O Brasil é um país agraciado com uma rica heterogeneidade de pensamento, diversidade essa sustentada por um elo comum, um ethos que norteia a construção da compreensão que o brasileiro tem dele mesmo.
A Terra de Santa Cruz, diferentemente dos outros países da América Latina, não passou por um processo de dissolvimento da unidade nacional. Se opondo ao que ocorreu com as ex-colônias espanholas, a nação brasileira ganhou força e identidade justamente por nutrir seu peso interno através da manutenção da união entre as províncias que compunham o país. Desse modo, mesmo com uma miscelânea cultural, o Brasil pôde se firmar como uma nação que carregava em seu âmago uma diversidade cultural, econômica, étnica etc.
De fato, nunca se saberá até que ponto a unidade interna do país foi essencial para o fortalecimento do Brasil, a questão é que a experiência passada pelas colônias espanholas mostrou que a desfragmentação regional apenas possibilitou o nascimento de repúblicas instáveis e polvorosas.
De acordo com o historiador, jurista e sociólogo brasileiro, Francisco José de Oliveira Vianna, a unidade brasileira não surgiu naturalmente, reflexo de uma aspiração popular, ao contrário, foi um longo processo, duro e doloroso, que perpassou pelas enormes diferenças que distanciavam as províncias. Enquanto nas vizinhas colônias espanholas a divisão se tornou a saída para as desavenças culturais e políticas, no Brasil houve uma proposital luta em busca da comunhão interna: Proclamada a independência da colônia, o pensamento dos homens, a que ia caber a formidável incumbência de organizar o governo nacional, já não podia ser o outro: a necessidade de manter a unidade política do país toma o primeiro lugar no plano das suas cogitações construtoras. Eles não têm diante de si uma vasta colônia a explorar(...) mas, uma pátria a organizar, uma nação a construir, um povo a governar e dirigir (...) um povo esfacelado em quase vinte partes autônomas, com pequeníssimas, se não nulas, relações de interdepen dência (...) o sentimento de uma pátria única não está ainda formado: as várias capitanias, que vão ser as futuras províncias, não se sentem membros de uma mesma família. (VIANNA, 1956)
Dentro de uma análise marxista ortodoxa, não houve uma mudança do modo de produção quando o eixo econômico se deslocou do Nordeste para o Sudeste. As características do trabalho evoluíram, saíram do processo manufatureiro para a produção industrial. Não obstante, as mesmas relações de produção, pautadas na opressão do trabalhador que, através do processo de alienação vê o produto do seu trabalho explorado pelos capitalistas, continuaram. Entretanto, é pertinente frisar, que a nova geografia econômica industrializada perpetuou os processos produtivos exploratórios e, ao se enxergar como a vanguarda nacional, estabeleceu um modelo discriminatório ao resto do país, com ênfase a região nordestina que, na visão desses homens, representava, mesmo que inconscientemente, um período de letargia e retrocesso no crescimento da economia brasileira.
Ademais, foi com a mudança no centro econômico, político e comercial do país que houve o boom tecnológico. Assim sendo, a tecnologia, vista por muitos sociológos como representação do modo de produção capitalista, “um instrumento de controle e dominação” (MARCUSE, 1999), reproduzindo o comportamento e os padrões da classe dominante, ao se concentrar historicamente no eixo Rio – São Paulo, desde a sua estruturação no Brasil, fincou as bases de uma visão preconceituosa em relação ao Nordeste. Essa região, em uma análise pessoal, é a “proletarização geográfica”, estados que personificariam a imagem do retrocesso.
A tecnologia, como modo de produção, como a totalidade dos instrumentos, dispositivos e invenções que caraterizam a era da máquina, é assim, ao mesmo tempo, uma forma de organizar e perpetuar (ou modificar) as relações sociais, uma manifestação do pensamento e dos padrões de comportamento dominantes, um instrumento de controle e dominação (MARCUSE, 1999)
O modelo midiático torna o eixo Rio – São Paulo representante da essência nacional. Por exemplo, o sotaque da Bahia carrega uma herança deveras tradicional, a própria pronúncia baiana do alfabeto é originada do português arcaico. Não obstante, mesmo com essa herança legítima nas raízes lusas, que de forma alguma é relevante já que a língua vive em constante metamorfose, sem isso não existiria filologia, essas regiões do país que, não por coincidência são as mais ricas, estabelecem um modelo de Brasil, língua e comportamento.
A Rede Globo de Televisão, através do programa Zorra Total, estimula e alimenta uma idéia de baianidade que, de forma alguma, condiz com a realidade. O personagem Bethânio do programa acima citado apenas incita uma idéia caricata e perversamente exagerada da Bahia. O que São Paulo e o Rio de Janeiro entendem por Nordeste se deve, em grande parte, a ação midiática que veicula um imagem da região invetada em estúdio. Em especial é a mídia que se deve a idéia, hoje aceita nacionalmente, que a região nordestina é homogênea, que os sotaques são os mesmos, que a cultura é igual. Entretanto, qualquer real conhecedor sabe que estados como Bahia, Pernambuco e Piauí têm diferenças lingüísticas, culturais e sociais bem claras. A construção de uma imagem caricata, debochada, humorística do nordestino, apenas continua um processo de depreciação dessa gente. De certa forma, esse círculo vicioso degringola no fortalecimento da imagem do “sudestino”, em especial do paulista, como sério, comprometido e trabalhador. Se na Bahia tudo é festa, carnaval e animação, em São Paulo anda a locomotiva do Brasil. Essa é a clara mensagem transmitida, mesmo que indiretamente.
A mídia, enquanto mais uma “superestrutura” (usando um termo muito caro para Marx), apenas corresponde a uma relação de produção que, juntamente com estruturas econômicas e jurídicas, determina as formas de consciência social. Na produção social da sua vida, os homens contraem determinadas relações necessárias e independentes da sua vontade, relações de produção que correspondem a uma determinada fase de desenvolvimento das suas forças produtivas materiais. O conjunto dessas relações de produção forma a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se levanta a superestrutura jurídica e política e à qual correspondem determinadas formas de consciência social. (MARX, 1859)Como foi exposto ao longo do texto, a discriminação tem um fundamento histórico, econômico e cultural. A transformação do Sudeste em centro do Brasil, seja através da mudança da capital de Salvador para o Rio de Janeiro como pela transformação do processo produtivo manufatureiro, reinante no período de pujança do Nordeste, para a industrialização tardia concentrada em São Paulo, condicionou a mentalidade discriminatória. Os estados do norte-nordeste, largados a míngua, na nova periferia nacional, aqueles que outrora detinham o controle do país num período onde os estados do sudeste, tirando Minas Gerais, nem de perto imaginavam o futuro promissor que teriam, se viram sem capital, sem poupança, sem investimento, sem crescimento econômico; uma seqüencia necessária para qualquer progresso nacional.
O jeito alegre de viver do nordestino, como visto pelo Sudeste, não é uma mera estereotipização inocente. A idéia do baiano, por exemplo, preguiçoso, festeiro, carnavalesco, apenas alimenta o ideal de um nordeste letárgico, irresponsável, sem participação no desenvolvimento do país. Esse imaginário, como foi dito no texto, se origina no fato de que a concentração do poder econômico brasileiro, no eixo Rio – São Paulo, através do progresso tecnológico, fez dessa região a encarnação geográfica das elites dominantes, detentoras dos meios de produção. O NE, por sua vez, apenas vive o papel da região sofrida, falida e entregue a penúria, não por menos descrição que se encaixaria em qualquer estereótipo do trabalhador médio nacional no início do séc. XX. Desse modo, concluí-se, com precisão, que a região nordestina personificou em larga escala um preconceito pontual, uma discriminação inicialmente voltada ao povo que, conseqüentemente, se alastrou a toda região através de um processo de “simplificação” e “empobrecimento”, onde nove estados com diferenças culturais e lingüísticas, vitimas de um hermenêutica sociológica preconceituosa, passam a ser vistos como iguais.
A estereotipização midiática do nordestino carrega com ela algumas características bem peculiares; primeiro que ela tende a uniformizar, as enormes discrepâncias culturais, tradicionais, contidas na região são deixadas de lado em nome de uma análise reduzida e restrita a pontos que, em nada, representam a totalidade regional. Em segundo lugar essa interpretação estereotipada é essencialmente simplista, como qualquer rotulação. Desse modo se renega os séculos e séculos de história e desenvolvimento cultural do NE. Vale pontuar que essa estereotipização não necessariamente carrega um fundamento discriminatório proposital. Muitas pessoas adotam essa visão por ser ela amplamente difundida na grande mídia, entretanto, mesmo visivelmente não nutrindo obrigatoriamente o preconceito, essa rotulação é, em sua origem basilar, reflexo de uma ótica odiosa. Por fim, se faz pertinente lembrar, que esse estereótipo adota uma interpretação hiperbólica dos fatos, exagerando carnavalescamente pontos de fato existentes e, por sua vez, inventando outros que são inverídicos.
A discriminação do nordestino é fruto da soma de diversos fatores históricos, culturais, econômicos e políticos. Como foi exposto ao longo do texto, sem dúvida alguma a radical concentração do poderio econômico, comercial e tecnológico no sudeste instituiu um ideal discriminatório. O NE passou então a ser compreendido como o insucesso brasileiro, a pobreza e o atraso. Essas conclusões geográficas se uniram ao preconceito mirado no povo da região, visto como preguiçoso, lento, feio, no máximo alegre e expansivo, não obstante, esse ótica aparentemente positiva surgiu como antípoda da auto-compreensão que os habitantes do Sudeste tinham deles mesmos; os trabalhadores.
A mídia alimentou esse ideal, na verdade não se pode definir até que ponto essa visão preconceituosa e generalizadora é demérito total e completo da mass media. Os programas de TV, novelas, quadros humorísticos, estimularam o povo brasileiro a enxergar o Nordeste como uma região caricatural, além de simplificar a tão rica heterogeneidade presente nos diversos estados. O Nordeste da mídia não é, de fato, o Nordeste do fardo, um peso carregado pelo resto do Brasil, entretanto, não é o Nordeste historicamente relevante, culturalmente essencial e economicamente uma grande promessa (Salvador, Recife e Fortaleza já despontam como importantes capitais no cenário econômico nacional), para os meios de comunicação o Nordeste é apenas uma terra distante, com um povo festeiro e de fala estranha. Entretanto, tanto essa compreensão aparentemente inocente, quanto a do Nordeste letárgico, carregam, da mesma forma, o gérmen da discriminação.
Pedro Ravazzano
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Viu como não é difícil reproduzir as velhas idéias marxistas?




