Pedro Ravazzano
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A mídia – televisiva e jornalística – tem divulgado o escândalo nas escolas católicas da Irlanda. Para um cidadão desavisado e inocente, crente na validade do discurso adotado pelos jornalistas, a notícia confirma aquilo que todos já afirmam; a Igreja Católica é um antro de corrupção. Eu vi a reportagem no Jornal da Globo, e lembro que a apresentadora dizia que “padres e freiras” durante “décadas” abusaram de crianças e jovens nos reformatórios irlandeses. Esse tipo de reportagem é motivo de gozo para os anti-clericais e esquerdistas que, mesmo não confiando na mídia e criticando as redes de comunicação, não se incomodam em acreditar, piamente, na ótica midiática dos fatos.***
Esse escândalo é o manjar dos deuses para os críticos da Igreja, e aqui faço referência aos mais simplórios e caricaturescos críticos, tipo aqueles que assistem Anjos e Demônios e já saem bradando que o Catolicismo é anticientífico. A seriedade e fidelidade aos fatos – e à Verdade – devem ser pontos pacíficos para qualquer análise honesta e verídica da realidade, infelizmente, quase sempre a história e o jornalismo estão submersos na ideologia, na pessoalidade, nos interesses individuais. Agora vamos entender o que de fato ocorreu.
A República da Irlanda conquistou sua independência do Reino Unido apenas em 1916, mas a estruturação de um Estado organizado, mantenedor da ordem, com um poder judiciário e policial, não foi imediata. O país sofreu com uma guerra civil interna e choques com a Inglaterra, além da dissolução de partidos e conflitos políticos. Apenas em 1949 a Irlanda conseguiu definir seu status político, fazendo da presidência seu órgão máximo – até então a Chefia do Estado estava atrelado ao título de Rei da Irlanda.
O Estado irlandês não tinha competência para prover aos cidadãos uma estrutura de serviços públicos de qualidade. Os orfanatos do país eram oriundos de uma parceria entre o Estado e a Igreja. O governo tinha interesse em tirar das ruas e das famílias desestruturadas as crianças e jovens, mas não tinha instituições públicas para onde mandá-los, aí entra o seu convênio com a Igreja, que, por sua vez, se interessava na formação da juventude. Vale frisar que os orfanatos não eram administrados por Sacerdotes, como foi difundido. Duas Congregações eram responsáveis pelos centros, uma masculina, de irmãos leigos – são os membros não-ordenados da Igreja, como eu e, provavelmente, você, seguindo os três votos - e outra feminina, as Irmãs da Misericórdia. O Estado irlandês, ainda em formação, recém saído de uma guerra, convivendo com um mundo de conflitos internacionais, não se interessava na manutenção de uma dispendiosa rede de bem-estar, ao contrário, preferia aprimorar a sua capacidade produtiva, através do desenvolvimento industrial e bélico, afinal sempre se matinha o perigo inglês rondando os mares irlandeses.
Um ponto a ser lembrado é que os orfanatos e reformatórios estavam quase sempre superlotados, todos viviam com a capacidade máxima de internos. O motivo se encontrava numa lei de 1941 que impedia que pais e mães solteiros mantivessem a guarda dos seus filhos. Ademais, a situação era mais complexa; nem mesmo quando em segundo casamento os pais poderiam requisitar a custódia dos seus filhos, a não ser que tivessem a autorização judicial do seu ex-cônjuge. Resultado, uma multidão de jovens era mandada para os orfanatos da Igreja.
As investigações dos casos de abusos – que não foram em grande parte sexuais, como divulgado, mas sim de agressão – se iniciaram em 2000. Até mesmo um comitê para a avaliação das possíveis indenizações foi formando, não obstante, por falta de provas concretas, os Christian Brothers não poderiam ser incriminados, até porque, juridicamente, o crime já havia expirado. A divulgação pública do caso – o que levou os CB a processarem o governo, conseguindo o sigilo dos nomes dos acusados – foi apenas motivada pelo simples desejo de difamação. Não sei se por conta de um peso na consciência, mas o Estado irlandês se responsabilizou por distribuir indenizações aos acusadores, já que através da justiça eles nada conseguiriam.
Muitas são as pessoas que reclamam da ação da Igreja na punição dos crimes dos seus membros, mas nesse caso nada poderia ser feito juridicamente, afinal os acusados são irmãos leigos, não-clérigos, ou seja, não existe, dentro do Direito Canônico, nenhuma pena para os delitos cometidos por leigos, e também não poderiam ser julgados como clérigos. Como disse Jorge Ferraz no seu blog, Deu lo Vult!: “nada disso justifica os maus procedimentos de sacerdotes do Deus Altíssimo ou de religiosos consagrados à via da perfeição. Nada justifica. Choremos aos pés da Virgem pelas iniqüidades dos sacerdotes do Seu Filho. Ofereçamos a Deus orações e mortificações em reparação pelos pecados do clero. Que Ele tenha misericórdia de nós todos, e digne-Se conceder-nos santos sacerdotes.”
2 comentários:
Sinto muito, foi de certa forma repugnante ler este artigo pela maneira como o narrador descreve as ocorrências, desculpando de certa forma o horror que está-se mostrando na Irlanda neste processo que envergonha este país. A igraja católca não será envegonhada, já que proibir sexo, exiegir castidade de homens normais é jogar estes homens no caminho do prazer escondido. Se ela tivesse que se envergonhar teria sido depois de revogar estes dogmas desumanos e ainda assim ver a pedodilia se alastrando dentro do clero. Abaixo as defesas dogmáticas e cegas, vamos encarar a realidade. Provar como se tudo ocorreu ao longo de 10 anos? Hoje muitas destas vítimas estão impossibilitadas de tesemunhar e as poucas que vão faze-lo sairão mais machucadas do que com a própria agressão sofrida. Pelo amor de Deus, grite contra a pedofila, seja ela onde for, é monstruosa.Pedofilia não !
Caríssima Alda,
Primeiramente, é importante lembrar, que o celibato não é dogma. Na verdade aqueles que tentam relacionar o celibato a uma idéia sombria medievalesca - e aqui me refiro ao mais imbecil sentido da Idade Média -, como se os dogmas fossem palavrões dentro da cartilha politicamente correta, erram feio. A castidade é apenas uma norma disciplinar da Igreja no Ocidente, exatamente, apenas no Oeste, já que os Sacerdotes católicos orientais podem se casar. Essa norma remete ao desenvolvimento primitivo da igreja ocidental, se encontra intimamente ligada à essência da espiritualidade tipicamente latina. Pois bem, pedófilos não estão interessados em homens e mulheres, mas sim em "comer criancinhas". Que eu saiba um Sacerdote não iria se casar com meninas de sete anos. Pedófilos são aberrações, sofrem de distúrbios, são sintomas de uma doença civilizacional. A explosão de escândalos, hoje em dia, é fruto da própria crise da Igreja, com a invasão de relativismo e o afrouxamento dos seminários. Nos EUA, inclusive, o movimento gay infiltrou agentes nos seminários católicos, difundindo uma cultura homossexual na própria Igreja. A pedofilia e as depravações sexuais dentro da Igreja não será combatidas com o relaxamento, ao contrário, foi esse enfraquecimento que possibilitou a ascensão de religiosos corrompidos. O remédio é resgatar a ortodoxia, a sobriedade etc.
Cara Alda, falar de dogmatismo e cegueira já é tão clichê!
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