quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Igreja Anglicana: Católica, Via Média ou Protestante?

Pedro Ravazzano
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Hoje é muito comum encontrar o discurso do tal cristianismo primitivo na boca de protestantes, assim como o combate às tradições e à idéia de um cristianismo paganizado desde os primeiros séculos. Na verdade essas teorias não encontram fundamento nem mesmo entre as críticas da Reforma. Boa parte dos reformadores, quando pensava em "Igreja primitiva", levava em conta os quatro primeiros Concílios, ou seja, não enxergava no primitivismo eclesiológico a visão puritana e pentecostal que hoje reina. A própria Igreja Anglicana não só reconhece os Concílios como corrobora o trabalho dos Padres da Igreja, os reverenciando como santos e doutores. Só mais tarde, com a consolidação do setor evangélico dentro do anglicanismo – não por mesmo essa invasão se deu com a estruturação do liberalismo dentro da Igreja – que essas tradições foram deixadas de lado ou, no mínimo, passaram a ser subvalorizadas.


A Igreja Anglicana, em especial, não surgiu como essencialmente oposta ao papado enquanto doutrina, mas sim ao poder que o Santo Padre exercia nos seus domínios. Daí o famoso Ato de Supremacia – em 1534 o Parlamento inglês declarou Henrique VIII "Senhor da Igreja da Inglaterra". Com isso houve um levante de soldados invadindo mosteiros, tomando paróquias e confiscando os bens da Igreja que, a partir de então, passaram a ser do Estado. São Tomás Moro - Chanceler do Reino - e São João Fisher – Cardeal e Bispo de Rochester - foram martirizados por se recusarem a obedecer ao decreto, persistindo na fidelidade à Igreja de Cristo. Posteriormente, esse Ato de Supremacia foi substituído por outro ratificado por Elisabete I, a principal responsável pela consolidação da reforma protestante na Inglaterra. Com isso a dita cuja dominava, através da força, a massa católica que ainda lutava fortemente no reino e, principalmente, revertia e destruía o que tinha sido feito pela verdadeira Rainha da Inglaterra, Maria I, que tentou resgatar a fé genuína no seu país. Ademais, instituiu um "Juramento de Supremacia" onde se declarava total fidelidade à monarquia, opondo-se a qualquer interferência externa, reverenciando a Rainha como "única governadora suprema deste reino e de todos os outros domínios e países de sua Alteza, assim como em todas as coisas ou causas espirituais, eclesiásticas ou temporais". Com isso os católicos que lutavam em meio à aristocracia se viam obrigados ou a apostatar da fé, para manter seus títulos, ou renegar a glória do mundo, em defesa da Religião. Hillaire Belloc, no seu livro, Characters of the Reformation, disse:
A Igreja Anglicana foi imposta em definitivo na Inglaterra por razões econômicas, já que esta nova religião permitiu a nova nobreza ascender e ficar com a grande riqueza da Igreja Católica que Henrique VIII e seus sucessores lhes deram em recompensa aos seus serviços. Isso tornaria impossível restaurar a antiga religião, já que significaria a restituição das terras.
O diálogo Anglicano X Católico por muito tempo esteve fadado ao fracasso por conta do ranço anti-católico na Inglaterra que levava os seus clérigos a acreditarem que toda e qualquer doutrina e dogma oriundo de Roma era essencialmente anti-cristão, ou seja, não enxergavam a base fundamental da reforma anglicana, a política, e não percebiam que, mesmo sem saber, a Igreja da Inglaterra, ao menos antes de ser tomada pelos evangélicos (Baixa Igreja), tinha muitas crenças em perfeita sintonia com os ensinamentos romanos.

Os Trinta e Nove Artigos foram estabelecidos em 1563, por meio deles a doutrina anglicana se definiu, tomando uma visão própria frente a doutrina calvinista, luterana e católica. As duas primeiras gozavam de ampla defesa em setores anti-romanos, defendidas por religiosos que buscavam na adesão teológica aos princípios reformados a genuína oposição ao atolicismo, principalmente de cunho político. Os Trinta e Nova Artigos surgiram de uma revisão dos Quarenta e Dois Artigos publicados em 1553, mas revogados pela Rainha Maria, a Católica. De forma geral os Artigos adotam uma postura mais próxima ao luteranismo do que ao calvinismo, mas mantendo uma forma católica, zelando por certas tradições, preservando a estrutura hierárquica dos tempos romanos.

No artigo XXXV se diz:
O Segundo livro das Homilias (...) contém doutrina pia, saudável e necessária para estes tempos, como também o primeiro livro das Homilias, publicado ao tempo de Eduardo VI; e portanto julgamos que devem ser lidas pelos ministros, diligente e distintamente nas igrejas, para que sejam entendidas pelo povo." [The second Book of Homilie (…) doth contain a godly and wholesome Doctrine, and necessary for these times, as doth the former Book of Homilies, which were set forth in the time of Edward the Sixth; and therefore we judge them to be read in Churches by the Ministers, diligently and distinctly, that they may be understanded of the people.]
As Homílias Anglicanas são dois livros com trinta e três sermões que aprofundam o conhecimento da doutrina anglicana, auxiliando no entendimento de pontos específicos da crença da Igreja da Inglaterra. Usadas pelo clero paroquial, são instruções metódicas que se aproximam em muito do método pedagógico do Catecismo Católico. Os discursos contidos nas Homilias estão baseados na Vulgata e na Septuaginta (versão rejeitada pelos protestantes que preferiram seguir o cânon do AT definido por fariseus anti-cristãos no Sínodo de Jâmnia, no ano 100 d.C). Nas Homilias se diz que a Igreja primitiva se manteve absolutamente pura durante 700 anos (ainda não havia aquele papo de Constantino criador do catolicismo e paganizador da Igreja), acatando os quatro primeiros Concílios, além disso aderem aos Padres da Igreja dos oito primeiros séculos, os reverenciando como santos e doutores, reconhecendo a inspiração divina dos seus escritos. Afirmam que o Corpo e o Sangue são recebidos sob a forma de pão e vinho, considerando a Carne do Santíssimo Sacramento como uma substância espiritual. Atestam o matrimônio e ordenação como sacramentos e louvam os jejuns, as esmolas, os atos de misericórdia. As Homilias, melhores comentários dos Artigos, não procuram aderir formalmente ao protestantismo como forma de consolidar sua posição anti-católica, ao contrário, buscam se livrar daquilo que eles consideravam os erros dominantes do catolicismo, ou seja, crenças medievais, costumes e devoções populares corroboradas por Roma. O que eles entendiam como os ensinamentos católicos dos primeiros séculos era aceito na construção daquilo que chamavam de Igreja primitiva e até mesmo a evolução doutrinal e dogmática católica, com o aprofundamento no saber religioso contido em Concílios e pronunciamentos Papais, não era, a priori, rechaçada por completo. Card. Newman, no seu grande livro Apologia Pro Vita Sua, relembrando a sua história de conversão, disse:
Eu (...) considerava Roma em repouso e Roma em atividade como duas coisas completamente distintas. Opunha seu credo à sua doutrina comum, ao seu tom de controvérsia, à sua influência política e social, às suas crenças e às suas práticas populares. Com essa distinção entre os decretos e as tradições de Roma, fazia, paralelamente, uma outra entre o Anglicanismo em repouso e o Anglicanismo em ação, No seu credo formal, o Anglicanismo não estava à grande distância de Roma. Mas, a coisa muda de figura quando se considera no Anglicanismo seu espírito insular, suas tradições de Igreja estabelecida, suas características histórica, seus rancores na controvérsia e seus juízos privados.
As Igrejas da Comunhão Anglicana reclamam validade da sua Sucessão Apostólica. Quando a Igreja da Inglaterra rompeu com Roma, no séc. XVI, manteve a estrutura episcopal por meio de sagrações válidas, mesmo que ilícitas. Até então a nascente Igreja Anglicana continuava aderindo as normas doutrinais e litúrgicas católicas. Não obstante, graças ao fortalecimento do espírito anti-romano, que abria espaço, propositalmente, a teologia protestante, a Igreja da Inglaterra entrou num processo de declínio e empobrecimento Tradicional. No reinado do Rei Eduardo VI mudanças radicais foram feitas na sagração episcopal. Com a estruturação do "Edwardian ordinal" – louvado por clérigos que eram simpáticos à compreensão protestante de ministério - a Igreja da Inglaterra perdeu a validade da sua sucessão apostólica, já que a houve a corrupção da forma e da intenção sacramental. O novo Ordinale pretendia conferir a graça sacramental por meio da expressão "receive the Holy Spirit" apenas. Não havia qualquer referência ao sacerdócio, sacrifício, ou a consagração das sagradas espécies. Ficava característica a ausência do sentido Sacerdotal da ordem - Sacerdos in æternum – e do sacerdócio sacrificante. Posteriormente, um século depois, lideranças conservadoras dentro do anglicanismo, preocupadas com a deficiência da forma, reformaram o Ordinale, acrescentando a expressão "for the office and work of a priest". De todo o modo já era tarde, todos os Bispos válidos já tinham saído de cena, a partir desse momento o problema não era só de forma e intenção, mas também de ministro; só restavam Pastores, e também Sacerdotes, com sagrações, e ordenações, sem qualquer legítima validade. Entretanto, vale frisar que, desde os anos 30, Bispos Vétero-Católicos – que têm a Sucessão Apostólica reconhecida por Roma – participaram ativamente das cerimônias de sagração episcopal anglicanas, as concelebrando. Os anglicanos e os Velhos Católicos rapidamente se viram como aliados naturais contra o que eles consideravam as invencionices da supremacia papal. Assim, em 1879, um Bispo católico que aderiu aos erros desse cisma, Herzog, celebrou a ordenação sacerdotal de alguns anglicanos, em Paris, para a diocese de Edimburgo.

Esse método, juntamente com o resgate de tradições perdidas com a entrada do pensamento protestante no anglicanismo, foi responsável pela tentativa da retomada da Sucessão Apostólica na Igreja da Inglaterra – a Igreja Católica ainda não reconhece a apostolicidade desse clero anglicano. A forma e a intenção dessas sagrações merecem ser examinadas, mas de todo o modo existem Bispos e Padres sagrados e ordenados a partir de uma linha legítima vinda dos Vétero-Católicos, desse modo reivindicam a validade da Sucessão.

Infelizmente a ativa "ordenação" sacerdotal e "sagração" episcopal de mulheres e homossexuais evidenciou, novamente, a total invalidade da hierarquia anglicana que, mais uma vez, rompeu com a Tradição Apostólica e, conseqüentemente, aumentou em grandes proporções as diferenças da Igreja da Inglaterra em relação a todas aquelas que vivem respaldadas na Tradição.

A preocupação da Igreja a respeito da validade da Sucessão Apostólica dentro do anglicanismo levou S.S Leão XIII, de eterna memória, a convocar um grupo de teólogos para estudar o problema inglês; o fruto dessa minuciosa e sincera análise resultou na Bula Apostolicae Curae. O Papa afirma categoricamente que as ordens anglicanas são "absolutamente nulas e completamente vazias" ["Absolutely Null and Utterly Void"]. Leão XIII afirmava que o novo Ordinale transparecia uma “nativa indoles ac spiritus”, ou seja, um caráter inato e um espírito natural que vinha com a proposital omissão a toda e qualquer referência aos sentidos da compreensão católica da natureza do sacerdócio cristão. Além do triunfo do Ordinale do Rei Eduardo VI que, como já foi dito, deformou a intenção - não havia referência ao sentido sacrificial e sacerdotal - e, posteriormente, a forma, outro ponto foi levado em grande consideração; como bem se sabe um Sacramento não pode ser ministrado duas vezes, já que, se houve validade, imprime uma caráter eterno na alma. Entretanto, desde o séc. XVI, a Igreja ordenava os Padres convertidos que vinham do anglicanismo. Devemos destacar, principalmente, as instruções dos Papas Júlio III e Paulo IV ao Cardeal Reginald Pole, no período da restauração católica com a Rainha Maria I, que afirmavam explicitamente a necessidade da (re)ordenação dos Sacerdotes e Bispos cismáticos. Ora, se havia validade sacramental não teria motivo para ordenar, novamente, o Padre. Ou seja, a própria Igreja, já nos períodos passados, não reconhecia a Sucessão Apostólica e a validade dos Sacramentos ministrados dentro do anglicanismo. Assim se pronunciou o D. Basil Cardeal Hume, Arcebispo de Westminster:
Embora reafirmando o julgamento da Apostolicae Curae de que as ordens anglicanas são inválidas, a Igreja Católica tem em conta o envolvimento, em sagrações episcopais da Igreja da Inglaterra, de bispos da Velha Igreja Católica da União de Utrecht que são validamente ordenados. Em particular, e provavelmente em raros casos, as autoridades em Roma admitiram existir uma "prudente dúvida" sobre a nulidade da ordenação sacerdotal de ministros anglicanos vindos dessa linha de sucessão. (...) Existem muitos complexos fatores que precisam ser verificados em cada caso. [1]
Ainda é pertinente frisar que, o então Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Card. Ratzinger, na carta apostólica Ad Tuendam Fidem de S.S João Paulo II, que normatiza o Código de Direito Canônico e Código dos Cânones das Igrejas Orientais, listou a Bula Apostolicae Curae como um dos ensinamentos definitivos que pedem firme assentimento de fé por se encontrar intimamente ligado a própria doutrina revelada. O Bispo anglicano de Huron, no Canadá, George Luxton, em carta ao Papa Paulo VI, pediu a revisão das ordens anglicanas, a revogação da excomunhão a Rainha Elisabete, decretada por São Pio V e, por final, um projeto de união entre anglicanos e outros cristãos. Sua Santidade respondeu, simplesmente, que a Bula de Leão XIII foi uma “declaração definitiva”, ou seja, de essencial seguimento para toda a Igreja. É de grande relevância as palavras do Papa na canonização dos quarenta mártires católicos mortos pelos reformadores na Inglaterra e no País de Gales:
Não haverá nenhum desejo de diminuir o legítimo prestígio e o valoroso patrimônio de piedade e costumes próprios da Igreja Anglicana, quando a Igreja Romana – esta humilde serva dos servos de Deus – puder abraçar sua bem-amada irmã na única comunhão autêntica da família de Cristo, uma comunhão de origem e de fé, uma comunhão de sacerdócio e de preceito, uma comunhão de santos na liberdade de amor do Espírito de Jesus. Talvez tenhamos que esperar vigilantes na oração, a fim de merecer esse dia abençoado. Mas somos desde já fortalecidos nesta esperança pela amizade celestial dos 40 mártires da Inglaterra e País de Gales que são canonizados hoje.
Em resposta ao documento de Leão XIII os Arcebispos de Cantuária e Iorque escreveram uma carta, endereçada ao “nosso venerável irmão”, o Papa, em nome da Comunhão Anglicana e de todos os bispos da cristandade – haja hipérbole - chamada Saepius Officio, O Dever da Defesa. No texto, os dois religiosos anglicanos, num irônico esforço – afinal renegam o papado mas pretendem se justificar frente ao Santo Padre – defendem que a intenção da Ordem na Igreja da Inglaterra tem sim um caráter sacerdotal oriundo do único sacerdócio de Cristo. Vão além ao afirmar que o anglicanismo ensina e propaga a doutrina do sacrifício eucarístico e da realidade mística da Missa – “Estamos acostumados a chamar toda a Ação de Sacrifício Eucarístico”. E, ainda, na tentativa de validar o Ordinale anglicano, partem da argumentação de que nos ritos romanos mais antigos não havia menção a todos os sentidos do sacerdócio.

A resposta da Santa Sé veio com a confirmação da Apostolicae Curae, chamando a Igreja Anglicana para um sadio estudo doutrinal. Assim ocorreu nas conversações de Malinas, na Bélgica, entre 1921 e 1925, uma conferência mista entre anglicanos e católicos dirigida pelo Cardeal Mercier. O mais impressionante desse encontro foi a concordância anglicana, mesmo que informal, a Primazia de Honra do Papa, a presença real de Cristo na Eucaristia, a crença de que o Sacrifício Eucarístico é um verdadeiro Sacrifício, não um mero simbolismo e, por fim, a compreensão do mandato divino da Igreja e do episcopado.

Toda esse explicação gira em torno do que se denomina Alta Igreja (High Church). A High Church se caracteriza por se opor aos princípios essencialmente reformados, esse setor do anglicanismo aprecia o legado tradicional católico, pré-reforma, indo além ao pensar a Igreja com uma autoridade divinamente instituída, uma hierarquia que remonta aos Apóstolos, com Sacramentos que representam sinais visíveis da graça divina. A Alta Igreja não compreende o rompimento da Inglaterra com Roma como um atestado de condenação aos ensinamentos católicos, desse modo aceitam e louvam a Tradição e os Padres da Igreja. Os setores dessa ala se distanciam da idéia protestante de Igreja, para eles o anglicanismo é a via média, de fato. A High Church tem uma postura mais dogmática do que qualquer denominação protestante. Ainda vale frisar que a Alta Igreja carrega um espírito crítico a dependência da Igreja Anglicana ao Estado, se aproximando, mais uma vez, dos princípios católicos de mandato divino da Igreja. Os anglo-católicos, um quase sinônimo para os fiéis da High Church depois do Movimento de Oxford, compreendem a palavra "Católica" como a designação do nome da Igreja construída por Cristo, postura bem diferente da tomada pelos anglicanos da Baixa Igreja (Low Church).

A Low Church já tem uma pensamento essencialmente protestante, se enxergando como, de fato, uma Igreja reformada. Ela é herdeira das mais tradicionais heranças puritanas e calvinistas, e dela vinha os não-conformistas [2]. Desse modo subvalorizam o Episcopado, o Sacerdócio, os Sacramentos, o sentido sacrificial das ordens. Como já foi dito ao longo do artigo, o espírito anti-católico, dentro da Igreja Anglicana, levou ao fortalecimento dos setores protestantes que apreciavam a entrada da teologia reformada na Inglaterra como forma de minar a influência do ethos católico que ainda perdurava. Os evangélicos, como ficaram conhecidos os fiéis da Baixa Igreja, tem uma postura protestante. Existe, entre eles, uma radical defesa do primado da Escritura e da salvação unicamente pela fé, centralizando toda a sua espiritualidade em torno da Bíblia. A estruturação da Sola Scriptura contrastou com o próprio reconhecimento que o anglicanismo fazia não só da Tradição, mas também dos primeiros Concílios e dos escritos dos Santos Padres. A Sucessão Apostólica, a priori, era defendida por ambas as igrejas – afinal era comumente citada nos principais textos da Comunhão Anglicana -, entrentanto uma questão se colocava: como um Bispo evangélico poderia se pensar herdeiro dos Apóstolos se se opunha à própria tradição de origem apostólica? Desse modo, com esse distanciamento não só doutrinal mas estrutural da idéia de Igreja – para eles a Igreja só era "Católica" enquanto "Universal" – houve a perda do sentido real da idéia do episcopado.

Ademais, ainda existe a Broad Church, Larga Igreja, com uma pensamento liberal – modernista para ser mais claro – de entender a fé cristã. Assim sendo tenta enxergar os ensinamentos da religião de forma ampla, alargada, levando em conta toda a realidade contextual, uma adaptação da Verdade aos tempos modernos.

O que os anglicanos relativistas enxergam como sadias maneiras de compreender a fé cristã na verdade não passam do produto dos eternos paradoxos da Reforma Protestante. Dentro da Igreja Anglicana existem grupos que valorizam a Tradição e a consideram essencial no conhecimento da Verdade, vão além ao reverenciar a doutrina e a forma dogmática, acreditando na Sucessão Apostólica e na sua origem essencialmente Cristã. Além disso têm um entendimento dos Sacramentos e do Episcopado bem próximos da ótica católica. Do outro lado estão os setores que não só rejeitam a Tradição – além dos Concílios e da Patrística – como têm um comportamento verdadeiramente reformado ao aderir formalmente ao modo protestante de pensar o cristianismo, ou seja, Somente a Escritura. Ademais, subvalorizam o episcopado e seu fundamento apostólico, deixando também de lado a importância dos Sacramentos enquanto sinais visíveis da graça de Deus. O mais irônico de tudo isso é que ambas as alas seguem e se fundamentam na mesma fé, crença que gira em torno do Livro de Oração Comum, dos Trinta e Nove Artigos da Religião e das Homílias Anglicanas. Na verdade o anglicanismo sempre nutriu, desde as suas origens, uma terrível tensão interna; de um lado existiam aqueles que rejeitavam qualquer ensinamento que remontasse ao catolicismo, desse modo abraçavam a teologia reformada, do outro tinham religiosos que, de fato, recusavam a obediência ao Santo Padre, mas não confundiam o anti-papado com anti-catolicismo, como se tudo que viesse de Roma tivesse um base anti-cristã. O equilíbrio conquistado se deu por meio de um rodízio de hegemonia dentro da estrutura anglicana. As antíteses coexistiam, e como? Através do desenvolvimento da descentralização do poder e da autonomia dada aos bispos. Desse modo cada diocese vivia uma espiritualidade e uma fé. Um fiel que saísse da Cantuária de William Laud e fosse para alguma diocese escocesa calvinista provavelmente não reconheceria a mesma Igreja.

Vejamos, por exemplo, a fórmula de absolvição impressa no 'Prayer Book', livro síntese da fé anglicana, que é usada tanto por evangélicos, liberais e membros da Alta Igreja:
Nosso Senhor Jesus Cristo que deu à sua Igreja o poder de absolver qualquer pecador que sinceramente se arrepende e nele crê, perdoa as tuas ofensas pela sua grande misericórdia; e pela autoridade que me confiou, eu te absolvo de todos os teus pecados, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém.
Essa fórmula não se distancia em nada da forma católica. Fica claro que ela entende a Igreja como uma estrutura divinamente pensada e o Sacerdote como fazendo as vezes do próprio Cristo- in persona Christi – origem de todo o sacerdócio.

De todo o modo vemos, mais uma vez, o resultado das contradições essenciais do protestantismo. Dentro da própria Igreja Anglicana coexistem três óticas que compreendem a fé e a estrutura da religião de maneiras não só diversas, mas até contraditórias. Os setores da Alta Igreja e, especialmente, os anglo-católicos têm uma postura muito mais realista, desse modo não interpretam essa diversidade como uma riqueza cristã, mas como o sintoma de uma problemática encrustada no âmago do anglicanismo. O surgimento de movimentos e comunhões tradicionais, desde o séc. XIX, como o de Oxford [3] e a Comunhão Anglicana Tradicional [4], apenas foi o resultado do alto grau de decadência, com o fortalecimento dos setores liberais e evangélicos, que acentuou as contradições da Igreja da Inglaterra. Qualquer homem comprometido com Cristo enxerga com claridade essas antíteses na religião e, levando em conta a Unidade da Verdade, as interpreta como o atestado da falta de vivência sincera da fé – se existe contradição não existe Deus, já que Deus é a Verdade e a Verdade não se contradiz.

Com qual Igreja nós católicos dialogamos? Com a Igreja Anglicana que renega a Tradição e a Sucessão Apostólica, que nem sequer valoriza os Sacramentos, ou com a Igreja Anglicana que crê na Tradição e no mandato divino da Igreja e do episcopado, indo além ao enxergar na Missa um verdadeio Sacrifício? Se nem eles se entendem como nós iremos entendê-los?

[1] – "Statement of Cardinal Hume on the Ordination of Anglican Bishop Leonard as a Roman Catholic Priest" (in English). The Catholic Resource Network (Trinity Communications). 1994. http://www.ewtn.com/library/ISSUES/LEONARD.TXT. Retrieved on 11 October 2007.

[2] – Os não-conformistas eram protestantes ingleses que estavam insatisfeitos com o desfecho da reforma no Reino. Eram contrários à intervenção do Estado nos assuntos da Igreja e faziam radical oposição à manuntenção da hierarquia institucionalizada. Os grupos não-conformistas mais famosos foram os puritanos, quakers, batistas, presbiterianos, congregacionalistas e metodistas.

[3] – O Movimento de Oxford ou Tractarianismo (por causa dos seus escritos, os Tracts Times) foi um grupo formado na Alta Igreja basicamente por membros da Universidade de Oxford. Entre eles havia a sincera pretensão de demonstrar que a Igreja da Inglaterra descendia, diretamente, da mesma instituição criada por Cristo e guiada pelos Apóstolos. Os dois principais atores desse Movimento foram John Henry Neman e Edward Bouverie Pusey – daí que os fiéis filiados a proposta tractariana também fossem chamados de newmanites ou puseyites.

A forte secularização da Igreja, assim como a entrada do pensamento liberal e o fortalecimento do partido evangélico, foram os motivos que impulsionaram a estruturação do Movimento. Os líderes tractarianos buscaram aprofundar o conhecimento nas origens cristãs do anglicanismo, desse modo se aproximaram do catolicismo como forma de conhecer com mais intensidade a Tradição. Mesmo assim quase todos tinham uma postura radical anti-papado – menos Pusey. A Teoria dos Ramos se desenvolveu no seio do Movimento de Oxford, nela dizia que o catolicismo, o anglicanismo e a ortodoxia eram as ramificações da mesma Igreja – o que já é um erro, mas depois os modernistas pioraram colocando na “árvore” qualquer denominação dita cristã. Foi a partir do Movimento de Oxford que houve o renascimento das ordens religiosas na Igreja Anglicana, assim como o surgimento de um belo Movimento Litúrgico. Os “puseyites” centralizaram toda a vida espiritual e devocional ao redor da Eucaristia, e ainda tomaram certas tradições católicas. Os tractarianos faziam uma clara distinção entre os ensinamentos católicos dos primeiros séculos, aceitando-os integralmente, as crenças medievais, costumes e devoções populares corroboradas por Roma, rechaçadas por considerarem exageros e deformações da verdadeira doutrina, e o dogmatismo romano, que a depender de quem olhasse poderia ser apreciado com simpatia ou repudiado com escárnio. Newman, que não nutria a mínima simpatia por Trento, acabou não só reverenciando o Concílio como se convertendo ao catolicismo. Além do futuro Cardeal Newman vários outros membros do Movimento se converteram, entre eles; Henry Edward Manning, mais tarde o Cardeal Arcebispo de Westminster, Mons. Robert Hugh Benson, filho do arcebispo anglicano de Cantuária, Augusta Theodosia Drane, escritora e abadessa dominicana etc.

[4] - A Comunhão Anglicana Tradicional – Traditional Anglican Communion (TAC) – reúne igrejas anglicanas que juntas se separararam da Comunhão Anglicana sob o pastoreio do Arcebispo de Cantuária. A TAC corrobora a Declaração de St. Louis – Congresso convocado depois que a Igreja Episcopal dos EUA aprovou a ordenação de mulheres e fez uma radical reforma no ‘Livro de Oração Comum’ – e segue uma hermenêutica tradicional dos Trinta e Nove Artigos – vale frisar que tradicionalmente é uma interpretação legítima, afinal os religiosos da Baixa Igreja já partem de uma ótica calvinista ao ler os Artigos, mesmo eles não tendo essa conotação.A Comunhão Anglicana Tradicional não desassocia a Escritura da Tradição, além disso valoriza a teologia dogmática e o decoro litúrgico. Ademais, a TAC mantém um colégio de Bispos que é responsável pela eleição do Primaz.

A saída desses Bispos da Comunhão Anglicana foi motivada pela permissão da ordenação de mulheres e aceitação do homossexualismo, assim como a subvalorização da Tradição e a reforma litúrgica. Desse modo, esses pastores da Igreja da Inglaterra reconheciam que, por meio dessas mudanças, o anglicanismo rompia com todo o tradicionalismo apostólico.

Em 2007 a Comunhão Anglicana Tradicional, em nome de todos seus Bispos, religiosos e fiéis, pediu admissão na Igreja Católica. Assim disse arcebispo Hepworth, Primaz da TAC:
O Colégio dos Bispos da Comunhão Anglicana Tradicional (TAC), se reuniu em sessão plenária, em Portsmouth, Inglaterra, na primeira semana de outubro de 2007. Os Bispos e Vigários-Gerais aprovaram por unanimidade o texto de uma carta à Sé de Roma buscando plena e sacramental união. A carta foi assinada solenemente por todo o Colégio e confiada ao Primaz e a dois bispos escolhidos pelo colégio para ser apresentada à Santa Sé. A carta foi cordialmente recebida pela Congregação para a Doutrina da Fé. O Primaz da TAC definiu que nenhum membro do Colégio dará entrevistas até que a Santa Sé tenha considerado a carta e respondido
A resposta da Igreja veio em 2008, por meio da Congregação para a Doutrina da Fé, que se mostrou solícita e pronta para analisar a questão. Sabemos que não é um acontecimento de pequenas proporções, estamos falando de uma Comunhão que congrega mais de 400 mil pessoas em todo o mundo. O processo de conversão deve ser cuidadoso, afinal as particularidades e riquezas tradicionais, presentes na TAC, herdadas dos tempos católicos, devem ser levadas em conta. Por isso, talvez, a resposta mais saudável para a Comunhão Anglicana Tradicional seja a criação de uma Prelazia Pessoal onde mesmo professando a fé católica em toda a sua plenitude manteriam a sua estrutura e sua individualidade litúrgica e espiritual.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

O fenômeno da carnavalização da vida numa sociedade oca e deformada

Cultura e ordem social
As diferentes sociedades que existiram na história humana tiveram um importante ponto em comum: a demarcação entre a esfera cultural superior, ligada diretamente às elites e à classe sacerdotal, mas na qual participava toda a sociedade, e a esfera cultural inferior, mais popular (o que não quer dizer “ruim”, mas sim que se subordinava a uma hierarquia cultural, e que não raro é mais rica e bela até do que a “cultura superior” de nossos tempos); a primeira tinha o papel de ordenamento do cosmos social, é nela que se situa, por exemplo, os pensamentos agostiniano e tomista, e a elaboração da teoria das três ordens (clero, nobreza e servos) por um bispo medieval, enquanto que na segunda situava-se, por exemplo, o carnaval (na forma como José Rivair Macedo explica no livro “Riso, cultura e sociedade na Idade Média”, muito bom para quem quiser ler sobre a cultura popular do período e entender melhor sobre certos aspectos que procurarei comentar, com bem menor competência, nesse artigo) e determinados tipos de eventos sociais. A representação da subversão era encenada nessas celebrações, mas ela cumpria seu papel dentro da ordem, invertendo papéis temporariamente e mantendo incólume a estruturação cósmica “permanente”- pois essas sociedades conheceram a decadência, por motivos que já julguei serem materiais, depois materiais-culturais e que hoje comento com mais reduzida segurança. Era o caso de uma celebração na qual, por um dia, alguém do povo fazia o papel de rei, sendo executada no final – a explicação que conheci foi: saciava-se o desejo de subversão das pessoas, mas no fim tudo voltava a ser como era antes, conciliando aquele desejo com a necessidade de preservar o status quo.[1]

Nessas sociedades, havia espaço para o deboche, para a zombaria e o maldizer, e religiosos e reis não se julgavam tão superiores a ponto de pretender estar fora do alcance disso (hoje existe uma arrogância inconcebível para aquela época, e por parte de indivíduos muito mais medíocres). Mas existia um elemento concernente à seriedade muito mais poderoso e determinante que hoje. As coisas divinas “podiam” ser consideradas superiores, e ofensas a elas ofendiam as pessoas, que tinham o direito de se ofender, atitude que hoje é considerada “radicalismo” religioso, “intransigência”, “fanatismo” etc. etc. “Mas você não é ateu??”, alguém pode perguntar. Sim, mas isso não me tira a legitimidade para fazer essa crítica.[2] E outra coisa muito importante: eles realmente levavam a morte a sério.

A presença da morte, tratada como uma ausência, e o caráter de nossa época

A humanidade sofre um processo de escandalosa infantilização, alienação, mediocrização[3], aviltamento, rebaixamento, imbecilização e por aí vai. As pessoas evitam encarar a realidade, e criam um mundo de fantasia cor-de-rosa para viver nele. Isso acontece o tempo todo na vida cotidiana, e as pessoas não se dão conta e não se chocam. É o caso do desarmamento compulsivo e de sua restrição exacerbada o mais que se puder. Um adulto (isso, lembrem-se, adulto) de 21 anos não pode ter uma arma de fogo, nem uma pistolinha, nem um revólver; Alexandre Magno comandou legiões aos 15 anos! Isso, aos quin-ze!! E não era um caso excepcional, pois o sujeito era ensinado a ser homem o quanto antes, ao contrário de hoje, em que se é ensinado a o ser o mais tarde possível, ou, se possível, a não o ser até o fim da vida. Um adulto de hoje não vale uma criança de ontem, e é nisso que somos educados: na baixeza, na covardia (quem não aprende espontaneamente pela convivência, é forçado pela ditadura “politicamente correta” a aprender a se acovardar), na imaturidade crônica que toma conta de “adultos” cada vez mais idiotas e que não aprendem a crescer. O caso da morte é significativo.

A morte é uma intimação à responsabilidade, a uma vida com sentido, e os povos tradicionais sempre se pautaram por ela. Os antigos egípcios viviam em função da morte, e procuravam economizar seus recursos para custear uma mumificação – ao menos os que podiam fazê-lo, as classes mais altas, às quais se juntou, posteriormente, um conjunto maior de pessoas capazes de pagar. Era notoriamente uma civilização inspirada pela absorção da morte para a vida do dia a dia, o que não é o mesmo que dizer que eram infelizes. Uma vez teve uma exposição de coisas do Antigo Egito em São Paulo (infelizmente, esses eventos não costumam vir para as bandas de cá...) e li sobre ela numa revista. Eu estava no ginásio, na época, mas lembro de como o comentador destacava o fato de os egípcios serem um povo de mentalidade fúnebre, e festivos, alegres! Apesar do destaque dos egípcios, isso não era muito diferente em outros povos. Era o normal.[4]

Vou abordar mais o nível individual agora, já que acima comentei sobre a relação de uma sociedade com a morte. Assim, poderá ficar mais clara a ligação entre as duas coisas. No Livro I de “A República”, Platão conta sobre os jovens atenienses, que viviam em meio a vícios e diversões, mas que, ao chegarem a certa idade, tornavam-se temerosos, devido à morte que se aproximava. [5] Quando eu era pequeno (antes do período pelo qual eu iniciei aquele meu relato), cheguei a praticar Karatê pela Aiasatsu, e precisávamos estudar uma apostila também. Lá havia um ensinamento bastante intimidador: o karateca deveria pensar mais na morte do que na vida. Isso significa o oposto do estado psicológico que tomou conta de nossa época. Não, não estou querendo ficar neurótico nem deixar alguém nesse estado; apenas chamo a atenção para o fato gravíssimo de que não buscamos aprender a maneira correta de lidar com um dos poucos fatos que podemos dizer que é certo, perfeitamente universal e determinante para a nossa existência, “existência” entendida num sentido pleno e total.

Não se trata de exigir heroísmo de ninguém. Eu me amedronto de vez em quando com esse assunto e, há poucas semanas, quando perdi um ente querido, precisei ligar para Ricardo.[6]

Deve-se acrescentar algo importante. A Contemporaneidade, que não encara a morte como as outras épocas o faziam, é justamente o período que mais concedeu espaço para ideologias tresloucadas tornarem-se referência para o governo dos povos, dando lugar a morticínios sem concorrentes na história da humanidade. Hobsbawn narra, no começo de seu “A era dos extremos” que, no começo do século, a morte de dezenas era um fato chocante e de repercussão internacional, e que nem se imaginava em contabilizar as mortes de civis na escala das centenas. As informações que ele nos dá nessa interessante passagem mostram como a morte de poucos (“poucos”?! É porque estamos no século XXI!O leitor da época analisada por Hobsbawn se chocaria comigo, e com meu caro leitor que provavelmente não se espantou com a palavra) causava mais perplexidade que a morte de milhões (não se contente com o dado, junte dezenas, centenas e assim sucessivamente na sua cabeça até formar o milhão) causa hodiernamente, “em pleno século XXI”, como diz certas pessoas com orgulho, num hoje em que defensores do nacional-socialismo e do socialismo-comunismo procuram melhorar sua situação dizendo que seus regimes não mataram como se diz, que foram alguns milhões a menos... A nossa época é a do totalitarismo – que deixou sua marca indelevelmente até hoje, só a alienação de uma ingenuidade estúpida impede as pessoas de perceberem isso- um tipo de “ordem” que consiste no seguinte: a partir do “partido”-Estado, a vanguarda revolucionária conforma os vários aspectos da sociedade da maneira que lhe pareça conveniente. Hoje, no Ocidente (êpa, é aqui) sua semente tenta germinar da seguinte maneira: a vagabunguarda diz o seguinte:

“__Não se preocupe, Joãozinho (tem mais de 50 anos), vamos cuidar de você; se alguém usar uma palavra que te magoe, conte pra gente cuidar dele. Mas me dê essa arma aí, não, nada disso, quem cuida do bandido – não seja preconceituoso, não use essa expressão fascista, ele é só um excluído pela sociedade, por você também – é o governo (governo como conhecemos + intelectuais esquerdistas). Nós protegeremos você... quê, entrou ladrão aqui, não evitamos nada?, não é assim, você tem de cobrar, não fazer nosso trabalho, nós que temos de cuidar de você e da sua família., me dê essa arma que você pode fazer uma besteira, você pode se machucar... Joãozinho, Joãozinhooo!!! Dê cá essa arma, DÊ LOGO A SUA ARMA, JOÃOZINHO! Isso, assim, e não seja malcriado que a gente coloca você pra sentar no canto, de castigo! Saiba que só queremos seu bem.”

E dá sinais evidentes de que constrói-se progressivamente um estado de coisas no qual o Estado se intrometerá cada vez mais no âmbito particular. Não é só a importante questão da arma; trata-se até de querer controlar o exercício da religião e até da alimentação do sujeito.[7]

Ao mesmo tempo que se constrói essa ditadura sobre o indivíduo comum, movimentos sociais procuram colocar-se acima das leis, e, de fato, é a ideologia (da Esquerda politicamente correta) que vem moldando a aplicação destas; numa época totalitária, ou que se almeja a sê-la, o jurídico, intelectual, religioso etc precisa estar, necessariamente, subordinado ao político.
Apenas lembro que não há vida integral sem a compreensão sobre a morte, e não há civilização sem pessoas capazes de enfrentar essa tarefa. Devemos procurar ficar à altura dela, e não evitá-la. Mas, que faz nossa sociedade moderna, que se julga superior – que piada! – às “arcaicas civilizações antigas”? Só pensa em conforto, em lazer, na cura de doenças, no creme anti-rugas, em prolongar a juventude, no jogo de futebol... É uma sociedade de frivolidades, cada vez mais “politicamente correta”, viciada, burguesa (nada de coro com o vulgar discurso anti-burguês da Esquerda; condeno o aburguesamento que atinge todas as esferas da sociedade, quando a burguesia tem o seu papel correto ao se manter em seu lugar devido, sem pretender substituir o que há de superior a ela, sem pretender substituir o que é aristocrático e merece ter um lugar privilegiado na sociedade civilizada), imoral e tecnicista, que acha que o avanço (ah...o avanço!) da ciência e da técnica resolverá os desafios que se impõem à espécie humana, que são maiores do que a mente viciada e preguiçosa de telespectadores do BBB, Faustão e Fantástico podem imaginar.

Carnaval como mero evento circunstancial, e Carnaval como horizonte da existência, numa época infeliz e alegre

Depois dessa prolongada introdução, posso entrar propriamente no tema que intitula o artigo. O carnaval, festa cujas origens são apontadas na Velho Mundo de séculos atrás, tornou-se a festa brasileira por excelência, que atrai a cada ano muitos turistas, seduzidos também por propagandas libidinosas do nosso país (apesar das campanhas em sentido contrário que autoridades brasileiras procuram fazer há anos, segunda cita o Arcebispo do Rio, D. Eugênio Sales, numa Mensagem em 2004.) É apontada na mídia como a maior festa popular do mundo – esse ano, foram 2 milhões de pessoas no Salvador, onde domina o axé. No do Rio de Janeiro, provavelmente o mais famoso até hoje, mulheres nuas, em grau maior ou menor, requebram ao som do samba. Como eu acho questões morais muito difíceis de se responder, prefiro não julgar se o Carnaval é mau ou bom em si (claro que comemorações como a de Olinda não estão em questionamento aqui), isso é, no espaço reservado para ele. Mas, sem tomar como foco a análise particular e essencial do Carnaval, e, em vez disso, considerando a análise desse evento na manifestação circunstancial que ele tem na sociedade em que vivo, considero: ele cumpre, dentro de um contexto social maior, um firme papel na nossa degeneração moral.

Contarei um episódio para demonstrar um ponto. Uma vez, uma menina de pouca idade, criança, pediu a mãe uma camisinha, para ir ao Carnaval. Apesar do susto da mãe, a filha era inocente: ela viu as propagandas que diziam para ir com camisinhas para o Carnaval ( Pergunto: por quê? Precisa-se delas para pular, para ouvir o som?), e, como ela ia a um Carnaval - não lembro se era festa de escola ou essa coisa selvagem nas ruas mesmo - pediu à mãe a camisinha, pois como garota inteligente que aprende o que os mais velhos ensinam, aprendeu que precisava-se dela para sair nessa festa, como proclama a TV. Li essa história num módulo na época de escola. É uma demonstração de um dos aspectos mais grosseiros do Carnaval: a sexualização instigada, forçada e insuflada pela mídia, pelos artistas, por quem faz a imagem dessa festa. Atentem-se, nada nesses meios (in)culturais reflete simplesmente a demanda da população, antes procuram moldá-la atribuindo-lhe certos contornos e características desejados (por algum sociopata). A revista Catolicismo cita interessante estudo sobre a opinião do brasileiro sobre essa festa (“Maioria dos brasileiros rejeita imoralidade carnavalesca”- http://www.catolicismo.com.br/materia/materia.cfm/idmat/A279FFD8-D0B7-B67F-B1570335ABF2F3FF/mes/Abril2004 ), segundo a qual ela conta com uma rejeição de 57,4%, índice impressionante para algo tão alardeado aos quatro ventos como coisa maravilhosa e fascinante.










(Com esta, ainda é preciso ir com outra roupa para o Carnaval?)

(Não esqueçam, hein?!)

Nesse ano, o Correio da Bahia informou que a Secretaria da Saúde iria distribuir (a essa altura, está distribuindo) camisinhas e pílulas do dia seguinte durante o Carnaval. É profundamente revoltante esse tipo de notícia. Embora os grupos pró-aborto venham tentando legalizar a prática homicida com muita insistência, o fato é que nossa Justiça entendeu por bem não legalizá-la, entendendo que assim estaria protegendo o direito à vida de todos. Mas essa gente que ocupa os governos pouco se importam com as leis (possuem mentalidade revolucionária, e acham que as leis que não são feitas por eles não possuem nenhum valor), e as desobedecem flagrantemente. As tais pílulas são “substância abortiva”, vedada no juramento de quem se forma em Medicina, e eliminam um embrião, resultado da fecundação do óvulo pelo espermatozóide, que não é nem um nem outro, mas o ser particular que se origina da fecundação. Abusos como esse derivam do hedonismo que o jurista Ives Gandra Martins denuncia quando comenta a questão do aborto no Brasil. As pessoas querem prazer fácil, sem responsabilidade. Acrescento: são adultos infantilizados, que querem se divertir com suas genitálias como uma criança se diverte sem preocupação com seu brinquedo; aliás, essa é uma palavra muito comum nas campanhas da camisinha: se for “brincar”, use camisinha! Se brincar errado, é só eliminar o ser resultante. O Estado garante a sua diversão, a lei sobre vida vem depois.

Mas esse Carnaval é muito mais que uma mera festa que acontece numa semana de fevereiro. Permanece incompleto lembrar das micaretas e dos carnavais fora-de-época que acontecem durante o ano inteiro. O Carnaval tornou-se uma metáfora, algo que representa um sentido para as pessoas. Hoje, são privilegiados os que vivem cada dia, vendo um sentido nele próprio. Uma propaganda que está saindo nessa época é reveladora: mostra o desenho cinzento de uma policial, com expressão de desânimo, e uma frase do tipo: “Durante 364 dias do ano, Fulana é policial”. Ao lado, vem: “Na quarta de Carnaval, ela é Odalisca!”, com a imagem a cor da personagem fantasiada e com a maior expressão de felicidade. Há outras semelhantes, com outras profissões. O interessante de se notar é o seguinte: muitas pessoas suportam, cheias de insatisfação, uma semana de trabalho à espera do fim de semana. E esperam os meses com essa rotina passar para ter um tempo de férias – e tirar férias hoje, já não é algo certo, pois o sujeito pode ter de trabalhar nesse período. Em resumo, as pessoas vivem sem objetivos, esperando um momento de alegria extremamente transitório, ou procurando esse momento sempre que possível, na hora do programa de TV, p.ex, conformando assim, a um sofrimento na mediocridade, alegrias fúteis na mediocridade, que valem meramente como descanso para a próxima estação, mas que não desperta em ninguém a dimensão de sua vida por inteiro. O que o século passado trouxe foi o sabor amargo da tragédia, com o insosso da vida ordinária na sociedade de mercado cada vez mais separada dos elementos supra-temporais da civilização que são a fonte da alegria de existir nesse mundo.

Uma sociedade em que o carnavalesco – não em sentido estrito da festa pré-quaresma, mas no sentido amplo da atitude psicológica e cultural que está presente a todos os momentos em nosso meio – ocupou papel principal, é uma sociedade que realizou a subversão a que me refiro no primeiro parágrafo. Diante disso tudo, as pancadarias que acontecem na avenida são coisa pouca, um sintoma menor (E olhe que essas violências baixas não são pouco revoltantes!). O pior é que a isso se soma os caracteres peculiares do período em que vivemos. Fato muito significativo quanto a isso aconteceu há alguns anos, quando um carnavalesco quis colocar, no desfile de sua escola de samba, um carro alegórico representando o Holocausto, com bonecos representando os judeus mortos, a até com pessoas fantasiadas de nazistas e um Hitler.[8] Entendido simbolicamente, é o ponto de articulação entre os dois aspectos freqüentes de nossos dias de Kaly Yuga[9] que comentei aqui: é a tragédia carnavalizada, a representação da hecatombe humana ao som de samba. Quando não resta nada que se considere digno de veneração e respeito, a dignidade cabe a indivíduos fúteis do show business e às vaidades vãs desse meio, enquanto que a vida num ambiente de superficialidade vira Carnaval e, portanto, a morte também.

[1] Não sou a pessoa mais adequada para fazer essas considerações antropológicas, e lamento os erros que posso estar cometendo, e entendo que possa haver críticas ao esquematismo que uso e exemplos de comunidades que não se encaixam no modelo que apresento. Mas mesmo que seja esse o caso, creio que meu objetivo principal estará a salvo, que é o de defender que existe um tipo de hierarquia cultural que não pode ser invertida, ao menos no Ocidente. René Guénon, explicando o caso da Índia, aponta que essa foi a civilização na qual o pensamento metafísico foi mais estendido, e que, para se ligar à tradição, o hindu precisava dominar esse conhecimento em algum grau, a depender de suas capacidades intelectuais. Tenho esse caso em mente quando pressinto as possíveis limitações do esquema que apresento naquele parágrafo.
[2] Não vou comentar esse ponto aqui, porque é relativo ao assunto de outro artigo, que completará aquele que escrevi parcialmente; por enquanto, apenas veja se consegue enxergar um sentido nisso. Talvez você leia aquele artigo já em posse da resposta.
[3] Desculpem o possível neologismo.
[4] Desde a época de escola que eu tenho uma dificuldade tremenda de entender como alguém acredita de verdade no Carpe Diem no sentido de se esforçar por ser alegre o tempo todo; achava que eu não conseguia entender, hoje vejo que essa idéia é um equívoco, não a do Carpe Diem, que é valiosíssima caso entendida adequadamente, mas a da referida interpretação.
[5] Na verdade, Platão expõe as idéias em forma de diálogo, de forma que essa passagem deve constar da fala de algum interlocutor que participa da história. Mas não estou com o livro em mãos, então, perde-se os detalhes.
[6] Eis uma pessoa que se pode dizer que é fantástica, pois é na dor que se vê de que é capaz o bálsamo, e é na profunda dor que aflige o ser que se vê de que é capaz um bálsamo que se oferece para a alma humana.
A pessoa é minha avó materna; tomara que a morte, essa misteriosa, a tenha na verdade levado para algo bom.
[7] Lembra da listinha de alimentos que teriam a propaganda proibida na GB, incluindo catchup e amendoim, dentre inúmeros outros? Quem acompanha Olavo de Carvalho está familiarizado com essas coisas todas.
[8] (Essa nota eu escrevi para um outro artigo, no qual ataco a retórica dos que empunham a bandeira do Estado laico para defender qualquer barbaridade, mas vejo que ela interessa ao tema presente, por isso publico parte dela aqui, com algumas modificações.) Em janeiro, conheci um caso cuja absurdidade ultrapassou todos os limites que eu havia imaginado até o doloroso momento. Na sala de espera de uma clínica, eu lia uma meteria de uma “Época” velha sobre uma polêmica que aconteceu quando um carnavalesco quis colocar, no desfile de sua escola de samba, o supracitado carro alegórico; uma federação israelita conseguiu vetar esse carro na justiça, e houve quem condenasse isso como censura, e quem ficasse ofendido com a idéia do carnavalesco. Um psiquiatra entrevistado pela revista e um dos defensores de tal carro, comemorou algo equivalente a “no Brasil, o Estado é separado da religião”. Ou seja, numa grave questão envolvendo os sentimentos de tantos judeus, para os quais o Holocausto é fato de memória recente, havendo até no Brasil quem passou por Auschwitz, um super-imbecil consegue fazer um comentário completamente desvinculado do que se discutia, só pelo intuito de atacar gratuitamente a religião.
[9] Para os hindus, último ciclo que precederá a destruição do mundo, caracterizado por todo tipo de absurdidades.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Afinal, o que aconteceu com Galileu Galilei?

por Marcio Antonio Campos

Como tive oportunidade de dizer anteriormente, 2009 é o Ano Internacional da Astronomia por comemorar os 400 anos das primeiras observações de Galileu Galilei com a luneta. Por isso, é mais que oportuno destacar no blog um livro recentemente lançado no Brasil que pretende relatar, com riqueza de detalhes, os problemas que o astrônomo italiano teve com a Inquisição, e as circunstâncias que levaram a esses problemas. Galileu – Pelo copernicanismo e pela Igreja foi escrito por Annibale Fantoli, italiano nascido na Líbia, mestre em Filosofia e Teologia, e doutor em Física e Matemática. Lançado já há alguns anos em uma coleção do Observatório Vaticano, só agora o livro ganhou uma edição brasileira, pela Editora Loyola. É com essa obra que inauguro a seção Para sua biblioteca, que trará sugestões de livros sobre ciência e religião.

Mesmo quem não é familiar com a Astronomia pode tirar muito proveito da leitura, pois logo no início Fantoli explica a cosmologia aristotélica-ptolomaica (que colocava a Terra no centro do universo) e conceitos astronômicos como o de paralaxe (que será importante nas argumentações sobre a posição dos corpos celestes) de maneira bem didática. Mas o maior valor que eu reconheço no livro é o de derrubar vários mitos sobre o processo de Galileu. No dia em que saiu o resultado do vestibular da UFPR, resolvi fazer um teste e, enquanto esperava a festa aqui na Praça Carlos Gomes, perguntei a alguns vestibulandos o que eles lembravam daquilo que foi ensinado sobre Galileu no ensino médio. Apenas um estudante recordou algo: que Galileu tinha sido perseguido por dizer que a Terra era redonda!

Nem de longe pretendo que vocês substituam a leitura do livro pelo resuminho que vai abaixo. Mas alguns fatos sobre o caso Galileu precisam ser conhecidos e divulgados o quanto antes:

• O primeiro aspecto a ressaltar é que o sistema copernicano foi recebido com frieza. Poucos astrônomos aderiram ao heliocentrismo, e o maior deles à época, o dinamarquês Tycho Brahe, defendia um sistema em que a Terra ficava no centro, a Lua e o Sol giravam em torno da Terra, e o restante dos planetas girava em torno do Sol (p. 49-52).

• Alguns textos católicos sobre o caso Galileu argumentam que o De Revolutionibus, de Copérnico, não foi colocado no Índice de Livros Proibidos desde 1543, quando foi lançado, até 1616, e que isso representaria uma aceitação, ou ao menos uma tolerância, por parte da Igreja em relação ao copernicanismo. Fantoli discorda, mencionando que ao menos uma autoridade eclesiástica mostrou disposição em condenar o De Revolutionibus, mas morreu antes de conseguir seu objetivo. Quanto ao Papa da época, Paulo III, estava ocupado demais com o Concílio de Trento (1545-1563) e, mesmo depois disso, não havia por que se preocupar em demasia com uma teoria que era vista com ceticismo até pelos próprios astrônomos (p. 46).

• Isso nos lembra que o timing de Galileu foi o pior possível. No início do século XVII, a Igreja estava em plena Contrarreforma, uma época de retração em que novas teorias eram naturalmente vistas como suspeitas e os teólogos se agarravam com ainda mais firmeza aos textos da Bíblia e à interpretação dos Padres da Igreja. Para complicar, especificamente em 1632 (um ano antes da condenação de Galileu), o Papa Urbano VIII era acusado pelos espanhóis de não ser assim tão zeloso na defesa da fé – a acusação era feita dentro de um contexto mais amplo provocado pela Guerra dos Trinta Anos (p. 310). Talvez em outras épocas, de maior abertura e flexibilidade teológica, o copernicanismo fosse melhor recebido pela Igreja.

• Ainda assim, é preciso ressaltar que a Igreja não chegou a condenar o copernicanismo como herético. Em 1616, ele foi declarado "falso e totalmente contrário à Sagrada Escritura" (p. 206). Em 1633, a sentença de condenação (p. 365) retomou as formulações anteriores e considerou Galileu "suspeito de heresia" – embora para o senso comum pareça tudo a mesma coisa, em Teologia os termos têm significados diferentes. E de fato, se considerarmos uma interpretação totalmente literal da Bíblia, o copernicanismo seria mesmo realmente contrário à Sagrada Escritura, que tem trechos como "O sol se levanta, o sol se põe; apressa-se a voltar a seu lugar; em seguida, se levanta de novo." (Eclesiastes 1,5).

Continue lendo em: http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/blog/tubodeensaio/?id=857570

Pensamentos de Santo Tomás de Aquino

"Ninguém pode nesta vida ter satisfeitas as suas aspirações, porque nunca um bem criado sacia as aspirações humanas de felicidade"

"A concórdia não é uniformidade de opiniões, mas concordância de vontades"

"Há homens cuja fraqueza de inteligência não lhes permitiu ir além das coisas corpóreas"

"Uma ofensa é tanto maior quanto maior é aquele contra quem é cometida"

"Rogo a Deus como se esperasse tudo dEle, mas trabalho como se esperasse tudo de mim"

"Maria pronunciou o seu "faça-se" em representação de toda a natureza humana"

"O crente transcende a verdade da sua própria inteligência"

"Aquele que crê adere ao dizer de alguém. Por isso o que parece ser o principal, e tendo de certo modo o valor do fim, em todo o assentimento é a pessoa a cujo dizer se dá assentimento. Assim, o que se concorda em crer apresenta-se como secundário"

"A paciência manifesta-se extraordinária de dois modos: quando alguém suporta grandes males pacientemente ou quando suporta aquilo que poderia ter evitado e não quis evitar"

"É tolice dizer que as criaturas são totalmente más, porque em algum aspecto são nocivas. Podem elas ser nocivas para uns, mas úteis para outros"

"Pela oração de muitos, às vezes, se alcança o que pela oração de um só não se obteria"

"A cobiça de qualquer bem temporal é o veneno da caridade; por ela o homem despreza o bem divino".

"A oração consiste na elevação da alma a Deus"

"Por ser mãe de Deus, Maria tem uma dignidade quase infinita".

"A humildade é o primeiro degrau para a sabedoria".

(Extraído do fórum: agostinho_bernardo_tomas@yahoogrupos.com.br)

sábado, 21 de fevereiro de 2009

O Caminho da Conversão – Parte III: A mulher faz o homem

Por Vladimir Lachance

É sempre difícil começar um texto, ainda mais difícil quando se pretende escrever sobre um assunto que lhe é próximo. Parece que é o tipo de artigo mais fácil de escrever, mas a verdade é que é o contrário. Quanto mais próximo mais difícil de distinguir os contornos do que se quer tratar. Sinto que este texto pode ser considerado como parte de um conjunto, um fragmento que só encontra o sentido completo quando encaixado a outros fragmentos. Ainda não existe a parte II deste conjunto de textos, mas logo será escrito e completará o quadro. Por enquanto os leitores ficarão com este texto, que é uma homenagem à mulher que me fez. Não a que me gerou, ser humano, que me colocou no mundo, mas a que me fez filho adotivo de Deus, que me trouxe a luz de nosso Senhor Jesus Cristo, e deu verdadeiro sentido à minha vida.

Eu estava em tempos de relativismo quando a conheci, Luciana Lachance; vivia numa plena incerteza de tudo, numa perfeita ignorância que imaginava ser o caminho correto para conhecer o mundo. Achava que quanto mais duvidasse mais perto da verdade estaria, pois me parecia que por trás de todas as coisas tinha uma outra realidade que era suja e perversa, mas que não queria se revelar diretamente. Certas idéias para mim eram absolutas, como fórmulas universais que serviam para interpretar qualquer texto, filme, reportagem, etc. Nunca me considerei comunista, tinha certa ojeriza pela figura do velho Marx, aquele homem barbudo de cara enfezada, mas ainda assim tinha uma pequena simpatia por suas críticas da sociedade burguesa. Me sentia mais próximo das idéias anarquistas – hoje penso que não tanto por uma questão de afinidade pessoal, mas porque o comunismo vermelho mesmo, com foice, martelo e boina, já não convencia muito bem. As leituras mais comuns nessa época eram de textos de alguns autores menos conhecidos como Naomi Wolf e Hakim Bey. O que constava principalmente era a leitura dos zines: pequenas brochuras, que normalmente tem menos de cinqüenta páginas; os mais lidos eram textos de grupos ativistas, sobre veganismo, anarquismo, feminismo. Eram nesses textos que me baseava para entender o mundo, para fazer a minha “crítica” da sociedade. É engraçado lembrar que nesse período eu não duvidava em absolutamente nada desses textos – exatamente porque eles me pediam para duvidar de outros textos e idéias, desviando minha atenção para os sofismas absurdos que eles mesmos apresentavam (o relativismo só pode ser utilizado como mecanismo de análise em relação àquilo que você já desconfia, as outras coisas podem continuar absolutas). Era esta a atmosfera em que eu estava envolvido na época, numa confusão geral de idéias, e completando o quadro vivia uma mistura de ateísmo e panteísmo.

Luciana surgiu nesta época, e simplesmente, pela sua presença, me transformou. Certas idéias mudaram de maneira radical; não por ela dizer: “isso é errado”, ou “isso é certo”, mas pelo que trazia consigo, pelo tesouro acumulado no coração. Ela me perguntou: “o que você pensa em relação ao aborto?”. Eu acreditava que era um direito da mulher, que ninguém deveria se intrometer nisto. E foi mais ou menos isso que respondi. Foi quando ela, com apenas quatro palavras, me sacudiu por inteiro, e me mudou completamente. Ela disse: “eu ia ser abortada”. Não houve dúvida: eu passei a repugnar a idéia do aborto. Algumas pessoas podem alegar que essa foi uma decisão extremamente passional, e que eu a tomei para agradar a Luciana, mas a tomei não para meramente agradar, mas por amá-la – e só quem passou por isto pode entender do que se trata. Uma pessoa pode mudar a vida de alguém, ou mesmo o mundo. Quantas pessoas deixaram de existir, e fazer parte da sua vida, (ou precisamente aquelas que mudariam tudo), por terem sido abortadas? Essa é uma questão razoável a ser colocada, mas que muitos encaram com profundo desprezo. E a esses eu respondo, com toda a certeza: Luciana mudou a minha vida, e se ela não existisse eu poderia demorar muito para conhecer a verdade, o amor, Deus.

Ela agora é minha noiva, e foi o meu divisor de águas. Um dia eu fui um adolescente, arrogante, que não suportava os mais velhos e rechaçava os mais novos; agora eu volto a ser criança e começo a ser adulto. Um dia fui um ateu que entoava hinos anti-cristãos, inconformado com o sofrimento no mundo; hoje sou um recém convertido, um catecúmeno, um filho de Deus. Não meus amigos, eu não fui doutrinado como vocês imaginam. Eu fui amado. Éramos dois quando nos conhecemos, e agora estamos muito perto de ser um. Um só corpo e um só espírito. Ela não me trouxe cartilhas – como alguns podem pensar – de como ser um cristão, um conservador, um namorado; nada disso. Aprendemos tudo juntos. Ela me ensinou os primeiros passos do amor a Deus, mas depois continuamos a caminhada juntos.

O que escrevo hoje é difícil de explicar, pois o amor nunca precisou ser defendido. O mundo moderno perverteu as relações entre as pessoas, mesmo aquelas que se gostam, e por isso este texto pode não ser muito bem entendido. Hoje, é muito difícil conceber um relacionamento em que as pessoas realmente queiram se doar à outra, que queiram ser um com o outro. Elas imaginam que fazendo tal coisa estarão sendo submissas, subservientes: as mulheres, em grande parte, infectadas pela ideologia feminista, e os homens perdidos num misto de feminismo e permissividade. Mas eu me atrevo a dizer: não há nada melhor que querer ser um com quem se ama. Não no sentido de ter um pensamento idêntico, de gostar das mesmas comidas, de se vestir combinando. Não é nada disso. Mas de ser unido, da forma correta, como a Igreja Católica me ensinou: a unidade na diversidade. Nós não queremos ser radicalmente iguais, mas também abominamos a idéia de ser completamente diferentes. Há um equilíbrio, que não me cabe demonstrar por meio de palavras, que é exatamente o necessário para que um amor dê bons frutos, se tornando puro e sublime. É esse amor que devemos buscar, o amor que nos dá idéia do Eterno, que nos faz pensar como seria o amor no Reino dos Céus. Esse amor Luciana me deu.
Eu te amo meu amor. Este texto é para você. Fica com Deus e que nosso Senhor Jesus Cristo te dê muitas graças.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Quando o monstro sai da tela - Um alerta para os pais que deixam seus filhos irem sozinhos ao cinema.

por Luciana Lachance

Quando eu era criança, os cinemas da cidade costumavam funcionar assim: você pagava uma entrada e podia assistir quantas sessões quisesse – mesmo que isso durasse o dia todo. Assisti desse modo a vários filmes, a maioria dos clássicos satânicos da Disney e filmes como Mudança de Hábito. Meus pais saíam para resolver as coisas deles, e minha irmã e eu chegávamos a assistir quatro sessões seguidas do mesmo filme. No final do dia, eles iam nos buscar e pronto. Era bom pra todo mundo.

Hoje não existe um cinema que funcione dessa maneira, e embora eu não esteja certa se acontecia com freqüência o que eu vou relatar agora, posso dizer pelo menos que atualmente é dessa forma. Há uns anos - pra ser mais precisa, desde 2003 - eu comecei a observar algo diferente nas sessões de filmes infantis (que costumo assistir bastante): a constante presença de homens solitários. No começo eu achei isso muito legal, pensava que no fundo ninguém crescia mesmo, e eu, que geralmente só ia nesses filmes para levar as crianças aqui de casa [afilhados e primos], ria dizendo que não teria coragem de entrar em High School Musical sem alguém de pelo menos 6 anos do lado. Com o tempo fui prestando um pouco mais de atenção nessas pessoas, que não me pareciam divertidas de maneira alguma. Foi um processo longo, porque no começo, você acha que está ficando paranóico. Ou que é muito errado julgar as pessoas pela aparência – digamos, pessoas de meia-idade com mochila nas costas assistem sozinhas O diário da Princesa? E quanto a um homem de uns 24 anos, com o corpo de Paulo Zulu, iria mesmo ver Ella Encantada? (pra se ter uma idéia exata do que estou falando, dêem um Google nesse filme) Por que esse pós-adolescente com a camisa de Cannibal Corpse estaria, sem a “galera”, num filme como Quatro Amigas e um jeans viajante? – a menos, é claro, que ele fosse explodir o local. A menina e seu porquinho realmente atrai os caras que eu vi lá dentro? Eu perdi alguma coisa, ou Camp Rock está fazendo sucesso também entre os cinquentões solitários? No último filme que assisti deste tipo, High School Musical 3, tinham tantos deles que eu mudei de lugar duas vezes: são os pedófilos do cinema, que costumam se aproximar de crianças desacompanhadas dos pais, geralmente para “puxar papo”, e assim conquistar a confiança e algum contato (telefone, orkut), ou para se masturbar e até mesmo assediar algumas delas. Confirmei alguns casos e alerto aos pais para que não deixem seus filhos sozinhos no cinema (na verdade, se possível, não os deixem sozinhos de jeito algum, pois estamos lembrados dos casos de estupro com garotas de doze anos no Aeroclube, e tantos outros casos que podemos citar). Esse tipo de ocorrência geralmente não tem denúncia, pois o crime propriamente dito (estupro) não acontece no cinema, e muitas vezes as vítimas nem se dão conta do que está acontecendo. Ás vezes os pais, a exemplo dos meus, acham que ganham tempo deixando os filhos fazerem seus programas sozinhos, e assim ficam com tempo livre para as suas próprias coisas, ou simplesmente seguem a tendência moderna de que crianças de 10 anos precisam de liberdade e que acompanhá-las, no meio de outros amiguinhos, é embaraçoso. Digo que os pedófilos sabem dessa tendência – celular próprio, orkut, msn, computador privado, meninas e meninos que saem em duplinhas e trios -, e se aproveitam desses espaços para agir com tranqüilidade. Eu não pude denunciar os homens que conversavam com as meninas de onze anos quando a sessão acabava, mas apenas interferir de maneira quase louca e dar conselhos do tipo “não fale com estranhos” ou “não venha sem seus pais”. Todos têm que ficar atentos e evitar que nossos filhos estejam expostos a situações semelhantes, pois os monstros são muitos e agem em todo lugar, das piores maneiras possíveis.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Beijaço Gay e Apologia ao Homossexualismo para crianças de 12 anos

por Luciana Lachance

Há alguns dias um casal gay foi convidado a se retirar do Shopping Iguatemi [de Salvador] porque a sua conduta [eles estavam se beijando em público] causou constrangimento ás demais pessoas. Em resposta a isso, o movimento homossexual da cidade resolveu invadir o mesmo shopping com faixas e bandeiras de protesto: já que as pessoas não podiam agüentar um casal de homens se beijando, agora teriam de ver dezenas deles fazendo o mesmo. Inconformados com o fato de que a maioria das pessoas se sente bastante desconfortável vendo tais cenas, os gays alegam que tal desaprovação é “homofobia” (termo inventado, não vou nem me dar o trabalho de comentar a controvérsia), que eles sofrem o “preconceito” da sociedade machista e hipócrita. Outro caso recente foi o do professor Márcio Bagrios, que alega ter sido afastado da escola em que ensinava depois de fazer apologia ao homossexualismo para crianças entre 12 e 14 anos, passando, entre tantas músicas capazes de ensinar a forma verbal do passado no inglês, “I kissed a girl”, sobre uma garota bêbada que resolve beijar uma outra garota. Com a maior cara-de-pau, ele ainda deu entrevistas tentando argumentar que, de fato, a canção tem vários verbos no passado, o que seria uma forma bastante didática de ensinar os alunos – e mais uma vez, a exemplo de tantos outros, explica que foi “vítima” de preconceito por parte da escola, que, segundo ele, “ria pelas costas” quando ele ia trabalhar com os cabelos coloridos e “roupas modernas”.

Que fique bem claro que o interesse dessas pessoas envolvidas nos dois casos não é proteger o segmento homossexual de uma suposta perseguição, a exemplo do que eles alegam, como se toda morte de gays fosse causada por pessoas motivadas pelo ódio a eles, ou por grupos organizados – e não em conseqüência do próprio estilo de vida dos gays, geralmente bastante violento e suscetível a mais riscos, especialmente com relação à saúde. Os homossexuais não querem proteção contra espancamento de “homofóbicos” ou qualquer situação semelhante. O que eles querem é que o seu desvio seja aceito como uma “opção” - tão normal quanto a atração natural entre homens e mulheres - e que apenas ocorreria em bem menor escala (algo entre 3% da população mundial). Eles querem proteção para atitudes como a do professor Márcio, para assim promover esse tipo de comportamento – e que todas as outras pessoas fiquem caladas, já que eles terão várias instâncias para recorrer. E a pior proteção que eles podem ter, sem dúvida, é o pensamento politicamente correto de hoje que não admite qualquer crítica a alguns segmentos sociais e outras ideologias. O que essas pessoas precisam entender é que o homossexualismo não pode ser simplesmente empurrado como um comportamento natural, pois tal premissa é uma arbitrariedade que limita a liberdade religiosa e constrange as pessoas, impedindo-as de manifestar a sua fé, cuja expressão deveria ser livre. Querer que todas as pessoas da sociedade deixem de criticar o homossexualismo ou querer “educar” os filhos dos outros (sim, porque não poderiam ser deles) para isso é impor não apenas um estilo de vida do qual apenas eles compartilham, mas também negar o direito que as pessoas têm de viver de acordo com a sua religião – e eu poderia citar várias que condenam a prática homossexual. Portanto, o que o movimento gay quer assegurar é que todas as demais pessoas concordem com o que eles próprios teorizaram sobre si mesmos: que não existe nada de errado quanto a uma pessoa se relacionar com outra do mesmo sexo. Como eles não podem fazer isso mostrando as conseqüências desta escolha (e de maneira mais justa, servindo como exemplo), precisam de algum instrumento repressor: a lei que eles pretendem aprovar contra a homofobia – e que em algumas cidades do país já está funcionando – servirá apenas para que este tipo de opinião seja levada como consenso e direito natural, e para que qualquer acusação contra algum gay seja dificultada, já que eles tratam a questão como o preconceito racial, e a simples menção pode ser enquadrada como ofensa. Não concordar com o ato homossexual (e condená-lo) virou crime, ou virará, a julgar pelos passos. A liberdade de expressão permite que se faça apologia ao comunismo, ao aborto e outros crimes, permite ridicularizar a religião das outras pessoas, mas não pode mais permitir discordar do que se faz na cama - e quando isso estiver bem delimitado, já não poderá mais se questionar o quê ou quem esteja nela, independente se humano ou animal, ou da idade que tenha.

O fato é que o comportamento homossexual recebe críticas não apenas das pessoas cuja religião ensine que isso seja condenável, mas de outros setores aparentemente desinteressados nesse viés, quer o estude do ponto de vista físico-mental (sobretudo as pesquisas científicas que procuram entender o comportamento dessas pessoas) ou do ponto de vista dos efeitos práticos resultantes desse estilo de vida: tendência à promiscuidade, alta ocorrência de pedofilia, redução na expectativa de vida e distúrbios emocionais variados. Tentando escapar de tudo isso, o movimento gay tenta lançar a imagem do homossexual monogâmico, interessado em união civil estável e adoção de crianças - mas aí vem um filho da mãe como Elton John dando declarações de que nada disso combina com ele ou seus amigos, e que estão tentando dar uma imagem falsa e conservadora dos gays, o que, para o cantor, é uma contradição. Em número, os homossexuais são poucos, e mesmo para defender a própria causa teriam de esperar que todos eles fossem militantes e engajados; mas o pior é saber que mesmo alguns deles (digamos, um Foucault da vida, que após contaminado com o vírus da Aids o espalhou propositalmente para muita gente, entre amigos e inimigos) não servem como exemplo. E é por isso que eles contam comigo e com você, de preferência com emprego e filhos, para endossar a moção de apoio. Eles precisam subverter a opinião alheia, e geralmente são as pessoas que terão mais medo de serem taxadas como preconceituosas, e falam, como um amigo deste blog escreveu num texto, “em pleno século 21”...