sábado, 27 de setembro de 2008

O Marxismo e a Teologia da Libertação

O marxismo conquistou um grande número de seguidores dentro da Igreja. Esse posicionamento ideológico, além de contrariar os ensinamentos do Magistério, gerou um forte braço da esquerda, principalmente na América Latina. A Teologia da Libertação, nascida do encontro de heresias teológicas européias com a metodologia comunista no Novo Mundo, frutificou, tornando-se uma grande arma do socialismo mundial.

A Igreja já havia dito que "Socialismo religioso, socialismo cristão, são termos contraditórios: ninguém pode ao mesmo tempo ser bom católico e socialista verdadeiro" [1], mas isso não impediu que religiosos em rebeldia plena ao Magistério afirmassem que "o Reino de Deus é concretamente o socialismo" [2]. Genésio Boff disse, ao Jornal do Brasil, que o proposto pelos seus "não é Teologia dentro do marxismo, mas marxismo (materialismo histórico) dentro da Teologia".

Essa falta de caridade e fidelidade ao ensinado pela Igreja, que não condenou o socialismo por motivos pequenos e mesquinhos, mas pela sua incongruência com a Revelação cristã, atingiu seu ápice quando em 1968, religiosos, que já traziam de outrora suas heresias ideológicas, comungaram e ratificaram atitudes terroristas e revolucionárias. FreiBetto, e seus comparsas, aliados a Carlos Marighela, levantaram pontos ao longo da Rodovia Belém-Brasília para implementar uma guerrilha rural, usando o Convento do Araguaia como o centro logístico. Nesse momento os dominicanos se transformaram, Frei Ivo, virou Pedro, Frei Osvaldo, Sérgio ou Gaspar I, Frei Magno, Leonardo ou Gaspar, Frei Beto, Vítor ou Ronaldo, tudo isso para que pudessem contactar Marighela e Joaquim Câmara Ferreira, os cérebros do Agrupamento Comunista de São Paulo (AC/SP), que depois virou Ação Libertadora Nacional (ALN).

Esse grupo terrorista tinha como financiador o governo totalitário cubano. O presidente, Carlos Marighela, fundou o AC/SP depois que foi expulso do PCB. Interessante que sua obra, Minimanual do Guerrilheiro Urbano, transformou-se em norte de vários grupos fanáticos de esquerda, como Brigadas Vermelhas, da Itália, e Baader-Meinhoff, da Alemanha. A ALN assaltou trens-pagadores (o roubo de Santos-Jundiaí rendeu NCr$ 108 milhões), realizou seqüestros, como o do embaixador americano, em conjunto com o MR-8 (do hoje ministro da Comunicação Social Franklin Martins e do deputado Fernando Gabeira). Depois da morte de Marighela, em 1969 (por delação do Frei Fernando), a ALN passou a ser liderada por Joaquim Câmara Ferreira, que viajou para Cuba com o fim de receber ordens de Fidel Castro. Além desse extenso currículo, a ALN se envolveu em centenas de assassinatos, tanto em ação solo, como em parceria com outros grupos terroristas; VAR-Palmares (da ministra Dilma Rousseff), PCBR, MOLIPO, Tendência Leninista (esses dois últimos vindos da própria ALN). Tudo isso com a participação, ou no mínimo conhecimento, de religiosos dominicanos.

Os terroristas não lutavam por liberdade, mas sim pelo triunfo da revolução comunista no Brasil, que bem sabemos é o inverso. No regime militar, ditatorial e podador de liberdade, o número de mortos chegou a aproximadamente quatrocentos (lembrando que os guerrilheiros de esquerda cometeram cerca de duzentos assassinatos), enquanto o histórico do marxismo mundial beirava os 100 milhões de mortos. Alguns casos são bastante significativos; na China, 65 milhões morreram depois que Mao Tse Tung iniciou o "Grande Salto para Frente", um desastroso projeto. Na URSS, só de 1917 a 1953, o regime bolchevique havia matado 20 milhões de pessoas, muitos deles religiosos da igreja ortodoxa russa que cometiam o crime de professar o cristianismo. Na Coréia do Norte, que até hoje vive sob o jugo do regime comunista, o número chegou a dois milhões de mortos. No Camboja, o Khmer Vermelho matou em três anos 1/3 da população. Na América Latina, países como Cuba, Nicarágua e Peru, que estavam intimamente ligados às arquitetações comunistas, carregam cerca de 150 mil mortos. A ilha de Fidel ainda tem cerca de 2,2 milhões de pessoas, 20% da população de Cuba, de refugiados, principalmente nos EUA. Outros números; África, 1,7 milhão, entre Etiópia, Angola e Moçambique, Afeganistão 1,5 milhão, Vietnã um milhão. Seriam, então, esses 100 milhões de mortos pelo comunismo menos “importantes” do que os 500 assassinados pelo regime militar?

Aqui vale uma pequena recordação. Hoje, muitos comunistas se esforçam para desvencilhar o marxismo do que eles chamam de "socialismo real". Lutam contra a história para justificar a eterna defesa de uma ideologia genocida. Primeiramente, na década de 70 - 80, nenhum dos "companheiros"," camaradas" se incomodava em receber financiamento e treinamento da China, URSS, Cuba, Albânia etc. Essa repentina aversão ao regime comunista só se sucedeu depois da queda do Muro de Berlim, quando o mundo finalmente pode ver as desgraças cometidas pelas nações marxistas, mascaradas de um projeto de igualdade material. Quando os partidos esquerdistas do Brasil recebiam verba de Havana, Moscou ou Pequim, os três regimes já traziam nas costas centenas e milhares de mortos, e que mesmo com as restrições das mais necessárias liberdades civis, eram de conhecimento do público ocidental. Ademais, mesmo que Marx não idealizasse uma ditadura do proletariado genocida, o que alguns chamam de "socialismo real" é nada mais do que a única via prática de se instaurar um sistema naturalmente fadado ao fracasso. Hayek, um grande economista da Escola Austríaca, mostrou em sua obra, “O Caminho da Servidão”, o caráter totalitário intrínseco à concepção socialista, entre outras coisas afirma, de forma brilhante, que o “socialismo democrático (...) não só é irrealizável, mas o próprio esforço necessário para concretiza-lo gera algo tão inteiramente diverso que poucos dos que agora o desejam estariam dispostos a aceitas suas conseqüências”. [5]

A Espanha, que não sofreu com um regime comunista, chorou seus mortos na guerra civil, quando marxistas, financiados pela URSS, lutaram pela revolução em terras ibéricas. O historiador Hugh Thomas disse que "Em tempo algum no curso da história da Europa, talvez mesmo de todo o mundo, viu-se um ódio tão apaixonado à religião e suas obras." [6] Tanto na Espanha quanto no Brasil os marxistas tinham apoio direto dos soviéticos, entretanto, na península, os religiosos eram martirizados e perseguidos, enquanto aqui se convertiam à barbárie comunista. Só nos meses precedentes a guerra 160 Igrejas foram depredadas e 270 religiosos mortos. É célebre a foto onde o Cristo Redentor é "fuzilado" por atiradores comunistas. Ademais, outros monumentos católicos foram profanados, como a histórica imagem de Nossa Senhora de Granada, que tinha que ser chutada para o alistamento na Frente Popular. Os processos de canonização são sempre grandiosos; 61 mártires de Cartagena, 47 Irmãos Maristas, 226 de Valença, 500 foram beatificados a pouco tempo por S.S Bento XVI.

Enquanto Frei Betto e seus camaradas religiosos se levantavam contra os abusos cometidos pelo regime militar, em Cuba 15 mil e 17 mil pessoas eram fuziladas. A consciência era limpa (ou hipócrita?), não se incomodavam em receber dinheiro e treinamento de militantes castritas. A falta de percepção era tão acentuada que se lançavam numa luta contra um inimigo que, mesmo sendo totalitário, era mais brando do que aqueles que financiavam a luta armada contra o regime. URSS, China e Cuba eram os custeadores dos guerrilheiros que diziam lutar por liberdade mais que eram sustentados por ditaduras genocidas. Tinham mais condescendência com assassinos e blasfemadores do que com famílias cristãs de classe média. Estrebuchavam-se com marcha de católicos rezando o terço, mas aplaudiam as frases de seus ídolos, não mais bezerros de ouro, mas porcos de sangue; "Fuzilamentos, sim, temos fuzilado, fuzilamos e continuaremos fuzilando enquanto seja necessário. Nossa luta é uma luta de morte". [7], "Não sou Cristo nem filantropo; sou todo o contrário de Cristo" [8].

A Teologia da Libertação tem a sua presença no meio religioso reduzida, mesmo com seu esforço atual de se reinventar, a maneira que encontrou para tentar manter a sua influência como outrora, como na década de 80, quando era pujante. Ademais, ainda é ativa na política da América Latina. O próprio PT surgiu nas sacristias das igrejas TL, e ainda hoje, Frei Betto, Boff, e companhia, são articuladores da esquerda nacional e internacional. O frade dominicano tem relações amistosas com Fidel Castro, seu mentor político, as FARC, tendo inclusive o comandante da narcoguerrilha, Raul Reyes (o que morreu a pouco tempo), informado que um dos seus maiores contatos junto ao governo do PT era o religioso católico, e com diversos partidos marxistas do continente, sendo um dos membros principais do Foro de São Paulo, dirigindo sua revista quadrimestral, "America Libre". O dominicano, sem nenhuma timidez, barbarizou ao dizer em pleno II Fórum Social Mundial, que "a sociedade do futuro mais livre, mais igualitária e mais solidária se define em uma só palavra: socialismo. Pediu uma salva de palmas para Karl Marx e disse que o homem novo deve ser filho do casamento de Ernesto Che Guevara e Santa Teresa de Jesus", como pontuou Carlos I. S. Azambuja.

A heresia do modernismo deu um grande impulso aos religiosos que já traziam o germe heterodoxo. A massificação foi tão profunda que conseguiram corromper toda a Ação Católica, passando essa a ser um braço dos partidos marxistas. Nessa época, os grandes Bispos de destaque do país estavam em consonância com tais abusos e profanações, fornecendo uma densa e forte proteção aos religiosos que se comportavam diametralmente opostos ao ensinado pelo Magistério. Nesse contexto, é bastante pertinente a figura do ex-frade Leonardo Boff, que diferente de Frei Betto, tinha uma bagagem cultural e teológica de peso. Ele conseguiu estruturar a Teologia da Libertação, dando a ela um fundamento sólido. Sua figura caiu para segundo plano quando ainda religioso se envolveu com uma mulher casada, o que além de acarretar sua saída da vida franciscana, por vontade própria, lançou para um patamar abaixo a sua importância na teologia americana. Mesmo com essa queda, suas sementes já haviam sido plantadas em muitos setores da Igreja.

A Teologia da Libertação foi posteriormente condenada através do documento Libertatis Nuntius, que afirmou, entre outras coisas, que ela causava "uma interpretação inovadora do conteúdo da fé e da existência cristã, interpretação que se afasta gravemente da fé da Igreja, mais ainda, constitui uma negação prática dessa fé”. Isso se somou às condenações ao marxismo feitas por Pio IX, Leão XIII, São Pio X, Pio XI, Pio XII, João XXIII, Paulo VI e João Paulo II. Em Puebla, o documento do CELAM frisou que "(...) A libertação cristã usa 'meios evangélicos', com a sua eficácia peculiar e não recorre a nenhum tipo de violência, nem à dialética da luta de classes (...)" (nº 486) "ou à praxis ou análise marxista" (nº 8).

O Magistério, em toda a sua riqueza, é claro quanto a condenação ao socialismo, e a própria Teologia da Libertação. Esta, além da metodologia marxista, cai em outras heresias, como o modernismo, gnosticismo (ambas intrínsecas), mas também milenarismo, se analisarmos a perspectiva socialista de redenção, montanismo, com a sua percepção eclesiológica deturpada, e outras heterodoxias. Essas heresias podem gerar diversas outras, como por exemplo, o berenguarianismo. Além dessas heresias, a Teologia da Libertação descamba para a defesa do aborto, homossexualismo etc. Nas palavras de Frei Betto; "O Estado é laico e deve ter o direito de defender a vida das mulheres pobres não incriminando mais o aborto, o que não significa ser a seu favor." e "Embora eu seja contra o aborto, admito a sua descriminalização em certos casos (...) Se os homens parissem, o aborto seria um sacramento." [9]. O religioso só esquece do ensinamento canônico da Igreja; "Cânone 1398 Quem procurar o aborto seguindo-se o efeito, incorre em excomunhão latae sententiae (automática)", condenação que também recai aos defensores do infanticídio.

A Teologia da Libertação conseguiu entrar nos seminários e noviciados e, com isso, se estabeleceu justamente na fonte de formação. Aqui é válido um breve comentário. A chegada da TL nas escolas católicas foi avassaladora. Talvez não haja uma correta atenção a esse problema, o que, de maneira decisiva, impede a restauração de uma vivência católica genuína. O mais irônico é que a Teologia da Libertação percebeu antes de nós a relevância das escolas e, por isso, se esforçou ao máximo para entrar e se fixar nesses centros estudantis. Hoje, boa parte dos colégios católicos está entregue a ensinamentos liberais e incongruentes com a doutrina da Igreja. O problema é tão complexo que é até difícil dizer se foram os religiosos que corromperam as famílias,ou as famílias que levaram para os colégios a corrupção. Eu, particularmente, acredito na primeira opção. Os colégios católicos, literalmente, de um dia para o outro, viram seus símbolos sendo guardados em depósitos, aulas de religião reduzidas a um simplismo empobrecedor, Padres com currículos extensíssimos sendo retirados das salas de aula unicamente por serem Padres. Isso sem contar com uma das maiores antíteses com que já me deparei; colégios nominalmente e tradicionalmente confessionais restringindo ensinamentos e vivências religiosas por defenderam o pensamento laico. Esses religiosos tíbios geraram fiéis ímpios, e esses fiéis ímpios formaram famílias liberais-agnósticas-atéias. É a bola de neve.

O apoio de grandes Bispos, no passado, também foi essencial para o fortalecimento dessa linha herética. Essa condescendência episcopal, somada a maciça presença da TL nos seminários, deram a ela uma estrutura sólida e grandiosa. A sua presença na Igreja brasileira foi tão enfática que conseguiam abafar todas as condenações que vinham de Roma, continuando intocados e atuantes. Com o surgimento do movimento carismático e associações fiéis e ortodoxas (Legionários de Cristo, Opus Dei, Comunhão e Libertação, Arautos do Evangelho etc), a Teologia da Libertação passou a presenciar a sua degradação. Apenas forneciam aos seus seguidores um discurso político e centrado na dialética marxista, tudo convergia para a "justiça social" e luta de classes; Maria a mulher da caminhada, Jesus o revolucionário etc. Com isso o empobrecimento espiritual dos homens,se tornou inevitável. Esses novos movimentos resgataram o mais puro cristocentrismo.

A TL foi sendo assim minada, sua influência reduzida, entretanto, ainda se faz presente, se esforçando para sobreviver em meio ao renascimento católico. Interessante é que essa sua tentativa de manutenção a levou a se aproximar de setores da RCC, que no passado era alvo constante de críticas e acusações por parte da alta cúpula da TL. Ela cavou a própria cova quando afastou a piedade e religiosidade dos fiéis, com isso as suas fontes de vocações secaram. Em contrapartida, os novos movimentos, aversos a essa metodologia dialética e herética, passaram a ter seus seminários e noviciados apinhados de jovens, derrubando de imediato a falaciosa crise de vocações, tão divulgada pela mídia catolicofóbica. Dessa forma, uma nova geração de religiosos foi sendo formada, com fidelidade ao Magistério e ortodoxa no seguimento da doutrina. Serão os futuros padres, freis, monges, Bispos, aqueles que irão execrar por um todo a Teologia da Libertação da Igreja, e coloca-la no seu devido lugar, nos livros de história, como uma heresia ao lado de tantas outras.

Notas

[1] Quadragesimo Anno, nº 117 a 120

[2] BOFF, L. e BOFF, Cl. Da Libertação, p. 96

[4] HAYEK, F. A. O Caminho da Servidão, 1994, p. 53

[6] THOMAS, Hugh. A Guerra Civil Espanhola Vol. 2, 1964.

[7] Che Guevara, na Assembléia Geral da ONU em 11 de dezembro de 1964

[8] Che Guevara em carta familiar

[9] Frei Betto, A Questão do Aborto


Pedro Ravazzano

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Viva os Clichês!

Eu não sei vocês, mas eu já perdi a paciência com esse pessoal dito politizado que só faz repetir chavões politicamente corretos. Nessas horas eu bato palma para a esquerda e o globalismo. De fato, a manipulação das massas, a ideologização de movimentos sociais, a maciça infiltração nas “superestruturas”, criaram uma sólida base na qual se ergueu o idiota útil. É chato e muito repetitivo esse discurso, o mais assustador é que faz sucesso. Tente você mesmo, faça um sermão que tenha as palavras; “opressor”, “oprimido”, “burguesia”, “elite”, “capitalismo selvagem”, “capital”, “alienação” etc, pronto, você vai passar a ser admirado e possivelmente visto como exemplo de “consciência social”. Foi com esse bela articulação que eu tirei uma excelente nota na redação do vestibular. Ah, não podemos nos esquecer da também forte presença do clichê anti-religioso. É cômico ouvir alguém dizer que religiosos são ignorantes, os inteligentes são ateus, aqueles que se livraram das “amarras” da crença. Realmente. Tomás de Aquino, Agostinho de Hipona, Leonel Franca, Jacob Boehme etc, todos exemplos de uma humanidade subdesenvolvida, longe do esplendor da liberdade, liberdade esse fincada no ateísmo e agnosticismo. Enfim, o clichê politicamente correto bebe no triunfo do pensamento socializante, do lobby feminista, ecochato, politicamente correto, se fundamenta na aparente vitória do relativismo frente a defesa da Verdade.

Pedro Ravazzano

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Uma tosca "parábola" sobre a Sagrada Tradição

A receita

Mariazinha se deliciava com o bolo de sua mãe. Quando havia visitas ela sempre comia um grande pedaço e esperava ansiosamente para repetir. Mas, Mariazinha também acompanhava sua mãe na cozinha e desde a infância aprendeu o modo como fazer o bolo delicioso; uma receita antiga de sua avó.

Mariazinha cresceu, casou-se e teve filhos. Uma de suas filhas, Joana, também a acompanhava algumas vezes na cozinha e aprendeu a fazer o famoso bolo. Sabia todos os ingredientes. Às vezes faziam o bolo só para a família, outras vezes para as festas com os amigos. Às vezes se fazia uma massa para duas fôrmas e outras para três....

Joana não gostava muito de cozinhar. A receita do bolo, no entanto, ela aprendeu por conta do costume e convivência com sua mãe. Uma amiga lhe pediu que lhe passasse a receita. Joana escreveu todos os ingredientes no caderninho e entregou-a.

Joana teve duas filhas: Madalena e Eva. Eram pessoas muito diferentes e não se davam bem. Madalena era uns bons anos mais velha que Eva e quando esta nasceu sua mãe já sofria com fortes dores; sua saúde estava comprometida.

Eva saiu de casa aos 16 anos e não conviveu muito com Joana. Madalena, ao contrário, viu Joana jovem, dando festas aos amigos e parentes. Todos se deliciavam com o bolo, aquela famosa receita de família, mas que Joana dava a todos que lhe pediam.

Quando Joana faleceu Eva tinha 20 anos. Foi comunicada do fato e ficou muito abalada. No mesmo dia viajou para sua terra natal, porém não encontrou sua irmã Madalena que tinha viajado para muito longe.


Por telefone as duas se falaram:

- Madá, você não virá para o velório?

- Não sei! Há muitos problemas aqui, o país está em guerra! – dizia angustiada – está tudo fechado, ninguém pode sair.

- E eu, o que faço? Toda família deve chegar em breve?

- Faz o bolo que a mamãe gostava de fazer!

- Mas nunca fiz esse bolo?

- É fácil! A receita está numa das gavetas do armário marrom.

Eva correu para cozinha com a receita na mão. Os garranchos de sua mãe ela reconhecia mesmo estando tanto tempo fora.

Preparou tudo com dedicação e afinco. Toda família chegava emocionada; estavam abalados com aquela grande perda. Eva foi até a cozinha e trouxe o bolo. Tinha esperança de que aquilo trouxesse boas recordações de sua mãe.

O bolo, contudo, estava solado. E qual não foi a surpresa do seu tio Nelson ao prová-lo e ter uma sensação estranha: esse não é aquele bolo da sua mãe? Eva respondia que sim, mas que alguma coisa havia dado errado.

Todos perguntavam sabendo já a resposta: Mas você não tem receita?


Vinícius Mascarenhas

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Bandeira Revolucionária


Quando as Trezes Colônias se levantaram contra o Império Britânico, um dos símbolos mais populares foi a Bandeira de Gadsden, uma serpente sobre um fundo amarelo. Foi Benjamim Franklin que melhor explicou a analogia entre o animal e os ideais daquela jovem nação: jamais é a primeira a atacar [Meu Deus do Céu, os neoconservadores esqueceram essa lição], quando faz avisa primeiro, e quando começa jamais se rende. Sobre a serpente, na Bandeira de Gadsden reluz o lema: Don’t Tread On Me! (não pise em mim!). Uma das formas mais claras e diretas de expressar o que se entende por liberdade: Verdade que não me meto contigo? Então, deixe-me em paz!

Pedro Ravazzano

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Elogio da ilusão

Nas conversas de bar, de elevador, nos “debates” das “universidades”, nas reuniões de igrejas, etc, sempre há aquela conversa na qual se expõe a “condição brasileira”, mazelas que geralmente são finalizadas por um discurso pretensamente desmistificador no qual se apresentam vantagens, qualidades, dotes de pessoas e ou instituições brasileiras.

O desmistificador - do tipo “eu sou brasileiro e não desisto nunca”- apresenta fatos, casos, ou seja lá o que for, com o objetivo de demonstrar a capacidade, a potência da majestosa, mas republicana nação brasileira.

O que para mim é curioso é que na maioria das vezes, não digo sempre, tais alocuções não passam de elogios à ilusão.

No ano passado o Brasil inteiro viu pela televisão a publicidade em torno do petróleo. Trata-se do “petróleo auto sustentável”. Muitos estatolatras vibraram com a empresa pública que garantiu a independência brasileira em relação ao petróleo estrangeiro.

O que a maioria deles não sabe é que o Brasil alcançou tal “triunfo” pelo simples fato de que a economia brasileira não cresceu. Na verdade não cresceu o quanto poderia, e como conseqüência consumiu menos energia. Enfim, estavam a comemorar a falta de crescimento da economia brasileira

Outro exemplo clássico é o dos acadêmicos: cientistas, sociólogos entre outros que estudaram ou estudam em grandes universidades: Oxford, Harvard, Sorbonne e etc. Para eles deve ser ótimo, mas o fato é que não se pode considerar tais exemplos como símbolos da arrancada tupiniquim rumo ao primeiro mundo.

Em primeiro lugar o fato de alguns acadêmicos estudarem nas maiores universidades do mundo revela que as “melhores” universidades do mundo, como é óbvio, não situam-se no Brasil. Em segundo lugar: a presença destes no mundo acadêmico da elite internacional é prova de que nos EUA, na Europa Ocidental, no Japão se estuda o Brasil, a América Latina; se estuda o Terceiro Mundo e seus problemas, por isso aquelas pessoas são peças indispensáveis. Enquanto no Brasil nós estudamos o que?

Não quero dizer que só temos problemas, mas quando elogiarmos algo, que elogiemos uma coisa que mereça sê-lo. Não devemos criar odes às ilusões.

Vinícius Mascarenhas

domingo, 21 de setembro de 2008

"Mas em pleno século XXI"

Hoje é comum ouvir alguém dizer perante uma declaração alheia: “Mas em pleno século XXI!”. Pois é, no século XXI algumas coisas se tornaram intoleráveis.

Não se pode ouvir uma moça – um homem muito menos – dizer que pretende casar virgem; ninguém pode expressar contrariedade ou desconforto com o casamento de homossexuais ou com a adoção de crianças pelos mesmos. Não se pode ter horror de algo hediondo como o aborto sem ouvir: “Mas em pleno século XXI!”.

Já ouvi dizer que as idéias e valores morais devem ser julgados não pela sua pertença epocal, e sim pelo valor que eles têm para a humanidade. As pessoas, no entanto, insistem em usar como critério a época na qual os valores tiveram vigência, ou surgiram.

Mas se para as mentes menos sofisticadas e com maiores dificuldades de entender explicações teóricas dizer assim fica difícil, digo de outro modo:

1) Meses atrás recebi um cheque de um banco, fui até uma agência pretendendo sacar o dinheiro. A bancária me disse que para fazê-lo seria preciso levar o cheque até a agência do titular da conta. Pensei imediatamente: “Mas em pleno século XXI!”

2) Para adquirir meu diploma, me dirigi até a Secretaria Geral de Cursos. Peguei um papel para preencher, recebi um boleto GRU – Guia de Roubo da União – para fazer o pagamento. Depois disso terei que entregar o papelzinho preenchido, o comprovante de pagamento do boleto e as cópias do RG e CPF; com o detalhe que a secretaria só funciona de 8:30 até 12:00 horas. Que coisa prática! Penso comigo mesmo: “Mas em pleno o século XXI”.

3) Fiz uma compra pela internet. O tempo de entrega da encomenda varia de 5 a 10 dias úteis. O produto, um livro, foi enviado no dia 04 de junho. Depois de acompanhar pela internet o serviço de entrega dos Correios e não descobrir nada, liguei para a agência mais próxima. Soube que o carteiro havia passado no dia 26 do mesmo mês para fazer a entrega e foi embora; supostamente por não encontrar ninguém na residência. O que pensei eu? “Mas em pleno século XXI!”

4) Na minha cidade para ir de um canto a outro não se gasta menos de 40 minutos. O trânsito é um inferno. Sem falar que os ônibus são lotados. Nos finais de semana não há trânsito, porém não há ônibus. Nos tempos do progresso se desloca como se andasse de carroça: “Mas em pleno o século XXI”

Onde está a era da praticidade, da tecnologia, da velocidade? Os arautos do progresso e das revoluções sociais e culturais prometeram e prometem muitas coisas. Há de fato progressos materiais, ninguém poderia negá-los. Até que ponto, contudo, estes estão ajudando o homem? Há de fato revolução moral – que estou convencido, não traz bem algum – e as mudanças provenientes desta é que, quando chocadas com visões contrárias - geralmente milenares –, suscitam a fórmula: “Mas em pleno século XXI!”.

Isso quer dizer, por um lado, que algumas pessoas realmente não estão em sintonia com tais transformações. Por outro, significa que algumas pessoas, não poucas, identificam as mesmas com o progresso e se escandalizam diante da “caretice” alheia: “Mas em pleno século XXI”.

Por que não se escandalizam com a ineficiência dos transportes, dos serviços de atendimento ao consumidor, com a morosidade da justiça ou dos Correios ou mesmo dos serviços bancários? Não deveria a tecnologia estar a serviço da humanidade?

Isso sim merece um grande grito de insatisfação. E pode ser aquele mesmo: “Mas em pleno século XXI!”

Vinícius Mascarenhas

sábado, 20 de setembro de 2008