segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Subjetividade e Objetividade

Todas as questões que interferem no consumo, na capacidade de escolha dos indivíduos, perpassam, obrigatoriamente, pela subjetividade, já que ela é latente a existência e a condição humana. Viver é escolher, fazer julgamentos, selecionar caminhos. Esses desejos particulares não podem se resumir a equações e teoremas matemáticos, mas devem ser compreendidos como ações individuais motivadas pelos próprios interesses que maximizam o bem-estar da sociedade.

A matematização, ou melhor, a objetivização da economia, se iniciou com a Escola Marginalista; Walras, Menger* e Jevons, mas também foi impulsionada por Keynes e keynesianos, assim como Neoclássicos, Monetaristas. Desse modo, se inculcou na cabeça dos estudantes e pensadores da economia que todos os Liberais, tirando o estatólatra Keynes, são essencialmente matemáticos, e que as idéias de Equilíbrio, assim como a análise histórica e a excessiva metodologia quantitativa, muitas delas vistas como utópicas e ilusórias pelos críticos, são devaneios dos defensores do Livre-Mercado e do Estado minimo.

Aqui vale um adendo, Keynes, aluno do neoclássico Marshall, o defensor da teoria objetiva do valor (mesmo tentando sintetizar a idéia clássica do custo de produção com o princípio da utilidade marginal) e grande promotor do método analítico-matemático, colocou um verniz matemático, um formalismo exato, objetivo, "simplificante" (não se leia simplista), adotando um "jargão algébrico e geométrico", ou como diria Von Mises "simplesmente traduziu seus sofismas para a duvidosa linguagem da economia matemática" Exatamente! Keynes, como é de fácil constatação, produziu poucas equações, mas sua simples equações trazem simples relações como se os eventos fossem...simples, e na verdade são complexos, como a EA mostra ao se basear no individualismo metodológico, com a combinação das capacidades individuais movidas pela ação humana, diferentemente do Lord que, como disse Rothbard, "reduz os motivos subjetivos à organização econômica vigente, costumes, padrões de vida, etc., e os assume como dados (...) Keynes simplesmente afirma sem discussão que esse fator [mudanças futuras de renda que alteram o consumo individual, por exemplo] “acabará se homogeneizando na comunidade como um todo”." Enquanto austríacos levam em conta a relação entre os indivíduos, a praxeologia, a inerente ação humana como determinante no processo econômico, keynesianos, assim como monetaristas, só enxergam os agregados econômicos como a maneira mais confiante de se analisar as estruturas da economia.

Ainda vale lembrar que os Novos Clássicos, ao partirem da premissa de que a ação dos agentes econômicos se fundamenta numa racionalidade a ponto de criar uma expectativa (racional) sobre o desenvolvimento futuro da economia, quase com poderes premonitórios, extingue e lança para escanteio o caráter subjetivo tão relevante na compreensão do real funcionamento da economia, descartando o método dedutivo e apriorística da Escola Austríaca. As tais Expectativas Racionais, consolidadas por Robert Lucas foram, por sua vez, criticadas por Hayek. Realmente, os teóricos das expectativas racionais usam pontos iluminados pelo ilustre vienense, mas se distanciam completamente dele já que o economista austríaco argumenta que a eficiência dos mercados se encontra na descentralização e dispersão dos conhecimentos, enquanto os Novos Clássicos se pautam em previsões mecânicas a respeito do comportamento do individuo de forma totalmente racionalizada, excluindo o caráter subjetivo, inerente a escolha, assim como a criatividade dos agentes, as inovações, o empreendedorismo etc. De um lado a metodologia empírica, e com um ranço cientificista, dos monetaristas, do outro a lógica dedutiva dos austríacos.

Nesse ponto ele, Hayek, mostra sua herança miseana tão ardorosamente defensora da praxeologia, teoria geral da ação humana, que, entre outras coisas, argumenta que inexiste uma homogeneidade, constantes quantitativamente mensuráveis no comportamento do indivíduo, logo da sociedade, o que acaba também endossando a natureza subjetivista do equilíbrio, a clara antipatia austríaca pelo doentio estudo do equilíbrio (Von Mises e sua ferrenha crítica ao equilíbrio walrasiano), diferentemente da sadia valorização que fazem dos processos de tendência ao equilíbrio, ou seja, as tendências equilibrativas servindo como processo de descoberta dos empreendedores, como diria Kirzner! Retornando, a homogeneidade, tanto do conjunto de conhecimentos quanto dos conhecimentos dos agentes em relação a estrutura econômica, que inexiste em Hayek, é essencial na fundamentação do pensamento dos teóricos das expectativas racionais, os Novos Clássicos.

* O nome de Menger só aparece nessa relação por ter sido ele um dos marginalistas, de fato, seu peso na racional objetivização da economia foi muito pequeno, nulo, até porque suas mais valiosas heranças; a teoria da utilidade marginal e a subjetivização das escolhas individuais, foram essenciais para a estruturação do pensamento Liberal e o florescimento da Escola Austríaca com Von Mises, Hayek, Haberler, Kirzner, Rothbard etc.

domingo, 16 de novembro de 2008

Eloá: feminicídio ou cultura de morte?

Esta semana recebi por email um texto escrito por duas militantes feministas, uma bem famosa: Maria da Penha, sobre o caso Eloá. Neste texto as autoras tratavam a trágica morte desta jovem como um feminicídio, uma consequência da cultura machista etc.

Tentarei tecer algumas reflexões sobre o assunto nas linhas que se seguem.

É incrível como as pessoas não conseguem reconhecer na realidade as consequências de suas próprias ações. Tratar o caso Eloá como feminicídio é uma postura no mínimo pouco reflexiva.

O que a televisão nos mostrou por 100 horas foi um resumo da cultura de morte instalada em nossa sociedade. Foi uma das faces da idade de trevas em que vivemos, como nos mostra o filme "A era da inocência" cujo nome original em francês é: L'Âge des ténèbres. E aqui não podemos deixar de dizer que a ideologia feminista tem uma colaboração considerável. Basta olharmos como elas defendem o infanticídio através da discriminalização do aborto, como elas se unem a Nietzche para decretarem a morte de Deus através da perseguição às religiões, sobretudo à Igreja Católica.

Este desastre que assistimos é a consequência de um mundo que se afasta Daquele que dá à vida um sentido e um destino. Como nos ensina Santo Irineu "A glória de Deus é o homem vivo e a vida do homem é a visão de Deus". Qual seria então o destino daqueles que desejam ofuscar a glória de Deus, senão a morte?

O que vemos neste caso, mais do que vítimas e agressores, mais do que um "crime do patriarcado" é uma sociedade inteira vitimizada por uma cultura que quer matar os nascituros, os inválidos, os anencéfalos, os idosos. E porque este desprezo pela vida? A resposta não pode ser outra senão o fato de estarmos privando o homem daquilo que é próprio da sua natureza: a relação direta com Deus, a sede de infinito. Todas as vezes na história em que esta característica humana foi desprezada a consequência foi a morte. Só o comunismo matou em 80 anos 105 milhões, o nazismo matou 6 milhões.

Na Austrália, onde a ideologia feminista, usando da mentira, conseguiu discriminalizar o aborto, morrem por ano cerca de 100 mil crianças, 50% delas do sexo feminino, por conta da "free choice" (livre escolha) de suas mães. Isso sim é um feminicídio... Agora eu faço uma pergunta a Maria da Penha e Maria Dolores? Em uma sociedade que dá à mãe o direito de matar os seus filhos o que impediria um jovem de matar a namorada? O que impediria um pai e uma madrasta de jogarem uma criança pela janela?

Entretanto, não podemos nos conformar com o estado das coisas; como nos ensina São Paulo, cuja vida recordamos neste ano, não podemos nos conformar com este mundo, mas sim transformar-nos pela renovação do nosso espírito para podermos discernir o que é bom (cf. Rm 12,2). Existe um caminho a percorrer e é o AMOR. Só ele é capaz de vencer a morte.

sábado, 15 de novembro de 2008

Zumbi era dono de escravos

O enigma de Zumbi

Estudos recentes sobre o herói da luta contra a escravidão mostram que ele próprio pode ter sido dono de escravos no quilombo dos Palmares


Leandro Narloch

Na próxima quinta-feira, 262 cidades brasileiras comemoram o Dia da Consciência Negra, data que evoca a morte de Zumbi dos Palmares. Último líder do maior dos quilombos, os povoados formados por negros fugidos do cativeiro no Brasil colonial, Zumbi foi morto em 20 de novembro de 1695, quase dois anos depois de as tropas do bandeirante paulista Domingos Jorge Velho praticamente destruírem Palmares. Ao longo dos séculos, Zumbi se tornou uma figura mítica, festejado como o herói da luta contra a escravidão. O que realmente se sabe dele, como personagem histórico, é muito pouco. Seu nome aparece apenas em oito documentos da época, incluindo uma carta do governador de Pernambuco anunciando sua morte. Como ocorre com Tiradentes e outros heróis históricos que servem à celebração de uma causa, a figura de Zumbi que passou à posteridade é idealizada. Ao longo do século XX, principalmente nos anos 60 e 70, sob influência do pensamento marxista, Palmares foi retratada por muitos historiadores como uma sociedade igualitária, com uso livre da terra e poder de decisão compartilhado entre os habitantes dos povoados. Uma série de pesquisas elaboradas nos últimos anos mostra que a história de Zumbi e do quilombo dos Palmares ensinada nos livros didáticos tem muitas distorções. Muito do que se conta sobre sua atuação à frente do quilombo é incompatível com as circunstâncias históricas da época. O objetivo desses estudos não é colocar em xeque a figura simbólica de Zumbi, mas traçar um quadro realista, documentado, do homem e de seu tempo.

Biblioteca Nacional

Idéia exótica Negro retratado no Brasil do século XVII pelo pintor holandês Albert Eckhout: na época, o conceito de igualdade entre os homens não existia na África

Os novos estudos sobre Palmares concluem que o quilombo, situado onde hoje é o estado de Alagoas, não era um paraíso de liberdade, não lutava contra o sistema de escravidão nem era tão isolado da sociedade colonial quanto se pensava. O retrato que emerge de Zumbi é o de um rei guerreiro que, como muitos líderes africanos do século XVII, tinha um séquito de escravos para uso próprio. "É uma mistificação dizer que havia igualdade em Palmares", afirma o historiador Ronaldo Vainfas, professor da Universidade Federal Fluminense e autor do Dicionário do Brasil Colonial. "Zumbi e os grandes generais do quilombo lutavam contra a escravidão de si próprios, mas também possuíam escravos", ele completa. Não faz muito sentido falar em igualdade e liberdade numa sociedade do século XVII porque, nessa época, esses conceitos não estavam consolidados entre os europeus. Nas culturas africanas, eram impensáveis. Desde a Antiguidade e principalmente depois da conquista árabe no norte da África, a partir do século VII, os africanos vendiam escravos em grandes caravanas que cruzavam o Deserto do Saara. Na época de Zumbi, a região do Congo e de Angola, de onde veio a maioria dos escravos de Palmares, tinha reis venerados como se fossem divinos. Muitos desses monarcas se aliavam aos portugueses e enriqueciam com a venda de súditos destinados à escravidão.

"Não se sabe a proporção de escravos que serviam os quilombolas, mas é muito natural que eles tenham existido, já que a escravidão era um costume fortíssimo na cultura da África", diz o historiador carioca Manolo Florentino, autor do livro Em Costas Negras, uma das primeiras obras a analisar a história do Brasil com base nos costumes africanos. Zumbi, segundo os novos estudos sobre Palmares, seria descendente de uma classe de guerreiros africanos que ora ajudava os portugueses na captura de escravos, ora os combatia. Quando enviados ao Brasil como escravos, os nobres africanos freqüentemente formavam sociedades próprias – uma delas pode ter sido Palmares. Para chegar a esse novo retrato de Zumbi e do quilombo, os historiadores analisaram as revoltas escravas partindo de modelos parecidos que ocorreram em outros lugares da América e da África. Também voltaram às cartas, relatos e documentos da época, mostrando como cada historiografia montou o quilombo que queria.

Reprodução/Biblioteca Nacional e Museu Paulista

A caça e o caçador Zumbi e o bandeirante Domingos Jorge Velho, que destruiu Palmares: a escassez de documentos favoreceu versões romantizadas de como era a vida no quilombo

O principal historiador a reinterpretar o que ocorreu nos quilombos é o carioca Flávio dos Santos Gomes. Ele escreve no livro Histórias de Quilombolas: "Ao contrário de muitos estudos dos anos 1960 e 1970, as investigações mais recentes procuraram se aproximar do diálogo com a literatura internacional sobre o tema, ressaltando reflexões sobre cultura, família e protesto escravo no Caribe e no sul dos Estados Unidos". Atendo-se às fontes primárias e ao modo de pensar da época, os historiadores agora podem garimpar os mitos de Palmares que foram construídos no século XX.

O novo quilombo dos Palmares

Estudos recentes mudam a visão que predominou
no século XX sobre os povoados

O que se pensava
• O quilombo era uma sociedade igualitária, com uso livre da terra e poder de decisão compartilhado
• Zumbi lutava contra a escravidão
• Zumbi foi criado por um padre, recebeu o nome de Francisco e aprendeu latim
• Ganga-Zumba, líder que antecedeu Zumbi, traiu o quilombo ao fechar acordo com os portugueses

O que se pensa hoje
• Havia em Palmares uma hierarquia, com servos e reis tão poderosos quanto os da África
• Zumbi e outros chefes tinham seus próprios escravos
• As cartas em que um padre daria detalhes da infância de Zumbi provavelmente foram forjadas
• Ao romper o acordo com Portugal, Zumbi pode ter precipitado a destruição do quilombo

http://veja.abril.com.br/191108/p_108.shtml

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Extrato de uma conversa filosófica

"Evidentemente, estas considerações não valem para a lógica aristotélico-escolástica, que não é um "mecanismo de representação", nem uma função específica das estruturas lingüísticas (como queria um R.Carnap, por exemplo). Reduzi-la a algo assim é retirar dela a sua própria essência. A lógica em Aristóteles enuncia as leis de encadeamento dos princípios supremos da realidade, os quais são por sua vez apreendidos pela intuição intelectual. Ora, a possibilidade de se dizer algo do mundo que efetivamente saia da esfera das representações subjetivas ou da mecânica da linguagem, desaparece quando cortamos o laço entre pensamento e mundo, entre alma e realidade exterior.

Decerto, este afastamento dos dois polos não foi mera obra do acaso histórico, mas tem uma bem traçada linha de desenvolvimento, cuja culminância e cintilação mais vultuosa nós hoje assistimos. Os espíritos conventuais, ainda apegados à tradição, recuam horrorizados ante a idéia de esposar esta dualidade trágica. A certeza lógica e ontológica em Aristóteles provêm da estrita homologia que é possível estabelecer entre pensamento e mundo. Sem esta homologia, a lógica nada nos diz sobre o real, mas apenas sobre as condições do discurso possível acerca do real.

Em Aristóteles, interior e exterior, mundo e discurso se interpenetram e se resolvem da unidade de uns quantos princípios comuns - eis aí a raiz e a possibilidade mesma do conhecimento, uma possibilidade que Kant não percebeu quando, movido pelo afã de tudo reduzir às representações do sujeito, esvaziou a lógica do seu alcance ontológico e com isso abriu a possibilidade para a queda no formalismo puro da lógica moderna - instrumento maravilhoso, que faríamos bem em conservar abdicando dos pressupostos epistemológicos que lhe servem de base. Mas, mesmo sem entrar em toda esta controvérsia, ainda assim você não estaria mais respaldado para concluir, como você conclui, que a validade da lógica reduz-se a uma espécie de "legitimidade" socialmente condicionada.

Ora, isto é confundir dois planos distintos. Uma coisa é falar acerca das condições históricas que tornaram este ou aquele método de conhecimento preponderante numa determinada época ou cultura. Outra, bem diferente, é especular sobre a validade de um saber considerado em sua estrutura interna. Quando dizemos que um silogismo é válido, estamos nos referindo a uma ordem de realidade que não depende em nada das "convenções" sociais ou das suposições de qualquer indivíduo, mas que depende da apreensão de certos princípios universais, que podem estar na realidade, no entendimento puro ou nas estruturas linguísticas do gênero humano. Em suma, seja derivada da natureza das coisas, seja derivada de estruturas maiores comuns a todo homem, a legitimidade da lógica não é "convencionada" arbitrariamente.

O racionalismo mitigado de Kant não entra em questão, pois ele de fato não criticou a razão em si mesma, o que seria uma pura e simples impossibilidade de acordo com o seu método. Ele criticou certas pretensões filosóficas que levavam a razão a enredar-se em controvérsias irresolvíveis. Conforme estudos mais recentes no kantismo, o que Kant propunha era uma espécie de semântica transcendental, na qual certas perguntas seriam recusadas in limine: ao notar que as questões metafísicas mais apaixonantes eram questões "sem objeto" - pois apoiavam-se em proposições sem sentido - o que Kant faz não é impor limites à razão ou coisa do tipo, mas tão só discriminar entre as questões que realmente fazem "sentido", as questões cujo objeto pode ser dado na representação, e as que não fazem. Naturalmente, a imagem que você me sugere ao falar desta crítica da lógica através da lógica, é sumamente paradoxal, mas correta. Lembra uma imagem de um filósofo analítico, não me recordo quem foi agora... Ele dizia que a epistemologia assemelhava-se a tentativa de desarmar e reconstruir um barco enquanto se está navegando.

A arte não pode demonstrar coisa alguma. Na arte não existem os mecanismos para se passar da irresolução de uma idéia à sua certeza apodítica. A arte é por essência um meio de "apreensão" - nisto você está certíssimo. Mas, se ela apreende algo - uma impressão exteriorizada, vamos supor - é precisamente porque sua natureza lhe indica a função de captar certas realidades e não de demonstrá-las. Demonstrar é revelar a necessidade de algo ser exatamente o que é. Assim, demonstramos que a soma dos quadrados dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa quando, por certos mecanismos apropriados, o entendimento é levado a tomar a conclusão como necessária. No entanto, se a arte nos permite captar certas realidades, estas realidades podem, evidentemente, ser diferentes do que são. Nada há nestas realidades artísticas, e na sensação de beleza que elas nos provocam, de "demonstrável", quanto mais de "demonstrado".

Mas esta é uma mudança ociosa. A distinção entre demonstração e apreensão, entre a certeza lógica e a impressão, a certeza que a arte nos provoca - uma "certeza", cum grano salis - corresponde a uma adequada diferenciação de processos de conhecimento. No caso, o excesso logicista estaria em desprezar a apreensão artística como forma de conhecimento, em considerá-la uma forma menor de saber, quando na realidade ambas as coisas, lógica e arte, são as duas faces de Jano: a arte enquadra-nos numa perspectiva simbólica, quando nos fornece certas experiências interiores sem as quais estaríamos confinados permanentemente na baixa animalidade; ao fazê-lo, a arte nos dá uma imagem em miniatura de um "mundo possível" e, portanto, nos estende um horizonte de possibilidades anímicas e sensitivas.

O acúmulo de impressões variadas desta mesma ordem se traduz no aumento progressivo da capacidade de estruturas sub-realidades com as quais, imaginativamente, reproduzimos a estrutura de um mundo possível, cujas leis sempre serão o reflexo, ainda que retorcido, das leis do nosso próprio mundo (leia-se aí o conceito da mímese aristotélica). Ora, projetar imaginativamente modelos estruturais de realidade é uma atividade artística comum à ciência, com a diferença que na ciência busca-se o real com tais modelos, enquanto que o domínio da arte é o domínio do possível. Se a arte situa-se no domínio do possível, então é um contra-senso falar em "demonstração", pois o sentido mais óbvio do termo "demonstrar", é: mostrar algo como não podendo ser senão o que é demonstrado. Daí a pertinência da distinção: a atividade científica supõe outras condições que não estão presentes na arte, as quais constituem os requisitos particulares e diferenciadores dessa atividade."

terça-feira, 11 de novembro de 2008

René Guénon e a Unidade Metafísica das Tradições I

A obra de René Guénon se constitui no exemplo mais perfeito de intelectualidade espiritual no Ocidente do século XX. Este juízo grandiloquente dificilmente poderia ser contestado por quem lesse a totalidade dos 27 volumes saídos da lavra do ilustre autor.

Francês de nascimento, tendo sido educado por família católica devota, Guénon desde cedo mostrou aptidões notáveis para as matemáticas. Mais tarde, quando afastado do estudo das disciplinas lógicas a que era afeiçoado e dedicando-se por completo a exposição das doutrinas tradicionais, este caráter matemático do seu espírito revelar-se-ia no estilo escolástico e complexo dos seus escritos.

Este estilo, naturalmente, tem um encanto ambíguo. Pode afastar leitores menos afeitos a intrincadas distinções e ao mesmo tempo seduzir aqueles que, a despeito das dificuldades encontradas, buscam uma fonte extremamente precisa de dados tradicionais. Pois de fato o intuito de Guénon não foi jamais destacar-se por sua originalidade, muito menos atiçar a sensibilidade de seus leitores com belas metáforas e floreados estilísticos. O rigor matemático da exposição, aliada a erudição invejável mas nunca louvada como fim em si, recomenda Guénon como o expositor por excelência da Sophia Perennis.

Por Sophia Perennis entende-se o núcleo metafísico das tradições cuja unidade essencial se atesta precisamente pela convergência neste plano: apenas no plano da Sophia Perenis pode haver identidade das tradições. Malgrado as diferenças de ritos, moral, dogmas e outras diferenças de forma, a concepção metafísica da Realidade deve necessariamente ser compartilhada pelas religiões. No plano dos princípios supremos e universais não pode haver distinção entre as várias formas tradicionais. Todas as tradições, por exemplo, seja sob véus de mitologias politeístas, seja afirmando um monoteísmo irredutível, compreendem a realidade como sendo, em última instancia, unitotalidade espiritual. A impossibilidade de um dualismo metafísico incontornável é um daqueles pontos nos quais a unidade metafísica das tradições mostra-se mais facilmente visível.

Do mesmo modo, a convergência manifesta-se quanto ao aspecto operativo dos métodos ascéticos empregados pelas distintas tradições. Existem técnicas de ascese que tem rigorosamente seus similares em diversas tradições conhecidas. Um dos métodos de iluminação mais difundidos é a repetição de um nome sagrado. Encontramos a técnica entre os místicos cristãos, em especial São Bernardino de Siena famoso por suas jaculatórias inspiradas e pelas pregações recomendando a eficácia deste método. Entre os cristãos ortodoxos lembramos a tradicional repetição do nome de Jesus, um dos métodos centrais da ascese do monte athos. Na mesma linha, o budismo Sukhavati (Terra Pura) centraliza sua devoção em torno da repetição do nome do Buda, enquando o hinduísmo traz a mesma técnica no japa yoga.

Este é apenas um exemplo entre tantos outros que podiam ser citados. O prof. W. Perry forneceu uma extensa lista de semelhanças deste tipo no seu livro Treasures of Traditional Wisdom. Em contrapartida, as diferenças entre os métodos explicam-se por caraterísticas específicas a cada tradição. Assim, nas tradições iconodúlicas[1] há uma veneranda transmissão de práticas vinculadas à contemplação dos ícones, cujo caráter sacramental é incontestável[2]; ao contrário, as religiões iconoclastas dispensaram todo aparato figurativo para a contemplação. Analogamente, enquanto o zen coloca todo o acento da sua prática nos koans e no zazen, o budismo tibetano traz os upayas e as recitações salmodiadas dos mantras unem-se a uma liturgia na qual os movimentos e os mudras (gestos simbólicos) são imprescindíveis e tradicionais.

Basta-nos dizer que as semelhanças dificilmente poderiam ser atribuídas a influências históricas recíprocas entre estas civilizações, uma vez que os métodos em questão se apresentam desde épocas remotas nas quais não havia contato registrado entre algumas destas civilizações.

A semelhança repousa, em realidade, na eficácia objetiva destes métodos espirituais. Isto significa que, ao contrário das hipóteses subjetivistas e relativistas que grassam na modernidade, as tradições têm um componente objetivo inequívoco. Este componente reside nos princípios metafísicos supremos os quais se refletem na adequação de certos métodos cuja prática servirá para alcançar a religação com a Fonte divina, seja esta religação concebida como Identidade Suprema com o Princípio (at-tawhid, yoga) ou estado Absoluto e Incondicionado (nirvana, sahaja nirvikalpa samadhi), seja a meta mais modesta dos exoterismos de matriz abraâmica: a felicidade imaculada num reino de bem-aventurança celestial.
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[1] O termo iconodúlico foi introduzido na literatura especializada ao que consta pela primeira vez pelo prof. William Stodart. Iconodúlica é uma tradição na qual os ícones são objeto de veneração.

[2] Um velho costume dos artistas ortodoxos do medievo indica significativamente o caráter sacramental dos ícones. Misturava-se na tinta em que eram pintados os ícones um pouco do pó das relíquias. Em outro contexto, e num plano menos material, por assim dizer, os textos de arte hindús salientam a necessidade do artista em dedicar-se à disciplina espirtual e à dhyana (contemplação).

Ricardo Almeida

domingo, 9 de novembro de 2008

Lula Hamlet, e a Democracia na Venezuela

Ato 1 - Cena 1

"Eu não sei se a América Latina teve um presidente com as experiências democráticas colocadas em prática na Venezuela", disse Lula, ao comentar que ninguém poderia acusar a Venezuela de não ter democracia. "Poder-se-ia até dizer que tem em excesso". (29/09/2005 )

Ato 1 - Cena 2

"Se permitirem que a oligarquia volte ao governo (de Carabobo), vou acabar mandando os tanques da brigada blindada para defender o governo revolucionário e para defender o povo",afirmou Chávez ao lado do candidato oficial do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) em um comício nesse estado. ( 09/11/2008 )

Ato 1 - Cena 3

Dom Luizinácio I entra no Cemitério. Bate um papo animado com Marco Aurélio Garcia. O coveiro lhe apresenta um crânio.

LUIZINÁCIO: De quem era este?
PRIMEIRO COVEIRO: Da mais extravagante louca que já se viu. Quem pensais que ele fosse?
LUIZINÁCIO: Não posso sabê-lo.
PRIMEIRO COVEIRO: Para o diabo com sua loucura! Esse crânio aí, senhor, esse crânio ai, senhor, era o crânio de Democracia, a boba da corte do Coronel.
LUIZINÁCIO: Este?
PRIMEIRO COVEIRO: Precisamente.
LUIZINÁCIO: Deixe-me ver (pega o crânio). Olá, pobre Democracia! Eu a conheci, Marco. Uma moça de infinita graça, de espantosa fantasia. Mil vezes me carregou nas costas. E agora, como me atemoriza a imaginação! Sinto engulhos. Era aqui que se encontravam os lábios que eu beijei não sei quantas vezes. Onde estão agora os chistes, as cabriolas, as canções, os rasgos de alegria que faziam explodir a mesa em gargalhadas? Não sobrou uma eleição, um plebiscito, ou um jornal livre ao menos, para rir de tua própria careta? Tudo descarnado!

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

O Marxismo e a Religião: Exemplos Práticos

O marxismo por onde passou deixou destruição e chagas muitas vezes irreversíveis. A China, desde os primórdios da revolução, vive uma realidade dura e cruel onde a liberdade é perseguida e, junto com ela, as religiões, com mais força o cristianismo que tão naturalmente estimula e incita a luta dos homens contra o totalitarismo, em defesa da real vivência dos ideais Verdadeiros. Já a Venezuela sofre com a força de um governo que persegue e manipula a sociedade, um Estado que lança mão da sua máquina para gerir os movimentos e controlar a opinião pública. A religião não fica de fora. As Igrejas são alvos de ataques jurídicos e até policiais, tudo para reduzir a influência da mensagem cristã junto ao povo venezuelano. Para isso, Chávez propaga, aliado aos teólogos da libertação, o relativismo e modernismo, tão eficientes na destruição do senso religioso e da honestidade lógica do homem. Nada disso espanta a qualquer pessoa que conheça o marxismo e sua relação com a religião, desde Marx e sua ortodoxia até as novas tendências modernas.

Marx disse; "Se conheço a religião como autoconsciência humana alienada, a minha autoconsciência não é confirmada na religião, mas na abolição e superação da religião." [1] Como pontuei em outro texto, para ele a religião é simplesmente um elemento do mundo da ideologia, conseqüência da atividade da consciência dos homens na história. Logo não tem consistência própria, existência real, não tem essência, é apenas um produto histórico, o reflexo de um modo de produção. A essência da religião não se encontra nela, mas no mundo material dos homens. Por fim, a Revolução, que para ele é o rompimento, o alvorecer do Novo Homem, impede a alimentação da religião através da alienação. Não obstante, a união da religião com o marxismo ocorre justamente no ideal da redenção revolucionária, mesmo isso colocando o sacrifício de Cristo na Cruz, a única e verdadeira redenção para os cristãos, em total segundo plano. Qual seria o papel da Igreja então? Ela se tornaria um instrumento da luta de classes, e sua tomada por ideais marxistas, por se tratar de uma “superestrutura” que produz discurso e desenvolve a cultura e o pensamento, a transformaria na principal promotora da revolução cultural. Gramsci e Lukács entrariam em êxtase.

Marx ainda vai além ao dizer:
Quanto mais o trabalhador se desgasta no trabalho, mais poderoso se torna o mundo de objetos por ele criado em face dele mesmo, tanto mais pobre se torna a sua vida interior, e tanto menos ele pertence a si próprio. Quanto mais de si mesmo o homem atribui a Deus, tanto menos lhe resta. [2]
Ainda afirma:
Tal como na religião, onde a atividade espontânea da fantasia do cérebro e do coração humanos reage independentemente como uma atividade alheia de deuses ou demônios sobre o indivíduo, assim também a atividade do trabalhador não é sua própria atividade espontânea. É atividade de outrem e uma perda de sua própria espontaneidade. [3]
Percebe-se claramente que Marx relaciona a religião como mais um fator de alienação, ou seja, quando o resultado do trabalho do homem, que é determinante na definição dos valores dos bens, o objeto produzido, se torna alheio ao próprio homem, gozando de identidade própria. O produto do trabalho se volta contra o seu criador, o trabalhador, de forma hostil. A religião, por sua vez, é, para o filósofo alemão, mais um fator de esvaziamento do homem, distanciando de sua essência humana. Da mesma forma que a alienação econômica, a religiosa cria um produto com identidade estabelecida; Deus, que sacrifica o próprio homem. Ou seja, Deus, produto da fantasia do homem, invade e se torna dono do seu criador, o escravizando, o submetendo a um mundo de privações e pesares. Vale lembrar que para Marx a religião ainda é mais um artificio de dominação de classes, um produto histórico que surgiu para alienar e impossibilitar o rompimento das classes proletárias aos grilhões da exploração. Para Marx, de forma resumida, nas palavras de Giuseppe Staccone, “Deus é para o homem o que a mercadoria é para o trabalhador: um produto que passa a dominar o produtor.” [4]

Vejam que desde já fica clara a impossibilidade de conciliação entre o marxismo e a religião, em especial o cristianismo. Não obstante, desde a maturação do ideal da revolução cultural, se estabeleceu uma nova forma de relação dos ideais materialistas histórico-dialéticos com a fé, em especial devido a ação da psicologização do marxismo através da Escola de Frankfurt, e o fortalecimento da ideologização por meio de métodos mostrados por Gramsci e, posteriormente, por Lukács.

Gramsci percebeu a necessidade de uma revolução cultural por meio da qual se destruiria os velhos paradigmas de forma silenciosa, preparando o terreno para o advento do socialismo, não mais com armas, mas uma conseqüência quase imediata das radicais transformações sociais. Essa subversão do centro de valores, a destruição do ethos tradicional da civilização ocidental, passou a ser vista como o ponto determinante. Lukács, posteriormente, percebeu que os pilares mais sólidos, sobre os quais se erguera o Ocidente, eram o direito romano, a filosofia grega e, sustentando os primeiros, a moral cristã. Justamente dessa compreensão, muito sábia, devemos reconhecer, nasceu a necessidade de renovação dos métodos marxistas ortodoxos. Não mais uma veemente condenação e rechaço à religião, mas sim a conversão da fé em instrumento de propagação do ideal revolucionário. A Igreja, por exemplo, por ser uma construtora de discurso e pensamento, assim como baluarte da cultura, ao virar meio de difusão da luta de classes faz com que toda a sua potencialização contra-revolucionária seja revertida, com a mesma ênfase, em farol da destruição das bases fundamentais do homem ocidental. Desse modo, de forma resumida, podemos dizer que se entendeu que a derrubada das “superestruturas” poderia ser substituída pela tomada silenciosa das “superestruturas”. Estas, por sua vez, são definidas por Marx desse modo:
Na produção social da sua existência, os homens entram em relações determinadas, necessárias, independentes da sua vontade; essas relações de produção correspondem a um grau de desenvolvimento dado as suas forças produtivas materiais. O conjunto dessas relações de produção constitui a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se eleva uma superestrutura jurídica e política e à qual correspondem determinadas formas de consciência social. [5]
Contextualizando nossa abordagem, podemos comparar a aplicação desses métodos distintos com o que hoje vemos na China e na Venezuela. A China não conheceu os princípios de Liberdade e Democracia, nem tinha em sua essência basilar o espírito cristão, tão determinante no fracasso dos ideais socialistas. Desse modo não fica difícil perceber que a aplicação da ortodoxia marxista em relação a religião não foi problemática num país agrário, com pouco desenvolvimento econômico e social, com religiões distantes de uma conscientização política fruto do amadurecimento doutrinal e histórico. A Igreja Católica na China, muito diminuta, não era um obstáculo ideológico a ponto de ser determinante em um possível fracasso comunista. Desse modo, sem um espírito contra-revolucionário intrínseco a formação social, o Estado marxista lançou mão de sua força totalitária para perseguir e reprimir todos aqueles que pudessem subverter a nova ordem, incluindo instituições. Mesmo o cristianismo sendo pouco presente em terras chinesas, as Igrejas em seu solo poderiam servir como canais de propulsão de um ideal de liberdade e fé, uma combinação muito explosivo para os comunistas. As Igrejas não precisavam do apoio dos países capitalistas ocidentais para que fossem justificadas as perseguições pelo regime, o simples fato de ensinar o Evangelho, que carrega no seu âmago uma mensagem de esperança, tornaria a presença de Cristo perigosa.

O governo chinês, de forma estratégica, percebeu que aliciando, aproximando a Igreja do regime, fazendo com que necessitasse do Estado para manter sua vida apostólica, enfim, criando um vinculo muito estreito com o poder político, poderia controlar e gerenciar os passos do clero, fazendo com que perdesse força e influência, o que, naturalmente, acarretaria a diminuição dos fiéis e a extinção da Igreja. Para tanto foi desenvolvida a “Tríplice Autonomia”, que afirmava que a Igreja na China deveria gozar de total “autonomia” perante as outras nações a tudo que envolvesse a evangelização, custeamento e coordenação. Com isso foi exigido relatórios mensais com o discernimento das contribuições recebidas e, posteriormente, foi proibido por lei qualquer contato com outras nações, endossando juridicamente a expulsão de religiosos estrangeiros. Desse modo se cortava toda a relação da Igreja chinesa com o mundo, fazendo dela uma presa fácil ao poderio do Estado, assim como fechando as torneiras que alimentavam e subsidiavam os trabalhos missionários no país.

Alguém pode se perguntar; por que todo o clero se submeteu ao poder do Estado chinês? Não, um grupo de religiosos e fiéis se manteve integro e devoto da ortodoxia católica, esses sofreram com as acusações de serem servos do capitalismo e do imperialismo, sofreram com as perseguições, martírios, prisões, torturas, confisco de bens, destruição de igrejas e mosteiros etc. Outro grupo, composto por homens e mulheres que se aliaram ao governo, enxergando nessa aliança a única forma de professar sua fé, mesmo que fosse as custas da corrupção da doutrina, acabou gerando o que se chama Igreja Patriótica. Eles sucumbiram depois que viram as enormes impossibilidades impostas pelo governo aos católicos ligados a Roma. Trocaram a fidelidade por uma falsa liberdade. A "Associação patriótica dos católicos chineses" nasceu fundamentada na estreita ligação com o partido comunista chinês a ponto de permitir nas suas normas as orientações e nomeações do PCC. Além disso tem como obrigação estatutária fazer com que a Igreja Católica marche rumo ao futuro socialista e goza, em Direito, de independência, autonomia e autogestão, ou seja, sem interferência da Santa Sé.

Não obstante, na Igreja patriótica existe uma busca pelo reconhecimento de Roma, um sentimento muito sincero e puro. Os fiéis e o clero tentam retornar a plena comunhão com a Santa Sé. Interessante é o esforço para validar canonicamente os Bispos patrióticos; quando o Estado seleciona os nomes para as dioceses eles são enviados secretamente a Roma e, posteriormente, são estudados e escolhidos pelo Papa que os reenvia a China. Só aparecem para a ordenação aqueles que tiveram a autorização do Santo Padre. Eles sabem que ordenação sem aval do Sumo Pontífice incide em excomunhão automática (como ocorreu com Lefevbre).

A situação da igreja patriótica, hoje, não é melhor do que a das catacumbas, a verdadeira Igreja Católica da China. Na época da revolução cultural ambas foram proibidas e tiveram seus bens confiscados. Os Bispos e padres eleitos e ordenados, apenas com a permissão do Estado, sabem da triste situação em que se encontram, ainda sofrem porque os religiosos ordenados licitamente não concelebram com eles e os fiéis não aceitam seus sacramentos. Cardeal Zen, Arcebispo de Hong Kong, a maior voz em defesa da liberdade da Igreja, disse que cerca de 85% dos Bispos da Igreja patriótica foram aprovados secretamente pelo Papa (muitas vezes os nomes que os fiéis mandam para a aprovação pelo governo são de religiosos já escolhidos pelo Papa). O governo não sabe como reverter essa situação.

Na Venezuela as coisas mudam de figura. Estamos falando de um país ocidental, criado nas bases que sustentam toda nossa civilização, erguido sobre valores e princípios cristãos, e nascido com um espírito de Liberdade por meio de Simão Bolívar que, diferentemente do que pintam, não tinha ideais coletivistas e igualitaristas, até porque se tratava de um aristocrata e maçom, ou seja, submerso nas novas tendências filosóficas que, por sua vez, passavam longe de um cripto-socialismo. Dessa modo percebemos desde já que a perseguição a religião em terras venezuelanas não se aplica do mesmo modo como na China, diferentemente da ortodoxia, ou da tentativa de ortodoxia, do maoísmo, o chavismo se esforça para aliciar a Igreja, força que se corrompida, por criar e sustentar um discurso, se torna instrumento de ampla ideologização e doutrinação.

A Igreja Católica Reformada da Venezuela é a fusão do anglicanismo, catolicismo e modernismo. Ironicamente, a nova denominação não defende o casamento homossexual nem ordena mulheres, mas, por andar lado a lado com o relativismo, é apenas uma questão de tempo para que o arcabouço doutrinal se adapte as novas “necessidades”. Outra coisa interessante é que a Igreja Católica Reformada recebeu um taxativo não da Comunhão Anglicana ao pedido de reconhecimento, mais interessante ainda é que teve o apoio da Igreja Anglicana Conservadora da América do Norte, comandada do Texas, que surgiu por se recusar a se submeter ao liberalismo reinante na Igreja Episcopal que, inclusive, ordenou um gay.

De fato, a Igreja Reformada da Venezuela não é oficial nem oficialmente representante da crença do líder máximo do país. Entretanto se diz solidária e sensível aos projetos e reformas do Presidente, compartilhando dos planos socialistas e revolucionários de Chávez, como deixou claro Enrique Albornoz, um ex-ministro luterano que é o principal bispo, o líder, da Igreja Católica Reformada. E vejam que engraçado; Alvarado, que era um Padre católico, celebrou seu próprio casamento com sua ex-assistente. Certo estava D Jorge Cardeal Urosa, Arcebispo de Caracas, ao dizer que essa igreja era "uma espécie de canja de galinha, uma salada verde, algo que não terá qualquer coerência interna".

Percebam que o objetivo da Igreja Reformada da Venezuela é minar o catolicismo internamente através da corrupção do clero, da difusão de um espírito relativista e liberalizante. Desse modo, adotando um discurso populista e socialista, em plena comunhão com os métodos panfletários de Chávez e sua poderosa máquina totalitária e publicitária, que inventa um paraíso bem diferente da fome e das filas tão comuns no país, essa denominação pega carona no tal “sucesso” do chavismo. Como disse D. Roberto Luckert, Vice-presidente da Conferência Episcopal Venezuelana, "Eles se vestem como padres, ministram batismos e crismas - tudo pago pelo governo - enquanto as pessoas passam fome" e "O que eles querem fazer é colocar um fim à Igreja Católica, mas não tiveram sucesso". Sem o catolicismo, sem a vivência do verdadeiro Evangelho, sem a defesa da Liberdade, o aspirante a sumo ditador tem o caminho livre para instaurar o regime de terror.

Enfim, percebemos a total incongruência entre o marxismo e a religião, compreendemos como os ideais de Marx, assim como as diversas correntes que posteriormente surgiram, tendem a destruir e minar a fé ou, no máximo, torná-la uma ferramenta de luta de classes, um instrumento muito valioso na corrupção das bases fundamentais da nossa Civilização. Exterminar a religião cristã no Ocidente é corromper e derrubar o pilar mais seguro que mantém uma história de séculos e séculos, é acender um fogo que transformará em pó um legado de milênios. A demolição das pilastras abrirá as portas do inferno no mundo, portas essas que jamais irão prevalecer sobre a Igreja.

[1] MARX, Karl, Manuscritos Econômicos e Filosóficos p. 162

[2] MARX, Karl, Manuscritos Econômicos e Filosófico, p. 97

[3] MARX, Karl, Manuscritos Econômicos e Filosóficos p. 93

[4] STACCONE, Giuseppe, Filosofia da Religião O Pensamento do homem ocidental e o problema de Deus, p. 137

[5] MARX, Karl, Prefácio à Introdução à Contribuição para a Crítica da Economia Política

Pedro Ravazzano