quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Gnose, heresia e ortodoxia

"O gnosticismo é uma proliferação de heresias que, apesar de sua diversidade, tem alguns pontos em comum. O termo é muito ambíguo, porque não todas as escolas englobadas sobre essa denominação se qualificaram como gnósticas, porque ignoramos todas as influências que os doutores gnósticos experimentaram e as fontes primeiras de onde sacaram suas idéias. Sem embargo, o termo é tradicional e ademais, no fundo, todas as seitas gnósticas tem muitos contatos, surgidos de necessidades análogas e seguindo uma direção paralela.

(...) Não se trata de um simples saber e de uma ciência a secas, senão de conhecer a Deus, ver-lo, possui-lo. Mas esse conhecer, ver e possuir não se adquire pela dialética nem pela fé. A princípio se trata, pois, de um conhecimento místico.

[Com o contato com a filosofia, especialmente a platônica, os doutores gnósticos se aproximaram das religiões orientais, reflexo da necessidade de confeccionar um sistema religioso], a dialética filosófica foi portanto substituída por uma mitologia abstrata e sentimental, artificialmente criada, onde entra a astrologia e magia. (...) O gnosticismo, diz-se, é a "helenização do cristianismo levada ao ponto mais alto" (Harnack) (...) Existe também uma gnose cristã completamente ortodoxa, gnose que aceita a influência da filosofia, especialmente de Platão e do neoplatonismo, em tudo aquilo que não era oposto aos dogmas cristãos.

[Ao falar de Clemente de Alexandria, o autor comenta] A gnose não contradiz a fé; não solamente a sustenta e esclarece em alguns pontos, senão que a eleva a uma esfera mais alta; do domínio da autoridade ao domínio da ciência lúcida e da adesão íntima, espiritual, que emana do amor de Deus. A fé e a gnose estão unidas entre si porque as duas extraem seu conteúdo da Sagrada Escritura; a fé é conhecimento breve e compendioso das coisas necessárias; a gnose é demonstração das coisas tomadas pela fé; daí que uma seja estado elemental e preparatória da outra."

Luis M. de Cadiz (Pe. Antonio Ulquiano-Murga) em Historia de la Literatura Patristica (1954).

Tradução: Pedro Ravazzano

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Sagrado Coração

Em 1981, o decreto da Congregação dos Ritos proclamava que a Festa do Sagrado Coração, que este mesmo decreto instituía, não era uma novidade, senão "a síntese de todas as festas em que se celebram diferentes mistérios de nossa salvação". É uma recapitulação e, poderia se dizer, uma condensação de todo o Mistério cristão. E é que, em efeito, o coração é o centro, fonte da vida, do amor e da inteligência, e por conseguinte de identificação. Como dissemos, no coração do homem reside a "imagem de Deus", que há nele, o Ser, pois "o reino de Deus está dentro de vós" (Lc 17,21). É evidente, portanto, que o coração humano é feito a imagem do Coração divino, "centro de todos os corações" e "em quem resida a plenitude da Divindade". Toda a espiritualidade, na expressão dos Padres, consiste em passar da imagem à semelhança ou similitude (homéôsis). Como disse Nicolau Cabasilas, os cristãos são "membros de Cristo...sempre na comunicação com um Coração vivo", este "Coração bem-aventurado" (makaria cardia), centro ontológico da Pessoa de Cristo, se identifica só no "santo altar" (hieron thysiasterion) do sacrifício não sangrento. Por este Coração sagrado de Cristo, a virtude do altar atrai a verdadeira vida para as transmitir" (Nicolau Cabasilas, la Vida en Cristo)

Essa doutrina mistica, repetimos, se remete a própria origem do cristianismo, mas em certo modo foi revivida, e logo amplamente difundida, a partir do séc. XII e XIII, e apareceu finalmente a plena luz em Paray no séc. XVII. Entre os devotos do Sagrado Coração, esta união com o Coração divino, que em alguns chega a identificação, se operou de duas formas; seja mediante um refugiar-se no Coração, seja mediante uma "troca de corações".

O primeiro modo é o que se denominou "Viver espiritualmente no Coração de Jesus". Está descrito num comentário místico da passagem do Cântico dos Cânticos, em que o Esposo convida a amada (ou seja, a alma), nestos termos; "levanta-te, minha amada, formosa minha, e vem. Minha pomba, oculta nas fendas do rochedo, e nos abrigos das rochas escarpadas, mostra-me o teu rosto, faze-me ouvir a tua voz. Tua voz é tão doce, e delicado teu rosto!" As "fendas" e os "abrigos das rochas" se assemelham a ferida do Coração do Esposo e ao interior do mesmo Coração; assim é, por exemplo, para Santo Antônio de Lisboa (1195-1497). O simbolismo se precisa e passa a se identificar, muito significativa, do Coração com a Caverna: " «Ven, paloma mía..., vena los agujeros de la piedra, a la caverna abierta en medio de la muralla... Esta caverna es la abertura del costado de Nuestro Señor. El alma tiene que refugiarse en la caverna profunda, a saber en la llaga del costado de Jesús y en su Corazón».

Assim, Santa Matilde, no curso de uma visão do Coração Luminoso, viu seu próprio coração sumido no de Cristo. (..) Em tal processo se opera uma reintegração do batizado no estado do Paraíso terreno, como assinala com razão René Guénon: "Esse é - escreve - o significado de "viver espiritualmente" no Coração de Cristo, pois o Coração de Cristo, como o Paraíso, é o Centro do mundo".

O outro modo dessa via espiritual do Sagrado Coração é a experiência curiosa e relativamente difundida da "troca de corações", por exemplo em Santa Catarina de Sena e em Santa Lutgarda (séc. XIII), cujo coração Cristo tomou e deu o Seu, coisa que Tomás de Cantimpré, teólogo e confidente da santa, explicava de modo muito pertinente nesses temos: "Era a união do Espirito incriado e o espirito criado pela excelência da Graça; é o mesmo que disse o Apostolo: "Quem se une a Deus se converte em um só espirito com Ele" (I Cor. 6,17).

É inevitável estabelecer aqui um paralelo entre esta devoção ao Coração de Cristo na vida espiritual oriental do hesicasmo, com sua prática da "Oração do Coração". Ela busca fazer com que Jesus habite no coração do fiel e, em última instancia, identificar os dois corações; o meio empregado, como se sabe, é a invocação repetitiva do Nome de Jesus. Pois bem, é muito sintomática que a Igreja, no Ocidente, instituísse uma "Festa do Santo Nome de Jesus", quase na mesma época em que se estendia a devoção ao Sagrado Coração (séc. XIV), como complemento desta; mais ainda quando, na liturgia dessa festa, se canta o celebre hino Jesus dulcis memoria, Dat vera cordis gaudia, Sed super mel et omnia, Ejus dulcis paesentia; hino em que a palavra memória, "recordação", é totalmente característica como termo técnico para designar muito exatamente o método da invocação repetitiva destinada precisamente a atrair a "presença". Agreguemos finalmente que alguém disse que esta invocação do Nome de Jesus, o mesmo que a devoção ao Seu coração, tinha caráter escatológico; que estava particularmente reservado aos "últimos tempos", durante os quais a invocação do Nome seria um modo privilegiado para conseguir a salvação (...) Essa devoção autentica ao Sagrado Coração segue estado a disposição do cristão como uma das vias espirituais mais elevadas, e sem dúvida a mais simples e mais direta: a contemplação assídua do Coração irradiante, Sol espiritual, faz com que o contemplativo se vá tornando pouco a pouco apto para receber a revelação da Luz transcendente que arranca do salmista esse grito assombroso: "Em Tua luz vemos a Luz" (Sal. 35, 10) (Jean Hani - Mitos, Ritos y Símbolos)

A diferença entra a "mística do Coração" do hesicasmo ortodoxo e a "mística do Coração" da Igreja Católica é paralela as diferenças que distinguem a espiritualidade das Igrejas orientais e ocidentais.

Assim, enquanto que para os monges do Monte Athos, o Coração venerado é o de Jesus na Glória da Transfiguração, Coração que habita no coração dos monges os iluminando, para os místicos ocidentais, o coração adorado é o coração amante, sofredor e sangrante do Crucificado, contemplado fora deles e que desejam substituir com os seus próprios. Uma mística do coração centrada sobre o simbolismo da luz e a participação na glorificação, se diferencia portanto de uma mística do coração centrada sobre o simbolismo do sangue e a participação no sofrimento. É a mesma distinção entre uma Igreja mais orientada para o mistério da Ressurreição e uma Igreja orientada para o mistério da Paixão.

É assim como se diferenciam ambas Igrejas, como Oliver Clemente comenta quando escreve que "a alegria pascoal da Ressurreição (...) nunca foi ocultada na Ortodoxia magnifica da Sexta-Feira Santa". Outra diferença entre as místicas é que a do Hesicasmo foi codificado, regularizado, sido metodicamente transmitido no meio monacal por mestres espirituais inspirados, e perdurado até nossos dias através de todos os santos nomes da Filocalia. Enquanto que a mística do coração católica se tornou uma experiência espiritual singular, rara, espontânea se se pode dizer, presença de pura graça quase exclusivamente centrada em conventos femininos, ao menos desde as revelações de Paray-le-Monial. (...)

Ademais, enquanto que a "mística do coração", na ortodoxia, tem conta suas diferenças específicas, segue reservada ao mundo monacal, ao retiro silencioso e solitário da cela dos monastérios, e permanecido sempre abaixo do controle dos mestres espirituais, santos, doutores, higúmenos e staretz. Entre os católicos, essa mística se queria pública, aberta a todos, clero, leigos, homens, mulheres, crianças, sem direção espiritual séria, e na qual as suscripcões, tômbolas, substituíram os exercícios espirituais da Filocalia (Roger Parisot - Connaissance des Religions nº 57-58-59 - Lumières sur la Voie du Coeur)

Tradução: Pedro Ravazzano

Liberty behind bars!

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Jerônimo Savonarola

Esse artigo já começa com um questionamento; quem foi Jerônimo Savonarola? Um reformador moral, o primeiro protestante, um herege, um incompreendido, um santo ou um excomungado? O fato é que a figura desse dominicano é polêmica, rodeada de discussões e dúvidas. Ele nasceu em Ferrara, mas viveu e morreu na gloriosa Florença. Sua história tornou o Quattrocento um período mais singular, seja graças aos seus sermões apocalípticos, ou suas atitudes controversas de luta contra a cultura pagã na Renascença. Savonarola era oriundo de uma tradicional família de Ferrara. Foi um entusiasta do estudo da filosofia e medicina. O seu chamado religioso se deu por ação de um fervoroso sermão proferido por um agostiniano. Jerônimo então se retirou do mundo, entrando na ordem de São Domingos, em Bolonha. Ao longo de sua vida Savonarola atuou com as figuras mais marcantes do período; Médicis e Bórgias, Papa Alexandre VI, Miguel Ângelo e os artistas florentinos.

Desde já é extremamente pertinente levar em conta o Papa da época, Alexandre VI. Outra questão essencial na compreensão dos acontecimentos posteriores na vida do religioso é a relação que tinha com Carlos VIII, da França. Para o dominicano o monarca francês era instrumento divino de regeneração da Itália e reforma da Igreja. O próprio chegou a conclamar o rei a se guiar na Providência. Com o regresso do monarca a França, os estados italianos se rebelaram, mas Savonarola defendeu para Florença a manutenção de sua aliança com Carlos VIII, o que acarretou a sua subida ao poder. Foi aí que Savonarola lançou para a história, talvez, a cena mais marcante de sua vida; a fogueira de livros e quadros.

Alexandre VI tinha aversão a Carlos VIII, e a aliança do dominicano com o monarca francês fincou as antipatias do Papa ao Monge, que já vinha fazendo sermões contra os erros morais da sociedade italiana, incluindo a família Bórgia (Antes de se tornar um fenômeno nacional Savonarola já havia irritado os então senhores de Florença; os Médicis. Atacados pelo dominicano por promoverem a arte pagã e a vida frívola). O Papa chamou diversas vezes o religioso a Roma para prestar satisfação, sua negativa se dava por motivos de saúde ou indisponibilidade. O Papa Bórgia, consternado, o proibiu indefinidamente de pregar e, posteriormente, o excomungou. O mais interessante foi que no espaço de tempo entre o decreto e sua chegada até Florença Savonarola escreveu uma carta pedindo perdão pelas eventuais faltas cometidas. Ele e seus aliados até tentaram revogar a excomunhão junto a Roma, sem sucesso. O dominicano mandou, por sua vez, uma carta desafiando o Papa e projetou um Concílio que julgasse e depusesse o Pontífice.

O que se seguiu foi a prisão de Frei Jerônimo e sua morte na fogueira pelas mãos da justiça civil de Florença.

O que se alega é que a excomunhão de Savonarola não tinha fundamento teológico-jurídico, mas sim foi norteada pela antipatia de Alexandre VI ao reformismo moral do religioso, sua relevância política em Florença e sua estreita relação com Carlos VIII.

Os erros de Savonarola são claros; milenarismo e sentimentos apocalípticos. É fato que esses seus “métodos” foram essenciais no fortalecimento da fé em Florença, ultrajada e combatida pela intensa presença pagã renascentista. Quanto aos combates de Jerônimo a Igreja e ao Papado, fica a dúvida se ele se referia a Esposa de Cristo e ao Primado Petrino, ou era uma crítica dura a corrupção do clero e a libertinagem que reinava no pontificado de Alexandre VI. Para muitos, e até para os dominicanos que sonham com sua possível canonização, o religioso não se opunha ao Magistério, a Tradição e a Sagrada Escritura, ao contrário, seria sua fidelidade a Cristo e a Sua Igreja que o levaria a lutar pelo restabelecimento da santidade. O que fica claro é que Savonarola não era um criptoprotestante, na verdade esse seqüestro da imagem do dominicano se deu em períodos tardios, com protestantes que queriam endossar os seus posicionamentos como já existentes na história.

Quanto a sua dita aversão a arte, isso é uma falácia. Savonarola combatia o paganismo presente na Renascença, mas foi um defensor, e até influente, na concepção artística cristã, principalmente em Botticelli e Miguel Ângelo, ambos admiradores de Savonarola.

Carpeaux, em História da Literatura Ocidental Vol. 1, fala de Savonarola;

"Mas Savonarola não era inimigo da alta cultura. A profunda influência que o monge exerceu na mente de Botticelli e Miguel Ângelo basta para refutar a acusação, e o convento de San Marco, em que Savonarola viveu, é um santuário da arte. Savonarola é representante máximo, não da hostilidade contra a Renascença, mas da outra Renascença, cristã e popular, que com os monges de S. Francisco começara e com esse monge de S. Domingos acabou."

O que Carpeaux afirma é que o caso Savonarola foi essencial para a união da Igreja com o Humanismo;

"A ameaça do povo cristão estava dirigida contra duas forças até então inimigas ou separadas; a Igreja e o humanismo. O caso Savonarola acabou com a rivalidade entre elas. A Igreja e os humanistas, igualmente ameaçados, concluirão uma aliança".

Nunca saberemos se de fato Savonarola foi realmente um herege digno de excomunhão ou uma vítima da perseguição de Alexandre VI. A verdade é que sua figura enriqueceu a Renascença!

Pedro Ravazzano

Considerações sobre o caso do sequestro e assassinato no ABC

Mudei o assunto do artigo que ia publicar hoje: as circunstâncias podem maximizar o desejo de abordar tal ou qual tema, e o artigo que eu vinha escrevendo, que não é o que eu queria redigir agora, ficará para depois, apesar de ser relacionado não apenas a idéias, mas também a um fato, que inclusive antecede os que abordo agora. Mas me marcou bastante o desfecho do seqüestro das meninas Eloá Cristina e Nayara; a primeira ficou 101 horas nas mãos de um louco imbecil, Lindenberg Alves, que, conforme ameaçava, disparou contra a garota, que morreu no hospital e cujos órgãos estão, se não me engano, sendo retirados nesse momento para doação.

Confesso que não andei acompanhando muito o caso durante os dias de seqüestro e, embora tenha ficado apreensivo com o que acontecia – ou melhor, com o que não acontecia, que era a tão desejada libertação das reféns – apenas aguardava o desfecho para ficar aliviado, pois este haveria de ser bom. Que infortúnio... pois terminou em final triste.

Se é que é necessário justificar o porquê de se comentar esse episódio neste blog, eu explico: ele é revelador de ânimos e tendências de nossas épocas, e os fatos diretamente ligados a ele são muito relevantes por este mesmo motivo. Analisarei diversas reações observadas no suceder da última sexta-feira em diante. Referirei ao que ocorreu, e ao que se fez, se diz, se pensou e se sentiu em relação a isso.

Ontem, na TV - estive ouvindo trechos de programas que falavam sobre o seqüestro, bastava eu perceber sobre o que se tratava que eu ia para frente da televisão – um psicólogo dizia o seguinte sobre o assunto: em casos como esse, o sujeito rejeitado é tomado de um grande impulso, um sentimento que o tornava imediatista e incapaz de pensar no futuro de suas ações, e ele age sob arrebatamento. Embora ele possa ter lido isso nos manuais de psicologia, não me parece de forma alguma uma observação inteligente sobre o que aconteceu. Embora seja evidente que um indivíduo que cometeu um crime destes esteve sob efeito de paixões – no sentido negativo, conforme o uso por filósofos e religiosos – há outros aspectos fundamentais que precisam ser considerados. Durante o longo tempo em que se desenrolou a ação, Lindenberg alternou entre momentos de frieza e de aparente descontrole; levou um ou dois revólveres e um saco de mun
ição, demonstrando sua preparação para o que fazia; procurou em vários momentos demonstrar controle da situação, e fez questão de desmentir explicitamente a idéia de que ele estava nervoso; sim, podia estar também, mas sabia bem o que fazia. A sua ação não se deveu apenas a um estado anormal de sua mente, como dão a entender certas explicações psicológicas que parecem servir apenas para “aliviar o lado” do criminoso estúpido, sugerindo que ele estava “confuso” ou coisa parecida; e, nesse ponto, ponho em questão um mito que aparece nos depoimentos de entrevistados que conheciam o rapaz, e que se repete a todo o momento na TV quando se fala sobre o “adolescente” assassino de 22 anos: o de que ele “era uma boa pessoa” que nunca teve antecedente criminal antes e que, portanto, não dava a menor pinta de que chegaria a fazer algo como o que fez, tão surpreendente em se tratando de alguém como ele, um jovem que trabalhava. Não: ao ver alguém fazer o que ele fez nos mais de quatro dias, pode procurar conhecer a sua vida pregressa que você vai encontrar sinais de seu mau-caráter.

Depoimentos de amigas da vítima – não o Lindenberg, dessa vez me refiro a Eloá, (não se assuste se você for uma pessoa normal, é que hoje há pessoas que aparentam não saber distinguir entre criminoso e vítima)– falaram que ele era um ciumento possessivo e que BATIA NA GAROTA. Isso, o cretino era um machista demente, que se sentia o proprietário da menina e não suportou que sua propriedade o desapropriasse, julgando a propriedade pertencer a si mesma e não a seu verdadeiro dono, o ex-namorado sete anos mais velho que ela. O idiota que batia na ex-namorada refém – pois é, ela apanhou lá dentro nos seus últimos dias (http://oglobo.globo.com/sp/mat/2008/10/19/em_depoimento_policia_nayara_conta_que_lindemberg_bateu_em_eloa-586017124.asp ) - batera nela tempos antes. Mas, disseram as amigas, a família de Eloá não acreditou quando esta contou que apanhava de Lindenberg. Aí vemos porque o vagabundo era tido como um bom sujeito! Porque estava rodeado por cegos, e por surdos que não escutavam a própria filha. Sei que nesse momento a dor da família é enorme, e não tenho o desejo de ficar fustigando ninguém ( a não ser o próprio Lindenberg, que eu gostaria de humilhar e espancar), mas é preciso chamar a atenção para certas coisas, para que certos comportamentos sejam corrigidos. Eu tive uma amargura que não vou conseguir esquecer por não ter conseguido, em casa, dar a minha versão sobre o que professores e outros “profissionais da educação” falaram sobre mim em reuniões de pais e professores. Para poder proteger alguém, é preciso prestar atenção. Sim, prestar atenção no que ela tenta dizer, e prestar atenção nas pessoas que nos rodeiam, que podem não ser as pessoas que muitos dizem ser. No caso de Lindenberg, a violência era um traço mesmo da sua personalidade, e foi muito lindo acontecer um fato inusitado: o seu advogado o abandonou. Isso porque o delinqüente não cumpriu com o que prometeu, não fez sua parte para que tudo terminasse bem. Perfeito seria ver esse cara ser abandonado por todos os que tem qualquer coisa a ver com ele. Ele tem de terminar sozinho: é um louco homicida, uma ameaça às outras pessoas, à sociedade.

Outro aspecto muito importante relacionado ao ocorrido é a questão da “cobertura da imprensa”, criticada por Reinaldo Azevedo no seu blog, no post “A TRAGÉDIA DE SANTO ANDRÉ: E NÓS COM ISSO?”. O jornalista questiona sobre que postura a imprensa deve adotar nessas ocasiões, que seja mais séria que a atual. Ele escreve: “Será que não é hora de a imprensa rever o seu papel em casos como este? Não sou especialista em comportamento — nada além de algum bom senso. Mas indago: o que será que alguém como Lindebergue pretende? Durante cinco dias, este rapaz ligou a televisão e se viu como a estrela de um filme longuíssimo, de um drama que mobilizou o país, que levou especialistas em comportamento à televisão para aquelas digressões entre irresponsáveis e irrelevantes sobre o comportamento humano. Um rapaz pobre, da periferia, que decide se vingar da ex-namorada, vê-se, subitamente, no centro de uma verdadeira comoção nacional.” Interessantíssimo notar que, de sexta para sábado, mais dois casos de seqüestros por motivos passionais aconteceram, um em Mato Grosso do Sul (http://www.midiamax.com/view.php?mat_id=346500 ) e outro em São Paulo, noticiado na TV. Contento-me em apenas mencionar esse relevante debate aqui, pois se nem o “Tio Rei” tem idéias bem definidas de como se pode resolver esse problema, não sou eu quem o fará. Mas faço questão de subscrever a crítica à Sonia Abrão por seu programa, da rede TV, ter entrevistado o seqüestrador. Que competência ela se atribui para fazer isso? Ninguém de cabeça no lugar poderia se intrometer sem consultar o GATE, que cuidava da operação. O pior é que, segunda Datena, um homem da polícia falou que essa interferência atrapalhou o trabalho policial. Procurem os vídeos relacionados a essa confusão no youtube e vejam. Que coisa...

Quanto aos erros e acertos da polícia, as perícias, investigações e, sobretudo, o depoimento de Nayara, que estava na cena do crime quando tudo terminou, vão trazer esclarecimentos que nos permitirão ter uma visão mais consistente sobre a ação da polícia. Não pretendo comentar essa questão aqui, sobre a qual muito se está sendo pronunciado – espero que não por causa de um certo sentimento anti-policial que existe no Brasil, difundido por pessoas de mentalidade “progressista”. Reinaldo Azevedo demonstra bastante esse temor, e vale citar o seu post “O NOME DO CRIMINOSO”

para que se lembre bem de algo: o bandido é Lindenberg. Outros podem ter errado, mas ele é o delinqüente. O que eu quero avisar a vocês, para concluir esse artigo, é um certo aspecto relativo à repercussão do caso, que não poderia ser pequena. Sim, muita gente está abalada com o que aconteceu, e a tristeza e a revolta são os sentimentos normais que as pessoas podem ter em circunstâncias como essa. Não é sobre isso que eu queria escrever: quero registrar a lamentável atitude de pessoas sociopáticas que procuram calcar a dor, a tristeza e a revolta daqueles que são seres humanos e por isso estão chocados com tudo o que houve.

Antes de Eloá morrer, foram criadas comunidades no orkut onde se manifestava solidariedade pelas vítimas, e se pedia a Deus por elas, e se escrevia coisas comovidas. A comunidade mais importante foi infestada por gente postando coisas odiosas e agressivas em relação à garota que morria, tornando o seu ambiente insuportável. É visível que os que freqüentam a comunidade em peso são os adolescentes, como aquelas garotas, e são sumamente desrespeitados. Visitar o perfil de Eloá e Nayara é impactante – principalmente quanto à primeira, por seu destino; vejo um estilo de se escrever, cheio de emoticons e apelidos, vejo expressões de carinho entre amigas (de amizade sincera, de quem não consegue deixar a amiga sozinha num momento desesperador), iguais a como se vê no orkut de qualquer menina adolescente; é a mesma coisa de se visitar o profile de uma colega de escola de minha irmã; vejo comunidades das quais minha irmã participa. É muito diferente de se ver a notícia na TV, onde também se transmite novelas, filmes, onde a realidade e a ficção parecem misturar-se; é sentir a própria realidade da tragédia junto a você, é ver que morreu uma menina como nossas irmãs. Aquelas atitudes doentias dos que substituem a reverência pelo deboche e pela ofensa são sinais onde vivemos. Onde vivemos? Onde as pessoas não se preocupam umas com as outras e não sofrem com o mal impingido ao próximo, não há sociedade, há um conjunto de pessoas que são obrigadas a morar em tal lugar, mas não uma sociedade verdadeira, coesa, unida por laços de comprometimento e de apoio mútuo; sociedade requer solidariedade.

Que sejamos capazes de existir como humanos!


Fotos: no alto, sendo levado pela polícia o egocêntrico assassino: "Eu sou o cara"; "Eu não tenho nada a perder"; depois, o monstro chora na cadeia: "Eu quero Eloá"

Na de baixo, as duas grandes amigas separadas por aquele degenerado: união até no perigo e nos maus-tratos impostos a ambas no cativeiro

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

I Congresso Mundial de Bioética e Direito Animal: A arte de desconhecer

Vladimir Lachance

“A revolução ecológica formará a ossatura das revoluções — ideológica, religiosa, ética e cultural — veiculadas pela ditadura pedagógica”. [Pascal Bernardin]

Não sei se damos a devida atenção às questões ambientais, referentes à chamada ética ecológica e ao ativismo animal. Assistimos a uma intensa manifestação desses supostos valores, integrantes do discurso politicamente correto, a uma defesa exacerbada e aparentemente inocente de protetores dos bichos indefesos. O veganismo é um problema central nesse debate – e eu voltarei a ele em outros artigos onde isto será colocado em evidência –, eu mesmo tendo feito parte dele. Basta pontuarmos que enquanto ativismo político é uma ideologia a serviço de um socialismo absoluto e universal.

Para melhor compreensão da relação entre ecologia/ideologia/religião/política, recomendo a leitura:

A Face Oculta do Mundialismo Verde: http://www.olavodecarvalho.org/convidados/bernardin2.htm

O Império Ecológico e o Totalitarismo Planetário: http://www.olavodecarvalho.org/convidados/empeco.htm

O relato abaixo é apenas um comentário acerca do evento ocorrido na Ufba (entre os dias 8 e 10 de outubro de 2008), I Congresso Mundial de Bioética e Direito Animal. Como era de se esperar, esteve presente o costumeiro amadorismo que permeia as pesquisas acadêmicas relacionadas aos temas da Escola do Ressentimento. Trata-se da política do “feriu o meu bucho”: questionamentos encarados como ofensas pessoais e, principalmente, intimidação dos palestrantes devido à própria falta de conteúdo – resultando numa má vontade ad infinitum.

Não era minha pretensão participar deste evento. Mas, na quinta-feira, após a reunião do Grupo de Estudos Conservadores, na Biblioteca da Ufba, resolvi dar uma olhada rápida no que estava sendo debatido no congresso.

Parte I: Incentivo ao Terrorismo.

Assim que entrei no auditório em que estava ocorrendo as palestras, me deparei com uma diversidade enorme de slogans estampados em camisas e tatuagens. A maioria das pessoas parecia já participar de algum grupo ativista ou coisa parecida, com algumas raríssimas exceções.

Sentei na última cadeira e tentei me concentrar no que o primeiro palestrante dizia. Do que pude decifrar de suas falas consegui concluir que este fazia parte da Animal Liberation Front, um grupo de “ativismo animal” – leia-se terrorismo –, e sua fala ia nesse sentido: incentivando aos defensores dos animais a praticar “ecoterrorismo”.

Isso mesmo, terrorismo. Uma das falas mais distinguíveis foi: “se você puder colocar um bilhete na mochila do filho do vivissector*, dizendo que se ele não mudar de emprego vai seqüestrar a criança, será maravilhoso”. Outra: “Não podemos praticar ações que causem danos a animais humanos e não-humanos. Por exemplo, destruir os laboratórios durante a noite, quando não houver ninguém no local é uma boa opção, afinal a propriedade não sente dor”. Esquece-se que os seguranças destes locais trabalham durante a noite, e num provável incêndio que venham a praticar seriam estes as possíveis vítimas. Esquece-se também que ainda é crime no Brasil violar a propriedade alheia – falando disso de forma tão banal que parece que já vivemos numa espécie de coletivismo onde violar a propriedade não constitui nenhum tipo de dano. Ainda comentou uma ação terrorista em que os ativistas envenenaram grandes quantidades de um remédio para impotência, fazendo a ressalva de que a ação tinha sido amplamente divulgada e ninguém corria risco. Vocês acreditam mesmo que não havia risco nenhum?

Comentou também, indignado, sobre algumas ações terroristas “mal-feitas” em que bombas foram colocadas em áreas residenciais. Mas, quando se tratou destas ações o palestrante disse defender a tese de que foram “plantadas pela própria indústria para nos incriminar”. Um fato curioso foi o argumento que o palestrante usou para defender a libertação de animais que vivem em cativeiro. Foi o seguinte: “É melhor que esses animais tenham a oportunidade de viver a liberdade, mesmo que eles possam, por acaso, ser atropelados e morrer”. Digo curioso porque no mesmo congresso havia quase que consenso em favor da legalização do aborto, e o argumento usado pelo palestrante foi muito parecido com o das pessoas contrarias a legalização. A apresentação deste palestrante fechou com “chave de ouro”, mostrando um vídeo de uma ação terrorista em que não se dava para enxergar nada. A única coisa perceptível era que alguém estava tremendo muito com uma câmera na mão e num local muito escuro. Assim, encerrou-se o primeiro ato.

A segunda palestra foi dada por uma integrante do grupo Gato Negro**, de Minas Gerais. Esta conseguia ser mais radical que o nosso primeiro companheiro. A garota passou boa parte da apresentação mostrando slides com frases de efeito do tipo: “Você gostaria que fosse com você?” ou “Todos são contra a escravidão humana. E quanto a escravidão animal?”. Quando não era isso, as frases eram polêmicas, mas a palestrante fazia questão de passar rapidamente dizendo que não entraria em discussão (um simples botão “delete” enquanto organizava a própria apresentação teria nos poupado). No tema “animais domésticos”, a palestrante deu um show nos dizendo que era preciso castrar todos eles o quanto antes, pois eram fruto de um “erro histórico” [sic]. Ao contrário do nosso primeiro palestrante, ela não defendia que era melhor que esses animais tivessem oportunidade de viver, mas sim de morrer, o quanto antes, pois haviam sidos criados para fins humanos, e por isso nem deveriam existir. Foi realmente um espetáculo!

Ademais as palestras foram pura propaganda do veganismo. “Seja vegan você também” e coisas do gênero.

Parte II: Mudança de Hábito.

Depois das duas apresentações abriu-se espaço para “debate” e “questionamentos”. Interessante que os palestrantes possuíam posições antagônicas em relação aos animais domésticos e de cativeiro, mas nenhum dos dois fez questão de defender seu posicionamento. Depois de alguns segundos de silêncio, um rapaz, fardado com uma roupa camuflada, aparentando ser agente do Ibama - junto com muitos outros vestidos da mesma forma - levantou a mão para fazer uma pergunta. Dirigiu-se à integrante do Gato Negro: “Você realmente está dizendo que devemos extinguir os animais domésticos?”. A resposta monossilábica foi: “Sim”. O rapaz prosseguiu: “Existem animais em nossa fauna, atualmente, que não faziam parte da fauna nativa, mas que foram inseridos aqui por humanos, o que podemos caracterizar também como erro histórico, pois deveriam estar num habitat mais apropriado à sua espécie. Sendo assim, você acha que devemos matar esses animais também?”. A garota ficou desconcertada, dizendo que essa medida seria um “mal necessário”, pois a situação não poderia se perpetuar eternamente. O rapaz ficou bastante espantado com o tipo de argumentação que a palestrante usava, achando, ingenuamente, que ele é que estava ouvindo errado ou que tinha feito a pergunta de maneira incorreta, e a repetia. E de novo a resposta hedionda. O rapaz se cansou, mas então um senhor próximo a ele disparou uma metralhadora de palavras contra os palestrantes, chamando-os de radicais, dizendo que tudo aquilo era absurdo, que não fazia sentido, e pedia maiores esclarecimentos da parte deles. Ao que o primeiro palestrante, disse, não percebendo que estava se contradizendo: “É necessário que esses animais deixem de existir”. O senhor perguntou novamente: “E não existe outro jeito?”. Réplica: “Não, não existe”. E de repente, o palestrante diz que as perguntas estão encerradas e coloca um vídeo para passar sem que o debate se conclua. E foi assim que, em menos de meia hora, mais um ativista “pró-animais” resolveu que era certo matá-los.

Mas no campus, eles bem sabiam com o que estavam lidando; eles, os comerciantes, que encheram as barracas com camisas de Lula, de grandes ícones da Revolução Sexual dos anos 60 e bottons do PT; produtos alimentícios caros destinados aos rebentos da classe média alta que insistem em posar de oprimidos (os herdeiros legítimos do proletariado); e tudo o que puder ser confeccionado com a imagem de Che Guevara – e olha que o cara nem de hispânicos gostava, que dirá de animais!

*Vivissector - No jargão vegan significa: indivíduo que trabalha nos laboratórios que testam diversos produtos em animais.

**Gato Negro – Grupo pró-vegan de Minas Gerais.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Breve reflexão: O Silogismo e a Crise Americana

Eu ainda me impressiono com a estupidez de algumas pessoas. Quanto mais eu leio a respeito da crise econômica mais eu fico perplexo com a falta de noções básicas de lógica. É o reino do mais ignorante silogismo. Já virou “consenso” que essa crise é a crise do “neoliberalismo”, é o fim do Livre-Mercado, é a constatação da necessidade do intervencionismo estatal.

Aí eu pergunto; quem foi que disse que o Governo Americano é liberal? Quem foi que disse que os banqueiros americanos são reais defensores do Livre-Mercado? Ninguém pode fazer essas constatações porque são mentirosas. Primeiro que, como já disse, essa é a crise da incompetência estatal. A economia americana é regulamentada, a presença do governo é total e completa;

Federal Reserve – O Banco Central, tem a incumbência de regular a taxa de juros, a oferta monetária, supervisionar e fiscalizar os Federal Reserve Banks (Bancos de Reserva Nacional,) manter a estabilidade do mercado financeiro, responder a necessidade de liquidez etc.

United States Department of the Treasury (Treasurer of the United States, United States Mint, Bureau of Engraving and Printing, Under Secretary for Domestic Finance, Assistant Secretary for Financial Institutions, Assistant Secretary for Financial Markets, Assistant Secretary for of Fiscal Service, Financial Management Service, Bureau of Public Debt, Under Secretary for International Affairs, Assistant Secretary for International Affairs, Under Secretary for Terrorism and Financial Intelligence, Assistant Secretary for Terrorist Financing, Assistant Secretary for Intelligence and Analysis, Financial Crimes Enforcement Network, Assistant Secretary for Economic Policy, Assistant Secretary for Legislative Affairs, Assistant Secretary for Management/Chief Financial Officer, Assistant Secretary for Public Affairs/Director of Policy Planning, Assistant Secretary for Tax Policy, Internal Revenue Service, Alcohol and Tobacco Tax and Trade Bureau, Inspector General for Tax Administration, General Counsel, Office of Thrift Supervision) – É o responsável por implementar a política econômica, fiscal e monetária, regular as exportações e importações, vigiar todas as instituições financeiras dos Estados Unidos.

Office of the Comptroller of the Currency – Assegura o sistema bancário nacional regulando todos os bancos dos EUA.

Securities and Exchange Commission – Regula todas as matérias referentes ao mercado de valores mobiliários.

Federal Deposit Insurance Corporation – É quem garante o seguro do depósito, assegura os depósitos feitos em bancos comerciais.

Federal Home Loan Bank Board – Agência que acompanha todos os empréstimos hipotecários dos EUA.

Ora, há liberalismo? Por acaso dizer que a política econômica americana é regulamentada é algum exagero? Em hipótese alguma!

Agora entra o silogismo. A esquerda foi muito eficiente ao criar no imaginário popular a idéia de que os EUA representam a encarnação do liberalismo mais selvagem e desumano possível. Na verdade bem sabemos que essa construção é típica de políticas populistas, aquelas que necessitam justificar seus métodos em cima de um clima de terror. Seria como um Bode Expiatório Girardiano às avessas, afinal a própria tensão que teria fim com o sacrifício é instaurada com a auto-vitimização, tendo o Estado o papel de provedor paternalista, acalmando os corações dos incautos.

Desse modo "Governo Americano" passa a ser sinônimo de liberalismo, banqueiros se tornam mais liberais que Hayek, von Mises, Kirzner etc. Como dizer a alguém com essa mentalidade que não vivenciamos a crise do “neoliberalismo” se para ele os EUA, suas instituições, seus empresários, vivem em plena sintonia com os princípios libertários?

Banqueiros são burgueses, burgueses são liberais, logo Banqueiros são liberais. Se o Governo é americano, e os EUA são liberais, logo o Governo americano é liberal!

Durma com um barulho desse?

Pouco me importa se banqueiros são burgueses ou não, o fato é que eles querem lucro com ou sem Estado. O Governo americano não é liberal, além dos argumentos expostos tanto aqui como no outro artigo, vale lembrar que os Institutos e políticos realmente libertários faziam e fazem críticas vorazes ao andamento da política econômica do país.

Ron Paul, Congressista Republicano pelo Texas, assessorado por Lew Rockwell, presidente do Instituto Von Mises, disse, em 2002, num grande artigo por ele publicado que: “O capitalismo não deve ser condenado simplesmente porque ainda não tivemos capitalismo [Falando dos EUA]. Um sistema capitalista pressupõe uma moeda forte, não um papel-moeda fiduciário e de curso forçado, manipulado por um banco central (instituição listada por Marx como indispensável para se criar um regime comunista). O capitalismo aprecia contratos voluntários e taxas de juros determinadas pela poupança, e não pela criação aleatória de moeda por um banco central. Não se trata de capitalismo quando temos um sistema que é flagelado por regras incompreensíveis sobre fusões, aquisições e vendas de ações, bem como controles salariais, controle de preços, protecionismo, controles burocráticos sobre o comércio internacional, subsídios corporativos, impostos corporativos complexos e punitivos (sim, o governo subsidia e ao mesmo tempo taxa as corporações), contratos governamentais privilegiados para o complexo industrial-militar, e uma política externa controlada pelos interesses das grandes corporações e dos grandes investidores internacionais. Adicione a tudo isso o (des)controle federal centralizado sobre a agricultura, a educação, a medicina, os seguros, o sistema bancário e todo o sistema assistencialista. Isso não é capitalismo!”

E comprovando a veracidade dos Ciclos Econômicos de von Mises, descreveu o que acontecia no seu tempo, que, não por menos, se encaixa com perfeição na atual crise “Quando a bolha está inflando, não há qualquer reclamação. Quando ela estoura, o jogo de culpas começa. Isso é especialmente válido nessa época de vitimização -- em que ninguém quer assumir responsabilidades --, e tudo é feito em grande escala. Rapidamente, tudo se transforma em uma questão filosófica, partidária, social, geracional e, até mesmo, racial. Além de não se atacar a verdadeira causa, toda essa delação e "jogo de empurra" torna mais difícil a resolução da crise e enfraquece ainda mais os princípios sobre os quais se sustentam a liberdade e a prosperidade.

(...)

Bolhas especulativas e tudo o que temos visto são a conseqüência de enormes quantias de crédito fácil, que é criado do nada pelo Federal Reserve. Praticamente não criamos poupança, mecanismo este que é uma das mais significativas forças motoras do capitalismo. A ilusão criada pelas baixas taxas de juros perpetua a bolha e tudo de ruim que lhe é inerente. E isso não é culpa do capitalismo. O problema é que estamos lidando com um sistema de inflacionismo e intervencionismo que sempre produz uma bolha econômica que necessariamente sempre acaba mal.”

Vejam como as coisas são, num dos artigos publicados no site Vermelho.Org se diz, entre outras coisas, que “O governo norte-americano estimulou empresas e consumidores a se endividar e a consumir para estimular, por sua vez, uma economia declinante. E o fez como se não houvesse risco algum." Essa é uma verdade, mas mesmo percebendo a intromissão do governo na economia e sua destrutiva conseqüência, eles “constatam” que vivenciamos a crise do liberalismo. Como há verdadeiro liberalismo com intervencionismo eu não sei!

Esse é o reinado do falso silogismo, "tempo do nosso bom e velho conhecido sofisma". Que argumentação que nada! O que vale é uma conclusão apaixonada e inflamada, recheada de marxismo, mesmo que inconscientemente, onde até mesmo as políticas estatólatras são vistas como liberais e, por sua vez, os lucros dos banqueiros graças ao intervencionismo como a constatação do capitalismo selvagem da burguesia norte-americana!

Pedro Ravazzano