segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Um dia de marxista!

A Mídia e o Nordestino; Audiência e Preconceito

O Brasil é um país agraciado com uma rica heterogeneidade de pensamento, diversidade essa sustentada por um elo comum, um ethos que norteia a construção da compreensão que o brasileiro tem dele mesmo.


A Terra de Santa Cruz, diferentemente dos outros países da América Latina, não passou por um processo de dissolvimento da unidade nacional. Se opondo ao que ocorreu com as ex-colônias espanholas, a nação brasileira ganhou força e identidade justamente por nutrir seu peso interno através da manutenção da união entre as províncias que compunham o país. Desse modo, mesmo com uma miscelânea cultural, o Brasil pôde se firmar como uma nação que carregava em seu âmago uma diversidade cultural, econômica, étnica etc.

De fato, nunca se saberá até que ponto a unidade interna do país foi essencial para o fortalecimento do Brasil, a questão é que a experiência passada pelas colônias espanholas mostrou que a desfragmentação regional apenas possibilitou o nascimento de repúblicas instáveis e polvorosas.

De acordo com o historiador, jurista e sociólogo brasileiro, Francisco José de Oliveira Vianna, a unidade brasileira não surgiu naturalmente, reflexo de uma aspiração popular, ao contrário, foi um longo processo, duro e doloroso, que perpassou pelas enormes diferenças que distanciavam as províncias. Enquanto nas vizinhas colônias espanholas a divisão se tornou a saída para as desavenças culturais e políticas, no Brasil houve uma proposital luta em busca da comunhão interna:
Proclamada a independência da colônia, o pensamento dos homens, a que ia caber a formidável incumbência de organizar o governo nacional, já não podia ser o outro: a necessidade de manter a unidade política do país toma o primeiro lugar no plano das suas cogitações construtoras. Eles não têm diante de si uma vasta colônia a explorar(...) mas, uma pátria a organizar, uma nação a construir, um povo a governar e dirigir (...) um povo esfacelado em quase vinte partes autônomas, com pequeníssimas, se não nulas, relações de interdepen dência (...) o sentimento de uma pátria única não está ainda formado: as várias capitanias, que vão ser as futuras províncias, não se sentem membros de uma mesma família. (VIANNA, 1956)


Dentro de uma análise marxista ortodoxa, não houve uma mudança do modo de produção quando o eixo econômico se deslocou do Nordeste para o Sudeste. As características do trabalho evoluíram, saíram do processo manufatureiro para a produção industrial. Não obstante, as mesmas relações de produção, pautadas na opressão do trabalhador que, através do processo de alienação vê o produto do seu trabalho explorado pelos capitalistas, continuaram. Entretanto, é pertinente frisar, que a nova geografia econômica industrializada perpetuou os processos produtivos exploratórios e, ao se enxergar como a vanguarda nacional, estabeleceu um modelo discriminatório ao resto do país, com ênfase a região nordestina que, na visão desses homens, representava, mesmo que inconscientemente, um período de letargia e retrocesso no crescimento da economia brasileira.

Ademais, foi com a mudança no centro econômico, político e comercial do país que houve o boom tecnológico. Assim sendo, a tecnologia, vista por muitos sociológos como representação do modo de produção capitalista, “um instrumento de controle e dominação” (MARCUSE, 1999), reproduzindo o comportamento e os padrões da classe dominante, ao se concentrar historicamente no eixo Rio – São Paulo, desde a sua estruturação no Brasil, fincou as bases de uma visão preconceituosa em relação ao Nordeste. Essa região, em uma análise pessoal, é a “proletarização geográfica”, estados que personificariam a imagem do retrocesso.

A tecnologia, como modo de produção, como a totalidade dos instrumentos, dispositivos e invenções que caraterizam a era da máquina, é assim, ao mesmo tempo, uma forma de organizar e perpetuar (ou modificar) as relações sociais, uma manifestação do pensamento e dos padrões de comportamento dominantes, um instrumento de controle e dominação (MARCUSE, 1999)

O modelo midiático torna o eixo Rio – São Paulo representante da essência nacional. Por exemplo, o sotaque da Bahia carrega uma herança deveras tradicional, a própria pronúncia baiana do alfabeto é originada do português arcaico. Não obstante, mesmo com essa herança legítima nas raízes lusas, que de forma alguma é relevante já que a língua vive em constante metamorfose, sem isso não existiria filologia, essas regiões do país que, não por coincidência são as mais ricas, estabelecem um modelo de Brasil, língua e comportamento.

A Rede Globo de Televisão, através do programa Zorra Total, estimula e alimenta uma idéia de baianidade que, de forma alguma, condiz com a realidade. O personagem Bethânio do programa acima citado apenas incita uma idéia caricata e perversamente exagerada da Bahia. O que São Paulo e o Rio de Janeiro entendem por Nordeste se deve, em grande parte, a ação midiática que veicula um imagem da região invetada em estúdio. Em especial é a mídia que se deve a idéia, hoje aceita nacionalmente, que a região nordestina é homogênea, que os sotaques são os mesmos, que a cultura é igual. Entretanto, qualquer real conhecedor sabe que estados como Bahia, Pernambuco e Piauí têm diferenças lingüísticas, culturais e sociais bem claras. A construção de uma imagem caricata, debochada, humorística do nordestino, apenas continua um processo de depreciação dessa gente. De certa forma, esse círculo vicioso degringola no fortalecimento da imagem do “sudestino”, em especial do paulista, como sério, comprometido e trabalhador. Se na Bahia tudo é festa, carnaval e animação, em São Paulo anda a locomotiva do Brasil. Essa é a clara mensagem transmitida, mesmo que indiretamente.

A mídia, enquanto mais uma “superestrutura” (usando um termo muito caro para Marx), apenas corresponde a uma relação de produção que, juntamente com estruturas econômicas e jurídicas, determina as formas de consciência social.
Na produção social da sua vida, os homens contraem determinadas relações necessárias e independentes da sua vontade, relações de produção que correspondem a uma determinada fase de desenvolvimento das suas forças produtivas materiais. O conjunto dessas relações de produção forma a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se levanta a superestrutura jurídica e política e à qual correspondem determinadas formas de consciência social. (MARX, 1859)
Como foi exposto ao longo do texto, a discriminação tem um fundamento histórico, econômico e cultural. A transformação do Sudeste em centro do Brasil, seja através da mudança da capital de Salvador para o Rio de Janeiro como pela transformação do processo produtivo manufatureiro, reinante no período de pujança do Nordeste, para a industrialização tardia concentrada em São Paulo, condicionou a mentalidade discriminatória. Os estados do norte-nordeste, largados a míngua, na nova periferia nacional, aqueles que outrora detinham o controle do país num período onde os estados do sudeste, tirando Minas Gerais, nem de perto imaginavam o futuro promissor que teriam, se viram sem capital, sem poupança, sem investimento, sem crescimento econômico; uma seqüencia necessária para qualquer progresso nacional.

O jeito alegre de viver do nordestino, como visto pelo Sudeste, não é uma mera estereotipização inocente. A idéia do baiano, por exemplo, preguiçoso, festeiro, carnavalesco, apenas alimenta o ideal de um nordeste letárgico, irresponsável, sem participação no desenvolvimento do país. Esse imaginário, como foi dito no texto, se origina no fato de que a concentração do poder econômico brasileiro, no eixo Rio – São Paulo, através do progresso tecnológico, fez dessa região a encarnação geográfica das elites dominantes, detentoras dos meios de produção. O NE, por sua vez, apenas vive o papel da região sofrida, falida e entregue a penúria, não por menos descrição que se encaixaria em qualquer estereótipo do trabalhador médio nacional no início do séc. XX. Desse modo, concluí-se, com precisão, que a região nordestina personificou em larga escala um preconceito pontual, uma discriminação inicialmente voltada ao povo que, conseqüentemente, se alastrou a toda região através de um processo de “simplificação” e “empobrecimento”, onde nove estados com diferenças culturais e lingüísticas, vitimas de um hermenêutica sociológica preconceituosa, passam a ser vistos como iguais.

A estereotipização midiática do nordestino carrega com ela algumas características bem peculiares; primeiro que ela tende a uniformizar, as enormes discrepâncias culturais, tradicionais, contidas na região são deixadas de lado em nome de uma análise reduzida e restrita a pontos que, em nada, representam a totalidade regional. Em segundo lugar essa interpretação estereotipada é essencialmente simplista, como qualquer rotulação. Desse modo se renega os séculos e séculos de história e desenvolvimento cultural do NE. Vale pontuar que essa estereotipização não necessariamente carrega um fundamento discriminatório proposital. Muitas pessoas adotam essa visão por ser ela amplamente difundida na grande mídia, entretanto, mesmo visivelmente não nutrindo obrigatoriamente o preconceito, essa rotulação é, em sua origem basilar, reflexo de uma ótica odiosa. Por fim, se faz pertinente lembrar, que esse estereótipo adota uma interpretação hiperbólica dos fatos, exagerando carnavalescamente pontos de fato existentes e, por sua vez, inventando outros que são inverídicos.

A discriminação do nordestino é fruto da soma de diversos fatores históricos, culturais, econômicos e políticos. Como foi exposto ao longo do texto, sem dúvida alguma a radical concentração do poderio econômico, comercial e tecnológico no sudeste instituiu um ideal discriminatório. O NE passou então a ser compreendido como o insucesso brasileiro, a pobreza e o atraso. Essas conclusões geográficas se uniram ao preconceito mirado no povo da região, visto como preguiçoso, lento, feio, no máximo alegre e expansivo, não obstante, esse ótica aparentemente positiva surgiu como antípoda da auto-compreensão que os habitantes do Sudeste tinham deles mesmos; os trabalhadores.

A mídia alimentou esse ideal, na verdade não se pode definir até que ponto essa visão preconceituosa e generalizadora é demérito total e completo da mass media. Os programas de TV, novelas, quadros humorísticos, estimularam o povo brasileiro a enxergar o Nordeste como uma região caricatural, além de simplificar a tão rica heterogeneidade presente nos diversos estados. O Nordeste da mídia não é, de fato, o Nordeste do fardo, um peso carregado pelo resto do Brasil, entretanto, não é o Nordeste historicamente relevante, culturalmente essencial e economicamente uma grande promessa (Salvador, Recife e Fortaleza já despontam como importantes capitais no cenário econômico nacional), para os meios de comunicação o Nordeste é apenas uma terra distante, com um povo festeiro e de fala estranha. Entretanto, tanto essa compreensão aparentemente inocente, quanto a do Nordeste letárgico, carregam, da mesma forma, o gérmen da discriminação.

Pedro Ravazzano
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Viu como não é difícil reproduzir as velhas idéias marxistas?

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Subjetividade e Objetividade

Todas as questões que interferem no consumo, na capacidade de escolha dos indivíduos, perpassam, obrigatoriamente, pela subjetividade, já que ela é latente a existência e a condição humana. Viver é escolher, fazer julgamentos, selecionar caminhos. Esses desejos particulares não podem se resumir a equações e teoremas matemáticos, mas devem ser compreendidos como ações individuais motivadas pelos próprios interesses que maximizam o bem-estar da sociedade.

A matematização, ou melhor, a objetivização da economia, se iniciou com a Escola Marginalista; Walras, Menger* e Jevons, mas também foi impulsionada por Keynes e keynesianos, assim como Neoclássicos, Monetaristas. Desse modo, se inculcou na cabeça dos estudantes e pensadores da economia que todos os Liberais, tirando o estatólatra Keynes, são essencialmente matemáticos, e que as idéias de Equilíbrio, assim como a análise histórica e a excessiva metodologia quantitativa, muitas delas vistas como utópicas e ilusórias pelos críticos, são devaneios dos defensores do Livre-Mercado e do Estado minimo.

Aqui vale um adendo, Keynes, aluno do neoclássico Marshall, o defensor da teoria objetiva do valor (mesmo tentando sintetizar a idéia clássica do custo de produção com o princípio da utilidade marginal) e grande promotor do método analítico-matemático, colocou um verniz matemático, um formalismo exato, objetivo, "simplificante" (não se leia simplista), adotando um "jargão algébrico e geométrico", ou como diria Von Mises "simplesmente traduziu seus sofismas para a duvidosa linguagem da economia matemática" Exatamente! Keynes, como é de fácil constatação, produziu poucas equações, mas sua simples equações trazem simples relações como se os eventos fossem...simples, e na verdade são complexos, como a EA mostra ao se basear no individualismo metodológico, com a combinação das capacidades individuais movidas pela ação humana, diferentemente do Lord que, como disse Rothbard, "reduz os motivos subjetivos à organização econômica vigente, costumes, padrões de vida, etc., e os assume como dados (...) Keynes simplesmente afirma sem discussão que esse fator [mudanças futuras de renda que alteram o consumo individual, por exemplo] “acabará se homogeneizando na comunidade como um todo”." Enquanto austríacos levam em conta a relação entre os indivíduos, a praxeologia, a inerente ação humana como determinante no processo econômico, keynesianos, assim como monetaristas, só enxergam os agregados econômicos como a maneira mais confiante de se analisar as estruturas da economia.

Ainda vale lembrar que os Novos Clássicos, ao partirem da premissa de que a ação dos agentes econômicos se fundamenta numa racionalidade a ponto de criar uma expectativa (racional) sobre o desenvolvimento futuro da economia, quase com poderes premonitórios, extingue e lança para escanteio o caráter subjetivo tão relevante na compreensão do real funcionamento da economia, descartando o método dedutivo e apriorística da Escola Austríaca. As tais Expectativas Racionais, consolidadas por Robert Lucas foram, por sua vez, criticadas por Hayek. Realmente, os teóricos das expectativas racionais usam pontos iluminados pelo ilustre vienense, mas se distanciam completamente dele já que o economista austríaco argumenta que a eficiência dos mercados se encontra na descentralização e dispersão dos conhecimentos, enquanto os Novos Clássicos se pautam em previsões mecânicas a respeito do comportamento do individuo de forma totalmente racionalizada, excluindo o caráter subjetivo, inerente a escolha, assim como a criatividade dos agentes, as inovações, o empreendedorismo etc. De um lado a metodologia empírica, e com um ranço cientificista, dos monetaristas, do outro a lógica dedutiva dos austríacos.

Nesse ponto ele, Hayek, mostra sua herança miseana tão ardorosamente defensora da praxeologia, teoria geral da ação humana, que, entre outras coisas, argumenta que inexiste uma homogeneidade, constantes quantitativamente mensuráveis no comportamento do indivíduo, logo da sociedade, o que acaba também endossando a natureza subjetivista do equilíbrio, a clara antipatia austríaca pelo doentio estudo do equilíbrio (Von Mises e sua ferrenha crítica ao equilíbrio walrasiano), diferentemente da sadia valorização que fazem dos processos de tendência ao equilíbrio, ou seja, as tendências equilibrativas servindo como processo de descoberta dos empreendedores, como diria Kirzner! Retornando, a homogeneidade, tanto do conjunto de conhecimentos quanto dos conhecimentos dos agentes em relação a estrutura econômica, que inexiste em Hayek, é essencial na fundamentação do pensamento dos teóricos das expectativas racionais, os Novos Clássicos.

* O nome de Menger só aparece nessa relação por ter sido ele um dos marginalistas, de fato, seu peso na racional objetivização da economia foi muito pequeno, nulo, até porque suas mais valiosas heranças; a teoria da utilidade marginal e a subjetivização das escolhas individuais, foram essenciais para a estruturação do pensamento Liberal e o florescimento da Escola Austríaca com Von Mises, Hayek, Haberler, Kirzner, Rothbard etc.

domingo, 16 de novembro de 2008

Eloá: feminicídio ou cultura de morte?

Esta semana recebi por email um texto escrito por duas militantes feministas, uma bem famosa: Maria da Penha, sobre o caso Eloá. Neste texto as autoras tratavam a trágica morte desta jovem como um feminicídio, uma consequência da cultura machista etc.

Tentarei tecer algumas reflexões sobre o assunto nas linhas que se seguem.

É incrível como as pessoas não conseguem reconhecer na realidade as consequências de suas próprias ações. Tratar o caso Eloá como feminicídio é uma postura no mínimo pouco reflexiva.

O que a televisão nos mostrou por 100 horas foi um resumo da cultura de morte instalada em nossa sociedade. Foi uma das faces da idade de trevas em que vivemos, como nos mostra o filme "A era da inocência" cujo nome original em francês é: L'Âge des ténèbres. E aqui não podemos deixar de dizer que a ideologia feminista tem uma colaboração considerável. Basta olharmos como elas defendem o infanticídio através da discriminalização do aborto, como elas se unem a Nietzche para decretarem a morte de Deus através da perseguição às religiões, sobretudo à Igreja Católica.

Este desastre que assistimos é a consequência de um mundo que se afasta Daquele que dá à vida um sentido e um destino. Como nos ensina Santo Irineu "A glória de Deus é o homem vivo e a vida do homem é a visão de Deus". Qual seria então o destino daqueles que desejam ofuscar a glória de Deus, senão a morte?

O que vemos neste caso, mais do que vítimas e agressores, mais do que um "crime do patriarcado" é uma sociedade inteira vitimizada por uma cultura que quer matar os nascituros, os inválidos, os anencéfalos, os idosos. E porque este desprezo pela vida? A resposta não pode ser outra senão o fato de estarmos privando o homem daquilo que é próprio da sua natureza: a relação direta com Deus, a sede de infinito. Todas as vezes na história em que esta característica humana foi desprezada a consequência foi a morte. Só o comunismo matou em 80 anos 105 milhões, o nazismo matou 6 milhões.

Na Austrália, onde a ideologia feminista, usando da mentira, conseguiu discriminalizar o aborto, morrem por ano cerca de 100 mil crianças, 50% delas do sexo feminino, por conta da "free choice" (livre escolha) de suas mães. Isso sim é um feminicídio... Agora eu faço uma pergunta a Maria da Penha e Maria Dolores? Em uma sociedade que dá à mãe o direito de matar os seus filhos o que impediria um jovem de matar a namorada? O que impediria um pai e uma madrasta de jogarem uma criança pela janela?

Entretanto, não podemos nos conformar com o estado das coisas; como nos ensina São Paulo, cuja vida recordamos neste ano, não podemos nos conformar com este mundo, mas sim transformar-nos pela renovação do nosso espírito para podermos discernir o que é bom (cf. Rm 12,2). Existe um caminho a percorrer e é o AMOR. Só ele é capaz de vencer a morte.

sábado, 15 de novembro de 2008

Zumbi era dono de escravos

O enigma de Zumbi

Estudos recentes sobre o herói da luta contra a escravidão mostram que ele próprio pode ter sido dono de escravos no quilombo dos Palmares


Leandro Narloch

Na próxima quinta-feira, 262 cidades brasileiras comemoram o Dia da Consciência Negra, data que evoca a morte de Zumbi dos Palmares. Último líder do maior dos quilombos, os povoados formados por negros fugidos do cativeiro no Brasil colonial, Zumbi foi morto em 20 de novembro de 1695, quase dois anos depois de as tropas do bandeirante paulista Domingos Jorge Velho praticamente destruírem Palmares. Ao longo dos séculos, Zumbi se tornou uma figura mítica, festejado como o herói da luta contra a escravidão. O que realmente se sabe dele, como personagem histórico, é muito pouco. Seu nome aparece apenas em oito documentos da época, incluindo uma carta do governador de Pernambuco anunciando sua morte. Como ocorre com Tiradentes e outros heróis históricos que servem à celebração de uma causa, a figura de Zumbi que passou à posteridade é idealizada. Ao longo do século XX, principalmente nos anos 60 e 70, sob influência do pensamento marxista, Palmares foi retratada por muitos historiadores como uma sociedade igualitária, com uso livre da terra e poder de decisão compartilhado entre os habitantes dos povoados. Uma série de pesquisas elaboradas nos últimos anos mostra que a história de Zumbi e do quilombo dos Palmares ensinada nos livros didáticos tem muitas distorções. Muito do que se conta sobre sua atuação à frente do quilombo é incompatível com as circunstâncias históricas da época. O objetivo desses estudos não é colocar em xeque a figura simbólica de Zumbi, mas traçar um quadro realista, documentado, do homem e de seu tempo.

Biblioteca Nacional

Idéia exótica Negro retratado no Brasil do século XVII pelo pintor holandês Albert Eckhout: na época, o conceito de igualdade entre os homens não existia na África

Os novos estudos sobre Palmares concluem que o quilombo, situado onde hoje é o estado de Alagoas, não era um paraíso de liberdade, não lutava contra o sistema de escravidão nem era tão isolado da sociedade colonial quanto se pensava. O retrato que emerge de Zumbi é o de um rei guerreiro que, como muitos líderes africanos do século XVII, tinha um séquito de escravos para uso próprio. "É uma mistificação dizer que havia igualdade em Palmares", afirma o historiador Ronaldo Vainfas, professor da Universidade Federal Fluminense e autor do Dicionário do Brasil Colonial. "Zumbi e os grandes generais do quilombo lutavam contra a escravidão de si próprios, mas também possuíam escravos", ele completa. Não faz muito sentido falar em igualdade e liberdade numa sociedade do século XVII porque, nessa época, esses conceitos não estavam consolidados entre os europeus. Nas culturas africanas, eram impensáveis. Desde a Antiguidade e principalmente depois da conquista árabe no norte da África, a partir do século VII, os africanos vendiam escravos em grandes caravanas que cruzavam o Deserto do Saara. Na época de Zumbi, a região do Congo e de Angola, de onde veio a maioria dos escravos de Palmares, tinha reis venerados como se fossem divinos. Muitos desses monarcas se aliavam aos portugueses e enriqueciam com a venda de súditos destinados à escravidão.

"Não se sabe a proporção de escravos que serviam os quilombolas, mas é muito natural que eles tenham existido, já que a escravidão era um costume fortíssimo na cultura da África", diz o historiador carioca Manolo Florentino, autor do livro Em Costas Negras, uma das primeiras obras a analisar a história do Brasil com base nos costumes africanos. Zumbi, segundo os novos estudos sobre Palmares, seria descendente de uma classe de guerreiros africanos que ora ajudava os portugueses na captura de escravos, ora os combatia. Quando enviados ao Brasil como escravos, os nobres africanos freqüentemente formavam sociedades próprias – uma delas pode ter sido Palmares. Para chegar a esse novo retrato de Zumbi e do quilombo, os historiadores analisaram as revoltas escravas partindo de modelos parecidos que ocorreram em outros lugares da América e da África. Também voltaram às cartas, relatos e documentos da época, mostrando como cada historiografia montou o quilombo que queria.

Reprodução/Biblioteca Nacional e Museu Paulista

A caça e o caçador Zumbi e o bandeirante Domingos Jorge Velho, que destruiu Palmares: a escassez de documentos favoreceu versões romantizadas de como era a vida no quilombo

O principal historiador a reinterpretar o que ocorreu nos quilombos é o carioca Flávio dos Santos Gomes. Ele escreve no livro Histórias de Quilombolas: "Ao contrário de muitos estudos dos anos 1960 e 1970, as investigações mais recentes procuraram se aproximar do diálogo com a literatura internacional sobre o tema, ressaltando reflexões sobre cultura, família e protesto escravo no Caribe e no sul dos Estados Unidos". Atendo-se às fontes primárias e ao modo de pensar da época, os historiadores agora podem garimpar os mitos de Palmares que foram construídos no século XX.

O novo quilombo dos Palmares

Estudos recentes mudam a visão que predominou
no século XX sobre os povoados

O que se pensava
• O quilombo era uma sociedade igualitária, com uso livre da terra e poder de decisão compartilhado
• Zumbi lutava contra a escravidão
• Zumbi foi criado por um padre, recebeu o nome de Francisco e aprendeu latim
• Ganga-Zumba, líder que antecedeu Zumbi, traiu o quilombo ao fechar acordo com os portugueses

O que se pensa hoje
• Havia em Palmares uma hierarquia, com servos e reis tão poderosos quanto os da África
• Zumbi e outros chefes tinham seus próprios escravos
• As cartas em que um padre daria detalhes da infância de Zumbi provavelmente foram forjadas
• Ao romper o acordo com Portugal, Zumbi pode ter precipitado a destruição do quilombo

http://veja.abril.com.br/191108/p_108.shtml

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Extrato de uma conversa filosófica

"Evidentemente, estas considerações não valem para a lógica aristotélico-escolástica, que não é um "mecanismo de representação", nem uma função específica das estruturas lingüísticas (como queria um R.Carnap, por exemplo). Reduzi-la a algo assim é retirar dela a sua própria essência. A lógica em Aristóteles enuncia as leis de encadeamento dos princípios supremos da realidade, os quais são por sua vez apreendidos pela intuição intelectual. Ora, a possibilidade de se dizer algo do mundo que efetivamente saia da esfera das representações subjetivas ou da mecânica da linguagem, desaparece quando cortamos o laço entre pensamento e mundo, entre alma e realidade exterior.

Decerto, este afastamento dos dois polos não foi mera obra do acaso histórico, mas tem uma bem traçada linha de desenvolvimento, cuja culminância e cintilação mais vultuosa nós hoje assistimos. Os espíritos conventuais, ainda apegados à tradição, recuam horrorizados ante a idéia de esposar esta dualidade trágica. A certeza lógica e ontológica em Aristóteles provêm da estrita homologia que é possível estabelecer entre pensamento e mundo. Sem esta homologia, a lógica nada nos diz sobre o real, mas apenas sobre as condições do discurso possível acerca do real.

Em Aristóteles, interior e exterior, mundo e discurso se interpenetram e se resolvem da unidade de uns quantos princípios comuns - eis aí a raiz e a possibilidade mesma do conhecimento, uma possibilidade que Kant não percebeu quando, movido pelo afã de tudo reduzir às representações do sujeito, esvaziou a lógica do seu alcance ontológico e com isso abriu a possibilidade para a queda no formalismo puro da lógica moderna - instrumento maravilhoso, que faríamos bem em conservar abdicando dos pressupostos epistemológicos que lhe servem de base. Mas, mesmo sem entrar em toda esta controvérsia, ainda assim você não estaria mais respaldado para concluir, como você conclui, que a validade da lógica reduz-se a uma espécie de "legitimidade" socialmente condicionada.

Ora, isto é confundir dois planos distintos. Uma coisa é falar acerca das condições históricas que tornaram este ou aquele método de conhecimento preponderante numa determinada época ou cultura. Outra, bem diferente, é especular sobre a validade de um saber considerado em sua estrutura interna. Quando dizemos que um silogismo é válido, estamos nos referindo a uma ordem de realidade que não depende em nada das "convenções" sociais ou das suposições de qualquer indivíduo, mas que depende da apreensão de certos princípios universais, que podem estar na realidade, no entendimento puro ou nas estruturas linguísticas do gênero humano. Em suma, seja derivada da natureza das coisas, seja derivada de estruturas maiores comuns a todo homem, a legitimidade da lógica não é "convencionada" arbitrariamente.

O racionalismo mitigado de Kant não entra em questão, pois ele de fato não criticou a razão em si mesma, o que seria uma pura e simples impossibilidade de acordo com o seu método. Ele criticou certas pretensões filosóficas que levavam a razão a enredar-se em controvérsias irresolvíveis. Conforme estudos mais recentes no kantismo, o que Kant propunha era uma espécie de semântica transcendental, na qual certas perguntas seriam recusadas in limine: ao notar que as questões metafísicas mais apaixonantes eram questões "sem objeto" - pois apoiavam-se em proposições sem sentido - o que Kant faz não é impor limites à razão ou coisa do tipo, mas tão só discriminar entre as questões que realmente fazem "sentido", as questões cujo objeto pode ser dado na representação, e as que não fazem. Naturalmente, a imagem que você me sugere ao falar desta crítica da lógica através da lógica, é sumamente paradoxal, mas correta. Lembra uma imagem de um filósofo analítico, não me recordo quem foi agora... Ele dizia que a epistemologia assemelhava-se a tentativa de desarmar e reconstruir um barco enquanto se está navegando.

A arte não pode demonstrar coisa alguma. Na arte não existem os mecanismos para se passar da irresolução de uma idéia à sua certeza apodítica. A arte é por essência um meio de "apreensão" - nisto você está certíssimo. Mas, se ela apreende algo - uma impressão exteriorizada, vamos supor - é precisamente porque sua natureza lhe indica a função de captar certas realidades e não de demonstrá-las. Demonstrar é revelar a necessidade de algo ser exatamente o que é. Assim, demonstramos que a soma dos quadrados dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa quando, por certos mecanismos apropriados, o entendimento é levado a tomar a conclusão como necessária. No entanto, se a arte nos permite captar certas realidades, estas realidades podem, evidentemente, ser diferentes do que são. Nada há nestas realidades artísticas, e na sensação de beleza que elas nos provocam, de "demonstrável", quanto mais de "demonstrado".

Mas esta é uma mudança ociosa. A distinção entre demonstração e apreensão, entre a certeza lógica e a impressão, a certeza que a arte nos provoca - uma "certeza", cum grano salis - corresponde a uma adequada diferenciação de processos de conhecimento. No caso, o excesso logicista estaria em desprezar a apreensão artística como forma de conhecimento, em considerá-la uma forma menor de saber, quando na realidade ambas as coisas, lógica e arte, são as duas faces de Jano: a arte enquadra-nos numa perspectiva simbólica, quando nos fornece certas experiências interiores sem as quais estaríamos confinados permanentemente na baixa animalidade; ao fazê-lo, a arte nos dá uma imagem em miniatura de um "mundo possível" e, portanto, nos estende um horizonte de possibilidades anímicas e sensitivas.

O acúmulo de impressões variadas desta mesma ordem se traduz no aumento progressivo da capacidade de estruturas sub-realidades com as quais, imaginativamente, reproduzimos a estrutura de um mundo possível, cujas leis sempre serão o reflexo, ainda que retorcido, das leis do nosso próprio mundo (leia-se aí o conceito da mímese aristotélica). Ora, projetar imaginativamente modelos estruturais de realidade é uma atividade artística comum à ciência, com a diferença que na ciência busca-se o real com tais modelos, enquanto que o domínio da arte é o domínio do possível. Se a arte situa-se no domínio do possível, então é um contra-senso falar em "demonstração", pois o sentido mais óbvio do termo "demonstrar", é: mostrar algo como não podendo ser senão o que é demonstrado. Daí a pertinência da distinção: a atividade científica supõe outras condições que não estão presentes na arte, as quais constituem os requisitos particulares e diferenciadores dessa atividade."

terça-feira, 11 de novembro de 2008

René Guénon e a Unidade Metafísica das Tradições I

A obra de René Guénon se constitui no exemplo mais perfeito de intelectualidade espiritual no Ocidente do século XX. Este juízo grandiloquente dificilmente poderia ser contestado por quem lesse a totalidade dos 27 volumes saídos da lavra do ilustre autor.

Francês de nascimento, tendo sido educado por família católica devota, Guénon desde cedo mostrou aptidões notáveis para as matemáticas. Mais tarde, quando afastado do estudo das disciplinas lógicas a que era afeiçoado e dedicando-se por completo a exposição das doutrinas tradicionais, este caráter matemático do seu espírito revelar-se-ia no estilo escolástico e complexo dos seus escritos.

Este estilo, naturalmente, tem um encanto ambíguo. Pode afastar leitores menos afeitos a intrincadas distinções e ao mesmo tempo seduzir aqueles que, a despeito das dificuldades encontradas, buscam uma fonte extremamente precisa de dados tradicionais. Pois de fato o intuito de Guénon não foi jamais destacar-se por sua originalidade, muito menos atiçar a sensibilidade de seus leitores com belas metáforas e floreados estilísticos. O rigor matemático da exposição, aliada a erudição invejável mas nunca louvada como fim em si, recomenda Guénon como o expositor por excelência da Sophia Perennis.

Por Sophia Perennis entende-se o núcleo metafísico das tradições cuja unidade essencial se atesta precisamente pela convergência neste plano: apenas no plano da Sophia Perenis pode haver identidade das tradições. Malgrado as diferenças de ritos, moral, dogmas e outras diferenças de forma, a concepção metafísica da Realidade deve necessariamente ser compartilhada pelas religiões. No plano dos princípios supremos e universais não pode haver distinção entre as várias formas tradicionais. Todas as tradições, por exemplo, seja sob véus de mitologias politeístas, seja afirmando um monoteísmo irredutível, compreendem a realidade como sendo, em última instancia, unitotalidade espiritual. A impossibilidade de um dualismo metafísico incontornável é um daqueles pontos nos quais a unidade metafísica das tradições mostra-se mais facilmente visível.

Do mesmo modo, a convergência manifesta-se quanto ao aspecto operativo dos métodos ascéticos empregados pelas distintas tradições. Existem técnicas de ascese que tem rigorosamente seus similares em diversas tradições conhecidas. Um dos métodos de iluminação mais difundidos é a repetição de um nome sagrado. Encontramos a técnica entre os místicos cristãos, em especial São Bernardino de Siena famoso por suas jaculatórias inspiradas e pelas pregações recomendando a eficácia deste método. Entre os cristãos ortodoxos lembramos a tradicional repetição do nome de Jesus, um dos métodos centrais da ascese do monte athos. Na mesma linha, o budismo Sukhavati (Terra Pura) centraliza sua devoção em torno da repetição do nome do Buda, enquando o hinduísmo traz a mesma técnica no japa yoga.

Este é apenas um exemplo entre tantos outros que podiam ser citados. O prof. W. Perry forneceu uma extensa lista de semelhanças deste tipo no seu livro Treasures of Traditional Wisdom. Em contrapartida, as diferenças entre os métodos explicam-se por caraterísticas específicas a cada tradição. Assim, nas tradições iconodúlicas[1] há uma veneranda transmissão de práticas vinculadas à contemplação dos ícones, cujo caráter sacramental é incontestável[2]; ao contrário, as religiões iconoclastas dispensaram todo aparato figurativo para a contemplação. Analogamente, enquanto o zen coloca todo o acento da sua prática nos koans e no zazen, o budismo tibetano traz os upayas e as recitações salmodiadas dos mantras unem-se a uma liturgia na qual os movimentos e os mudras (gestos simbólicos) são imprescindíveis e tradicionais.

Basta-nos dizer que as semelhanças dificilmente poderiam ser atribuídas a influências históricas recíprocas entre estas civilizações, uma vez que os métodos em questão se apresentam desde épocas remotas nas quais não havia contato registrado entre algumas destas civilizações.

A semelhança repousa, em realidade, na eficácia objetiva destes métodos espirituais. Isto significa que, ao contrário das hipóteses subjetivistas e relativistas que grassam na modernidade, as tradições têm um componente objetivo inequívoco. Este componente reside nos princípios metafísicos supremos os quais se refletem na adequação de certos métodos cuja prática servirá para alcançar a religação com a Fonte divina, seja esta religação concebida como Identidade Suprema com o Princípio (at-tawhid, yoga) ou estado Absoluto e Incondicionado (nirvana, sahaja nirvikalpa samadhi), seja a meta mais modesta dos exoterismos de matriz abraâmica: a felicidade imaculada num reino de bem-aventurança celestial.
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[1] O termo iconodúlico foi introduzido na literatura especializada ao que consta pela primeira vez pelo prof. William Stodart. Iconodúlica é uma tradição na qual os ícones são objeto de veneração.

[2] Um velho costume dos artistas ortodoxos do medievo indica significativamente o caráter sacramental dos ícones. Misturava-se na tinta em que eram pintados os ícones um pouco do pó das relíquias. Em outro contexto, e num plano menos material, por assim dizer, os textos de arte hindús salientam a necessidade do artista em dedicar-se à disciplina espirtual e à dhyana (contemplação).

Ricardo Almeida