segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Tropa de Elite 2 e a força de um clichê

O filme Tropa de Elite 2 se “redime” em relação ao primeiro ao elaborar uma trama muito mais complexa e que nos obriga a realizar certa reflexão apurada e profunda. Inegavelmente, o volume inaugural da trama é de extrema facilidade de compreensão devido ao cenário totalmente bipolarizado e antitético, com personagens que encarnam plenamente ideais e princípios. Já o filme lançado esse ano, ainda que tente tratar o problema da violência e da indústria que a movimenta com maior realismo, infelizmente lança fora todos os bons frutos da discussão que o fenômeno “Tropa de Elite” causou. Explicar-me-ei.

O filme Tropa de Elite foi um marco por abordar com extrema objetividade um ponto deveras marcante na sociedade e política brasileiras. O lobby da esquerda militante e do humanismo caricatural sempre marcou o tom das “políticas públicas” – termo cunhado recorrentemente e que abarca uma imensidade de conceitos – e da ação do Estado em relação ao problema da violência urbana. Os brasileiros se regozijaram com as cenas onde Capitão Nascimento desmascara a intelectualidade que cita Foucault, critica os “aparelhos repressivos do Estado” e, ao mesmo tempo, prestigia bandidos e usa drogas. Entretanto, a continuação do filme, na tentativa de desconstruir o forte teor politicamente incorreto que marcou toda a edição, adota um discurso conciliatório, mas que na prática foi um fiasco.

No início do filme há uma continuação perfeita das posições do Tropa de Elite I, com alusões claras às posições idealistas e apaixonadas da esquerda militante. Porém, ao longo da produção o agora Coronel Nascimento não apenas se desilude com os princípios de outrora como coloca em discussão a função real do BOPE e até mesmo a sua inabalável moral. O “sistema” que é combatido pelo arauto dos direitos humanos, Dep. Fraga, o que tem quadros de Marighella e Olga Benário em seu escritório, é o mesmo sistema corrupto que financia e perpetua a violência urbana. Ainda que o primeiro volume da produção e o tom usado pelo Coronel Nascimento no início da história nos imunize de uma visão restrita, ideologizada e socializante dos problemas que a trama trata, não podemos negar que Tropa de Elite 2 destina o homem médio – a massa – a incidir na mesma compreensão obtusa e apaixonada que inicia criticando ao tratar da “intelectualidade” de esquerda.

O tão famigerado “sistema” destrói a tenra convicção do Coronel Nascimento, a sua inabalável posição em defesa da ordem como outrora pensava. Colocando por terra a certeza do personagem principal e, ao mesmo tempo, com a radical mudança de leitura do espectador em relação ao Dep. Fraga, de um idealista romântico de esquerda para o único intrepidamente entregue ao combate da corrupção e da violência, o filme tenta desconstruir o herói “Capitão Nascimento” que foi criado no primeiro filme e erguer o defensor dos direitos humanos ao nível deste.

Ainda que, aparentemente, a tentativa fosse de gerar uma reflexão mais realista e menos maniqueista, é inegável que a maioria dos espectadores vai entender a crítica ao sistema como a confirmação das críticas da esquerda, ainda que esta crítica tenha sido desautorizada no Tropa de Elite 1 e no início do 2. Entretanto, a forte crise interior do Coronel Nascimento é o que mais corrobora no rompimento integral com o teor do discurso politicamente incorreto que marcou esse fenômeno cinematográfico.

Queremos o Capitão Nascimento de volta!

4 comentários:

Anônimo disse...

Uma crítica extremamente mal feita. Um filme como este só merece críticas positivas, é fato, mas não lhe tiro o direito de falar mal. Mas se assim for, que use argumentos decentes, senão esse seu site cai na vergonha, o que, aliás, já deve ter acontecido. Meus pesames. Tropa de elite 2, melhor filme brasileiro já lançado!!!

André R. disse...

Assisti ambos os filmes, achei o numero 2 excelente, bem mais profundo no quesito das tramas montadas. Mas o primeiro tem uma linguagem muito mais direta, atingindo uma camada da população que não tinha abesto os olhos para os pequenos deslizes que a classe média e suas grandes implicações.

Grande abraço
André R.
www.transparenciapolitica.blogspot.com

Max Aizner disse...

Ixe, tava todo animado pra ir no cinema! Agora, vou esperar o DVD!

Diogo disse...

entendo sua análise, mas tb sou condescendente com os realizadores do filme pq como o segundo filme se propos a descrever um processo mais amplo e complexo, a tal realidade retratada se revelou muito maior do que a capacidade narrativa do filme. O filme se propos a falar das máfias policiais com suporte dos políticos, e o José Padilha se valeu de pessoas reais para criar seus personagens. Dentro destas relações recortadas, quem realmente atuou como voz denunciadora da máfia foi o político de esquerda. José Padilha, em uma entrevista, disse que o esquerdista Fraga e o direitista Nascimento se encontraram na defesa da ética. Acho que, neste assunto particular das milicias cariocas, foi uma descrição bastante fidedigna.