Passei minha infância inteira como pagão. Meus pais haviam decidido não batizar nenhum dos seus filhos no Catolicismo, pois acreditavam não ser correto impor uma religião a qualquer pessoa que fosse. Em parte acho que isso ocorreu por influência do comunismo, que tanto meu pai quanto minha mãe apoiavam. Nessa época não era exatamente um ateísmo, mas um deísmo inocente – se assim podemos chamar – que vivia; que fazia aparecer de vez em quando um Deus comandante do mundo, mas que eu não fazia idéia de como descrever, nem sabia por que havia nos criado, ou criado o mundo e as demais coisas. Minha mãe foi criada no Catolicismo. Morava na cidade de Nazaré das Farinhas – na infância e começo da adolescência -, onde fazia parte do grupo de jovens da paróquia, participando do coral, dos grupos de evangelização; e quando vinha a Salvador passear ficava hospedada em um convento do qual não sei o nome. Por esse motivo tive algum conhecimento de quem era Nosso Senhor Jesus Cristo, a Santa Virgem Maria, e algumas figuras importantes do Cristianismo. Meu pai também foi chegou a freqüentar a Igreja Católica, mas me parece – não sei muito sobre essa época – que nunca foi muito assíduo, era um católico relaxado. Minha mãe se afastou do Catolicismo quando veio morar em Salvador, deixando a religião, mas como a maioria das pessoas continuando a crer num Deus Criador de todas as coisas, em alguns santos católicos, na Virgem Maria, etc. Não me lembro se tive contato com uma Igreja na minha infância: esforço-me para lembrar se quando pequeno, pelo menos até os 12 anos, entrei numa igreja. Acho que não. Minha avó, mãe da minha mãe, era uma mulher católica, que não perdia as missas de domingo. Ela morou em Nazaré das Farinhas quase a vida toda, mas depois se mudou para Salvador também. Mesmo morando num bairro afastado nunca perdia as Missas de Domingo. Ela praticamente atravessava a cidade para ir à Missa: não porque não houvesse igrejas próximas à sua casa, mas porque dava preferência a uma que era celebrada no Centro da cidade. Com o passar dos anos, quando a idade foi avançando ela deu para roubar imagens de santos das igrejas, mas acho que não chegou a se constituir um sacrilégio propriamente dito, visto que ela estava com a saúde mental um pouco abalada. Pouco tempo depois morreu.
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Minha infância foi de deísmo inocente até os oito anos, quando meus pais conheceram uma religião de doutrina espírita que surgiu na Amazônia. Quando passamos a freqüentar esta religião as coisas mudaram um pouco de figura: o deísmo se tornou mais elaborado, e tive um pouco mais de contato com o cristianismo, pois esta religião segue alguns preceitos bíblicos, mas não só. Meus pais começaram a nos explicar – tenho quatro irmãos – as doutrinas desta religião, dentre elas a doutrina da reencarnação, da Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas ao mesmo tempo aceitando à doutrinas advindas de diversas outras crenças, como budismo, hinduísmo, teosofia, etc. Era uma espécie de: “todas as religiões estão certas, e o deus de todas elas é o mesmo”.
Participei desta crença por cerca de sete anos. Foi nesta época que minha avó, mãe de minha mãe, morreu. Em 2001, 2002, já não sei exatamente. Foi um momento de muita dor para mim e para toda a família. Contava treze ou catorze anos; creio que estava na aula quando soube. Ela esteve hospitalizada por um tempo, devido a uma espécie de derrame – achei que não seria nada demais, mas a situação dela piorou bruscamente e pouco tempo depois morreu. Tive uma sensação bem esquisita quando me contaram: um misto de incredulidade e medo, um medo tremendo. Uma mistura que nos faz sorrir sem saber por que, e logo depois apagar o sorriso, meio sem graça por tê-lo colocado no rosto - foi a primeira vez que senti isso: não sabia como me comportar. Não sabia se ficava sério, se demonstrava tristeza, ou se, como alguns adultos me recomendaram na época, tentava ficar o mais natural possível, pois segundo eles era algo comum e que deveríamos encarar com tranquilidade. Bom, foi um misto de tudo isso. Quando saí da aula e voltei pra casa fiquei bem sério, pensando na morte. Pensando onde estaria minha avó, o que acontecia quando alguém morria, se era certo cremar um corpo ou não (acho que minha tia tinha pensado na idéia, ou talvez eu mesmo tenha pensado). Depois quando soube que tinha que ir ao enterro – não imaginava que ia ter que estar lá -, a vontade de rir voltou, com toda força. Fiquei imaginando como seria, pois nunca havia ido a um enterro; achei que seria uma coisa bem soturna, num lugar escuro, do cheiro esquisito... Fiquei pensando em tudo isso enquanto aguardava as ordens de minha mãe para me arrumar.
Participei desta crença por cerca de sete anos. Foi nesta época que minha avó, mãe de minha mãe, morreu. Em 2001, 2002, já não sei exatamente. Foi um momento de muita dor para mim e para toda a família. Contava treze ou catorze anos; creio que estava na aula quando soube. Ela esteve hospitalizada por um tempo, devido a uma espécie de derrame – achei que não seria nada demais, mas a situação dela piorou bruscamente e pouco tempo depois morreu. Tive uma sensação bem esquisita quando me contaram: um misto de incredulidade e medo, um medo tremendo. Uma mistura que nos faz sorrir sem saber por que, e logo depois apagar o sorriso, meio sem graça por tê-lo colocado no rosto - foi a primeira vez que senti isso: não sabia como me comportar. Não sabia se ficava sério, se demonstrava tristeza, ou se, como alguns adultos me recomendaram na época, tentava ficar o mais natural possível, pois segundo eles era algo comum e que deveríamos encarar com tranquilidade. Bom, foi um misto de tudo isso. Quando saí da aula e voltei pra casa fiquei bem sério, pensando na morte. Pensando onde estaria minha avó, o que acontecia quando alguém morria, se era certo cremar um corpo ou não (acho que minha tia tinha pensado na idéia, ou talvez eu mesmo tenha pensado). Depois quando soube que tinha que ir ao enterro – não imaginava que ia ter que estar lá -, a vontade de rir voltou, com toda força. Fiquei imaginando como seria, pois nunca havia ido a um enterro; achei que seria uma coisa bem soturna, num lugar escuro, do cheiro esquisito... Fiquei pensando em tudo isso enquanto aguardava as ordens de minha mãe para me arrumar.
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O enterro foi no período da tarde. Quando chegamos lá havia poucas pessoas na sala do velório, no próprio cemitério (do Campo Santo). As idéias anteriores foram se adequando à realidade: vi que não era nada daquilo que pensava. Era um lugar silencioso, bem iluminado, tranqüilo e muito bonito, cheio de estátuas e imagens. Ficamos um tempo, só eu, minha família e poucos parentes. No começo agi “naturalmente” – como haviam me ensinado -, tentando levar aquilo como algo comum, sem demonstrar muita tristeza, bem sério. Mas, depois de um tempo, movido por um impulso de ver mais uma vez a minha avó decidi ir ao caixão, olhar o seu rosto. Me deparei com o seu rosto sereno, de olhos fechados, com as mãos cruzadas, e o corpo coberto de flores. Senti um estremecimento terrível e me afastei; sentei num dos bancos dentro da sala, e lá fiquei por um longo período, me sentindo com um pé no mundo e outro fora dele – onde exatamente, não sabia -, quando entrou o padre e começou uma cerimônia. Eu não fazia idéia do que era, mas imaginava que fosse algo para rezar pela alma da pessoa morta, para que ela pudesse ir para o céu. Foram rezadas muitas orações – eu não sabia nenhuma delas -, o Pai Nosso foi repetido várias vezes, mas eu não sabia rezá-lo. Nem imaginava que era a oração ensinada por Nosso Senhor Jesus Cristo! Fiquei bastante constrangido por não saber de nada que acontecia lá, e por não saber fazer uma oração. Até aí não havia caído uma lágrima de meus olhos: existiam tantas emoções se confundindo que não havia sequer tempo suficiente para entender cada uma delas. Só quando o caixão foi levado ao túmulo que a “ficha começou a cair”: minha avó estava indo embora deste mundo, nunca mais a veria aqui; só ficaria a lembrança, misturada a tantas outras lembranças que carregamos na vida... foi um peso monstruoso que senti. Minha avó, que me chamava de “passarinho” quando ia à minha casa. Que carregava um cesto na cabeça com biscoito, mortadela, frutas, para levar à nossa casa, dizendo: “meus netos não vão passar fome não” (não lembro se na época passávamos por uma situação financeira difícil ou se era só mania de avó de achar que os netos estão mal alimentados). Ela não estaria mais aqui, entre nós. Que terrível! Ela, que fazia uma verdadeira festa quando os quatro netos iam visitá-la: ela tinha uma dessas barraquinhas azuis “tipo lanchonete” em frente à casa. Quando íamos lá ela comprova vários pacotes de bala, pirulitos, doces variados e colocava em potes e nos dava, para arrumarmos na barraquinha e ficar vendendo. O nosso próprio negócio! Era bem especial. Na casa tinha um quintal bem grande (para meus olhos de criança) com um pé de acerola enorme; às vezes passávamos horas arrancando acerolas: meus irmãos para comer, e eu mais pelo prazer de participar – sempre achei acerola bem azeda, ruim mesmo. No fundo da casa tinha outra área aberta, onde minha avó criava galinhas. Lembro que tinha medo delas, assim como tinha medo dos cachorros... Era nessa casa que tinha um contato um pouco mais próximo com o Catolicismo, mesmo sem o saber. Minha avó tinha imagens de santos, mas não era exatamente isso que fazia do lugar um lugar cristão. Era outra coisa, que na verdade até hoje não sei explicar muito bem. Tentarei aqui, mas tenho plena certeza de que não vou muito longe; e não vou por que se trata de um mistério, algo que por mais que expliquemos vai ficar sem explicação em algum ponto. Era como se alguma coisa fizesse a casa cheirar diferente – ainda consigo reconhecê-lo -, deixando um clima agradável, com uma paz única. Não sabia exatamente o que era isso, mas hoje tenho plena certeza que era o amor Cristão guardando a casa.
Minha avó foi para mim o primeiro contato com o Catolicismo, com a fé, mesmo que eu só viesse a perceber isso depois de sua morte. Primeiro com a sua presença, com a sua pessoa – em corpo e alma; e depois com a sua ausência, quando sua alma deixou este mundo: quando vi a cerimônia no seu velório, pois foi quando vi pela primeira vez uma celebração católica.
Minha avó foi para mim o primeiro contato com o Catolicismo, com a fé, mesmo que eu só viesse a perceber isso depois de sua morte. Primeiro com a sua presença, com a sua pessoa – em corpo e alma; e depois com a sua ausência, quando sua alma deixou este mundo: quando vi a cerimônia no seu velório, pois foi quando vi pela primeira vez uma celebração católica.
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Algum tempo depois da morte de minha avó, estava passeando com minha mãe e um de meus irmãos pelo centro de Salvador (nós morávamos em Lauro de Freitas, uma cidade da região metropolitana de Salvador), quando de repente senti uma vontade, e disse a minha mãe: “Quero um terço!”. Minha mãe me olhou meio espantada e perguntou: “Pra que você quer um terço?”, e eu simplesmente respondi: “Pra rezar.”. Depois dessa resposta ela riu e não perguntou mais nada; disse que poderíamos comprar nas Paulinas – uma loja católica. Quando chegamos lá escolhi um terço de madeira bem bonito e a moça que estava nos atendendo recomendou que comprássemos também um guia de orações. Compramos. Ao voltarmos pra casa fui tentar rezar: peguei meu terço, meu guia de orações e li uma oração que havia lá. Li a mesma oração algumas vezes e depois fui dormir. Fiz isso por alguns dias, mas depois me senti desestimulado a fazer de novo: não tinha ligação alguma com a Igreja Católica, nunca havia ido a uma missa (só na cerimônia que ocorreu no velório – que não foi uma missa), não entendia nada daquilo tudo. Simplesmente me pareceu que não tinha sentido algum, e ninguém em minha família falou nada, nem quando comecei e nem quando parei – era algo indiferente a eles. Lembro bem que após rezar me sentia bem, aliviado, mas não sabia porque, e logo isso parou de acontecer. Nas últimas vezes que fiz essas orações já não me sentia bem, mas me forçando a fazê-las por que achava que já que tinha começado devia continuar. Mas pouco tempo depois parei sem me dá conta.
A igreja, a loja, o pedido
Olhando para este fato agora, percebo que o pedido não foi tão repentino assim: foi bem perto da morte de minha avó. É provável que a proximidade de sua morte tenha me deixado mais perto da fé sem que na época me desse conta disso. Lembro mais: a loja ficava bem perto da igreja em que ela ia assistir missa todos os domingos do ano; e foi perto bem dessa igreja que fiz o pedido. Descobri isso há cerca de dois meses, quando encontrei minha tia na praça onde fica essa igreja, e ela me contou. Na hora em que ela contava não liguei o pedido à igreja e à loja. Só agora percebo a ligação de todos esses pontos, e estou aqui rindo. Que alegria sinto em perceber que todos estes fatos estão ligados à figura de minha querida avó: a igreja, a loja, o pedido.
Conclusão da Parte I
Assim termina a primeira parte deste relato: estava com catorze anos, participando da crença espírita junto com minha família, pensando na morte de minha querida avó, procurando minha fé, procurando Deus.
Tinha chegado à porta da Igreja, mas no momento de entrar desisti.
Continua...
A igreja, a loja, o pedido
Olhando para este fato agora, percebo que o pedido não foi tão repentino assim: foi bem perto da morte de minha avó. É provável que a proximidade de sua morte tenha me deixado mais perto da fé sem que na época me desse conta disso. Lembro mais: a loja ficava bem perto da igreja em que ela ia assistir missa todos os domingos do ano; e foi perto bem dessa igreja que fiz o pedido. Descobri isso há cerca de dois meses, quando encontrei minha tia na praça onde fica essa igreja, e ela me contou. Na hora em que ela contava não liguei o pedido à igreja e à loja. Só agora percebo a ligação de todos esses pontos, e estou aqui rindo. Que alegria sinto em perceber que todos estes fatos estão ligados à figura de minha querida avó: a igreja, a loja, o pedido.
Conclusão da Parte I
Assim termina a primeira parte deste relato: estava com catorze anos, participando da crença espírita junto com minha família, pensando na morte de minha querida avó, procurando minha fé, procurando Deus.
Tinha chegado à porta da Igreja, mas no momento de entrar desisti.
Continua...
2 comentários:
Espetacular!!!!
Estou muito ansioso para ler a continuação! Se por um lado os católicos entendem tudo aquilo que você fala sobre o "cheiro cristão", o tocar das orações etc, creio que os ateus, deístas etc, se identificam com a existência da uma vida sem a presença marcante de Deus!
Fico feliz, ainda mais ao começar a ler essa relato, em saber que, futuramente, será não só meu amigo mas também meu irmão!
PAX DOMINI
Muito interesante seu texto, Vladimir! Achei que ficou muito bem isso de escrevermos relatos, pois muitos dos que lêem esse blog somos nós e nossoa amigos. Também estou aguardando a segunda parte.
Abraços!
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