sábado, 29 de novembro de 2008

As origens do politicamente correto

por William S. Lind

Bill Lind é diretor do Centre for Cultural Conservatism for the Free Congress Foundation e fez discursos semelhantes a este por diversas vezes em nome da Accuracy in Academia. Em especial, este foi proferido na American University, em 2000. Sua importância é crucial na medida em que traça as raízes intelectuais do discurso politicamente correto. Em geral, as pessoas imaginam que as idéias são como o vento, cuja origem é incerta e desconhecida: ora sopra para um lado, ora para outro. Como dizia Ricard Weaver, idéias têm conseqüências, e encontrar suas origens é essencial para combater o mal que delas deriva.

De onde vêm todas essas coisas que se ouve falar – o feminismo, o movimento gay, as estatísticas inventadas, a história reescrita, as mentiras, os protestos e todo o resto? Pela primeira vez na história os americanos têm motivos para tomar cuidado com o que dizem, com o que escrevem, com o que pensam. Eles têm que ter medo de usar a palavra errada, a palavra tida como ofensiva, insensível, racista, machista ou homofóbica.

Tem-se observado, particularmente neste século, o mesmo cenário em outros países, e a sensação que se tem é de pena e, para falar a verdade, de diversão, além de soar muito estranho que as pessoas possam permitir-se viver numa situação onde elas tenham medo de usar as palavras que usam. E nós estamos vivendo essa situação aqui nos EUA. Primeiro aconteceu nas universidades, mas agora a coisa está se espalhando por toda a sociedade. Qual a origem disso?

Nós chamamos isso de discurso "politicamente correto". O nome originou-se como que uma piada, e nós ainda tendemos a pensar no assunto com metade da seriedade devida. Na verdade, é algo terrivelmente sério. É a grande doença do século, a mesma que fez dezenas de milhões de mortos na Europa, Rússia, China, em todo o mundo. É a doença da ideologia.

Se olharmos o problema de maneira analítica, de maneira histórica, rapidamente descobriremos sua natureza exata. Politicamente correto é igual a marxismo cultural. É marxismo traduzido de termos econômicos para termos culturais. É um esforço que começa não nos anos 1960, com os hippies e o movimento pacifista, mas sim na Primeira Guerra Mundial. Se nós compararmos os conceitos básicos do politicamente correto com o marxismo, o paralelo entre eles é bastante óbvio.

Em primeiro lugar, ambos são ideologias totalitárias. A natureza totalitária do politicamente correto não poderia ser revelada de maneira mais clara do que nos campi universitários, os quais muitos são hoje em dia pequenas Coréias do Norte com jardim, onde os estudantes e professores que ousam cruzar qualquer dos limites colocados por feministas, ou por ativistas pró-homossexuais, ou por grupos negros ou hispânicos locais, ou quaisquer outros grupos que o politicamente correto possa girar em torno, rapidamente se vêem em problemas judiciais. Dentro do pequeno sistema legal da universidade, eles enfrentam acusações formais – alguns procedimentos inquisitórios – e punição. Essa é uma pequena amostra do que o politicamente correto pretende para todo o país.

Na verdade, todas as ideologias são totalitárias porque a essência de uma ideologia (lembro que conservadorismo, corretamente entendido, não é uma ideologia) é afirmar, com base em uma filosofia, que certas coisas devem estar de acordo com ela – como, por exemplo, a idéia de que toda a história da nossa cultura resume-se à opressão das mulheres. Como a realidade contradiz essa filosofia, então a realidade mesma deve ser proibida. E é preciso tornar-se proibida para que reconheçamos a realidade da nossa história. As pessoas devem ser forçadas a viver uma mentira, e já que as pessoas são naturalmente relutantes em fazê-lo, elas naturalmente usam seus olhos e ouvidos e pensam: "Espere um minuto. Isto não é verdade. Eu posso ver que não é". Então o poder do Estado deve ser colocado por trás da exigência de se viver uma mentira. É por isso que ideologias invariavelmente dão origem a Estados totalitários.

Em segundo lugar, o marxismo cultural do politicamente correto, como a economia marxista, tem uma singular explicação da história. A economia marxista afirma que toda a história é determinada pela propriedade dos meios de produção. O marxismo cultural, ou politicamente correto, afirma que a história é determinada pelo poder, onde grupos são definidos em termos de raça, sexo, etc., e têm o poder sobre outros grupos. Nada mais importa. Na verdade, toda literatura é sobre isso. Todas as coisas passadas têm a ver com isso.

Em terceiro lugar, do mesmo modo que certos grupos na economia marxista clássica, i.e. trabalhadores e camponeses, são bons a priori, e outros grupos, i.e. burgueses e donos de capital, são maus, no marxismo cultural politicamente correto certos grupos também são bons – mulheres feministas (somente elas, mulheres não-feministas são tidas como inexistentes), negros, hispânicos, homossexuais. Esses grupos são escolhidos para serem "vítimas" e, por isso, são automaticamente bons, não importa o que façam. Similarmente, machos brancos são automaticamente determinados para serem maus, tornando-se assim o equivalente aos burgueses da economia marxista.

Em quarto lugar, ambos (marxismo econômico e cultural) baseiam-se na expropriação. Quando os marxistas clássicos – os comunistas – tomaram o poder na Rússia, eles expropriaram a burguesia tomando suas propriedades. Do mesmo modo, quando marxistas culturais tomam um campus universitário, eles expropriam por meio de quotas de admissão. Quando um estudante branco mais qualificado tem a sua admissão negada em favor de um negro ou de um hispânico não tão qualificado, o estudante branco é expropriado. Empresas de propriedade de brancos não conseguem um contrato porque este é reservado para uma empresa de propriedade de, digamos, hispânicos ou mulheres. Logo, expropriação é a principal ferramenta para ambas as formas de marxismo.

E, finalmente, ambos têm um método de análise que automaticamente dá a resposta que eles querem. Para o marxista clássico, o método é a economia marxista. Para o marxista cultural, o método é o desconstrucionismo. Essencialmente, o desconstrucionismo remove todo o sentido de um texto e reinsere qualquer sentido desejado. Então nós descobrimos, por exemplo, que toda a obra de Shakespeare é sobre a opressão das mulheres, ou a Bíblia é sobre raça e sexo. Todos esses textos tornaram-se úteis para provar que "toda a História é sobre quais grupos têm poder sobre os outros". Por isso os paralelos são tão evidentes entre o marxismo clássico - que nós conhecemos da antiga União Soviética - e o marxismo cultural - que nós vemos hoje como na forma do politicamente correto.

Mas os paralelos não são acidentais. Os paralelos não vieram do nada. O fato é que o politicamente correto tem uma história muito mais longa do que as pessoas pensam, exceto para um pequeno grupo de acadêmicos que têm estudado o assunto. E a história vai, como eu disse, de volta à Primeira Guerra Mundial, da mesma forma que tantas patologias que vêm destruindo nossa sociedade e, no fim, nossa cultura.

* * *

A teoria marxista dizia que quando a guerra generalizada na Europa chegasse (como aconteceu em 1914), a classe trabalhadora da Europa iria se levantar e derrubar seus respectivos governos – os governos burgueses – porque os trabalhadores tinham mais em comum com os seus pares de outros países do que com a burguesia e a classe dominante nos seus próprios países. Bem, 1914 chegou e isso não aconteceu. Por toda a Europa os trabalhadores agarraram-se às suas bandeiras nacionais e marcharam satisfeitos para lutar uns contra os outros. O Kaiser apertou as mãos dos social-democratas alemães e disse que naquele momento não havia partidos, só havia alemães. E isso aconteceu em cada país da Europa. Alguma coisa estava errada.

Os marxistas sabiam que, por definição, esse algo não poderia ser a teoria. E dois marxistas começaram a pensar nisso: Antonio Gramsci na Itália e Georg Lukacs na Hungria. Gramsci disse que os trabalhadores jamais iriam perceber os seus verdadeiros interesses de classe, como assim definidos pelo marxismo, até eles serem libertados da cultura ocidental, particularmente do Cristianismo, uma vez que todos eles estavam cegos pela religião e pela cultura aos seus reais interesses de classe. Lukacs, que foi considerado o teórico marxista mais brilhante desde o próprio Marx, perguntou-se, em 1919: "Quem irá nos salvar da cultura ocidental?" Ele também teorizou que o grande obstáculo à criação do paraíso marxista era a cultura e, por conseguinte, a própria civilização ocidental.

Lukacs teve a chance de pôr suas idéias em prática, porque quando o governo bolchevique Bela Kun tomou o poder na Hungria em 1919, ele tornou-se Comissário para a Cultura naquele país, sendo que seu primeiro ato foi introduzir a educação sexual nas escolas húngaras. A medida assegurou que os trabalhadores não apoiassem o governo, porque os húngaros a detestavam, tanto trabalhadores como qualquer um. Mas ele já tinha feito a conexão que hoje muitos de nós encaramos com surpresa, como uma coisa moderníssima.

* * *

Em 1923, na Alemanha, foi fundado um centro de estudos que tomou para si a tarefa de traduzir o marxismo de termos econômicos para culturais, o que criou o discurso politicamente correto que conhecemos hoje, tendo, portanto, suas bases assentadas essencialmente no fim da década de 1930. Isso foi possível por causa de Felix Weil, filho de um milionário comerciante alemão, que se tornou marxista e tinha um bocado de dinheiro para gastar. Contrariado com as divisões dentro das fileiras marxistas, Weil patrocinou a Primeira Semana de Trabalho Marxista, reunindo Lukacs e muitos outros importantes pensadores alemães para discutir sobre as diferenças do marxismo.

Então Weil decide que era preciso criar um think thank. Washington é cheia de think thanks, e nós pensamos que eles são novidades. Na verdade, eles existem há muito tempo. Weil subsidiou um instituto associado à Universidade de Frankfurt, fundado em 1923, que era originariamente para ser conhecido como o Instituto para o Marxismo. Mas as pessoas por trás dele decidiram logo no começo que não era do seu interesse serem identificados abertamente como marxistas. A última coisa que o politicamente correto quer é que as pessoas percebam que ele é uma forma de marxismo. Então eles decidiram chamá-lo de Instituto de Pesquisa Social.

Weil tinha muita clareza dos seus objetivos. Em 1971, quando o Instituto de Pesquisa Social rapidamente ficava conhecido informalmente, ele escreveu para Martin Jay - autor de um livro sobre os princípios da Escola de Frankfurt – dizendo: "Eu quero que o Instituto fique conhecido, talvez até famoso, em função de suas contribuições para o marxismo." Bem, ele teve o que queria. O primeiro diretor do Instituto, um economista austríaco chamado Carl Grunberg, finalizou seu discurso, de acordo com Martin Jay, "colocando de maneira clara sua convicção pessoal na metodologia científica do marxismo". Segundo ele, o marxismo seria o princípio norteador do Instituto, e isso jamais mudou.

Os trabalhos iniciais do Instituto eram convencionais, mas em 1930 assumiu um novo diretor chamado Marx Horkheimer, e as visões dele eram bem diferentes. Ele era definitivamente um marxista renegado. As pessoas que criaram e formaram a Escola de Frankfurt eram todos eles marxistas renegados. Eles eram ainda verdadeiramente marxistas no seu pensamento, mas tinham efetivamente saído do Partido. Moscou, observando o que eles faziam, diria algo como "Hei, isto não somos nós, não iremos apoiar uma coisa dessas."

A primeira heresia de Horkheimer é que ele era muito interessado em Freud, e a chave para que ele pudesse traduzir o marxismo de termos econômicos para termos culturais era essencialmente a sua combinação com o freudismo. Mais uma vez, Martin Jay escreve que "Se podemos afirmar que, no começo de sua história, o Instituto preocupava-se primeiramente com a subestrutura sócio-econômica da sociedade burguesa" – e eu observo que Jay é bastante simpático à Escola de Frankfurt, não estou citando um crítico a ela aqui –, "nos anos que se seguiram seus interesses iniciais eram por sua superestrutura cultural. De fato, a fórmula marxista tradicional, no que diz respeito à relação das duas, foi posta em questão pela Teoria Crítica."

Todas essas coisas da moda – feminismo radical, os departamentos de estudos das mulheres, dos gays, dos negros – todas elas são ramificações da Teoria Crítica. O que a Escola de Frankfurt faz essencialmente é usar tanto o marxismo quanto o freudismo nos anos 1930 para criar o que se conhece por Teoria Crítica. O termo é engenhoso porque você fica tentado a perguntar, "Do que se trata a teoria?" A teoria serve para criticar. A teoria é o caminho para destruir a cultura ocidental e não aceitar que o capitalismo seja uma alternativa. Seus teóricos explicitamente se recusam a aceitar essa hipótese. Eles afirmam que a alternativa capitalista não é válida, uma vez que não nos é dado imaginar como deve ser uma sociedade livre (a definição deles de sociedade livre). Dado que nós estamos sob repressão – a repressão da ordem capitalista que cria (na teoria deles) a patologia descrita por Freud da repressão individual – nós não podemos imaginá-la. A Teoria Crítica resume-se em simplesmente criticar. E isso pede a crítica mais destrutiva possível, em todas as possibilidades, projetada para destruir a ordem contemporânea. E, claro, quando ouvimos das feministas que toda a sociedade está contra as mulheres e assim por diante, esse tipo de crítica deriva da Teoria Crítica. Tudo vem dos anos 1930, não dos anos 1960.

Outros membros importantes que se juntaram ao time foi Teodoro Adorno e, especialmente, Erich Fromm e Herbert Marcuse. Fromm e Marcuse introduziram um elemento que é central no politicamente correto: o sexo; particularmente Marcuse, que em seus próprios escritos clamava por uma sociedade "polimorficamente perversa", a sua definição para a sociedade futura que desejava criar. Nos anos 1930, Marcuse escrevia coisas bastante extremadas sobre a necessidade de liberação sexual, mas essa acabou tornando-se uma bandeira de todo o Instituto. Mais uma vez, um dos principais temas do politicamente correto começou nos anos 1930. Na visão de Fromm, masculinidade e feminilidade não refletiam diferenças essenciais como os românticos tinham pensado. Na verdade, essas diferenças derivavam de funções da vida, que eram em parte socialmente determinadas. "Sexo é uma convenção; diferenças sexuais são convenções."

* * *

Outro exemplo é a ênfase que verificamos hoje no ecologismo. "Desde Hobbes, o materialismo levou a uma manipulação dominadora sobre a natureza". Este é Horkheimer escrevendo, em 1933, na obra Materialismus und Moral. "O tema da dominação do homem sobre a natureza", de acordo com Jay, "deveria tornar-se uma preocupação central da Escola de Frankfurt nos anos seguintes." "O antagonismo da fetichização do trabalho de Horkheimer (aqui ele está obviamente partindo da ortodoxia marxista) expressa outra dimensão do materialismo, da demanda pelo humano, pela felicidade sensual." Num dos seus mais profundos ensaios, Egoísmo e o Movimento para a Emancipação, escrito em 1936, Horkheimer "discute a hostilidade com relação à gratificação pessoal, inerente à cultura burguesa." E ele especificamente faz referência favorável ao Marquês de Sade, pelo seu "protesto... contra o ascetismo em nome de uma moral mais elevada."

Mas como as coisas chegaram nesse ponto? Como entraram nas nossas universidades e em nossas vidas? Os membros da Escola de Frankfurt são marxistas, mas também são judeus. Em 1933, os nazistas tomaram o poder na Alemanha e, naturalmente, fecharam o Instituto de Pesquisa Social. Os membros do Instituto deixaram o país. Eles foram para Nova York, onde o Instituto foi restabelecido com o suporte da Columbia University. E gradualmente os membros do Instituto, durante os anos 1930 – apesar de muitos deles ainda escreverem em alemão – mudaram o foco da Teoria Crítica sobre a sociedade alemã - o criticismo sobre cada aspecto daquela sociedade - para a sociedade americana. E houve outra importante transição quando chegou a guerra. Alguns deles foram trabalhar no governo, incluindo Herbert Marcuse, o qual se tornou figura chave na OSS (a precursora da CIA), e muitos outros, incluindo Horkheimer e Adorno, mudaram-se para Hollywood.

Essas origens do politicamente correto não significariam muito para nós hoje não fosse dois eventos subseqüentes. O primeiro foi a rebelião dos estudantes nos anos 1960, a qual se deu em grande parte pela resistência à convocação para as forças armadas e à Guerra do Vietnã. Mas os estudantes rebeldes precisavam de algum tipo de teoria. Eles não podiam simplesmente dizer: "Que se danem, nós não iremos"; eles precisavam de algum suporte teórico por trás disso. Poucos deles estavam interessados em se embrenhar na leitura de "O Capital". O marxismo econômico clássico não é nada leve, e a maioria dos radicais da década de ‘60 eram pouco profundos. Felizmente para eles, e infelizmente para nosso país como um todo – não só para a universidade – Herbert Marcuse permaneceu na América depois que a Escola de Frankfurt restabeleceu-se na Alemanha depois da Guerra. Na Alemanha, enquanto Adorno ficava estarrecido quando estourou a rebelião por lá – os estudantes invadiram a sala de aula de Adorno e ele chamou a polícia para prendê-los –, Herbert Marcuse, que permaneceu nos EUA, viu na revolta a grande chance. Ele percebeu a oportunidade de transformar os trabalhos da Escola de Frankfurt na teoria da New Left nos EUA.

Um dos livros de Marcuse foi essencial para o processo. Este livro transformou-se na bíblia do SDS (*) e dos estudantes rebeldes dos anos 1960. Em Eros e Civilização, Marcuse argumenta que sob a ordem capitalista (ele maquia fortemente o marxismo, o subtítulo é Uma Investigação Filosófica de Freud, mas o esqueleto é marxista) a repressão é a sua essência, e disso resulta na descrição freudiana: o indivíduo com todos os complexos e neuroses em função do desejo sexual reprimido. É possível enxergar um futuro - uma vez que se possa destruir a ordem repressiva vigente – no qual sendo Eros liberado, libera a libido, o que conduz ao mundo da "perversidade polimórfica" onde "cada um pode fazer o que quiser". Diga-se de passagem, nesse mundo não haverá mais trabalho, somente diversão. Que mensagem maravilhosa para os radicais dos anos 1960! Eles eram estudantes, eram baby-boomers, e estavam crescendo sem ter que se preocupar com nada, exceto em eventualmente arrumar um emprego. E aqui você tem um sujeito escrevendo umas coisas muito fáceis de serem seguidas. Ele não exige dos jovens densas leituras de marxismo e, principalmente, diz a eles as coisas que querem ouvir. "Faça o que quiser", "É gostoso fazer isso" e "Vocês nunca vão ter que trabalhar". Aliás, Marcuse foi o homem que inventou a frase "Faça amor, não faça a guerra." Voltando para o problema enfrentado nos campus, Marcuse define "tolerância libertadora" como intolerância para tudo que vem da direita e tolerância para qualquer coisa que venha da esquerda. Marcuse juntou-se à Escola de Frankfurt em 1932 (salvo engano). Mais uma vez, a coisa começou na década de ‘30.

Por fim, a América passa hoje pela maior e mais terrível transformação na sua história. Os EUA estão se transformando num Estado ideológico, num país com uma doutrina oficial apoiada pelo poder estatal. Há pessoas cumprindo pena por "crimes de ódio", ou seja, crimes políticos. E o Congresso movimenta-se no sentido de expandir essa categoria de crimes ainda mais. A ação afirmativa é parte disso. O terror contra qualquer um que discorde do ‘politicamente correto’ nas universidades é parte disso. Exatamente o que aconteceu na Rússia, na Alemanha, na Itália, na China, está ocorrendo aqui. E nós não percebemos porque nós chamamos isso de politicamente correto e nos rimos. Minha mensagem é que isso não tem graça nenhuma, está bem aqui, está crescendo, e eventualmente vai destruir – como deseja fazer, tudo o que nós sempre entendemos por nossa liberdade e nossa cultura.

Publicado por Academia.org

Tradução: Eduardo Ribeiro

(*) N. do T.: SDS é a Students for a Democratic Society, uma organização estudantil fundada em 1960 para promover a participação em assuntos governamentais (após o início da Guerra do Vietnã dedicou-se a protestar ativamente contra a guerra).

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Gramsci, fundador do PC italiano, teria se convertido antes de morrer

CIDADE DO VATICANO (AFP) - O filósofo Antonio Gramsci, fundador do Partido Comunista italiano, encontrou a fé antes de sua morte em 1937, afirmou nesta terça-feira um prelado do Vaticano, dando um caráter oficial a velhos rumores que circulam na Itália onde Gramsci goza de um grande prestígio intelectual e moral.Monsenhor Luigi De Magistris, 82 ans, ex-adjunto da Penitenciaria Apostólica (um tribunal do Vaticano encarregado dos problemas de consciência) fez o anúncio durante uma entrevista à imprensa de apresentação de um álbum consagrado a imagens piedosas.

Antonio Gramsci, marxista italiano nascido em 1891, passou os onze últimos anos de sua vida na prisão onde havia sido jogado pelo regime fascista de Mussolini. Tuberculoso e hipertenso, morreu de hemorragia cerebral em 27 avril 1937 numa clínica religiosa, seis dias após ter sido posto em liberdade.

Segundo Monsenhor De Magistris, o filósofo "tinha no quarto a imagem de santa Teresa do Menino Jesus", e durante os últimos dias da doença pediu aos religiosos "que lhe levassem a imagem do Menino Jesus" para que pudesse beijá-la.

"Gramsci recebeu os sacramentos ao morrer, quando retornou à fé de sua infância", afirmou o prelado.

Antonio Gramsci é uma grande figura intelectual italiana cuja influência ultrapassou as fronteiras de seu país. Uma de suas teorias mais conhecidas está relacionada ao papel dos intelectuais no mundo, que não se limita a produzir o discurso mas passa pela organização de práticas sociais.

O filósofo e ex-parlamentar comunista Beppe Vacca, presidente do Instituto Gramsci, rejeitou as revelações de Monsenhor De Magistris.

"Nenhum dos numerosos documentos editados e inéditos sobre as últimas horas de Antonio Gramsci não dá crédito à tese da conversão", declarou ele à agência Ansa.

As cinzas de Antonio Gramsci, que foi incinerado, repousam no "cemitério acatólico" de Roma, criado no século 19.

http://br.noticias.yahoo.com/s/afp/081125/mundo/it__lia_religi__o_hist__ria

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Um dia de marxista!

A Mídia e o Nordestino; Audiência e Preconceito

O Brasil é um país agraciado com uma rica heterogeneidade de pensamento, diversidade essa sustentada por um elo comum, um ethos que norteia a construção da compreensão que o brasileiro tem dele mesmo.


A Terra de Santa Cruz, diferentemente dos outros países da América Latina, não passou por um processo de dissolvimento da unidade nacional. Se opondo ao que ocorreu com as ex-colônias espanholas, a nação brasileira ganhou força e identidade justamente por nutrir seu peso interno através da manutenção da união entre as províncias que compunham o país. Desse modo, mesmo com uma miscelânea cultural, o Brasil pôde se firmar como uma nação que carregava em seu âmago uma diversidade cultural, econômica, étnica etc.

De fato, nunca se saberá até que ponto a unidade interna do país foi essencial para o fortalecimento do Brasil, a questão é que a experiência passada pelas colônias espanholas mostrou que a desfragmentação regional apenas possibilitou o nascimento de repúblicas instáveis e polvorosas.

De acordo com o historiador, jurista e sociólogo brasileiro, Francisco José de Oliveira Vianna, a unidade brasileira não surgiu naturalmente, reflexo de uma aspiração popular, ao contrário, foi um longo processo, duro e doloroso, que perpassou pelas enormes diferenças que distanciavam as províncias. Enquanto nas vizinhas colônias espanholas a divisão se tornou a saída para as desavenças culturais e políticas, no Brasil houve uma proposital luta em busca da comunhão interna:
Proclamada a independência da colônia, o pensamento dos homens, a que ia caber a formidável incumbência de organizar o governo nacional, já não podia ser o outro: a necessidade de manter a unidade política do país toma o primeiro lugar no plano das suas cogitações construtoras. Eles não têm diante de si uma vasta colônia a explorar(...) mas, uma pátria a organizar, uma nação a construir, um povo a governar e dirigir (...) um povo esfacelado em quase vinte partes autônomas, com pequeníssimas, se não nulas, relações de interdepen dência (...) o sentimento de uma pátria única não está ainda formado: as várias capitanias, que vão ser as futuras províncias, não se sentem membros de uma mesma família. (VIANNA, 1956)


Dentro de uma análise marxista ortodoxa, não houve uma mudança do modo de produção quando o eixo econômico se deslocou do Nordeste para o Sudeste. As características do trabalho evoluíram, saíram do processo manufatureiro para a produção industrial. Não obstante, as mesmas relações de produção, pautadas na opressão do trabalhador que, através do processo de alienação vê o produto do seu trabalho explorado pelos capitalistas, continuaram. Entretanto, é pertinente frisar, que a nova geografia econômica industrializada perpetuou os processos produtivos exploratórios e, ao se enxergar como a vanguarda nacional, estabeleceu um modelo discriminatório ao resto do país, com ênfase a região nordestina que, na visão desses homens, representava, mesmo que inconscientemente, um período de letargia e retrocesso no crescimento da economia brasileira.

Ademais, foi com a mudança no centro econômico, político e comercial do país que houve o boom tecnológico. Assim sendo, a tecnologia, vista por muitos sociológos como representação do modo de produção capitalista, “um instrumento de controle e dominação” (MARCUSE, 1999), reproduzindo o comportamento e os padrões da classe dominante, ao se concentrar historicamente no eixo Rio – São Paulo, desde a sua estruturação no Brasil, fincou as bases de uma visão preconceituosa em relação ao Nordeste. Essa região, em uma análise pessoal, é a “proletarização geográfica”, estados que personificariam a imagem do retrocesso.

A tecnologia, como modo de produção, como a totalidade dos instrumentos, dispositivos e invenções que caraterizam a era da máquina, é assim, ao mesmo tempo, uma forma de organizar e perpetuar (ou modificar) as relações sociais, uma manifestação do pensamento e dos padrões de comportamento dominantes, um instrumento de controle e dominação (MARCUSE, 1999)

O modelo midiático torna o eixo Rio – São Paulo representante da essência nacional. Por exemplo, o sotaque da Bahia carrega uma herança deveras tradicional, a própria pronúncia baiana do alfabeto é originada do português arcaico. Não obstante, mesmo com essa herança legítima nas raízes lusas, que de forma alguma é relevante já que a língua vive em constante metamorfose, sem isso não existiria filologia, essas regiões do país que, não por coincidência são as mais ricas, estabelecem um modelo de Brasil, língua e comportamento.

A Rede Globo de Televisão, através do programa Zorra Total, estimula e alimenta uma idéia de baianidade que, de forma alguma, condiz com a realidade. O personagem Bethânio do programa acima citado apenas incita uma idéia caricata e perversamente exagerada da Bahia. O que São Paulo e o Rio de Janeiro entendem por Nordeste se deve, em grande parte, a ação midiática que veicula um imagem da região invetada em estúdio. Em especial é a mídia que se deve a idéia, hoje aceita nacionalmente, que a região nordestina é homogênea, que os sotaques são os mesmos, que a cultura é igual. Entretanto, qualquer real conhecedor sabe que estados como Bahia, Pernambuco e Piauí têm diferenças lingüísticas, culturais e sociais bem claras. A construção de uma imagem caricata, debochada, humorística do nordestino, apenas continua um processo de depreciação dessa gente. De certa forma, esse círculo vicioso degringola no fortalecimento da imagem do “sudestino”, em especial do paulista, como sério, comprometido e trabalhador. Se na Bahia tudo é festa, carnaval e animação, em São Paulo anda a locomotiva do Brasil. Essa é a clara mensagem transmitida, mesmo que indiretamente.

A mídia, enquanto mais uma “superestrutura” (usando um termo muito caro para Marx), apenas corresponde a uma relação de produção que, juntamente com estruturas econômicas e jurídicas, determina as formas de consciência social.
Na produção social da sua vida, os homens contraem determinadas relações necessárias e independentes da sua vontade, relações de produção que correspondem a uma determinada fase de desenvolvimento das suas forças produtivas materiais. O conjunto dessas relações de produção forma a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se levanta a superestrutura jurídica e política e à qual correspondem determinadas formas de consciência social. (MARX, 1859)
Como foi exposto ao longo do texto, a discriminação tem um fundamento histórico, econômico e cultural. A transformação do Sudeste em centro do Brasil, seja através da mudança da capital de Salvador para o Rio de Janeiro como pela transformação do processo produtivo manufatureiro, reinante no período de pujança do Nordeste, para a industrialização tardia concentrada em São Paulo, condicionou a mentalidade discriminatória. Os estados do norte-nordeste, largados a míngua, na nova periferia nacional, aqueles que outrora detinham o controle do país num período onde os estados do sudeste, tirando Minas Gerais, nem de perto imaginavam o futuro promissor que teriam, se viram sem capital, sem poupança, sem investimento, sem crescimento econômico; uma seqüencia necessária para qualquer progresso nacional.

O jeito alegre de viver do nordestino, como visto pelo Sudeste, não é uma mera estereotipização inocente. A idéia do baiano, por exemplo, preguiçoso, festeiro, carnavalesco, apenas alimenta o ideal de um nordeste letárgico, irresponsável, sem participação no desenvolvimento do país. Esse imaginário, como foi dito no texto, se origina no fato de que a concentração do poder econômico brasileiro, no eixo Rio – São Paulo, através do progresso tecnológico, fez dessa região a encarnação geográfica das elites dominantes, detentoras dos meios de produção. O NE, por sua vez, apenas vive o papel da região sofrida, falida e entregue a penúria, não por menos descrição que se encaixaria em qualquer estereótipo do trabalhador médio nacional no início do séc. XX. Desse modo, concluí-se, com precisão, que a região nordestina personificou em larga escala um preconceito pontual, uma discriminação inicialmente voltada ao povo que, conseqüentemente, se alastrou a toda região através de um processo de “simplificação” e “empobrecimento”, onde nove estados com diferenças culturais e lingüísticas, vitimas de um hermenêutica sociológica preconceituosa, passam a ser vistos como iguais.

A estereotipização midiática do nordestino carrega com ela algumas características bem peculiares; primeiro que ela tende a uniformizar, as enormes discrepâncias culturais, tradicionais, contidas na região são deixadas de lado em nome de uma análise reduzida e restrita a pontos que, em nada, representam a totalidade regional. Em segundo lugar essa interpretação estereotipada é essencialmente simplista, como qualquer rotulação. Desse modo se renega os séculos e séculos de história e desenvolvimento cultural do NE. Vale pontuar que essa estereotipização não necessariamente carrega um fundamento discriminatório proposital. Muitas pessoas adotam essa visão por ser ela amplamente difundida na grande mídia, entretanto, mesmo visivelmente não nutrindo obrigatoriamente o preconceito, essa rotulação é, em sua origem basilar, reflexo de uma ótica odiosa. Por fim, se faz pertinente lembrar, que esse estereótipo adota uma interpretação hiperbólica dos fatos, exagerando carnavalescamente pontos de fato existentes e, por sua vez, inventando outros que são inverídicos.

A discriminação do nordestino é fruto da soma de diversos fatores históricos, culturais, econômicos e políticos. Como foi exposto ao longo do texto, sem dúvida alguma a radical concentração do poderio econômico, comercial e tecnológico no sudeste instituiu um ideal discriminatório. O NE passou então a ser compreendido como o insucesso brasileiro, a pobreza e o atraso. Essas conclusões geográficas se uniram ao preconceito mirado no povo da região, visto como preguiçoso, lento, feio, no máximo alegre e expansivo, não obstante, esse ótica aparentemente positiva surgiu como antípoda da auto-compreensão que os habitantes do Sudeste tinham deles mesmos; os trabalhadores.

A mídia alimentou esse ideal, na verdade não se pode definir até que ponto essa visão preconceituosa e generalizadora é demérito total e completo da mass media. Os programas de TV, novelas, quadros humorísticos, estimularam o povo brasileiro a enxergar o Nordeste como uma região caricatural, além de simplificar a tão rica heterogeneidade presente nos diversos estados. O Nordeste da mídia não é, de fato, o Nordeste do fardo, um peso carregado pelo resto do Brasil, entretanto, não é o Nordeste historicamente relevante, culturalmente essencial e economicamente uma grande promessa (Salvador, Recife e Fortaleza já despontam como importantes capitais no cenário econômico nacional), para os meios de comunicação o Nordeste é apenas uma terra distante, com um povo festeiro e de fala estranha. Entretanto, tanto essa compreensão aparentemente inocente, quanto a do Nordeste letárgico, carregam, da mesma forma, o gérmen da discriminação.

Pedro Ravazzano
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Viu como não é difícil reproduzir as velhas idéias marxistas?

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Subjetividade e Objetividade

Todas as questões que interferem no consumo, na capacidade de escolha dos indivíduos, perpassam, obrigatoriamente, pela subjetividade, já que ela é latente a existência e a condição humana. Viver é escolher, fazer julgamentos, selecionar caminhos. Esses desejos particulares não podem se resumir a equações e teoremas matemáticos, mas devem ser compreendidos como ações individuais motivadas pelos próprios interesses que maximizam o bem-estar da sociedade.

A matematização, ou melhor, a objetivização da economia, se iniciou com a Escola Marginalista; Walras, Menger* e Jevons, mas também foi impulsionada por Keynes e keynesianos, assim como Neoclássicos, Monetaristas. Desse modo, se inculcou na cabeça dos estudantes e pensadores da economia que todos os Liberais, tirando o estatólatra Keynes, são essencialmente matemáticos, e que as idéias de Equilíbrio, assim como a análise histórica e a excessiva metodologia quantitativa, muitas delas vistas como utópicas e ilusórias pelos críticos, são devaneios dos defensores do Livre-Mercado e do Estado minimo.

Aqui vale um adendo, Keynes, aluno do neoclássico Marshall, o defensor da teoria objetiva do valor (mesmo tentando sintetizar a idéia clássica do custo de produção com o princípio da utilidade marginal) e grande promotor do método analítico-matemático, colocou um verniz matemático, um formalismo exato, objetivo, "simplificante" (não se leia simplista), adotando um "jargão algébrico e geométrico", ou como diria Von Mises "simplesmente traduziu seus sofismas para a duvidosa linguagem da economia matemática" Exatamente! Keynes, como é de fácil constatação, produziu poucas equações, mas sua simples equações trazem simples relações como se os eventos fossem...simples, e na verdade são complexos, como a EA mostra ao se basear no individualismo metodológico, com a combinação das capacidades individuais movidas pela ação humana, diferentemente do Lord que, como disse Rothbard, "reduz os motivos subjetivos à organização econômica vigente, costumes, padrões de vida, etc., e os assume como dados (...) Keynes simplesmente afirma sem discussão que esse fator [mudanças futuras de renda que alteram o consumo individual, por exemplo] “acabará se homogeneizando na comunidade como um todo”." Enquanto austríacos levam em conta a relação entre os indivíduos, a praxeologia, a inerente ação humana como determinante no processo econômico, keynesianos, assim como monetaristas, só enxergam os agregados econômicos como a maneira mais confiante de se analisar as estruturas da economia.

Ainda vale lembrar que os Novos Clássicos, ao partirem da premissa de que a ação dos agentes econômicos se fundamenta numa racionalidade a ponto de criar uma expectativa (racional) sobre o desenvolvimento futuro da economia, quase com poderes premonitórios, extingue e lança para escanteio o caráter subjetivo tão relevante na compreensão do real funcionamento da economia, descartando o método dedutivo e apriorística da Escola Austríaca. As tais Expectativas Racionais, consolidadas por Robert Lucas foram, por sua vez, criticadas por Hayek. Realmente, os teóricos das expectativas racionais usam pontos iluminados pelo ilustre vienense, mas se distanciam completamente dele já que o economista austríaco argumenta que a eficiência dos mercados se encontra na descentralização e dispersão dos conhecimentos, enquanto os Novos Clássicos se pautam em previsões mecânicas a respeito do comportamento do individuo de forma totalmente racionalizada, excluindo o caráter subjetivo, inerente a escolha, assim como a criatividade dos agentes, as inovações, o empreendedorismo etc. De um lado a metodologia empírica, e com um ranço cientificista, dos monetaristas, do outro a lógica dedutiva dos austríacos.

Nesse ponto ele, Hayek, mostra sua herança miseana tão ardorosamente defensora da praxeologia, teoria geral da ação humana, que, entre outras coisas, argumenta que inexiste uma homogeneidade, constantes quantitativamente mensuráveis no comportamento do indivíduo, logo da sociedade, o que acaba também endossando a natureza subjetivista do equilíbrio, a clara antipatia austríaca pelo doentio estudo do equilíbrio (Von Mises e sua ferrenha crítica ao equilíbrio walrasiano), diferentemente da sadia valorização que fazem dos processos de tendência ao equilíbrio, ou seja, as tendências equilibrativas servindo como processo de descoberta dos empreendedores, como diria Kirzner! Retornando, a homogeneidade, tanto do conjunto de conhecimentos quanto dos conhecimentos dos agentes em relação a estrutura econômica, que inexiste em Hayek, é essencial na fundamentação do pensamento dos teóricos das expectativas racionais, os Novos Clássicos.

* O nome de Menger só aparece nessa relação por ter sido ele um dos marginalistas, de fato, seu peso na racional objetivização da economia foi muito pequeno, nulo, até porque suas mais valiosas heranças; a teoria da utilidade marginal e a subjetivização das escolhas individuais, foram essenciais para a estruturação do pensamento Liberal e o florescimento da Escola Austríaca com Von Mises, Hayek, Haberler, Kirzner, Rothbard etc.

domingo, 16 de novembro de 2008

Eloá: feminicídio ou cultura de morte?

Esta semana recebi por email um texto escrito por duas militantes feministas, uma bem famosa: Maria da Penha, sobre o caso Eloá. Neste texto as autoras tratavam a trágica morte desta jovem como um feminicídio, uma consequência da cultura machista etc.

Tentarei tecer algumas reflexões sobre o assunto nas linhas que se seguem.

É incrível como as pessoas não conseguem reconhecer na realidade as consequências de suas próprias ações. Tratar o caso Eloá como feminicídio é uma postura no mínimo pouco reflexiva.

O que a televisão nos mostrou por 100 horas foi um resumo da cultura de morte instalada em nossa sociedade. Foi uma das faces da idade de trevas em que vivemos, como nos mostra o filme "A era da inocência" cujo nome original em francês é: L'Âge des ténèbres. E aqui não podemos deixar de dizer que a ideologia feminista tem uma colaboração considerável. Basta olharmos como elas defendem o infanticídio através da discriminalização do aborto, como elas se unem a Nietzche para decretarem a morte de Deus através da perseguição às religiões, sobretudo à Igreja Católica.

Este desastre que assistimos é a consequência de um mundo que se afasta Daquele que dá à vida um sentido e um destino. Como nos ensina Santo Irineu "A glória de Deus é o homem vivo e a vida do homem é a visão de Deus". Qual seria então o destino daqueles que desejam ofuscar a glória de Deus, senão a morte?

O que vemos neste caso, mais do que vítimas e agressores, mais do que um "crime do patriarcado" é uma sociedade inteira vitimizada por uma cultura que quer matar os nascituros, os inválidos, os anencéfalos, os idosos. E porque este desprezo pela vida? A resposta não pode ser outra senão o fato de estarmos privando o homem daquilo que é próprio da sua natureza: a relação direta com Deus, a sede de infinito. Todas as vezes na história em que esta característica humana foi desprezada a consequência foi a morte. Só o comunismo matou em 80 anos 105 milhões, o nazismo matou 6 milhões.

Na Austrália, onde a ideologia feminista, usando da mentira, conseguiu discriminalizar o aborto, morrem por ano cerca de 100 mil crianças, 50% delas do sexo feminino, por conta da "free choice" (livre escolha) de suas mães. Isso sim é um feminicídio... Agora eu faço uma pergunta a Maria da Penha e Maria Dolores? Em uma sociedade que dá à mãe o direito de matar os seus filhos o que impediria um jovem de matar a namorada? O que impediria um pai e uma madrasta de jogarem uma criança pela janela?

Entretanto, não podemos nos conformar com o estado das coisas; como nos ensina São Paulo, cuja vida recordamos neste ano, não podemos nos conformar com este mundo, mas sim transformar-nos pela renovação do nosso espírito para podermos discernir o que é bom (cf. Rm 12,2). Existe um caminho a percorrer e é o AMOR. Só ele é capaz de vencer a morte.

sábado, 15 de novembro de 2008

Zumbi era dono de escravos

O enigma de Zumbi

Estudos recentes sobre o herói da luta contra a escravidão mostram que ele próprio pode ter sido dono de escravos no quilombo dos Palmares


Leandro Narloch

Na próxima quinta-feira, 262 cidades brasileiras comemoram o Dia da Consciência Negra, data que evoca a morte de Zumbi dos Palmares. Último líder do maior dos quilombos, os povoados formados por negros fugidos do cativeiro no Brasil colonial, Zumbi foi morto em 20 de novembro de 1695, quase dois anos depois de as tropas do bandeirante paulista Domingos Jorge Velho praticamente destruírem Palmares. Ao longo dos séculos, Zumbi se tornou uma figura mítica, festejado como o herói da luta contra a escravidão. O que realmente se sabe dele, como personagem histórico, é muito pouco. Seu nome aparece apenas em oito documentos da época, incluindo uma carta do governador de Pernambuco anunciando sua morte. Como ocorre com Tiradentes e outros heróis históricos que servem à celebração de uma causa, a figura de Zumbi que passou à posteridade é idealizada. Ao longo do século XX, principalmente nos anos 60 e 70, sob influência do pensamento marxista, Palmares foi retratada por muitos historiadores como uma sociedade igualitária, com uso livre da terra e poder de decisão compartilhado entre os habitantes dos povoados. Uma série de pesquisas elaboradas nos últimos anos mostra que a história de Zumbi e do quilombo dos Palmares ensinada nos livros didáticos tem muitas distorções. Muito do que se conta sobre sua atuação à frente do quilombo é incompatível com as circunstâncias históricas da época. O objetivo desses estudos não é colocar em xeque a figura simbólica de Zumbi, mas traçar um quadro realista, documentado, do homem e de seu tempo.

Biblioteca Nacional

Idéia exótica Negro retratado no Brasil do século XVII pelo pintor holandês Albert Eckhout: na época, o conceito de igualdade entre os homens não existia na África

Os novos estudos sobre Palmares concluem que o quilombo, situado onde hoje é o estado de Alagoas, não era um paraíso de liberdade, não lutava contra o sistema de escravidão nem era tão isolado da sociedade colonial quanto se pensava. O retrato que emerge de Zumbi é o de um rei guerreiro que, como muitos líderes africanos do século XVII, tinha um séquito de escravos para uso próprio. "É uma mistificação dizer que havia igualdade em Palmares", afirma o historiador Ronaldo Vainfas, professor da Universidade Federal Fluminense e autor do Dicionário do Brasil Colonial. "Zumbi e os grandes generais do quilombo lutavam contra a escravidão de si próprios, mas também possuíam escravos", ele completa. Não faz muito sentido falar em igualdade e liberdade numa sociedade do século XVII porque, nessa época, esses conceitos não estavam consolidados entre os europeus. Nas culturas africanas, eram impensáveis. Desde a Antiguidade e principalmente depois da conquista árabe no norte da África, a partir do século VII, os africanos vendiam escravos em grandes caravanas que cruzavam o Deserto do Saara. Na época de Zumbi, a região do Congo e de Angola, de onde veio a maioria dos escravos de Palmares, tinha reis venerados como se fossem divinos. Muitos desses monarcas se aliavam aos portugueses e enriqueciam com a venda de súditos destinados à escravidão.

"Não se sabe a proporção de escravos que serviam os quilombolas, mas é muito natural que eles tenham existido, já que a escravidão era um costume fortíssimo na cultura da África", diz o historiador carioca Manolo Florentino, autor do livro Em Costas Negras, uma das primeiras obras a analisar a história do Brasil com base nos costumes africanos. Zumbi, segundo os novos estudos sobre Palmares, seria descendente de uma classe de guerreiros africanos que ora ajudava os portugueses na captura de escravos, ora os combatia. Quando enviados ao Brasil como escravos, os nobres africanos freqüentemente formavam sociedades próprias – uma delas pode ter sido Palmares. Para chegar a esse novo retrato de Zumbi e do quilombo, os historiadores analisaram as revoltas escravas partindo de modelos parecidos que ocorreram em outros lugares da América e da África. Também voltaram às cartas, relatos e documentos da época, mostrando como cada historiografia montou o quilombo que queria.

Reprodução/Biblioteca Nacional e Museu Paulista

A caça e o caçador Zumbi e o bandeirante Domingos Jorge Velho, que destruiu Palmares: a escassez de documentos favoreceu versões romantizadas de como era a vida no quilombo

O principal historiador a reinterpretar o que ocorreu nos quilombos é o carioca Flávio dos Santos Gomes. Ele escreve no livro Histórias de Quilombolas: "Ao contrário de muitos estudos dos anos 1960 e 1970, as investigações mais recentes procuraram se aproximar do diálogo com a literatura internacional sobre o tema, ressaltando reflexões sobre cultura, família e protesto escravo no Caribe e no sul dos Estados Unidos". Atendo-se às fontes primárias e ao modo de pensar da época, os historiadores agora podem garimpar os mitos de Palmares que foram construídos no século XX.

O novo quilombo dos Palmares

Estudos recentes mudam a visão que predominou
no século XX sobre os povoados

O que se pensava
• O quilombo era uma sociedade igualitária, com uso livre da terra e poder de decisão compartilhado
• Zumbi lutava contra a escravidão
• Zumbi foi criado por um padre, recebeu o nome de Francisco e aprendeu latim
• Ganga-Zumba, líder que antecedeu Zumbi, traiu o quilombo ao fechar acordo com os portugueses

O que se pensa hoje
• Havia em Palmares uma hierarquia, com servos e reis tão poderosos quanto os da África
• Zumbi e outros chefes tinham seus próprios escravos
• As cartas em que um padre daria detalhes da infância de Zumbi provavelmente foram forjadas
• Ao romper o acordo com Portugal, Zumbi pode ter precipitado a destruição do quilombo

http://veja.abril.com.br/191108/p_108.shtml