sábado, 13 de dezembro de 2008

Marcadas diferenças entre o Ocidente e Oriente cristão

Salvo a pregação naqueles meios onde se ignorava a língua grega, como ocorria com São Irineu quando evangelizava os celtas, não se percebe nenhuma discrepância substancial entre as igrejas do Oriente e Ocidente. É preciso que chegue o séc. II para que as coisas comecem a mudar. Todavia a mudança só teve lugar no Ocidente, pois o Oriente continuou sendo o que antes já havia sido, tão aficcionado aos problemas metafísicos e cosmológicos da Trindade, da criação do mundo e da encarnação do Logos. Os ocidentais começaram a colocar de lado a língua grega e preocupar-se com os problemas psicológicos e morais concernentes a personalidade humana, sem descuidar por isso da metafísica e sem deixar que ambas as mentalidades se influenciassem. Predomina o espírito especificamente romano, um sentimento sóbrio e prático, encaminhado a um fim necessário e proveitoso, e a literatura latina se presta a isso com uma riqueza e flexibilidade maravilhosas.

Para se convencer disso, é suficiente olhar as idéias de Tertuliano, que faz ressoar os acentos mais originais da nova psicologia cristã em antítese ao pensamento grego. Para afirmar a existência de Deus invoca o testemunho da alma, juntamente com a Escritura; " Para que tu possas crer em Deus e na natureza, crê na alma e crerás também em ti mesmo. A alma é tudo para ti, não só como testemunho mas também como partícipe; tu podes aprecia-la pelo que ela faz de ti, e ainda no erro, tu a encontrarás como reu e como testemunha; reu do erro enquanto és ao mesmo tempo testemunho da verdade".

O abandono progressivo da língua grega e o impulso irresistível dos ocidentais em expressar em latim e ao modo latino as idéias teológicas, impulsiona a literatura latina cristã, talvez com o Papa Victor I, mas certamente com Tertuliano de maneira mais explosiva. (...) A separação ocorre principalmente no séc. IV, e seguirá se expandindo cada vez mais; primeiro a causa de Constantino, que estabeleceu a capital do Império em Bizâncio; depois, pela perda e abandono das possessões bizantinas na Itália posterior a queda do Império do Ocidente; mais adiante pela questão do culto das imagens, o que finalmente gerou a separação definitiva de todo vínculo pelo cisma do Oriente, que ainda perdura.

Retirado do livro "Historia de la Literatura Patristica" de Luis M. de Cadiz (Pe. Antonio Ulquiano-Murga)

Tradução: Pedro Ravazzano

3 comentários:

R. B. Canônico disse...

Olá, Pedro!

Em resumo, é uma questão cultural.

Vejo isso com grande naturalidade: essa diversidade lícita e natural é muito saudavel na vida da Igreja.

Pena que nem todos vejam assim!

Vladimir Lachance disse...

Mas o que significam essas diferenças? Existem problemas, ou são diferenças positivas? Eu queria entender melhor isso...

R. B. Canônico disse...

São positivas, Vladimir.

E preciso ter em vista que, apesar de o processo de 'helenização da fé' no sec I tenha sido fundamental para o avanço do cristianismo, cf. Bento XVI, não significa que qualquer outra influencia seja negativa. Pelo contrario. Eusou fiel da Igreja LAtina - e quase todo mundo no mundo é - e isso é ótimo. No Oriente cristão, há algumas peculiaridades e é ótimo wque seja aassim.

A Igreja não é, em sua essência, romana, grega ou russa. Ela é Universa, e, portanto, é natural que avance sobre todas as culturas de forma positiva.