sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

O Caminho da Conversão - Parte I: Infância:Deísmo, Morte:Fé

Vladimir Lachance

Passei minha infância inteira como pagão. Meus pais haviam decidido não batizar nenhum dos seus filhos no Catolicismo, pois acreditavam não ser correto impor uma religião a qualquer pessoa que fosse. Em parte acho que isso ocorreu por influência do comunismo, que tanto meu pai quanto minha mãe apoiavam. Nessa época não era exatamente um ateísmo, mas um deísmo inocente – se assim podemos chamar – que vivia; que fazia aparecer de vez em quando um Deus comandante do mundo, mas que eu não fazia idéia de como descrever, nem sabia por que havia nos criado, ou criado o mundo e as demais coisas. Minha mãe foi criada no Catolicismo. Morava na cidade de Nazaré das Farinhas – na infância e começo da adolescência -, onde fazia parte do grupo de jovens da paróquia, participando do coral, dos grupos de evangelização; e quando vinha a Salvador passear ficava hospedada em um convento do qual não sei o nome. Por esse motivo tive algum conhecimento de quem era Nosso Senhor Jesus Cristo, a Santa Virgem Maria, e algumas figuras importantes do Cristianismo. Meu pai também foi chegou a freqüentar a Igreja Católica, mas me parece – não sei muito sobre essa época – que nunca foi muito assíduo, era um católico relaxado. Minha mãe se afastou do Catolicismo quando veio morar em Salvador, deixando a religião, mas como a maioria das pessoas continuando a crer num Deus Criador de todas as coisas, em alguns santos católicos, na Virgem Maria, etc. Não me lembro se tive contato com uma Igreja na minha infância: esforço-me para lembrar se quando pequeno, pelo menos até os 12 anos, entrei numa igreja. Acho que não. Minha avó, mãe da minha mãe, era uma mulher católica, que não perdia as missas de domingo. Ela morou em Nazaré das Farinhas quase a vida toda, mas depois se mudou para Salvador também. Mesmo morando num bairro afastado nunca perdia as Missas de Domingo. Ela praticamente atravessava a cidade para ir à Missa: não porque não houvesse igrejas próximas à sua casa, mas porque dava preferência a uma que era celebrada no Centro da cidade. Com o passar dos anos, quando a idade foi avançando ela deu para roubar imagens de santos das igrejas, mas acho que não chegou a se constituir um sacrilégio propriamente dito, visto que ela estava com a saúde mental um pouco abalada. Pouco tempo depois morreu.

* * *
Minha infância foi de deísmo inocente até os oito anos, quando meus pais conheceram uma religião de doutrina espírita que surgiu na Amazônia. Quando passamos a freqüentar esta religião as coisas mudaram um pouco de figura: o deísmo se tornou mais elaborado, e tive um pouco mais de contato com o cristianismo, pois esta religião segue alguns preceitos bíblicos, mas não só. Meus pais começaram a nos explicar – tenho quatro irmãos – as doutrinas desta religião, dentre elas a doutrina da reencarnação, da Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas ao mesmo tempo aceitando à doutrinas advindas de diversas outras crenças, como budismo, hinduísmo, teosofia, etc. Era uma espécie de: “todas as religiões estão certas, e o deus de todas elas é o mesmo”.

Participei desta crença por cerca de sete anos. Foi nesta época que minha avó, mãe de minha mãe, morreu. Em 2001, 2002, já não sei exatamente. Foi um momento de muita dor para mim e para toda a família. Contava treze ou catorze anos; creio que estava na aula quando soube. Ela esteve hospitalizada por um tempo, devido a uma espécie de derrame – achei que não seria nada demais, mas a situação dela piorou bruscamente e pouco tempo depois morreu. Tive uma sensação bem esquisita quando me contaram: um misto de incredulidade e medo, um medo tremendo. Uma mistura que nos faz sorrir sem saber por que, e logo depois apagar o sorriso, meio sem graça por tê-lo colocado no rosto - foi a primeira vez que senti isso: não sabia como me comportar. Não sabia se ficava sério, se demonstrava tristeza, ou se, como alguns adultos me recomendaram na época, tentava ficar o mais natural possível, pois segundo eles era algo comum e que deveríamos encarar com tranquilidade. Bom, foi um misto de tudo isso. Quando saí da aula e voltei pra casa fiquei bem sério, pensando na morte. Pensando onde estaria minha avó, o que acontecia quando alguém morria, se era certo cremar um corpo ou não (acho que minha tia tinha pensado na idéia, ou talvez eu mesmo tenha pensado). Depois quando soube que tinha que ir ao enterro – não imaginava que ia ter que estar lá -, a vontade de rir voltou, com toda força. Fiquei imaginando como seria, pois nunca havia ido a um enterro; achei que seria uma coisa bem soturna, num lugar escuro, do cheiro esquisito... Fiquei pensando em tudo isso enquanto aguardava as ordens de minha mãe para me arrumar.

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O enterro foi no período da tarde. Quando chegamos lá havia poucas pessoas na sala do velório, no próprio cemitério (do Campo Santo). As idéias anteriores foram se adequando à realidade: vi que não era nada daquilo que pensava. Era um lugar silencioso, bem iluminado, tranqüilo e muito bonito, cheio de estátuas e imagens. Ficamos um tempo, só eu, minha família e poucos parentes. No começo agi “naturalmente” – como haviam me ensinado -, tentando levar aquilo como algo comum, sem demonstrar muita tristeza, bem sério. Mas, depois de um tempo, movido por um impulso de ver mais uma vez a minha avó decidi ir ao caixão, olhar o seu rosto. Me deparei com o seu rosto sereno, de olhos fechados, com as mãos cruzadas, e o corpo coberto de flores. Senti um estremecimento terrível e me afastei; sentei num dos bancos dentro da sala, e lá fiquei por um longo período, me sentindo com um pé no mundo e outro fora dele – onde exatamente, não sabia -, quando entrou o padre e começou uma cerimônia. Eu não fazia idéia do que era, mas imaginava que fosse algo para rezar pela alma da pessoa morta, para que ela pudesse ir para o céu. Foram rezadas muitas orações – eu não sabia nenhuma delas -, o Pai Nosso foi repetido várias vezes, mas eu não sabia rezá-lo. Nem imaginava que era a oração ensinada por Nosso Senhor Jesus Cristo! Fiquei bastante constrangido por não saber de nada que acontecia lá, e por não saber fazer uma oração. Até aí não havia caído uma lágrima de meus olhos: existiam tantas emoções se confundindo que não havia sequer tempo suficiente para entender cada uma delas. Só quando o caixão foi levado ao túmulo que a “ficha começou a cair”: minha avó estava indo embora deste mundo, nunca mais a veria aqui; só ficaria a lembrança, misturada a tantas outras lembranças que carregamos na vida... foi um peso monstruoso que senti. Minha avó, que me chamava de “passarinho” quando ia à minha casa. Que carregava um cesto na cabeça com biscoito, mortadela, frutas, para levar à nossa casa, dizendo: “meus netos não vão passar fome não” (não lembro se na época passávamos por uma situação financeira difícil ou se era só mania de avó de achar que os netos estão mal alimentados). Ela não estaria mais aqui, entre nós. Que terrível! Ela, que fazia uma verdadeira festa quando os quatro netos iam visitá-la: ela tinha uma dessas barraquinhas azuis “tipo lanchonete” em frente à casa. Quando íamos lá ela comprova vários pacotes de bala, pirulitos, doces variados e colocava em potes e nos dava, para arrumarmos na barraquinha e ficar vendendo. O nosso próprio negócio! Era bem especial. Na casa tinha um quintal bem grande (para meus olhos de criança) com um pé de acerola enorme; às vezes passávamos horas arrancando acerolas: meus irmãos para comer, e eu mais pelo prazer de participar – sempre achei acerola bem azeda, ruim mesmo. No fundo da casa tinha outra área aberta, onde minha avó criava galinhas. Lembro que tinha medo delas, assim como tinha medo dos cachorros... Era nessa casa que tinha um contato um pouco mais próximo com o Catolicismo, mesmo sem o saber. Minha avó tinha imagens de santos, mas não era exatamente isso que fazia do lugar um lugar cristão. Era outra coisa, que na verdade até hoje não sei explicar muito bem. Tentarei aqui, mas tenho plena certeza de que não vou muito longe; e não vou por que se trata de um mistério, algo que por mais que expliquemos vai ficar sem explicação em algum ponto. Era como se alguma coisa fizesse a casa cheirar diferente – ainda consigo reconhecê-lo -, deixando um clima agradável, com uma paz única. Não sabia exatamente o que era isso, mas hoje tenho plena certeza que era o amor Cristão guardando a casa.

Minha avó foi para mim o primeiro contato com o Catolicismo, com a fé, mesmo que eu só viesse a perceber isso depois de sua morte. Primeiro com a sua presença, com a sua pessoa – em corpo e alma; e depois com a sua ausência, quando sua alma deixou este mundo: quando vi a cerimônia no seu velório, pois foi quando vi pela primeira vez uma celebração católica.

* * *
Algum tempo depois da morte de minha avó, estava passeando com minha mãe e um de meus irmãos pelo centro de Salvador (nós morávamos em Lauro de Freitas, uma cidade da região metropolitana de Salvador), quando de repente senti uma vontade, e disse a minha mãe: “Quero um terço!”. Minha mãe me olhou meio espantada e perguntou: “Pra que você quer um terço?”, e eu simplesmente respondi: “Pra rezar.”. Depois dessa resposta ela riu e não perguntou mais nada; disse que poderíamos comprar nas Paulinas – uma loja católica. Quando chegamos lá escolhi um terço de madeira bem bonito e a moça que estava nos atendendo recomendou que comprássemos também um guia de orações. Compramos. Ao voltarmos pra casa fui tentar rezar: peguei meu terço, meu guia de orações e li uma oração que havia lá. Li a mesma oração algumas vezes e depois fui dormir. Fiz isso por alguns dias, mas depois me senti desestimulado a fazer de novo: não tinha ligação alguma com a Igreja Católica, nunca havia ido a uma missa (só na cerimônia que ocorreu no velório – que não foi uma missa), não entendia nada daquilo tudo. Simplesmente me pareceu que não tinha sentido algum, e ninguém em minha família falou nada, nem quando comecei e nem quando parei – era algo indiferente a eles. Lembro bem que após rezar me sentia bem, aliviado, mas não sabia porque, e logo isso parou de acontecer. Nas últimas vezes que fiz essas orações já não me sentia bem, mas me forçando a fazê-las por que achava que já que tinha começado devia continuar. Mas pouco tempo depois parei sem me dá conta.

A igreja, a loja, o pedido

Olhando para este fato agora, percebo que o pedido não foi tão repentino assim: foi bem perto da morte de minha avó. É provável que a proximidade de sua morte tenha me deixado mais perto da fé sem que na época me desse conta disso. Lembro mais: a loja ficava bem perto da igreja em que ela ia assistir missa todos os domingos do ano; e foi perto bem dessa igreja que fiz o pedido. Descobri isso há cerca de dois meses, quando encontrei minha tia na praça onde fica essa igreja, e ela me contou. Na hora em que ela contava não liguei o pedido à igreja e à loja. Só agora percebo a ligação de todos esses pontos, e estou aqui rindo. Que alegria sinto em perceber que todos estes fatos estão ligados à figura de minha querida avó: a igreja, a loja, o pedido.

Conclusão da Parte I

Assim termina a primeira parte deste relato: estava com catorze anos, participando da crença espírita junto com minha família, pensando na morte de minha querida avó, procurando minha fé, procurando Deus.

Tinha chegado à porta da Igreja, mas no momento de entrar desisti.

Continua...

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Terrorismo de blasfêmias

A Revolução Cultural segue, através de seus fundamentalistas, jogando seus aviões de blasfêmias contra os edifícios das convicções católicas.

Desta vez foi no Chile, onde ocorreu o evento denominado “Vírgenes Fashion Show”. Trata-se de uma profanação em que mulheres seminuas, representando Nossa Senhora, desfilaram em uma passarela de "modas".

Cabe lembrar a condenação que Nossa Senhora em Fátima fez, em 1917, às modas imorais. Agora, estas modas muito mais imorais que as daquela época - e que foram ganhando cada vez mais espaço no decorrer do tempo nos lares católicos - são utilizadas contra a própria Nossa Senhora.

É lamentável constatar a inércia de muitos católicos perante estes atos de terrorismo à Fé católica. Mais ainda, o quanto dói dizer da "reação" dialogante do episcopado chileno, mais preocupado em debater a "livre expressão" no estado de direito do que conclamar os católicos para, por exemplo, vigílias diante do Santíssimo Sacramento como forma de reparação dessa grave ofensa: “Nuestra palabra no es una palabra de condenación ni de censura: es una posibilidad que tenemos de expresar nuestro gran amor a la Virgen María y pedir que podamos debatir acerca de lo que es efectivamente la libre expresión dentro de un estado de derecho“, assim declarou o comunicado do Comitê Permanente do Espiscopado chileno lido pelo bispo auxiliar de Santiago, Mons. Contreras. (Os negritos são nossos).

Tais atentados são justificados pelo alcorão de seus fundamentalistas como simples manifestações artísticas ou como legítima "diversidade" cultural. Tais bombas semânticas, espalhadas em geral pela mídia, servem para desconcertar os "infiéis" da "Revolução Cultural" que gostariam de defender da profanação seus princípios mais sagrados.

Reagindo a esses atentados, a associação chilena Acción Familia está desenvolvendo uma Cruzada do Santo Rosário em desagravo à Santíssima Virgem.



Clique aqui para ler as intenções sugeridas para serem colocadas na recitação do Rosário.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Sobre a privatização da universidade pela esquerda, com considerações sobre o Vestibular 2009 da UFBA e um apelo sobre o futuro

O domínio da Esquerda sobre os meios de educação em geral, e sobre a universidade em particular e em especial -se não conseguiram expropriar os de produção, ao menos expropriaram os de ensino - é tão patente, consumado e costumeiro que as pessoas lidam com isto como se fosse um fato natural, imanente à ordem do Universo e das coisas, talvez até estabelecido por Deus.

Os esquerdistas - comunistas, socialistas, anarquistas, "politicamente corretos" etc - se sentem donos (hum, donos) da universidade, ao menos das faculdades de ciências humanas, que existem para refletir e sustentar suas ideologias, suas "visões" de mundo, segunda sua concepção. Essa atitude mental é tão estabelecida que é fácil citar vários exemplos que são consequências desse status quo, status quo estabelecido para favorecer o predomínio de certas correntes sobre a sociedade.

Ex.1. Na lista de emails dos estudantes de meu curso, me cansei de ver gente, com a intenção de contestar algumas coisas que lá eram escritas, dizer: "o que você tá dizendo é uma idéeia conservadora", "isso é de direita" etc etc. Ou seja, não é mais necessário se discutir a verdade/mentira das proposições: a distinção entre esquerda/direita substitui todas as outras tradicionalmente usadas nos debates filosóficos, teológicos, científicos, e a militância substituiu a intelectualidade, entendida esta no seu verdadeiro sentido. O sinônimo de bom, belo e verdadeiro é "esquerda"; é óbvio que essa não é uma forma séria de pensar, mas um método de manipulação que consiste em manejar preconceitos (não no sentido deformado por eles: me refiro ao "pré-conceito" de papagaios que repetem discursos que viraram senso comum no meio universitário antes de avaliar seriamente a realidade) para desacreditar uma posição sem ter de correr os riscos de discutir seu centeúdo; uma proposição "conservadora"/"direitista" está previamente errada, e segue-se utilizando de rotulações para "provar" que o outro lado está equivocado.

E mais: não é surpreendente que apareça um dizendo: "Como pode um estudante universitário ter idéias tão conservadoras?!" Ou seja, demonstram que acreditam que na Universidade só deveria haver eles! Desenvolverei esse ponto mais adiante.

Ex.2. A primeira eleição que ocorreu quando saí da esquerda foi a passada (estou escrevendo a continuação do meu artigo anterior, explicarei esse período nela). Quando uma pessoa querida perguntou em quem eu ia votar, eu respondi "em Imbassahy", e, por esse e outros momentos mais significativos, ela me disse: "Como pode, você acabou de se formar em História, devia ter outra cabeça, ser mais avançado", "devia votar em Pinheiro ou Hilton", "ser mais consciente". Só que não acredito mais que muitas dessas coisas que nos são ensinadas são "consciência", mas sim vícios que, pela repetição e pelo fato de imperarem nos meios letrados, amealham (suprema)autoridade.

Ex.3. Há, no orkut uma comunidade "Sou Historiador! Não comunista", que, na sua descrição, demonstra eloqüentemente o que estou dizendo: "Esta comunidade não foi criada para falar mal da linha comunista e socialista de pensamento. Afinal, somos pessoas civilizadas que sabem respeitar as tendências e maneiras de ver o mundo.Mas não aguento mais ser rotulado de comunista, socialista, quando falo que fiz faculdade de História." ( vejam http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=1157812 )

Ex.4. Numa vez em que visitei a escola onde estudei, hábito que mantenho para sempre reencontrar professores, funcionários e outras pessoas com quem convivi por anos, conversei com uma ex-professora que perguntou algo como: "E aí, como está, muito revolucionário??", ao que respondi "Não, não, eu saí disso!", ao que redarguiu com algo como "Os estudantes de sua área são muito revolucionários". "É verdade, mas eu não, eu deixei isso!"

O quinto exemplo que abordarei, terá um tratamento especial.



Manipulação acintosa no Vestibular UFBA 2009


Farei primeiramente um balanço sobre as provas de humanidades desse vestibular para mostrar, antes de apontar a manipulação a que me refiro, algumas tendências gerais do que nosso meio acadêmico considera relevante, sem pretensão de fazer um relatório.

Na prova de Português da 1º fase caiu um trecho de Eni Orlandi e duas letras de música, de Caetano Veloso e Chico Buarque, além de mais uma daquele na prova de Redação da 2ªfase. Quatro questões (40% da prova) tratam desses três textos, cujos conteúdos são, de alguma maneira, ralativos à cidade, ao espaço urbano. A primeira procura analisar seu objeto pela perspactiva do "discurso", tema que interessa nossa academia de uma maneira muito forte, como se, julgando não ser possível compreender a realidade das coisas, se desejasse simplesmente compreender o que as pessoas falam das coisas. E a literatura erudita, da "alta cultura", quase desaparece em provas que se preocupam majoritariamente com o "popular" e o etnológico.

Na prova de Ciências Naturais, a questão 17 diz, em seu enunciado, que "A obtenção de células especializadas a partir de células-tronco embrionárias pode permitir a recuperação de tecidos comprometidos, relacionados a diferentes danos - inclusive no sistema nervoso - até então considerados irreversíveis." Ora, o que significa "pode permitir"? Pois as pesquisas de sucesso nesse campo foram feitas a partir de células-tronco somáticas, ou seja, do corpo do indivíduo; ainda não se conseguiu curar enfermidades com técnicas advindas de pesquisas com células-tronco embrionárias. A expressão "pode permitir" está aí como substituto de "pode vir a permitir"? É, no mínimo, uma frase que induz ao erro, e que foi colocada para favorecer a posição dos que defendem tais pesquisas com seres humanos. Tendo isso em mente, interpreto as entrelinhas da alternativa (16), correta, que diz "As discussões éticas relacionadas ao estudo de células-tronco decorrem, entre outros aspectos, do uso das células-tronco embrionárias que, sob determinada explicação, se contrapõe a uma proteção à vida humana em seus diferentes estágios." Prestem atenção em "sob determinada explicação" e como a expressão produz uma sensação de rejeição à explicação referida. Os avaliadores reproduziram de forma íntegra tal argumento, que diz que certo tipo de pesquisa "se contrapõe a uma proteção à vida humana em seus diferentes estágios" e não que isso é feio e Papai do Céu não gosta; não obstante isso me deixe feliz, a justa referência ao argumento propeiamente ético, a frase "sob determinada explicação" produz na mente do leitor a idéia da oposição religiosa, usada para desqualificar a posição dos que se opõem ao uso de embriões HUMANOS em laboratório.

Na 2ª fase, a prova de Português não cobrou gramática diretamente, tais conhecimentos serão avaliados de acordo com o uso da língua que o candidato faz para responder às 6 questões, que perguntam sobre conhecimentos linguísticos, literários e de interpretação textual. Prevalece nestas questões um interesse sobre temáticas sociais e cotidianas, seja devido às obras literárias, que não são selecionadas de acordo com estilos e períodos literários, como a UFBA deixa bem claro, mas de acordo com temas considerados de atualidade e de relevância. Esse tipo de foco negligencia assuntos mais elevados, em termos civilizacionais (vide seção 11 da Parte I, sobre Otto Maria Carpeaux, em "O futuro do pensamento brasileiro", de Olavo de Carvalho, aliás, livro que deveria ser lido por todo estudante brasileiro, ao menos os que desejam se dedicar às humanidades, para que se conheça as perspectivas que há para as nossas áreas e para nossa cultura, e para que se possa traçar conscientemente os percursos para uma vida intelectual proveitosa, também para o Brasil e para a humanidade; uma observação: "humanidades" não designa a mesma coisa que se classifica por "ciências humanas", sendo mais ampla e incluindo o estudo de Letras, por exemplo).

A prova de Redação foi sobre as diferentes realidades da família brasileira, tema sempre oportuno. Dentre os textos apresentados como base para reflexão, não havia nenhum que louvasse qualidades da família, sendo eles, nos melhores casos, de tom neutro.

Não há, quanto à prova de Geografia, considerações a fazer quanto à presença de ideologia. Mas, na de História, a questão 06, a última, dizia: "Em relação a atitudes preconceituosas e discriminatórias contra as chamadas "minorias" étnicas, de gênero, portadores de necessidades especiais, entre outras, aponte duas medidas tomadas, no Brasil, para combater essas atitudes." Essa questão, que parte do pressuposto de que o repúdio a essa "diversidade de gênero" é puro preconceito, vale 20 pontos, a pontuação máxima de uma questão da prova, contra o menor valor de 10. Sem dúvida, trata-se de uma questão muito importante, mais até do que a queda de Roma ou a Revolução Francesa.

Enfim, a parte principal, que deixei para o final. Na prova de Ciências Humanas, na 1ª fase(Questões de 11 a 28), diz a primeira:

"A análise do texto ( um trecho de M. Chauí e Oliveira que diz que a Filosofia exprime as questões colocadas pelo homem em cada época, que "procura enfrentar essa novidade", sobretudo "propondo novas perguntas") e os conhecimentos sobre o pensamento filosófico (grifo deles, mesmo) nas diversas fases da História permitem afirmar que a Filosofia:

(01) proposta por Santo Agostinho expressou a busca da conciliação entre as crenças do cristianismo - uma nova religião - e o pensamento filosófico greco-romano, introduzindo o conceito de dogma para impedir o avanço do pensamento crítico."

Além da ênfase de valor duvidoso sobre o enfoque da Filosofia sobre a novidade, essa questão traz uma agressão absurda, estupidamente inconsequente e preconceituosa ao pensamento agostiniano, fundamental para o pensamento religioso de muitas pessoas devido a sua importância para a Igreja e até para os luteranos, pelo menos. Segundo ela, Sto. Agostinho introduziu "o conceito de dogma para impedir o avanço do pensamento crítico." O(s) resposável(eis) por isso não merece(m) respeito, pois abdicou de toda seriedade e cientificidade para exigir apenas conhecimentos objetivos, e cobrou a adesão a uma opinião sem comprovação, anti-cristã e anti-católica, para que o candidato recebesse a pontuação correspondente.

A questão 13 traz uma porcaria de trecho dizendo "Considerada por uns um direito inviolável do ser humano e, por outros, um patrimônio que deve ser utilizado produtivamente pelas diversas gerações, a idéia de propriedade privada da terra segue sendo interpretada como conquista adquirida, seja ela política ou econômica."

A partir das informações do texto e com base nos conhecimentos sobre propriedade privada, pode-se afirmar:

(16) O direito à propriedade privada, praticado na sociedade industrial capitalista, aprofundou as desigualdades sociais.

(64) A permanência da concentração da propriedade da terra e a expansão do agronegócio, no Brasil dos dias atuais, contribuem para aprofundar os conflitos sociais em torno da política de assentamentos."

Primeiramente, o leitor da questão deve decidir se é a favor da propriedade enquanto "um direito inviolável do ser humano" ou "um patrimônio que deve ser utilizado produtivamente pelas diversas gerações". A vigarice intelectual do trecho de Andrioli reflete o caráter de quem formulou a questão. O confronto entre capitalismo e socialismo demonstrou que os bens são utilizados mais produtivamente no primeiro do que no segundo, ou seja, enquanto propriedade privada. E precisa concordar com as supracitadas proposições para receber a pontuação, coisa que me recusei a fazer.

Uma diz "O direito à propriedade privada, praticado na sociedade industrial capitalista, aprofundou as desigualdades sociais."; mas como se pode mensurar isso? O capitalismo trouxe novas desigualdades, sim, decorrentes de novas formas de distribuição de riqueza. Mas, sendo que nos séculos anteriores haviam formas de desigualdade fortemente estabelecidades de desde antes do nascimento da pessoa, contra a qual esta não podia fazer muita coisa, diferentemente do capitalismo que permite a competição, no caso a desigualdade do Antigo Regime que confrontava camponeses pobres com uns poucos "nobres" imersos num luxo ostentoso e plenamente reconhecida por títulos, plenamente estabelecida, como se pode dizer que "o direito à propriedade privada aprofundou as desigualdades sociais"?! O avaliador pode demonstrar que a desigualdade do capitalismo é mais profunda que a anterior? Tal questão é sem objetividade, sem base material, concreta, só servindo para despertar sentimentos anti-capitalistas nos concorrentes a uma vaga na universidade, com base no difundido preconceito contra a desigualdade.

E a que diz " A permanência da concentração da propriedade da terra e a expansão do agronegócio, no Brasil dos dias atuais, contribuem para aprofundar os conflitos sociais em torno da política de assentamentos." não é, contrariamente ao que diz o gabarito, verdadeira, mas sim, falsa. O que aprofunda tais conflitos é a ideologia esquerdista que procura semear a discórdia em todos os espaços da sociedade, inclusive no campo. Existe muita terra disponível no Brasil, para quem desejar consegui-la de forma civilizada. Num encontro da comunidade católica "Comunhão e Libertação", um casal (não lembro do nome, mas qualquer um do movimento os conhece, pois são duas pessoas muito importantes para a CL) deu seu valiosíssimo depoimento sobre como se afastaram da influência da Comissão Pastoral da Terra, dominada pela Teologia da Libertação, cujo procedimento consistia em invadir terras e exigir do governo a sua propriedade. Tal método nunca rendera fruto nenhum (nem creio que seja esta a intenção, dar a alguém uma vida boa sob o capitalismo, fazendo-o se conformar com o sitema em vez de procurar a revolução) mas quando iniciaram um novo grupo que se mobilizou para amealhar dinheiro e comprar terras à venda, conseguiram adquirir uma boa fazenda que lotearam e fizeram progredir espantosamente, de forma que cada vez mais e mais pessoas decidiram fazer parte, mesmo não sendo católicas mas muitas vezes protestantes, pois hoje há ali inclusive ensino superior. Então, os conflitos dos quais esses heróis participaram no tempo em que eram manipulados pela CPT eram causados pela concentração fundiária ou pela ideologia revolucionária? Resolve-se um problema eliminando-se a sua causa; se eles resolveram sem abolir a "concentração da propriedade da terra" é porque este não era o motivo.

A proposição também é errada pelo que diz do avanço do agronegócio como outra causa desse problema; é mais outra falácia. O agronegócio não é bom só para grandes proprietários, mas também pode ser muito útil e favorável para as propriedades familiares, como são denominadas as pequenas (não creio que as grandes não o sejam, só por causa do fato de não trabalharem pai, mãe e filhos na roça), conforme explicou uma vez um monitor numa disciplina da faculdade. Conforme ele ensinou, a família pode valorizar o produto de sua atividade ingressando no agronegócio, e há no Brasil terras disponíveis para plantio equivalentes à área dos EUA.

O que há, tanto na questão 11 quanto na 13, é simplesmente o seguinte: o avaliador está numa posição de poder, pois como explicou Foucault há na sociedade diversos poderes efetivos além dos oficiais, como os de presidentes, governadores etc. A bibliotecária que pode lhe recusar o empréstimo de um livro possui poder, numa escala micro. E o que ele faz com isso, nos casos em discussão, é simplesmente utilizar da força que possui para violentar a consciência de quem responde a prova, pois assim como um prisioneiro tem de dizer ao seu torturador o que este quer ouvir, sob pena de continuar sendo castigado, o candidato é constrangido a assentir com o que o(s) avaliador(es) deseja(m). Suas proposições são controvertidas, não unânimes nem provadas; não se trata da autoridade do conhecimento, mas do cargo.

A questão 16 traz um texto de um jornalista da Veja sobre novos índios descobertos, que nunca tiveram contato com não-silvícolas, e que diz que pelas estimativas há na Amazônia Legal quase setenta tribos de índios isolados - ou seja, que rejeitaram ou não tiveram nenhum contato com não índios. A política da FUNAI em relação a esses grupos é de não-interferência. Não foi sempre assim."

(08) "O extermínio das nações indígenas das áreas litorâneas e interioranas do país, ao longo de sua história, resultou da incapacidade de aqueles povos se adequarem às formas superiores e civilizadas da sociedade que se constituiu no Brasil."

(16) "A imagem dos "homens vermelhos", como descrita no texto, confrontada com imagens conhecidas dos índios xavantes e dos ianomâmis, indicam a existência de profunda diversidade étnica e cultural entre os povos indígenas do Brasil atual, contestando a interpretação homogênea da cultura indígena atualmente em voga no país.

O extermínio indígena aconteceu por causa da violência alheia, concordo; mas o problema é a negação embutida da idéia de formas superiores de nossa sociedade. Para mim e para muitos, a sociedade que foi constituída no Brasil sob a direção portuguesa é superior à de uma tribo onde se comem outros índios para adquirir suas qualidades, e onde se cometem outras barbaridades. E, se índios recusaram-se a adotar formas superiores de comportamento, pioraram sim as coisas para eles. Mas a formulação das questões também pecam por ambiguidade. Qual é "a interpretação homogênea da cultura indígena atualmente em voga no país"? Eu estou acostumado a ouvir repetir que os índios possuem diferenças culturais e blá blá blá etc etc. Então, há ao menos duas interpretações em vogas no país, a "homogênea" - palavra colocada de maneira equivocada, deveria ser "homogeneizadora" ou "homogenista", pois "homogênea" está sintaticamente errada. Fora isso, dizer que existem "profundas diferenças" devido ao fato de grupos de índios diferentes se pintar de tal ou qual jeito é muita "forçação de barra". O antropólogo é muito acostumado a observar as diferenças, mas muitas pessoas vêem mais semelhanças que diferenças entre índios que caçam e pescam e cultuam forças naturais. Vejo um pouco de razão nos dois lados, especialmente no segundo.

Mas algo muito importante, que não deve se deixar batido, está no texto citado no enunciado, que fala de índios "que rejeitaram ou não tiveram nenhum contato com não índios. A política da FUNAI em relação a esses grupos é de não-interferência. Não foi sempre assim." O final, "não foi sempre assim", provoca no leitor uma simpatia pela política da FUNAI ao remeter à oposição entre a política de interferência, que causou mortes e desaculturação, e a política da FUNAI, que deixa os índios no seu canto; faz parecer que resolvemos um problema, que adotamos a atitude que não foi tomada antes, mas deveria. No entanto, é triste saber que a tribos indígenas não foram dadas oportunidades de conhecer nosso modo de vida e adotar o que tiver de melhor em cada um para eles. Leiam: "que rejeitaram ou não tiveram nenhum contato com não índios". Em várias tribos na Amazônia, crianças indígenas (e não estou falando de aborto, mas de seres cuja humanidade os abortistas ainda não contestam, de seres que já nasceram, andam, falam e choram, ou, choram visivelmente) são mortas devido à política de "deixar de lado" da FUNAI. A quem não chegou a repercussão do caso de Hakani, veja http://www.midiasemmascara.org/?p=7442 ou diretamente no site Hakani.org ; reparem especialmente na reação de um ex-presidente da FUNAI, muito significativa para o que abordo.

Eliminei de minha análise outras questões que originariamente eu havia incluído nesse texto. Não pretenderei completude dessa vez, e acredito que o que foi escrito mostra, com bastante evidência, um certo espírito presente na prova do vestibular da UFBA, e que é muito lamentável mas não surpreendente, porque reflete um espírito muito forte em nosso meio acadêmico hodierno. Retorno agora para a questão do Exemplo 1, para concluí-la: a Universidade é espaço para "progressistas", para esquerdistas, os conservadores não fazem jus a ela? Há, sem dúvida, grandes nomes da intelectualidade conservadora, mas esse fato é desprezado pelos que se arrogam donos da sabedoria conferida pela academia; basta pensar em pessoas como Gilberto Freyre, Miguel Reale, François Furet, Pierre Chaunu, Allan Bloom para se dar conta disso. Serei breve em meu desfecho: cabe aos insatisfeitos com a situação denunciada lutar para garantir seu espaço e sua liberdade na academia. A esquerda tem projetos de poder, ela pensa em termos de "ocupação de espaços", de hegemonia; quem não fazer nada contra, poderá perder tudo para a intelligentsia, e talvez isto não seja oposto ao merecimento de quem se omite. Enquanto estivermos no ambiente universitário, devemos nele agir de acordo com nossas idéias, mas sempre tendo em vista o bem maior que é a verdade, a que nós e nosso pensamento deve se submeter, e nunca o contrário. E que possamos ajudar a UFBA a ser uma grande universidade, e que seu "compromisso social" seja sério e responsável, uma efetivo comprometimento com a bem comum da sociedade e com a civilização que a ampara.

sábado, 17 de janeiro de 2009

Qual Padre da Igreja você é?


Façam esse divertido e inteligente Quiz! Se possível coloquem o resultado nos comentários!

http://www.fathersofthechurch.com/quiz/

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Césare Battisti e os Asilos Ideológicos

Pedro Ravazzano
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Que poético! Césare Battisti, o comunista assassino (redundância?), pelo jeito vai ficar por aqui mesmo. Não é de se estranhar. O Brasil de Lula é quase a terra prometida do esquerdismo internacional, por essas bandas o politicamente correto, de clara influência socializante, toma contornos burocráticos e institucionais. O terrorista italiano, que militava no movimento marxista 'Proletários Armados pelo Comunismo', é acusado de matar quatro civis, além de realizar vários atentados na Itália. Claro que é incensado pela esquerda festiva, recebendo o apoio de pensadores como Bernard-Henri Lévy. Vale frisar que um dos advogados de Battisti é Luiz Eduardo Greenhalgh, o mesmo que depois de assinada a Constituição de 1988 pregava a necessidade da revolução armada, do desmantelamento das Forças Armadas e da revisão da Lei de Anistia para instaurar a perseguição revanchista aos militares que combateram o terrorismo organizado, além do mais, sempre é bom relembrar, foi o advogado dos seqüestradores de Abílio Diniz e Washington Olivetto – militantes do 'Movimento de Esquerda Revolucionária' e 'Exército Geral do Povos-Pátria Livre', ambos marxistas e chilenos - como sempre faz questão de pontuar, Greenhalgh só escolhe suas causas por preferência ideológica. Ademais, é filiado ao PT, protetor do MST, amigo de Lula, Dilma, José Dirceu, Tarso Genro e cheio da bufunfa (fez fortuna com a indústria indenizatória aos ex-terroristas).


Esse é o mesmo governo que negou asilo ao Governador de Pando, Bolívia, Leopoldo Fernández, que ao se levantar contra as atitudes arbitrárias, inconstitucionais, ilegais e revolucionárias de Evo Morales, foi acusado de “conspiracionismo de direita”, sendo encarcerado e julgado.

Esse é o mesmo governo que mandou para Cuba os dois esportistas que, buscando a liberdade, fugiram durante o Pan; única forma de escapar da dura opressão totalitária, onde os mais essenciais direitos individuais são podados.

Fica a questão, será que o governo segue uma cartilha ideológica?

Pior é quem não acredita...

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

O Liberalismo e a Direita

Nota biográfica:

Arnaud Guyot-Jeannin


Tradução: Pedro Ravazzano

Grande figura aristocrática da direita tradicionalista italiana, Giulio Césare Andréa Evola (que adotou o nome de Julius por admiração a Roma antiga) nasceu no seio de uma família da pequena nobreza siciliana. Iniciou os estudos de engenharia, mas rapidamente renuncia para se consagrar as artes e ao estudo das grandes doutrinas filosóficas. Aos 16 anos, com o começo da Primeira Guerra Mundial, Evola parte para a frente de combate para ocupar o posto de oficial de artilharia. Aproveita esses breves momentos de tempo livre para estudar a obra de Nietzsche, Otto Weininger, Carlo Michelstaedter, sem se esquecer dos filósofos franceses - Blonder, Lagneau, Lachelier. Terminada a guerra passa a frequentar, de forma apaixonada, diversos movimentos culturais italianos onde se misturam pontores, poetas etc

O período artístico (1915 - 1923) se sucede o período filosófico (1923 - 1927). É desta forma que, em 1925, surge seu primeiro ensaio "Ensaio sobre o idealismo mágico", seguido de "O Homem como potência", em 1926 (rebatizado em 1949 para "O yôga tântrico", a respeito do qual Marguerite Yourcenar disse: "Compreu uma daquelas obras que durante anos nos alimentos e, por um certo ponto, nos transporta"). Evola consagra duas obras a sua visão antropológica do mundo: "Teoria do indivíduo absoluto" (1927) e "Fenomenologia do indivíduo absoluto" (1930). Entre as duas publicações aparece "Imperialismo pagão" (1928). Obra violentamente anti-cristã¹ e editada no momento em que Benito Mussolini e o regime fascista estavam tendo fortes e conturbadas relações com a Igreja que culminaram no acordo de Latrão, em 1929.

¹ - N. do T. - O tradicionalismo evoliano reconhece na Roma Antiga, pagã, os mesmos poderes espirituais e civilizacionais que, comumente, os tradicionalistas enxergam na Igreja, por exemplo.

***

Resulta sumamente sintomático e humorístico o facto de que hoje em dia se considere o liberalismo como uma doutrina de Direita quando em épocas anteriores os homens da Direita viram-no como um ardil, como uma força subversiva e desagregadora, da mesma maneira que na actualidade – os mesmos liberais – vêem o marxismo e o comunismo. Com efeito, a partir de 1848, o liberalismo, o nacionalismo revolucionário e a ideologia maçónica anti-tradicional, aparecem na Europa como fenómenos estritamente vinculados entre si e é sempre interessante revisitar os antigos exemplares da publicação Civilitá Católica para ver como esta se expressava relativamente ao liberalismo daquela época.

Mas nós deixaremos de lado tal circunstância para fazer uma breve menção, necessária para os nossos fins, em relação às origens do liberalismo. É sabido que tais origens há que procurá-las em Inglaterra, e pode dizer-se que os antecedentes do liberalismo foram feudais e aristocráticos: há que fazer referência a uma nobreza local zelosa dos seus privilégios e das suas liberdades, a qual, desde o Parlamento, tratou de defender-se de qualquer abuso da Coroa. Depois, simultaneamente com o avanço da burguesia, o liberalismo reflectiu-se na ala Whig do parlamento, opondo-se aos conservadores, os Tories. Mas há que referir que o partido desenvolveu a função de "oposição orgânica", mantendo-se firme a lealdade face ao Estado, de tal modo que pôde falar-se em His Majesty's most loyal opposition (a lealíssima oposição de Sua Majestade). A oposição exercia no sistema bi-partidário uma simples função de freio e controlo.

O factor ideológico de esquerda não penetrou no liberalismo senão num período relativamente recente, e não sem relação com a primeira revolução espanhola, de tal modo que a designação originária dos liberais foi a espanhola, é dizer, "liberales" (e não "liberals", como em inglês). E é aqui que começa o declive. Deve ressaltar-se, pois, que o primeiro liberalismo inglês teve um carácter aristocrático: foi um liberalismo de gentleman, isto é, um liberalismo de classe. Não se pensou em liberdades que qualquer um pudesse reivindicar indistintamente. Subsiste ainda hoje em Inglaterra este aspecto são e, no fundo, apolítico do liberalismo: o liberalismo não como uma ideologia político-social, mas como a exigência de que, para além da forma particular do regime político, o sujeito possa gozar de um máximo de liberdade, que a esfera da sua "privacy", da sua vida pessoal privada, seja respeitada e seja evitada a intromissão de um poder estranho e colectivo. Desde o ponto de vista dos princípios este é um aspecto aceitável e positivo do liberalismo que deveria diferenciá-lo da democracia, pois que na democracia o momento social e colectivista predomina sobre o da liberdade individual.

Mas aqui achamo-nos também perante uma mudança de direcção, posto que um liberalismo generalizado e indiscriminado, ao assumir vestimentas ideológicas, fundiu-se no continente europeu com o movimento iluminista e racionalista. Alcançou aqui o primeiro plano o mito do homem que, para ser livre e verdadeiramente fiel a si mesmo, deve desconhecer e recusar toda a forma de autoridade, deve seguir somente a sua razão, não deve admitir outros vínculos para além dos extrínsecos, os quais devem ser reduzidos ao mínimo, pois, ainda assim, sem eles nenhuma vida social seria possível. Em tais termos o liberalismo converteu-se em sinónimo de revolução e de individualismo (mais um passo e chega-se à ideia de anarquia). O elemento primeiro é visto no indivíduo, no sujeito. E aqui são introduzidas duas pesadas consequências sob a direcção daquilo que Croce denominou a "religião da liberdade" mas que nós denominaríamos melhor como fetichismo da liberdade.

A primeira consequência é que o indivíduo já se encontra " evoluído e consciente" e portanto capaz de reconhecer por si mesmo ou de criar qualquer valor. A segunda é que do conjunto dos sujeitos humanos deixados em estado de total liberdade (laissez faire, laissez aller) possa surgir de maneira milagrosa uma ordem sólida e estável: haveria que recorrer à concepção teológica de Leibniz da denominada "harmonia preestabelecida" (pela Providência), de modo tal que, para usar uma comparação, ainda que as engrenagens do relógio funcionassem cada uma por sua conta, o relógio no seu conjunto marcaria sempre a hora exacta. A nível económico, do liberalismo deriva a "economia de mercado" que pode descrever-se como a aplicação do individualismo ao campo económico-produtivo, afectado por uma idêntica utopia optimista a respeito de uma ordem que nasce por si mesma e que é capaz de tutelar verdadeiramente a proclamada liberdade (bem sabemos onde vai parar a liberdade do mais fraco num regime de piratagem e concorrência desenfreada, tal como acontece nos nossos dias, não só entre indivíduos, mas também entre nações ricas e pobres). O espectáculo que hoje nos mostra o mundo moderno é um cru testemunho da arbitrariedade dessas posições.

Chegados a este ponto podemos tirar algumas conclusões. O liberalismo ideológico nos termos recém mencionados é evidentemente incompatível com o ideal de um verdadeiro Estado de Direita. Não pode aceitar-se a premissa individualista, nem a fundamental recusa de todo o tipo de autoridade superior. A concepção individualista tem um carácter inorgânico; a pretensa reivindicação da dignidade do sujeito resulta, no fundo, num menosprezo da mesma através de uma premissa igualitária e niveladora. Assim, nos tempos mais recentes, o liberalismo não colocou qualquer objecção ao regime do sufrágio universal da democracia absoluta, onde a paridade de qualquer voto, que reduz a pessoa a um simples número, é uma grave ofensa ao indivíduo no seu aspecto pessoal e diferenciado. Logo, em matéria de liberdade, descuida-se a distinção essencial entre a liberdade face a algo e a liberdade para algo ( isto é, para fazer algo). Tem muito pouco sentido a manifestação de zelo a respeito da primeira liberdade, da liberdade externa, quando não se sabem indicar ideais e fins políticos superiores em função dos quais o uso da mesma adquira um verdadeiro significado. A concepção básica de um verdadeiro Estado, de um Estado de Direita, é "orgânica" e não individualista.

Mas se o liberalismo, remetendo-se à sua tradição pré-ideológica e pré-iluminista, se limitasse a preconizar a maior liberdade possível da esfera individual privada, a combater toda a abusiva ou desnecessária intromissão na mesma dos poderes públicos e sociais, se o mesmo servisse de obstáculo às tendências "totalitárias" em sentido negativo e opressivo, se defendesse o princípio de liberdades parciais (se bem que o mesmo deveria defender também a ideia de corpos intermédios, dotados justamente de autonomias parciais, entre o vértice e a base do Estado, que levaria a um corporativismo), se estivesse disposto a reconhecer um Estado omnia potens, mas não omnia facens (W.Heinrich), isto é, que exerce uma autoridade superior sem intrometer-se por todo o lado, a contribuição "liberal" seria positiva. Em especial, se levamos em conta a actual situação italiana, poderia ser também positiva a separação, propugnada pelo liberalismo ideológico, da esfera política face à eclesiástica, sempre que isso não signifique a laicização materialista da primeira. Contudo, aqui encontrar-se-ia um obstáculo insuperável, já que o liberalismo tem uma fobia a tudo o que possa assegurar à autoridade estatal um fundamento superior e espiritual e professa um fetichismo pelo denominado "Estado de direito": isto é, um Estado da legalidade abstracta, como se a legalidade existisse por fora da História, e como se o Direito e a Constituição caíssem do céu e com um carácter de irrevocabilidade.

O espectáculo da situação a que conduziu a partidocracia neste regime de massas e de demagogia deveria fazer-nos reflectir sobre a antiga tese liberal ( e democrática) de que o pluralismo desordenado dos partidos seja garantia verdadeira de liberdade. E a respeito da liberdade reivindicada a qualquer preço e em qualquer plano, por exemplo no da cultura, seria necessário fazer hoje em dia uma série de precisões oportunas, se é que não se quer que tudo entre em colapso de forma acelerada. Hoje em dia pode ver-se muito bem de que coisas o homem moderno, convertido finalmente em "adulto e consciente" (de acordo com o liberalismo e a democracia progressista), se tornou capaz com a sua "liberdade", a qual resultou muitas vezes na produção de vírus ideológicos e culturais que estão conduzindo à dissolução toda uma civilização.

Mas a esse respeito o discurso seria demasiado longo e tirar-nos-ia do marco da nossa análise. Supomos que com estas notas, ainda que de maneira extremamente sumária, foi colocado em evidência desde o ponto de vista da Direita tudo aquilo que de positivo e negativo possa apresentar-nos o liberalismo.

Julius Evola, Il Borghese, 10-10-1968

domingo, 11 de janeiro de 2009

Da guerra justa em tempos de Hamas

Edgard Freitas
______________
(AVISO: o artigo é longo.....)


As recentes operações militares conduzidas pelas forças armadas israelenses (IDF) na Faixa de Gaza, que têm por objetivo neutralizar a capacidade combativa do grupo terrorista palestino Hamas, causaram de imediato a reação de pacifistas de todas as matizes[1], invariavelmente exigindo que Israel cesse de imediato a operação e sente para negociar com os facínoras. Acusa-se Israel de não preservar as vidas de civis inocentes (que seriam, supostamente, a maioria dos mais de 800 mortos e de usar força desproporcional. Um Cardeal, Roberto Martino, chegou a afirmar que "As condições em Gaza: cada vez mais, parece um grande campo de concentração" [2], comparando objetivamente os israelenses aos nazistas[3].

O objetivo proclamado é, evidentemente louvável: a proteção das vidas de inocentes de ambos os lados, a percepção de que a paz é preferível à guerra.


A questão que se descortina é: Dentro da tradicional Teoria da Guerra Justa, Israel está travando o bom combate? A saber: Israel tem o direito de travar esta guerra (jus ad bello)? Israel está conduzindo corretamente esta guerra (jus in bello)?

A Guerra Justa, dentro dos ensinamentos de Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino, condensados no Catecismo constitui-se quando se verificam que:

“a) o dano infligido pelo agressor à nação ou à comunidade de nações seja durável, grave e certo;
b) todos os outros meios de pôr fim a tal dano se tenham revelado impraticáveis ou ineficazes;
c) estejam reunidas as condições sérias de êxito;
d) o emprego das armas não acarrete males e desordens mais graves do que o mal a eliminar. O poderio dos meios modernos de destruição pesa muito na avaliação desta condição”.
[4]

Ora:

1. Quanto ao item “a”, é sabido que o Hamas, cuja carta de intenções prega explicitamente a destruição do Estado de Israel [5]. Para tanto, o Hamas lança mão de terroristas suicidas, inclusive contra alvos eminentemente civis, e o disparo de foguetes não guiados contra cidades israelenses, alia-se a nações declaradamente inimigas de Israel (tal como o Irã) além de promover extensa propaganda antissemita na região. Tal constitui, sem dúvida, dano e perigo durável, grave e certo;

2. Quanto ao item “b”, desde o ano 2000 Israel tem promovido concessões aos Palestinos, como a desocupação de Gaza em 2005 e o desmantelamento de assentamentos. Como não cessassem os ataques terroristas, Israel se viu forçado a impor limitações à circulação de palestinos para dentro do território israelense, aumentando a fiscalização sobre armas clandestinas. Por fim, tentou-se uma trégua, prontamente desrespeitada pelo Hamas, que seguiu lançando foguetes contra Israel. Assim, pode-se perceber que os meios pacíficos de dissuasão restaram impotentes para a ameaça;

3. Quanto ao item “c”, a campanha desenrolada em 2006 contra o Hezbollah, no sul do Líbano, mesmo conduzida sem um esforço coordenado de inteligência prévia como a guerra atual, foi capaz de esmigalhar a capacidade operacional do grupo terrorista, que de lá para cá não tornou a ameaçar a integridade física de Israel. A operação em Gaza visa bombardear a capacidade do Hamas de lançar foguetes contra Israel, e eliminar sua liderança ideológica e militar, algo tecnicamente possível;

4. Resta, por fim, o último ponto. Os opositores das operações israelenses que se lastreiam na Teoria da Guerra Justa alegam que Israel frequentemente desrespeita este último ponto, ao conduzir operações em zonas densamente povoadas, sem levar em consideração o uso, pelo Hamas, de escudos humanos. Veremos.

Pelas imagens que nos chegam pela televisão, podemos perceber que Israel tem adotado a estratégia de bombardear alvos em terra a partir de aviões e helicópteros com o uso de mísseis e bombas guiadas a laser. Os alvos são, principalmente, prédios da infraestrutura do Hamas – estações de televisão e rádio, subestações de energia elétrica, quartéis, bunkers, túneis, paióis, esconderijos de líderes, acantonamento de tropas, linhas de trincheiras, veículos e peças de artilharia (rampas lançadoras de foguetes Qassam e Katyusha e morteiros).

Além disso, tropas da IDF incursionaram em diversos pontos de Gaza com o objetivo de cortar a comunicação física entre diversas frações de tropa do Hamas e a fronteira do Egito, donde provém armamento e munição para o grupo Terrorista, estabelecendo um “cordão sanitário” que tem por escopo esgotar a capacidade combativa do Hamas em bolsões.

Tal campanha conduziu a um número aproximado (até o momento em que escrevo este artigo) de 800 mortos do lado palestino (com no mínimo 30% de civis) e 14 mortes de israelenses (3 civis e 3 mortos por fogo amigo).

A julgar o poderio bélico utilizado por Israel, não é cinismo afirmar que o número de mortos do lado palestino, até o presente momento, é baixo. Durante a Segunda Guerra Mundial bombardeios em cidades como Coventry, Londres, Varsóvia e Roterdã (pelos alemães) e Berlim, Dresden e Nuremberg (pelos aliados) matavam dezenas de milhares de civis num espaço de poucas horas. Recordemos que a carga ofensiva transportada por um Caça F-16 ou F-15 é superior à dos Bombardeiros He-111, B-17 e B-24 da última guerra.

O uso de munições “inteligentes” (i.e., bombas e mísseis de precisão) decerto minimiza o risco para populações civis, mas não o elimina. O piloto tem como eliminar um alvo específico, como um prédio, mas não tem como saber se há inocentes dentro do mesmo do mesmo. Também não tem como evitar os chamados efeitos colaterais das explosões, isto é, a extrapolação do alvo que eventualmente atinge civis.
No documento Gaudium et Spes, a Igreja atenta que "Toda a acção bélica que tende indiscriminadamente à destruição de cidades inteiras ou vastas regiões e seus habitantes é um crime contra Deus e o próprio homem, que se deve condenar com firmeza e sem hesitação."[6]. Assim, somente a ação indiscriminada é condenável. A ação contida e moderada que, apesar disso, acarreta em perdas civis não pode ser equiparada ao ataque generalizado, este sim crime contra a Humanidade.

A presença de civis inocentes e escudos humanos deve obstar a condução de operações militares terrestres ou aéreas?

Trata-se de um nó moral, que não é facilmente resolvido. A morte de inocentes é um fato indesejado e trágico, e deve ser evitado ao máximo na condução da guerra.

Ocorre que tal não se confunde com abdicar das operações de guerra caso a morte de inocentes não puder ser evitada em absoluto, ponto bastante sensível se considerarmos que o Hamas, nas suas práticas, se mistura à população civil de maneira deliberada, e incentiva civis a se interporem na linha de tiro. Seus cadáveres são válidos na guerra de propaganda contra Israel.

Ora. Se entendêssemos que Israel deveria se abster de atacar ante a impossibilidade de abater alvos do Hamas sem atingir inocentes[7], estaríamos dizendo, simplesmente, que não há resposta possível para combater a imoralidade do Hamas sem se rebaixar ao mesmo nível dos facínoras. Tertium non datur. A guerra de defesa de Israel contra o terrorismo nunca poderá ser justa – na medida em que o inimigo sempre vai expor civis ao fogo – somente lhe restando bombardear os alvos que o seu inimigo lhe permitir – o que aniquila as chances de vitória, um dos requisitos da guerra justa.

Não estamos, obviamente, a seguir a idéia de Arnaud Amalric, enviado do Papa Inocêncio III durante a Cruzada Albigense, que instruiu aos cruzados para que não se preocupassem em separar os católicos dos hereges dizendo "Mate-os todos. Deixe que Deus reconhecerá os Seus".
Lembremos, entretanto, do que nos avisa São Tomás:

“É por isso que Agostinho escreve: 'É preciso agir fortemente, mesmo com aqueles que resistem, a fim de dobrá-los por uma certa dureza benevolente. Aquele que é privado do poder de fazer o mal sofre uma proveitosa derrota. De fato, nada mais infeliz do que o feliz sucesso dos pecadores, pois a impunidade é alimentada, e sua má vontade, como um inimigo interior, é fortificada.'"[8] (grifo nosso)

Temos assim que não pode ser justa uma ação ou omissão que permita o fortalecimento dos maus. Israel, em não respondendo ao fogo inimigo para preservar seus civis, estará somente fortalecendo moral e materialmente ao seu inimigo, mantendo assim intacta sua capacidade ofensiva contra os próprios civis israelenses.

Note-se que a Conveção IV de Genebra, que trata da proteção da população civil em conflitos não absolutiza essa proteção, estabelecendo, em seu Art. 28:

“A presença de uma pessoa protegida pode não tornar certos pontos ou áreas imunes de operações militares” [9]

Conclusão

Soldados existem para garantir a vida, segurança, propriedade e liberdade dos súditos de um Estado. É para com eles que ele tem o seu principal dever, sendo os fiéis depositários de suas esperanças. Segundo o Catecismo, "Se realizam corretamente sua tarefa, colaboram verdadeiramente para o bem-comum da nação e para a manutenção da paz "[10]

O risco à população inocente é parte inerente da guerra. Sendo inerente à guerra, não pode constituir óbice para a condução de operações de combate desde que os civis não sejam o alvo destas operações. Do contrário, a guerra justa, possível em Teoria, jamais o poderia ser na prática.

O dever do soldado em relação aos inocentes inimigos é o de não agravar desnecessariamente o seu risco. Não implica em exigir que abandone a sua missão primária de proteger seus inocentes para proteger o inocente inimigo mais que o próprio soldado inimigo que os expõe ao invés de protegê-los. E nem que abdique de retornar o fogo quando se vir em combate terrestre, eis que “o amor a si mesmo permanece um princípio fundamental da moralidade. Portanto, é legítimo fazer respeitar seu próprio direito à vida. Quem defende sua vida não é culpável de homicídio, mesmo se for obrigado a matar o agressor (...)”[11]

A responsabilidade moral pela morte de inocentes usados como escudos diretos ou indiretos pertence a quem os utiliza, pois a lei moral – e a Lei Positiva Internacional – exige dos beligerantes que cada qual proteja a sua população civil, preservando o seu status de não-combatente. Assim, não pratica ato contrário às leis da guerra o soldado que, sem ter a intenção de matar inocentes o faz por culpa de ardil do inimigo que torna tais mortes inevitáveis.

É lícita a exigência de moderação para os beligerantes. O que vemos, entretanto, mesmo entre muitos cristãos, é uma atitude francamente hostil ao exercício mesmo do direito de defesa do Estado judeu. O mundo silenciou aos mais de três mil foguetes disparados desde Gaza contra cidades israelenses, mas iniciou um berreiro no exato momento que Israel, após semanas de aviso prévio, reagiu.

O próprio número de vítimas do atual conflito em Gaza mostra que Israel não tem procedido além do necessário para a consecução da missão. Israel não está procedendo bombardeios aleatórios, estilo “carpet bombing”, e nem há provas de que esteja visando em inocentes[12]. A morte dos inocentes é um fato a ser lamentado, mas a exigência de que Israel aborte as operações militares e negocie com um grupo terrorista que prega abertamente a sua destruição e islamização global é uma exigência francamente injusta.

Israel hoje se põe como a linha de frente da civilização ocidental. Os “pacifistas” que exigem um cessar fogo francamente desfavorável a Israel não buscam senão uma paz maligna[13]. Os inimigos de Israel são os mesmos inimigos da Cristandade, portanto o que é bom para os inimigos de Israel não pode ser bom para os cristãos.

Por isso, tendo em vista que a questão levantada no início deste artigo acaba respondida afirmativamente, rezo pelas vidas dos inocentes no conflito ao mesmo tempo em que rezo pela vitória completa do Exército de Israel.

[1] Vide o recente artigo “Conflito na Palestina: Sangue, Fé e Ideologia”, do Pedro Ravazzano, publicado aqui no Acarajé
[2] http://noticias.terra.com.br/mundo/interna/0,,OI3433448-EI308,00-Gaza+e+campo+de+concentracao+diz+cardeal+do+Vaticano.html
[3] O Cardeal, posteriormente alegou que suas palavras não era antiisraelenses, mas para bom entendedor, elas se bastam. Comparando Gaza a um campo de concentração – onde os nazistas cercavam gente inocente e indefesa, especialmente judeus, para posterior extermínio – o Cardeal chamou os israelenses de nazistas pela via oblíqua, apesar da comparação não caber senão na retórica antiisraelense. Por esta razão a Chancelaria de Israel, acertadamente, emitiu nota em que afirma "O vocabulário da propaganda do Hamas, vindo de um membro do Colégio de Cardeais, é um fenômeno chocante e frustrante”. Resposta deveras elegante, se a comprarmos com a de Kruschev quando dos protestos do Vaticano à invasão da Hungria: "De quantas divisões dispõe o Vaticano?" (http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,fala-de-cardeal-gera-tensao-entre-vaticano-e-israel,304514,0.htm )
[4] Catecismo da Igreja Católica, § 2309
[5] http://www.mideastweb.org/Hamas.htm. Explicitamente: "Israel will exist and will continue to exist until Islam will obliterate it, just as it obliterated others before it."
[7] Posso argumentar, ainda, que o civil que voluntariamente se dispõe a proteger com o próprio corpo uma instalação militar abandona ipso facto sua condição de não-combatente, o mesmo ocorrendo com crianças armadas. Claro que, para fins de propaganda do Hamas, cadáveres sem uniforme sempre serão civis inocentes, sem que a mídia ocidental perca tempo tecendo tais considerações "impertinentes".
[8] Questão 40 da segunda parte da segunda parte da Suma Teológica. http://www.newadvent.org/summa/3040.htm . Tradução livre nossa. Neste sentido, São Bernardo de Clairvaux: "Os pagãos até não deveriam ser mortos, se se pudesse impedir dalguma outra maneira as suas grandíssimas vexações e retirar-lhes os meios de oprimir os fiéis. Mas atualmente é melhor que sejam mortos a fim de que, desse modo, os justos não se dobrem à iniqüidade das mãos deles, pois do contrário certamente se manterá a chibata dos pecadores sobre a classe dos justos" ( http://br.geocities.com/worth_2001/bernardmel.html ).
[9] http://www.unhchr.ch/html/menu3/b/92.htm . Tradução livre nossa.
[10] Catecismo da Igreja Católica, §2310
[11] Catecismo da Igreja Católica, § 2264
[12] Sábado, 10/01, Israel lançou panfletos instruindo a população civil a permanecer longe dos Terroristas, de suas armas e instalações. Seria este o padrão de um exército equiparado injustamente ao nazista? - http://g1.globo.com/Noticias/Mundo/0,,MUL950569-5602,00.html
[13] “Aqueles que conduzem a guerra justa visam à paz, portanto não são opostos à paz, mas senão à paz maligna, a que o Nosso Senhor não veio trazer à Terra (MT. 10:34)”. São Tomás de Aquino, Summa Theologica, Q40, II-II, Art. 1, resposta à objeção 3. Tradução livre nossa do inglês - http://www.newadvent.org/summa/3040.htm