada por seu marido, ela se converte em peça fundamental nas arquitetações diabólicas. A sua expiação e purificação resultam do próprio sofrimento oriundo da constatação do seu grau de culpa, mesmo que indireta, no assassinato da amada senhora. A sincera aflição, o terror do remorso e a percepção da sua inércia frente ao mal, fomentaram em Emília uma contrição perfeita, coroada com a sua morte.

A purificação de Otelo, necessária para que, no final, houvesse a união entre a alma e o Espírito, se deu através de um processo de descoberta imediata. O mouro vive seu inferno no momento em que, enganado por Iago, desce às profundezas das trevas. Longe da luz, não distingue a verdade da falsidade, é guiado pelos olhos do seu alferes, os olhos demoníacos da vingança e da mentira. Não obstante, a sabedoria dos fatos, que ele só adquire no final da peça, ilumina o seu entendimento, possibilita a compreensão universal da realidade. Otelo ascende à etapa purgatorial quando, devidamente purificado das máculas infernais, se torna digno da união com a amada Desdêmona. A morte do Mouro, enquanto reparatória, é convertida na própria consolidação da sua expiação. Assim, no leito onde a “pérola” repousa eterna e santamente, Otelo se deita e descansa; a alma e o Espírito entram numa imortal comunhão.

Otelo e Desdêmona e Dante e Beatriz; santificação

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Escândalo na Irlanda

Pedro Ravazzano
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A mídia – televisiva e jornalística – tem divulgado o escândalo nas escolas católicas da Irlanda. Para um cidadão desavisado e inocente, crente na validade do discurso adotado pelos jornalistas, a notícia confirma aquilo que todos já afirmam; a Igreja Católica é um antro de corrupção. Eu vi a reportagem no Jornal da Globo, e lembro que a apresentadora dizia que “padres e freiras” durante “décadas” abusaram de crianças e jovens nos reformatórios irlandeses. Esse tipo de reportagem é motivo de gozo para os anti-clericais e esquerdistas que, mesmo não confiando na mídia e criticando as redes de comunicação, não se incomodam em acreditar, piamente, na ótica midiática dos fatos.

Esse escândalo é o manjar dos deuses para os críticos da Igreja, e aqui faço referência aos mais simplórios e caricaturescos críticos, tipo aqueles que assistem Anjos e Demônios e já saem bradando que o Catolicismo é anticientífico. A seriedade e fidelidade aos fatos – e à Verdade – devem ser pontos pacíficos para qualquer análise honesta e verídica da realidade, infelizmente, quase sempre a história e o jornalismo estão submersos na ideologia, na pessoalidade, nos interesses individuais. Agora vamos entender o que de fato ocorreu.

A República da Irlanda conquistou sua independência do Reino Unido apenas em 1916, mas a estruturação de um Estado organizado, mantenedor da ordem, com um poder judiciário e policial, não foi imediata. O país sofreu com uma guerra civil interna e choques com a Inglaterra, além da dissolução de partidos e conflitos políticos. Apenas em 1949 a Irlanda conseguiu definir seu status político, fazendo da presidência seu órgão máximo – até então a Chefia do Estado estava atrelado ao título de Rei da Irlanda.

O Estado irlandês não tinha competência para prover aos cidadãos uma estrutura de serviços públicos de qualidade. Os orfanatos do país eram oriundos de uma parceria entre o Estado e a Igreja. O governo tinha interesse em tirar das ruas e das famílias desestruturadas as crianças e jovens, mas não tinha instituições públicas para onde mandá-los, aí entra o seu convênio com a Igreja, que, por sua vez, se interessava na formação da juventude. Vale frisar que os orfanatos não eram administrados por Sacerdotes, como foi difundido. Duas Congregações eram responsáveis pelos centros, uma masculina, de irmãos leigos – são os membros não-ordenados da Igreja, como eu e, provavelmente, você, seguindo os três votos - e outra feminina, as Irmãs da Misericórdia. O Estado irlandês, ainda em formação, recém saído de uma guerra, convivendo com um mundo de conflitos internacionais, não se interessava na manutenção de uma dispendiosa rede de bem-estar, ao contrário, preferia aprimorar a sua capacidade produtiva, através do desenvolvimento industrial e bélico, afinal sempre se matinha o perigo inglês rondando os mares irlandeses.

Um ponto a ser lembrado é que os orfanatos e reformatórios estavam quase sempre superlotados, todos viviam com a capacidade máxima de internos. O motivo se encontrava numa lei de 1941 que impedia que pais e mães solteiros mantivessem a guarda dos seus filhos. Ademais, a situação era mais complexa; nem mesmo quando em segundo casamento os pais poderiam requisitar a custódia dos seus filhos, a não ser que tivessem a autorização judicial do seu ex-cônjuge. Resultado, uma multidão de jovens era mandada para os orfanatos da Igreja.

As investigações dos casos de abusos – que não foram em grande parte sexuais, como divulgado, mas sim de agressão – se iniciaram em 2000. Até mesmo um comitê para a avaliação das possíveis indenizações foi formando, não obstante, por falta de provas concretas, os Christian Brothers não poderiam ser incriminados, até porque, juridicamente, o crime já havia expirado. A divulgação pública do caso – o que levou os CB a processarem o governo, conseguindo o sigilo dos nomes dos acusados – foi apenas motivada pelo simples desejo de difamação. Não sei se por conta de um peso na consciência, mas o Estado irlandês se responsabilizou por distribuir indenizações aos acusadores, já que através da justiça eles nada conseguiriam.

Muitas são as pessoas que reclamam da ação da Igreja na punição dos crimes dos seus membros, mas nesse caso nada poderia ser feito juridicamente, afinal os acusados são irmãos leigos, não-clérigos, ou seja, não existe, dentro do Direito Canônico, nenhuma pena para os delitos cometidos por leigos, e também não poderiam ser julgados como clérigos. Como disse Jorge Ferraz no seu blog, Deu lo Vult!: “nada disso justifica os maus procedimentos de sacerdotes do Deus Altíssimo ou de religiosos consagrados à via da perfeição. Nada justifica. Choremos aos pés da Virgem pelas iniqüidades dos sacerdotes do Seu Filho. Ofereçamos a Deus orações e mortificações em reparação pelos pecados do clero. Que Ele tenha misericórdia de nós todos, e digne-Se conceder-nos santos sacerdotes.”

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Perguntas que permanecem

"Eu descobri que mesmo entre aqueles que não vão para a Catedral de Notre Dame, mesmo entre aqueles que não partilham a fé católica, existe uma expectativa, uma esperança, do que Notre Dame pode realizar no mundo. (Reverendo John Jenkins, C.S.C., 17 de maio de 2009)"

Por D. Charles Chaput, Arcebispo de Denver

Tradução de Pedro Ravazzano

A maioria dos discursos de formatura são uma mistura de piedade e de otimismo concebidos para facilitar os problemas dos alunos na vida real. Os melhores têm humor, alguns são genuinamente inspiradores, mas só uns poucos conseguem ser piedosos, otimistas, evasivos, tristes e atingindo a todos ao mesmo tempo. Padre John Jenkins, CSC, o presidente (reitor) de Notre Dame, é um homem de grande inteligência e habilidade. Isto torna o seu comentário introdutório ao discurso do Presidente Obama, no dia 17 de maio, mais embaraçoso.

Vamos lembrar que o debate sobre a visita do presidente Obama à Notre Dame não foi sobre se ele era um homem bom ou mau. O presidente é claramente um homem sincero e capaz. Em suas próprias palavras, a religião tem tido uma influência importante na sua vida. Devemos a ele o respeito que a Escritura nos pede a ter a todas as autoridades. Temos o dever de rezar para que ele tenha sabedoria e para o sucesso do seu serviço para o bem comum – na medida em que isso é guiado pelo correto raciocínio moral.

Temos também o dever de nos opor quando a autoridade se encontra errada sobre questões fundamentais como o aborto, pesquisas com células-tronco embrionárias e assuntos similares. Do mesmo modo, também temos o dever de evitar a prostituição da nossa identidade católica por conta dos apelos ao falso diálogo que mascara uma abdicação do nosso testemunho moral. A Universidade Notre Dame não apenas convidou o presidente para proferir um discurso, mas também conferiu um desnecessário e imerecido grau honorífico a um homem comprometido na defesa de uma das piores decisões da Suprema Corte na história da nossa nação: Roe v. Wade.

Ao convidar o presidente, a Universidade Notre Dame ignorou a orientação da Conferência de Bispos Católicos dos Estados Unidos na declaração Os Católicos na Vida Política, de 2004. Ainda ignorou as preocupações da embaixadora Mary Ann Glendon – indicada para a medalha Laetare da Universidade de Notre Dame em 2009 –, que, diferentemente do presidente, certamente merecia o prêmio, mas o recusou por conta da frustração pela ação da Universidade. A instituição ignorou os apelos do bispo local, do presidente da Conferência Episcopal, de mais de 70 outros bispos e de muitos milhares de alunos de Notre Dame e de centenas de milhares de outros americanos católicos. Mesmo aqui, no Colorado, tenho ouvido tantos apelos que nem posso contar.

Não havia nenhuma desculpa – nenhuma, excepto vaidade intelectual – para a universidade persistir em seu curso. Padre Jenkins agravou uma má decisão inicial com evasivas e dissimuladas explicações para justificá-la posteriormente.

Estas são palavras duras, mas são merecidas, precisamente por causa dos próprios comentários do Padre Jenkins em 17 de maio: até agora, os americanos tinham, realmente, “uma especial expectativa, uma especial esperança sobre o que a Notre Dame pode realizar no mundo.” Para muitos fiéis católicos – e não apenas um “pequeno, mas barulhento grupo”, descrito com tal indesculpável desdém e ignorância em revistas como Time – que mudaram domingo.

Os eventos de 17 de maio têm uma certa ironia, apesar de tudo. Quase exatamente 25 anos atrás, Notre Dame ofereceu o fórum para o governador Mario Cuomo delinear o “católico” caso de serviço público “pró-escolha”. Na época, o discurso de Cuomo foi aclamado na mídia como uma obra-prima do raciocínio católico legal e moral. Do mesmo modo é, claramente, um ilógico e intelectualmente miserável exercício da fabricação de desculpas. As explicações de padre Jenkins e a homenagem ao Presidente são um adequado encerramento em cadeia nacional para um quarto de século do amolecimento do testemunho católico no ensino superior católico. Juntos, eles deram à próxima geração de líderes católicos todas as desculpas de que eles precisam para “batizar” suas conveniências pessoais e ignorar o que é realmente necessário para ser católico na vida pública.

O cardeal-arcebispo de Chicago, Francis George, tem sugerido que Notre Dame “não entendia” o que significava ser católica antes destes acontecimentos começarem. Ele está correto, e Notre Dame se encontra praticamente sozinha nessa sua confusão institucional. Esse é o cerne da questão. A liderança de Notre Dame tem feito um verdadeiro desserviço à Igreja, e agora tenta superar as críticas, tratando-a como uma expressão de raiva. Mas o dano permanece, e os críticos de Notre Dame têm razão. A coisa mais importante que os fiéis católicos podem fazer agora é insistir – com as suas palavras, ações e apoio financeiro – para que as instituições que afirmam ser “católicas” realmente vivam a fé com coragem e coerência. Se isso acontecer, a falha de Notre Dame pode causar alguns involuntários bens.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Obama em Notre Dame?

Pedro Ravazzano
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Barack Hussein Obama já disse para que veio. Não é surpresa para ninguém que o novo presidente americano representa o mais decadente espírito liberal - aquele formado sobre o relativismo moderno e a crise civilizacional do Ocidente. Desse modo, naturalmente, Obama aparece como o expoente da modernização social dos EUA, afinal, querendo ou não, os Estados Unidos surgem como um dos poucos países onde existe uma cultura cristã e conservadora arraigada e bem estruturada, mesmo que esse conservadorismo esteja sendo tomado por visões simplistas e, cada vez mais, pobres na sua fundamentação.

Obama foi convidado pela Universidade “Católica” Notre Dame, de Indiana, para ser paraninfo e honrado com o título de doutor honoris causa. O assustador é que estamos falando de uma das mais prestigiosas instituições educacionais cristãs do país e, por outro lado, do presidente que com mais afinco defendeu – e defende – o aborto na história dos EUA. O que é obviamente incompatível e excludente não foi percebido pela reitoria da Universidade. Um dos grandes erros do catolicismo é entregar a sua fabulosa rede de ensino aos inimigos da Religião; nas nossas escolas e faculdades muitos são os professores que semeiam o anti-clericalismo, o ateísmo e o relativismo. Tamanha incongruência não foi vista pelo reitor Pe. John Jenkins que afirmou que “uma universidade católica é o local perfeito para um diálogo frutífero entre os ensinamentos da bíblia e a cultura de um povo.” Claro que uma Universidade é um templo do saber, deve reproduzir com fidelidade o mesmo espírito da Academia de Atenas, não obstante, o que houve em Notre Dame não foi um “diálogo frutífero” mas o triunfo do discurso abortista em sua plenitude; Obama teve todos os holofotes enquanto discursava e, para piorar, foi coroado com aplausos e elogios rasgados por parte dos professores e funcionários.

Pe. Richard McBrien, professor de Teologia de Notre Dame, disse, em entrevista à Fox News, que "Se pedíssemos 100% de acordo com as doutrinas oficiais da Igreja a cada pessoa que fala ou que recebe um título honorífico de uma universidade católica, não poderíamos contar com políticos de nenhum partido". Isso não passa de uma falácia. Primeiramente, é claro que uma instituição católica deve procurar prestigiar os homens e mulheres que comungam da mesma fé, entretanto, do mesmo modo – e aí entra a relevância do ecumenismo na defesa da moral – tem que buscar honrar, em seguida, os cidadãos de bem que se engajam na defesa dos princípios comuns aos cristãos, o arcabouço moral e ético da sociedade. Obama não apenas não é católico como sequer se aproxima da Igreja quando o assunto é moralidade. O fato de uma Universidade ser católica, protestante, liberal, comunista etc, quer dizer que é uma instituição erguida sobre uma base filosófica sólida. Exemplificando, vamos supor que no auge do regime soviético Friedrich Hayek tenha sido convidado para abrir o ano letivo da Universidade de Moscou. Isso quer dizer que, das duas uma; ou o teórico austríaco não era tão liberal como dizia ser ou, então, a Universidade moscovita não passava de uma falsa instituição educacional marxista. Trazendo esse exemplo para a realidade podemos fazer uma reflexão; Obama não estava ali defendendo a vida e a moralidade, ao contrário, fez um discurso ratificando o assassinato de crianças e, indiretamente, ainda chamou os anti-abortistas de fundamentalistas ao pedir “corações abertos, mentes abertas, palavras sem preconceitos”, e sendo aplaudido pelos que, aparentemente, combatem a cultura de morte.

Para tornar essa cerimônia mais absurda – sim, tem como ficar pior - alguns estudantes – esses sim corajosos – se levantaram em defesa da vida; vaiaram o presidente e gritaram palavras contra o aborto - “pare de matar bebés” e “aborto é assassino”. Rapidamente foram levados pela polícia, mas nem isso motivou os sacerdotes que ali estavam, continuaram na sua letargia, hipnotizados pela obamania, dançando a música tocada pela Dona Morte.

Do lado de fora da Universidade um grupo de pessoas protestava contra a visita do presidente abortista. Alguns jovens também boicotaram a festa, não tiveram o desprazer de ouvir os alunos compondo o coro que gritava “Yes, We Can” depois da expulsão dos estudantes pró-vida pela polícia. Essa cena é a síntese da Nova Ordem Mundial; garotos embriagados com a mística populista de um presidente “progressista”. Ademais, um digno herói apareceu nessa história, padre Norman Weslin, 78 anos. Ele foi preso porque protestava pacificamente, segurando um cruz, cantando hinos religiosos e distribuindo panfletos contra o aborto. Obama já deixou o que ele considera democracia; combater o aborto é democrático, lutar contra o aborto é anti-democrático, e tais eventos devem ser perseguidos e controlados coercitivamente pelo Estado. A tal liberdade de expressão é enviesada e usada como trunfo para o patrulhamento ideológico; suprimir um protesto católico contra o aborto é necessário para a manutenção do espírito democrático, agora, se por acaso fosse um protesto anti-clerical contra uma Universidade cristã o seu controle pela força policial seria mais uma forma de fundamentalismo religioso e impedimento da livre opinião dos cidadãos.

A coisa boa desses acontecimentos é que eles mostram Obama em sua essência; o que quer e o que pretende. A união dos americanos ao redor de Barack Hussein foi muito coesa para uma população tão dividida em questões morais e éticas. Através desses eventos, que revelam os planos presidenciais e as atitudes do seu governo frente à oposição, o povo dos EUA pode entender com mais segurança como funciona a mente de um presidente que em nome da democracia foi eleito, mas que em nome da mesma democracia suprime violentamente protestos contra seus projetos de governo.

Enquanto isso, na sala de injustiça de uma certa Universidade americana, Sacerdotes e religiosos ainda aplaudem o presidente abortista...
Notre Dame, priez pour nous!

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Yes, We Can... We can? But what we can?

Agora entendo o que significa em concreto o famoso slogan publicitário da campanha de Obama: "Yes, We Can!". Sem esforço, vê-se que nessa expressão falta malandramente um complemento para indicar o que realmente we can. Pois quem can, can alguma coisa.

Então, We can o quê, Sr. Hussein Obama?

E para responder a pergunta acima, os acontecimentos desse final de semana, nos EUA, começam a indicar o que can o novo presidente.

O padre Norman Weslin, 78, foi preso na sexta-feira passada por entrar no campus da Universidade "Católica" de Notre Dame carregando uma cruz nas costas em protesto ao título Honoris Causa que Hussein Obama, o presidente mais pró-aborto da história dos Estados Unidos, receberia daquele centro acadêmico.

Além do padre foram presos Alan Keyes, ex-candidato à Presidência e outras 19 pessoas por tentar protestar dentro do campus universitário. Ao total compareceram 3.000 pessoas para mostrar ao Obama que No! We can't.

Vejam o vídeo abaixo:

sábado, 16 de maio de 2009

São Nuno de Santa Maria; Um Santo para toda a Lusofonia

"Aqui jaz o famoso Nuno, o Condestável, fundador da Casa de Bragança, excelente general, beato monge, que durante a sua vida na terra tão ardentemente desejou o Reino dos Céus depois da morte, e mereceu a eterna companhia dos Santos. As suas honras terrenas foram incontáveis, mas voltou-lhes as costas. Foi um grande Príncipe, mas fez-se humilde monge. Fundou, construiu e dedicou esta igreja onde descansa o seu corpo." (Epitáfio de Nuno de Santa Maria)

Pedro Ravazzano

O Sumo Pontífice, Bento XVI, canonizou o Beato Nuno de Santa Maria no dia 26 de Abril de 2009. O ilustre herói português, desse modo, entrou para o catálogo dos santos, sendo mais um intercessor no céu, ouvindo as preces que são a ele dirigidas. Deus, com Sua Sabedoria, escolheu o momento exato para a conclusão do processo da canonização d’O Condestável; foi S.S Bento XV que o beatificou, em 1918, Venerável Pio XII até mostrou um interesse particular na vida e fé de São Nuno, mas a Providência queria que o Santo Padre em guerra contra o relativismo moderno tivesse a honra e a graça de confirmar a santidade do General e carmelita lusitano. Nuno Álvares Pereira surge como uma estrela no pontificado de S.S Bento XVI!

Nuno de Santa Maria nasceu em 1360 como Nuno Álvares Pereira, filho legítimo de D. Álvares Gonçalves Pereira e Dona Iria Gonçalves. O seu pai era prior da Ordem do Hospital e Privado – favorito – dos reis D. Afonso IV, D. Pedro I – de Portugal – e D. Fernando. Desde cedo foi educado dentro do espírito da cavalaria, ou seja, na coragem, lealdade, generosidade, amor a Cristo e à Sua Igreja. Ganhou fibra e cresceu como homem e como crente quando entrou na corte do Rei D. Fernando, onde foi feito cavaleiro vestindo uma armadura emprestada por D. João, Mestre de Avis, futuro Soberano de Portugal. A história de Nuno de Santa Maria é inseparável da própria história da sua pátria. A filha de D. Fernando, Dona Beatriz, a herdeira ao trono, era casada como João I de Castela, que, assim, pretendia unificar as coroas. O nosso herói português se levantou em defesa da legitimidade e independência da nação, apoiando a ascensão do Mestre de Avis ao trono lusitano, o que foi concretizado para o júbilo geral. Com a coroação e sagração do Rei, D. Nuno foi feito Condestável – segundo na hierarquia militar do reino - e Conde de Ourém. O grande general lutou bravamente pela autonomia do seu país frente à Castela. A incursão castelhana em Portugal, na Batalha de Aljubarrota, foi convertida em quadros e telas ao longo da história corando, desse modo, a grande proeza militar do santo carmelita; seus 6.000 homens venceram o exército espanhol com 30.000 soldados.

Além da sua glória militar – não cansado com a vitória sobre João de Castela ainda manteve um Estado policial contra a Espanha – o General lusitano foi um homem com grandes riquezas e influência, D. Nuno era O Condestável de Portugal, 2.º conde de Arraiolos, 7.º conde de Barcelos e 3.º conde de Ourém e tinha uma das maiores fortunas de toda a Península Ibérica. Sua filha, Beatriz Pereira de Alvim, nascida do seu casamento com D. Leonor Alvim, celebrou bodas com Afonso I de Bragança. Essa união deu origem à Casa de Bragança que, três séculos depois, reinará em Portugal e, cinco séculos seguintes, no Brasil . Com a morte da sua esposa, passando por um processo de aprofundamento espiritual nos ideais da cavalaria, com muita contrição, conversão diária, penitência e oração, resolveu ingressar na Ordem do Carmo, construindo o Convento de Lisboa, adotando o nome de Nuno de Santa Maria, deixando todos os prazeres do mundo; “Esta foi a última batalha da sua vida. Para ela se preparou com as armas espirituais de que falam a carta aos Efésios (cf. Ef 6, 10 20) e a Regra do Carmo: a couraça da justiça, a espada do Espírito (isto é, a Palavra de Deus), o escudo da fé, a oração, o espírito de serviço para anunciar o Evangelho da paz, a perseverança na prática do bem.” (Conferência Episcopal Portuguesa).

Claro que as suas grandiosas batalhas, as lutas travadas em defesa da pátria, foram obras significantes da sua vida, não obstante, sem dúvida alguma, é o Convento do Carmo de Lisboa que encarna o espírito e a entrega de Nuno de Santa Maria. O então Condestável de Portugal, ao largar a espada e abraçar a Regra, ao deixar o escudo e vestir o hábito, transformou a sua riqueza em pedras, em cúpulas, em altares, em cruzes, em imagens, fez da sua fortuna na terra a sua fortuna no céu; ergueu, solitariamente, um dos maiores monumentos sacros da terra lusitana. O Convento, ocupado por carmelitas vindos de Moura, convidados pelo próprio Nuno, tornou-se em farol da fé na grande cidade portuguesa, muitas vezes ofuscada pelos prazeres do mundo. O Condestável e o carmelita, mesmo vestidos e paramentados com diferentes roupas, submetiam-se aos mesmo princípios e a mesma fé; “Só por ordem do Rei é que deixou de andar pelas ruas a pedir esmola para os pobres. Do que o Rei lhe mandava para seu sustento, distribuía tudo o que podia pelos pobres, socorrendo e assistindo na agonia os moribundos.”, assim ainda foi lembrado no guião da cerimônia de canonização. D. Nuno sempre primou pela vivência da Religião diária e cotidiana, abraçando com uma sadia radicalidade a fé em sua plenitude; “Embora fosse um ótimo militar e um grande chefe nunca deixou os dotes pessoais sobreporem-se à ação suprema que vem de Deus.” (S.S Bento XVI). O Santo Padre, na homilia da canonização, lembrou que os anos de vida do santo português foram aqueles “que viram aquela nação consolidar a sua independência de Castela e estender-se depois pelos Oceanos – não sem um desígnio particular de Deus –, abrindo novas rotas que haviam de propiciar a chegada do Evangelho de Cristo até aos confins da terra”.

Talvez Nuno de Santa Maria tenha sido um dos portugueses que viveu com mais afinco aquele espírito tão característico da nação lusitana, o mesmo que levou homens a desbravarem os mares. É comum ouvir historiadores de linha marxista criticando Portugal por ser sido o país que com mais fervor abraçou o projeto expansionista; não queriam apenas colônias e cidades no ultramar, mas sim territórios onde triunfasse a Civilização – o que eles entendem como demérito nós enxergamos como glorioso. O que une o Timor Leste e o Brasil, Angola e Macau, Guiné-Bissau e Goa, não é apenas a língua – claro que o idioma é importantíssimo – mas a mesma base de formação humana, mesmo que essa legado se encontre em decadência. Não somos nações irmãs porque apenas temos ruas com pedras portuguesas, as mesmas casas em estilo colonial e igrejas barrocas, mas sim porque o fermento que foi usado na nossa construção foi aquele que nasceu com a identidade portuguesa, desde D. Afonso Henriques. Estaria exagerando se dissesse que São Nuno foi o responsável, de algum modo, pelos descobrimentos portugueses, mas não posso negar que nele pulsava aquela dignidade, grandeza que também se fez presente nos corações dos descobridores lusitanos. A identidade d’O Condestável se fundiu com a da própria nação, um espírito que de tão sublime e majestoso foi convertido em poesia pelo baluarte da língua e literatura portuguesa; Luís Vaz de Camões. Assim fala Nuno Álvares Pereira em Os Lusíadas:

Eu só, com meus vassalos e com esta
(E, dizendo isto, arranca meia espada),
Defenderei da força dura e infesta
A terra nunca de outrem sojugada.
Em virtude do Rei, da pátria mesta,
Da lealdade já por vós negada,
Vencerei não só estes adversários,
Mas quantos a meu Rei forem contrários.»
(Canto IV, est.ª 19)

terça-feira, 12 de maio de 2009

A Dialética das Raças

Pedro Ravazzano
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O nazismo é criminalizado no Brasil, mas por aqui triunfa uma análise sociológica genuinamente nacional-socialista; o polilogismo racial. Os nazistas, influenciados pelo polilogismo de classes dos marxistas, afirmavam que um não-ariano era condicionado, na sua essência, à produção de opressão e alienação, ou seja, o destino era determinado desde a infância, simplesmente pela “cor de pele”. Dentro da análise nazista não havia espaço para um política social; não importava se o judeu era rico ou pobre, se o eslavo era da elite alemã ou um miserável coitado do subúrbio de Berlim, qualquer raça ou cultura que não fosse “legitimamente” alemã trazia consigo a semente da dominação e da opressão – tinha que ser combatida.

No Brasil essa é a mentalidade difundida pelos movimentos e ONGs que discursam em defesa de cotas raciais – seguem piedosamente os ensinamentos de Stálin, que dizia que todos os conflitos de raça deveriam ser transformados em luta de classes. Obviamente, para qualquer pessoa sensata, o problema brasileiro é social em sua origem; 42% da população se diz parda, enquanto 7% se diz negra. Os populistas líderes “afro-brasileiros” acreditam que falam por uma comunidade preta, entretanto, vale frisar, essa identidade racial inexiste no país, e é isso que significa o fato da maioria da nação se considerar mestiça. Não obstante, chega a ser caricato ouvir militantes da causa negra construindo uma idéia de “povo negro” quando o dito “povo negro” sequer se entende como um povo distinto de todo a brasilidade e sequer elegeu seus porta-vozes raciais. Desse modo, hoje podemos refletir o questionamento lançado por Gilberto Freyre, ilustre sociólogo brasileiro: “A raça estará, então - raça, não no seu sentido justo mas como aquela super-realidade exaltada de modo mítico e místico pelos nazistas como a força física e mental com específica missão política e cultural - tomando o lugar de classe, como fator na política contemporânea?”

O cerne da argumentação do tais líderes raciais é que as políticas de afirmação negra surgem para reparar anos de escravidão. Pois bem, vamos relevar o fato de que a sociedade atual, com toda a sua complexidade, é totalmente diferente daquela do séc. XIX, o que eles pretendem é retomar uma percepção racial para dizer que o branco, no Brasil, representa o português escravista e que o negro brasileiro representa o africano escravizado. Primeiramente, é importante lembrar, ao longo da história nunca houve sucesso quando da adoção de parâmetros raciais por parte do Estado, seja quando o Estado nazista instaurou os campos de concentração, quando o Estado Sul-africano criou o apartheid ou quando o Estado americano estipulou a segregação e, posteriormente, obrigou a união forçada. O interessante do discurso dos populistas negros é que eles partem de um entendimento extremamente obtuso; a escravidão não foi construída sobre uma identidade racial, não havia a dicotomia de brancos X negros. Ora, os portugueses sequer capturavam os africanos, quase sempre compravam os escravos nas mãos dos grandes reinos e cidades negras que já nutriam uma cultura escravista. No próprio Brasil pré-abolicionista ex-escravos e mulatos tinham os seus escravos. Quem foi o maior traficante de escravos da nossa história? Francisco Félix de Sousa, um mulato que fez enorme fortuna, tornou-se extremamente poderoso e acabou morrendo em Uidá, no Benim, com o título de Chachá – possivelmente uma corruptela do seu próprio apelido – dado pelo Rei de Daomé. Hoje seus familiares africanos ainda gozam de prestígio político e cultural.

Existe uma crucial necessidade, por parte dos tresloucados líderes negros, de transformar a história brasileira numa história de raças. Obviamente, a maior facilidade de entendimento do processo dialético da luta de classes dentro de uma realidade dicotômica incentiva a deformação do conteúdo histórico do Brasil. Vamos supor que esse absurdo, esse pecado mortal intelectual, tem alguma validade, as tais políticas reparatórias iriam reparar o que? O negro que fenotipicamente parece descender do africano escravizado? Mas se esse jovem negro descende não de um negro escravizado, mas de um negro escravizador? E se, por acaso, o jovem branco carrega genotipicamente uma herança africana? Já que o modelo imposto parte da necessidade de uma reparação histórica, os beneficiados são os que descendem diretamente dos escravos, mas como saber quem são esses senão por uma profunda pesquisa historiográfica, documental e até genética? Afinal, se o jovem de pele clara carrega os genes do africano do Sudão escravizado ele tem os mesmo direitos do jovem de pele escura que, visivelmente, descende de negros – que não necessariamente eram escravos, vale frisar. Vamos deixar mais claro; os líderes dos movimentos e ONGs pretas afirmam, categoricamente, que as cotas, por exemplo, são justas por resgatarem a dignidade do negro em séculos de escravidão. Tudo bem! Agora vejamos, se o centro da discussão é a escravidão, de fato, apenas através de uma pesquisa profunda podemos reconhecer os herdeiros dos escravos do passado, e aqui, obviamente, serão colocados brancos e negros fenotipicamente. Se tal análise não é feita, a identidade negra escravizada é definida simplesmente por um concílio racial, embebido em ideologia, que constata a origem histórica da “raça” unicamente pelo tom de pele – pobre Mendel!

Claro que tais pesquisas não são feitas! Os chefes de ONGs e os caciques dos movimentos políticos estão pouco se importando se o jovem branco é geneticamente filho de um escravo do Golfo da Guiné ou se o jovem negro é geneticamente herdeiro de um senhor de escravos. A desonestidade aparece em dois pontos; primeiro quando criam uma falácia racial num país que não se identifica por etnias, é só perceber que nas grandes pesquisas a grande maioria dos brasileiros se diz parda. E, em segundo lugar, e não menos importante, se encontra esse absurdo de reparação; além de desconheceram a genética os hipócritas da raça criam uma nova história; os brancos de hoje são descendentes dos brancos do passado e os negros de hoje são descendentes dos negros do passado, além disso acreditam piamente – ou parecem acreditar – que predestinadamente os brancos do passado eram opressores e os negros do passado eram oprimidos. Querem “dar por implícito que todo branco é culpado pelos atos dos senhores de escravos, mesmo quando não tenha um só deles entre os seus antepassados e mesmo que tenha chegado ao Brasil, como imigrante, décadas depois do fim da escravidão.”(CARVALHO, Olavo de). Haja polilogismo, haja dialética – e Marx era racista, vamo que vamo!

Essa criação do mito da raça no Brasil, ainda mais quando pretendem que na mesma escola pública filhos de pais pobres sejam divididos entre negros e brancos, irá favorecer a consolidação do mais genuíno racismo. O Estado entrará nas escolas públicas e afirmará que os jovens de tez clara são descendentes de portugueses senhores de escravos e, por isso, não terão direitos às cotas, enquanto os seus colegas negros, por serem descendentes de africanos escravizados, gozarão de benefícios na entrada na Universidade. Detalhe a ser frisado, o jovem branco e o jovem negro não apenas dividem a mesma classe, mas o mesmo bairro e a mesma renda. Maldita história!

Um ponto que merece ser frisado; o Brasil se encontra no grupo dos poucos países que nunca aprovaram leis raciais, que nunca identificaram a cidadania com a etnia e a cor de pele. Esse fato é tão característico que a interferência do Estado na própria noção de raça, além de um grande contra-senso, se opõe ao processo de desenvolvimento do país. A nossa nação realmente não é racista, claro que com isso não quero dizer que ninguém tenha atitudes e pensamentos racistas, mas que inexiste uma estruturada rede discriminatória, com partidos, facções, ações populares etc, como em outras lugares do mundo. É fato que a instituição do papel social de brancos e negros é favorecida quando já existe uma dicotomia natural ou, então, quando já houve, na história nacional, um cultura de segregação pensada. Destarte, o estrago feito pelos líderes negros tem muito mais mérito, sejamos sinceros; eles conseguiram transformar – ou pretendem transformar – uma nação de pardos numa nação de brancos e negros. Claro que essa mudança de paradigma é feita com uma complexa e planejada tática a la terra arrasada; eles não deixam nada de pé. Qualquer um é acusado de racista, ultrapassado, opressor, desse modo instituem o patrulhamento ideológico - aquele mesmo, o do velho e embalsamado Lênin - que atinge desde as Universidades Federais até o Senado Federal. Tudo é muito bem financiado por grandes Fundações, como a Ford, que entra com milhões e milhões de dólares. A construção de uma identidade racial consolida um grupo político que se forma sobre essa comunidade que, a partir de então, se pensa de forma coesa e com interesses comuns. Os “novos líderes políticos na Ásia, África, América, (..) [demonstram] atualmente certa tendência, não para pôr a Raça a serviço de uma ideologia de Classe rígida, com ênfase total numa guerra de Classes, mas para por uma ideologia de Classe a serviço de uma mística racial revolucionária” (FREYRE, Gilberto)

Como bem frisou o sociólogo Demétrio Magnoli, as elites – negras e brancas – estão fora dessa realidade, elas têm renda para financiar uma educação internacional aos seus filhos. Essas políticas de cotas atingem a classe média e a classe pobre, aquelas que usam as Universidades e escolas públicas. A questão que não é levada em conta é a essência das leis. Pouco importa se na África do Sul o Estado definiu raças para segregar ou que no Brasil atual o Estado legisle sobre a cor de pele para agregar, as duas formas trazem intrinsecamente a idéia de uma “fronteira natural” entre negros e brancos e “Na hora em que os filhos dos trabalhadores não puderem mais olhar uns aos outros como irmãos e colegas, terá emergido um Brasil diferente daquele que conhecemos.”(MAGNOLI, Demetrio)

A América é um continente que, tirando os indígenas, foi construído por povos imigrantes; europeus e africanos. Entretanto, o grande diferencial, é que os fenotipicamente euro-descendentes não mais cantam saudades do Velho Continente, apenas mantém certos costumes culturais enquanto se identificam como brasileiros. Por outro lado, os tais “afro-brasileiros” choram a África e criam diversos entraves para a integração cultural no país. Hoje, qualquer um que experimente criticar alguma faceta da cultura africana - que não existe com essa unidade “africana” como pretendem certos líderes negros - será taxado de racista, no mínimo. Essa relação intrínseca que fazem entre raça e sociedade parte de uma identificação inseparável entre o homem e a cultura étnica, desse modo, cada raça tem um cultura específica, cada indivíduo, enquanto membro de uma raça, passa a ser destinado a viver atrelado ao arcabouço cultural da sua etnia. Esse estúpido determinismo é o tipico retrocesso sociológico que deságua no totalitarismo; um negro não pode personificar a cultura francesa, um judeu não pode representar a nação alemã, um polonês não pode encarnar o espírito americano?

Os movimentos negros têm conseguido transformar a questão racial em mais um tema da cartilha politicamente correta. Além disso, os seus militantes já se instalaram no poder, inclusive mantendo uma secretária federal só para tratar da temática. O triste dessa história é que o triunfo da ótica das raças estabelece uma sociedade que se enxerga por meio da cor de pele. Claro que existem brasileiros racistas, mas o país, como um todo, nas suas bases civilizacionais, jamais nutriu sentimentos discriminatórios organizados. Entretanto, com a ascensão do discurso vitimista, anti-histórico, hipócrita e simplório das causas raciais haverá, ao mesmo tempo, a transformação de uma sociedade mestiça numa sociedade bicolor – negros e brancos – mesmo quando sempre foi estranho ao povo brasileiro o sectarismo étnico. Hoje em dia a questão racial, com as tais “políticas públicas”, é discutida diariamente, além disso ganha força e poder dentro do sistema governamental. Agora mesmo o Senado já se prepara para votar a lei de cotas raciais nas universidades e escolas técnicas federais. Se aprovada será a primeira lei racial de segregação, com brancos e pretos separados pelo Direito.

O Brasil pode se tornar o primeiro país do mundo a realizar uma centrifugação racial, transformado uma nação de pardos na nação dos pretos e dos brancos, duas cores separadas pelo sentido da existência – os primeiros seriam oprimidos em essência e os segundos opressores em essência – e segregados pela legislação estatal. O movimento negro tenta fazer triunfar os seus paradigmas infantis de sociedade, partindo de um princípio determinista e polilógico que, em nada, se distancia das conclusões nazistas. Dessa modo, sobre essa base, constroem um discurso de vitimização e patrulhamento ideológico-racial, transformado um problema social em racial a partir do momento em que pensam que pretos são pobres porque brancos são burgueses. A balela de reparação histórica não faria sentido em nenhum país sério, mas por aqui não só é louvada como já se tornou ponto pacífico em qualquer discussão sociológica. Sendo sincero, eu vou achar engraçado quando daqui a dez ou vinte anos esses coitados do movimento negro estiverem protestando em oposição aos grupos realmente racistas, de identidade branca, engajados na luta contra a presença preta em seus bairros e escolas. Realmente, quem pariu Mateus que balance, quem criou as raças que agüente o racismo.