quarta-feira, 2 de julho de 2014

A ascensão do ISIL e a atual crise do Oriente Médio

O presente cenário no Oriente Médio tem gerado confusão entre muitos ocidentais. É um número tão grande de facções, divisões e seitas que a imagem fica ainda mais turva. Aproveitando que algumas pessoas pediram esclarecimentos, vou tentar ajudar no entendimento da situação atual, que atingiu o seu ápice com a proclamação do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIL)*

O ISIL tem um duplo contexto. Surge primeiramente da união de forças fundamentalistas no Iraque, que combatiam o governo estabelecido em Bagdá, os curdos ao norte e os xiitas ao sul.  Com o início da guerra civil na Síria, as células radicais se uniram ao ISIL, ampliando a influência e o poderia do grupo. Contudo, antes mesmo de falar do terrorismo moderno, é necessário retroceder alguns séculos, até a península arábica do séc. XVIII. Grande parte do território da península estava livre da influência otomana. Os turcos dominavam a parte oeste, sendo os senhores das cidades sagradas de Mecca e Medina. Nesse contexto surge Muhammad bin Abd al Wahhab (1703–1792) . Com vocação de reformador, sunita da escola hambali de jurisprudência  (o sunismo tem quatro grandes escolas de jurisprudência (madhhab), que seriam como modos distintos de aplicações da lei islâmica) ele defendia que o islamismo havia sido corrompido pelos otomanos.  Ainda com forte oposição do clero sunita, al Wahhab conseguiu angariar aliados, em especial o apoio de Muhammad ibn Saud. Dessa união surge, portanto, a moderna Arábia Saudita.

O wahabismo, como viria a ser chamado, também autoproclamado salafismo - salaf é o nome dado à primeira geração de sahaba, os companheiros de Muhammad, os que viveram o islamismo mais puro – tornou-se numa máquina de “takfir”, ato de julgamento da credulidade alheia, mediante a afirmação de que um muçulmano é “kafir”, infiel. Além disso, com uma leitura completamente anacrônica do Corão e da Tradição (Sunnah) iniciou uma sistemática destruição da identidade islâmica, seja com a implosão de mesquitas milenares, como através do combate à filosofia e defesa da despersonalização da mulher etc. O wahabismo se desenvolve e é exportado para diversos outros países, graças aos petrodólares sauditas. Surgem, portanto, os diversos grupos terroristas, como a Al-Qaeda.

O ISIL é um filho legítimo desse radicalismo islâmico. Contudo, o seu grande diferencial é conseguir congregar diversos grupos wahabitas ressentidos, muitos “combatentes” cansados com a energia gasta contra o inimigo ocidental enquanto os seus países eram governados por "incrédulos". É em tal contexto que se inicia a almejada reconstituição do califado. Vale destacar que o título de Califa - Khalifah (Não sei a razão da língua portuguesa ter sonorizado o "C" em palavras árabes/persas "Kh", já que estas soam como "R". Em espanhol é mantido o som original; "Jomeini", "Jalifa" etc) tem uma conotação espiritual-política: Khalifat Rasul Allah, o representante do Mensageiro de Deus (aqui entra uma eterna polêmica com os xiitas, já que para eles os verdadeiros Califas/Imames seriam os membros da Ahl al-Bayt, a família do profeta). Contudo, desde o fim do Califado Rashidun, isto é, dos 4 companheiros de Muhammad, o título de "Califa" foi perdendo sua conotação espiritual e se politizando de modo sistemático. Os omíadas são os verdadeiros fundadores do Império Islâmico propriamente dito, dando um status e uma pompa que não havia antes, e tornando "Califa" em sinônimo de "Rei". Vale destacar que, curiosamente, o fundador dessa dinastia, Muawiyah I, era filho de Abu Sufyan, o maior perseguidor de Maomé e que só se converteu ao islã, juntamente com a sua prole, depois que Mecca foi tomada pelos muçulmanos. 

Com o fim do Califado Abássida, o título praticamente se perde. Os muçulmanos agora se encontram fragmentados em diversos reinos e ninguém proclama ter a autoridade central. Contudo, a busca pela unidade da Ummah  - comunidade islâmica – sempre foi um ponto fundamental dos ensinamentos de Muhammad. De acordo com Sahih Muslim, num hadith – dito do Profeta do Islam - por ele compilado, Maomé teria dito:

“Os muçulmanos estão proibidos de ter dois emires, já que isso faria com tivessem diferenças em seus assuntos e conceitos. A sua unidade seria quebrada e disputas iriam eclodir entre eles. A Sunnah, então, seria abandonada, a bida'a (heresia) se espalharia e a fitna (tentação) iria crescer, o que é do interesse de ninguém”.

Assim, quando o ISIL proclama o Califado com a pureza do período Rashidun está apenas tentado reconstituir o projeto unitário islâmico, agora degenerado dentro do anacronismo fundamentalista dos radicais. O pretenso Califa, Abu Bakr al-Baghdadi, também se diz descendente de Muhammad, já que ser membro da tribo coraixita é pressuposto essencial para a detenção deste título.  Entretanto, ao mesmo tempo em que o ISIL enfrenta os seus inimigos externos – ocidentais em geral e incrédulos em geral (especialmente cristãos e xiitas) – sofre com a dissolução da coesão entre os wahabbitas. A Al-Qaeda, primeiramente aliada, já retirou o seu apoio ao ISIL. Este, contudo, é o maior combatente no Iraque atual e estende sua influência até os limites da Jordânia, também participando ativamente na guerra civil síria para a deposição do regime de Bashar al-Assad.

Dentro da tal cenário, quais forças seriam capazes de barrar o avanço do ISIL? O Irã é o ator decisivo no cenário atual. As "fronteiras" do “califado” começam nos territórios xiitas do Iraque, onde os seus adeptos também pegaram em armas para a defesa dos seus lugares sagrados e de sua gente, e que encontram em Muqtada al-Sadr e no Ayatollah Ali al-Sistani os seus grandes nomes. Este último, inclusive, um crítico dos xiitas radicais que se opõem ao governo estabelecido. No Líbano, no outro extremo, os xiitas - aliados tradicionais dos cristãos no país, principalmente junto ao Hezbollah - também atrapalhariam o aumento da influência para além da Síria. O perigo do "califado" atingir a pacífica Jordânia e o multireligioso Líbano é iminente, o que complicaria, e muito, um cenário que já é caótico. A inteligência persa pode congregar essas diversas frentes xiitas, unidas aos cristãos, criando um forte grupo de resistência. É importante lembrar que o Irã é o estado islâmico onde os cristãos tradicionais - católicos, assírios, armênios - têm maior liberdade religiosa. Ademais, a sua abertura ao Ocidente, somada ao reconhecimento do seu papel estratégico na região, até mesmo como espectador distante da situação presente, o faz uma personagem decisiva no cenário estabelecido. 

*Alguns chamam de “Estado Islâmico do Iraque e da Síria” (ISIS), mas o termo “Levante” é mais fiel à versão original (al-Sham), englobando os territórios atuais da Síria, da Jordânia, da Palestina/Israel, do Líbano e partes da Turquia. 

quarta-feira, 4 de junho de 2014

O estranho caso do exorcismo português, por Gilberto Freyre


Retirado do livro "Aventura e Rotina", de Gilberto Freyre
O abade velho dos arredores de Braga é a história principal que nos conta no seu modo simples e bom de ser da sua Igreja e do seu país (um modo que teria encantado Bernanos): a história de um exorcismo que teve de praticar numa criatura de Deus disputada pela demônio. Começa a conversa sobre o assunto com uma pergunta que lhe faço sobre assombrações: nunca aparecera fantasma naquela igreja antiga? O abade nos diz então, todo sinceridade e simplicidade, que fantasma nunca vira nem ali nem em parte alguma. Mas, em certa casa que habitara, ouvira ruídos que depois apurou serem infernais; e provocados por uma certa rapariga em cujo corpo metera-se violento e terrível demônio. Tão terrível que resistira a todo o severo latim do ritual católico de exorcismo. Zombava pela boca da rapariga das palavras sagradas como se zombasse do próprio Deus. Repetia o latim do ritual como se gracejasse com os doutores da Igreja.
Pelo que o bom abade, então ainda moço, decidira enfrentar o inimigo de Deus e da Igreja não apenas como padre católico: também como português. Lutando com ele de corpo a corpo se fosse preciso. E falando-lhe não em latim de seminário mas em português de plebe: rude, grosseiro, tremendo.
Suara o abade em seu combate com o demônio. Gastara contra o inimigo todo o português obsceno que sabia: cobrira-o de palavrões. Até que, sentido o demônio fraquejar, tivera de resolver de repente o problema: para onde ordenar em nome de Deus que fosse o nauseabundo diabo? Para que alma? Viera-lhe então à lembrança certa fotografia que vira das festas do Centenário da Independência do Brasil, no Rio de Janeiro; e dessa fotografia a figura de uma negra culatrona, a arrebentar-se nos requebros de um obsceno maxixe. Era a solução. Espécie de solução do mandarim de Eça, mas solução. E para a pobre da negra carioca é que o bom do abade português mandara, talvez  freudianamente, que o demônio, vencido por seus palavrões, voasse naquele mesmo instante: “que se metesse no cu daquela negra!”, ordenara com voz já cansada mas ainda tão forte de ministro de Deus que o diabo instantaneamente obedecera, deixando em paz a rapariguinha. Nunca mais lhe voltara ao corpo. Os ruídos estranhos na casa também desapareceram. O exorcismo fora completa vitória, não dele, simples padre de aldeia, mas de Deus Nosso Senhor sobre o demônio, que fora se meter no corpo da negra carioca. Os sacerdotes brasileiros saberiam cumprir o seu dever, expulsando o tinhoso para outras terras.

terça-feira, 3 de junho de 2014

A carta de um Santo Mártir


Carta escrita por São Mathias Mulumba ao Pe. Leon Livinhac M.Afr. (futuramente Bispo e Superior Geral dos Missionários da África). Kalemba, como também era conhecido, era o mais velho dos Mártires de Uganda, com cerca de 50 anos. Ele foi batizado no dia 28 de maio de 1882, pelo Pe. Girault M.Afr. O seu martírio foi o mais cruel e longo de todos, com três dias de torturas incessantes. Seus membros foram cortados de seu corpo, tiras de carne foram arrancadas de suas costas e deixado para morrer em Old Kampala.

Meu pai sempre acreditou que os Bagandas não tinham a verdade, então a procurava em seu coração. Ele mencionou tudo isso para mim, e antes de sua morte disse-me que algum dia homens viriam ensinar-nos o caminho correto.
Essas palavras causaram uma profunda impressão em mim e, quando a chegada de alguns estrangeiros foi anunciada, eu os observei e tentei entrar em contato com eles, dizendo a mim mesmo que ali estivessem, talvez, os homens anunciados pelo meu pai. Destarte, associei-me aos árabes, os primeiros que chegaram no reino de Suna. A sua crença pareceu-me superior às nossas superstições. Fui instruído e, juntamente com um número de bagandas, abracei o islamismo. Mutesa, querendo agradar o Sultão de Zanzibar, cujo poder e riqueza dava uma exagerada importância, também declarou que queria se tornar muçulmano. Ordens foram dadas para a construção de mesquitas em todo o país. Por um curto período, parecia que toda a nação iria aderir à religião do falso profeta, mas mudando sua idéia repentinamente, Mutesa deu ordens para exterminar todos os que tinham se tornado muçulmanos. Um bom número pereceu no massacre, duzentos ou trezentos organizaram-se para fugir e, com as caravanas árabes, foram para a ilha de Zanzibar. Eu consegui escapar, juntamente com alguns outros, ocultando o fato da minha conversão e continuando a passar-me por amigo dos nossos deuses, ainda que em segredo eu continuasse fiel às práticas do islamismo.
Assim estavam as coisas até a chegada dos protestantes. Mutesa os recebeu muito bem: ele lia o livro que trouxeram na audiência pública e parecia inclinado para essa religião, que declarou ser muito superior àquela dos árabes. Eu perguntei a mim mesmo se não tinha cometido um erro, se talvez os recém-chegados não eram os verdadeiros mensageiros de Deus. Fui visitá-los frequentemente e participava de suas instruções. Pareceu-me que os seus ensinamentos eram uma melhoria daquilo que me foi ensinado anteriormente. Destarte, abandonei o islamismo, porém sem pedir o batismo.
Muitos meses se passaram até a chegada de Mapèra (Pe. Lourdel M.Afr). Meu instrutor, Mackay, teve o cuidado de dizer-me que aquele homem branco que acabava de chegar não conhecia a verdade. Ele chamava a sua religião de “idolatria da mulher”; eles adoram, dizia, a Virgem Maria. Ele também me advertiu para evitá-los com muita precaução. Eu, assim, coloquei-me longe de vocês e, provavelmente, nunca teria colocado os meus pés em sua moradia se o meu chefe não tivesse ordenado  que supervisionasse a construção de uma das suas casas. Mas Deus mostrou o seu amor por mim.
A primeira vez em que vi vocês de perto fiquei muito impressionado. Ademais, continuava a observar as suas orações e o trato com o povo. Destarte, vendo a sua bondade, eu disse a mim mesmo, ‘Como pessoas que parecem ser tão boas podem ser mensageiras do Mal?”
Eu conversei com aqueles que estavam sendo instruídos em suas casas e os questionei a respeito da doutrina que professavam.  O que eles me disseram foi justamente o contrário daquilo que Mackay havia assegurado a mim. Assim, eu me senti fortemente impulsionado a participar de suas instruções catequéticas. Deus concedeu-me a graça da entender que vocês ensinavam a verdade e que eram realmente os homens de Deus que meu pai havia falado. Desde então, eu nunca tive uma mínima dúvida a respeito da verdade da sua religião e me sinto completamente feliz.
Retirado e traduzido do livro "African Holocaust: The Story of the Uganda Martyrs", de J. F. Faupel

quinta-feira, 29 de maio de 2014

A metafísica de Mulla Sadra

Mulla Sadra (1572 – 1640) foi um dos maiores nomes da filosofia islâmica e da grande tradição persa. O seu trabalha integra o Renascimento Iraniano, como foi chamado o período no séc. XVII de forte florescimento cultural. Para alguns, Mulla Sadra pode ser considerado o maior pensador islâmico dos últimos séculos A filosofia que desenvolveu, numa síntese entre Avicena, Suhrawardi, Ibn Arabi, Aristóteles e os 12 Imames do islamismo xiita, inaugurou o existencialismo ontológico no espectro do pensamento muçulmano.

Para Mulla Sadra, o filósofo é a testemunha do real, restaurando para Deus a fonte da Sua presença na realidade, vivendo uma autêntica “shahada”. Isto só é possível porque Deus testifica a Si mesmo em todas as suas manifestações, o existente enquanto processão da Sua Luz e do Seu infinito ato de ser. A metafísica, portanto, tem um papel libertador, em imitação à liberdade divina. Esta liberdade é inscrita na natureza mesma da inteligência do homem, diretamente vinculada com Deus, expressando a criativa espontaneidade do imperativo divino: inteligir é libertar-se de todos os grilhões mortais, livrando-se da opressão da matéria e das paixões.

A sabedoria (“hikmah”) é revelação, ou seja, o desvelar da realidade das coisas através do exercício da inteligência. Também é revelação no sentido em que Deus mesmo, em Seu Ser, manifesta-Se na sabedoria humana, tornando possível as epifanias, na contemplação da realidade, da beleza dos Seus mais belos nomes. Ademais, aqui entra um outro aspecto fundamental do pensamento de Mulla Sadra: a sabedoria é revelação já que abre ao homem o caminho do autoconhecimento, que o desperta do esquecimento e o permite realizar a sua vocação essencial, a contemplação. Se a sabedoria, portanto, é transfiguração do sujeito através da atualização das suas maiores potencialidades, então, como afirma Christian Jambet, a sabedoria é o tornar angélico dos homens.

“Aquele que conhece a si mesmo, conheceu ao Seu Senhor”, disse o Profeta Muhammad. Avicena, baseado nesse hadith, dirá que o desvelar do eu é a experiência da existência, justificando a noção de que o conhecimento de si reflete o conhecimento do Ser. Para Sadra, esse conhecimento é uma espécie de exegese do eu que conduz a uma maior proximidade com Deus, através da descoberta da própria natureza espiritual: uma “palavra luminosa” – kalimah nuriyah - , uma “essência espiritual” – dhat ruhaniyah –, uma “chama do Malakut” – shu’lah malakutiyah. A alma é “palavra” na qual a Divina Palavra se expressa, e nessa sua essência espiritual, na concepção de Mulla Sadra, encontra a sua natureza angélica. Destarte, a vocação da metafísica é iluminar a alma para que caminhe no progresso da perfeição, reconciliando-se com a sua verdadeira natureza e verdadeiro fim. Contudo, essa “iluminação” não é irracional, um simples fluxo do mistério, mas, isto sim, é a síntese da atitude mística com o conhecimento inteligível.

"Ele foi Quem estabeleceu as duas massas de água; uma é doce e saborosa, e a outra é salgada e amarga, e estabeleceu entre ambas uma linha divisória e uma barreira intransponível” (Corão 25: 53). De acordo com a leitura dada pela mística islâmica, esse trecho se refere à dualidade entre a vida terrena e a vida celeste. Para Sadra, ainda na mesma linha, o intelecto material é o limite que separa a água “amarga”, a natureza material, da água saborosa, o outro mundo. Nos dizeres de Christian Jambet “o homem é microcosmo que recapitula o macrocosmo”, sendo a “barreira” a sua inteligência material. A metafísica é portanto a descoberta de uma ordem – a ordem da criação. Esta ordem inteligível é atualizada na mente humana, pela qual se assemelha ao Criador. Deste modo, além de ser uma reflexão sobre a ordem, a metafísica, no pensamento de Mulla Sadra, é o caminho para a imitação – tashabbuh - de Deus, o que de certa forma lembra o caminho da mística em Edith Stein. 

A metafísica de Mulla Sadra está totalmente centrada no existente enquanto tal, fiel à herança de Aristóteles e Avicena. Para o pensador iraniano, o conhecimento do existente é a cognição da sua realidade (haqiqah), do seu ato de ser (wujud). Com o termo “al-haqiqah”, Sadra se refere à realidade do existente, já que o existente existe na realidade e pela realidade. De certo modo, essa sua concepção se assemelha à idéia de essência da coisa. Contudo, no pensamento de Mulla Sadra, a realidade essencial deriva da divina essência, que é o real por excelência, a constituição e o constitutivo de todo o existente. Destarte, conhecer a essência significa conhecer o seu fundamento em Deus, na qual a coisa encontra a sua realidade. Nesse ponto é interessante perceber a semelhança com o “realismo radical” de Xavier Zubiri: Deus como a realitas fundamentalis da realidade das coisas reais.

Assim, o ponto de partida da ontologia é o conhecimento do existente e o seu destino e fundamento em Deus, que já é o sujeito da teologia. O pensamento de Mulla Sadra, portanto, sintetiza, em grande medida, a herança metafísica da tradição islâmica, somada a outras influências, em especial à reflexão espiritual dos 12 imames do xiismo e ao rico conteúdo místico que deles provêm. Mulla Sadra desenvolve essa ontologia centrada na “luz do ser” e na gradual perfeição do homem através da sabedoria, num processo “revolucionário” de ensimesmamento que conduz ao centro, ao Ser mais íntimo que o próprio ser do homem. 

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Unidade na diversidade

Quase sempre nos círculos católicos ouvimos falar da “unidade na diversidade”. Essa idéia é boa em si mesma. Expressa a catolicidade da Igreja, a multiplicidade de carismas e espiritualidades. Contudo, quase sempre esta frase é acompanhada de um outro pressuposto. “Unidade na diversidade” se converte num modo prático de endossar o relativismo doutrinal, transformando o essencial, isto é, a fé católica naquilo que é mais constitutiva, em aspectos acidentais, passiveis de discordância. Nesse cenário, a “unidade” nada mais é do que um sentimento rarefeito, sem coesão objetiva, portanto incapaz de gerar união. 

Não é do meu interesse fazer reflexões teológicas. A primeira crítica que deve ser dirigida a esse posicionamento é de cunho puramente lógico. O que faz de alguém católico? O que permite que um homem, do ponto de vista prático, se identifique como membro da Igreja Católica? Ninguém é coagido a ser católico. Se o é, o é na liberdade. A Igreja, como qualquer “organização” – destaco mais uma vez que estou excluindo toda a questão teológica – necessita de uma estrutura interna. Contudo, mais do que mera burocracia, é fundamental que tenha notas e características que permitam a consolidação de sua identidade. 

O catolicismo, como qualquer outra religião, é constituído por um corpo doutrinal e moral que torna possível a unidade. Nas mais diversas variedades de culturas, a mesma fé se faz presente em sua totalidade. Entretanto, dentro do paradigma relativista, a unidade nada mais é do que um vínculo desprovido de objetividade. O que possibilita que um católico chinês e um católico brasileiro se reconhecem como irmãos de um mesmo credo? Não é a expressão dessa fé, que depende da encarnação nas culturas locais, mas sim é o corpo doutrinal, a base sobre a qual a diversidade se realiza.

Como é possível falar de “unidade na diversidade” se não há nem mesmo concepções convergentes a respeito de Cristo e de Sua Igreja? A diversidade é possível na vida de piedade, nas inculturações da fé, e não nos parâmetros fundantes da experiência religiosa. Não há unidade quando alguém acredita que a Eucaristia é simbólica e outro professa a sua crença na Presença Real. Não há unidade quando alguém acredita que a Igreja é um mal necessário e outro afirma que é o Sacramento Universal da Salvação. Não há unidade quando alguém dissocia o Jesus histórico do Cristo da fé e o outro não. Em nenhum desses casos há nada que possibilite a união. Ao contrário, as divergências entre estas posições estão mais similares aos abismos que separam a Igreja Católica, por exemplo, das centenas de denominações protestantes. 

Em tal cenário, o que é a unidade? Onde está a unidade? Para que esta seja possível é necessária a convergência de fatores essenciais, deixando aos aspectos acidentais a possibilidade da diversidade. Nessa equação entra a liberdade, permitindo que aqueles que, por algum motivo, se incomodam com a crença professada pela Igreja, sintam-se livres para deixá-la. Contudo, o que presenciamos é justamente uma heterogeneidade naquilo que deveria ser basilar e unitário. Sem essa concepção, o catolicismo se torna numa Babilônia doutrinal, incapaz de professar uma mesma fé sem que esta receba recortes e adaptações em cada consciência. De certo modo experimentamos a “protestantização” da fé católica, isto é, a desconstrução da experiência comunitária da fé em prol de parâmetros individuais que alçados à dignidade de dogmas simplesmente acabam com o caráter universal da crença que professamos.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Gilberto Freyre, Lisboa e Batinas

Sou dos que sentem em Lisboa a falta de padres magros e frades gordos a descerem pacatamente ladeiras, a saírem docemente de igrejas, a atravessarem hieraticamente praças e não apenas a dizerem burocraticamente missas no interior de igrejas e capelas. Padres e frades fazem falta à Lisboa de hoje: aos conventos secularizados e às ruas aburguesadas

Não é que a sua ausência seja absoluta. Aparecem. Mas tão rara é sua presença que também neste particular a Lisboa de hoje nos dá a impressão de vir sofrendo uma reforma suíça nos seus hábitos e nos modos de ser. Uma reforma suíça que fosse também uma Reforma Protestante; e que viesse diminuindo o número de padres católicos nas ruas, depois de ter fechado os conventos e acabado com os frades e as freiras.

Sem frades a saírem dos conventos e sem padres a atravessarem as ruas, Lisboa nos dá a impressão de incompleta, de deformada, de mutilada. Os raros padres que hoje se vêem na capital portuguesa, outrora tão opulenta deles, são poucos para darem a Lisboa a nota pitorescamente clerical que a sua paisagem pede, que sua tradição católica exige.

É que, dos padres que se avistam hoje em Lisboa, quase todos parecem ser padres apenas pela metade, trajados, como são, à maneira protestante. Os tradicionais hábitos talares substituídos por simples sobrecasacas ou mesmo burguesíssimos casacos. Um ar burocrático, e de modo algum teocrático ou sequer clerical, é o desses padres com aparências de semipadres. Só sé excetuam os “inglesinhos”.

Fazem falta a Lisboa boas e completas figuras de padres e de frades. Padres ortodoxamente vestidos de padres. Frades na sua variedade de hábitos e insígnias. 

Gilberto Freyre em "Aventura e Rotina"

domingo, 16 de fevereiro de 2014

"Caçadores de Obras-Primas": imaginação moral paras as massas

O filme “Caçadores de Obras-Primas” é uma ode à imaginação moral, à tradição, à Civilização Ocidental, à Igreja.  É um filme com claros ensinamentos, mas sem caráter panfletário. Tendo como pano de fundo uma história verídica, a produção pretende instigar nos espectadores o despertar para um mundo – tristemente – desconhecido: a cultura ocidental. Alguns talvez esperassem um filme com grandes cenas de ação. Ficarão decepcionados. A história tem até mesmo um ar “monótono”. Para falar da arte ninguém precisa de explosões e carros em alta velocidade. Uma cena na Igreja de Bruges vale mais do que milhares de tonéis em chamas.

Para alguns, “Caçadores de Obras-Primas” pode parecer apenas mais um filme tendo como temática a II Guerra Mundial. O primeiro grande erro é justamente não entender que a história ali retratada é nossa. Qualquer ocidental minimamente consciente deve se apossar dos sentimentos daqueles homens que heroicamente se ofereceram para a nobre missão. A urgência daquele projeto não atinge apenas críticos de arte, arquitetos e escultores, mas todo homem que foi formado sob a égide das instituições e valores da Civilização.

O filme, nesse ponto, é impecável. Ele está muito consciente da sua proposta “civilizatória”. A arte é apresentada não como um capricho de eruditos europeus, mas como o legado perene da humanidade. A sua universalidade é justamente o que faz dessa experiência espiritual-estética atemporal. O que está em jogo não são os museus. O que está em jogo é a identidade ocidental. Esta se mantém viva tanto nas paredes dos grandes acervos, como nas piedosas e antigas imagens que durante séculos foram alvos das fervorosas orações do povo nas igrejas do interior europeu.

Eu aprendi mais sobre a noção de “imaginação moral” lendo as poesias e as peças de T.S. Eliot do que me debruçando sobre livros teóricos (que também são importantes).  Aprendi com o poeta que um soneto ou uma tela podem conter mais reflexão ontológica do que séculos de debates estéreis. Essa comunhão de almas, o “contrato da sociedade eterna” de Burke ou a “democracia dos mortos” de Chesterton, é o que possibilita a vivacidade de uma Civilização. Não me espantaria se descobrisse hoje que Eliot escreveu alguma breve poesia sobre o sequestro e recuperação da Madonna de Bruges. Ele certamente acompanhou com aflição a perversão cultural nazista.

Alguém pode se perguntar o que a destruição do “Políptico de Ghent”, pitado por Jan van Eyck, mudaria em nossas vidas. Olhando do ponto de vista puramente pragmático, e portanto com um olhar moderno, pouco importa se essa obra está inteira ou em ruínas. A nossa existência não seria atingida em nada pelas chamas que arrasariam a pintura. Contudo, quando nos entendemos como parte dessa comunhão de almas e herdeiros de uma tradição viva pelo espírito e pela carne, contemplar o fim de uma obra de arte é assistir o extermínio daquilo que de mais elevado foi produzido pelo homem. Não pelos homens, mas pelo homem, conceito universal, que abarca a todos: eu, o meu vizinho, Jan van Eyck e a senhora do interior do Piauí. Todos são sócios dessa experiência de totalidade, de eternidade.

O filme retrata justamente esse testamento espiritual que torna cada homem herdeiro daquilo que fez – e faz – de nós homens ocidentais.  Ainda que uma geração inteira seja destruída, ainda será capaz de se levantar. Contudo, se a sua cultura e a sua história são aniquiladas, extingue-se a sua identidade e se incapacita o seu ressurgimento. Esta é a mensagem claramente transmitida em “Caçadores de Obras-Primas”. Ao final do filme, o ancião acompanhado do jovem se encontra diante da Madonna. Valeu a pena tanto esforço, tantos riscos e algumas mortes. Ali, na imagem esculpida pelas mãos delicadas de Michelangelo, eternizava-se o espírito do homem tocado por Deus. 

sábado, 1 de fevereiro de 2014

A ascensão do xiismo e o nascimento do Irã

Xá Ismail I
O Irã talvez seja um dos países mais presentes no noticiário internacional. Além da compreensão obtusa a respeito da nação persa, há um desconhecimento tamanho sobre o xiismo e como este se estabeleceu na região. A história do surgimento do Império Persa pós-islâmico está atrelada ao nascimento da identidade xiita-iraniana. O reino dos Xás se tornou numa ilha tomada pelo mar sunita, tendo ao seu redor o Império Otomano e os reinos usbeques. Ainda que o xiismo tenha sido em grande medida imposto pela força, foi fator crucial para a criação de uma forte e hegemônica identidade, salvando o Irã do expansionismo turco. 

Antes do triunfo dos safávidas, a maioria da população iraniana era sunita da escola shafi e hanafi.  O Irã era conhecido por ter diversos centros de formação, inclusive acolhendo, ironicamente, Ulemás vindos do Império Otomano, que depois se tornará no seu maior inimigo. O xiismo havia se tornado numa vertente cada vez mais escusa do islã, e mais voltada para a mística e para a reflexão, desde que o Califado Omíada tornou os seus seguidores em cidadãos de segunda classe. Os xiitas também estavam ligados às ordens sufis, muitas das quais tinham no Imam Ali a maior fonte de sabedoria transcendente. O massacre de Karbala, quando do vergonhoso assassinato do Imam Hussein, neto de Muhammad, e sua comitiva, não apenas gerou um rompimento total entre sunitas e xiitas, como criou um trauma histórico.

Quem mudará de vez o cenário religioso iraniano será Ismail I (1487 – 1524), o fundador da dinastia safávida. Nascido no Azerbaijão, de origem azerbaijana, curda, persa, turca a e grega, Ismail cresceu dentro dos paradigmas da poderosa ordem sufi safaviyya , fundada pelo seu ascendente direto, Sheikh Safi-ad-din Ardabili – de onde provém o nome da ordem e da dinastia.  Com a invasão do Azerbaijão Iraniano, o jovem Ismail, depois do assassinato de seu pai, passou alguns anos escondido em Gilan, onde provavelmente teria tido contato com algum erudito xiita. Até hoje não se sabe ao certo como ocorreu o processo de conversão de Ismail. Provavelmente ele se sentiu fortemente impactado com o corpo doutrinário do xiismo e fascinado com a sua rica tradição. Ademais, enxergou na fé xiita uma eficaz ferramenta para a criação de uma identidade persa independente, isto é, islâmica mas ao mesmo tempo desvinculada dos grandes impérios em ascensão. Diz a tradição que a filha do último Imperador Sassânida, Yazdegerd III, casou-se com o quarto Imam do xiismo, Imam Hussein Ibn Ali. Como os safávidas tradicionalmente se proclamavam Sadah, isto é, descendentes de Muhammad, Ismail usou dessa valiosa informação para unificar na nova dinastia iraniana a glória da Pérsia pagã com a fé muçulmana.

Tornando-se guia da Ordem Safaviyya, Ismail a transformou numa poderosa força política e militar, voltando-se contra os reinos que existiam na região do Azerbaijão e do Irã. Em 1501 ele é entronizado como Xá do Azerbaijão e em 1502 toma o título de Xá da Pérsia. Ainda falando uma língua turca, Ismail não quis tomar para si o título de “Khan”, que sempre foi de uso recorrente pelos povos mongóis e em seguida turcos da Ásia Central. Ao retomar o título de “Shahanshah” – Rei dos Reis- Ismail reafirma o seu vínculo com a cultura e identidade persa. Resgatará, inclusive, a tradição imperial do Irã antigo invocando a idéia de “farr” – glória divina – como parte constitutiva do trono. Para os adeptos da Ordem Safaviyya, o Xá Ismail também acumulava o título de “Morshed” – líder espiritual.

Ismail, agora soberano de um vasto império, iniciou um sistemático processo de “xiitização” do território. Com a necessidade de clérigos xiitas para a realização de tamanha incumbência, o Xá importou ulemás vindos da Síria, do Iraque, especialmente depois da invasão de Bagdá em 1508, e até do distante Líbano. Essa luta quase pessoal pelo fim do sunismo na Pérsia era movida por um fidedigno ardor religioso, mas também tendo como fim a criação de uma coesa identidade iraniana. Havia um forte ressentimento étnico, já que no califado árabe os persas eram vistos como escória e impedidos de ter cargos administrativos nas suas próprias províncias, como também um ódio direcionado ao Sultanato Otomano, guardiões do sunismo. Essas duas forças incrementariam a tensão étnica-religiosa entre turcos-sunitas e persas-xiitas. 

Os navegadores europeus, como Ludovico di Varthema e Tomás Pires,  notaram o como na Pérsia de Ismail I os sunitas eram cidadãos de segunda classe, sofrendo duras perseguições.  O navegador português Afonso de Albuquerque, desconhecedor das nuances próprias do islamismo, chegou a acreditar que o Xá da Pérsia era um instrumento de Deus para a destruição do islã, já que presenciou a demolição de mesquitas sunitas. Essa primeira impressão talvez tenha fincado as bases da amistosa relação que se desenrolou durante séculos entre as nações da Europa e o Império Persa, inclusive da própria Igreja, que com o Papa Gregório XIII mostrou-se interessada em ajudar militarmente o Xá, despachando para Tabriz um embaixador. Carlos V da Espanha e Luís II da Hungria também se prontificaram numa aliança iraniana-européia. Havia uma união estratégica contra os avanços otomanos, o inimigo em comum.

Ainda que os clérigos xiitas tivessem um papel importante no comando do império, este não era propriamente uma teocracia. O governo da Pérsia era uma simbiose de tradições políticas do Irã antigo com concepções islâmicas da lei. Ismail não apenas queria tornar a Pérsia numa nação xiita, mas num asilo seguro para todos os seus seguidores espalhados pelo mundo. A participação de ulemás árabes xiitas no processo de construção dessa identidade foi fundamental. Com o Xá Abbas I, o Grande (1571 – 1629), essa importação se incrementa ainda mais com o propósito de espalhar pelo império centros de ensino e educação. Será sob o seu governo que o xiismo se consolidará em todo o Irã, ainda que Nader Shah (1688 – 1747), fundador da dinastia asfharida que derrubou os safávidas do trono persa, tenha tentado décadas depois retomar o sunismo no país através de uma política anti-xiita. Incapaz de atingir o seu objetivo, Nader Shah propôs uma mitigação do xiismo, buscando atingir um ponto de convergência maior com os sunitas, o que possibilitaria que a fé xiita fosse compreendida como apenas uma subdivisão interna do sunismo. Nisso também foi mal sucedido e a sua dinastia só duraria mais três gerações.

O Império Otomano, como guardião da ortodoxia sunita, sempre esteve motivado na luta contra a “heresia” xiita. Esse atrito foi fator importante na formação do espírito nacional iraniano.  Contudo, mais do que as tensões políticas, que apenas refletiam as tensões religiosas, foi o xiismo, acompanhado de suas marcas mais particulares, que tornou o Irã no país que hoje ele é, formando o ethos persa-islâmico. Isso fez com que a Pérsia se tornasse numa nação com características muito próprias. Ao final desse longo processo de disseminação e consolidação do islamismo xiita, toda a população do planalto iraniano já tinha se convertido. A geografia favoreceu o isolamento de minorias sunitas não-persas ao longo das fronteiras e em grande parte os limites entre o Irã e seus vizinhos, como Turquia e Afeganistão, foram demarcados tendo como medida a religião e não a etnia. 

A Pérsia é um país muito singular e com uma história complexa que fez dessa nação a mais diversa do Oriente Médio. Por conta de sua marca religiosa, sempre esteve à margem dos movimentos que se disseminaram pelo resto do mundo islâmico, como a Fraternidade Muçulmana, no Egito, e o wahabismo, na Arábia Saudita. O xiismo fez com que todo o desenvolvimento político do Irã recente, em especial a Revolução Islâmica, transcorresse muito originalmente, vinculada com as suas próprias tradições. Apenas através de tal prisma, partindo da cosmovisão xiita, compreendendo a riqueza teológica, filosófica e humana desse ramo do islamismo somada ao conhecimento da saga histórica da Pérsia antiga e moderna, é possível entender o Irã contemporâneo de modo verossímil, a República Islâmica, o país dos Ayatollahs.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

São Pedro Chanel não me representa!

São Pedro Chanel
Missionário cristão e inimigo da pluralidade

O relativismo religioso sempre me pareceu uma posição extremamente ilógica, principalmente para um crente. Desde os meus tempos de ateísmo sempre julguei essa postura muito pueril, quase sempre acompanhada de uma leitura romântica e sentimental da religião. O relativismo se tornou num grito de desespero do homem religioso, na tentativa de coadunar a sua crença com as pautas da modernidade. Contudo, não apenas vai na contramão dos ensinamentos da Igreja, como também gera um rompimento total com a história do cristianismo.
 
A Igreja já se pronunciou algumas vezes sobre a problemática do relativismo religioso. Diversos documentos tratam dessa questão – “Redemptoris Missio”, “Dominus Iesus” etc. Entretanto, o relativismo religioso se opõe não apenas aos escritos magisteriais, mas às noções basilares do cristianismo e ao modo como a fé cristã se difundiu pelo mundo.  Ser um relativista religioso é se opor ao mandato missionário de Cristo e a tudo aquilo que se seguiu depois da Sua Ascensão. 

Se o relativismo fosse admitido como princípio, o cristianismo simplesmente se restringiria ao próprio Cristo. Só Ele poderia crer na Sua divindade e na Sua mensagem salvífica. Os Apóstolos e os discípulos deveriam buscar viver a sua fé judaica. O mandado missionário perderia a sua coesão lógica, afinal qual a razão de anunciar uma mensagem que não é universal e converter crentes de outras religiões que também são “verdadeiras”? O relativismo destrói justamente o caráter eterno do Evangelho, transformando a fé cristã numa mera conveniência de aspecto pessoal.
 
Entretanto, o relativismo desponta apenas na década de 50 e ganha força na década de 70. Uma posição relativista, além das graves consequências teológicas, acaba desmerecendo toda a história da Igreja. Os mártires se tornam nas pessoas mais estúpidas do cristianismo, morrendo em nome de uma crença que era tão verdadeira quanto aquela dos seus perseguidores, e os missionários em inimigos da diversidade, por anunciarem aquilo que acreditavam ser a plenitude da verdade.  São Pedro Chanel, martirizado com golpes de machado na ilha de Futuna depois de testemunhar Cristo e batizar o filho do rei, de herói da fé torna-se, sob o olhar relativista, num inimigo da pluralidade. Pe. Remigius McCoy M.Afr., que por amor encabeçou a missão no norte do Gana, sendo o responsável pelo batismo de milhares de habitantes locais, transforma-se em artífice da opressão cristã.
 
O cristianismo é uma religião desprovida de caráter étnico, sendo uma crença de convertidos e que cresceu graças ao empenho da missão. Se o relativismo religioso é admitido como principio, deveríamos retornar  às nossas crenças primitivas, aquelas que professávamos antes do advento dos missionários cristãos ostentando “opressivamente” o Evangelho.  Negaríamos o que somos e o que fomos e nos envergonharíamos ao falar da história dos santos.  A religião do relativismo é a religião querida pelo mundo contemporâneo. Uma fé que se torna em algo tão banal quanto a roupa que escolhemos para sair, quase como um analgésico para consciência cansada da modernidade vazia. Nessa nova crença a história de São Pedro Chanel é apenas um passado negro que deve ser esquecido.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Fundamentalismo islâmico "Made in USA"

Dentro das fronteiras do Paquistão se reproduz o choque entre secularistas, minorias e fundamentalistas que ocorre há décadas em grande parte do mundo islâmico. Os dois grandes atores dessa tragédia são o fraco e corrupto governo paquistanês e o Taliban. Entretanto, um fator curioso é que por detrás de cada personagem há duas emblemáticas forças ideológicas, os Estados Unidos e a Arábia Saudita. Em terras paquistanesas o radicalismo saudita tomou forma e hoje se dissemina com uma rapidez assustadora, tornando as minorias religiosas, especialmente os xiitas e os cristãos, em alvos constantes dos radicais.
 
O moderno Estado do Paquistão nasceu em 14 de agosto de 1947, com a independência da Índia seguida da separação do seu território. A criação de duas nações, uma de maioria islâmica e outra de maioria hinduísta, gerou um grande fluxo imigratório: muçulmanos indianos indo para o Paquistão e hindus e sikhs paquistaneses indo para a Índia. Em 1971, com a guerra de independência do Paquistão Oriental, surgiu a terceira nação da fragmentação da antiga Índia Britânica, Bangladesh.

Historicamente já havia no país um forte discurso radical, principalmente instigado pela escola sunita Deobandi, fundada ainda no tempo colonial e como reação a uma pretensa deformação do islamismo. Este espírito de retorno às “origens” de Muhammad, em total sintonia com o movimento ainda mais antigo que surgiu na península arábica, o wahabismo, logo possibilitou o nascimento de  diversos partidos e grupos terroristas, muitos desses últimos dedicados a erradicar o islamismo xiita que era muito forte no norte do país. O wahabismo só se disseminou com força depois do incremento das relações entre o Paquistão e a Arábia Saudita, contudo, já em 1880 é conhecida a chegada à Índia Britânica de pregadores wahabitas. Os deobandis nada mais são do que filhos espirituais dessas pregações.
 
Com a invasão soviética ao Afeganistão a aliança entre a Arábia Saudita e o Paquistão se tornou estratégica para a manutenção do poder  islâmico na região. Os sauditas possibilitaram a chegada de recursos logísticos e financeiros para a disseminação das madrasas por toda o território paquistanês e no leste afegão. O Taliban nasce nesse contexto, alimentado ideologicamente e materialmente pelo pensamento saudita. Imitando os seus mentores wahabbitas, os radicais no Paquistão e no Afeganistão iniciaram um processo sistemático de destruição cultural, artística e religiosa: túmulos, mesquitas, livros foram destruídos, era necessário retornar também às origens puras da cultura islâmica, isto é, a forçada “arabização” de povos muçulmanos  não árabes.
 
Um fator da equação que quase passa despercebido é a forte presença dos EUA nesse contexto. Os americanos são tradicionais aliados dos sauditas, ainda que estes sejam os mentores espirituais do terrorismo islâmico que assola o mundo. Da Chechênia até a Somália, do Marrocos até as Filipinas, a esmagadora maioria do fundamentalismo muçulmano tem a marca, direta ou indireta, do wahabismo saudita. No atual conflito sírio o wahabismo é o motor ideológico dos “rebeldes”, grande parte composta por radicais estrangeiros ansiosos para derrubar o governo de um kafir (incrédulo) – Assad é alauíta, uma religião de origem islâmica – e apoiados pela América. Os EUA já têm o costume de apoiar terroristas, como a sua aliança, através do Paquistão, com o Taliban.
 
Devido aos interesses capitalistas do wahabismo, a Arábia Saudita tornou-se numa ferramenta eficaz na política externa dos EUA na luta contra a influência soviética, o discurso anti-ocidental e as ideologias nacionalistas no Oriente Médio e no mundo muçulmano em geral. Como parte da sua agenda na Guerra Fria, os Estados Unidos apoiaram a criação de diversos grupos com fortes motivações ideológicas, como a Liga Muçulmana Mundial, em 1962, a Organização dos Países Islâmicos (OIC), em 1969, e o Banco Islâmico de Desenvolvimento, em 1976 – todos sediados na Arábia Saudita. Os Estados Unidos também favoreceram a entrada no Reino de diversos ativistas perseguidos em seus países por conta do discurso anti-secularista. O falecido rei saudita Faysal, o principal arquiteto da política pró-ocidental no Oriente Médio, fomentou a formação desses líderes na ideologia oficial saudita. Como resultado, o wahabismo foi gradualmente influenciando a política de diversos países muçulmanos, principalmente o Egito e o Paquistão.

“Nossa fé e seu aço”, foi como Ibn Saud, fundador da moderna Arábia Saudita, descreveu em 1946 para o Coronel William A. Eddy, primeiro delegado dos EUA no Reino Saudita, a relação com o governo americano. Este vínculo se mantém intacto desde então e curiosamente, ainda que o wahabismo seja uma seita de forte espírito puritano, não se vê na Arábia Saudita e no Qatar – as duas nações oficialmente salafistas – nenhum protesto popular anti-ocidental. Ademais, Riyad serve como mediadora entre Washington e Islamabad.  Enquanto os EUA forneciam armas e treinamento em campos no interior do Paquistão, a Arábia Saudita abastecia o país com dinheiro e, mais importante, transportando milhares de jovens de todo o mundo, doutrinados no wahabismo e  ansiosos na busca do “martírio”. O acampamento, a base – daí, em árabe, “al –Qaeda” – recebia tais voluntários que eram treinados e educados como combatentes mujahidin por homens mais instruídos na ideologia, entre eles Osama bin Laden.
 
O Paquistão se tornou refém da ingerência Saudita-Americana no Oriente Médio. De Washington e de Riyad emanam divisas imensuráveis que ajudam na manutenção de governos corruptos, material bélico vital para o fortalecimento de um enorme exército tradicionalmente mal preparado e uma forte ideologia que unifica todas as lutas contra os inimigos nacionais, entre eles os "incrédulos". Contudo, em terras paquistaneses o radicalismo tomou feições anti-ocidentais, especialmente anti-americanas, possibilitando a criação de um círculo de morte que assusta os EUA. A América hoje se preocupa com a escadala do terror por ela criado. Nas nações ricas da península arábica o wahabismo goza das benesses do mundo moderno, enquanto na periferia do mundo islâmico, no subcontinente indiano e no chife da África, a pobreza se torna num combustível que inflama ainda mais o radicalismo. O maior inimigo dos EUA na atualidade nada mais é do que o seu experimento que saiu de controle: o fundamentalismo islâmico.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Pontos da “Evangelii Gaudium” que precisam de esclarecimento

 (CHIESA) Por Samir Khalil Samir S.J. 

Tradução do Acarajé Conservador

1.    Os muçulmanos “connosco adoram o Deus único e misericordioso” (n. 252)

Tomarei com cautela esta frase. É verdade que os muçulmanos adoram um Deus único e misericordioso. Entretanto, esta frase sugere que as duas concepções de Deus são iguais. Pelo contrário, no cristianismo Deus é Trindade em Sua essência, pluralidade unida no amor. É um pouco mais que só clemência e misericórdia. Temos duas concepções bastante diferentes da unicidade divina. A islâmica caracteriza Deus como inacessível. A visão cristã da unicidade trinitária destaca que Deus é Amor que se comunica: Pai-Filho-Espírito Santo, ou bem Amante-Amado-Amor, como sugeria Santo Agostinho.
 
Ademais, o que significa a misericórdia do Deus islâmico? Que Ele pratica misericórdia com quem quer e não a pratica com aqueles que o desagradam.  “Deus faz entrar em Sua misericórdia a quem Ele quer” (Corão 48:25). Estas expressões se encontram em forma quase literal no Antigo Testamento (Ex 33, 19). Mas não se chega jamais a dizer que “Deus é Amor” (1Jo 4, 16), tal como se expressa São João.
 
No caso do Islã, a misericórdia é a do rico que se inclina até o pobre e o concede algo. Contudo, o Deus cristão é Aquele que desce até o pobre para elevá-lo ao Seu nível, não mostra Sua riqueza para ser respeitado (ou temido) pelo pobre: se doa a si mesmo para fazer viver.

2.    “Os escritos sagrados do Islão conservam parte dos ensinamentos cristãos” (n. 252)

É verdade num certo sentido, mas pode ser também ambíguo. É verdade que os muçulmanos retomam palavras ou feitos dos evangelhos canônicos, por exemplo, o relato da Anunciação se encontra quase literalmente nos capítulos 3 (“A família de Imran”) e 19 (“Mariam”).

Entretanto, mais freqüentemente o Corão se inspira nos relatos piedosos dos evangelhos apócrifos, e não extraem o sentido teológico que se encontra neles e não dão a estes feitos ou palavras o sentido que têm na realidade, não por malícia, senão porque não têm a visão global da mensagem cristã.

3.    A figura de Cristo no Corão e no Evangelho (n. 252)

O Corão se refere a “Jesus e Maria [que] são objetos de profunda veneração”. Para dizer a verdade, Jesus não é objeto de veneração na tradição muçulmana. Pelo contrário, no caso de Maria se pode falar de uma veneração, em particular por parte das mulheres muçulmanas, que vão voluntariamente aos lugares de peregrinação mariana.

A ausência de veneração para Jesus Cristo se explica provavelmente pelo fato de que, no Corão, Jesus é um grande profeta, famosos pelos seus milagres a favor da humanidade pobre e enferma, mas não igual a Maomé. Só por parte dos místicos se pode notar uma certa devoção, eles o chamam também de “Espírito de Deus”.

Na realidade, tudo o que se diz de Jesus no Corão é o oposto dos ensinamentos cristãos. Ele não é Filho de Deus, é um profeta e basta. Não é nem sequer o último dos profetas, porque o “selo dos profetas” é Maomé (Corão 33:40). A revelação cristã é vista como uma etapa até a revelação última, trazida por Maomé, isto é, o Islã.

4.    O Corão se opõe a todos os dogmas cristãos fundamentais

A figura de Cristo como segunda pessoa da Trindade é condenada. No Corão se diz de forma explícita ao cristãos: “Oh, gente da Escritura, não se excedam em sua religião e digam de Deus mais que a verdade. O Messias Jesus, filho de Maria, não é mais que um mensageiro de Deus, uma de suas palavras que Ele põe em Maria, um Espírito [que provem] dEle. Creiam então em Deus e em seus mensageiros. Não digam ‘Três’. Parem! Será melhor para vocês. Em verdade Deus é um deus único. Teria um filho? Glória a Ele” (Corão 4:171). Os versículos contra a Trindade são muito claros e não têm necessidade de tantas interpretações.

O Corão nega a divindade de Cristo: “Oh, filho de Maria, foste tu que disseste às pessoas: ‘Tomam-me a mim e a minha mãe como duas divindade além de Deus?” (Corão 5:116). Jesus o nega!

Por último, no Corão nega a redenção. Diretamente se afirma que Jesus Cristo não morreu na cruz, mas sim que foi crucificado um outro: “Não o mataram, não o crucificaram, mas os pareceu que sim” (Corão 4:157). Deste modo Deus salvou Jesus da malícia dos judeus. Então Cristo não salvou o mundo!

Em síntese, o Corão e os muçulmanos negam os dogmas essenciais do cristianismo; a Trindade, a Encarnação e a Redenção. Se deve agregar que este é seu direito mais absoluto. Portanto não se pode dizer que “os escritos sagrados do Islão conservam parte dos ensinamentos cristãos”. Deve-se falar simplesmente do “Jesus corânico” que não tem nada a ver com o Jesus dos Evangelhos.


O Corão cita Jesus porque pretende completar a revelação de Cristo para exaltar Maomé. No resto, vendo como Jesus e Maria atuam no Corão, nos damos conta de que eles não fazem mais que aplicar as orações e o jejum segundo o Corão. Maria é certamente a figura mais bela entre todas as apresentadas no Corão: é a Virgem Mãe, que nenhum homem jamais tocou. Contudo, não pode ser a Theotokos, mas sim uma boa muçulmana.

Os pontos mais delicados

1.    Ética no Islã e no cristianismo (252)

A última frase deste parágrafo da “Evangelii Gaudium” diz, ao falar dos muçulmanos:  “Reconhecem também a necessidade de Lhe responder com um compromisso ético e com a misericórdia para com os mais pobres”. Isto é verdade e a piedade para com os pobres é uma exigência do Islã. Entretanto, parece-me que há uma dupla diferença entre a ética cristã e a muçulmana.

A primeira é que a ética muçulmana não é sempre universal. Trata-se freqüentemente de ajuda dentro da comunidade islâmica, enquanto a obrigação de ajuda, na tradição cristã, é por si universal. Nota-se, por exemplo, quando há uma catástrofe natural em alguma região do mundo, que os países de tradição cristã ajudam sem considerar a religião de quem é ajudado, já os riquíssimos países muçulmanos (os da Península Arábica, por exemplo) não fazem caso.

A segunda diferença é que o Islã vincula ética e legalidade. O que não jejua durante o mês do Ramadã comete um delito e é passível de pena (em muitos países). Cumpre-se o  jejum previsto, desde a madrugada até o por do sol, perfeitamente, ainda que na sequência do por do sol se coma até a madrugada do dia seguinte, mais e melhor do que se come habitualmente: “se comem as melhores coisas e em abundância”, como me contavam alguns amigos muçulmanos egípcios. Parece que não há outro significado no jejum senão o de obedecer a lei mesma do jejum. O Ramadã se converte no período no qual os muçulmanos comem mais, e comem coisas mais deliciosas. No dia seguinte ninguém trabalha, dado que por passar a noite comendo ninguém dormiu. Contudo, do ponto de vista formal todos jejuaram durante algumas horas. Há, pois, uma ética legalista: se você faz isto, você está sendo justificado. É uma ética superficial.

Já o jejum cristão, pelo contrário, é algo que tem como fim aproximar-se intimamente ao sacrifício de Jesus, assim como a solidariedade com os pobres. Não é o momento onde se recupera aquilo que não comeu.

Se alguém aplica a lei islâmica, tudo está em ordem. O fiel não pretende ir além da lei. A justiça é requerida pela lei, mas não é superada. Por isso, não está no Corão a obrigação do perdão. Pelo contrário, no Evangelho Jesus pede para que perdoem de modo infinito (setenta vezes sete, cf. Mt 18, 21-22). No Corão a misericórdia não chega jamais ao amor.

O mesmo vale para a poligamia: se pode ter até quatro esposas. Se quero ter uma quinta, basta repudiar a uma delas, quiçá a mais velha, e tomar uma esposa mais jovem. Ao ter sempre quatro esposas estou na legalidade perfeita.

A mesma coisa vale, por exemplo, para o homossexualismo. Em todas as religiões é um pecado, mas para os muçulmanos é também um delito que deveria ser castigado com a morte. No cristianismo é um pecado, mas não um crime. O motivo é óbvio: o Islã é religião, cultura, sistema social e político, é uma realidade integral, e assim está concebida no Corão.  Pelo contrário, o Evangelho distingue claramente a dimensão espiritual e ética da dimensão sociocultural e política.

O mesmo vale para a pureza, como explica de forma clara Cristo aos fariseus: “O que contamina o homem não é o que entra na boca, mas o que sai da boca, isso é o que contamina o homem. (Mateus 15, 11)

2.    “Os fundamentalismos de ambos os lados” (n. 250 e 253)

Por último, há dois aspectos que queria criticar. O primeiro é aquele onde o Papa coloca juntos todos os fundamentalismos. No N.250 ele diz: “Uma atitude de abertura na verdade e no amor deve caracterizar o diálogo com os crentes das religiões não-cristãs, apesar dos vários obstáculos e dificuldades, de modo particular os fundamentalismos de ambos os lados.”

O outro aspecto é a conclusão da seção sobre a relação com o Islã que termina com esta frase: “Frente a episódios de fundamentalismo violento que nos preocupam, o afecto pelos verdadeiros crentes do Islão deve levar-nos a evitar odiosas generalizações, porque o verdadeiro Islão e uma interpretação adequada do Alcorão opõem-se a toda a violência.” (n. 253)

Pessoalmente eu não colocaria os dois fundamentalismos no mesmo plano: os fundamentalistas cristãos não portam armas, o fundamentalismo islâmico é criticado primeiramente e precisamente pelos próprios muçulmanos porque este fundamentalismo armado busca reproduzir o modelo maometano. Em sua vida, Maomé liderou mais de 60 guerras. Agora bem, se Maomé é o modelo excelente (como diz o Corão em 33:21), não surpreende que alguns muçulmanos usem sua violência à imitação do fundador do Islã.

3.    A violência no Corão e na vida de Maomé (n. 253)

Por último, o Papa menciona a violência no Islã. No parágrafo 253 lê-se: “o verdadeiro Islão e uma interpretação adequada do Alcorão opõem-se a toda a violência.”

Esta frase é belíssima, e expressa uma atitude muito benévola do Papa ao Islã. Entretanto, parece-me que ela expressa mais um desejo do que uma realidade. Que a maioria dos muçulmanos pode ser contrária à violência também é real. Contudo, dizer que o verdadeiro Islã é contrário a toda violência não me parece certo: a violência está no Corão. Para dizer, ademais, que “uma interpretação adequada do Corão” se opõe a esta mesma violência são necessárias muitas explicações. Basta recordar os capítulos 2 e 9 do Corão.

Sem embargo, é verdade quando o Pontífice afirma sobre a necessidade de uma “interpretação adequada” dentro do Islã. Este caminho tem sido percorrido por alguns eruditos, mas não é suficientemente forte para contrastar ao que é recorrente na maioria. Esta minoria busca reinterpretar os textos corânicos que falam da violência, mostrando que eles estão ligados ao contexto da Arábia da época e estavam ligados à cosmovisão político-religiosa de Maomé.

Se o Islã quer permanecer hoje nesta leitura ligada ao tempo de Maomé, então sempre haverá violência. Contudo, se o Islã – e há um bom número de místicos que o hão feito – quer encontrar uma espiritualidade profunda, então a violência não é aceitável.

O Islã se encontra frente a uma encruzilhada: ou a religião é um caminho para a política e para uma sociedade politicamente organizada, ou a religião é uma inspiração para viver com mais plenitude e amor.

Aquele que critica o Islã a respeito da violência não faz uma generalização injusta e odiosa: mostra as questões presentes, vivas e sangrentas no mundo muçulmano.

No Oriente se compreende muito bem que o terrorismo islâmico está motivado religiosamente, com citações, orações e fatwas por parte dos imames que fomentam a violência. O fato é que no Islã não há uma autoridade central que corrija as manipulações. Isto faz com que cada imam se torne um mufti, uma autoridade nacional que pode emitir juízos inspirados pelo Corão, até chegar a ordenar que se mate.

Conclusão: uma “interpretação adequada do Corão”

Para concluir, o ponto verdadeiramente importante é o da “interpretação adequada”. No mundo muçulmano o debate mais forte – que é também o mais proibido – é precisamente o da interpretação do livro sagrado. Os muçulmanos crêem que o Corão saiu de Maomé, completo, na forma que conhecemos. Não existe o conceito de inspiração do texto sagrado, o qual dá espaço para uma interpretação do elemento humano presente na palavra de Deus.

Tomemos um exemplo. No tempo de Maomé, com tribos que viviam no deserto, o castigo para um ladrão era cortar a mão. Para que isso servia? Qual era a finalidade deste castigo? Não permitir que o ladrão continuasse roubando. Agora devemos perguntar-nos: Como podemos salvaguardar hoje esta finalidade, isto é, que o ladrão não roube? Podemos utilizar outros métodos em lugar do corte da mão?

Quando encontro amigos muçulmanos, trago à luz que hoje em dia é necessário interrogar-se sobre a “finalidade” (maqased) que tinham as indicações do Corão. Os teólogos e os juristas muçulmanos dizem que devem buscar as “finalidades da Lei divina” (maqisid al-sharia). Esta expressão corresponde ao que Evangelho chama “o espírito” do texto, em oposição à letra. É necessário buscar a intenção do texto sagrado do Islã.

Vários eruditos muçulmanos falam da importância de descobrir “a finalidade” dos textos corânicos para adequar o texto do Corão ao mundo moderno. Parece-me que isto está muito próximo daquilo que o Santo Padre intenta sugerir ao falar de uma “interpretação adequada do Corão”.   

Pe. Samir Khalil Samir S.J nasceu no Cairo, Egito. Ingressou na Sociedade de Jesus em 1955, estudando na França. Especializou-se em Filosofia, Teologia e Estudos Islâmicos. Foi professor do Pontifício Instituto Oriental, em Roma, e em seguida passou a lecionar na Universidade Saint Joseph, no Líbano. Em Beirute ele fundou o CEDRAC "Centre de documentation et de recherches arabes chrétiennes" que busca estudar as interações filosóficas, teológicas e históricas entre o cristianismo, o islamismo e o mundo árabe. Ele ministrou um curso privado para o Papa Bento XVI sobre teologia islâmica, em Castel Gandolfo. Pe. Samir tem muitos livros publicados sobre teologia e filosofia islâmicas.

domingo, 29 de dezembro de 2013

Facebook: Liceu e Octógono

Se o conservadorismo brasileiro depender da qualidade intelectual dos debates de facebook nós estamos fritos! A internet possibilitou a democratização do conhecimento e consequentemente, quase como efeito colateral, criou os jovens enciclopédicos, aqueles que conseguem discutir metafísica, passando por geopolítica e chegando até em teologia das religiões. Não que eu duvide da existência de pessoas capazes de reunir uma multiplicidade de saberes. O problema é outro, a transformação do conhecimento em luta de ego e a falta de um estudo dedicado. Ademais, outra face dessa mesma moeda é a "esquerdização" do conservadorismo, isto é, a sua redução a uma panfletagem política. 

Eu não costumo dar créditos a debates de facebook, não gosto de bater palma para doido dançar. Quase sempre, quando estou envolvido em alguma discussão por aquelas bandas, acabo simplesmente desistindo do "diálogo". Tenho um certo preconceito intelectual com redes sociais. As discussões sempre acabam se tornando completamente passionais e quase constantemente são acompanhadas por uma plateia que faz questão de tornar ainda mais violenta a troca de idéias - quando há troca e quando há idéias. Isso se soma ao fato de que no facebook qualquer um se transforma em qualquer coisa, capaz de forjar conhecimentos com ajuda do Google da Wikipedia. 

Entretanto, a minha recusa a debater em redes sociais não é fruto de uma prepotência, como só me sentisse digno dos louros da academia. Ao contrário, o problema é justamente o oposto. No facebook as discussões são alimentadas por jovens que têm uma visão muito fast food da vida intelectual, como se a leitura de alguns poucos artigos e de um ou outro livro já possibilitasse o debate público com tom pontifical. Destarte, o processo de estudo se torna totalmente deformado, sendo simplificado numa corrida por respostas rápidas, dada a rapidez da rede social, visando a vitória, de preferência humilhante, sobre os oponentes, quiçá inimigos.

Como consequência dessa lifestyle intelectual facebookiano surgiram dois estilos muitos recorrentes de conservadores: aqueles que debatem com a autoridade dos blogs e os panfletários que ao se ocuparem com aspectos mais práticos do discurso acabaram se transformando em guevaristas com camisetas de Burke. Nos dois grupos falta uma seriedade no estudo e na pesquisa. No primeiro caso o estudo é tomado pelos sentimentos passionais da discussão, que são ainda mais maximizados quando se reúnem dezenas de jovens num mesmo debate, quase como hordas mongóis invadindo a Europa ou como enlouquecidos torcerdores de UFC em Vegas.  No segundo caso reina um estilo mais bonachão e menos pretensioso, mas ainda preocupante quando acaba dando ao "conservadorismo" uma pauta e um discurso revolucionários. 

As redes sociais são úteis no contato com pessoas de diversas regiões e países. Eu mesmo posso testemunhar quantas figuras interessantes conheci no facebook e que me ajudaram em diversos aspectos da vida intelectual. Contudo, não tenho a pretensão de transformar o meu mural num Liceu com octógono de MMA, e por dois simples motivos, eu não sou Aristóteles e Mark Zuckerberg não é Dana White.

Grupo Olavo de Carvalho

Estou divulgando aqui, a pedidos, este grupo de fundação recente em Salvador.

"O Grupo Olavo de Carvalho e amigos de Salvador-BA é destinado para as pessoas que se interessem pelas notícias e estudos de Olavo de Carvalho e que residam em Salvador ou em cidades próximas. Aqui, principalmente, nos reunimos para eliminar a solidão de ser um conservador em Salvador e criarmos amizades verdadeiras.

Tarcísio Padilha"

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

O imamato no islamismo xiita

O xiismo é certamente a seita islâmica mais desconhecida e mal compreendida no mundo ocidental. Depois do advento da Revolução Islâmica no Irã, com a ascensão dos Ayatollahs ao poder, criou-se no imaginário popular, com grande suporte da mídia, a idéia de que o islamismo xiita é sinônimo de radicalismo. Tal raciocínio simplesmente ignora o fato de que, historicamente, o xiismo é a vertente mais mística do islã e devido aos eventos históricos também se transformou na seita mais próxima aos cristãos.

O islã xiita surge na convicção de que Muhammad deixou sucessores visíveis e responsáveis pela guarda e interpretação da Revelação. Os Imames, começando com Imam Ali ibn Abu Talib, descendentes do Profeta do Islã através de sua filha Fatimah Az-Zahra, são os luminares da religião, com a incumbência de reter a Tradição (Sunnah) e manter viva a mais profunda e mística noção do Corão.

A dimensão espiritual do Alcorão, que mais tarde o xiismo designará por “haqiqa” que por sua vez traduziria um dos sentidos do termo grego “essência”, é aquela que revela a verdade das coisas, esta especial sabedoria que não é de comum conhecimento. Se o texto sagrado não tivesse um sentido verdadeiro e fundante todos os preceitos da religião positiva, “al-Sharia”, não teriam consistência autêntica e se tornariam puro legalismo. Destarte, a religião positiva islâmica é o sentido exotérico (zahir) da essência (haqiqa) que, por sua vez, é o sentido esotérico (batin) do Corão. Há, pois, uma dialética entre o símbolo (mital) e o simbolizado (mamtul). Os xiitas, graças a esta perspectiva e mediante a primazia dado aos Imames na correta leitura dos dados da Revelação, admitem o desenvolvimento orgânico do aspecto legal da religião ao longo da história, ainda que o seu sentido verdadeiro seja permanente

“Todo versículo corânico tem quatro sentidos: exotérico (zahir), esotérico (batin), o limite (hadd) e o projeto divino (muttala). O exotérico para o sentido oral; o esotérico para a meditação interior; o limite são os princípios que estabelecem a licitude; o projeto divino é o que Deus propôs fazer em cada homem através de cada versículo”

Nesse hadith do Imam Ali ibn Abi Talib fica claro como o sentido verdadeiro do Corão converte os Imames em inspirados por Deus, ou seja, homens de Deus, conhecedores e iluminados, “Mantenedores do Livro” escolhidos pelo próprio Muhammad. Finalizada a profecia (al-nabuwwa) se inicia o imamato (al-walaya), que é o desenvolvimento esotérico da profecia. O Imam, portanto, torna-se no coração da religião que vive na história. O Imamato está intimamente associado com o sentido esotérico (batin) das palavras corânicas, o sentido que lança a luz sobre o Livro. Este “segredo” é justamente a walaya que se torna o constitutivo essencial do Imamato. Portanto, os doze Imames formam uma só luz e têm uma só essência verdadeira, compõem um só corpo de autoridade e sabedoria. Ademais, como epifanias da sabedoria divina, eles se identificam com os Nomes divinos. O Imamato é o que possibilita, assim, a continuidade profética sem a qual a humanidade perderia seu sentido religioso.

Talvez pareça que o xiismo, devido a esta clara estrutura gnóstica postule algum tipo de abolição do sentido literal do Corão e a negação da religião visível e positiva, da Sharia. Entretanto, a posição xiita é aquela que não entende que a religião deva se converter numa apanhado de dogmas e leis, de uma realidade normativa desprovida de essências verdadeiras e de sentido interior. Ainda que para a maioria dos homens as luzes do verdadeiro conhecimento estejam fechadas, faz parte da missão dos Imames e daquela minoria de iniciados manter viva a dialética entre zahir e batin.


Assim como a religião possui esse duplo aspecto, a realidade profética também a tem. O Imamato (walaya) é a dimensão esotérica da profecia eterna. Diz-se, pois, que a epifania das dimensões exotérica e esotérica correspondem respectivamente a Muhammad, Profeta do Islã, e a Ali ibn Abu Talib, Primeiro Imam. Ademais, os “amigos de Deus”, os Imames, não teriam comunicação divina direta (al-wahi), mas sim inspiração (ilham) mediante o desvelamento místico (al-kasf).  Utilizando uma construção já mais pendente para o xiismo ismaelita, se diz que o Imam histórico é ao mesmo tempo o espelho e o reflexo do Eterno Imam, a Palavra (Kalimah). Um espelho não possui nada e é pobre ante o objeto que reflete. O Imam histórico - como o espelho - é o mais humilde servo de Deus (Abdull\h), o amigo de Deus (waliyyullah) e Vice-gerente de Deus (khalifatullah) entre a humanidade.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Quando o Brasil se torna num grande Esquenta!

Eu não tenho o costume de analisar festas e eventos, mas hoje vou me passar por colunista da Caras. O sorteio das chaves da Copa do Mundo foi de uma peculiaridade singularíssima. Um evento marcado por todas as notas características da brasilidade-cariocarizada, aquela mesma que está nas ruas das novelas da Globo e que tem em Regina Casé, a pomba gira dos domingos, o seu avatar.

Eu não sei que país é aquele que foi apresentado. Parece que os seus habitantes são agentes de turismo. Ok, faz parte da propaganda a criação do cenário encantado para inglês ver, mas qualquer brasileiro que pega ônibus, anda de metrô e enfrenta engarrafamento sabe que a realidade é um pouco diferente do pacote vendido. Ademais, seria menos custoso para a organização do evento se ao invés de vídeos sobre as nossas “belezas naturais e culturais” tivesse escolhido reprisar o Esquenta: samba, gente feliz, bundas, crianças super dotadas e também rebolativas etc.

Vale destacar, além disso, que esse evento foi profundamente marcado por momentos de vergonha-alheia. Até tive que colocar no mute para diminuir o constrangimento. Claro que grande parte dessa experiência foi devido ao eloquente dom retórico da nossa Presidente. Eu realmente gostei quando ela disse que o Brasil vai receber a Copa como “um único ser”. Não sei se a Sra. Dilma está estudando metafísica, mas o fato é que aquela conversinha com o marido da Fernanda Lima – da próxima vez seria bom não concentrar toda a beleza e feminilidade numa mulher só. A Presidente agradece – foi um momento mui marcante.

Contudo, se algum gringo falasse que o Brasil é a terra do bunda-lê-lê, o Domingão do Faustão way of life, haveria até pronunciamento oficial do Chanceler e protestos em redes sociais. Entretanto, quando num evento transmitido para bilhões de pessoas o próprio Brasil escolhe se apresentar como se fosse um grande Rio de Janeiro – com um bairro chamado Salvador – habitado por uma “gente bronzeada” que dança axé e tem samba no pé todos, ou quase todos, se sentem dignamente representados. Onde está a verdadeira brasilidade e a verdadeira diversidade cultural?


Já passou da hora do Brasil escolher qual imagem quer passar mundo afora. Ou sua versão carnavalesca cariocarizada, aquela que é vendida pela Globo em sua programação, cheia de gente cheirosa sambando seminua ao som das baterias das escolas de samba, ou o Brasil profundo que é composto por brasileiros reais que realmente sabem se divertir, mas que são mais que bundas com um sorriso de photoshop.

sábado, 16 de novembro de 2013

O PT de São Dirceu e São Marx

Poucas vezes eu desbravei o terreno da política partidária brasileira. Além de ser uma temática que faz aflorar os mais bizarros sentimentos humanos, é uma discussão nada frutífera. Todos os debates sobre a realidade política nacional são sustentados sobre dezenas de dados estatísticos e análises de conjuntura, mas que em nada refletem sobre as bases conceituais daquilo que norteia as concepções da filosofia política. Por isso que todas essas discussões incidem num pragmatismo diabólico. Entretanto, com as prisões dos mensaleiros petistas eu me vi diante de reações bastante sintomáticas, refletindo de modo pujante a insanidade própria que marca a (i)lógica esquerdista.

No mesmo dia em que o Brasil recordava a Proclamação da República, os brasileiros assistiram as prisões dos mensaleiros. Enquanto isso, a Presidente Dilma estava muito ocupada discursando no congresso do PCdoB. José Dirceu e José Genoíno, lançando mão de toda a falaciosa "Novilíngua" petista, onde "democracia", "justiça" e "ordem" são conceitos esvaziados de sentido, revelam o teor obsceno da consciência da esquerda: eles são vítimas de um tribunal de exceção, eles são presos políticos. Os militantes petistas protestam nas redes sociais! O PT está sendo alvo de sistemática perseguição anti-democrática.

Até então nada de absurdamente anormal. É um tanto óbvio que o Partido dos Trabalhadores, que tão veementemente negou a existência do mensalão, continuasse a se comportar- imoralmente - da mesma forma. O que se destacou nas reações de protesto contra as prisões foi o modo explícito com o qual a esquerda revelou a sua verdadeira essência, isto é, um projeto de poder que se fundamenta em parâmetros totalitários.

Escondido sob uma aparente perplexidade democrática, os petistas alegavam que o Supremo Tribunal Federal era um tribunal de exceção, que o Estado Democrático de Direito não mais vigorava em nossa nação e que as liberdades foram tolhidas. Contudo, ao mesmo tempo, a Presidente Dilma, no congresso do PCdoB, discursava ao lado de uma imensa imagem de Lênin, o pai do bolchevismo genocida, e centenas de petistas, nas redes sociais, invocavam as imagens de Karl Marx e Che Guevara como intercessores morais para os seus companheiros agora presos.

Ora, reclamar da falta de democracia enquanto acende vela para bolcheviques? Espernear que o STF é tribunal de exceção enquanto a Presidente Dilma, sem nenhum pudor moral, discursa sob o olhar atento do pai da genocida URSS com a sua justiça dos Gulags? Alegar que não houve liberdade de defesa ao mesmo tempo em que se invoca as figuras horrendas da ditadura cubana que fizeram do paredão de fuzilamento a sua corte de apelação? A esquerda revela o quanto seriamente entende esses conceitos que são tão caros para a sustentação de um regime de paz.

Destarte, sob os protestos e chororôs, os petistas, ao mesmo tempo em que criticaram a democracia brasileira por não ser democrática, igualaram os seus heróis, Dirceus e Genoínos, aos mais cruéis genocidas totalitários da história da humanidade. Qualquer pessoa com um mínimo de decência moral reconhece a gravidade de tal feito, seja pela hipocrisia gramsciana, como também pelo fetichismo sado-masoquista de ter como santos de devoção assassinos, carniceiros e corruptos.